20 de outubro de 2014

A RECEITA DE SANTO AGOSTINHO


É raro, no meio espírita, comentar-se sobre autoconhecimento sem fazer referência ao pensamento de Santo Agostinho, exposto na questão 919 de O Livro dos Espíritos. Nela o tema foi tratado diretamente em preciosos quatro parágrafos, encerrando uma receita.

O conhecimento espírita desperta um anseio pelo progresso que nos faz pedir que nos apontem caminhos. O Codificador pediu aos espíritos superiores a fórmula da melhoria pessoal, e não pediu para as próximas encarnações, pediu para esta vida e ousou mais: tinha que ser prática e eficaz.

Respondeu-lhe o Espírito Santo Agostinho, dizendo: “UM SÁBIO DA ANTIGUIDADE VOS DISSE: CONHECE-TE A TI MESMO”.

Referia-se a Sócrates e apontou a necessidade de focarmos os interesses na busca por e em nós mesmos. Ouve-se muito: “Conheço fulano como a palma da minha mão, ele não me engana.” Ou seja, conheço o outro, conheço para fora, mas quando perguntam “Quem é você?”, dizemos um nome que nem ao menos foi de nossa livre escolha e completamos informando profissão, estado civil e endereço. Pronto, qualquer um nos encontra o que não significa um encontro pessoal.

O Codificador retruca reconhecendo a sabedoria da resposta, mas alegando dificuldades para se atingir o conhecimento interior e insiste no pedido de uma receita. Disse Jesus: “Pedi e obtereis.” Ele obteve a fórmula e a legou àqueles que em si descobrem esse anseio.

Ensinou o interrogado: “Fazei o que eu fazia de minha vida sobre a Terra: ao fim da jornada, eu interrogava minha consciência, passava em revista o que fizera, e me perguntava se não faltara algum dever, se ninguém tinha nada a lamentar de mim.”.

Estava dada a receita da espiritualidade prática e eficaz para melhorar já nesta vida: conhecer a si mesmo examinando a consciência.

Mas como se faz um exame de consciência? Será que basta rememorar os acontecimentos do dia e verificar como nos comportamos, se fomos gentis, cordiais, caridosos, se cumprimos nossos deveres profissionais, familiares, se fizemos prece etc.? Talvez temeroso de que caíssemos nesta simplificação, ele especificou que o modo de fazer é realizar um interrogatório preciso e diário a si mesmo sob o amparo de Deus e do anjo guardião. Ele sugeriu que colocássemos para nossa reflexão ao menos cinco questões, a saber:

 

1) “PERGUNTAI-VOS O QUE FIZESTE E COM QUAL OBJETIVO AGISTES EM TAL CIRCUNSTÂNCIA”.

A primeira parte da questão é tranquila, basta recordar as atitudes do dia. A segunda aprofunda- se pedindo para identificarmos os objetivos de nossas ações, os interesses e propósitos que as motivaram, os quais podem estar escondidos muito fundo, num canto sombrio do nosso ser, e ainda se apresentarem mascarados.

 

2) “SE FIZESTE ALGUMA COISA QUE CENSURAIS EM OUTREM”.

A nossa capacidade de olhar para fora é bem desenvolvida, então vamos aproveitar e conhecer o que estamos projetando. É sempre fácil apontar erros, condenar e exigir dos outros esquecendo que só conseguimos reconhecer aquilo que também possuímos. Esse é um procedimento importante da receita que se repetirá.

 

3) “SE FIZESTE ALGUMA COISA QUE NÃO OUSARÍEIS CONFESSAR”.

Um questionamento ético em relação à minha conduta com o próximo e também pessoal, na medida em que devemos responder se tudo o que pensei, senti e fiz pode ficar exposto à luz? Ou falta coragem para assumir opiniões, atitudes, vontades, o “eu” e as motivações reais e profundas das minhas ações, que somente eu e Deus podemos saber quais são.

 

4) “SE APROUVESSE A DEUS ME CHAMAR NESTE MOMENTO (EM QUE ESTOU LENDO ESTA PÁGINA), REENTRANDO NO MUNDO DOS ESPÍRITOS, ONDE NADA É OCULTO, EU TERIA O QUE TEMER DIANTE DE ALGUÉM?”.

Queremos distância da morte. Não é agradável pensar nela ou falar sobre ela. Aceitá-la não é fácil, trabalhar as perdas é um processo doloroso e delicado. Imagine pensar na própria morte, diariamente. Frente a cada decisão, refletir como ficaria a situação se morrêssemos naquele momento. Brigamos com um filho, ou com o marido, ou com um amigo, ficamos magoados, com raiva e morremos num ataque fulminante do coração. Que situação! Essa questão nos põe em xeque com um mundo onde as máscaras não enganam senão quem as usa. Se pensarmos sob esse enfoque, mudaremos muitas atitudes.

 

5) “EXAMINAI O QUE PODEIS TER FEITO CONTRA DEUS, CONTRA VOSSO PRÓXIMO, E ENFIM, CONTRA VÓS MESMOS”.

Discutimos muito as nossas relações amorosas, profissionais e familiares, mais ou menos nessa ordem de prioridade. Mas a relação com Deus vai entre tapas e beijos e não paramos para discuti-Ia. Começa que Dele nem sempre fazemos um juízo claro, a nossa resposta pessoal é em geral vaga ou politicamente correta. Confundimos repetição mecânica de palavras com falar com Ele. Nós o bendizemos quando a vida corre como desejamos, mas é sobre Ele que lançamos nossas incompreensões e ingratidões quando as coisas não são como queríamos. Por fim, Ele é o cangaceiro das nossas vinganças, cada vez que vencidos pela ira desejamos o mal ao próximo e não o realizamos com as próprias mãos. Mas, ironicamente, embora O contratemos para nossas desforras, ainda O tememos. E uma relação complicada: nós a vivemos com uma grande dose de irreflexão misturada ao medo, à ira, à ingratidão. Temos um comportamento mimado e não apto ao diálogo.

Desta tríade, a relação com o outro é a mais debatida, só que em geral sob a ótica de vítima: “O que eles fizeram comigo”. O convite é para largarmos essa postura e assumirmos nossas responsabilidades.

A relação conosco é outra e apenas em circunstâncias limites começamos a discutir. Falamos muito sobre reencarnação, obsessão, lei de amor, depressão, sentimentos mal resolvidos, doenças, mas pouco nos perguntamos: “Por que sou e estou assim?” Como lido com as alegrias e as tristezas?”, “Cuido bem de mim, como corpo e alma?”

O autor da receita mostra conhecimento e compreensão da alma humana antecipando-se ao propor: “Mas, direis, corno se julgar? Não se tem a ilusão do amor próprio que ameniza as faltas e as desculpas?”.

Ilusões e justificativas podem comprometer o resultado e para evitar que algo saía errado na execução da receita, ele deixou também os segredinhos.

 

PARA EVITAR AUTOENGANOS, FAÇAMOS O SEGUINTE:

1) “Quando estiverdes indecisos sobre o valor de uma de vossas ações, perguntai-vos como a qualificaríeis se fosse feita por outra pessoa; se a censurais em outrem, ela não pode ser mais legítima em vós, porque Deus não tem duas medidas para a justiça.”.

 

2) “Não negligencieis a opinião dos vossos inimigos, porque estes não têm nenhum interesse em dissimular a verdade e, frequentemente, Deus os coloca ao vosso lado como um espelho para vos advertir com mais franqueza que o faria um amigo.” É o verdadeiro “te enxerga”. É uma proposta valiosa para reformularmos comportamento sobre críticas e inimizades, vendo nelas auxiliares divinos para nosso crescimento. Assim, esvazia-se a raiva e a indignação. A humildade é o caminho que acaba com a falsa superioridade que nos faz preferir ignorar as críticas e inimizades a aprender com elas.

 

3) “Aquele que tem vontade séria de se melhorar explore, pois, sua consciência, a fim de arrancar dela as más tendências.”.

O produto da fórmula ê uma visão clara de quem somos e do que precisamos reformar.

A promessa final é excelente, nada menos que uma felicidade eterna.

Vale a pena conferir.

 

Fonte: Revista Literária Espírita Delfos. Catanduva, SP: BOA NOVA.

Ano V. Ed. 03. Nº 21. 2005. p. 10-13

19 de março de 2014

AS LEIS MORAIS


 A LEI DIVINA OU NATURAL

Do ponto de vista científico, uma lei é uma regra que descreve um fenômeno que ocorre com certa regularidade, não tendo o poder de determinar que um fato qualquer deva ou não ocorrer.

Ela apenas verifica a sua ocorrência, analisando as causas e os efeitos relacionados com o evento. Ainda do ponto de vista científico, uma lei natural é um enunciado de uma verdade científica, assim compreendida no âmbito de um paradigma científico. Deve ter certas características de generalidade e abrangência, a fim de poder ter um aspecto prático. Por outro lado, deve também ser falseável, no sentido em que possa ser refutada, tanto lógica como experimentalmente. Caso contrário, poderia ser enquadrada como religião, filosofia, arte ou qualquer outra atividade do gênero humano, mas nunca como ciência.

Filosoficamente falando, no entanto, a lei natural é a que o homem conhece pela luz natural de sua razão, enquanto implícita na natureza das coisas. É uma participação da lei eterna na criatura racional, uma impressão em nós da luz divina, pela qual podemos discernir o bem e o mal. Para ser considerada como lei natural, deve trazer características de imutabilidade, tanto intrinsecamente como extrinsecamente falando. Assim, a lei natural é imutável em si mesma, e seus princípios não podem desaparecer da consciência, embora possa ser admitida a possibilidade e a realidade de certo progresso do direito natural, no sentido de que, pelo avanço da civilização, pelo desenvolvimento e extensão do saber, possa ser produzido pouco a pouco um aperfeiçoamento das exigências da lei natural. De forma semelhante, a lei natural é também imutável extrinsecamente, no sentido de que é ilícito tanto ab-rogá-la, transgredi-la, mesmo parcialmente, ou dispensá-la, tanto quanto é impossível à criatura humana renunciar, no todo, ou em parte, à sua natureza.

Em "O LIVRO DOS ESPÍRITOS", na questão 614, está definido que a lei natural

é a lei de Deus. Única verdadeira para a felicidade do homem, porque lhe dá a indicação do que deve fazer ou deixar de fazer para ser feliz. A Lei Natural está escrita, portanto, na consciência do homem, facultando-lhe discernir entre o bem e o mal. Na questão 647, está dito que a lei de Deus encerra todos os deveres dos homens uns para com os outros. Observe-se, entretanto, que a Lei Natural não envolve só a relação entre os homens, mas uma consciência ética mais abrangente, incluindo tudo que existe em a Natureza. A Lei de Justiça, Amor e Caridade trazida por Jesus Cristo está contida nela e serve como uma precisa regra de conduta. O homem deve, no entanto, ampliar sua percepção para a necessidade de assegurar harmonia, não só nas relações com seus semelhantes, mas também com todas as criaturas da Natureza.

 

A MORAL SEGUNDO O ESPIRITISMO

Na questão 629 de "O LIVRO DOS ESPÍRITOS" encontramos a definição de moral como sendo a regra de bem proceder, isto é, de distinguir o bem do mal.

Funda-se na observância da lei de Deus, fazendo com que o homem só proceda bem quando tudo faz pelo bem de todos, porque então cumpre a lei de Deus. O bem é, portanto, tudo o que está conforme a lei de Deus; e o mal, tudo o que lhe é contrário. Assim, fazer o bem é proceder de acordo com a lei de Deus. Fazer o mal é infringi-la.

 

AS LEIS MORAIS COMO DIVISÃO DA LEI NATURAL

De acordo com a questão 648 de "O LIVRO DOS ESPÍRITOS”, a divisão da lei natural em dez partes, compreendendo as leis de adoração, trabalho, reprodução, conservação, destruição, sociedade, progresso, igualdade, liberdade e, por fim, a de justiça, amor e caridade foi feita por Moisés e tem o propósito de abranger todas as circunstâncias essenciais da vida. Essa divisão nada tem de absoluto, como não o tem nenhum dos outros sistemas de classificação, uma vez que todos dependem do prisma pelo qual se considere o que quer que seja. Dentre essas partes, a Lei de Justiça, Amor e Caridade é a mais importante, por ser a que faculta ao homem adiantar-se mais na vida espiritual, visto que resume todas as outras.

 

A LEI DE JUSTIÇA, AMOR E CARIDADE.

“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma, e todo o teu espírito; este é o maior e o primeiro mandamento. Amarás o teu próximo, como a ti mesmo. Toda a lei e os profetam se acham contidos nesses dois mandamentos” (Mateus 22: 37 a 40)

 

JUSTIÇA

De acordo com a questão 875 de "O LIVRO DOS ESPÍRITOS”, a justiça consiste em cada um respeitar os direitos dos demais.

Esses direitos podem ser naturais ou adquiridos com base nas leis humanas.

Os direitos naturais são imutáveis e iguais para todos, independendo de época ou de cultura. São estabelecidos pela Lei Natural e escritos na consciência humana. Entre outros, estão nesta categoria: o direito à vida, o direito ao meio ambiente saudável, o direito à liberdade, o direito ao trabalho e à legítima propriedade como fruto desse trabalho. Na medida em que o homem desenvolve uma consciência ética, os códigos de direitos humanos tendem a se aproximar do direito natural. Na questão 876 está estabelecida a regra da efetiva justiça pelas palavras do Cristo: “Queira um para o outro o que quereria para si mesmo. No coração do homem, imprimiu Deus a regra da verdadeira justiça, fazendo que cada um deseje ver respeitado seus direitos...). O direito pessoal é, pois, baseado no direito do próximo. O limite do direito de cada um é aquele que ele reconhece ao seu semelhante, em idênticas circunstâncias e reciprocamente (questão 878).

O do verdadeiro justo, a exemplo de Jesus, é aquele que pratica a justiça em toda sua pureza, porquanto pratica também o amor ao próximo e a caridade, sem os quais não há verdadeira justiça.

 

AMOR

São Vicente de Paulo, respondendo à questão 888 de "O LIVRO DOS ESPÍRITOS orienta: “... Amai-vos uns aos outros, eis toda a lei, lei divina, mediante a qual governa Deus os mundos. O amor é a lei de atração para os seres vivos e organizados. A atração é a lei de amor para matéria inorgânica”

O amor, de acordo com a Lei de Deus deve ser incondicional, abrangente, para com todas as criaturas de Deus, incluindo os inimigos. O sentimento do amor incondicional implica misericórdia, perdão, indulgência, e a retribuição do mal com o bem.

 

CARIDADE

De acordo com o Pequeno Dicionário, de Aurélio Buarque de Holanda, caridade é o sentimento que nos leva a poupar alguém a quem deveríamos ou poderíamos castigar, punir; o mesmo que complacência, benevolência, condescendência.

No verdadeiro sentido, como entendia Jesus, significa benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas. (questão 886 de "O LIVRO DOS ESPÍRITOS”).

A caridade envolve as ações destinadas a prover recursos materiais àquele que necessita (caridade material), mas, sobretudo, qualquer ação destinada a proporcionar o bem-estar daqueles que necessitam (caridade moral). A caridade é a manifestação do amor, isto é, é o amor em ação.

Enquanto o amor é um sentimento que predispõe ao bem, a caridade é a ação que consubstancia este bem. O amor e a caridade são, pois, o complemento da lei de justiça, pois amar o próximo é fazer-lhe todo o bem que nos seja possível e que desejáramos nos fosse feito. Tal o sentido destas palavras de Jesus: Amai-vos uns aos outros como irmãos. (questão 886 de “O LIVRO DOS ESPÍRITOS”.).

São Vicente de Paulo, respondendo à questão 888 de "O LIVRO DOS ESPÍRITOS", orienta: “A verdadeira caridade é sempre bondosa e benévola; esta tanto no ato, como na maneira por que é praticado... Lembrai-vos também de que, os olhos de Deus, a ostentação tira o mérito ao benefício. Disse Jesus: Ignore a vossa mão esquerda o que a direita der”. Por essa forma, ele vos ensinou a não tisnardes a caridade com o orgulho (...)”

Existe uma dinâmica na relação entre justiça, amor e caridade. A justiça pode ser considerada um valor natural que Deus infunde na consciência humana. O amor pode ser visto como um sentimento que predispõe o homem a querer o bem de seu semelhante, e a caridade pode ser vista como um comportamento que se manifesta pela ação de fazer o bem a seus semelhantes. Assim, caridade implica amor, amor implica justiça, justiça implica caridade e vice-versa. Essa é a dinâmica da Lei.

27 de setembro de 2013

BEZERRA DE MENEZES ANTE ROUSTAING


 A 29 de agosto transcorre o aniversário natalício desse espírito de escol que, em sua última reencarnação, recebeu o nome de Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti.

Sobre sua vida e sua obra existem muitas publicações, entre as quais citamos: Vida e Obra de Bezerra de Menezes, de Sylvio Brito Soares, editada pela FEB; Bezerra de Menezes – Subsídios para a História do Espiritismo no Brasil até o Ano de 1895, de Canuto Abreu, edição FEESP; Bezerra de Menezes, o Médico dos Pobres, de F. Acquarone, pela Editora Aliança; o capítulo específico na obra Grandes Espíritas do Brasil, de Zêus Wantuil, editada pela FEB. E número sem fim de artigos em jornais e revistas nacionais e estrangeiros, sendo de destacar-se o muito que tem sido inserido em Reformador, órgão que Bezerra de Menezes secretariou e, posteriormente, dirigiu.

Cremos que a maneira mais adequada de se reverenciar (reverenciar: respeitar, honrar) uma criatura seja a da preservação dos fatos ligados à sua vida. Assim pensando, aqui estamos, trazendo a nossa colaboração a respeito da figura ímpar de Bezerra de Menezes e suas convicções religiosas, sem esquecer o ensinamento de Emmanuel, na página "Pelo Evangelho":

"Fora ridículo proibir-se a elucidação. O que será de evitar-se, zelosamente, é a azedia da polêmica."1

No princípio do século a FEB editou, em três volumes, uma coletânea de artigos de Max, pseudônimo jornalístico de Bezerra de Menezes, publicados em O País, com o título de "Espiritismo-Estudos Filosóficos".

Na década passada a Edicel iniciou a republicação das obras de Bezerra de Menezes.2 No terceiro volume da coleção consta uma homenagem pela passagem do sesquicentenário do "Kardec Brasileiro".

Nessa homenagem, porém, encontramos, nos dois primeiros parágrafos da página 19, afirmativas quanto às convicções religiosas do homenageado que, data vênia, não expressam a realidade dos fatos.

Vejamos esses parágrafos:

"Com sua característica de humildade e respeito ao trabalho e esforço, mesmo dos que discordavam de suas convicções, Bezerra chegou a publicar referências elogiosas a Roustaing, na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, em 22 de abril de 1897, assinando-as com o pseudônimo de Max. É o que informa Antônio Luiz Sayão no seu livro Elucidações Evangélicas à Luz da Doutrina Espirita, editado por Besnard Frères, na Capital Federal, em 1902. Quando, no entanto, dúvidas foram levantadas a respeito da posição de Bezerra quanto às teses roustanguistas em choque com a Doutrina Espirita ou que permitiam interpretação equívoca dos seus conceitos, ainda em vida física ele reafirmava a defesa intransigente dos princípios kardecistas. (...)"3

É aforismo antigo: contra fatos não há argumentos. Passemos, pois, aos fatos.

Preliminarmente, transcrevemos, na íntegra, as "referências elogiosas a Roustaing feitas por Bezerra na Gazeta de Notícias de 6 (seis) de abril de 1897:4

"Na "Gazeta de Notícias" de 22 do corrente mês5 lemos o seguinte:

"Meu caro Max. – A nossa incipiência tem encontrado sempre conforto na vossa palavra inspirada e respeitada mesmo pelos ortodoxos da fé; desde, pois, que assumistes uma tal autoridade, a vossa opinião, sem que a embarace a vossa reconhecida modéstia, é segura orientação para os que entretêm Grupos Espíritas; e, nestas circunstâncias, relevareis que vos peçamos um conselho: podemos tomar os dois livros publicados pelo Dr. Sayão como normas a seguir no nosso Grupo? – Um discípulo."

Bem se vê que o consultante é realmente um incipiente, pois que eleva nossa individualidade a umas alturas que estamos muito longe de atingir; entretanto, por corresponder à sua confiança, dir-lhe-emos, com toda a lealdade e sinceridade, o que pensamos sobre os livros do Dr. Sayão.

O espiritismo não é, como julgam os padres ser, a revelação messiânica, a última palavra sobre as verdades que Deus, em seu amor pela Humanidade, fez baixar do céu á Terra.

Enquanto o homem não chegar ao último grau da perfeição intelectual de penetrar todas as leis da criação, a revelação não chegará a seu termo, pcis çue ela é progressivamente mais ampla, na medida do desenvolvimento da faculdade compreensiva do homem.

O espiritismo, pois, tendo dado mais do que as anteriores revelações, muito terá ainda que dar, porque muito terá ainda que progredir a Humanidade terrestre.

Allan Kardec, espírito preposto por Jesus para reunir, em um corpo de doutrinas, ensinos confiados, pelo mesmo Jesus, ao Espírito da Verdade, constituído por uma legião de Altíssimos Espíritos, só apanhou o que estes deram – e estes só deram o que era compatível com a compreensão atual do homem terreal.

Mas o homem, como já foi dito, não cessa de desenvolver a sua faculdade compreensiva e, pois, os principais fundamentos da revelação espírita, compreendidos nas obras fundamentais de Allan Kardec, tendem constantemente a se alargar e extensão e compreensão, como ele mesmo veio alargar os princípios fundamentais do ensino ou revelação messiânica – e que como este veio alargar os da revelação moisaica.

A Allan Kardec sobrevivem outros missionários da verdade eterna, que, sem destruir a obra feita, porque esta é firmada na lei e a lei é imutável, darão mais luz, para mais largo conhecimento das faces mais obscuras daquela verdade.

Eis aí que já apareceu Roustaing, o mais moderno missionário da lei, que em muitos pontos vai além de Allan Kardec, porque é inspirado como este, mas teve por missão dizer o que este não podia, em razão do atraso da Humanidade.

Não divergem no que é essencial, mas sim nos modos de compreender a verdade, porque esta, sendo absoluta, aparece-nos sob mil fases relativas – relativas ao nosso grau de adiantamento intelectual e moral, que um não pode dispensar o outro, como as asas de um pássaro não se podem dispensar, para o fim de ele elevar-se às alturas.

Roustaing confirma o que ensina Allan Kardec, porém adianta mais do que este, pela razão que já foi exposta acima.

É, pois, um livro precioso e sagrado o de Roustaing; mas o autor, não possuindo, como homem, a vantagem que faz sobressair o trabalho de Kardec, de clareza e concisão, torna-o bem pouco acessível às inteligências de certo grau para baixo.

Seria obra de meritório valor dar à sua exposição de princípios relevantíssimos a concisão e a clareza que sobram no mestre e que lhe faltam sensivelmente.

Foi esta, no fundo, a obra de Sayão.

Em ligeiros traços resumiu, sem lesar, longas exposições – e em linguagem didática clareou e pôs ao alcance de todas as inteligências o que era obscuro à maior parte.

O livro de Sayão é um resumo de Roustaing, com as vantagens de Allan Kardec.

É, portanto, correto e adiantado, sob o ponto de vista doutrinário – e é claro e conciso sob o ponto de vista do método.

Por outra: contém as idéias de Roustaing e o método incomparável de Allan Kardec.

Quem compreende a progressividade da revelação não pode recusar preito a Roustaing – e quem quiser colher, em Roustaing, os frutos preciosos de sua inspiração, muito lucrará estudando o livro (os livros) de Sayão.

É chave de ouro, que ninguém deve desprezar – e que, além de ser tal, encerra observações e práticas que, por si sós, recomendariam o hercúleo esforço do Anteu do Espiritismo no Brasil.

Ao caro irmão em crenças, a quem agradecemos, mais uma vez, a honra que nos dispensou, com tanta gentileza, diremos, em conclusão: podeis tomar os dois livros publicados pelo Dr. Sayão como normas a seguir em vosso Grupo. Neles encontrareis o que há de mais adiantado em espiritismo, colhido na seara bendita, com a alma cheia de amor, humildade e fé, as virtudes que enastram a coroa do discípulo de Jesus, votado à obra do Mestre Divino, com o coração cheio de energias e de caridade evangélica.

Descansai a mente sobre esta obra preciosa, em que transluzem os clarões da verdade, como repousou a cabeça, no seio de Jesus, o discípulo amado.

E damos graças a Deus por nos ter permitido encontrar, por entre as névoas de nossa peregrinação terrestre, o raio de luz – o farol – o santelmo que nos encaminha ao porto da salvação.

 

                                                                                                             MAX."

 

Nosso entendimento, diante da transcrição, na íntegra, é de que não existem apenas referências elogiosas a Roustaing nem qualquer disposição benevolente ou complacente do autor, e sim clara e incisiva manifestação de apoio e, mais ainda, recomendação de que as obras de Sayão, baseadas em Roustaing, fossem tomadas como normas a seguir. Alias, mais adiante, fica reconfirmado, de modo insofismável, esse entendimento quanto à posição de Bezerra ante as teses rustenistas.

O segundo livro dos Trabalhos Espíritas, com Prefácio de 1896, continha o Estudo dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, em Espírito e Verdade, baseado em Roustaing. Essa obra, compilada e publicada por Antônio Luiz Sayão,6 encerra, no final, comunicações mediúnicas recebidas no Grupo Ismael, cujos componentes estão relacionados na página 457, entre eles Adolfo Bezerra de Menezes. E o Grupo Ismael sempre estudou, em suas sessões semanais, a obra de Roustaing, isto desde a sua fundação, em 1880...

É na sua edição de 1902, corrigida e ampliada, que a referida obra toma o título de Elucidações Evangélicas à Luz da Doutrina Espírita e é nessa edição que aparece apreciação de Reformador de 14 de fevereiro de 1897, bem. assim a página de Bezerra de Menezes publicada na Gazeta de Notícias, acima reproduzida.

A obra Jesus Perante a Cristandade (1898), ditada pelo espírito Francisco Leite de Bittencourt Sampaio, é produto de seis meses de labuta mediúnica pelo Grupo referido na página 190. O primeiro nome mencionado nesse Grupo é exatamente o de Adolfo Bezerra de Menezes. Respiguemos alguns trechos da obra:

(...) "e Jesus tomou um corpo celeste" (...) (p. 27);

(...) "Jesus tomou um corpo aparentemente material" (...) (p. 32);

(...) "tênue véu de carne aparente que envolveu o Divino mestre" (...) (p. 35);

(...) "nos livros de Allan Kardec, na revelação dada a Roustaing, nos trabalhos de Sayão, Júlio César e tantos outros, encontram os bem-intencionados grande fonte, onde possam beber, à farta, os ensinamentos do Nosso Divino Mestre" (...) (p. 137);

(...) "o que em abundância prova que o corpo que o revestia era de natureza fluídica" (...) (p. 153);

(...) "restabelecendo as suas condições que sempre foram puramente fluídicas" (...) (p. 175);

(. . .) "Retomando o seu corpo fluídico" (...) (p. 177).

 

Pelo Reformador de 15 de agosto de 1898 Bezerra de Menezes, em extenso artigo, elogia essa obra, ao ditado da qual ele teve a "nímia felicidade de assistir, do princípio ao fim", e recomenda o seu estudo.

A publicação da "excelente obra Os Quatro Evangelhos, de J.-B. Roustaing" (como consta no original), anunciada pelo Reformador de 2 de novembro de 1897, foi iniciada em 15 de janeiro de 1898, observada a seqüência natural da obra.

Relembremos, por oportuno, que o presidente da FEB é, ao mesmo tempo, o diretor de Reformador e que Bezerra de Menezes foi presidente da FEB em 1889 e de 1895 a 1900 (em 1888 era secretário da revista).

Canuto Abreu, estudioso pesquisador espírita, na obra Bezerra de Menezes – Subsídios para a História do Espiritismo no Brasil até o Ano de 1895, edição FEESP, registra na página 67:

(...) "Bezerra de Menezes salientou então a dificuldade, senão impossibilidade, de acomodar místicos e científicos. Além disso, só compreendia o espiritismo como complemento do cristianismo, e era rustenista".

Outro pronunciamento inequívoco, quanto às suas convicções, temos no trecho, a seguir transcrito, de um artigo de Bezerra publicado em O País:7

"Jesus teve com efeito um corpo como o nosso pela forma; mas não pela natureza; teve um corpo fluídico, como tomam os anjos (espíritos puros) quando descem a nosso mundo.

E é assim que a Virgem não deixou de sê-lo depois do parto. sem necessidade de um milagre, coisa que Deus não pode fazer; porque, se o fizesse, transgrediria Suas próprias leis, que são eternas e imutáveis.

Só o imperfeito pode retocar sua máquina!

Ouvimos, ainda, replicarem-nos: então, Jesus não tomou sobre seus ombros os pecados do mundo, não sofreu pela Humanidade?

Dizei-nos qual é maior, o sofrimento físico ou o moral?

Se Jesus não teve corpo material para sofrer, teve os sofrimentos mais cruciantes do espírito.

E quem nos diz que seu corpo fluídico não se prestava tanto, e porventura mais do que o corpo carnal, à transmissão das sensações materiais?

O que é fora de questão é que repugna à razão o fato de um espírito divino tomar a carne dos pecadores, e que a concepção espírita de ser fluídico o corpo de Jesus não somente fala à razão e remove aquela repugnância invencível, como ainda explica, de acordo com as leis naturais, todos os fenômenos da vida do Redentor, e principalmente sua concepção no ventre puríssimo de Maria Santíssima e seu nascimento, sem que a Mãe deixasse de ser Virgem.

O que é tora de questão é que S. Paulo consagra a doutrina espírita neste ponto, quando diz: que há corpos celestes e corpos terrestres.

Que serão os corpos celestes senão os fluídicos?"

Acreditamos ter apresentado nestas linhas, aos interessados na realidade dos fatos, subsídios bastantes para dirimir quaisquer dúvidas quanto às convicções de Bezerra de Menezes, no que se refere à interpretação e entendimento do Evangelho do Senhor Jesus, conforme orientações trazidas pela Espiritualidade Superior, coligidas e organizadas por J.-B. Roustaing.

1 Vida de Jesus, de Antônio Lima, p. 17, 4ª edição FEB. (Nota de J. D. Innocêncio.)

2 "Coleção Filosófica Edicel", da Edicel. (Nota de J. D. Innocêncio.)

3 Primeiro parágrafo e primeira parte do segundo parágrafo da citada p. 19. (Nota de J. D. Innocêncio.)

4 Pesquisas por nós efetuadas, no próprio jornal, confirmam a. data de 6 de abril. (Nota de J. D. Innocêncio.)

5 A data certa é: 23 de março de 1897. (Nota de J. D. Innocêncio.)

6 Tip. Moreira Maximino, Chagas & C., rua da Quitanda nº 90, 1896. (Nota de J. D. Innocêncio.)

7 Espiritismo – Estudos Filosóficos, 3º volume, pp. 349/350, ed. FEB.

 

(Transcrito do Reformador de setembro de 1986, pp. 268 a 270.)

BEZERRA DE MENEZES ANTE ROUSTAING

 

A 29 de agosto transcorre o aniversário natalício desse espírito de escol que, em sua última reencarnação, recebeu o nome de Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti.

Sobre sua vida e sua obra existem muitas publicações, entre as quais citamos: Vida e Obra de Bezerra de Menezes, de Sylvio Brito Soares, editada pela FEB; Bezerra de Menezes – Subsídios para a História do Espiritismo no Brasil até o Ano de 1895, de Canuto Abreu, edição FEESP; Bezerra de Menezes, o Médico dos Pobres, de F. Acquarone, pela Editora Aliança; o capítulo específico na obra Grandes Espíritas do Brasil, de Zêus Wantuil, editada pela FEB. E número sem fim de artigos em jornais e revistas nacionais e estrangeiros, sendo de destacar-se o muito que tem sido inserido em Reformador, órgão que Bezerra de Menezes secretariou e, posteriormente, dirigiu.

Cremos que a maneira mais adequada de se reverenciar (reverenciar: respeitar, honrar) uma criatura seja a da preservação dos fatos ligados à sua vida. Assim pensando, aqui estamos, trazendo a nossa colaboração a respeito da figura ímpar de Bezerra de Menezes e suas convicções religiosas, sem esquecer o ensinamento de Emmanuel, na página "Pelo Evangelho":

"Fora ridículo proibir-se a elucidação. O que será de evitar-se, zelosamente, é a azedia da polêmica."1

No princípio do século a FEB editou, em três volumes, uma coletânea de artigos de Max, pseudônimo jornalístico de Bezerra de Menezes, publicados em O País, com o título de "Espiritismo-Estudos Filosóficos".

Na década passada a Edicel iniciou a republicação das obras de Bezerra de Menezes.2 No terceiro volume da coleção consta uma homenagem pela passagem do sesquicentenário do "Kardec Brasileiro".

Nessa homenagem, porém, encontramos, nos dois primeiros parágrafos da página 19, afirmativas quanto às convicções religiosas do homenageado que, data vênia, não expressam a realidade dos fatos.

Vejamos esses parágrafos:

"Com sua característica de humildade e respeito ao trabalho e esforço, mesmo dos que discordavam de suas convicções, Bezerra chegou a publicar referências elogiosas a Roustaing, na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, em 22 de abril de 1897, assinando-as com o pseudônimo de Max. É o que informa Antônio Luiz Sayão no seu livro Elucidações Evangélicas à Luz da Doutrina Espirita, editado por Besnard Frères, na Capital Federal, em 1902. Quando, no entanto, dúvidas foram levantadas a respeito da posição de Bezerra quanto às teses roustanguistas em choque com a Doutrina Espirita ou que permitiam interpretação equívoca dos seus conceitos, ainda em vida física ele reafirmava a defesa intransigente dos princípios kardecistas. (...)"3

É aforismo antigo: contra fatos não há argumentos. Passemos, pois, aos fatos.

Preliminarmente, transcrevemos, na íntegra, as "referências elogiosas a Roustaing feitas por Bezerra na Gazeta de Notícias de 6 (seis) de abril de 1897:4

"Na "Gazeta de Notícias" de 22 do corrente mês5 lemos o seguinte:

"Meu caro Max. – A nossa incipiência tem encontrado sempre conforto na vossa palavra inspirada e respeitada mesmo pelos ortodoxos da fé; desde, pois, que assumistes uma tal autoridade, a vossa opinião, sem que a embarace a vossa reconhecida modéstia, é segura orientação para os que entretêm Grupos Espíritas; e, nestas circunstâncias, relevareis que vos peçamos um conselho: podemos tomar os dois livros publicados pelo Dr. Sayão como normas a seguir no nosso Grupo? – Um discípulo."

Bem se vê que o consultante é realmente um incipiente, pois que eleva nossa individualidade a umas alturas que estamos muito longe de atingir; entretanto, por corresponder à sua confiança, dir-lhe-emos, com toda a lealdade e sinceridade, o que pensamos sobre os livros do Dr. Sayão.

O espiritismo não é, como julgam os padres ser, a revelação messiânica, a última palavra sobre as verdades que Deus, em seu amor pela Humanidade, fez baixar do céu á Terra.

Enquanto o homem não chegar ao último grau da perfeição intelectual de penetrar todas as leis da criação, a revelação não chegará a seu termo, pcis çue ela é progressivamente mais ampla, na medida do desenvolvimento da faculdade compreensiva do homem.

O espiritismo, pois, tendo dado mais do que as anteriores revelações, muito terá ainda que dar, porque muito terá ainda que progredir a Humanidade terrestre.

Allan Kardec, espírito preposto por Jesus para reunir, em um corpo de doutrinas, ensinos confiados, pelo mesmo Jesus, ao Espírito da Verdade, constituído por uma legião de Altíssimos Espíritos, só apanhou o que estes deram – e estes só deram o que era compatível com a compreensão atual do homem terreal.

Mas o homem, como já foi dito, não cessa de desenvolver a sua faculdade compreensiva e, pois, os principais fundamentos da revelação espírita, compreendidos nas obras fundamentais de Allan Kardec, tendem constantemente a se alargar e extensão e compreensão, como ele mesmo veio alargar os princípios fundamentais do ensino ou revelação messiânica – e que como este veio alargar os da revelação moisaica.

A Allan Kardec sobrevivem outros missionários da verdade eterna, que, sem destruir a obra feita, porque esta é firmada na lei e a lei é imutável, darão mais luz, para mais largo conhecimento das faces mais obscuras daquela verdade.

Eis aí que já apareceu Roustaing, o mais moderno missionário da lei, que em muitos pontos vai além de Allan Kardec, porque é inspirado como este, mas teve por missão dizer o que este não podia, em razão do atraso da Humanidade.

Não divergem no que é essencial, mas sim nos modos de compreender a verdade, porque esta, sendo absoluta, aparece-nos sob mil fases relativas – relativas ao nosso grau de adiantamento intelectual e moral, que um não pode dispensar o outro, como as asas de um pássaro não se podem dispensar, para o fim de ele elevar-se às alturas.

Roustaing confirma o que ensina Allan Kardec, porém adianta mais do que este, pela razão que já foi exposta acima.

É, pois, um livro precioso e sagrado o de Roustaing; mas o autor, não possuindo, como homem, a vantagem que faz sobressair o trabalho de Kardec, de clareza e concisão, torna-o bem pouco acessível às inteligências de certo grau para baixo.

Seria obra de meritório valor dar à sua exposição de princípios relevantíssimos a concisão e a clareza que sobram no mestre e que lhe faltam sensivelmente.

Foi esta, no fundo, a obra de Sayão.

Em ligeiros traços resumiu, sem lesar, longas exposições – e em linguagem didática clareou e pôs ao alcance de todas as inteligências o que era obscuro à maior parte.

O livro de Sayão é um resumo de Roustaing, com as vantagens de Allan Kardec.

É, portanto, correto e adiantado, sob o ponto de vista doutrinário – e é claro e conciso sob o ponto de vista do método.

Por outra: contém as idéias de Roustaing e o método incomparável de Allan Kardec.

Quem compreende a progressividade da revelação não pode recusar preito a Roustaing – e quem quiser colher, em Roustaing, os frutos preciosos de sua inspiração, muito lucrará estudando o livro (os livros) de Sayão.

É chave de ouro, que ninguém deve desprezar – e que, além de ser tal, encerra observações e práticas que, por si sós, recomendariam o hercúleo esforço do Anteu do Espiritismo no Brasil.

Ao caro irmão em crenças, a quem agradecemos, mais uma vez, a honra que nos dispensou, com tanta gentileza, diremos, em conclusão: podeis tomar os dois livros publicados pelo Dr. Sayão como normas a seguir em vosso Grupo. Neles encontrareis o que há de mais adiantado em espiritismo, colhido na seara bendita, com a alma cheia de amor, humildade e fé, as virtudes que enastram a coroa do discípulo de Jesus, votado à obra do Mestre Divino, com o coração cheio de energias e de caridade evangélica.

Descansai a mente sobre esta obra preciosa, em que transluzem os clarões da verdade, como repousou a cabeça, no seio de Jesus, o discípulo amado.

E damos graças a Deus por nos ter permitido encontrar, por entre as névoas de nossa peregrinação terrestre, o raio de luz – o farol – o santelmo que nos encaminha ao porto da salvação.

 

                                                                                                             MAX."

 

Nosso entendimento, diante da transcrição, na íntegra, é de que não existem apenas referências elogiosas a Roustaing nem qualquer disposição benevolente ou complacente do autor, e sim clara e incisiva manifestação de apoio e, mais ainda, recomendação de que as obras de Sayão, baseadas em Roustaing, fossem tomadas como normas a seguir. Alias, mais adiante, fica reconfirmado, de modo insofismável, esse entendimento quanto à posição de Bezerra ante as teses rustenistas.

O segundo livro dos Trabalhos Espíritas, com Prefácio de 1896, continha o Estudo dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, em Espírito e Verdade, baseado em Roustaing. Essa obra, compilada e publicada por Antônio Luiz Sayão,6 encerra, no final, comunicações mediúnicas recebidas no Grupo Ismael, cujos componentes estão relacionados na página 457, entre eles Adolfo Bezerra de Menezes. E o Grupo Ismael sempre estudou, em suas sessões semanais, a obra de Roustaing, isto desde a sua fundação, em 1880...

É na sua edição de 1902, corrigida e ampliada, que a referida obra toma o título de Elucidações Evangélicas à Luz da Doutrina Espírita e é nessa edição que aparece apreciação de Reformador de 14 de fevereiro de 1897, bem. assim a página de Bezerra de Menezes publicada na Gazeta de Notícias, acima reproduzida.

A obra Jesus Perante a Cristandade (1898), ditada pelo espírito Francisco Leite de Bittencourt Sampaio, é produto de seis meses de labuta mediúnica pelo Grupo referido na página 190. O primeiro nome mencionado nesse Grupo é exatamente o de Adolfo Bezerra de Menezes. Respiguemos alguns trechos da obra:

(...) "e Jesus tomou um corpo celeste" (...) (p. 27);

(...) "Jesus tomou um corpo aparentemente material" (...) (p. 32);

(...) "tênue véu de carne aparente que envolveu o Divino mestre" (...) (p. 35);

(...) "nos livros de Allan Kardec, na revelação dada a Roustaing, nos trabalhos de Sayão, Júlio César e tantos outros, encontram os bem-intencionados grande fonte, onde possam beber, à farta, os ensinamentos do Nosso Divino Mestre" (...) (p. 137);

(...) "o que em abundância prova que o corpo que o revestia era de natureza fluídica" (...) (p. 153);

(...) "restabelecendo as suas condições que sempre foram puramente fluídicas" (...) (p. 175);

(. . .) "Retomando o seu corpo fluídico" (...) (p. 177).

 

Pelo Reformador de 15 de agosto de 1898 Bezerra de Menezes, em extenso artigo, elogia essa obra, ao ditado da qual ele teve a "nímia felicidade de assistir, do princípio ao fim", e recomenda o seu estudo.

A publicação da "excelente obra Os Quatro Evangelhos, de J.-B. Roustaing" (como consta no original), anunciada pelo Reformador de 2 de novembro de 1897, foi iniciada em 15 de janeiro de 1898, observada a seqüência natural da obra.

Relembremos, por oportuno, que o presidente da FEB é, ao mesmo tempo, o diretor de Reformador e que Bezerra de Menezes foi presidente da FEB em 1889 e de 1895 a 1900 (em 1888 era secretário da revista).

Canuto Abreu, estudioso pesquisador espírita, na obra Bezerra de Menezes – Subsídios para a História do Espiritismo no Brasil até o Ano de 1895, edição FEESP, registra na página 67:

(...) "Bezerra de Menezes salientou então a dificuldade, senão impossibilidade, de acomodar místicos e científicos. Além disso, só compreendia o espiritismo como complemento do cristianismo, e era rustenista".

Outro pronunciamento inequívoco, quanto às suas convicções, temos no trecho, a seguir transcrito, de um artigo de Bezerra publicado em O País:7

"Jesus teve com efeito um corpo como o nosso pela forma; mas não pela natureza; teve um corpo fluídico, como tomam os anjos (espíritos puros) quando descem a nosso mundo.

E é assim que a Virgem não deixou de sê-lo depois do parto. sem necessidade de um milagre, coisa que Deus não pode fazer; porque, se o fizesse, transgrediria Suas próprias leis, que são eternas e imutáveis.

Só o imperfeito pode retocar sua máquina!

Ouvimos, ainda, replicarem-nos: então, Jesus não tomou sobre seus ombros os pecados do mundo, não sofreu pela Humanidade?

Dizei-nos qual é maior, o sofrimento físico ou o moral?

Se Jesus não teve corpo material para sofrer, teve os sofrimentos mais cruciantes do espírito.

E quem nos diz que seu corpo fluídico não se prestava tanto, e porventura mais do que o corpo carnal, à transmissão das sensações materiais?

O que é fora de questão é que repugna à razão o fato de um espírito divino tomar a carne dos pecadores, e que a concepção espírita de ser fluídico o corpo de Jesus não somente fala à razão e remove aquela repugnância invencível, como ainda explica, de acordo com as leis naturais, todos os fenômenos da vida do Redentor, e principalmente sua concepção no ventre puríssimo de Maria Santíssima e seu nascimento, sem que a Mãe deixasse de ser Virgem.

O que é tora de questão é que S. Paulo consagra a doutrina espírita neste ponto, quando diz: que há corpos celestes e corpos terrestres.

Que serão os corpos celestes senão os fluídicos?"

Acreditamos ter apresentado nestas linhas, aos interessados na realidade dos fatos, subsídios bastantes para dirimir quaisquer dúvidas quanto às convicções de Bezerra de Menezes, no que se refere à interpretação e entendimento do Evangelho do Senhor Jesus, conforme orientações trazidas pela Espiritualidade Superior, coligidas e organizadas por J.-B. Roustaing.

1 Vida de Jesus, de Antônio Lima, p. 17, 4ª edição FEB. (Nota de J. D. Innocêncio.)

2 "Coleção Filosófica Edicel", da Edicel. (Nota de J. D. Innocêncio.)

3 Primeiro parágrafo e primeira parte do segundo parágrafo da citada p. 19. (Nota de J. D. Innocêncio.)

4 Pesquisas por nós efetuadas, no próprio jornal, confirmam a. data de 6 de abril. (Nota de J. D. Innocêncio.)

5 A data certa é: 23 de março de 1897. (Nota de J. D. Innocêncio.)

6 Tip. Moreira Maximino, Chagas & C., rua da Quitanda nº 90, 1896. (Nota de J. D. Innocêncio.)

7 Espiritismo – Estudos Filosóficos, 3º volume, pp. 349/350, ed. FEB.

 

(Transcrito do Reformador de setembro de 1986, pp. 268 a 270.)

24 de setembro de 2013

MORTE E RENASCIMENTO


 
O ser integral é viajante da Eternidade realizando o seu progresso etapa-a-etapa, de tal forma que as experiências vividas em cada jornada carnal estabelecem os mecanismos da evolução em referência à próxima, facultando-lhe intérmino desenvolvimento.

Desde quando criado, experimenta as incessantes transformações que o fazem desabrochar, arrebentando a masmorra em que se encarcera e crescendo na busca da sua destinação eterna - a perfeição relativa - que ainda não lhe é dado vislumbrar por falta de recursos e aptidões que lhe capacitem o entendimento em profundidade.

Cada realização conseguida se lhe insculpe de forma irrecusável nas tecelagens mais delicadas da organização sutil, que é o perispírito, o veículo modelador que lhe programa os futuros comportamentos para o processo de adiantamento moral no campo da matéria. Constituído de energia específica e plasmática, esse corpo intermediário encarrega-se de registrar todas as ocorrências morais e mentais que deverão consubstanciar a futura forma, o mecanismo de recuperação, o instrumento de conversão de valores que são necessários, tendo em vista a própria depuração.

Em face da conduta durante a existência física, de certo modo vão sendo delineados os processos para a libertação pelo veículo da morte, cuja ocorrência é muito mais grave do que pode parecer ao observador menos cuidadoso.

Morre-se ou desencarna-se conforme se vive. Os pensamentos e atos são implacáveis tecelões que se responsabilizam pelo deslinde final que liberta o Espírito do corpo.

Desse modo, a ocorrência terminal, encarregada de produzir a desencarnação, é resultado de todo o processo vivido durante o estágio orgânico. Cada qual experimenta o curso libertador de acordo com o procedimento mantido enquanto encarnado, o que se lhe transforma em futuros programas existenciais.

Uma desencarnação violenta não apenas produz grande perturbação, como também poderá responder pelo difícil porvindouro processo de renascimento corporal.

O suicídio, largamente programado, produz-lhe fundos traumas, elaborando uma próxima reencarnação que se lhe torna muito sofrida, desde a gestação com numerosas complicações antes e durante o parto, isto quando não é malograda por insucessos muito dolorosos. O enforcamento, por exemplo, elabora um renascimento sob a constrição do cordão umbilical em grave asfixia; o envenenamento estabelece o recomeço sob lesões cerebrais irrecuperáveis resultantes da anóxia; o afogamento gera ruptura da placenta antes do parto; o despedaçamento do corpo, porque se atirou das alturas ou sob veículos pesados, ou mutilações propositais, programa retorno sob posição inadequada, com impossibilidade de liberação, ou dá lugar a deformações congênitas, tais como desestruturação do conjunto orgânico e outras anomalias graves...

A forma angustiante do renascimento não impede, antes se vincula à existência que se fará assinalar pelos efeitos danosos do autocídio, que é sempre um mecanismo vergonhoso e cruel para o Espírito que força ausentar-se da matéria.

Ninguém, portanto, se evade impunemente dos deveres, sem que não volte a encontrá-los mais complexos e exigentes para serem solucionados.

São as condutas suicidas que respondem pelos processos degenerativos a que são submetidos muitos indivíduos que passam na Terra, a arrostar as consequências dessa insânia, dessa rebeldia contra as Soberanas Leis.

O ato desastroso, mediante o qual o infrator deseja fugir da consciência, mais se lhe fixa, impondo repetição do fenômeno da morte para aprender como respeitar os impositivos da vida.

Por outro lado, quando a partida da Terra se dá por acidentes que produzem grande pavor, esses podem comprometer o futuro retorno à matéria através de sofrimento cáustico que, por sua vez, se refletirá como aflições incessantes durante a jornada porvindoura, apresentando dores e conflitos inquietantes.

A criatura humana está sempre a semear e a colher dentro de um fatalismo de que não se pode evadir, porquanto o mesmo constitui o meio salutar e único para o desenvolvimento de todos os valores que se lhe encontram ínsitos.

Morte e renascimento são processos que se completam, por fazerem parte do mesmo fenômeno da vida. Porque o Espírito é o determinante da própria experiência iluminativa, tudo quanto elabora mentalmente e transforma ou não em ação, se lhe constituirá patrimônio pessoal, adquirindo mais significado quando concretizado através dos atos.

O pensamento é poderoso veículo, não apenas de comunicação e de crescimento individual, mas também de energia vigorosa que se movimenta no Universo, força cocriadora que o Espírito possui para ascender do primarismo às cumeadas do progresso. Por isso mesmo, deve ser muito bem direcionado, porque a toda emissão de onda mental corresponde uma sintonia equivalente, que se transformará em construção feliz ou desventurada conforme o conteúdo de que se faça portadora.

As marcas de nascimento, mais do que procedentes de fatores genéticos, são sinais programados pelo Espírito, consequentes à forma como lhe ocorreu a desencarnação anterior e que se imprimem nos códigos do DNA, qual se dá com os fenômenos do parto feliz, complicado ou malsucedido.

Antigo refrão assinala: Tal vida, qual morte, e podemos acrescentar que, de acordo com a morte assim será o recomeço da vida.

 

Joanna de Ângelis

Livro: Dias Gloriosos