19 de março de 2014

AS LEIS MORAIS


 A LEI DIVINA OU NATURAL

Do ponto de vista científico, uma lei é uma regra que descreve um fenômeno que ocorre com certa regularidade, não tendo o poder de determinar que um fato qualquer deva ou não ocorrer.

Ela apenas verifica a sua ocorrência, analisando as causas e os efeitos relacionados com o evento. Ainda do ponto de vista científico, uma lei natural é um enunciado de uma verdade científica, assim compreendida no âmbito de um paradigma científico. Deve ter certas características de generalidade e abrangência, a fim de poder ter um aspecto prático. Por outro lado, deve também ser falseável, no sentido em que possa ser refutada, tanto lógica como experimentalmente. Caso contrário, poderia ser enquadrada como religião, filosofia, arte ou qualquer outra atividade do gênero humano, mas nunca como ciência.

Filosoficamente falando, no entanto, a lei natural é a que o homem conhece pela luz natural de sua razão, enquanto implícita na natureza das coisas. É uma participação da lei eterna na criatura racional, uma impressão em nós da luz divina, pela qual podemos discernir o bem e o mal. Para ser considerada como lei natural, deve trazer características de imutabilidade, tanto intrinsecamente como extrinsecamente falando. Assim, a lei natural é imutável em si mesma, e seus princípios não podem desaparecer da consciência, embora possa ser admitida a possibilidade e a realidade de certo progresso do direito natural, no sentido de que, pelo avanço da civilização, pelo desenvolvimento e extensão do saber, possa ser produzido pouco a pouco um aperfeiçoamento das exigências da lei natural. De forma semelhante, a lei natural é também imutável extrinsecamente, no sentido de que é ilícito tanto ab-rogá-la, transgredi-la, mesmo parcialmente, ou dispensá-la, tanto quanto é impossível à criatura humana renunciar, no todo, ou em parte, à sua natureza.

Em "O LIVRO DOS ESPÍRITOS", na questão 614, está definido que a lei natural

é a lei de Deus. Única verdadeira para a felicidade do homem, porque lhe dá a indicação do que deve fazer ou deixar de fazer para ser feliz. A Lei Natural está escrita, portanto, na consciência do homem, facultando-lhe discernir entre o bem e o mal. Na questão 647, está dito que a lei de Deus encerra todos os deveres dos homens uns para com os outros. Observe-se, entretanto, que a Lei Natural não envolve só a relação entre os homens, mas uma consciência ética mais abrangente, incluindo tudo que existe em a Natureza. A Lei de Justiça, Amor e Caridade trazida por Jesus Cristo está contida nela e serve como uma precisa regra de conduta. O homem deve, no entanto, ampliar sua percepção para a necessidade de assegurar harmonia, não só nas relações com seus semelhantes, mas também com todas as criaturas da Natureza.

 

A MORAL SEGUNDO O ESPIRITISMO

Na questão 629 de "O LIVRO DOS ESPÍRITOS" encontramos a definição de moral como sendo a regra de bem proceder, isto é, de distinguir o bem do mal.

Funda-se na observância da lei de Deus, fazendo com que o homem só proceda bem quando tudo faz pelo bem de todos, porque então cumpre a lei de Deus. O bem é, portanto, tudo o que está conforme a lei de Deus; e o mal, tudo o que lhe é contrário. Assim, fazer o bem é proceder de acordo com a lei de Deus. Fazer o mal é infringi-la.

 

AS LEIS MORAIS COMO DIVISÃO DA LEI NATURAL

De acordo com a questão 648 de "O LIVRO DOS ESPÍRITOS”, a divisão da lei natural em dez partes, compreendendo as leis de adoração, trabalho, reprodução, conservação, destruição, sociedade, progresso, igualdade, liberdade e, por fim, a de justiça, amor e caridade foi feita por Moisés e tem o propósito de abranger todas as circunstâncias essenciais da vida. Essa divisão nada tem de absoluto, como não o tem nenhum dos outros sistemas de classificação, uma vez que todos dependem do prisma pelo qual se considere o que quer que seja. Dentre essas partes, a Lei de Justiça, Amor e Caridade é a mais importante, por ser a que faculta ao homem adiantar-se mais na vida espiritual, visto que resume todas as outras.

 

A LEI DE JUSTIÇA, AMOR E CARIDADE.

“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma, e todo o teu espírito; este é o maior e o primeiro mandamento. Amarás o teu próximo, como a ti mesmo. Toda a lei e os profetam se acham contidos nesses dois mandamentos” (Mateus 22: 37 a 40)

 

JUSTIÇA

De acordo com a questão 875 de "O LIVRO DOS ESPÍRITOS”, a justiça consiste em cada um respeitar os direitos dos demais.

Esses direitos podem ser naturais ou adquiridos com base nas leis humanas.

Os direitos naturais são imutáveis e iguais para todos, independendo de época ou de cultura. São estabelecidos pela Lei Natural e escritos na consciência humana. Entre outros, estão nesta categoria: o direito à vida, o direito ao meio ambiente saudável, o direito à liberdade, o direito ao trabalho e à legítima propriedade como fruto desse trabalho. Na medida em que o homem desenvolve uma consciência ética, os códigos de direitos humanos tendem a se aproximar do direito natural. Na questão 876 está estabelecida a regra da efetiva justiça pelas palavras do Cristo: “Queira um para o outro o que quereria para si mesmo. No coração do homem, imprimiu Deus a regra da verdadeira justiça, fazendo que cada um deseje ver respeitado seus direitos...). O direito pessoal é, pois, baseado no direito do próximo. O limite do direito de cada um é aquele que ele reconhece ao seu semelhante, em idênticas circunstâncias e reciprocamente (questão 878).

O do verdadeiro justo, a exemplo de Jesus, é aquele que pratica a justiça em toda sua pureza, porquanto pratica também o amor ao próximo e a caridade, sem os quais não há verdadeira justiça.

 

AMOR

São Vicente de Paulo, respondendo à questão 888 de "O LIVRO DOS ESPÍRITOS orienta: “... Amai-vos uns aos outros, eis toda a lei, lei divina, mediante a qual governa Deus os mundos. O amor é a lei de atração para os seres vivos e organizados. A atração é a lei de amor para matéria inorgânica”

O amor, de acordo com a Lei de Deus deve ser incondicional, abrangente, para com todas as criaturas de Deus, incluindo os inimigos. O sentimento do amor incondicional implica misericórdia, perdão, indulgência, e a retribuição do mal com o bem.

 

CARIDADE

De acordo com o Pequeno Dicionário, de Aurélio Buarque de Holanda, caridade é o sentimento que nos leva a poupar alguém a quem deveríamos ou poderíamos castigar, punir; o mesmo que complacência, benevolência, condescendência.

No verdadeiro sentido, como entendia Jesus, significa benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas. (questão 886 de "O LIVRO DOS ESPÍRITOS”).

A caridade envolve as ações destinadas a prover recursos materiais àquele que necessita (caridade material), mas, sobretudo, qualquer ação destinada a proporcionar o bem-estar daqueles que necessitam (caridade moral). A caridade é a manifestação do amor, isto é, é o amor em ação.

Enquanto o amor é um sentimento que predispõe ao bem, a caridade é a ação que consubstancia este bem. O amor e a caridade são, pois, o complemento da lei de justiça, pois amar o próximo é fazer-lhe todo o bem que nos seja possível e que desejáramos nos fosse feito. Tal o sentido destas palavras de Jesus: Amai-vos uns aos outros como irmãos. (questão 886 de “O LIVRO DOS ESPÍRITOS”.).

São Vicente de Paulo, respondendo à questão 888 de "O LIVRO DOS ESPÍRITOS", orienta: “A verdadeira caridade é sempre bondosa e benévola; esta tanto no ato, como na maneira por que é praticado... Lembrai-vos também de que, os olhos de Deus, a ostentação tira o mérito ao benefício. Disse Jesus: Ignore a vossa mão esquerda o que a direita der”. Por essa forma, ele vos ensinou a não tisnardes a caridade com o orgulho (...)”

Existe uma dinâmica na relação entre justiça, amor e caridade. A justiça pode ser considerada um valor natural que Deus infunde na consciência humana. O amor pode ser visto como um sentimento que predispõe o homem a querer o bem de seu semelhante, e a caridade pode ser vista como um comportamento que se manifesta pela ação de fazer o bem a seus semelhantes. Assim, caridade implica amor, amor implica justiça, justiça implica caridade e vice-versa. Essa é a dinâmica da Lei.

27 de setembro de 2013

BEZERRA DE MENEZES ANTE ROUSTAING


 A 29 de agosto transcorre o aniversário natalício desse espírito de escol que, em sua última reencarnação, recebeu o nome de Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti.

Sobre sua vida e sua obra existem muitas publicações, entre as quais citamos: Vida e Obra de Bezerra de Menezes, de Sylvio Brito Soares, editada pela FEB; Bezerra de Menezes – Subsídios para a História do Espiritismo no Brasil até o Ano de 1895, de Canuto Abreu, edição FEESP; Bezerra de Menezes, o Médico dos Pobres, de F. Acquarone, pela Editora Aliança; o capítulo específico na obra Grandes Espíritas do Brasil, de Zêus Wantuil, editada pela FEB. E número sem fim de artigos em jornais e revistas nacionais e estrangeiros, sendo de destacar-se o muito que tem sido inserido em Reformador, órgão que Bezerra de Menezes secretariou e, posteriormente, dirigiu.

Cremos que a maneira mais adequada de se reverenciar (reverenciar: respeitar, honrar) uma criatura seja a da preservação dos fatos ligados à sua vida. Assim pensando, aqui estamos, trazendo a nossa colaboração a respeito da figura ímpar de Bezerra de Menezes e suas convicções religiosas, sem esquecer o ensinamento de Emmanuel, na página "Pelo Evangelho":

"Fora ridículo proibir-se a elucidação. O que será de evitar-se, zelosamente, é a azedia da polêmica."1

No princípio do século a FEB editou, em três volumes, uma coletânea de artigos de Max, pseudônimo jornalístico de Bezerra de Menezes, publicados em O País, com o título de "Espiritismo-Estudos Filosóficos".

Na década passada a Edicel iniciou a republicação das obras de Bezerra de Menezes.2 No terceiro volume da coleção consta uma homenagem pela passagem do sesquicentenário do "Kardec Brasileiro".

Nessa homenagem, porém, encontramos, nos dois primeiros parágrafos da página 19, afirmativas quanto às convicções religiosas do homenageado que, data vênia, não expressam a realidade dos fatos.

Vejamos esses parágrafos:

"Com sua característica de humildade e respeito ao trabalho e esforço, mesmo dos que discordavam de suas convicções, Bezerra chegou a publicar referências elogiosas a Roustaing, na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, em 22 de abril de 1897, assinando-as com o pseudônimo de Max. É o que informa Antônio Luiz Sayão no seu livro Elucidações Evangélicas à Luz da Doutrina Espirita, editado por Besnard Frères, na Capital Federal, em 1902. Quando, no entanto, dúvidas foram levantadas a respeito da posição de Bezerra quanto às teses roustanguistas em choque com a Doutrina Espirita ou que permitiam interpretação equívoca dos seus conceitos, ainda em vida física ele reafirmava a defesa intransigente dos princípios kardecistas. (...)"3

É aforismo antigo: contra fatos não há argumentos. Passemos, pois, aos fatos.

Preliminarmente, transcrevemos, na íntegra, as "referências elogiosas a Roustaing feitas por Bezerra na Gazeta de Notícias de 6 (seis) de abril de 1897:4

"Na "Gazeta de Notícias" de 22 do corrente mês5 lemos o seguinte:

"Meu caro Max. – A nossa incipiência tem encontrado sempre conforto na vossa palavra inspirada e respeitada mesmo pelos ortodoxos da fé; desde, pois, que assumistes uma tal autoridade, a vossa opinião, sem que a embarace a vossa reconhecida modéstia, é segura orientação para os que entretêm Grupos Espíritas; e, nestas circunstâncias, relevareis que vos peçamos um conselho: podemos tomar os dois livros publicados pelo Dr. Sayão como normas a seguir no nosso Grupo? – Um discípulo."

Bem se vê que o consultante é realmente um incipiente, pois que eleva nossa individualidade a umas alturas que estamos muito longe de atingir; entretanto, por corresponder à sua confiança, dir-lhe-emos, com toda a lealdade e sinceridade, o que pensamos sobre os livros do Dr. Sayão.

O espiritismo não é, como julgam os padres ser, a revelação messiânica, a última palavra sobre as verdades que Deus, em seu amor pela Humanidade, fez baixar do céu á Terra.

Enquanto o homem não chegar ao último grau da perfeição intelectual de penetrar todas as leis da criação, a revelação não chegará a seu termo, pcis çue ela é progressivamente mais ampla, na medida do desenvolvimento da faculdade compreensiva do homem.

O espiritismo, pois, tendo dado mais do que as anteriores revelações, muito terá ainda que dar, porque muito terá ainda que progredir a Humanidade terrestre.

Allan Kardec, espírito preposto por Jesus para reunir, em um corpo de doutrinas, ensinos confiados, pelo mesmo Jesus, ao Espírito da Verdade, constituído por uma legião de Altíssimos Espíritos, só apanhou o que estes deram – e estes só deram o que era compatível com a compreensão atual do homem terreal.

Mas o homem, como já foi dito, não cessa de desenvolver a sua faculdade compreensiva e, pois, os principais fundamentos da revelação espírita, compreendidos nas obras fundamentais de Allan Kardec, tendem constantemente a se alargar e extensão e compreensão, como ele mesmo veio alargar os princípios fundamentais do ensino ou revelação messiânica – e que como este veio alargar os da revelação moisaica.

A Allan Kardec sobrevivem outros missionários da verdade eterna, que, sem destruir a obra feita, porque esta é firmada na lei e a lei é imutável, darão mais luz, para mais largo conhecimento das faces mais obscuras daquela verdade.

Eis aí que já apareceu Roustaing, o mais moderno missionário da lei, que em muitos pontos vai além de Allan Kardec, porque é inspirado como este, mas teve por missão dizer o que este não podia, em razão do atraso da Humanidade.

Não divergem no que é essencial, mas sim nos modos de compreender a verdade, porque esta, sendo absoluta, aparece-nos sob mil fases relativas – relativas ao nosso grau de adiantamento intelectual e moral, que um não pode dispensar o outro, como as asas de um pássaro não se podem dispensar, para o fim de ele elevar-se às alturas.

Roustaing confirma o que ensina Allan Kardec, porém adianta mais do que este, pela razão que já foi exposta acima.

É, pois, um livro precioso e sagrado o de Roustaing; mas o autor, não possuindo, como homem, a vantagem que faz sobressair o trabalho de Kardec, de clareza e concisão, torna-o bem pouco acessível às inteligências de certo grau para baixo.

Seria obra de meritório valor dar à sua exposição de princípios relevantíssimos a concisão e a clareza que sobram no mestre e que lhe faltam sensivelmente.

Foi esta, no fundo, a obra de Sayão.

Em ligeiros traços resumiu, sem lesar, longas exposições – e em linguagem didática clareou e pôs ao alcance de todas as inteligências o que era obscuro à maior parte.

O livro de Sayão é um resumo de Roustaing, com as vantagens de Allan Kardec.

É, portanto, correto e adiantado, sob o ponto de vista doutrinário – e é claro e conciso sob o ponto de vista do método.

Por outra: contém as idéias de Roustaing e o método incomparável de Allan Kardec.

Quem compreende a progressividade da revelação não pode recusar preito a Roustaing – e quem quiser colher, em Roustaing, os frutos preciosos de sua inspiração, muito lucrará estudando o livro (os livros) de Sayão.

É chave de ouro, que ninguém deve desprezar – e que, além de ser tal, encerra observações e práticas que, por si sós, recomendariam o hercúleo esforço do Anteu do Espiritismo no Brasil.

Ao caro irmão em crenças, a quem agradecemos, mais uma vez, a honra que nos dispensou, com tanta gentileza, diremos, em conclusão: podeis tomar os dois livros publicados pelo Dr. Sayão como normas a seguir em vosso Grupo. Neles encontrareis o que há de mais adiantado em espiritismo, colhido na seara bendita, com a alma cheia de amor, humildade e fé, as virtudes que enastram a coroa do discípulo de Jesus, votado à obra do Mestre Divino, com o coração cheio de energias e de caridade evangélica.

Descansai a mente sobre esta obra preciosa, em que transluzem os clarões da verdade, como repousou a cabeça, no seio de Jesus, o discípulo amado.

E damos graças a Deus por nos ter permitido encontrar, por entre as névoas de nossa peregrinação terrestre, o raio de luz – o farol – o santelmo que nos encaminha ao porto da salvação.

 

                                                                                                             MAX."

 

Nosso entendimento, diante da transcrição, na íntegra, é de que não existem apenas referências elogiosas a Roustaing nem qualquer disposição benevolente ou complacente do autor, e sim clara e incisiva manifestação de apoio e, mais ainda, recomendação de que as obras de Sayão, baseadas em Roustaing, fossem tomadas como normas a seguir. Alias, mais adiante, fica reconfirmado, de modo insofismável, esse entendimento quanto à posição de Bezerra ante as teses rustenistas.

O segundo livro dos Trabalhos Espíritas, com Prefácio de 1896, continha o Estudo dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, em Espírito e Verdade, baseado em Roustaing. Essa obra, compilada e publicada por Antônio Luiz Sayão,6 encerra, no final, comunicações mediúnicas recebidas no Grupo Ismael, cujos componentes estão relacionados na página 457, entre eles Adolfo Bezerra de Menezes. E o Grupo Ismael sempre estudou, em suas sessões semanais, a obra de Roustaing, isto desde a sua fundação, em 1880...

É na sua edição de 1902, corrigida e ampliada, que a referida obra toma o título de Elucidações Evangélicas à Luz da Doutrina Espírita e é nessa edição que aparece apreciação de Reformador de 14 de fevereiro de 1897, bem. assim a página de Bezerra de Menezes publicada na Gazeta de Notícias, acima reproduzida.

A obra Jesus Perante a Cristandade (1898), ditada pelo espírito Francisco Leite de Bittencourt Sampaio, é produto de seis meses de labuta mediúnica pelo Grupo referido na página 190. O primeiro nome mencionado nesse Grupo é exatamente o de Adolfo Bezerra de Menezes. Respiguemos alguns trechos da obra:

(...) "e Jesus tomou um corpo celeste" (...) (p. 27);

(...) "Jesus tomou um corpo aparentemente material" (...) (p. 32);

(...) "tênue véu de carne aparente que envolveu o Divino mestre" (...) (p. 35);

(...) "nos livros de Allan Kardec, na revelação dada a Roustaing, nos trabalhos de Sayão, Júlio César e tantos outros, encontram os bem-intencionados grande fonte, onde possam beber, à farta, os ensinamentos do Nosso Divino Mestre" (...) (p. 137);

(...) "o que em abundância prova que o corpo que o revestia era de natureza fluídica" (...) (p. 153);

(...) "restabelecendo as suas condições que sempre foram puramente fluídicas" (...) (p. 175);

(. . .) "Retomando o seu corpo fluídico" (...) (p. 177).

 

Pelo Reformador de 15 de agosto de 1898 Bezerra de Menezes, em extenso artigo, elogia essa obra, ao ditado da qual ele teve a "nímia felicidade de assistir, do princípio ao fim", e recomenda o seu estudo.

A publicação da "excelente obra Os Quatro Evangelhos, de J.-B. Roustaing" (como consta no original), anunciada pelo Reformador de 2 de novembro de 1897, foi iniciada em 15 de janeiro de 1898, observada a seqüência natural da obra.

Relembremos, por oportuno, que o presidente da FEB é, ao mesmo tempo, o diretor de Reformador e que Bezerra de Menezes foi presidente da FEB em 1889 e de 1895 a 1900 (em 1888 era secretário da revista).

Canuto Abreu, estudioso pesquisador espírita, na obra Bezerra de Menezes – Subsídios para a História do Espiritismo no Brasil até o Ano de 1895, edição FEESP, registra na página 67:

(...) "Bezerra de Menezes salientou então a dificuldade, senão impossibilidade, de acomodar místicos e científicos. Além disso, só compreendia o espiritismo como complemento do cristianismo, e era rustenista".

Outro pronunciamento inequívoco, quanto às suas convicções, temos no trecho, a seguir transcrito, de um artigo de Bezerra publicado em O País:7

"Jesus teve com efeito um corpo como o nosso pela forma; mas não pela natureza; teve um corpo fluídico, como tomam os anjos (espíritos puros) quando descem a nosso mundo.

E é assim que a Virgem não deixou de sê-lo depois do parto. sem necessidade de um milagre, coisa que Deus não pode fazer; porque, se o fizesse, transgrediria Suas próprias leis, que são eternas e imutáveis.

Só o imperfeito pode retocar sua máquina!

Ouvimos, ainda, replicarem-nos: então, Jesus não tomou sobre seus ombros os pecados do mundo, não sofreu pela Humanidade?

Dizei-nos qual é maior, o sofrimento físico ou o moral?

Se Jesus não teve corpo material para sofrer, teve os sofrimentos mais cruciantes do espírito.

E quem nos diz que seu corpo fluídico não se prestava tanto, e porventura mais do que o corpo carnal, à transmissão das sensações materiais?

O que é fora de questão é que repugna à razão o fato de um espírito divino tomar a carne dos pecadores, e que a concepção espírita de ser fluídico o corpo de Jesus não somente fala à razão e remove aquela repugnância invencível, como ainda explica, de acordo com as leis naturais, todos os fenômenos da vida do Redentor, e principalmente sua concepção no ventre puríssimo de Maria Santíssima e seu nascimento, sem que a Mãe deixasse de ser Virgem.

O que é tora de questão é que S. Paulo consagra a doutrina espírita neste ponto, quando diz: que há corpos celestes e corpos terrestres.

Que serão os corpos celestes senão os fluídicos?"

Acreditamos ter apresentado nestas linhas, aos interessados na realidade dos fatos, subsídios bastantes para dirimir quaisquer dúvidas quanto às convicções de Bezerra de Menezes, no que se refere à interpretação e entendimento do Evangelho do Senhor Jesus, conforme orientações trazidas pela Espiritualidade Superior, coligidas e organizadas por J.-B. Roustaing.

1 Vida de Jesus, de Antônio Lima, p. 17, 4ª edição FEB. (Nota de J. D. Innocêncio.)

2 "Coleção Filosófica Edicel", da Edicel. (Nota de J. D. Innocêncio.)

3 Primeiro parágrafo e primeira parte do segundo parágrafo da citada p. 19. (Nota de J. D. Innocêncio.)

4 Pesquisas por nós efetuadas, no próprio jornal, confirmam a. data de 6 de abril. (Nota de J. D. Innocêncio.)

5 A data certa é: 23 de março de 1897. (Nota de J. D. Innocêncio.)

6 Tip. Moreira Maximino, Chagas & C., rua da Quitanda nº 90, 1896. (Nota de J. D. Innocêncio.)

7 Espiritismo – Estudos Filosóficos, 3º volume, pp. 349/350, ed. FEB.

 

(Transcrito do Reformador de setembro de 1986, pp. 268 a 270.)

24 de setembro de 2013

MORTE E RENASCIMENTO


 
O ser integral é viajante da Eternidade realizando o seu progresso etapa-a-etapa, de tal forma que as experiências vividas em cada jornada carnal estabelecem os mecanismos da evolução em referência à próxima, facultando-lhe intérmino desenvolvimento.

Desde quando criado, experimenta as incessantes transformações que o fazem desabrochar, arrebentando a masmorra em que se encarcera e crescendo na busca da sua destinação eterna - a perfeição relativa - que ainda não lhe é dado vislumbrar por falta de recursos e aptidões que lhe capacitem o entendimento em profundidade.

Cada realização conseguida se lhe insculpe de forma irrecusável nas tecelagens mais delicadas da organização sutil, que é o perispírito, o veículo modelador que lhe programa os futuros comportamentos para o processo de adiantamento moral no campo da matéria. Constituído de energia específica e plasmática, esse corpo intermediário encarrega-se de registrar todas as ocorrências morais e mentais que deverão consubstanciar a futura forma, o mecanismo de recuperação, o instrumento de conversão de valores que são necessários, tendo em vista a própria depuração.

Em face da conduta durante a existência física, de certo modo vão sendo delineados os processos para a libertação pelo veículo da morte, cuja ocorrência é muito mais grave do que pode parecer ao observador menos cuidadoso.

Morre-se ou desencarna-se conforme se vive. Os pensamentos e atos são implacáveis tecelões que se responsabilizam pelo deslinde final que liberta o Espírito do corpo.

Desse modo, a ocorrência terminal, encarregada de produzir a desencarnação, é resultado de todo o processo vivido durante o estágio orgânico. Cada qual experimenta o curso libertador de acordo com o procedimento mantido enquanto encarnado, o que se lhe transforma em futuros programas existenciais.

Uma desencarnação violenta não apenas produz grande perturbação, como também poderá responder pelo difícil porvindouro processo de renascimento corporal.

O suicídio, largamente programado, produz-lhe fundos traumas, elaborando uma próxima reencarnação que se lhe torna muito sofrida, desde a gestação com numerosas complicações antes e durante o parto, isto quando não é malograda por insucessos muito dolorosos. O enforcamento, por exemplo, elabora um renascimento sob a constrição do cordão umbilical em grave asfixia; o envenenamento estabelece o recomeço sob lesões cerebrais irrecuperáveis resultantes da anóxia; o afogamento gera ruptura da placenta antes do parto; o despedaçamento do corpo, porque se atirou das alturas ou sob veículos pesados, ou mutilações propositais, programa retorno sob posição inadequada, com impossibilidade de liberação, ou dá lugar a deformações congênitas, tais como desestruturação do conjunto orgânico e outras anomalias graves...

A forma angustiante do renascimento não impede, antes se vincula à existência que se fará assinalar pelos efeitos danosos do autocídio, que é sempre um mecanismo vergonhoso e cruel para o Espírito que força ausentar-se da matéria.

Ninguém, portanto, se evade impunemente dos deveres, sem que não volte a encontrá-los mais complexos e exigentes para serem solucionados.

São as condutas suicidas que respondem pelos processos degenerativos a que são submetidos muitos indivíduos que passam na Terra, a arrostar as consequências dessa insânia, dessa rebeldia contra as Soberanas Leis.

O ato desastroso, mediante o qual o infrator deseja fugir da consciência, mais se lhe fixa, impondo repetição do fenômeno da morte para aprender como respeitar os impositivos da vida.

Por outro lado, quando a partida da Terra se dá por acidentes que produzem grande pavor, esses podem comprometer o futuro retorno à matéria através de sofrimento cáustico que, por sua vez, se refletirá como aflições incessantes durante a jornada porvindoura, apresentando dores e conflitos inquietantes.

A criatura humana está sempre a semear e a colher dentro de um fatalismo de que não se pode evadir, porquanto o mesmo constitui o meio salutar e único para o desenvolvimento de todos os valores que se lhe encontram ínsitos.

Morte e renascimento são processos que se completam, por fazerem parte do mesmo fenômeno da vida. Porque o Espírito é o determinante da própria experiência iluminativa, tudo quanto elabora mentalmente e transforma ou não em ação, se lhe constituirá patrimônio pessoal, adquirindo mais significado quando concretizado através dos atos.

O pensamento é poderoso veículo, não apenas de comunicação e de crescimento individual, mas também de energia vigorosa que se movimenta no Universo, força cocriadora que o Espírito possui para ascender do primarismo às cumeadas do progresso. Por isso mesmo, deve ser muito bem direcionado, porque a toda emissão de onda mental corresponde uma sintonia equivalente, que se transformará em construção feliz ou desventurada conforme o conteúdo de que se faça portadora.

As marcas de nascimento, mais do que procedentes de fatores genéticos, são sinais programados pelo Espírito, consequentes à forma como lhe ocorreu a desencarnação anterior e que se imprimem nos códigos do DNA, qual se dá com os fenômenos do parto feliz, complicado ou malsucedido.

Antigo refrão assinala: Tal vida, qual morte, e podemos acrescentar que, de acordo com a morte assim será o recomeço da vida.

 

Joanna de Ângelis

Livro: Dias Gloriosos

22 de setembro de 2013

ANATOMIA DO DESENCARNE


 


 

Vamos procurar analisar parcial e genericamente alguns aspectos de mortes violentas, através de acidentes ou desastres dolorosos.

O que ocorre com as pessoas que são surpreendidas com a morte física num desastre?

Quais as sensações e emoções que as vítimas de um acidente fatal sentem ou vivenciam nos momentos deste tipo de morte?

Tomando por fundamentação teórica os ensinamentos espíritas, e com base em informações mediúnicas confiáveis, pode-se estabelecer alguns princípios gerais para elucidar a dinâmica do fenômeno da morte ou desencarnação e o processo do morrer propriamente dito.

Em princípio, é necessário esclarecer que a morte é um fenômeno natural inerente à dinâmica da própria vida.

O que é que morre ou desencarna?

Apenas o corpo físico morre, isto é, passa por uma série de transformações psicobiofísicas de degradação energética, com rupturas dos centros vitais bioenergéticos que integram os diferentes sistemas atômicos celulares componentes de tecidos, órgãos, aparelhos e demais sistemas interativos que compõem o organismo humano como verdadeiro eco-sistema de manifestação vital.

Resumidamente, na visão materialista, a morte significa o caos orgânico, irreversível, culminando na cessação de todas as funções vitais e conseqüente desagregação do organismo físico, através da decomposição cadavérica, nada restando após a morte propriamente dita.

Na visão espiritualista de um modo geral, algo sobrevive após o fenômeno da morte física.

Sem maiores detalhes ou considerações filosóficas, o espiritualista de um modo geral, admite a existência da alma ou do Espírito e, portanto, ao morrer, independente do gênero de morte ou desencarne, a alma ou espírito sobrevive, continuando a viver no mundo espiritual.

O espiritualista espírita descortina um horizonte mais amplo, tendo um acervo de ensinamentos esclarecedores sobre a dinâmica da morte e do morrer, relacionado ao gênero de vida consciencial da criatura humana, independente da faixa etária, sexo, raça, cultura, religião, posição social, etc.

No caso particular da visão espírita, a morte ou desencarnação propriamente dita implica uma série de fenômenos não só psicobiofísicos: também inclui outros de natureza anímico-conscienciais extrafísicos, paranormais e mediúnicos de grande complexidade que, direta ou indiretamente, podem evidenciar a sobrevivência do espírito ou consciência que continua a viver após a ruptura dos laços bioenergéticos que mantinham o organismo físico em plena atividade, como veículo ou instrumento de manifestação do espírito encarnado, durante a respectiva cota de tempo de vida, compatível com as necessidades e projetos de realização e auto-realização consciencial, em cada experiência reencarnatória.

Assim sendo, a vida inteligente, consciencial, não se extingue com a morte física propriamente dita. O Eu-consciencial ou Espírito, ser pensante, volitivo, dotado de instinto, emoção, sentimento, razão, linguagem conceitual e demais atributos humanos, ao passar pelo fenômeno da morte do corpo físico, de acordo com seu estágio evolutivo espiritual, terá maior ou menor autonomia e maior ou menor lucidez consciencial, cognitiva, afetiva e volitiva, para compreender as diferentes fases do processo da morte física propriamente dita.

De acordo também com seu grau de educação consciencial e espiritual e, ainda, conforme as ações e obras realizadas em vida, terá maior ou menor merecimento, além do sentimento de auto-estima pelo cumprimento dos deveres e realizações edificantes não só em beneficio próprio, como, também, em favor dos seus semelhantes, da comunidade e da sociedade em geral.

Em tais circunstancias, os que viveram edificantemente, independente de rótulos místicos ou religiosos, apresentam melhores condições psicodinâmicas conscienciais para compreender e aceitar com maior ou menor autocontrole, equilíbrio e serenidade as surpresas da sua própria desencarnação.

Por outro lado, os que em decorrência da imaturidade consciencial, espiritual, cometeram equívocos, vivendo egoísta e egocentricamente, não aproveitando bem as lições da vida, no sentido de promover o auto-conhecimento e a construção da paz dentro e fora de si mesmos, apegando-se ao corpo físico como única realidade e razão de ser. estes que assim viveram terão maiores dificuldades para compreender e aceitar a surpresa da própria morte física e a grande realidade de sua própria sobrevivência como espírito desencarnado.

Isto não que dizer que a pessoa esteja condenada pela eternidade afora a um sofrimento infernal, tal qual as religiões dogmáticas e sectárias incutiram na mente popular.

Absolutamente. Cada consciência, de acordo com seu biorritmo e tempo de assimilação e vontade de reconstruir o próprio destino, para melhor, terá tantas oportunidades de aprendizagem auto-redentora quantas necessitar para construir a própria plenitude consciencial e existencial ao longo das vidas sucessivas.

Deste modo, na visão espírita, a vida é imperecível e o ser humano é um agente co-criador integrante do Plano Divino da Criação, e, conseqüentemente, arquiteto de seu próprio destino feliz ou infeliz.

Esta digressão teórica se faz necessária no sentido de estabelecer alguns princípios gerais relativos ao fenômeno da morte e seu significado.

 

I - Morte é apenas uma mudança de estado de ser. De pensar, de sentir e agir.

É natural a reação de rejeição e não-aceitação da morte, qualquer que seja a situação circunstancial.

Esta reação é geral, sendo uma decorrência espontânea do instinto de conservação e auto-preservação inato no ser humano.

Graças ao instinto de conservação, reprodução e autodefesa, a espécie humana se mantém, sobrevivendo aos grandes desafios da evolução onto e filogenética e da necessidade de adaptação evolutiva, em íntima interação com a multi-diversidade dos eco-sistemas ambientais do planeta Terra e sua respectiva Biosfera.

Assim sendo, na dinâmica da vida, nascer, crescer, reproduzir, viver e morrer constituem um processo bioenergético, psicobiofísico, anímico-consciencial, universal, presente em todos os Reinos da Natureza, em sua multidimensionalidade física e extra-física.

O medo da morte é, pois, uma reação instintiva que se evidencia através do comportamento humano ao longo da evolução histórica, antropológica, cultural, religiosa, etc. da humanidade terrestre, variando com a época e com as características culturais, costumes, práticas e tradições religiosas de diferentes tribos, povos, raças e nações, tanto no Oriente quanto no Ocidente.

Entretanto, parece haver em todas as culturas, ao longo das diferentes épocas da história, a crença mais ou menos generalizada na sobrevivência espiritual do ser humano.

As diferentes tradições religiosas criaram diferentes regras e procedimentos ritualísticos místico-religiosos, influenciando a mente popular, submetendo-a aos dogmas e preceitos estabelecidos pelas diferentes religiões no mundo, e direta ou indiretamente, implícita ou explicitamente, o medo da morte vem passando de geração a geração.

Nos tempos atuais, com o advento da tanatalogia como uma área de investigação e conhecimento cientifico, o tabu da morte aos poucos vai se transformando numa visão mais realística e consentânea com o progresso das investigações dos fenômenos paranormais que ocorrem com os doentes terminais e nas experiências da chamada morte aparente.

Como decorrência, a morte está sendo encarada com maior naturalidade, despida daqueles paramentos fúnebres e lúgubres de décadas atrás.

Neste particular a contribuição do Espiritismo é inegável e valiosamente significativa para desmitificar e desmistificar a morte como algo terrível, assustador e um caminho sem volta.

A morte ou desencarnação é, pois, apenas e tão-somente uma transmutação profunda psicobifísica, anímica e consciencial, refletindo intensamente no pensar, sentir e agir do ser humano, que deixa de se manifestar na vida de relação no plano físico, através do respectivo corpo psicossomático para continuar a pensar, sentir e agir sem o instrumento físico, no reino do Espírito, onde igualmente a vida de relação continua em outras tonalidades vibratórias, por meio da manifestação do pensamento e da vontade, de acordo com o grau de evolução e maturidade consciencial e espiritual alcançado, em sua última experiência reencarnatória.

 

II  - A vida de relação não cessa com a morte física propriamente dita.

Os diferentes e diversificados fenômenos paranormais e mediúnicos, observados por ocasião não só da morte física, como também através de manifestações espontâneas ou provocadas experimentalmente, sugerem de maneira significativa que o ser humano desencarnado mantém uma dinâmica interação volitiva, energética, inteligente e afetiva, no mundo espiritual ou espiritosfera, em obediência à lei de sintonia, afinidade e ressonância vibratórias.

Isto posto, fica entendido que o intercâmbio mediúnico é um fenômeno universal entre encarnados e desencarnados e se verifica também entre os desencarnados no Reino dos Espíritos ou Espiritosfera, obedecendo-se aos mesmos princípios universais da lei de afinidade, sintonia e ressonância, correspondentes aos respectivos planos multi e transdimensionais extrafisicos conscienciais.

Deste modo, desde a mais remota antigüidade, o fenômeno mediúnico sempre foi uma prova de que o intercâmbio mediúnico entre encarnados e desencarnados existiu sempre como um fato natural e de amplitude universal.

 

III - O princípio de interdependência e de interação psicodinâmica entre encarnados e desencarnados é um fenômeno universal.

Assim sendo, as ações e reações interativas entre os seres humanos encarnados e desencarnados ocorreram sempre ao longo da história da humanidade terrestre, dando origem às diferentes manifestações místico-religiosas que fazem parte da herança cultural de todos os povos, raças e nações, tanto no Oriente como no Ocidente.

Estas interações podem se manifestar de maneira sutil ou ostensiva, assumindo características harmônicas ou desarmônicas, em função de sua influência positiva ou negativa no comportamento individual ou coletivo do ser humano.

 

IV - Os Espíritos desencarnados podem se manifestar espontaneamente ou por meio de evocação.

Em decorrência dos princípios anteriores, a manifestação do Espírito desencarnado pode se dar espontaneamente em função da lei de sintonia e afinidade. Os espíritos são atraídos em razão da existência de laços de simpatia que os atraem para se manifestarem a pessoas no meio onde vivem, objetivando manter uma relação harmônica, edificante e solidária.

Podem também ser conseguidas tais manifestações por meio de evocações, e de motivos justos, que justifiquem tal procedimento com finalidade de investigação e pesquisas sérias e construtivas.

 

 V - A morte ou desencarnação, mediante um desastre doloroso e fatal, é diferente e específica para cada um, embora as circunstancias do desastre sejam as mesmas para todos os envolvidos no acidente.

Isto quer dizer que a morte física de uma pessoa está intimamente relacionada com a respectiva herança cármica e suas necessidades de auto-redenção.

Aliás, tal princípio se aplica a qualquer gênero de morte ou desencarne

 

VI - Ninguém, em circunstancias de morte violenta, em acidentes fatais, jamais estará desamparado, à míngua de uma assistência espiritual socorrista.

Todos são socorridos e atendidos em suas necessidades específicas, de acordo com o respectivo grau de maturidade consciencial, merecimento e a gravidade do estado pessoal de cada um.

Quando ocorre um acidente ou desastre doloroso no plano físico, imediatamente, no mundo espiritual, os Centros ou Núcleos de Pronto Socorro e Atendimento Espiritual mais próximos tomam conhecimento da ocorrência, providenciando com a máxima urgência o socorro das vítimas acidentadas que venham a morrer ou que fiquem politraumatizadas e em estado grave no local do sinistro.

Nestas circunstancias emergenciais a pessoa moribunda agonizante ou desencarnante emite pensamentos aflitivos que se propagam na multidimensionalidade extrafísica, como se fossem verdadeiros S.O.S. telepáticos, os quais são devidamente captados e registrados por meio de sofisticada tecnologia, possibilitando a imediata localização e identificação pessoal das vítimas do desastre.

Equipes de socorro espiritual dirigem-se imediatamente ao local do acidente para a prestação do respectivo socorro e demais providências de amparo assistencial.

A título de exemplo, no capítulo XVIII—Resgates Coletivos, do livro Ação e Reação, psicografado e editado pelo Espírito André Luiz, 2a. ed. FEB, páginas 236 e seguintes, encontra-se o relato de um desastre aviatório.

Qual era a situação das pessoas vitimadas?

Vários desencarnados no referido acidente encontravam-se em posição de choque, presos aos respectivos corpos físicos, mutilados parcial ou totalmente, entretanto alguns apresentavam-se em melhores condições de lucidez consciencial.

Outros sentiam-se imantados aos próprios restos cadavéricos, gemendo de dor e sofrimento, e outros ainda gritavam em desespero, mantendo-se também aprisionados aos despojos físicos, em violenta crise de inconsciência, numa profunda perturbação.

Os espíritos socorristas, médicos e enfermeiros em especial, a todos atendiam com elevado sentimento de compaixão, prestando a assistência espiritual de acordo com a situação de cada um.

Comentários elucidativos a respeito da situação de cada vítima, feitos por generoso mentor espiritual, merecem ser analisados para efeitos de esclarecimentos educativos, objetivando a autoconscientização e o autoconhecimento de cada um e de todos.

1. O socorro espiritual é ministrado indistintamente a todos, sem nenhuma exceção.

2. A expressão—"Se o desastre é o mesmo para todos, a morte é diferente para cada um", é um ensinamento importante e merece ser assimilado.

3. Nem todos podem ser retirados dos despojos físicos, cadaverizados, logo imediatamente.

4. A afirmação de que "Somente aquele cuja vida interior lhe outorga a imediata liberação", é de relevante significado educativo, pois revela a necessidade moral de se buscar o autoconhecimento e a conseqüente emancipação psicológica e emocional indispensável para maior autonomia e discernimento conscienciais, ainda em plena vida física.

Conseqüentemente, isto implica um processo de autoeducação pessoal, ao longo da vida, face aos grandes desafios existenciais, exigindo a autotransmutação, capaz de conferir a cada um a plena liberdade e autonomia no pensar, sentir e agir, em harmonia com as Leis da Vida, na construção da paz dentro e fora de si mesmo, e na vivência do bem incondicional.

As pessoas que se dispuseram a viver em harmonia com a cosmoética nada têm a temer diante do momento decisivo e crucial da própria morte física.

5. Aquele cuja vida consciencial se manteve em desalinho, vivendo em descompasso desarmônico com as Leis da Vida, concentrando-se no egoísmo egocêntrico, perdendo valiosas oportunidades de amar e bem servir ao próximo como a si mesmo, e, por conseguinte, ficando mais condicionado às manifestações instintivas e emocionais, sem nenhuma preocupação com os valores espirituais para o próprio crescimento e desenvolvimento consciencial, este fica apegado ao corpo físico, não tendo condições de manter equilíbrio harmônico e a lucidez consciencial indispensáveis à neutralização dos impulsos de atração e imantação energética que o retém ao cadáver mutilado.

Nestas circunstancias, o desencarnado permanecerá ligado por tempo indeterminado aos despojos cadavéricos que lhe pertencem.

6. Este tempo indeterminado está na dependência "do grau de animalização dos fluídos que lhes retêm o espírito à atividade corpórea". (p. 238).

Pode levar horas, dias ou meses até a completa e plena auto-libertação psicológica, emocional, consciencial e espiritual.

7. As expressões seguintes merecem ser meditadas por sua relevante transcendência:

a) "Corpo inerte nem sempre significa libertação da alma". b) "O gênero de vida que alimentamos no estágio físico dita as verdadeiras condições de nossa morte" (p. 238).São por demais claras e, de certo modo, contundentes, no sentido de não deixar dúvidas ou escapismos.

8. Outra expressão complementar às já mencionadas também deve ser motivo de reflexão—"Morte física não é o mesmo que emancipação espiritual" (p. 239).

9. Mas aquelas vítimas desencarnadas no desastre, as quais não têm condições de se afastar do próprio cadáver, mediante a ruptura dos laços bioenergéticos que ligam o espírito ao corpo físico, através dos respectivos centros vitais ou chakras existentes no perispírito, estas vítimas ficarão relegadas ao sabor das circunstancias, por tempo indefinido, sem nenhum outro tipo de assistência socorrista?

Jamais isto acontece.

Todas, sem exceção, são amparadas sempre.

"Ninguém vive desamparado. O amor infinito de Deus abrange o Universo". (p. 239).

10. O ser humano encarnado ou desencarnado pode, a cada momento da existência, por meio do Bem "sentido e praticado", também modificar seu próprio destino para melhor, neutralizando ações e reações negativas circanstanciais, afastando do próprio horizonte "as nuvens de sofrimentos prováveis". (p. 240).

Mas indagações se impõem.

- Quais as causas que originaram semelhante provação?

- Quais os fatores circunstanciais que direta ou indiretamente contribuíram para a morte violenta e dolorosa através de desastres ou acidentes fatais?

A resposta encontra-se nos ensinamentos luminosos e redentores do Cristo, quando afirma:

"A cada um será dado segundo suas obras" ou "Cada um colhe de acordo com o que semeia".

Este ensinamento expressa a Lei de Ação e Reação ou Lei de Causa e Efeito, também ensinada pela sabedoria milenar do Oriente como Lei do Carma.

A título de esclarecimento, poder-se-ia estabelecer possíveis correlações entre a herança cármica individual ou coletiva, para poder explicar a origem de tais acontecimentos provacionais, dolorosos e irreversíveis.

Sem pretender aprofundar o tema relativo a Lei do Carma, algumas relações podem ser estabelecidas, tais como:

a) As vitimas de hoje, perdendo a vida de modo tão trágico e violento, poderiam, em outras épocas passadas, ter cometido crimes não menos violentos também, atirando pessoas ou desafetos indefesos do "cimo de torres altíssimas, para que seus corpos se espatifassem no chão"...

b) As vítimas dos desastres de hoje poderiam ser as mesmas pessoas que em tempos passados se entregavam à pirataria, cometendo crimes hediondos em alto mar.

c) Ou suicidas que se precipitaram de edifícios ou se lançaram de elevados picos à beira de verdadeiros abismos, estraçalhando o corpo físico contra os rochedos pontiagudos, em manifesta rebeldia, insubmissão e desrespeito às leis da vida.

d) Ou também homicidas que praticaram crimes hediondos, seqüestrando e incendiando aldeias indefesas, ceifando vidas de crianças e adolescentes, estuprando e violentando mulheres para assassiná-las posteriormente com requintes de crueldade, ou que massacraram pessoas idosas sem piedade.

Quantos homens e mulheres, crianças e jovens, vivendo atualmente, em cuja ficha cármica encontram-se registrados erros e equívocos do passado próximo ou milenar, aguardando o despertar e o amadurecimento consciencial de cada um, para o indispensável trabalho educativo da própria redenção, através de novas oportunidades existenciais de trabalhar construtivamente na reconstrução do próprio destino para melhor, reencontrando as antigas vítimas e algozes de passadas existências, na condição de familiares, pais, filhos, irmãos, parentes ou amigos, para juntos viverem as lições do amor e do perdão incondicionais, sem o que não haverá paz na consciência e tampouco a plena quitação com a Lei de Deus.

11. Entretanto, é também da própria Lei Cármica que, a todo e qualquer momento, cada consciência encarnada ou desencarnada poderá modificar o próprio destino para melhor desde que se disponha a amar e servir, trabalhando na semeadura do Bem, adquirindo desta forma, pelo trabalho de auto-regeneração redentora, os indispensáveis créditos de merecimento que lhe trarão a paz consciencial, anulando os reflexos negativos decorrentes das ações infelizes do passado próximo ou remoto.

Deste modo "gerando novas causas com o bem, praticando hoje, podemos interferir nas causas do mal, praticado ontem, neutralizando-as e reconquistando, com isso, o nosso equilíbrio". (241).

12. É possível escolher o gênero de provações existenciais e até mesmo o gênero de morte?

Sem dúvida. Para tanto é indispensável ter adquirido maturidade espiritual e o merecimento indispensável para se propor e planejar uma nova existência reencarnatória, tendo em vista cooperar para o progresso e o bem comum, através de uma vida de trabalho, doação, sacrifício e renúncia, dedicando-se aos mais diversificados projetos de realização progressista, em benefício da coletividade em geral, contribuindo muitas vezes com o sacrifício da própria vida.

Assim sendo, muitos se preparam em tempo hábil, antes de uma nova reencarnação, habilitando-se para correr o risco de vida, e sofreram até mesmo morte violenta, em benefício do progresso das ciências em geral, das artes, da medicina e saúde, da indústria, da pesquisa de ponta em laboratórios e projetos de reconhecida periculosidade, em favor do progresso da navegação marítima, da aeronáutica, da engenharia, dos transportes terrestres, das viagens espaciais, da liderança política e do trabalho edificante e sacrificial no campo das reformas político-sociais, econômicas e educacionais, etc., objetivando beneficiar a sociedade em geral, promovendo direta ou indiretamente o desenvolvimento de um povo, da nação ou país na construção da paz e da justiça sociais.

Como se vê, a Lei Divina é Lei de Amor, Justiça e Misericórdia, não excluindo nenhum ser humano do direito de ser artífice do próprio destino.

13. Uma outra pergunta se faz necessária para maior elucidação do tema em estudo.

Todos terão condições de tomar esta decisão, no sentido de escolher o gênero de provação sacrificial?

Nem todos, porque a livre escolha depende do estágio de maturidade espiritual alcançado e, também, das auto-realizações no campo das ações edificantes e benéficas em prol do semelhante, das antigas vítimas do passado, dos que direta ou indiretamente foram atingidos por nossa insanidade na prática do mal.

É indispensável, pois, que cada espírito ou Eu-Consciencial já tenha adquirido a plena consciência no pensar, sentir e agir com lucidez e discernimento na mais íntima interação com as Leis da Vida, amando e servindo pelo amor à verdade, ao bem incondicional, trabalhando proficuamente na reconstrução do próprio destino, dispondo-se a viver conscientemente a lei do amor, do perdão, ida solidariedade, sem nenhum preconceito ou condicionamentos atávicos segregacionistas de qualquer espécie.

Como se vê, a liberdade de escolha está na razão direta da conquista realizada pelo próprio espírito, no sentido do auto-conhecimento e da auto-transmutação consciencial, atingindo o maior índice possível de auto-realização na construção do reino de Deus dentro e fora de si mesmo.

É pois um longo processo de maturação consciencial, a que todos estamos submetidos, ao longo das múltiplas e milenárias experiências de aprendizagem existencial através das vidas sucessivas.

Daí por que o ensinamento milenar—o ser humano é arquiteto do próprio destino.

As religiões dogmáticas e sectárias que envenenaram a mente humana com as idéias de castigo, punição, inferno, penas eternas, excomunhão, favoritismo para conquistar as benesses do paraíso celestial, prometendo a salvação mediante indulgências, penitências e atos litúrgicos sacramentais, inerentes ao culto externo e a idolatrias, ensinando o temor a Deus, contribuíram direta ou indiretamente para que o medo patológico se instalasse na mente humana, ao longo da evolução histórica da humanidade terrestre, gerando o fanatismo, a intolerância e a separação entre crentes e descrentes, criando dependências psicológico-emocionais, escravizando mentes e corações.

A liberdade de escolha está diretamente associada ao princípio da responsabilidade individual e coletiva intransferível e irrevogável.

Cada qual, com sua respectiva herança cármica, muitas vezes é submetido a diferentes provas existenciais na infância, na mocidade, na idade adulta ou na velhice, passando por experiências de mutilação reversível ou não, por enfermidades de difícil tratamento a curto, médio ou longo prazo, por acidentes dolorosos e até mesmo a morte súbita em circunstancias inesperadas e traumatizantes.

Os seres humanos que estão onerados perante as leis éticas da vida e que para se redimirem têm necessidade de viver provações e lutas expiatórias, encontram aqueles outros que se dispõem a ajudá-los através das relações familiares na condição de pais, parentes ou amigos, e que juntos se dispõem coletivamente ao aprendizado redentor, porque na maioria das vezes estão também vinculados reciprocamente por compromissos e comprometimentos cármicos específicos.

A provação coletiva desperta o sentimento de solidariedade humana, impulsionando todos a uma revisão dos valores e significados éticos do viver, descortinando a cada um novos horizontes consciências .

Deste modo, pode-se afirmar que, no Plano Divino da Criação, não há falhas e a Lei é de Amor, Justiça e Misericórdia, concedendo a cada um e a todos iguais oportunidades de progresso material, e espiritualmente falando, através das vidas sucessivas, na construção e reconstrução de um destino feliz.

14. E a morte por suicídio?

Doloroso equívoco cometem aqueles cuja decisão final é o apelo ao suicídio, como medida extrema para solucionarem problemas aflitivos, psicológicos, emocionais, consciências e existenciais.

A maior surpresa é a de que a vida não se extingue com a morte do corpo físico.

Doloroso e grave engano, porque o suicida se vê muitas vezes jungido aos despojos cadavéricos, por tempo indeterminado, através dos laços bioenergéticos que ligam o perispírito ao respectivo corpo físico em decomposição.

As sensações e emoções experimentadas pelo suicida variam de caso para caso.

Há, entretanto, algo em comum, ou seja, a constatação de que a vida consciencial é indestrutível e que ninguém burla suas leis sem assumir pesados compromissos cármicos a impor a indispensável reparação compulsória, por ter rompido, prematuramente, os elos de ligação psicobiofísica que permitiram a manutenção da vida no plano físico por uma cota de tempo compatível com as necessidades específicas de auto-realização espiritual de cada um, através do cumprimento de um plano de realizações existenciais educativo, visando à plena harmonização consciencial com as leis da vida, e na execução de projetos específicos de aprendizagens provacionais, sacrificiais, missionárias ou de resgate inadiáveis, tendo em vista a necessidade moral de construir a própria redenção.

Os relatos mediúnicos contendo informações sobre a situação do suicida após o ato cometido são unanimes em afirmar o estado de dolorosa penúria do espírito, o qual se vê num processo psicodinamico e bioenergético de recapitulação compulsiva das ações desencadeadas em decorrência do suicídio, gerando um profundo sentimento de remorso, dor e sofrimento inomináveis.

Este estado de verdadeira psicose alucinatória assume características dantescas, dramáticas e traumáticas, e na maioria dos casos o suicida sente-se mais vivo e sensível aos embates da decomposição cadavérica do próprio corpo físico.

Ora se vê no local onde o ato se consumou, ora se vê autopsiado e ao mesmo tempo preso ao túmulo, onde jazem os restos mortais sepultados.

Neste verdadeiro inferno consciencial se debate por tempo indeterminado, podendo durar dias a fio, meses ou anos até que, pela dor e sofrimento, possa despertar mais lúcido para compreender melhor o equívoco cometido. Para tanto, o remorso e o arrependimento são etapas inerentes ao despertar consciencial, seguidas de uma necessidade moral profunda de se redimir perante a própria consciência e às Leis de Deus.

Durante todo este tempo não fica abandonado pela misericordiosa assistência espiritual dos espíritos socorristas e familiares em condições de ajudar, bem como de amigos e protetores, que, amorosamente, prestam o socorro necessário, sem entretanto violar o código ético da vida.

Após esta fase crucial, à medida que for apresentando sinais de melhor receptividade e lucidez, é submetido a um complexo tratamento magnético-espiritual específico, em clinicas altamente especializadas, encarregadas de dar atendimento psicoterápico e sonoterápico, objetivando a plena recuperação do suicida.

Geralmente, a morte por suicídio produz marcas profundas no perispírito, e elas poderão determinar lesões nos respectivos centros vitais e demais órgãos perispíriticos, que irão repercutir na embriogênese e organogênese de um novo corpo físico em uma próxima e futura reencarnação.

Em conseqüência, nas futuras reencarnações o suicida poderá apresentar malformações congênitas ou doenças hereditárias irreversíveis, na maioria dos casos, renascendo em situações de excepcionalidade, exigindo muito amor e dedicação dos pais e familiares, médicos e enfermeiros, e tratamento em clínicas especializadas.

Não se deve, nestes casos, pensar em castigos ou punições divinas, mas tão-somente no cumprimento da Lei do Carma genético.

Através destas limitações morfogenéticas a curto, médio ou longo prazo, o suicida de ontem renasce em um novo corpo físico, com disfunções congênitas reversíveis ou irreversíveis, como decorrência natural das lesões registradas na memória genética perispíritica que servirão de matrizes indutoras a influenciar negativamente durante a gestação, na organogênese e morfogênese, do novo corpo físico, determinando malformações congênitas ou doenças hereditárias, correspondentes às lesões perispíriticas causadas por traumatismos, em decorrência do suicídio cometido em vidas anteriores.

A título de esclarecimento, há também casos de suicídio indireto, no qual a pessoa não tem a deliberação plena de cometer o suicídio propriamente dito, mas, pelo tipo de vida que leva, sem maiores compromissos com a saúde física e mental, expondo-se a situações de risco por imprudência, ou praticando excessos de toda a natureza, poderá morrer prematuramente, sendo, portanto, considerado também um caso de suicídio indireto.

 

MORTE E EDUCAÇÃO

Vê-se pois, que a morte na visão espírita é um fenômeno natural de mudanças e transmutações, inerentes à própria dinâmica da vida.

A Pedagogia espírita propõe-se através da educação formal e informal, desenvolver uma ação educativa, iniciando no respectivo lar, tendo os pais como pedagogos e educadores, com a missão natural de orientar e educar os filhos, desde a fase preparatória antes da reencarnação propriamente dita, através do processo psicobiofísico da gestação, acompanhando-os com amor e dedicação em todas as fases do crescimento e desenvolvimento pleno, quando assumirão com maior consciência e responsabilidade deveres e obrigações de viver construtivamente, em harmonia consigo mesmos, com a natureza, com a sociedade, com a vida, cumprindo o plano divino de suas existências.

Compreendendo desde cedo que a vida é imperecível, e que o ser humano como espírito ou consciência em expansão é um agente co-criador que integra e participa de um plano maior, de acordo com o nível de maturidade consciencial alcançado, e com a correspondente autonomia relativa, de agir e interagir no contexto existencial que lhe é concedido viver é natural e de esperar que venha gradativamente, pela educação recebida, a desenvolver uma cosmovisão existencial, sem as peias do medo de qualquer espécie e muito menos do medo da morte e do morrer.

Nesta perspectiva, a Educação espírita visa o Ser integral, homem ou mulher, cujos papéis no contexto do viver se complementam e se integram na grande sinfonia da vida, com iguais direitos e deveres éticos e cosmoéticos no desempenho de seu respectivo plano existencial.

Como decorrência lógica deste processo de educação anímico-consciencial permanente, cada pessoa vai sentindo a imperiosa necessidade ético-espiritual de expandir-se na busca do autoconhecimento, na construção da plenitude consciencial, livre de preconceitos e condicionamentos atávicos ou adquiridos, limitadores da liberdade de pensar, sentir e agir em harmonia com as leis da vida, numa visão plena de totalidade, integração e complementaridade.

Assim sendo, o viver passa a ser uma aprendizagem constante em todas as etapas do crescimento e desenvolvimento pessoal, de uma autoconsciência holística, ecológica e integradora, a se manifestar através de um comportamento individual e social, construtivo, edificante e solidário, em todos os momentos de sua vida de relação.

Sabe, por experiência própria, através de uma educação holística espiritualista ou espírita, que a vida de relação não se extingue com a cessação da vida física, mas ultrapassa os limites espaço-temporais do aqui, agora, expandindo-se na multidimensionalidade extrafísica da Biosfera e do Universo.

Conseqüentemente, tem consciência e discernimento de que é um agente co-criador arquiteto do próprio destino em todos os níveis de manifestação da vi da consciencial .Assim sendo, sente a própria dimensão transcendente do viver no plano físico e extra-físico através de suas funções psi, anímico-mediúnicas, paranormais, que lhe possibilitam projetar-se fora do respectivo corpo físico, penetrando nos diferentes níveis e planos conscienciais extra-físicos, continuando na dinâmica da vida de relação a interagir com espíritos ou consciências afins, encarnados ou desencarnados, realizando novos aprendizados enriquecedores ou participando solidariamente nas tarefas e trabalhos assistenciais ou socorristas, vivendo conscientemente o amor solidário, o amor compaixão, o amor-fraternidade, expressões particulares do verdadeiro "amor ao próximo como a si mesmo", princípio universal da Cosmoética, sem cuja observância o ser humano encarnado ou desencarnado não poderá ser plenamente feliz e nem poderá viver em paz consigo próprio, com a vida, com a natureza e com a humanidade.

Ressalta-se, pois, a importância da Educação numa visão e abordagem holística, integradora, sem os condicionamentos dogmáticos e sectários que dividem e segregam os seres humanos de todas as raças, povos e nações, tanto no Oriente como no Ocidente.

Sem dúvida alguma, o Espiritismo vem contribuindo para o desenvolvimento desta consciência holística, individual e coletiva, sem violentar a liberdade de pensar e de escolher o próprio caminho para o auto-conhecimento e a auto-realização como Espírito ou uma consciência em expansão, na construção da plenitude existencial rumo à plenitude do Ser.

Tais princípios educativos, fazendo parte dos currículos educacionais nas escolas de ensino fundamental, ampliando-se no segundo grau e ensino superior, através de projetos psicopedagógicos multi e transdisciplinares integrantes de um plano educacional de maior amplitude, privilegiando a valorização da Vida, a educação física, mental e afetiva do ser humano numa perspectiva holística, integradora e transcendente, possibilitando o desenvolvimento cognitivo, afetivo e espiritual, com ênfase no auto-conhecimento, e numa cosmovisão transcendente da v ida, em que a morte não seja considerada o fim de tudo, mas apenas uma grande e profunda transmutação consciencial.

Deste modo, a convicção adquirida e consolidada através de um novo paradigma educacional—holístico, ecológico, espiritualista ou espírita, evolucionista, convicção não imposta— mas construída através da auto-educação, de que o Espírito ou o Eu-Consciencial é um ser. agente co-criador, e integrante do processo dinâmico da própria vida, evoluindo ao longo de um contínuo histórico através das vidas sucessivas, na construção e reconstrução do próprio destino, nesta perspectiva cada Consciência, tanto no plano físico ou extra-físico, sente a realidade existencial com maior amplitude, eliminando toda e qualquer reação instintiva de medo face aos grandes desafios educativos da Vida e do próprio viver.

Assim sendo, adquire e desenvolve a plena lucidez e discernimento, cognitivo e afetivo, de que a vida de relação se expande também, além do aqui, agora, possibilitando a interação entre encarnados e desencarnados, segundo os princípios universais da lei de afinidade, sintonia e ressonância.

Através da constatação do próprio potencial anímico-mediunico, a manifestar-se por meio das funções psi, paranormais, ampliando as percepções extra-sensoriais e autoprojeção, fora do corpo, a constatação da realidade multi e transdimensional espaço-temporal torna-se uma evidência incontestável, com profunda repercussão no comportamento ético individual e coletivo, podendo acelerar o processo das grandes transformações político-sociais, econômicas, culturais, ético-religiosas, educacionais, e do despertar de uma consciência ecológica, holística, harmônica e integradora, na construção da Paz individual e coletiva, indispensável à implantação de uma nova ordem, alicerçada na Cosmoética do "amor ao próximo como a si mesmo", em todos os níveis de manifestação consciencial.

A comprovação científica dos fenômenos naturais, inerentes ao intercâmbio mediúnico, muito contribuirá para evidenciar, com maior solidez, a sobrevivência espiritual do ser humano, na mais eloqüente demonstração universal de que a morte não rompe e nem destrói os laços afetivos de amor conjugal, amor paternal, maternal, amor filial, fraternal, amor-solidariedade, amor-compaixão, entre as mentes e corações afins, encarnados e desencarnados, na dinâmica da vida imperecível.

 

Cícero Marcos Teixeira