10 de dezembro de 2008

O PONTO DE VISTA


Não há quem não tenha notado quanto as coisas mudam de aspecto, conforme o ponto de vista sob o qual são consideradas. Não só se modifica o aspecto, mas, também, a mesma importância da coisa. Coloquemo-nos no centro de qualquer coisa, mesmo pequena, e parecerá grande; se nos colocarmos fora, será outra coisa. Quem vê uma coisa do alto de um monte a vê insignificante, mas de baixo ela parece grande.
É um efeito de ótica, mas que também se aplica às coisas morais. Um dia inteiro de sofrimento parecerá uma eternidade; à medida que o dia se afasta de nós admiramo-nos de haver desesperado por tão pouco. Os pesares da infância também têm uma importância relativa e, para a criança, são tão amargos quanto para a idade adulta. Por que, então, nos parecem tão fúteis? Porque não mais os sentimos, ao passo que a criança os sente completamente e não vê além de seu círculo de atividade; ela os vê do interior, nós, do exterior. Suponhamos um ser colocado, em relação a nós, na posição em que estamos em relação à criança: ele julgará as nossas preocupações do mesmo ponto de vista, e as achará pueris.
Um carreteiro é insultado por outro: discutem e se batem. Se um grão-senhor for injuriado por um carreteiro não se julgará ofendido e não se baterá com ele. Por que? Porque se coloca fora da esfera: julga-se de tal modo superior que a ofensa não o atinge. Mas se descer ao nível do adversário, coloca-se por pensamento no mesmo meio e bater-se-á.
O Espiritismo nos mostra uma aplicação deste princípio, mas de outra importância nas suas conseqüências. Ele nos mostra a vida feita no que ela é, colocando-nos no ponto de vista da vida futura; pelas provas materiais que nos fornece, pela intuição clara, precisa, lógica que nos dá, pelos exemplos postos aos nossos olhos, transporta-nos pelo pensamento: a gente a vê e a compreende; não essa noção vaga, incerta, problemática, que nos ensinavam do futuro, e que, involuntariamente, deixava dúvidas; para o Espírita é uma certeza adquirida, uma realidade.
Faz ainda mais: mostra-nos a vida da alma, o ser essencial, porque é o ser pensante, remontando no passado a uma época desconhecida, estendendo-se indefinidamente pelo futuro, de tal sorte que a vida terrena, mesmo de um século, não passa de um ponto nesse longo percurso. Se a vida inteira é tão pouca coisa comparada com a vida da alma, que serão os acidentes da vida? Entretanto o homem, colocado no centro da vida, com esta se preocupa como se fosse durar sempre. Para ele tudo assume proporções colossais: a menor pedra que o fere afigura-se-lhe um rochedo; uma decepção o desespera; um revés do abate; uma palavra o enfurece. Com a visão limitada ao presente, àquilo que toca imediatamente, exagera a importância dos menores acidentes; um negócio que falha lhe tira o apetite; uma questão de precedência é um negócio de Estado; uma injustiça o põe fora de si. Triunfar é o fim de seus esforços, o objetivo de todas as suas combinações; mas, quanto à maioria delas, que é o triunfo? Será, se se não possuem os meios de vida, criar por meios honestos uma existência tranqüila? Será a nobre emulação de adquirir talento e desenvolver a inteligência? Será o desejo de deixar, depois de si, um nome justamente honrado e realizar trabalhos úteis para a humanidade? Não. Triunfar é suplantar o vizinho, eclipsá-lo, afastá-lo, mesmo derrubá-lo, para lhe tomar o lugar. E para tão belo triunfo, que talvez a morte não deixe aproveitar vinte e quatro horas, quantas preocupações e quantas tribulações! Quanto talento por vezes despendido e que poderia ter sido melhor empregado! Depois, quanta raiva, quanta insônia se se não triunfar! que febre de inveja causa o sucesso de um rival! Assim, culpam a má estrela, a sorte, a chance fatal, ao passo que a má estrela as mais das vezes é a inabilidade e a incapacidade. Na verdade dir-se-ia que o homem assume a tarefa de tornar os mais penosos possíveis os poucos instantes que deve passar na terra e dos quais não é o senhor, pois jamais tem certeza do dia seguinte.
Como tudo isto muda de aspecto quando, pelo pensamento, sai o homem do vale estreito da vida terrena e se eleva na radiosa, esplêndida e incomensurável vida de além-túmulo! Como então tem piedade dos tormentos que se criou à vontade! Como então lhe parecem mesquinhas e pueris as ambições, a inveja, as susceptibilidades, as vãs satisfações do orgulho! É como se na idade madura considerasse os brincos infantis; do topo da montanha olhar criaturas no vale. Partindo deste ponto de vista, tornar-se-á voluntariamente joguete de uma ilusão? Não. Ao contrário, estará na realidade, no verdadeiro, e para si a ilusão é ver as coisas do ponto de vista terreno. Com efeito, não há ninguém na terra que não ligue mais importância àquilo que, para si, deve durar muito mais do que ao que deve durar um dia, que não prefira uma felicidade duradoura a uma efêmera. A gente se inquieta pouco com um aborrecimento passageiro; acima de tudo o que interessa é a situação normal. Se, pois, elevarmos o pensamento de maneira a abarcar a vida da alma, chegaremos forçosamente a essa conseqüência: ver a vida terrena como uma estação passageira; a vida espiritual como vida real, porque indefinida; que é ilusão tomar a parte pelo todo, isto é, a vida do corpo, apenas transitória, pela vida definitiva. O homem que apenas considera as coisas do ponto de vista terreno é como aquele que, estando dentro de casa, nem pode julgar da forma, nem da importância da construção: julga sob falsas aparências, porque não vê tudo. Ao passo que aquele que a vê de fora julga direito, porque pode observar o conjunto.
Dir-se-á que para ver as coisas desta maneira é necessária uma inteligência fora do comum, um espírito filosófico que se não encontra nas massas; de onde necessário seria concluir que com raras exceções a humanidade arrastar-se-á sempre no terra a terra. É um erro. Para identificar-se com a vida futura não é necessária uma inteligência excepcional, nem grandes esforços de imaginação, pois cada um traz consigo a intuição e o desejo; mas a maneira pela qual geralmente a apresentam é muito pouco sedutora, porque oferece como alternativa as chamas eternas ou a contemplação perpétua, o que leva muitos a preferir o nada. Daí a incredulidade absoluta de uns e a dúvida no maior número. O que faltou até agora foi a prova irrecusável da vida futura; e essa prova vem dá-la o Espiritismo, não mais por uma vaga teoria, mas por fatos patentes. Mais ainda: ele a mostra tal qual a razão mais severa a pode aceitar, porque tudo explica, tudo justifica, resolvendo todas as dificuldades. E porque é claro e lógico, está ao alcance de todos. É por isso que o Espiritismo reconduz à crença tanta gente que o havia perdido. Diariamente demonstra a experiência quantos simples operários e camponeses sem instrução compreendem sem esforço esse raciocínio; colocam-se tanto mais à vontade nesse novo ponto de vista, quanto mais nele acham, como todas as criaturas infelizes, uma imensa consolação, e a única compensação possível em sua existência penosa e laboriosa.
Se se generalizasse essa maneira de encarar as coisas terrenas, não teria como conseqüência destruir a ambição, estimulante dos grandes empreendimentos, dos mais úteis trabalhos, mesmo das obras de gênio? Se a humanidade inteira sonhasse apenas com a vida futura tudo não periclitaria neste mundo? Que fazem os monges nos conventos, se não ocupar-se exclusivamente do céu? Ora, o que seria da terra se todos se fizessem monges?
Um tal estado de coisas seria desastroso e os inconvenientes maiores do que se supõe, porque os homens com isso perderiam na terra mas nada ganhariam no céu; mas os resultados do princípio que expomos é completamente outro para quem quer que não o compreenda pela metade, conforme vamos explicar.
A vida corpórea é necessária ao Espírito, ou à alma, o que é a mesma coisa, para que possa realizar neste mundo material as funções que lhe são designadas pela Providência: é uma das engrenagens da harmonia universal. A atividade que é forçado a desenvolver nas funções que exerce sem o suspeitar, crendo agir por si mesmo, ajuda o desenvolvimento de sua inteligência e lhe facilita o adiantamento. A felicidade do Espírito na vida espiritual é proporcional ao seu progresso e ao bem que pôde fazer como homem, do que resulta que, quanto maior importância adquire a vida espiritual aos olhos do homem, mais sente este a necessidade de fazer o que é necessário para se garantir o melhor lugar possível. A experiência dos que viveram vem provar que uma vida terrena inútil ou mal empregada não tem proveito para o futuro, e que aqueles que não buscam aqui senão as situações materiais as pagam muito caro, quer por sofrimentos no mundo dos Espíritos, quer pela obrigação em que se acham de recomeçar sua tarefa em condições mais penosas que as do passado, e tal é o caso dos que sofrem na terra. Assim, considerando as coisas deste mundo do ponto de vista extracorpóreo, longe de ser estimulado à despreocupação e à ociosidade, o homem compreende melhor a necessidade do trabalho. Partindo do ponto de vista terreno, essa necessidade é uma injustiça aos seus olhos, quando se compara aos que podem viver sem nada fazer: tem-lhes ciúme e inveja. Partindo do ponto de vista espiritual, essa necessidade tem uma razão de ser, uma utilidade, e ele a aceita sem murmurar, pois compreende que sem o trabalho ficará indefinidamente na inferioridade e privado da facilidade suprema a que aspira e que não poderá alcançar se se não desenvolver intelectual e moralmente. A esse respeito parece que muitos monges compreendem mal o objetivo da vida terrena e, ainda menos, as condições da vida futura. Pelo seqüestro, privam-se dos meios de se tornarem úteis aos seus semelhantes e muitos dos que hoje se acham no mundo dos Espíritos confessam-nos que se enganaram redondamente e que sofrem as conseqüências de seu erro. Tal ponto de vista tem para o homem outra enorme conseqüência imediata: é a de lhe tornar mais suportáveis as tribulações da vida. É muito natural, e ninguém o proíbe de procurar o bem-estar e a sua existência terrena ser o mais agradável possível. Mas, sabendo que aqui está apenas momentaneamente, que um futuro melhor o aguarda, pouco se atormenta com as decepções que experimenta; e, vendo as coisas do alto, recebe os reveses com menor amargor; fica indiferente às embrulhadas de que é vítima, por parte dos ciumentos e invejosos; reduz a seu justo valor os objetos de sua ambição e coloca-se acima das pequenas susceptibilidades do amor-próprio. Liberto das preocupações criadas pelo homem que não sai da esfera estreita, pela perspectiva grandiosa que se desdobra aos seus olhos, é, ao contrário, mais livre para se entregar a um trabalho proveitoso para si próprio, e para os outros. Os vexames, as diatribes, as maldades de seus inimigos não lhe são mais que nuvens imperceptíveis num imenso horizonte; não se inquieta por elas mais do que pelas moscas que zumbem aos ouvidos, pois sabe que em breve estará livre. Assim, todas as pequenas misérias que lhe suscitam deslizam por ele como água pelo mármore. Colocado do ponto de vista terreno irritar-se-ia e talvez se vingasse; do ponto de vista extraterreno, ele as despreza como os salpicos de lama de um caminhante inadvertido. São os espinhos lançados no caminho e pelos quais passa, mesmo sem se dar ao trabalho de os afastar, para não moderar a marcha para um objetivo mais sério que se propõe atingir. Longe de mal querer aos seus inimigos, ele lhes agradece por fornecerem oportunidade para exercitar a paciência e a moderação, em proveito de seu progresso futuro, ao passo que perderia os seus frutos se descesse a represálias. Ele os lamenta por tanto trabalho inútil e diz que são aqueles próprios que caminham sobre espinhos, com as preocupações que têm de fazer o mal. Tal é o resultado da diferença do ponto de vista sob o qual se encara a vida: um nos dá balbúrdia e ansiedade; outro a calma e a serenidade. Espíritas que experimentais decepções, em pensamento deixai um instante a terra: subi às regiões do infinito e mirai-as do alto: vereis o que serão elas.
Por vezes dizem: Vós que sois infelizes, olhai para baixo e não para cima; vereis ainda mais infelizes. É muito certo. Mas muitos dizem que o mal alheio não nos cura. O remédio por vezes está na comparação e para alguns é difícil não olhar para cima sem dizerem: “Porque têm estes o que não tenho?” Ao passo que se se colocassem no ponto de vista de que falamos, a que em pouco seremos forçados, ficariam muito naturalmente acima daqueles aos quais poderiam invejar porque assim os maiores pareceriam muito pequenos. Lembramo-nos de ter assistido, há uns quarenta anos, no Odéon, a uma peça em um ato, chamada Os Efêmeros, já não nos lembramos de que autor. Mas, embora jovem, tivemos uma forte impressão. A cena se passava no país dos Efêmeros, cujos habitantes vivem apenas vinte e quatro horas. No espaço de vinte e quatro horas, vimo-los passarem do berço à adolescência, à mocidade, à idade madura, à velhice, à decrepitude e à morte. Nesse intervalo realizam todos os atos da vida: batismo, casamento, negócios civis e governamentais, etc.; mas como o tempo é curto e as horas contadas, é preciso pressa; tudo se faz com prodigiosa rapidez, o que não os impede de fazerem intrigas e de sofrerem muito para satisfazerem as ambições e suplantar os outros. Como se vê, a peça encerra um conteúdo profundamente filosófico e involuntariamente o espectador, que num instante via desenrolar-se uma existência bem cheia em todas as suas fases, raciocina: Que gente boba! fazer tanto mal para uma vida tão curta! Que é o que lhes resta dessa balbúrdia de uma ambição de algumas horas? Não seria melhor viver em paz?
Eis aí um perfeito quadro da vida humana, vista do alto. Entretanto a peça quase não sobreviveu os seus heróis. É incompreensível. Se o autor ainda vivesse, o que ignoramos, talvez hoje fosse Espírita.
(Allan Kardec - R. E. 1862

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