14 de fevereiro de 2009

“HÁ TEMPO PARA CHORAR... MAS NINGUÉM TEM TEMPO PARA CHORAR COM A GENTE...”


Eu tinha mais ou menos doze anos, era moleque cheio de bicho de pé no pé, estava nas terras de Pernambuco e toda minha família resolveu ir para Recife. Eu estava muito aborrecido, porque a minha vontade não era ficar ali. Nós morávamos num barreirão, para andar era horrível. Naquela época chovia muito no Nordeste, era tudo verde, bonito, dava muita cana, milho e mandioca nunca faltava no tempo da seca. Hoje é que não chove mais.
Estava eu lá e fui trabalhar na venda do Sr Nunico, a qual era boa e bem abastecida. Perto da venda, montaram um circo grande e fiquei doido por causa desse circo, só que não tinha como eu assistir o espetáculo, porque trabalhava pela rapadura, pela farinha, pelo feijão, pela carne de sol e pelo torresmo. Era só isso, tudo muito regrado e ainda apanhava quando em casa. Era uma tristeza!...
Tive um recurso... Cheguei na porta do circo e disse:
-Depois que o Sr. Nunico fechar a venda, tem como eu trabalhar aqui para, então, ver o espetáculo?
Um homem meio triste, virou para mim e disse:
-Se você quiser trabalhar de amarra-cachorro?!...
-Amarra-cachorro?... Vou ter que fazer o que? Amarrar os cachorros aqui?
-Não! Amarra cachorro faz o que a gente manda e apanha sem reclamar.
-Mas se for para ver o palhaço Pururuca, que dizem ser o palhaço melhor do mundo, que conta coisas tão lindas, eu quero!
Ele disse:
-Você gosta do palhaço Pururuca? Você já o viu?
-Não! Mas vocês já fizeram espetáculo e eu fiquei sabendo que o palhaço Pururuca é muito bom.
Ele falou:
-Você está falando com ele.
-Você é o palhaço Pururuca?
-Eu sou! Depois que pinto a cara, coloco as minhas roupas, eu fico diferente. Não tem graça nenhuma eu ficar fazendo graça para um menino como você, que quer ser só amarra-cachorro na vida. Você não quer fazer mais nada não?
-Eu não sei, mas acho que quando eu estiver mais velho vou cair no cangaço.
-Cruz credo, oh! cabra da peste! Você não serve não?
-A minha família é pobre, não vou conseguir ser soldado, não vou conseguir estudar, o que vai restar para mim nesse mundo de Deus? Vou ter que me defender. Não estou aqui me defendendo no circo?
-Mas o que você vai ser no circo?
-Ser amarra-cachorro! Não tenho coragem de largar minha mãe. Só saio de casa depois que minha mãe e meu pai morrerem, antes disso, não saio de casa de jeito nenhum.
-Menino! Toma jeito nessa cabeça, onde se viu, cair no cangaço? Você ficou doido! Vai ser amarra-cachorro de qualquer circo.
Eu falei:
-Olha, deixa eu ver o Pururuca? Eu quero ver o Pururuca lá no picadeiro.
Ele falou:
-Você vai ser amarra cachorro, vai limpar o circo, arrumar as cadeiras, vai fazer tudo que mandarmos, aí deixo você ficar lá no fundo do picadeiro vendo-me e ajudando-me. Vou lhe arrumar uma roupa vermelha para me ajudar.
Foi meu dia e minha noite de glória.
Eu fiquei ali, tinha que trabalhar no Sr. Nunico, mas chegava a noite e falava:
-Sr. Nunico, posso ir? Estou no circo.
Ele falou:
-Se trabalhar dobrado depois que o circo for embora durante um mês, eu deixo.
Trato feito, trato cumprido.
Fui eu para lá. Dava 8 horas, estava eu no circo, todo iluminado por lampião e eu vendo o Pururuca. Era minha alegria. Ninguém e nada era igual a ele. Quando chegava fazendo suas graças, como eu ficava feliz, como eu ria. Quando ele mandava eu pegar as coisas e levar para ele, eu me sentia o rei dos reis.
Eles ficaram uns vinte dias na cidade. Foram vinte dias de glória, de alegria, de satisfação. Mas perto deles irem embora, uns três dias antes deles seguirem, a mulher do Pururuca estava para dar à luz o primeiro filhinho deles. Ele estava nervoso. Tinham chamado uma parteira, mas o espetáculo não podia parar. E ele perguntava ao público:
-Então, o palhaço o que é?
E todos respondiam:
-É ladrão de mulher!
Mentira! Pururuca não era ladrão de mulher nenhuma. A mulher dele estava lá, numa tenda, passando os maiores apuros para dar à luz ao primeiro filhinho. Era uma moça bonita, trabalhava o dia todo, alisava a barriga e dizia:
-Aqui tem um Pururuquinha!
Eu achava uma graça e o Pururuca dizia:
-Se Deus quiser, meu filho quando crescer não vai ser palhaço, nem polícia, nem cangaceiro. Vai ser um homem de fé.
E na noite em que o circo estava lotado, pois era a sua despedida, a mulher do Pururuca, que já estava duas noites com a parteira, deu início ao trabalho de parto e o Pururuca estava na hora de entrar no picadeiro. O dono do circo falando:
-Pururuca, eu sei que você tem seus problemas, mas o espetáculo continua. Quem é artista não pode chorar e nem faltar. Só morto! Você pare de pensar em sua mulher, porque tudo quanto é mulher passa por isso.
-Mas eu tenho a minha mulher!
-Vai dar tudo certo!
Uma hora depois, quando os trapezistas já tinham saído, as moças estavam cantando e a parteira chegou. O Pururuca de cara pintada, calça larga, falou:
-E então? Não ouvi o neném chorar.
Ela disse:
-Pururuca, quem vai chorar, infelizmente, é você. A sua mulher e o neném não escaparam. Foi hemorragia demais, foi um parto muito difícil. Vou ter que arrumá-la agora, ou se você quiser entrar para vê-la, pode entrar.
E o dono do circo dizia:
-E então Pururuca, vem ou não vem?
Pururuca enxugou a lágrima que caia, segurou a parteira no ombro e falou:
-Arrume-a, eu quero vê-la bem bonita.
Ele foi para o picadeiro. E ninguém riu tanto com o Pururuca como naquela noite. Ninguém bateu mais palmas para o Pururuca, como naquela noite.
Era a noite de despedida do circo, que tinha que deixar uma imagem boa, pois quando lá voltassem, as pessoas teriam a certeza de que o espetáculo era mesmo bom.
Era a última noite do Pururuca ao lado da sua mulher e do Pururuquinha, que não chegou a nascer.
Meus irmãos, a vida é assim... Cheia de alegrias e tristezas. Principalmente o artista que aprende a rir chorando, aprende a fazer o espetáculo de cada noite, com o coração amargurado.
Aquele que quiser viver e vencer no mundo, têm que ser também como o artista; que deixa a dor bater no peito e não faz ninguém pagar por ela, que é só sua e que carrega na alma.
Quantas são as casas que nós chegamos e o homem aborrecido com os problemas do serviço, briga com a mulher, bate nos filhos. Quantas mulheres aborrecidas, cansadas com as suas labutas do dia-a-dia, o marido chega, ela o xinga, briga com a vizinha, bate nos filhos...
Nós temos que ver que a hora para chorarmos, é toda hora, mas que temos que fazer da vida um momento feliz, um momento de amor, um momento de picadeiro, onde se faz palhaçada, mas que tem a vida, o sofrimento da gente.
Quantas vezes vocês foram no circo e viram o palhaço gargalhar, gritar? Vocês pensaram alguma vez que aquele palhaço pode estar doente? Pode trazer dentro de si um câncer? Pode ter no mundo uma filha perdida? Pode estar ali por ter perdido toda família?
O Pururuca me deu uma grande lição que me acompanhou pela vida a fora:
"Que há tempo para chorar... Mas ninguém tem tempo para chorar com a gente." As pessoas só querem rir com a gente, chorar, não querem. No momento de chorar, choramos sozinhos, no nosso canto.
Por isso aprendam a chorar com alegria no coração, lembrando que às vezes a pessoa que mais sorri é aquela que mais esconde a dor dentro do coração.
Que o espetáculo da terra continua e às vezes aquele que é dono do espetáculo, é aquele que mais sofre, mais se sacrifica, mais chora, é aquele que mais sorri.
Todos vocês aprendam que a vida continua. Temos que lutar, que aprender cada dia as lições que as pessoas nos ensinam. E o Pururuca enterrou naquela terra a sua esposa tão querida, o seu filhinho e foi pelo mundão a fora:
-Hoje tem espetáculo?
-Tem sim sinhô!
-E o palhaço o que é?
-É ladrão de mulher!
Mentira! O palhaço é o grande dono do espetáculo da vida. Só ele esconde a tristeza no camarim e vai para o picadeiro fazendo todo mundo alegre.
Um dia eu estava no pátio do Nosso Lar, chegando de uma caravana, quando eu vi um homem muito triste sentado lá, olhei e disse:
-Esse homem está meio velho mas me lembra alguém.
Quando conheci Pururuca eu era menino. Aí, me dirigi a ele:
-Escute, como o senhor se chama?
-Antônio.
-Sua voz não me é estranha.
-Eu não fui nada, não sou nada, fui um palhaço na terra.
Quando ele falou: Fui um palhaço na terra, eu disse:
-Pururuca! Você é o Pururuca?
-Onde você me conheceu?
-Você se lembra do amarra-cachorro, da venda do Sr. Nunico?
-Eu não! Foram tantos amarra-cachorro pela vida, que eu não me lembro.
-Por que você está triste, Pururuca? Você fazia todo mundo alegre.
-Porque minha vida foi triste. Os outros é que sorriam. Mas eu nunca sorri, eu sempre chorei.
-Ah, Pururuca! Tenho um serviço para você. Tem uma colônia de meninos que vieram da Terra, todos deixaram seus pais chorando, todos choram de saudades. Estão num pavilhão, onde muitos morreram de câncer, leucemia, acidente. Todos estão lá precisando de alegria. Você não quer ser a alegria deles, oh! Pururuca?
-Mas eu já estou velho.
-Nós damos um jeito na sua cara. Você não sabe que aqui nós reformamos tudo? Aqui é um reformatório , reforma por fora e por dentro.
-Se você me arrumar uma roupa, quem sabe se não dou uma recordada em tudo aquilo que fiz? Eu posso alegrar a meninada sim, só que eu preciso da autorização do superior. Aqui a gente só tem superior... Superior...
-Você espera? Dá um tempo, que eu vou ver isso.
E entrei com o pedido no Ministério para ver se o Pururuca poderia realizar um trabalho de ajudar a criançada do pavilhão, os meninos doentes.
E armamos lá um circo colorido com pipocas, algodão doce, com chocolates.
Um cirurgião plástico que era daqueles experientes em cirurgia fluídica, reformou a cara do Pururuca. Ele remoçou, ficou novo, vestiu a roupa larga que fizeram para ele e foi fazer o seu espetáculo. Ele chegou no circo com muita alegria, que, em especial, só tinha meninos com olhinhos tristes, que tinham saudades do papai e da mamãe. Ele chegou e gritou bem forte:
-Hoje tem espetáculo?
-Tem sim sinhô.
-E o palhaço, o que é?
-Ladrão de mulher.
-Mentira! É paizão de todas as crianças que estão chorando no céu.
-E o palhaço, o que é?
-É amigo de menino, é amigo de menina, é o patrono da alegria, é o patrono da fé.
-Hoje tem espetáculo meninada?
-Tem sim sinhô.
-Com Jesus Nosso Senhor!
Autor Desconhecido

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