31 de março de 2009

ANTONIO LUIZ SAYÃO

Nasceu na cidade do Rio de Janeiro a 12 de abril de 1829 e retornou à Espiritualidade no dia 31 de março de 1903, próximo a completar 74 anos de idade
Pioneiríssimo trabalhador do Espiritismo no Rio de Janeiro, quiçá do Brasil, foi um dos fundadores do Grupo dos Humildes, depois Grupo Ismael da Federação Espírita Brasileira, do qual foi diretor. Sayão tornou-se espírita no ano de 1878 e como autêntico trabalhador e colaborador de Jesus e Ismael, começou de imediato nas atividades, destacando-se entre os grandes pioneiros do Espiritismo. Foi o Grupo Ismael, verdadeira fortaleza moral, que levantou o ânimo dos trabalhadores da FEB e conseguiu fazê-la a Casa Máter do Espiritismo no Brasil, arregimentando homens da envergadura moral de Bittencourt Sampaio, Bezerra de Menezes, Ewerton Quadros, Dias da Cruz e tantos outros baluartes da Boa Nova. A vida de Sayão foi um exemplo de amor e trabalho. Escritor, Jornalista, Pregador, dedicado à assistência aos necessitados e itimorato propagador da Doutrina.

31.03.1969 - DESENCARNE DE ALLAN KARDEC


"É sob o golpe da dor profunda causada pela partida prematura do venerável fundador da Doutrina Espírita que iniciamos uma tarefa, simples e fácil para as suas mãos sábias e experimentadas, mas cujo peso e gravidade nos acabrunhariam, se não contássemos com o concurso eficaz dos bons Espíritos e com a indulgência dos nossos leitores.
Quem, entre nós, poderia, sem ser tachado de presunçoso, gabar-se de possuir o espírito de método e de organização com que se iluminam todos os trabalhos do mestre? Só a sua poderosa inteligência poderia concentrar tantos materiais diversos, triturá-los, transformá-los, para a seguir os espalhar como um orvalho benfazejo sobre as almas desejosas de conhecer e de amar!Incisivo, conciso, profundo, ele sabia agradar e fazer-se compreender, numa linguagem ao mesmo tempo simples e elevada, tão afastada do estilo familiar quanto das obscuridades da Metafísica.
Multiplicando-se incessantemente, até aqui ele havia atendido a tudo. Entretanto, o diário crescimento de suas relações e o incessante desenvolvimento do Espiritismo o fizeram sentir a necessidade de contar com alguns auxiliares inteligentes, e ele preparava, simultaneamente, a organização nova da Doutrina e de seus trabalhos, quando nos deixou para ir a um mundo melhor, colher o prêmio da missão cumprida e reunir os elementos para uma nova obra de devotamento e de sacrifício.Ele era só!... Nós nos chamaremos legião, e, por mais fracos e inexperientes que sejamos, temos a íntima convicção de que nos manteremos à altura da situação se, partindo dos princípios estabelecidos e de uma evidência incontestável, nos dedicarmos a executar, tanto quanto nos seja possível e conforme as necessidades do momento, os projetos futuros que o próprio Sr. Allan Kardec se propunha a realizar.
Enquanto seguirmos a sua via e todas as boas vontades se unirem num esforço comum, para o progresso e a regeneração intelectual e moral da Humanidade, o Espírito do grande filósofo estará conosco e nos ajudará com sua poderosa influência. Possa ele suprir a nossa insuficiência e possamos tornar-nos dignos de seu concurso, consagrando-nos à obra com o mesmo devotamento e sinceridade, se não com tanta ciência e inteligência!
Em sua bandeira ele havia inscrito estas palavras: trabalho, solidariedade, tolerância. Como ele, sejamos infatigáveis; conforme seus desejos, sejamos tolerantes e solidários e não temamos seguir o seu exemplo, pondo vinte vezes sobre a mesa os princípios ainda em discussão. Apelamos ao concurso e às luzes de todos. Tentaremos avançar com mais certeza do que velocidade e nossos esforços não serão infrutíferos se, como estamos persuadidos - e de que seremos os primeiros a dar exemplo - cada um tratar de cumprir o seu dever, pondo de lado qualquer questão pessoal, a fim de contribuir para o bem geral.
Não poderíamos entrar sob melhores auspícios na nova fase que se abre para o Espiritismo, do que dando a conhecer aos nossos leitores, em rápido esboço, o que foi toda a sua vida, o homem íntegro e honrado, o sábio inteligente e fecundo, cuja memória se transmitirá aos séculos futuros, cercada da auréola dos benfeitores da Humanidade.
Nascido em Lyon, a 3 de outubro de 1804, de uma antiga família que se distinguia na magistratura e na tribuna jurídica, o Sr. Allan Kardec (Hippolyte Léon Denizard Rivail) não seguiu esta carreira. Desde a primeira juventude sentia-se atraído para o estudo das Ciências e da Filosofia.
Educado na Escola de Pestalozzi, em Iverdun, Suíça, tornou-se um dos mais eminentes discípulos do célebre professor e um dos propagadores zelosos de seu sistema de educação, que exerceu uma grande influência sobre a reforma dos estudos na Alemanha e na França.
Dotado de uma inteligência notável e atraído para o ensino por seu caráter e suas aptidões especiais, desde a idade de quatorze anos ensinava o que sabia aos seus discípulos que tinham aprendido menos que ele. Nesta escola se desenvolveram as idéias que, mais tarde, deveriam colocá-lo na classe dos homens avançados e dos livre-pensadores.
Nascido na religião católica, mas educado em país protestante, os atos de intolerância que a propósito teve de sofrer, desde cedo o fizeram conceber a idéia de uma reforma religiosa, na qual trabalhou em silêncio durante longos anos, com o pensamento de chegar a uma unificação de crenças; mas lhe faltava o elemento indispensável à solução deste grande problema.
Mais tarde o Espiritismo lhe veio fornecer esse elemento e imprimir uma direção especial aos seus trabalhos.Terminados os estudos, voltou para a França. Dominando a fundo a língua alemã, traduziu para a Alemanha diversas obras de educação e de moral e, o que é característico, as obras de Fénelon, que o haviam seduzido particularmente.
Era membro de várias sociedades científicas, entre outras, da Academia Real de Arras que, em seu concurso de 1831, o laureou por uma memória notável sobre esta questão: "Qual o sistema de estudos mais em harmonia com as necessidades da época?"
De 1835 a 1840, em seu domicílio, à rua de Sèvres, fundou cursos gratuitos de Química, Física, Anatomia comparada, Astronomia etc; empreendimento digno de elogios em todos os tempos, mas sobretudo numa época em que um pequeníssimo número de inteligências se aventurava a entrar por esse caminho.
Constantemente preocupado em tornar atraentes e interessantes os sistemas de educação, inventou, ao mesmo tempo, um método engenhoso para ensinar a contar e um quadro mnemônico da História da França, tendo por objetivo fixar na memória as datas dos acontecimentos notáveis e das grandes descobertas que ilustraram cada reinado.
Entre as suas numerosas obras de educação, citaremos as seguintes:
Plano proposto para o melhoramento da instrução pública (1828);
Curso prático e teórico de Aritmética, segundo o método de Pestalozzi, para uso dos professores e mães de família (1829);
Gramática Francesa Clássica (1831);
Manual dos exames para o título de capacidade; Soluções raciocinadas das questões e problemas de Aritmética e de Geometria (1846);
Catecismo gramatical da Língua Francesa (1848);
Programa dos cursos de Química, Física, Astronomia, Fisiologia, que professava no Liceu Polimático;
Ditados normais dos exames da Prefeitura e da Sorbonne, acompanhados de Ditados especiais sobre as dificuldades ortográficas (1849), obra muito estimada na época de seu aparecimento e da qual ainda recentemente ele tirava novas edições.
Antes que o Espiritismo viesse popularizar o pseudônimo Allan Kardec, tinha ele, como se vê, sabido ilustrar-se por trabalhos de natureza completamente diversa, mas tendo como objetivo esclarecer as massas e ligá-las cada vez mais à família e ao país.
Em 1850, desde que se tratou das manifestações dos Espíritos, o Sr. Allan Kardec entregou-se a observações perseverantes sobre esses fenômenos e empenhou-se principalmente em lhes deduzir as consequências filosóficas. Entreviu desde logo o princípio de novas leis naturais: as que regem as relações entre o mundo visível e o mundo invisível; reconheceu na ação deste último uma das forças da Natureza, cujo conhecimento deveria lançar luz sobre uma porção de problemas reputados insolúveis, e compreendeu o seu alcance do ponto de vista religioso.
Suas principais obras sobre esta matéria são:
O Livro dos Espíritos, para a parte filosófica, e cuja primeira edição apareceu a 18 de abril de 1857;
O Livro dos Médiuns, para a parte experimental e científica (janeiro de 1861);
O Evangelho Segundo o Espiritismo, para a parte moral (abril de 1864);
O Céu e o Inferno, ou a justiça de Deus segundo o Espiritismo (agosto de 1865);
A Gênese, Os Milagres e as Predições (janeiro de 1868);
A Revista Espírita, jornal de estudos psicológicos, coleção mensal começada a 1º de janeiro de 1858.
Fundou em Paris, a 1º de abril de 1858, a primeira Sociedade Espírita regularmente constituída, sob o nome de Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, cujo fim exclusivo é o estudo de tudo o que possa contribuir para o progresso desta nova Ciência.
A justo título o Sr. Allan Kardec se defende de haver algo escrito sob a influência de idéias preconcebidas ou sistemáticas: homem de um caráter frio e calmo, observou os fatos e de suas observações deduziu as leis que os regem; foi o primeiro a elaborar a sua teoria e a dispô-los num corpo metódico e regular. Demonstrando que os fatos falsamente qualificados de sobrenaturais estão submetidos a leis, fá-los entrar na ordem dos fenômenos da Natureza e assim destrói o último refúgio do maravilhoso, um dos elementos da superstição.
Durante os primeiros anos em que se cogitava dos fenômenos espíritas, essas manifestações eram antes objeto de curiosidade do que assunto para sérias meditações. O Livro dos Espíritos colocou o assunto sob um aspecto completamente novo. Abandonaram-se então as mesas girantes, que apenas haviam sido um prelúdio, voltando-se o interesse para um corpo de doutrina que abarcava todas as questões ligadas à Humanidade. Do aparecimento de O Livro dos Espíritos data a verdadeira fundação do Espiritismo, que até então se constituía apenas de elementos esparsos, sem coordenação, e cujo alcance não havia sido compreendido suficientemente; também a partir desse momento a doutrina chamou a atenção de homens sérios e tomou rápido desenvolvimento. Em poucos anos essas idéias encontraram numerosos aderentes em todas as camadas da sociedade e em todos os países. Este sucesso sem precedentes se deve sem dúvida às simpatias que essas idéias encontraram, mas é devido em grande parte à clareza, que é uma das características distintivas dos escritos de Allan Kardec.
Abstendo-se das fórmulas abstratas da Metafísica, o autor soube fazer-se ler sem fadiga, condição essencial para a vulgarização de uma idéia. Sobre todos os pontos da controvérsia, sua argumentação, de uma lógica cerrada, oferece pouca margem à refutação e predispõe à convicção. As provas materiais que o Espiritismo oferece da existência da alma e da vida futura tendem à destruição das idéias materialistas e panteístas. Um dos mais fecundos princípios desta doutrina, que decorre do precedente, é o da pluralidade das existências, já entrevisto por uma porção de filósofos antigos e modernos e, nestes últimos tempos, por Jean Reynaud, Charles Fourier, Eugéne Sue e outros, mas permanecendo apenas em estado de hipótese e de sistema, ao passo que o Espiritismo demonstra a sua realidade e prova que é um dos atributos essenciais da Humanidade. Deste princípio decorre a solução de todas as anomalias aparentes da vida humana, de todas as desigualdades intelectuais, morais e sociais. Assim, o homem sabe de onde vem, para onde vai, para o que está na Terra e porque sofre.
As idéias inatas se explicam pelos conhecimentos adquiridos em vidas anteriores; a marcha dos povos e da Humanidade, pela volta dos homens dos tempos passados, que revivem depois de haverem progredido; as simpatias e as antipatias, pela natureza das relações anteriores; essas relações, que ligam a grande família humana de todas as épocas, oferecem as próprias leis da Natureza, e não mais uma teoria, como base dos grandes princípios de fraternidade, de igualdade, de liberdade e de solidariedade universal.
Em vez do princípio: "fora da Igreja não há salvação", que alimenta a divisão e a animosidade entre as diversas seitas, e que tem feito correr tanto sangue, o Espiritismo tem por máxima: "fora da caridade não há salvação", isto é, a igualdade entre os homens perante Deus, a tolerância, a liberdade de consciência e a mútua benevolência.
Em vez da fé cega, que aniquila a liberdade de pensar, diz ele: "Não há fé inabalável senão aquela que pode olhar a razão face a face em todas as épocas da Humanidade. A fé necessita de uma base e esta base é a inteligência perfeita daquilo que se deve crer; para crer não basta ver, é necessário sobretudo compreender. A fé cega não é mais deste século; ora, é precisamente o dogma da fé cega que hoje faz o maior número de incrédulos, porque ela quer impor-se e exige a abdicação de uma das mais preciosas faculdades do homem: o raciocínio e o livre arbítrio". (O Evangelho Segundo o Espiritismo).
Trabalhador infatigável, sempre o primeiro e o último a postos, Allan Kardec sucumbiu a 31 de março de 1869, em meio aos preparativos de mudança de local, exigida pela extensão considerável de suas múltiplas ocupações.
Numerosas obras em via de conclusão, ou que aguardavam o tempo oportuno para aparecerem, virão um dia provar, ainda mais, a extensão e o poder de suas concepções.Morreu como viveu: trabalhando. Há longos anos sofria de uma moléstia do coração, que só podia ser combatida pelo repouso intelectual e alguma atividade material. Mas, inteiramente dedicado ao seu trabalho, recusava-se a tudo quanto pudesse tomar-lhe o tempo, em prejuízo de suas ocupações prediletas. Nele, como em todas as almas fortemente temperadas, a lâmina gastou a bainha.
O corpo tornava-se pesado e se recusava a servi-lo, mas o espírito, mais vivo, mais enérgico, mais fecundo, alargava cada vez mais o seu círculo de atividades.
Numa luta desigual, a matéria não podia resistir eternamente. Um dia foi vencida: o aneurisma rompeu-se e Allan Kardec caiu fulminado. Um homem deixava a Terra, mas um grande nome tomava lugar entre as ilustrações deste século, um grande Espírito ia retemperar-se no infinito, onde todos os que ele havia consolado e esclarecido impacientemente esperavam a sua chegada.
"A morte", dizia ele ainda recentemente, "a morte fere em golpes redobrados nas camadas ilustres!... A quem virá ela agora libertar?"
Ele foi, após tantos outros, retemperar-se no Espaço, buscar novos elementos para renovar o seu organismo gasto por uma vida de labores incessantes. Partiu com aqueles que serão os faróis da nova geração, para voltar em breve com eles a fim de continuar e concluir a obra deixada entre mãos devotadas.O homem não existe mais; a alma, porém, ficará entre nós. É um protetor seguro, uma luz a mais, um trabalhador infatigável que aumentou as Falanges do Espaço. Como na Terra, sem ferir a ninguém, a cada um saberá fazer ouvir os conselhos convenientes; dosará o zelo prematuro dos ardentes, ajudará os sinceros e os desinteressados e estimulará os mornos. Hoje ele vê e sabe tudo quanto previa ainda há pouco! Não mais está sujeito às incertezas, nem aos desfalecimentos. E nos fará partilhar da sua convicção, obrigando-nos a tocar a verdade com o dedo, indicando-nos o caminho, naquela linguagem clara, precisa, que o fez um padrão nos anais literários.
O homem não existe mais - repetimo-lo. Mas Allan Kardec é imortal e sua lembrança, seus trabalhos, seu Espírito estarão sempre com os que sustentarem, alto e firme, a bandeira que ele sempre soube fazer respeitar.
Uma individualidade poderosa construiu a obra; era o guia e a luz de todos. Na Terra, a obra tomará o lugar do indivíduo. Não nos uniremos em torno de Allan Kardec; estaremos unidos em torno do Espiritismo, tal qual ele o constituiu, e, por seus conselhos, sob sua influência, avançaremos a passos certos para as fases prometidas à Humanidade regenerada -
(Transcrito da Revista Espírita, Maio, 1869).

30 de março de 2009

O PROGRESSO DOS POVOS E A RENCARNAÇÃO

Texto muito esclarecedor - principalmente para quem ainda tem dúvidas quanto à reencarnação - extraído do Livro do Espíritos, questão 789.
“A Humanidade progride através dos indivíduos que se melhoram pouco a pouco e se esclarecem; quando estes se tornam numerosos, tornam a dianteira e arrastam os outros. De tempos em tempos surgem os homens de gênio, que lhes dão um impulso; e depois, homens investidos de autoridade, instrumentos de Deus, que em alguns anos a fazem avançar de muitos séculos.
O progresso dos povos faz ainda ressaltar a justiça da reencarnação. Os homens de bem fazem louváveis esforços para ajudar uma nação a avançar moral e intelectualmente; a nação transformada será mais feliz neste mundo e no outro, compreende-se; mas, durante a sua marcha lenta através dos séculos, milhares de indivíduos morrem diariamente, e qual seria a sorte de todos esses que sucumbem durante o trajeto? Sua inferioridade relativa os priva da felicidade reservada aos que chegam por último? Ou também a sua felicidade é relativa? A justiça divina não poderia consagrar semelhante injustiça. Pela pluralidade das existências, o direito à felicidade é sempre o mesmo para todos, porque ninguém é deserdado pelo progresso. Os que viveram no tempo da barbárie, podendo voltar no tempo da civilização, no mesmo povo ou em outro, é claro que todos se beneficiam da marcha ascendente.
Mas o sistema da unicidade da existência apresenta neste caso outra dificuldade. Com esse sistema, a alma é criada no momento do nascimento, de maneira que um homem é mais adiantado que outro porque Deus criou para ele uma alma mais adiantada. Por que esse favor? Que mérito tem ele, que não viveu mais do que o outro, e geralmente menos, para ser dotado de uma alma superior? Mas essa não é a principal dificuldade. Uma nação passa, em mil anos, da barbárie à civilização. Se os homens vivessem mil anos poderia conceber-se que, nesse intervalo, tivessem tempo de progredir; mas diariamente morrem criaturas em todas as idades, renovando-se sem cessar, de maneira que dia a dia as vemos aparecerem e desaparecerem. No fim de um milênio não há mais traços dos antigos habitantes; a nação, de bárbara que era tornou-se civilizada: mas quem foi que progrediu? Os indivíduos outrora bárbaros? Esses já estão mortos há muito tempo. Os que chegaram por último? Mas se a sua alma foi criada no momento do nascimento, essas almas não existiriam no tempo da barbárie e é necessário admitir, então, que os esforços desenvolvidos para civilizar um povo têm o poder, não de melhorar as almas imperfeitas, mas de fazer Deus criar outras almas mais perfeitas.
Comparemos esta teoria do progresso com a que nos foi dada pelos Espíritos. As almas vindas no tempo da civilização tiveram a sua infância, como todas as outras mas já viveram e chegam adiantadas em conseqüência de um progresso anterior; elas vêm atraídas por um meio que lhes é simpático e que está em relação com o seu estado atual. Dessa maneira, os cuidados dispensados à civilização de um povo não têm por efeito determinar a criação futura de almas mais perfeitas, mas atrair aquelas que já progrediram, seja as que já viveram nesse mesmo povo em tempos de barbárie, seja as que procedem de outra parte. Aí temos ainda a chave do progresso de toda a Humanidade. Quando todos os povos estiverem no mesmo nível quanto ao sentimento do bem, a Terra só abrigará bons Espíritos, que viverão em união fraterna. Os maus, tendo sido repelidos e deslocados irão procurar nos mundos inferiores o meio que lhes convém, até que se tornem dignos de voltar ao nosso meio, transformados. A teoria vulgar tem esta conseqüência: os trabalhos de melhoramento social só aproveitam às gerações presentes e futuras; seu resultado é nulo para as gerações passadas, que cometeram o erro de chegar muito cedo e só avançaram na medida de suas forças, sob a carga dos seus atos de barbárie. Segundo a doutrina dos Espíritos, os progressos ulteriores aproveitam igualmente a essas gerações, que revivem nas condições melhores e podem aperfeiçoar-se no seio da civilização.”

29 de março de 2009

SIMONETTI RESPONDE 8 QUESTÕES SOBRE ASTROLOGIA

01 - Os astros governam nossa vida?
Richard Simonetti: Apenas no imaginário popular, sempre propenso a aceitar fantasias sobre os mistérios do destino humano. Há pessoas especializadas em ler o nosso futuro na borra do café, ninguém perde dinheiro apostando na ingenuidade humana.
02 - Mas a Astrologia é milenariamente cultivada, situada como uma complexa ciência…
Simonetti: Para os sonhadores… Astronomia, esta sim, uma ciência, demonstra que os movimentos dos astros não guardam a mínima relação com o destino das pessoas.
03 - O fato de nascermos sob determinado signo, uma conjunção de astros no céu, no dia de nosso nascimento, não influi, de certa forma, em nossa personalidade, em nossa maneira de ser?
Simonetti: Nossa personalidade é fruto de experiências pretéritas, em vidas anteriores. Admitir que o indivíduo possa ser manso ou um troglodita, ter ouvido afinado ou não saber distinguir um fá de um dó, ter vocação para o estudo ou odiar livros, por influência astrológica é algo tão extravagante quanto a doutrina das graças, segundo a qual Deus teria seus escolhidos para a salvação. E a justiça, onde fica?
04 - Como explicar o fato de que os horóscopos definem o perfil psicológico da pessoa, de conformidade com seu signo?
Simonetti: O perfil psicológico no horóscopo é feito de generalidades, as pessoas sempre se encaixam em algumas características apresentadas. Se consultarmos os doze signos do zodíaco verificaremos que em todos há algo de nossa personalidade.
05 - E quanto ao dia-a-dia? Há pessoas que lêem diariamente seu horóscopo com boa margem de acertos.
Simonetti: Também é feito de generalidades. Algo como dar tiros no escuro, alguns atingirão o alvo. Considere, ainda, que sob influência do horóscopo as pessoas criam condicionamentos. Digamos que eu leia que o dia não me será favorável; terei dissabores e contrariedades. Admitindo essa idéia assumirei uma postura negativa que me levará a ver dissabores e contrariedades nas rotinas diárias e até contribuir para que aconteçam.
06 - E poderia ser o contrário?
Simonetti: Exatamente. Se eu me convenço, porque li no horóscopo, de que meu dia será maravilhoso, assim tenderá, porquanto estarei estimulado a cultivar o bom humor, convicto de que tudo correrá bem.
07 - Seria tudo condicionado ao poder de nossa mente?
Simonetti: Isso é elementar. Por isso a recomendação basilar do oráculo de delfos não é: “homem, conhece a astrologia”. Recomenda “homem, conhece-te a ti mesmo”. Na medida em que nos aprofundarmos nesse imenso universo que é a nossa alma, decifraremos com muito mais propriedade o nosso destino.
08 - E a opinião do Espiritismo?
Simonetti: No livro A Gênese, capítulo 7, Allan Kardec destaca a impropriedade da Astrologia, abordando fatos científicos. A pá de cal sobre o assunto está na questão 867, de O Livro dos Espíritos. Pergunta o codificador: “Donde vem a expressão: Nascer sob uma boa estrela?” Respondem os espíritos mentores, incisivamente: “Antiga superstição, que prendia às estrelas os destinos dos homens. Alegoria que algumas pessoas fazem a tolice de tomar ao pé da letra”.

28 de março de 2009

É HOJE


O Prefeito Eduardo Paes participou na manhã desta quarta-feira, dia 28, do lançamento no Brasil da Hora do Planeta, um movimento mundial de combate ao aquecimento global, e anunciou a adesão da Cidade do Rio de Janeiro no evento, promovido pelo World Wildlife Foundation (WWF-Brasil). A solenidade foi realizada no Palácio da Cidade, em Botafogo, e teve a presença de autoridades municipais e federais, representantes do WWF-Brasil, além de artistas e convidados.

O Rio de Janeiro será a primeira cidade brasileira a se engajar nesse ato simbólico que, no dia 28 de março, das 20h30 às 21h30, apagará as luzes de monumentos cariocas como o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar, o Parque do Flamengo, o Jockey Club Brasileiro e a orla de Copacabana, que terá a segurança reforçada pela Guarda Municipal e Polícia Militar. A iniciativa contará ainda com a participação da comunidade do Morro Dona Marta, em Botafogo.

Para o Prefeito, o Rio de Janeiro tem um papel fundamental na discussão do tema ambiental e esse ato é o primeiro de uma série de movimentos que a cidade do Rio de Janeiro vai passar a desenvolver, no sentido de recuperar o protagonismo na discussão dessa agenda ambiental urbana.
- A Prefeitura e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) estão discutindo o Programa Favela Bairro III, para que sejam feitas mudanças ambientais. Além disso, vamos trabalhar toda a parte de proteção dos Maciços da Pedra Branca e da Tijuca, que são peculiaridades do Rio de Janeiro, para recuperar esse papel de maior floresta urbana do mundo – afirmou.
A Hora do Planeta, que conta com a adesão de empresas, organizações não-governamentais, associações de bairro e pessoas em todo o mundo, tem o objetivo de conscientizar toda a população sobre a importância da adoção de novos hábitos, além de mobilizar a sociedade em torno da luta contra o aquecimento global e as mudanças climáticas. Este ano, a ação espera atingir mais de um bilhão de pessoas, em mil cidades ao redor do mundo.
- No Brasil, resolvemos lançar a campanha pela cidade do Rio de Janeiro, que é o ícone do país. O ato simbólico de apagar as luzes, ao contrário do que muitos podem pensar, não é uma iniciativa para poupar energia, mas uma forma de manifestação para conscientização e adesão a esse programa – explicou Álvaro de Souza, presidente do Conselho Diretor do WWF-Brasil.
O movimento Hora do Planeta, conhecido internacionalmente como Earth Hour, começou em 2007, em Sydney, na Austrália, quando 2,2 milhões de habitações e empresas desligaram as luzes por uma hora. Em 2008, cerca de 100 milhões de pessoas abrangendo 35 países participaram da iniciativa, que incluiu o desligamento das luzes de marcos históricos mundiais como o Coliseu de Roma; a Ponte Golden Gate, em São Francisco; e Opera House de Sydney, entre outros.

27 de março de 2009


ADVERSÁRIOS, NOSSOS MAIORES AUXILIARES

Muitas vezes, o amigo acata por respeito ou cala para o outro amigo. Mas o adversário, não… O adversário nos observa, não nos perdoa, não nos esquece, está sempre vigilante. E nesse processo de nos vigiar incessantemente as atitudes, as palavras, os gestos, ele nos ajuda muito.
Quantos são aqueles que foram auxiliados por obsessores implacáveis? Quantos encontram a porta da luz através da perseguição das trevas? Quantos foram aqueles que nos fizeram realmente modificar a nossa conduta, diante de reproches para o nosso orgulho e a nossa sensibilidade?
Muitas vezes, nos adornamos de humildade para esconder o orgulho latente dentro de nós… Muitas vezes, calamos para deixar gritar em alto e bom tom, a violência, a irrascibilidade, presentes dentro dos nossos corações… E, com tudo isso, através da observação permanente daqueles que se colocam na linha de adversários, nós vamos aprendendo a tolerância, a disciplina, o desprendimento, a renúncia e exercitamos o amor.Na verdade, na Terra, a dor é a nossa grande mestra, ela nos ensina muito. A Terra é a nossa grande escola, onde tudo aprendemos, e muitas lições que aprendemos no ontem, devemos esquecer no hoje, porque já avançamos mais e elas se tornam desnecessárias. A pessoa que progride nas escolas, nas universidades, jamais volta ao abecedário, ela segue, crescendo em conhecimentos.
Nós, nessa escola da vida, o que já aprendemos guardamos, para avançar em novos conhecimentos. E, o Grande Auxiliar, o Grande Mestre, o Grande Amigo será sempre Jesus. Ele, sim, é o médico de nossas almas, é alegria, é a enfermeira colaboradora que nos faz passar por estágios de recuperação, de tratamento, de aceitação.
Em todo esse processo, em que a vida nos coloca, verdade é que vamos aprendendo, sem nem perceber o quanto crescemos, o quanto avançamos, na senda do conhecimento, da caridade, da dedicação e do amor. Quando olhamos o que fomos antes do Espiritismo é que podemos avaliar o que o Espiritismo fez por nós, o que Jesus tem feito em nossas almas, em trabalho reconstrutivo, em trabalho amigo, fazendo-nos amigo dos nossos amigos e amigos dos adversários.
Nem sempre podemos ouvir sim, e nem sempre devemos ouvir não. Mas, o Mestre nos ensina o discernimento e, diante do discernimento, aprender a humildade.
Deparando com a humildade, nós crescemos e vamos trocar a moldura de nossas vidas de orgulho, para a efetiva realização do trabalho de burilamento espiritual dentro de nós.

26 de março de 2009

O PERISPÍRITO


"Há corpo animal e há corpo espiritual" diz São Paulo (1 Cor. 15:44).
Com efeito, esse corpo espiritual de São Paulo é o perispírito dos espíritas de hoje. O perispírito, aliás, não é coisa nova.
No Antigo Egito os sacerdotes ensinavam que além do ka", o Espírito, emanação divina, havia uma forma imaterial "sahu", o fantasma propriamente, que reproduzia exatamente os traços do corpo físico e que se manifestava aos encarnados.
Na Grécia antiga, a doutrina inspirada pelos hinos órficos ensinava: "Amai a luz, e não as trevas. Lembrai-vos da finalidade da vossa viagem. Quando as almas voltam ao mundo espiritual trazem marcadas sobre os seus corpos etéreos, em manchas horrendas, todas as faltas da sua vida e, para as apagar, é necessário voltar à Terra. Mas os puros e os fortes se vão para o sol de Dionísio".
Na Índia se fala também desse corpo espiritual, porque ele próprio se impõe como uma realidade incontestável.
Mas não desejamos deter-nos em detalhes nem em considerações dos antigos filósofos. Preferimos abordar rapidamente as importantes funções do perispírito no plano material, assim como as suas conseqüências no plano espiritual.
O corpo espiritual, isto é, o perispírito está em cada. um de nós intimamente ligado ao corpo físico e é tanto mais sutil quanto mais elevado se acha o ser na escala da perfectibilidade. Vaporoso para nós encarnados é, no entanto, bem grosseiro ainda para os desencarnados; contudo, os Espíritos purificados podem elevar-se com ele na atmosfera e transportar-se aonde queiram.
As suas funções no corpo físico são múltiplas e preside a todos os fenômenos fisiológicos da respiração, da alimentação e assimilação dos alimentos, extraindo toda a matéria aproveitável, afeiçoando-a a cada órgão e eliminando do corpo todos os elementos que lhe sejam inúteis ou nocivos. Com efeito, o nosso organismo é uma complicada máquina que funciona à nossa revelia, sem que, nem de leve, suspeitemos da sua complexidade.
Um elevado Espírito, respondendo numa sessão a um jornalista inglês que lhe perguntara sobre o perispírito, disse: "Tenho um corpo que é uma reprodução do que tive na Terra: as mesmas mãos, pernas e pés, que se movem como o fazem os vossos. Na Terra eu tinha o corpo físico interpenetrado do corpo etéreo que ora tenho. O etéreo é o corpo real e é cópia perfeita do corpo terreno. Por ocasião da morte, emergimos de nossa cobertura de carne e continuamos a nossa vida no mundo etéreo, funcionando aqui por meio do corpo etéreo, exatamente como funcionávamos na Terra, metidos no corpo físico. O corpo etéreo é aqui tão substancial para nós como o era o corpo físico quando vivíamos na Terra. Temos as mesmas sensações. Sentimos e vemos como na Terra. Embora não sejam materiais, conforme entendeis esta palavra, os nossos corpos têm forma, aspecto e expressão".
É ainda no perispírito que ficam registradas as nossas ações e os nossos atos, bons ou maus. De fato, todos os acontecimentos da nossa vida são maravilhosamente registrados em nosso perispírito, nos seus mínimos detalhes; nada se perde.
Segundo recente declaração do Dr. Wilder Penfield, diretor do Instituto de Neurologia de1 Montreal, Canadá, o nosso perispírito grava, como num filme, todos os acontecimentos da nossa vida. A recordação é de tal modo viva que é como se o indivíduo voltasse a reviver as mesmas cenas, os mesmos fatos.
Pelos fatos registrados nas obras espíritas já sabíamos que em momentos críticos, como nos acidentes graves, nas quedas perigosas, na asfixia por afogamento, etc., o indivíduo pode rever, com incrível nitidez, a sua vida até aquele momento, como se assistisse a um filme no qual ele próprio tomasse parte.
Naturalmente os seus atos bons são motivos de satisfação para o seu Espírito, enquanto os atos maus são motivo de tristeza e arrependimento. Por aí se pode avaliar a situação dolorosa de certos Espíritos libertos da carne, tendo diante de si, permanentemente, os acontecimentos deploráveis que desejariam esquecer.
Eis um fato significativo que comprova as afirmações do Dr. Penfield. O almirante Beaufort, quando ainda jovem, caiu de um navio à água do porto de Portsmouth. Antes que fosse possível ir em seu socorro, desapareceu; ia morrer afogado.
Depois de algumas considerações sobre a angústia do primeiro momento, diz ele:
"Com o enfraquecimento dos sentidos coincidiu uma superexcitação extraordinária da atividade intelectual; as idéias sucediam-se com rapidez prodigiosa. O acidente que acabara de dar-se, o descuido que o motivara, o tumulto que se lhe deveria ter seguido, a dor que iria alcançar meu pai e outras circunstâncias intimamente ligadas ao lar doméstico, foram o objeto das minhas primeiras reflexões. Depois, veio-me à memória o último cruzeiro, viagem acidentada por um naufrágio; a seguir, a escola, os progressos que nela fizera e também o tempo perdido, finalmente, as minhas ocupações e aventuras de criança. Em suma, a subida de todo o rio da vida, e quão pormenorizada e precisa"! E acrescenta: "Cada incidente da minha vida atravessava-me sucessivamente a memória, não como simples esboço, mas com as particularidades e acessórios de um quadro completo! Por outras palavras, toda a minha existência desfilava diante de mim numa espécie de vista panorâmica, cada fato com a sua apreciação moral ou reflexões sobre suas causas e efeitos. Pequenos acontecimentos sem conseqüências, há muito tempo esquecidos, se acumulavam em minha imaginação como se tivessem passado na véspera. E tudo isso sucedeu em dois minutos"
(Léon Denis, "O Problema do Ser", pág. 173)
Com efeito, todos os atos da nossa vida e são maravilhosamente registrados em nosso perispírito. Os menores detalhes são cuidadosamente guardados para, no momento preciso, na aflorarem nítidos, inconfundíveis - Eis porque Jesus, estabelecendo a nossa responsabilidade diante da vida, diz: "Até os cabelos da vossa da cabeça estão contados."
Fonte: Reformador - julho/1970 - pg. 161

25 de março de 2009

AOS SOFREDORES ANGUSTIADOS


Se bem fosse dada em caráter individual, respondendo ao apelo de um irmão aflito, de uma alma constringida fortemente na retorta da purificação, a mensagem que aqui inserimos, transmitida por Emmanuel, através do médium Francisco Xavier, em Pedro Leopoldo, fere com tanta precisão os pontos capitães da Doutrina Espírita, fazendo desta tão bela síntese, que comporta generalizada aplicarão, isto é, que se torna de proveito real para a generalidade dos que, sofrendo, na existência atual, as conseqüências de seus delitos em vidas anteriores, procuram angustiosamente um meio, um auxilio exterior, que lhes abram de vez e para sempre as tenazes da prova buscada, porque necessária a impulsionar a evolução descurada e, assim, retardada.
A sua publicação, pois, se recomendava e, como nenhum titulo lhe fora atribuído, por isso mesmo que ela apenas respondia, conforme dissemos, a um apelo individual, tomamos á nós pôr-lhe o que ao alto destas linhas está, por ser, ao nosso ver, o que melhor indica quais os que, principalmente, a devem ler, quais os que em mais larga escala podem beneficiar do que nela se contém.

Meu prezado irmão.
Que me ouça o Altíssimo, a cujo coração augusto e resplandecente, em o qual se contêm todas as excelsitudes do Cosmos, envio por ti a minha suplica fraternal.
Para cá das fronteiras da terra, os Espíritos, despojados das impressões canais como que se despersonalizam, identificados nas essências sublimes do amor fraterno, laço sacrossanto que une todos os mundos e todas as almas. E’ por esse motivo que nos qualificamos de irmãos. De fato, todos o somos, sob as vistas amoráveis do Magnânimo Pai Celestial, já que nos ligam as mesmas aspirações ao Perfeito, palpitando em nossos corações a mesma partícula divina, que nos faz vibrar as almas do mais forte de todos os anseios: o de união ao Criador.
Até a mim chegou o apelo do teu coração dolorido e, se eu pudesse, arrancaria de ti as penosas impressões físicas, como se extirpa uma chaga.
Todavia, Jesus é o medico de todas as almas e sabe qual o tratamento que lhes convém; mas, em razão do nosso livre alvedrio, somos senhores do nosso próprio destino.
Depois de Deus, Ente Supremo, Absoluta Majestade do Universo, nada ha, para os Espíritos, tão sagrado como o livre arbítrio. Dai a necessidade da iniciativa de cada individualidade, a bem da sua própria evolução. Afastar as possibilidades da auto-educação seria eliminar o progresso, seria despojar o ser de um dos seus divinos atributos, que é a liberdade. Da realidade desse asserto ressalta a ineficácia dos recursos da taumaturga, para a cura integral de uma alma enferma e abatida.
E’ á própria alma que compete, em meio das lutas ásperas e dos cruciantes amargores, nos quais está o preço de sua redenção, quando denodadamente suportadas, concatenar as suas energias latentes e as suas forças desaproveitadas para estabelecer o controle da sua existência temporária, corrigindo defeitos, dominando inclinações nocivas, envidando esforços para que a sua vontade se fortaleça, seu sentimento se eleve, sua mente se clarifique, integrando-se ela assim na harmonia dos seres e das coisas. Uma doutrina religiosa ou um bom alvitre são elementos de cura, mas não são a própria cura. A primeira a auxilia, porque ensina, esclarece, ilumina, conforta, representando para o coração angustiado um manancial de energias, onde as criaturas encontram forças para sustar os fracassos quase irremediáveis, as desgraças seletivas e para evitar a propagação de males e ruínas, paralisando o surto de resoluções inconfessáveis.
Isoladamente, porém, o Espírito, em qualquer plano da vida, tem de coordenar as suas possibilidades para o bem, para a luz, para o amor, em seu beneficio, fazendo das aspirações nobres e do trabalho proveitoso o santuário onde a sua mentalidade penetre diariamente para se purificar. Só assim conseguirá armazenar em si os grandes cabedais de energia, de fé e beleza moral, que lhe farão viver em correspondência com os planos superiores do universo, de onde lhe virão os primores intelectivos e sentimentais, como recompensa natural aos seus esforços.
Uma das mais proveitosas formas dos Espíritos se entregarem a uma atividade fecunda a prol do seu aprimoramento está na reencarnarão e eles a escolhem como o caminho mais fácil para a evolução necessária e a almejada ventura. Na plenitude da consciência, calculam as suas possibilidades e traçam um plano a que obedecerão rigorosamente e que conceitue quase sempre um como mapa de trabalhos e sofrimentos.
Tomam a carne. Lutam e padecem. Suas provações parecem obedecer a um implacável determinismo e, com efeito, obedecem, porquanto foi o próprio Espírito quem traçou a senda que lhe compete percorrer, para vencer, dizemo-lo sem paradoxo, o seu próprio destino, transformando os acúleos da estrada em flores de evolução espiritual. Os bons desejos, a moral elevada, a confiança nos poderes superiores do Bem, as preces sinceras, se mantidas com perseverante vontade, lhe evitam os distúrbios psicológicos e as quedas, por pior que seja o caminho.
E’ por estas razões, estribadas na mais pura lógica, que não nos é possível modificar de vez o teu estado psíquico. Extendemos-te as nossas mãos fraternas, amparamos-te com os nossos braços intangíveis, mas poderosos, e te indicamos a senda por onde chegarás á felicidade ou redenção: a misericórdia divina responderá aos teus apelos veemente.
Luta com abnegação e com heroísmo. Todos os homens nascem para triunfar da prova a que se submetem; toda carne está eivada de taras perniciosas; mas, será licito ao Espírito entregar-se-lhe á influencia, olvidando as noções da sua liberdade ativa? Não.
O atavismo é um dos grandes escolhos que devem ser vencidos pelas almas, no trabalho da sua purificação. O Espírito, em qualquer circunstancia, é obrigado a preponderar sobre a matéria. Operando dessa maneira, o homem espiritualizará todas as suas células orgânicas, porque, se o objetiva da matéria é dar corpo e expressão ás vibrações do Espírito, a função da alma é apurá-la, santificá-la. Quando o homem compreender o alcance dessa realidade, as taras desaparecerão do planeta; por enquanto, porém, os desígnios divinos se utilizam delas como de elementos úteis nas batalhas morais que a humanidade sustenta em favor do seu aperfeiçoamento. A causa de todas as moléstias reside na alma; mas, infelizmente, as criaturas humanas, vivendo apenas entre efeitos, que são coisas transitórias e efêmeras da existência planetária, não vão ás fontes de origem escrutar a causa das dores que as afligem.
Para a enfermidade da alma, somente os remédios espirituais são apelidáveis; por isso é que te ofereço as minhas pobres palavras.
Muito perde o homem com a sua impaciência. Em face da imoralidade, deveria ele encarar cada vida como um dia de trabalho. Que tu saibas aproveitar o teu dia, purificando-te nos ideais e nos atos generosos, santificando-te em sabedoria e amor. Aprende a viver em contacto com todos quantos te rodeiam. A sociabilidade atenua os rigores da provação; a doçura e a afabilidade nos proporcionam novos elementos vitais. Insular-nos, em meio das fontes de vida que os cercam, constitui grande mal. Deus nos criou para que nos amassemos intimamente uns aos outros.
E’s incompreendido, torturado, ridiculizado ás vezes? Sirva isso ao teu progresso moral. Adapta-te ás formas de expressão dos que te não compreendem ainda e faze-lhes o bem que puderes.
Toda alma deve ser um foco atraente de virtudes. O maior mérito de um Espírito reside nas boas ações que levou a efeito a prol dos outros. No sacrifício está o segredo da ventura espiritual e, nos instantes amargos de ríspidas provas, refugia-te no templo augusto das preces fervorosas e veemente. Do Alto dimanarão radiosidades indefiníveis para o teu Espírito, que se sentirá reconfortado na jornada terrena. Considera o objetivo do “CONHECE-TE A TI MESMO” e a tua mente, longe de ser atingida por vibrações de amargura, constituirá um refugio luminoso de sagradas energias espirituais, onde outras almas buscarão conforto, coragem, luz e amor.
EMMANUEL
Fonte: Reformador – setembro, 1936
Mantida a ortografia original

22 de março de 2009

REENCARNAÇÕES E DESIGUALDADES


Como política preventiva, que significa simplesmente atacar o mal ainda na raiz, antes que seja tarde, o programa espírita sempre se esforçou no trabalho de assistência e educação, visando à modificação do ambiente moral e social, até mesmo nos recantos mais sórdidos. Prevenir, portanto, para que a pobreza aviltada não chegue a uma convulsão incontida.
Se é óbvio que não podemos tratar somente do corpo, mas também, principalmente, do espírito, é óbvio ao mesmo tempo que não devemos relaxar os deveres em relação às necessidades do corpo. Se o espírito precisa de instrumento humano para a comunicação de seus dons, logicamente um corpo doente, abatido pela deficiência alimentar ou depauperado pelo esgotamento, não pode ser bom veículo por causa do desmantelo orgânico.
E já se sabe que há repercussão recíproca entre o orgânico e o psíquico. Mas a Doutrina adverte, a certa altura, que às vezes uma pessoa pode nascer em "posição difícil e embaraçosa, precisamente para ser obrigada a procurar vencer as dificuldades, nunca, porém, deve deixar a vida correr à revelia, o que seria mais preguiça do que virtude." (O Evangelho Segundo o Espiritismo - cap. V, nº 26). Este ponto, sem dúvida alguma, sugere reflexão sobre o problema das desigualdades sociais à luz da reencarnação.
Seja, porém, como for, a despeito dos "altos e baixos" dos compromissos reencarnatórios na vida social, não nos compete fazer julgamento, mas temos o dever de trabalhar pela melhoria do homem. E com fazê-lo sem ir ao encontro dos focos de revolta e decadência? Disse muito bem o dr. João Pompílio de Almeida Filho:
"Devemos ir ao encontro dos necessitados, para dar-lhes o que precisam, moral e materialmente, antes que eles venham até nós arrancar o que lhes falta, e destruir as riquezas, que são nossas, mas exigem emprego inteligente, com distribuição de parte em favor dos que têm fome, sofrem frio, vivem envilecidos nos vícios, constituindo verdadeiro peso-morto à margem da sociedade". Tese oficial - 1° Congresso Espírita do Rio Grande do Sul-1945.
Realmente. Tais palavras estão inteiramente abonadas pela Doutrina Espírita. A esmola é uma doença da sociedade. Ainda não temos uma consciência de solidariedade capaz de suprir as falhas no rastro da pobreza extrema e da invalidez relegada.
Mas a palavra esmola não teria mais razão de ser, dentro de uma organização social mais espiritualizada ou mais aproximada do Evangelho. Em vez de esmola, diríamos acertadamente dever. Se é verdade que os males sociais, em grande parte, têm relação com o nosso passado e, por isso, também é verdade que cabe à criatura humana fazer a sua parte, a fim de que ninguém seja privado pelo menos do essencial à subsistência nos flancos mais ínfimos da sociedade.
Melhoramento social engloba estabilidade e libertação do medo, mas não significa que todos tenham de ser ricos ou venham a possuir automóvel como requinte de bem-estar; mas todos têm o mesmo direito a uma condição de vida condizente com a dignidade humana, por mais frisante que seja a desigualdade dos níveis sociais.
O Espiritismo não propõe a eliminação total das desigualdades, notadamente no estágio evolutivo em que nos encontramos, pois a sociedade é toda diversificada, com ricos e pobres, inteligentes e parvos, empreendedores e preguiçosos, progressistas e retrógrados, homens de bem e homens trapaceiros, por exemplo. Sem pensarmos, porém, na utopia de um mundo sem falhas e disparidades, como se fosse um paraíso terrestre, podemos e devemos, contudo, dar o quinhão que a Doutrina Espírita nos atribui, porque temos a nossa parte de responsabilidade no conjunto:
"Condenando-se a pedir esmola, o homem se degrada física e moralmente: embrutece-se. Uma sociedade que se baseie na lei de Deus e na Justiça deve prover à vida do fraco, sem que haja para ele humilhação.
Deve assegurar a existência dos que não podem trabalhar, sem lhes deixar a vida à mercê do acaso e da boa vontade de alguns". (O Livro dos Espíritos-Parte 3a, Cap. XI).
Como se vê, a Doutrina Espírita não absorve a idéia de fatalismo como explicação genérica dos desacertos sociais, nem a tese da reencarnação levaria a tanto.
O fatalismo social seria a condenação de pessoas ou grupos a uma vida de privações indefinidamente, como se fossem todos marcados pela adversidade inarredável. Não. Nesta ordem de considerações o que a Doutrina afirma nada tem de radical: os males deste mundo são de duas ordens, isto é, os que têm vínculos com o passado, por causa de atos praticados noutra existência, e os que resultam de erros e abusos cometidos no presente. Nem tudo, portanto, se deve lançar na conta do passado.
A incapacidade ou a falta de escrúpulos na gestão administrativa, a negligência na vida pessoal e os desperdícios são responsáveis por muitas crises na sociedade. O cotidiano das ocorrências bem o demonstra. São fatos da presente existência. A interpretação unilateral seria muito inconveniente, pois os problemas exigem, antes de tudo, análise conjuntural. Dois fatores são indiscutivelmente relevantes neste passo: a educação e a reforma moral.
Na confluência dos problemas com que nos defrontamos, de um lado e do outro, não seria lógico pôr de lado a interferência de "situações cármicas". Há criaturas humanas sujeitas ao determinismo de uma existência difícil ou penosa em razão do que fizeram antes, não se sabe onde ou em que época.
Quem, suponhamos, explorou o suor alheio, quem abusou da riqueza ou da autoridade como verdadeiro tirano ou corruptor, certamente vai ter que lutar muito contra a humilhação, as aflições e os embaraços, ainda que trabalhe e estude com o maior afinco para subir pela inteligência e pela tenacidade.
Por mais que insista na tentativa de afastar os empecilhos, fica sempre na planície social, em posição apagada, obrigado a executar serviços inferiores, segundo os valores convencionais do nosso mundo.
Mais adiante se nos depara o varredor de rua, um homem que já fora lorde noutra época e, agora, volta à Terra para reeducar-se na humildade, pois impusera humilhação a muita gente quando estava na opulência.
Semelhantemente, não seria um despropósito admitir que antigo e orgulhoso aristocrata, daqueles que faziam pouco caso das pessoas que estivessem abaixo de sua camada social, venha a reencarnar com uma prova que o coloque nas calçadas como engraxate, vivendo à margem das multidões nos grandes centros urbanos. Noutros tempos, tinha criados sobre os quais tripudiava com arrogância e desumanidade.
O fato de engraxar sapato nada tem de deprimente para quem trabalha honestamente, tanto quanto a profissão de gari e outras profissões tidas como das mais modestas não aviltam as mãos honradas.
Se a sociedade precisa de médico para os problemas de saúde pública, também precisa do gari, ao mesmo tempo, porque sem a limpeza da cidade e a remoção dos detritos e entulhos transmissores de vermes e alimentadores de mosquitos os planos sanitários ficam seriamente comprometidos. O cavalheiro elegante, habituado a vestir-se com apuro, não pode fazer "boa figura" em público se não tiver quem lhe engraxe os sapatos no momento necessário. E quem vai fazê-lo?
O titular de um cargo importante? O funcionário de status mais elevado? Claro que não. É o engraxate, que se torna uma figura indispensável naquele momento.
Naturalmente é uma prova para o espírito que reencarna, como se diz, nas "classes baixas" da sociedade e não consegue projetar-se, porque tem débitos pesadíssimos de outras existências. O tipo inteligente ou espertalhão de outrora, muito afeito a espertezas com prejuízo de terceiros, depois de ter tantas e tantas vezes abusado da inteligência para fins inconfessáveis, sem jamais ter sido alcançado pela justiça terrena, não poderá reincorporar-se à mesma sociedade a que pertencera, mas agora reencarnado como servente ou trabalhador explorado, sempre em aperturas financeiras, lesado aqui, sacrificado ali? É uma contingência admissível no desenrolar do processo reencarnatório.
É a lei de causa e efeito.A justiça nunca deixa de vir, cedo ou tarde, segundo as nossas noções de tempo. A reencarnação está na vida social, não tenhamos dúvida. Conseqüentemente, não se exclui em tudo e por tudo a reencarnação como um dos dados de avaliação nos desajustes sociais, ainda que não seja razoável generalizar, o que daria motivo a conclusões muito rígidas.
Se, de fato, há circunstâncias que se sobrepõem aos nossos desejos e meios de ação, porque decorrem de uma carga de responsabilidade individual ou coletiva de outras etapas da vida, há obstáculos e eventualidades que denunciam apenas a falta de vigilância ou a displicência nesta existência. E se o homem fosse conduzido pelo passado em todos os instantes não haveria mudança nem disposição do livre-arbítrio.
A vida seria uma sucessão fatal de episódios predeterminados. Como corpo de idéias, baseado em fatos que comprovam a sobrevivência do espírito além do corpo e a sua comunicação com o nosso mundo, o Espiritismo também se interessa pelo ser humano na vida de conjunto, o que quer dizer: o homem na sociedade.
Sem a vida social ninguém teria como se desenvolver e renovar-se, pois a penitência reclusa, distante dos problemas, ignorando o sofrimento de seu próximo, sem dar sequer um pouco de si, não faz nenhum santo.
É na forja social realmente que adquirimos experiência e exercitamos as nossas possibilidades latentes, ora caindo, ora levantando, até que nos modifiquemos para melhor. Não sendo, portanto, fatalista, como já dissemos e fazemos questão de repetir, está bem claro que a Doutrina Espírita se preocupa com as desigualdades humanas, cujas causas devem ser atacadas para que se corrijam as injustiças.
Muitas chagas sociais já teriam sido extirpadas se houvesse mais sentimento de humanidade, mais respeito às razões éticas, tanto no plano do poder público quanto no plano particular. Há desigualdades que são o flagrante resultado do egoísmo, da ambição e, por fim, das incongruências de uma sociedade discriminativa na distribuição dos bens indispensáveis à vida humana.
Uma sociedade em que a vivência real do Cristianismo ainda está reduzida a compartimentos limitados, porque o Cristo é apenas objeto de devoções formais, sem ação nas profundezas do coração, a não ser das pessoas abnegadas, cujo espírito de sacrifício vem contrabalançar o peso da indiferença ou da frieza dominante.
Pois bem, é contra esse tipo de sociedade, ainda vigente, que invocamos os princípios espíritas, sem compromisso com ideologias e facções políticas.
Não estamos defendendo a igualdade maciça ou mecânica, pois seria uma pretensão visionária. Como igualar os elementos de um aglomerado humano composto de criaturas desiguais?
Sim, desiguais espiritualmente, desiguais no temperamento, na formação moral, tanto quanto desiguais intelectualmente, etnicamente, psiquicamente. Neste ponto, exatamente, a noção de igualdade, tão mal situada nas discussões doutrinárias ou políticas, tem dois sentidos muito naturais: somos iguais pela natureza e pela origem, porque somos criaturas de Deus e pertencemos à espécie humana, mas não somos iguais nas aptidões, no caráter, na educação, na cultura, nas decisões do livre-arbítrio.
Teoricamente, "todos são iguais perante a lei". Seria, de fato, o ideal de uma sociedade bem equilibrada. Como seres humanos, todos têm o direito a uma vida normal, uma vez que todos têm aspirações, compromissos e deveres compatíveis com as necessidades biológicas e espirituais. Necessidades inerentes à natureza humana e, por isso mesmo, não se condicionam, pelas categorias sociais.
No entanto, há muitos casos em que animais de estimação, como cavalos, cachorros e gatos são mais bem tratados do que as próprias crianças que ficam em volta desses animais. Que os animais sejam bem cuidados e defendidos, mas que não se despreze o ser humano. A proteção do reino animal é uma prova de adiantamento de uma civilização.
É válido indiscutivelmente o conceito de igualdade na acepção de respeito aos direitos comuns, os direitos intrínsecos da pessoa humana em qualquer nível social: preservação da integridade física, oportunidades para estudar e melhorar-se, liberdade de escolha de seus objetivos profissionais, intelectuais e religiosos. Igualdade, portanto, nos direitos essenciais.
Nosso conceito de igualdade, porém, não vai ao irrealismo de imaginar uma sociedade em que todos tenham o mesmo "trem de vida", as mesmas regalias, as mesmas qualificações sociais. Na luta pela vida, sob a pressão das competições, sempre se defrontam capacidades diferentes, com interesses conflitantes.
O emprego do livre arbítrio, por sua vez, está sujeito às variações circunstanciais nos empreendimentos e nos modos de proceder ou de julgar as coisas. Ao lado, por exemplo, dos que querem vencer e, por isso, estudam, trabalham, enfrentam todos os reveses, há muitos que não querem sair da comodidade, não se esforçam para mudar de posição, porque preferem ficar onde estão, cultivando a displicência como regra de vida.
Ora, o indivíduo operoso e realizador, porque leva a vida a sério não se confunde com o preguiçoso, que se anula por si mesmo no grupo social.
Figuremos de passagem o caso de dois irmãos, cujo pai tenha dado oportunidade ou chances, como se diz correntemente, tanto a este como àquele. O primeiro trabalhou, não esbanjou o tempo, preparou-se para ocupar lugares mais altos, enquanto o segundo deixou tudo correr à vontade, fazendo suas farras, abusando das energias da mocidade.
Mais tarde, na "idade madura", quando as ilusões já estão desfeitas, um irmão está em boa situação, com estabilidade, mas o outro, completamente despreparado, desgastado pelas extravagâncias, está de mãos vazias, nulificado na planície social. De quem a culpa? ...
Iguais na origem, no lar de onde saíram, mas visivelmente desiguais na organização/ temperamental, na vontade, nas inclinações.
A sociedade, em suma, é um somatório das desigualdades individuais. Seria então irrealizável a igualdade em termos absolutos. A reencarnação não invalida totalmente o livre-arbítrio. Justamente por isso, se estamos encarando a questão à luz do pensamento espírita, precisamos ter uma visão mais elástica.
De um lado, há quem afirme, por exemplo, que as desigualdades são problemas sociais e, portanto, "nada têm a ver com a reencarnação"; do outro lado, com o mesmo acento categórico, afirma-se que as desigualdades sociais são "conseqüências de nosso passado", e, assim, seria inútil qualquer tentativa de modificação.
Então, a única solução é "deixar como está". São entendimentos contrários à verdadeira índole da Doutrina Espírita, de um lado e do outro. Nossa posição há-de ser a do meio termo, nunca das definições intransigentes diante da realidade social.
Há, de fato, situações que inferiorizam o indivíduo socialmente, durante uma reencarnação ou mais, por causa da rede expiatória de envolvimentos que o acompanham do passado. Se não cabem no vocabulário espírita as palavras "azar", "má sorte", "capricho do destino" e outras, de uso comum, naturalmente há uma razão para que certos casos perdurem na sociedade, a despeito de todo o empenho que se faça para afastá-los ou atenuá-los.
Se a razão determinante do sofrimento ou das dificuldades não está nesta existência, teremos de encontrá-la no passado, sob a ação da lei moral de "causa e efeito", não pelo que os pais fizeram, mas pelo que o próprio culpado fez, não importa se neste ou noutro século.
Daí, porém, não se segue que todas as injustiças da Terra, efeitos da maldade, do engodo e do orgulho, por exemplo, sejam projeções do passado e, por isso, irremediáveis. Não. Até certo ponto, as deficiências sociais podem ser retificadas pelas atitudes reparadoras, pela luta contra o mal e pelas reações da parte mais sadia da sociedade.
E sempre houve, felizmente, em todos o grupos humanos, os elementos que não se contaminam, ainda que sejam obrigados a transitar pelas mesmas vielas por onde passam o ódio, a baixeza, o vício e a hipocrisia bem enroupada.
Os desafios são uma contingência desse estado de coisas, mas nem todas as ocorrências são fatais. A reparação das brechas que se abrem no organismo social exige a reforma periódica de suas estruturas. É um fenômeno inevitável, sem o que a sociedade não se adaptaria às mudanças impostas pelas necessidades.
Mas as reformas estruturais não eliminam a relevância da reforma moral, é ponto em que insistimos. São instâncias concomitantes.
A reforma de uma estrutura política, administrativa, religiosa ou educacional, por exemplo, pode ser muito inteligente, como boa base de sustentação, mas o funcionamento vai depender do homem. E se o homem não estiver preparado para conviver com os novos mecanismos, não apenas do ponto de vista intelectual ou técnico, mas também do ponto de vista moral, a melhor estrutura possível corre o risco da poluição, apesar das boas aparências. (...).
Que poderíamos esperar de uma casa muito bem traçada, muito bonita por fora, mas construída com material de péssima qualidade, sem alicerce seguro?
Então, embora as reformas de estruturas sejam necessárias, o equilíbrio social não dispensa a reforma moral de alto a baixo. Não se reformam costumes por leis ou pela força. Por mais bem intencionada e cuidadosa que seja uma lei, não está isenta de acomodações e distorções quando o homem quer usá-la em benefício de seus caprichos ou de conveniências ocultas.
A lei por si só não reforma a sociedade, pois os resíduos da imoralidade e das artimanhas sempre subsistem enquanto o homem, por sua vez, também não se modifica interiormente. Dentro dessa concepção, que está na ordem geral das idéias que até aqui explanamos, naturalmente nos defrontamos com o problema da propriedade.
Como já recordamos, o Espiritismo nos põe diante de uma concepção igualitária quanto aos direitos essenciais da criatura humana. Mas também estabelece a distinção entre a propriedade privada e a propriedade destinada ao uso geral.
Não usa terminologia jurídica nem muito menos formulações técnicas, mas divide, claramente, em termos técnicos, o bem comum, a que todos têm direito, e a fortuna de uso particular. Reconhecemos, por isso mesmo, a legitimidade da propriedade privada, obtida à custa do trabalho honesto, sem prejuízo de ninguém, como ensina a Doutrina.
E porventura não tem o direito de usufruir o resultado de seu esforço todo aquele que trabalha e sabe perseverar e economizar para conseguir um padrão de vida melhor? É lógico e humano. Isto não implica aceitar ou defender a transformação de recursos ou bens de uso geral em propriedade particular, para o enriquecimento de uns poucos em desfavor de muitos.
É o que significa, sem tirar nem pôr, a monopolização de um patrimônio coletivo. A propriedade e o capital são, portanto, valores relativos. Se a Doutrina Espírita não é contra o capital em si, coerentemente não apóia a designação depreciativa do dinheiro como o "vil metal".
O homem é o responsável pelos efeitos do capital, pois o dinheiro é apenas um instrumento que tanto pode servir de peça decisiva de um sistema de corrupção e violência.
O problema é com o ser humano, não é com o dinheiro, pois já sabemos muito bem que as melhores coisas deste mundo, quer materialmente, quer intelectualmente, podem ser usadas para o mal ou para o bem, na medida em que o livre-arbítrio pende para um lado ou para outro.É o que aprendemos na Doutrina Espírita:
"Se a riqueza houvesse de constituir obstáculo absoluto à salvação dos que a possuem, conforme se poderia inferir de certas palavras de Jesus interpretadas segundo a letra e não segundo o Espírito, Deus, que a concede, teria posto nas mãos de alguns um instrumento de perdição, sem apelação nenhuma, idéia que repugna a razão". (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XVI). Coincidentemente - apesar da grande distância no tempo e nas circunstâncias - o presidente Franklin Roosevelt, dos Estados Unidos, chefe de uma nação capitalista, dizia isto:
"Os capitalistas vorazes serão devorados pelo fogo que eles atearam... O capital é essencial; razoáveis compensações ao capital são essenciais; porém o mau uso dos poderes do capital ou a egoística supervisão de seu emprego precisa ter fim, ou o sistema capitalista se destruirá pelos seus próprios abusos".
Roosevelt estava então fomentando a política do New Deal, um plano econômico realmente revolucionário. Roosevelt defendia até veementemente a propriedade privada, mas ressalvou logo que a propriedade "não pode ser sujeita à manipulação desumana dos jogadores profissionais da bolsa ou dos conselhos de administração". O sentido humano da propriedade, em suma. São idéias que se encontram com as idéias espíritas:
"O que por meio do trabalho honesto, o homem junta, constitui legítima propriedade sua, que ele tem o direito de defender, porque a propriedade que resulta do trabalho é um direito natural, tão sagrado como o de trabalhar e viver". (O Livro dos Espíritos - capítulo XI, parte 3a, nº 882).
Outra coincidência relevante, sobretudo pelo espaço de tempo (90 anos) entre o pensamento espírita e o pensamento de um economista contemporâneo, o que demonstra, mais uma vez, as antecipações da Doutrina Espírita em relação a problemas de nosso tempo:
1947. H. Hansen: "Numa fase de industrialização e urbanização, o indivíduo não pode ordenar a sua vida isoladamente. Só conseguirá resolver os complexos problemas hodiernos mediante esforço conjugado e a ação cooperativa dos seus semelhantes".
1857. O Livro dos Espíritos: "O homem tem que progredir. Isolado não lhe é isso possível, por não dispor de todas as faculdades. Falta-lhe o contacto com os outros homens. No isolamento ele se embrutece e estiola".
No fundo, o que resulta de suas conceituações de origens tão diferentes é um apelo de ordem ética, porque contrário ao egoísmo, mas identificado com o espírito de solidariedade, que continua a ser uma força social das mais ponderáveis."Uma sociedade que se baseia na lei e na justiça de Deus - diz a Doutrina Espírita - deve prover à vida do fraco, sem que haja para ele humilhação".
É o caso da esmola, que humilha e não resolve os problemas. Mas o assunto provoca reflexões no campo sócio-econômico, o que será objeto de próximo capítulo.
Deolindo Amorim (1906-1984).
Texto publicado originalmente no livro "O Espiritismo e os Problemas Humanos". Edição USE, 1985. Primeira edição em 1948.

21 de março de 2009

CARTA DE UM MORTO


Pede-me você notícias do cemitério nas comemorações de Finados. E como tenho em mãos a carta de um amigo, hoje na Espiritualidade, endereçada a outro amigo que ainda se encontra na Terra, acerca do assunto, dou-lhe a conhecer, com permissão dele, a missiva que transcrevo, sem qualquer referência a nomes, para deixar-lhe a beleza livre das notas pessoais.
Eis o texto em sua feição pura e simples :
Meu caro, você não pode imaginar o que seja entregar à terra a carcaça hirta. no dia dois de Novembro.
Verdadeira tragédia para o morto inexperiente.
Lembrar-se-á você de que o enterro de meu velho corpo, corroído pela doença, realizou-se ao crepúsculo, quando a necrópole enfeitada parecia uma casa em festa.
Achava-me tristemente instalado no coche fúnebre, montando guarda aos meus restos, refletindo na miserabilidade da vida humana...
Contemplando de longe minha mulher e meus filhos, que choravam discretamente num largo automóvel de aluguei, meditava naquele antigo aponta-mento de Salomão – «vaidade das vaidades, tudo é vaidade» –, quando, à entrada do cemitério, fui desalojado de improviso.
Na multidão irrequieta dos vivos na carne, vinha a massa enorme dos vivos de outra natureza. Eram desencarnados às centenas, que me apalpavam curiosos, entre o sarcasmo e a comiseração.
Alguns me dirigiam indagações indiscretas, enquanto outros me deploravam a sorte.
Com muita dificuldade, segui o ataúde que me transportava o esqueleto imóvel e, em vão, tentei conchegar-me à esposa em lágrimas.
Mal pude ouvir a prece que alguns amigos me consagravam, porque, de repente, a onda tumultuária me arrebatou ao circulo mais íntimo.
Debalde procurei regressar à quadra humilde em que me situaram a sombra do que eu fora no mundo... Os visitantes terrestres daquela mansão, pertencente aos supostos finados, traziam consigo imensa turba de almas sofredoras e revoltadas, perfeitamente jungidas a eles mesmos.
Muitos desses Espíritos, agrilhoados aos nossos companheiros humanos, gritavam ao pé das tumbas, contando os crimes ocultos que os haviam arremessado à vala escura da morte, outros traziam nas mãos documentos acusadores, clamando contra a insânia de parentes ou contra a venalidade de tribunais que lhes haviam alterado as disposições e desejos.
Pais bradavam contra os filhos. Filhos protestavam contra os pais.
Muitas almas, principalmente aquelas cujos despojos se localizam nos túmulos de alto preço, penetravam a intimidade do sepulcro e, de lá, desferiam gemidos e soluços aterradores, buscando inutilmente levantar os próprios ossos, no intuito de proclama aos entes queridos verdades que o tímpano humano detesta ouvir".
Muita gente desencarnada falava acerca de títulos e depósitos financeiros perdidos nos bancos, de terras desaproveitadas, de casas esquecidas, de objetos de valor e obras de arte que lhes haviam escapado às mãos, agora vazias e sequiosas de posse material.
Mulheres desgrenhadas clamavam vingança contra homens cruéis, e homens carrancudos e inquietos vociferavam contra mulheres insensatas e delinqüentes.
Talvez porque ainda trouxesse comigo o cheiro do corpo físico, muitos me tinham por vivo ainda na Terra, capaz de auxiliá-los na solução dos problemas que lhes escaldavam a mente, e despejavam sobre mim alegações e queixas, libelos e testemunhos.
Observei que os médicos, os padres e os juízes são as pessoas mais discutidas e criticadas aqui, em razão dos votos e promessas, socorros e testamentos, nos quais nem sempre corresponderam à expectativa dos trespassados.
Em muitas ocasiões, ouvi de amigos espíritas a afirmação de que há sempre muitos mortos obsidiando os vivos, mas, registrando biografias e narrações, escutando choro e praga, tanto quanto vendo o retrato real de muitos, creio hoje que há mais vivos flagelando os mortos, algemando-os aos desvarios e paixões da carne, pelo menosprezo com que lhes tratam a memória e pela hipocrisia com que lhes visitam as sepulturas.
Tamanhos foram meus obstáculos, que não mais consegui rever os familiares naquelas horas solenes para a minha incerteza de recém-vindo, e, sòmente quando os homens e as mulheres, quase todos protocolares e indiferentes, se retiraram, é que as almas terrivelmente atormentadas e infelizes esvaziaram o recinto, deixando na retaguarda tão sòmente nós outros, os libertos em dificuldade pacífica, e fazendo-me perceber que o tumulto no lar dos mortos era uma simples conseqüência da perturbação reinante no lar dos vivos.
Apaziguado o ambiente, o cemitério pareceu-me um ninho claro e acolhedor, em que me não faltaram braços amigos, respondendo-me às súplicas, e a cidade, em torno, figurou-se-me, então, vasta necrópole, povoada de mausoléus e de cruzes, nos quais os espíritos encarnados e desencarnados vivem o angustioso drama da morte moral, em pavorosos compromissos da sombra.
Como vê, enquanto a Humanidade não se habilitar para o respeito à vida eterna, é muito desagradável embarcar da Terra para o Além, no dia dedicado por ela ao culto dos mortos que lhe são simpáticos e antipáticos.
Peça a Jesus, desse modo, para que você não venha para cá, num dia dois de Novembro. Qualquer outra data pode ser útil e valiosa, desde que se desagarre daí, naturalmente, sem qualquer insulto à Lei. Rogue também ao Senhor que, se possível, possa você viajar ao nosso encontro, num dia nublado e chuvoso, porque, em se tratando de sua paz, quanto mais reduzido o séqüito no enterro será melhor.
E porque o documento não relaciona outros informes, por minha vez termino também aqui, sem qualquer comentário.

Livro Cartas e Crônicas - Espírito Irmão X - Psicografia Francisco C. Xavier.

20 de março de 2009

NO REINO DA ALMA



Por este motivo te lembro que despertes o dom de Deus, que Existe em ti, pela imposição de minhas mãos. – Paulo
(II Timóteo)


Numerosos os companheiros que pagam ou reclamam concurso alheio para que se lhes desenvolvam determinadas qualidades espirituais.Ginásticas, regimes dietéticos, penitências, austeridades místicas...
Sem dúvida, semelhantes processos de educação do corpo e da mente valem por precioso concurso ao despertamento da vida interior, sempre que empregados de intenção e pensamento voltados para os interesses superiores do espírito.Mas não bastam.
A palavra do Evangelho, através do apóstolo Paulo é suficientemente esclarecedora. Ele se reporta à colaboração dos passes magnéticos, ministrados por ele mesmo, em favor do discípulo; entretanto, não o exonera da obrigação de acordar, em si e por si próprio, os talentos de que é portador,
O convívio com um amigo da altura moral do convertido de Damasco, as preces e ensinamentos do lar, os apelos doutrinários e o amparo externo constantemente recebido não desligavam Timóteo do dever de estudar e aprender, trabalhar e servir, a fim de burilar os seus dons de alma e aciona-los na construção da própria felicidade pela extensão do bem.
*
Pensemos nisso e saibamos receber reconhecidamente os auxílios que a bondade alheia nos proporcione, aproveitando-os em nosso benefício, mas lembrando sempre que o auto-aperfeiçoamento, para que a luz do Senhor se nos retrate no coração e na vida, será resultado de esforço nosso, ação individual de que não poderemos fugir.
Emmanuel
Mensagem psicografada por Francisco Cândido Xavier. Do livro “Bênção de Paz"

19 de março de 2009

HARMONIA DAS DIFERENÇAS


Você já pensou que o nosso grande problema, nas relações pessoais, é que desejamos que os outros sejam iguais a nós?
Em se falando de amigos, desejamos que eles gostem exatamente do que gostamos, que apreciem o mesmo gênero de filmes e música que constituem o nosso prazer. No âmbito familiar, prezaríamos que todos os componentes da família fossem ordeiros, organizados e disciplinados como nós. No ambiente de trabalho, reclamamos dos que deixam a cadeira fora do lugar, papel espalhado sobre a mesa e que derramam café, quando se servem. Dizemos que são relaxados e que é muito difícil conviver com pessoas tão diferentes de nós mesmos. Por vezes, chegamos às raias da infelicidade, por essas questões. E isso nos recorda da história de um menino chamado Pedro. Ele tinha algumas dificuldades muito próprias. Por exemplo, quando tentava desenhar uma linha reta, ela saía toda torta. Quando todos à sua volta olhavam para cima, ele olhava para baixo. Ficava olhando para as formigas, os caracóis, em sua marcha lenta, as florzinhas do caminho. Se ele achava que ia fazer um dia lindo e ensolarado, chovia. E lá se ia por água abaixo, todo o piquenique programado. Um dia, de manhã bem cedo, quando Pedro estava andando de costas contra o vento, ele deu um encontrão em uma menina, e descobriu que ela se chamava Tina. E tudo o que ela fazia era certinho. Ela nunca amarrava os cordões de seus sapatos de forma incorreta nem virava o pão com a manteiga para baixo. Ela sempre se lembrava do guarda-chuva e até sabia escrever o seu nome direito. Pedro ficava encantado com tudo que Tina fazia. Foi ela que lhe mostrou a diferença entre direito e esquerdo. Entre a frente e as costas. Um dia, eles resolveram construir uma casa na árvore. Tina fez um desenho para que a casa ficasse bem firme em cima da árvore. Pedro juntou uma porção de coisas para enfeitar a casa. Os dois acharam tudo muito engraçado. A casa ficou linda, embora as trapalhadas de Pedro. Bem no fundo, Tina gostaria que tudo que ela fizesse não fosse tão perfeito. Ela gostava da forma de Pedro viver e ver a vida. Então Pedro lhe arranjou um casaco e um chapéu que não combinavam. E toda vez que brincavam, Tina colocava o chapéu e o casaco, para ficar mais parecida com Pedro. Depois, Pedro ensinou Tina a andar de costas e a dar cambalhotas. Juntos, rolaram morro abaixo. E juntos aprenderam a fazer aviões de papel e a fazê-los voar para muito longe. Um com o outro, aprenderam a ser amigos até debaixo d’água. E para sempre. Eles aprenderam que o delicioso em um relacionamento é harmonizar as diferenças. Aprenderam que as diferenças são importantes, porque o que um não sabe, o outro ensina. Aquilo que é difícil para um, pode ser feito ou ensinado pelo outro. É assim que se cresce no mundo. Por causa das grandes diferenças entre as criaturas que o habitam. ............... A sabedoria divina colocou as pessoas no mundo, com tendências e gostos diferentes umas das outras. Também em níveis culturais diversos e degraus evolutivos diferentes. Tudo para nos ensinar que o grande segredo do progresso está exatamente em aprendermos uns com os outros, a trocar experiências e valorizar as diferenças.
Autor:Equipe de Redação do Momento Espírita com base no livro Pedro e Tina, de autoria de Stephen Michael King, Ed. Brinquebook.
Colabore com a Melhoria da Humanidade:

18 de março de 2009

EM HOMENAGEM A EDIÇÃO DEFINITIVA DO LIVRO DOS ESPÍRITOS EM 18 DE MARÇO DE 1860


Na manhã de 18 de abril de 1857, chega uma carruagem na Livraria Dentu na Galerie d'Orleans, no Palais-Royal, em Paris. Trazia 1.200 exemplares da primeira edição de O Livro dos Espíritos. Era o dia do lançamento da obra, composta num perfeito encadeamento de idéias, organizada metodicamente pelo professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, que em virtude de seu nome ser muito conhecido e respeitado pela comunidade científica à época da publicação, optou pelo pseudônimo Allan Kardec para que esta fosse conhecida não em virtude do seu nome e, sim, pelo conteúdo.
A primeira edição trazia 501 perguntas e respostas. Em 18 de março de 1860 foi publicada a segunda edição, definitiva, revisada e ampliada, com 1.019 perguntas e respostas, trazendo ensinamentos que conduzem o homem à redescoberta de si mesmo, fornecendo-lhe recursos para que compreenda, sem mistérios, quem é, de onde veio, e para onde vai.
O Livro dos Espíritos contém os princípios fundamentais da Doutrina Espírita em seus três aspectos: científico, filosófico e religioso, tais como transmitidos pelos próprios espíritos, seus autores. Assim, não se considera a obra de um homem, Allan Kardec, mas da espiritualidade, cabendo a Kardec, o Codificador, a incumbência de classificar, selecionar e organizar os itens em uma seqüência lógica, com bom senso e espírito crítico.

DORES EXCESSIVAS



Reclamas o peso do fardo moral sobre os teus ombros frágeis, olvidando-te de que Deus não sobrecarrega a ninguém em demasia. Sempre confere os sofrimentos necessários de acordo com as resistências de que cada qual dispõe.
Identificas dificuldades onde se manifestam oportunidades de crescimento interior, porque te encontras fatigado pelos testemunhos constantes, esquecendo-te de que a árvore cresce silenciosamente embora tombe com grande ruído.
Acreditas-te vítima de ocorrências desgastantes e contínuas, quando, em realidade, representam condições para o teu avanço espiritual, desde que te candidataste ao empreendimento iluminativo.
Certamente, permanecer fiel ao dever, quando outros o abandonam, ou manter-se confiante nos momentos em que as circunstâncias apresentam-se menos favoráveis, constituem um esforço muito significativo. Entretanto, mede-se o caráter de uma pessoa pelos valores dignificantes que o exornam.
O indivíduo comum, que prefere avançar perdido na massa, na futilidade, desempenhando o papel do imediatista e aproveitador, não enfrenta esse tipo de desafios, nada obstante, experimenta outros conflitos perturbadores, porque ninguém se encontra na Terra em caráter de exceção, como quem realiza uma agradável jornada ao país da fantasia.
Aquele que se ilude com a existência terrena igualmente desperta, cedo ou tarde, sendo convocado aos enfrentamentos do processo da evolução.
Desse modo, acumula experiências libertadoras através dos aparentes insucessos e dos contínuos tributos de luta e de compreensão à existência corporal.
Para onde olhes defrontarás intérminas batalhas pela sobrevivência, pela afirmação dos valores mais nobres, mesmo que nas rudes refregas do instinto em crescimento para a razão.
Nos reinos vegetal e animal, o predador está sempre seguindo sua vítima, que adquire mecanismos de salvação, adaptando-se ao meio ambiente, mudando de forma, ocultando-se.
Embora a vitória da herança atávica para a preservação da vida, sucumbem ante o ser humano, cuja inteligência é aplicada à conquista de instrumentos que lhes superam as habilidades, vencendo-os de contínuo.
Apesar disso, aqueles que sobrevivem mantêm prodigiosamente o milagre da vida em operosidade.
O vendaval ameaça a árvore altaneira, que se dobra para deixá-lo passar, ou sofre-lhe o açoite destruidor, reerguendo-se depois e prosseguindo vitoriosa no mister que lhe foi estabelecido.
O barro submete-se ao oleiro, aceita o aquecimento exagerado e mantém a forma que lhe foi conferida.
O solo é sulcado e sacudido de todos os lados, a fim de proporcionar a germinação das sementes.
Os metais derretem-se, de modo a receberem novas expressões que darão beleza ao mundo.
Tudo é renovação contínua, que decorre dos impositivos da evolução.
* * *
Se perguntares o que sofre a semente no seio abafado da terra, a fim de que possa libertar a vida que nela jaz adormecida, e se ela pudesse, responderia que o medo, a angústia e a opressão fazem parte de todas as suas horas até o momento em que as vergônteas recebem a luz do Sol e atingem o objetivo a que se destinam.
Se indagares ao triunfador como lhe foi possível alcançar o pódio da vitória, ele te narrará inúmeros sofrimentos que nunca experimentaste, mas que foram superados com alegria, considerando a meta para onde dirige os passos.
Se inquirisses o Sol como pode manter a corte de astros à sua volta, e ele dispusesse de meios de explicar-te, contestaria que transforma a sua massa em energia constante, gastando a média de quatrocentos e vinte milhões de toneladas por segundo.
Em toda parte o esforço enfrenta a luta, que se impõe como necessidade de transformações e de progresso.
Quem se nega ao esforço permanece na paralisia, e aquele que foge à batalha de crescimento, asfixia-se na inutilidade.
Não te aflijas, portanto, pelos enfrentamentos necessários, jamais superestimando as ocorrências que te parecem afligentes.
Sempre existirá alguém mais sobrecarregado do que tu. Porque não se queixa e não lhe conheces o fadário, tens a impressão de que as tuas são dores únicas e mais volumosas do que as de todos.
Há muitos corações crucificados que desfilam pelos teus caminhos e ignoras completamente o que lhes acontece.
Este, no qual te encontras, é um mundo de provas e expiações, portanto, hospital de almas, oficina de reparos, escola de aperfeiçoamento.
É natural que isso ocorra, porquanto será graças a esses fenômenos, nem sempre agradáveis, que alcançarás as estrelas.
Quem poderia imaginar que o Rei Solar tivesse de sofrer tanto, a fim de afirmar o Seu amor por nós?
Se Ele, que é todo amor e misericórdia, pureza e perdão, aceitou de boamente os testemunhos pavorosos para nos demonstrar a Sua grandeza, qual será a quota reservada a cada Espírito que transita na retaguarda a fim de conseguir o seu triunfo durante o seu processo de enriquecimento?
Não reclames, pois, nem te consideres abandonado pela sorte.
Colhes hoje o que semeaste há muito tempo.
Faculta-te agora uma semeadura diferente em relação ao futuro, de maneira que te libertes das dores excruciantes deste momento, auferindo alegrias e bênçãos jamais imaginadas.
Aquieta, desse modo, as objurgações infelizes, o coração intranqüilo, superando o pessimismo e a amargura, e poderás enxergar melhor os acontecimentos que te envolvem, graças aos quais alcançarás a plenitude.
Assim, não te permitas autocomiseração, nem conflito perverso de qualquer natureza, entregando-te a Jesus e nEle confiando de forma irrestrita e terminante, pois que Ele cuidará de ti.
* * *
A tua atual existência está programada para o êxito. Não mais tombarás nas sombras de onde procedes, se insistires por banhar-te com a clara luminosidade do amor de Deus.
Reflexiona melhor e com mais maturidade, de maneira que constatarás alegrias e bem-estar pelo teu caminho, nada obstante algumas dificuldades naturais que todos devem enfrentar.
Alegra-te por seres incompreendido, por estares no campo de elevação entre dissabores, porque a compensação divina é sempre o resultado do grau de esforço desenvolvido pelo ser humano durante a trajetória de elevação.
Joanna de Ângelis
Página psicografada pelo médium Divaldo P. Franco, na noite de 18 de maio de 2004, em Berlim, Alemanha. Em 04.02.2008.

16 de março de 2009

O MESTRE NAZARENO


"Pois, se nem ainda podeis as coisas mínimas, por quê andais ansiosos pelas outras?"
Lucas,12:26"


Desde o seu advento na Terra, Jesus Cristo tem sido a figura de maior projeção e a mais discutida.
Em seu nome tem-se praticado os mais nobilitantes atos, mas também se tem cometido os mais hediondos crimes. Se Francisco de Assis, o meigo "poverelo", através de sua vida de desprendimento e amor, seguiu o Mestre tecendo em torno dele um poema de luz e de redenção, Torquemada, o terrível inquisidor, pretendeu seguir suas pegadas deixando atrás de si um rastilho de sangue, de dor e de desolação.
Formam-se celeumas tremendas em torno da personalidade inconfundível do Mestre e, mui freqüentemente se menosprezam os seus mais singelos ensinamentos, que constituíram a razão primacial do seu advento no cenário do mundo. Perde-se tempo precioso na discussão de detalhes insignificantes tais como a sua genealogia, o processo utilizado pelo Alto para o seu advento entre nós e até em saber se Jesus Cristo era feio ou bonito.
Nos primeiros anos do Cristianismo, os Pais da Igreja viviam ansiosos de conhecer o retrato físico de Jesus e, para tanto, chegaram a apelar até para os antigos profetas (Isaías, 53:2), onde depararam com a afirmação de que o prometido Messias "não tinha parecer nem formosura; e, olhando nós para ele nenhuma beleza víamos para que o desejássemos", chegando, devido à má interpretação desse texto, a conceber o Mestre completamente destituído de beleza física.
Como decorrência, Celso ¹ propagou a afirmativa que Jesus "era de pequena estatura, feio e disforme". Justino, O Mártir, concebia o Cristo "sem aparência e sem beleza". Orígenes o tinha por "pequeno e sem graça". Essas opiniões conflitaram, com as de Gregório de Nissa, João Crisóstomo, Clemente de Alexandria, Ambrósio, Jerônimo e outros, que se definiam firmemente pela beleza física do Mestre, chegando-se mesmo a sustentar que "só o Salvador é belo".
A discussão sobre a aparência física de Jesus Cristo animou extraordinariamente a Igreja, sobretudo nos primeiros séculos, convencionando-se, após o século IV, que "Jesus fora o mais belo dos filhos do homem", idéia que se tornou crença generalizada e predominante.
Foi no tocante à essa preocupação dos homens em torno de coisas secundárias, que o Mestre sentenciou: "coais um mosquito e engulis um camelo", como querendo demonstrar aos homens que não deveriam prejudicar a assimilação dos seus lídimos ensinamentos por causa de preocupações de ordem puramente humana e de importância irrisória.
Não deve ser motivo para preocupação saber se Jesus Cristo era feio ou bonito, Galileu ou nazareno, se fez parte da comunidade dos Essênios ou se estudou no Himalaia, pois, verdadeiramente muitas criaturas perdem tempo precioso em querer descobrir o que o Senhor fez e onde esteve dos doze aos trinta anos de idade, esquecendo-se de aplicarem em si os mais singelos rudimentos dos ensinos por ele legados e que levam os homens à reforma íntima, predispondo-se à assimilação do chamado Reino dos Céus.
Nos Evangelhos deparamos com ocorrência desse gênero: O Mestre estava no auge de sua missão redentora, prodigalizando os mais transcendentais ensinamentos e toda a sorte de sinais, pela palavra e pelos atos, e não obstante, os seus contemporâneos apenas se preocupavam em saber como poderia ele falar tão sabiamente, sendo filho de humilde carpinteiro e irmão de alguns homens obscuros da cidade. (Marcos, 6:3).
Os escribas do tempo de Jesus, não se preocupavam em analisar a vida e os ensinamentos dele emanados, à luz das antigas profecias, não se dando ao trabalho de fazer um retrospecto a fim de determinar até que ponto a afirmação do Senhor, de ser o Messias prometido, tinha base fundamentada nos livros dos antigos profetas. Esses intérpretes das leis preferiram antes consultar os dogmas da igreja prevalecente e os seus próprios interesses, passando a abominar tudo aquilo que ele viera trazer, achando mais fácil atribuir os fatos supranormais que ocorriam no decurso do seu Messiado, a engenho e arte do príncipe dos demônios."
Os próprios irmãos de Jesus não acreditavam nele (João, 7:5), preferindo ignorar a luz que com eles convivia, menosprezando os sinais dele provindos, propiciando-nos assim, a mais viva demonstração do divórcio existente entre aqueles que se preocupam tão somente com as coisas nobilitantes do Espírito, e os que se aferram exclusivamente às coisas transitórias do mundo físico, fazendo com que o escopo maior de suas cogitações girem em torno das conveniências mais imediatas e das aquisições de ordem puramente material.
(1) - filósofo platônico que viveu em Roma na época dos Antoninos (séc.II), célebre por seus ataques ao cristianismo. (nota do compilador)

(Extraído de "Correio Fraterno do ABC" - Ano 2 - outubro 1968)

14 de março de 2009

O PODER RELIGIOSO


Companheiros. Amem-se, cada vez mais. Amem-se com aquele amor que cobre a multidão dos pecados. Amem-se, em nome de Jesus, com o Espírito da Verdade presidindo os seus sentimentos.
Na seara espírita, é esta a mais difícil tarefa que o homem tem sobre a terra, pois ela representa aquela ponte que separa dois ciclos evolutivos.
É preciso entender que muitos pensarão em tomar de assalto esta seara, muitos tentarão a pseudo-salvação através de suas verdades, trazendo ao solo santo da seara as suas impurezas, desejando que o Senhor se submeta aos seus caprichos.
Falarão em nome da Doutrina para – explorá-la em proveito próprio. Trabalharão em nome da Doutrina para conduzir os seus interesses particulares a uma situação de destaque.
Não temamos, pequeno rebanho. Seja a sua palavra sim, sim, não, anão.
Continuemos com o Cristo, o Mestre e Senhor de todos nós, perguntando-lhe humildemente: "que queres que eu faça?", buscando a vontade do Senhor para nós e para os nossos irmãos de jornada.
Trapacear com a verdade foi o crime religioso ,de todos os tempos.
Não tenhamos dúvida de que o interesse idas sombras é colocar dentro das fileiras espiritistas aqueles corações desavisados e ainda comprometidos por um passado ainda não liquidado para, através deles, penetrarem no cerne do movimento de libertação das almas, atingindo os seus principais centros de atividades na Terra, fazendo surgir, aqui e alhures, processos desconcertantes.
A cegueira da alma que se deixou
vitimar pela vaidade impede a verificação do erro em curso.
Prossigam na obra abençoada do esclarecimento doutrinário, embora empenhados em fazer o seu trabalho dentro do espírito do Cristo, que é o espírito da caridade.
Não restam dúvidas de que, mais do que nunca, chegam agora às fileiras do Espiritismo aqueles que se comprometeram ,seriamente com o processo religioso na Terra. São antigos fracassados religiosos que, embora arrependidos nó plano espiritual, apresentam ainda brechas muito grandes, na repetição de seus feitos de outrora, e, embora cientes da realidade do Espiritismo, desejam repetir por si e por outros a posição de poder a que se acostumaram.
O poder religioso está neles reprimido graças ao esclarecimento da Doutrina consoladora; mas, a ânsia desse poder permanece-lhes jugulando os corações e tentam, nos seus desesperos e nas suas incontinências, repetir o ontem desastroso
Os espíritos intelectualizados, mas distanciados do Evangelho, revestem o seu pensamento dos aspectos dourados de uma liberdade apressada, de uma valorização sem compromissos, fazendo ressurgir o endeusamento do "eu".
Dentro dessa feição, amigos da caravana, que o seu amor, que a sua caridade não dispense o bom senso, o equilíbrio da visão harmoniosa dos objetivos da Doutrina, a fim de terem a melhor palavra, o melhor caminho para todos os nossos companheiros.
Não esqueçam de que o seu compromisso maior é com Jesus. Fora de Jesus, fora da caridade não há salvação.
Bezerra
Página recebida pelo médium A.I.M., na reunião do Grupo Ismael, da Federação Espírita Brasileira, em 2/10/73, no Rio de Janeiro, GB.Reformador – Fevereiro de 1975

13 de março de 2009

A PRECE


Logo depois que despertou na consciência, o ser humano começou a sentir a necessidade de dirigir-se a um Ente Supremo, que, na verdade, inicialmente eram vários, pois, segundo a mentalidade primitiva, a cada fenômeno da Natureza e a tudo que se lhe afigurava extraordinariamente, era atribuído, como causa, a alguém que o produzia.
Muito cedo, já no alvorecer da vida espiritual, a criatura começou a falar com seus deuses, pedindo-lhes as coisas que desejava, solicitando-lhes proteção e ajuda, agradecendo-lhes as coisas que recebia e reclamando as que não recebia, estabelecendo acordos, etc. E cada qual se exprimia conforme o que lhe ditava a consciência.
Com o tempo, fundaram-se as religiões, e estas foram estabelecendo fórmulas de rezas e padronizando meios de comunicarem-se com os deuses. E muitos foram os modos idealizados para entrar em contacto com eles.
Mas a diante, quando a Humanidade já estava mais evoluída e chegou à compreensão de um Deus único, então as orações eram dirigidas ao Pai-Criador que está no céu, à “mãe de Deus” e também aos “santos” que foram canonizados. Originaram-se as rezas especiais para cada fim, bem como as miraculosas, destinadas a determinadas curas e a certos feitos.
Presentemente, a Humanidade já foi instruída pelos Mestres da Espiritualidade a respeito da oração, e sabe então, que o seu resultado não depende das palavras muitas vezes repetidas e ditadas em voz alta. As palavras são apenas fonemas emitidos como meio de comunicação entre os seres encarnados, que possuem como dispositivo receptor o sentido da audição. Mas o que traduz o sentido das coisas é sempre o pensamento. Quando dizemos alguma coisa, podemos dizê-la em quaisquer das línguas do Universo, que será sempre a mesma coisa, isto é, os diferentes fonemas articulados que dão forma à expressão não alteram a natureza da vibração que é emitida pelo espírito como pensamento que traduz o sentimento essencial.
Portanto, as orações que são dirigidas a Deus, ao Mestre Jesus, aos bons Espíritos, têm o seu efeito, quando vibradas com firmeza de pensamento e sinceramente sentidas, que então, em relação à elevação do espírito, á intensidade da emissão do potencial psíquico, á natureza intima da intenção e à pureza sentimental, será alcançado, quando é possível, o atendimento do que foi suplicado.
Sabemos então que não é pelo muito pedir, repetindo seguidamente o que se necessita, como que, querendo “convencer a Deus” nem pelo falar alto ou gritar, como que querendo forçar que “Deus nos ouça”, que seremos atendidos em nossas súplicas. Mas através do pedido sincero, feito com resignada devoção, sem a pretensiosa confiança de quem é merecedor de ser atendido, com a humildade e abnegação de quem sabe que não há efeito sem causa e que ninguém passa pelo sofrimento em vão, porque na vida nada acontece por casualidade, pois tudo tem a sua razão de ser.
Disse o Mestre dos mestres: “Pedi e dar-se-vos-á; buscai e encontrareis; batei e abrir-se-vos-á”. “E qual dentre vós é o homem que, pedindo pão o filho, lhe dará pedra?”; E, se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos seus filhos, quando mais o vosso Pai, que está nos céus, dará bens ao que lhos pedirem?
Mas acontece, como sabemos, que nem sempre somos atendidos no que pedimos, e assim, os que ainda não estão esclarecidos julgam que é um castigo de Deus o sofrimento por que passam as criaturas, apesar de rogarem constantemente ao criador para que as curem.
Porém, nem sempre pedimos o que é possível. A esse respeito esclareceu Jesus, quando disse; “não sabeis o que pedis”. Deus sabe o que é melhor para nós. Portanto, aquilo que é considerado como injusto castigo, que na verdade é sempre uma conseqüência provocada pelo próprio espírito, que muito o aborrece, o desagrada, e o induz a reclamar, pedindo a Deus que o liberte de tal sofrimento, é uma desejada prova, cuja experiência resultante, redunda em seu benefício e concorre para o seu bem.
Solicitado por um dos seus discípulos para que os ensinasse a orar, o Mestre, advertindo para que não fizessem como os “hipócritas que se comprazem em orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens”. Recomendou o seu clássico e imorredouro “Pai Nosso”, que é singelo, mas traduz muita sabedoria e um profundo sentido.
Com referência à prece, alguns entendem que é desnecessária, porque, dizem eles, ela não pode modificar a natureza das coisas, porquanto não pode ser evitado o que a criatura deverá passar como prova ou regate. Baseados no nosso entendimento, então poderíamos ir mais longe e pensarmos que pedir as coisas a Deus é contraproducente porque é Ele Onisciente. Ora se é Onisciente, tudo sabe, e se é infinitamente Justo e Bom, por que pedir o de que precisamos?
Por esse raciocínio chegaríamos ao ponto de nos encontrarmos diante de um dilema, pois teríamos que admitir assim pensando, que Deus não se preocupa com os que não se voltam a Ele, ou que não é Onisciente, e nesse caso, precisa ser advertido para que tome conhecimento do que se passa com as suas criaturas.
Porém, a verdade é que sempre que tentamos resolver os problemas transcendentais, condicionando-os aos limitados recursos do nosso entendimento, sem antes averiguar se realmente o que objetivamos está ao alcance da concepção humana, fazemos interpretações inadequadas e errôneas, o que nos faz pensar coisas completamente coisas completamente destituídas de fundamento.
Razão pela qual, quando pretendemos chegar à compreensão do que nada, analisar se o que estamos pensando a respeito de tal assunto está baseado em elementos já reconhecidos e comprovados, ou se estamos tentando, pelos meios do raciocínio, explicar o que ainda transcende ao atual entendimento.
A questão da prece (se devemos ou não pedir as coisas a Deus) interpretada, sem um prévio exame da origem das idéias em que se apóia o raciocínio, leva a falsas deduções.
Se antes, porém, de formularmos qualquer espécie de pensamentos a respeito do fato da prece, procurarmos reconhecer que nos encontramos ainda muito distantes do seu fundamento, compreenderemos, então, que o real sentido que sua verdadeira razão encerra não é aquele que, presentemente pensamos.
Precisamos compreender que quando nos referimos ao Criador, dizendo que nos “vê”, nos “ouve” e nos “entende”, estamos servindo-nos de expressões que se radicam nas ideologias do passado. Pensamentos ideológicos, através dos quais Deus é concebido antropomorficamente, o que induz a interpretação humana a julgar que Deus “sente”, “pensa”, “quer”, etc.
E, quando a ser Deus Onipresente, Onipotente e Onisciente, o que, sob o ponto de vista humano, fundamenta a razão de pensarmos que não se deve pedir-Lhe nada, pois sabe Ele melhor que nós as nossas reais necessidade, também precisamos reconhecer que é uma interpretação que é lógica para o nosso relativo e limitado alcance conceptual.
A esse respeito já observou Jesus, quando recomendou para orarmos em oculto, e não usarmos palavras vãs como os gentios, que pensam que por muito falarem serão ouvidos; e acrescentou; “porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de vós lho pedirdes”.
É evidente que os predicados que o ser humano atribui a Deus representam a tradução do máximo que lhe é possível conceder atualmente a Seu respeito. Mas, Deus-Criador é inconcebível, logo, é impossível ao ser humano, no seu presente estado evolutivo, interpretar, descrever, conceber, a Sua forma de Expressão.
Através da mais aprofundada concepção alcançada pelo entendimento contemporâneo, já chegamos à compreensão de que Deus é impessoal, portanto, Absoluto, e Está em toda parte. E, na mais alta forma humana de conceber, pensamos que é Ele a Alma do Todo, o Deus-Criador, a Causa da Vida, etc., mas , também já certos de que não nos é possível afirmar nada positivamente a respeito da Sua Real Natureza e Força de Ação nos Universos do Cosmo.
Nós, os habitantes do planeta Terra, estamos ainda infinitamente distantes da Verdade Fundamental da Existência, entretanto já temos comprovada certeza de que a Vida Universal é regida por Sábias Leis, e de que tudo na vida se movimenta numa perfeita e impecável harmonia de princípios invariáveis e constantes, o que nos faz ver Deus em toda parte e senti-Lo dentro de nós.
E na nossa vida, como no perfeito sistema do Organismo da Existência, também tudo se cumpre com infalível precisão, sem a mínima possibilidade de falha ou derrogação, e, de modo geral, indefectivelmente com inalterada determinação, o que torna evidente, não ser admissível que a vontade de alguém possa interferir de algum modo a fazer com que seja suprimido um efeito-conseqüência de uma causa-motivo.
Já sabemos hoje que o verdadeiro caráter da prece dirigida a Deus não é “forçar a Sua misericórdia”, “implorar a Sua caridade”, “despertar a Sua compaixão”, menos para que “Veja” isto ou aquilo, ou que “Tome conhecimento” desta ou daquela situação, mas pôr a criatura em contacto com a Fonte do Poder e do Amor. Mas, como a criatura humana ainda se encontra no nível evolutivo que não lhe permitiu superar as formas arcaicas de conceber as coisas espirituais, então nas suas necessidades, volta-se ao Criador, com expressões humanas do entendimento comum , tais como: “tende misericórdia de mim”, “olhai para os que sofrem”, “tende piedade deste inocente”, “tende compaixão deste pecador”, etc.
Embora a maioria dos seres humanos o faça inconscientemente, nas suas preces, colocam suas mentes, relativamente, em sintonia com os Planos Superiores e com as Forças do Bem, e, à medida do possível, são atendidos no que pedem; para serem ajudados, esclarecidos, aliviados, melhorados e curados.
Na prece, portanto, a criatura entra em comunicação com o Alto, estado de Alma que torna propício o recebimento de vibrações benéficas, emitidas em seu favor.
As súplicas de uma fervorosa prece não alteram o que por natureza tem que se cumprir, mas podem fazer com que seja suavizada a prova de uma criatura, bem como prevenir que aconteça o que não lhe está imperiosamente destinado.
Sem derrogar as Leis, sem alterar o ritmo do curso natural das coisas, uma prece vibrada com todas as forças do coração, pode amenizar o sofrimento de uma dura prova, quando se trata de casos em que a dor é reclamada como remédio para o espírito, e resolver situações difíceis, afastar espíritos sofredores, e até mesmo operar curas, quando se trata de casos em que o que atinge a criatura é uma conseqüência momentânea motivada pelas circunstâncias do meio, que, aliás, sempre tem a finalidade edificante de conduzi-la ao bom caminho, de adverti-la sobre algum erro cometido, de fazê-la compreender algo proveitoso para o seu adiantamento espiritual, de fazê-la passar por uma experiência necessária à sua evolução, etc.
Portanto, está enquadrado no rigoroso funcionamento das Leis da vida o surpreendente e, aparentemente, milagroso resultado de um pedido sincero e confiante, feito através de uma elevada prece ao Criador.
A prece, pois, em dados momentos, quando as negras nuvens de pensamentos negativos obscurecem o horizonte de nossa vida, é a chave de contacto que faz chegar até nós as luzes de que necessitamos, das Esferas Espirituais; quando debilitados, pelos excessos da materialidade, é o conduto, através do qual, do Alto, chegam até nós as requeridas forças restauradoras; quando caídos na estrada da dor, clamando para que nos ajudem, é o ecoante gemido que atrai o “bom samaritano”, que nos acode e nos trata com dedicação cristã; quando mos acoitados pelas tormentas dos duros golpes da adversidade, é o que nos achega à mão amiga que nos protege e nos conduz ao posto de salvamentos; quando acometidos por graves enfermidades, é a sineta que soa no espaço, chamando o socorro da assistência espiritual, que bondosa e abnegadamente nos atende com seus superiores recursos extraterrenos; quando desnorteados no labirinto dos reveses que sobrevêm nos círculos da existência, é a forma de ouvir a voz do céu, que nos dita como reencontrar o caminho; quando desgovernados no agitado mar das aflições e da incerteza, é o cabo invisível que nos une à firme âncora do além que nos garante a segurança, evitando que soçobremos; quando tristes e amargurados nas jornadas da expiação, é o extraordinário toque que vai às alturas, chamando o Consolador que, com seus fluídos balsâmicos e suas irradiações de amor, nos vem fortalecer e encorajar; quando em pleno deserto das provas terrenas, é a abençoada trilha que nos leva ao acolhedor oásis que contém a fresca e reconfortante água do espírito, que suaviza a alucinante sede do sofrimento; enfim, a prece é aqui na Terra, como em todos os planos de vida da Colméia Cósmica, o maravilhoso meio que faculta a criatura a entrar em comunicação com o Mundo Espiritual, e, em relação ao estado de consciência, com o Manancial da Existência.

Nome do Artigo – Autor: Bruno Bertocco – Fonte: Anuário Espírita – 1967