3 de março de 2009

O CÉU E O INFERNO


Até o advento do espiritismo em 1857, as pessoas só tinham duas perspectivas para o seu futuro após a morte: O Céu ou o Inferno.

É verdade que também existia o Limbo e o Purgatório, apesar desses dois locais serem crença de apenas algumas das correntes cristãs. Não era uma unanimidade. E mesmo esses dois locais ora existiam, ora eram abolidos segundo o pensamento dos dirigentes religiosos da ocasião.

De certo e universal mesmo eram o Céu e o Inferno.

Os cristãos, e notadamente a maioria das religiões não cristãs, viam-se na contingência de esperarem para si mesmas após a morte um futuro de delicias ou de sofrimento apavorante. Eternos. Ou seja, sem remissão. Morreu – selou seu destino sem apelações.

Que perspectiva terrível, não é mesmo.

Ora, é claro que todos desejam ir para o Céu, e a grande maioria acredita ser merecedor de tal premio. No entanto fica sempre uma pulguinha atrás da orelha: será que eu vou mesmo para o Céu? E se não for?

Se não for, o futuro é terrível! Imagine-se queimando no fogo ardente, sem se consumir, para toda a eternidade! Que sofrimento absurdo! Veja que queimar um dedo já é muito doloroso, e a dor da queimadura permanece por horas! Imagine então ficar sofrendo queimaduras sem se consumir, não um dedinho, mas o corpo inteiro, sem poder fugir do ardor da chama, por um dia inteiro, todos os dias da sua eternidade! É inimaginável! É simplesmente um despropósito!

Afinal, o sentimento de justiça, que é inato em todas as criaturas, considera sempre a proporcionalidade do castigo em relação ao crime. Se cometeu um delito pequeno - uma penalidade pequena e rápida. Para um delito médio - uma pena media, e para um delito grave - uma severa. Mas jamais uma pena enorme, muito acima do valor do crime. Pois é o que acontece na crença do Céu e Inferno. Para um crime cometido em um instante, o castigo é o sofrimento eterno. Ora, por mais grave que um delito possa ter sido, a pena deve ser proporcional ao crime e jamais maior do que o crime, e menos ainda eterna. Nenhum crime, por maior que seja, pode ensejar uma pena em nível permanente.

Alem disso, a religião comum afirmava que quem não fosse seu adepto também estava condenado a ir para o inferno. Aí que a coisa ficava mais complicada, porque como a maioria da população do mundo não era de seguidores da igreja, Deus estaria condenando a maioria dos seus filhos aos horrores do inferno escaldante. Ou seja, estaria condenando quase 75 % de toda a população da Terra ao inferno, pelo único crime de não professar uma religião. Então as pessoas mais lúcidas se perguntavam: como Deus, que é a suprema bondade e justiça, e que tudo sabe com antecedência, poderia criar bilhões de pessoas sabendo antecipadamente que as criava para ir definitivamente para o inferno? Deus faria isso? Claro que não. A lógica e o bom senso avisavam que tal afirmação exclusivista daquela religião estava absolutamente equivocada.

Estas indagações foram fazendo com que as pessoas começassem a duvidar da justiça de Deus, pois esta lei de Deus assim apresentada era mais injusta que a lei dos homens. Ora, como Deus, que é a perfeita justiça, faria a sua lei menos perfeita e menos justa que a dos homens? Então onde está o erro? As pessoas começaram a achar que havia algo de errado com a religião, mas não podiam questionar isso abertamente, pois lembrem-se, vivia-se os tempos das perseguições inquisitoriais, onde os discordantes dos dogmas eram condenados à morte na fogueira. Então as pessoas mais lúcidas foram se afastando da religião, não obstante manterem a aparência externa de perfeita comunhão de idéias com as autoridades religiosas, para não serem condenados como hereges.

Mas a verdade é que muitos já duvidavam. Após o ano de 1821, quando definitivamente se apagaram as fogueiras da “Santa Inquisição” numa sessão das Cortes Gerais em Portugal, as pessoas puderam dar livre vazão as suas duvidas. Aí tomaram vulto correntes filosóficas como o Liberalismo e o Livre Pensar, onde as pessoas não mais se prendiam aos dogmas religiosos, aceitando para si somente o que lhes parecesse lógico. As pessoas mais esclarecidas em meados do século retrasado preferiram ser descrentes a acreditar em absurdos. E tornaram-se agnósticos, ateus ou materialistas. Ou as três coisas.

Foi nesse caldo de cultura que surgiu o Espiritismo trazendo a resposta que muitos procuravam.

Veio finalmente a explicação lógica e sensata para os destinos das criaturas após a sua morte.

Não mais um Paraíso de delicias eterno, nem um Inferno de horrores infindos. Veio a luz a idéia do futuro perfeitamente de acordo com o senso de justiça comum e de acordo com o juízo que se faz das perfeições Divinas.

O Espiritismo ensinou que as penas têm duração finita, e limitada ao teor da falta. Da mesma forma, a bem-aventurança é alcançada pelo verdadeiro mérito da criatura, e não mais por atender a esta ou aquela disposição do culto cerimonial das religiões. Perfeito e justo. Veio diretamente ao encontro das indagações daqueles que buscavam respostas da vida para assuntos tão transcendes. Por isso que o espiritismo teve tão pronta aceitação e rápida difusão entre as criaturas de seu tempo. Essas novas noções das realidades do pós-vida encontraram centenas de milhares de pessoas sedentas de respostas.

Infelizmente essas idéias foram duramente combatidas pelos religiosos que sentiram-se ameaçados em suas posições de condutores da religião. E foram eles os responsáveis pela perseguição movida aos novos adeptos, inibindo dessa forma muitas conversões sinceras. Até hoje a perseguição prossegue, onde se assiste religiosos de varias denominações cristãs atacando diretamente aos espíritas e sua doutrina. Responderão, é verdade, pelo retrocesso parcial que impuseram e impõem ao avanço das novas idéias libertadoras do espírito humano. E o futuro fará justiça àqueles que perseverarem na senda da verdade e penalizará os que a obstruírem.

Mas voltemos aos novos ensinamentos trazidos pela Doutrina Espírita.

Os espíritos ensinaram que pagamos pelo mal que fazemos as outras criaturas, bem como recolhemos as benção merecidas do auxilio desinteressado que prestarmos aos nossos semelhantes.

Mas, perguntaram alguns: se as criaturas pagarão proporcionalmente pelo seu crime, como serão penalizados aqueles que cometeram mais de um crime, subtraíram a vida a alguns dos seus semelhantes, e morreram muitas vezes sem sequer serem condenados pela justiça dos homens?

Os espíritos responderam com a chave que abre todas as portas ao entendimento das leis imutáveis do Criador – a reencarnação. Reencarnando, o faltoso pagará em outra existência física aquilo que não pagou na presente existência. Claro, simples e perfeito!

A reencarnação, conjugada com a lei de causa e efeito, da-nos a chave do entendimento da perfeita justiça de Deus. E ao mesmo tempo em que mostra-nos a forma como serão penalizados os que erraram, explica o porquê dos sofrimentos aparentemente sem causa que vemos no mundo, como sendo a conseqüência dos erros do passado.

A Doutrina espírita veio definitivamente erradicar o conceito errôneo de um Céu e Inferno eternos ao fim de nossas existências físicas, abrindo em seu lugar janelas luminosas para o futuro das criaturas. Nela aprendemos que alem desta vida, temos muitas outras, e que nossos erros terão reparação em outras existências, e que todos nós, sem exceção, poderemos um dia atingir os planos celestiais, elevados para lá pelos nossos próprios méritos e conquistas evolutivas.

Assim, o chamado Inferno das penas eternas dá lugar a locais no plano espiritual que reúnem os devedores pelo tempo que se fizer necessário para seu reajustamento, preparando-os uma nova existência física. E o chamado Céu ou Paraíso eternos dão lugar a todo o universo do Pai, em atividade continua de auto aprimoramento e evolução através do trabalho em prol do bem em todos os lugares, sendo a felicidade das criaturas não mais decorrentes do local em que se encontrem, mas da paz, equilíbrio e alegria que conquistarem.

Portanto, o Inferno terrível e eterno está totalmente abolido, e a justiça de Deus perfeitamente realçada e confirmada.
Henrique Fracalanza
Fonte: Livro O Céu e o Inferno – Alan Kardec

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