4 de abril de 2009

AS MAIS BELAS PRECES

A Prece tem de ser espontânea, nascer do fundo do coração e ser montada sem qualquer carpintaria técnica. Vale a força do sentimento e nada mais. Por isso a prece decorada ou proferida com hora marcada há de ser evitada, para que não ganhe entonação mecânica e venha a ser dita apenas com os lábios. É assim que aprendemos com a doutrina espírita e, de resto, é o que o bom senso e a razão recomendam. Daí a total impropriedade dos hinos religiosos. Hino é prece decorada que difere apenas pelo acompanhamento do compasso musical. Não vale nada. Daí também a falsidade da prece isolada, sem continuidade de nada, proferida apenas, por exemplo, para uma emissora de rádio ou televisão entrar no ar. (Vide a propósito o tópico nº 19 do cap. V de meu livro O Atalho, Publicações Lachâtre.)Ora, quando Jesus é solicitado e ensina como devemos orar, apresentando-nos as maravilhosas palavras do Pai-Nosso, ele apenas indicou um modelo e nada mais. Da mesma forma Allan Kardec, quando reuniu na parte final de O Evangelho segundo o Espiritismo (caps. XXVII e XXVIII) aquela bela coleção de preces, apenas se preocupou em oferecer modelos de orientação. É como se sugerisse os pontos que as pessoas podem lembrar no curso de uma prece.
De qualquer forma, se alguém for capaz de repetir sempre as mesmas palavras com verdadeira e sincera devoção interior, é claro que a prece tende a alcançar seu objetivo, embora saibamos muito bem que, na circunstância, essa inspiração é bastante difícil. Creio que num momento todo especial, de repente, seja possível juntar sentimento e palavras decoradas. Mas esse será sempre um momento de notável excepcionalidade. Na hora, por exemplo, em que os cristãos enfrentaram o martírio do circo romano, sem dúvida entoaram cantos que lhes saíram do imo da alma. Mas aquele momento foi o último vivido por eles naquela encarnação. Era o momento irreversível da morte trágica, pavorosa...
Não obstante, as preces aí estão como modelo e para efeito de eventual repetição. Há muitas ornadas de magnífica beleza e capazes de extasiar. Selecionei a seguir aquelas que, na minha opinião, considero as três mais belas, sob todos os aspectos. Valem como prece e como poesia. Trata-se do Pai-Nosso, da Prece de Cáritas e do Adoro-Te.
Depois, o leitor encontrará o mais belo texto espírita por mim já lido – Quando... –, criado por um grande espírita, meu amigo desencarnado há algum tempo, mas que nos legou a todos excelentes trabalhos doutrinários, dada a sua fantástica cultura e o seu invejado estro.
Seguem-se, pois, as reproduções com as respectivas fontes e seus autores.

Pai-Nosso
Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o Teu nome, venha a nós o Teu reino, seja feita a Tua vontade assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos dás hoje.
Perdoa as nossas ofensas, assim como nós perdoamos os nossos ofensores.
Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal; porque Teu é o reino, o poder e a glória para sempre.
(Evangelhos de Mateus, cap. 6, v. 9-13, e de Lucas, cap. 11, v. 2-4.)

Prece de Cáritas
Deus, nosso Pai, que sois todo Poder e Bondade, dai a força àqueles que passam pela provação, dai a luz àquele que procura a verdade, ponde no coração do homem a compaixão e a caridade.
Deus! Dai ao viajor a estrela guia, ao aflito a consolação, ao doente o repouso.
Pai! Dai ao culpado o arrependimento, ao espírito a verdade, à criança o guia, ao órfão o pai.
Senhor! Que vossa bondade se estenda sobre tudo que criastes.
Piedade, Senhor, para aqueles que vos não conhecem, esperança para aqueles que sofrem.
Que a vossa bondade permita aos espíritos consoladores espalharem por toda parte a paz, a esperança e a fé.
Deus! um raio, uma faísca de vosso amor pode iluminar a Terra; deixai-nos beber nas fontes dessa bondade fecunda e infinita, e todas as lágrimas secarão, todas as dores se acalmarão.
Um só coração, um só pensamento subirá até vós, como um grito de reconhecimento e de amor.
Como Moisés sobre a montanha, nós vos esperamos com os braços abertos, oh! Bondade, oh! Beleza, oh! Perfeição, e queremos de alguma sorte merecer a vossa misericórdia.
Deus! Dai-nos a força de ajudar o progresso a fim de subirmos até vós; dai-nos a caridade pura, dai-nos a fé e a razão; dai-nos a simplicidade que fará das nossas almas o espelho onde se refletirá a Vossa Imagem.

CÁRITAS
(Recebida psicograficamente pela médium W. Krell, em Bordeaux, em 1876, e constante do livro Rayonnements de la Vie Spirituelle.)
Aparece também, desde muitas edições, no final do opúsculo A Prece segundo o Evangelho, editado pela Federação Espírita Brasileira, e que mais não é do que a última parte de O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, embora deste não conste a Prece de Cáritas, posto que ela ainda não existia, em 1864, quando o Codificador lançou sua obra. Tendo sido fruto de pesquisa minha a descoberta da origem dessa famosa prece, durante muito tempo o opúsculo da FEB acrescentou uma nota de rodapé com a seguinte explicação:
Nota da Editora: "Esta prece foi extraída da obra francesa Rayonnements de la Vie Spirituelle, psicografada pela médium Mme. W. Krell, publicada em Bordéus, em 1876, contendo mensagens de Musset, Lamartine, E. Pöe, Espírito de Verdade, Hahnemann, Mélanchthon e outros, inclusive trabalhos diversos do mesmo espírito Carita (Cáritas).
No quarto parágrafo do original francês há uma palavra que foi necessariamente suprimida mais tarde – aujourd'hui (hoje) –, por se tratar de alusão direta ao dia de Natal, no qual foi a prece ditada.
Eis o parágrafo aludido: "Piété, mon Dieu, pour celui qui ne vous connait pas, espoir pour celui qui souffre! Que votre bonté permette aujourd'hui aux esprits consolateurs de répandre partout la paix, l'espérance et la foi!"Para outros detalhes, vide o artigo ‘Dos Alfarrábios – II’, de Luciano dos Anjos, in Reformador de 1972, págs. 37/8. "

Adoro-Te
Adoro-Te, recôndito Eu do universo, alma do Todo, meu Pai e Pai de todas as coisas, minha respiração e respiração de todas as coisas.
Adoro-Te, indestrutível essência, sempre presente no espaço, no tempo e além, no infinito.
Pai, amo-Te, mesmo quando Tua respiração é dor, porque Tua dor é amor; mesmo quando Tua Lei é esforço, porque o esforço que Tua Lei impõe é o caminho das ascensões humanas.
Pai, mergulho em Tua potência, nela repouso e me abandono, peço à fonte o alimento que me sustente.
Procuro-Te no âmago onde Tu estás, de onde me atrais. Sinto-Te no infinito que não atinjo e donde me chamas. Não Te vejo e, no entanto, ofuscas-me com Tua luz; não Te ouço, mas sinto o tom de Tua Voz; não sei onde estás, mas encontro-Te a cada passo, esqueço-Te e Te ignoro, no entanto, ouço-Te em toda a minha palpitação. Não sei individuar-Te, mas gravito em torno de Ti, como gravitam todas as coisas, em busca de Ti, centro do universo.
Potência invisível que diriges os mundos e as vidas, Tu estás em Tua essência acima de toda a minha concepção. Que serás Tu, que não sei descrever nem definir, se apenas o reflexo de Tuas obras me enceguece? Que serás Tu, se já me assombra a incomensurável complexidade desta Tua emanação, pequena centelha espiritual que me anima integralmente? O homem Te busca na ciência, invoca-Te na dor, Te bendiz na alegria. Mas na grandiosidade de Tua potência, como na bondade de Teu amor, estás sempre além, além de todo o pensamento humano, acima das formas e do devenir, um lampejo do infinito.
No ribombar da tempestade está Deus; na carícia do humilde está Deus; na evolução do turbilhão atômico, na arrancada das formas dinâmicas, na vitória da vida e do espírito, está Deus. Na alegria e na dor, na vida e na morte, no bem e no mal, está Deus; um Deus sem limites, que tudo abarca, estreita e domina, até mesmo as aparências dos contrários, que guia para seus fins supremos.
E o ser sobe, de forma em forma, ansioso por conhecer-Te, buscando uma realização cada vez mais completa de Teu pensamento, tradução em ato de Tua essência.
Adoro-Te, supremo princípio do Todo, em Teu revestimento de matéria, em Tua manifestação de energia; no inexaurível renovar-se de formas sempre novas e sempre belas; eu Te adoro, conceito sempre novo, bom e belo, inesgotável Lei animadora do universo. Adoro-Te, grande Todo, ilimitado além de todos os limites de meu ser.
Nesta adoração, aniquilo-me e me alimento, humilho-me e me incendeio; fundo-me na Grande Unidade, coordeno-me na grande Lei, a fim de que minha ação seja sempre harmonia, ascensão, oração, amor.
(A Grande Síntese, Pietro Ubaldi, tradução de Guillon Ribeiro, cap. L, pp. 153/154, Federação Espírita Brasileira, 1939, Rio.)

Quando...
Filho meu!
Quando, nas horas de íntimo desgosto, o desalento te invadir a alma e as lágrimas te aflorarem aos olhos, busca-me: Eu sou Aquele que sabe sufocar-te o pranto e estancar-te as lágrimas;
Quando te julgares incompreendido dos que te circundam e vires que, em torno, a indiferença recrudesce, acerca-te de Mim: Eu sou a Luz, sob cujos raios se aclaram a pureza de tuas intenções e a nobreza de teus sentimentos;
Quando se te extinguir o ânimo para arrostares as vicissitudes da vida e te achares na iminência de desfalecer, chama-me: Eu sou a Força capaz de remover-te as pedras dos caminhos e sobrepor-te às adversidades do mundo;
Quando, inclementes, te açoitarem os vendavais da sorte e já não souberes onde reclinar a cabeça, corre para junto de Mim: Eu sou o Refúgio, em cujo seio encontrarás guarida para o teu corpo e tranqüilidade para o teu espírito;
Quando te faltar a calma, nos momentos de maior aflição, e te considerares incapaz de conservar a serenidade de espírito, invoca-me: Eu sou a Paciência, que te faz vencer os transes mais dolorosos e triunfar das situações mais difíceis;
Quando te debateres nos paroxismos da dor e tiveres a alma ulcerada pelos abrolhos dos caminhos, grita por Mim: Eu sou o Bálsamo que te cicatriza as chagas e te minora os padecimentos;
Quando o mundo te iludir com suas promessas falazes e perceberes que já ninguém pode inspirar-te confiança, vem a Mim: Eu sou a Sinceridade, que sabe corresponder à franqueza de tuas atitudes e à nobreza de teus ideais;
Quando a tristeza e a melancolia te povoarem o coração e tudo te causar aborrecimento, clama por Mim: Eu sou a Alegria, que te insufla um alento novo e te faz conhecer os encantos de teu mundo interior;
Quando, um a um, te fenecerem os ideais mais belos e te sentires no auge do desespero, apela para Mim: Eu sou a Esperança, que te robustece a fé e te acalenta os sonhos;
Quando a impiedade recusar-se a relevar-te as faltas e experimentares a dureza do coração humano, procura-me: Eu sou o Perdão, que te levanta o ânimo e promove a reabilitação de teu espírito;
Quando duvidares de tudo, até de tuas próprias convicções, e o ceticismo te avassalar a alma, recorre a Mim: Eu sou a Crença, que te inunda de luz o entendimento e te habilita para a conquista da felicidade;
Quando já não provares a sublimidade de uma afeição terna e sincera e te desiludires do sentimento de seu semelhante, aproxima-te de Mim: Eu sou a Renúncia, que te ensina a olvidar a ingratidão dos homens e a esquecer a incompreensão do mundo.
E quando, enfim, quiseres saber quem sou, pergunta ao riacho que murmura e ao pássaro que canta, à flor que desabrocha e à estrela que cintila, ao moço que espera e ao velho que recorda. Eu sou a dinâmica da vida e a harmonia da Natureza: chamo-me AMOR, o remédio para todos os males que te atormentam o espírito.
Estende-me, pois, a tua mão, ó alma filha de minhalma, que eu te conduzirei, numa seqüência de êxtases e deslumbramentos, às serenas mansões do Infinito, sob a luz brilhante da Eternidade.
(O Primado do Espírito, de Rubens C. Romanelli, Publicações Lachâtre, pp. 16 a 18.)

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