31 de julho de 2009

A CARIDADE AMPLA


A caridade manifesta-se verdadeiramente nos atos da criatura.
“A caridade, segundo Jesus, não se restringe à esmola, mas abrange todas as relações com os nossos semelhantes, quer se trate de nossos semelhantes, iguais ou superiores.”(Allan Kardec, questão 886, de “O Livro dos Espíritos”)
Com bastante freqüência, ouvimos comentários informando que a caridade é a distribuição de alimento, roupas, calçados e outros, aos pobres. Via de regra, quando se fala em ser caridoso, logo se imagina a possibilidade de ofertar algo de material a quem esteja passando por alguma dificuldade.
Sem dúvida, socorrer àqueles que, momentaneamente, sofrem pela escassez material, é um gesto de fraternidade e altruísmo, que tem o seu real valor, haja vista a alegria e a satisfação que vislumbramos nos semblantes daqueles que são atendidos em suas necessidades básicas, mas a caridade não se resume tão-somente nesses gestos, obviamente é muito mais abrangente e alcança horizontes bem mais amplos.
Fazemos caridade quando iniciamos o nosso dia de bom humor, cumprimentando alegremente nossos familiares, irradiando otimismo e esperanças por onde passamos.
Fazemos caridade quando damos atenção aos nossos filhos, especialmente quando pequenos, pois que estão à procura de um norte, de um caminho que possa conduzi-los a um oásis de paz e equilíbrio.
Fazemos caridade quando exemplificamos respeito, dignidade e honradez, principalmente dentro do lar, pois a nossa posição de firmeza e retidão de caráter, servirá como referencial àqueles que convivem conosco.
Fazemos caridade quando sabemos calar a uma ofensa, silenciar uma fofoca ou neutralizar uma crítica infundada, não permitindo que o negativismo e a maledicência prossigam semeando a infelicidade e o sofrimento.
Fazemos a caridade quando acariciamos uma criança órfã, ou que vive em lares onde a indiferença e o abandono campeiam à solta, mostrando-lhe o lado bom da vida, como que a informar-lhe sobre a possibilidade de tudo um dia mudar.
Fazemos caridade quando conseguimos algum tempo para ouvir as queixas de quem passa por sérios problemas existenciais, e que naquele instante parece não encontrar soluções para as dores que o atormenta
Fazemos caridade quando sabemos compreender um familiar em desequilíbrio, que apresenta os sintomas da cólera, irritabilidade ou da violência, tratando-o com paciência e tolerância
Fazemos caridade quando trabalhamos além das horas destinadas ao labor profissional, canalizando parte do nosso tempo de descanso em favor daqueles que estendem as mãos em súplicas silenciosas, aguardando, de nossa parte, um gesto de carinho ou uma palavra de compreensão.
Fazemos claridade quando vivemos com otimismo, e mesmo nos instantes mais difíceis, continuamos a disseminar uma mensagem de esperança e determinação.
Fazemos caridade quando demonstramos nossa plena convicção no amor divino, nossa resignação ante situações que não podem ser mudadas no momento, ou quando agimos como verdadeiros e autênticos cristãos.
Com podemos perceber, a caridade é muito ampla, abrangente e, para que vivamos bem, imprescindível se torna que a compreendamos em toda a sua extensão, exercitando-a com freqüência.
Jornal O Clarim/set/2001

29 de julho de 2009

SOMBRAS E LUZ


Perguntando a um espírita se fazia muitos anos que havia deixado suas crenças de criança, disse-me:
- Muitíssimos, porque, quanto às religiões positivas, observei o fruto que davam e, quanto ao catolicismo, bastou-me ver, para deixá-lo, o que vou contar:
Junto à minha casa, vivia um casal, honrado ao extremo. Marido e mulher, trabalhando dia e noite, lograram reunir um capital mais do que regular, que destinavam ao seu único filho, o jovem Jacinto, rapaz ingênuo que amava a seus pais e ao padre da Igreja vizinha, a cujo lado estava quase sempre, servindo-lhe de coroinha, sineiro e camareiro de todos os Santos Cristos e Virgens que havia nos velhos altares. Tanto se afeiçoou às coisas da Igreja, que pediu permissão aos pais para entrar na Companhia de Jesus. Os pobres pais não se atreveram a contrariar sua vocação decidida, e Jacinto, cumprindo seus desejos veementes, ausentou-se da terra natal para seguir seus estudos reeligiosos.
Seus pais, já de idade avançada, que o queriam com delírio, que haviam trabalhado sem descanso toda a sua vida para que o filho vivesse como um principe, ao verem-se sem ele, se entristeceram ao extremo. O pobre velho ficou prostrado na casa, sem poder dar um passo; toda a sua atividade, toda a sua energia, ficou reduzida à inanição mais completa, e, olhando sua atribulada companheira, dizia-lhe que a ausência de Jacinto o levaria rapidamente à morte.
Sua esposa escreveu uma carta ao filho ausente, rogando-lhe pelo céu que voltasse para ver e consolar seu pai. Mas o jovem jesuíta respondeu que já pertencia a Deus de corpo e alma, e que sua família da Terra havia morrido para ele.
Quando o infeliz pai concluiu a leitura da carta, à semelhança de Jesus, murmurou: "Perdoa-lhe, Senhor, pois não sabe o que faz".
Em poucos dias, morria chamando o filho ingrato, inutilmente ...
A esposa, ao ver-se sem marido e sem o filho amado, tornou a escrever a Jacinto, pedindo-lhe compaixão para a sua angustiosa soledade.
Esta carta obteve uma resposta não menos cruel do que a anterior. O jesuíta havia rompido todos os laços e parentescos que antes o uniam ao mundo, e seu coração pertencia inteiramente à Ordem, à Igreja e a Jesus.
Assisti aos dois enterros, e, diante das desastrosas conseqüências da ingratidão religiosa, continuei crendo em Deus, mas sem aceitar religião alguma. Acabou de separar-me delas um diálogo que tive com um jesuíta, que tinha fama de ser muito entendido, eloqüente pregador e conselheiro, vinculado a muitas famílias ricas.
Uma tarde, tive que ir a um colégio da Companhia, onde falando com o aludido discípulo de Loyola, depois de alguns circunlóquios e rodeios, disse-me:
- Tenho entendido que você é uma ovelha desgarrrada, que não crê em nenhum mistério religioso e nega as sagradas revelações que formam a base da religião Católica Apostólica Romana.
- Efetivamente - respondi-lhe -; se pelo fruto se conhece a árvore, a religião católica é uma árvore seca, sem folhas, sem flores e sem fruto. Não dá sombra porque seus ensinos dividem e desnaturam a família. Não dá perfumes, porque seca as flores do sentimento. Não dá frutos, porque seus ministros têm de viver em um estado antinatural, fora das leis da Humanidade: o celibato é a violacão da mais formosa das leis da Natureza. Infringi-la, violá-la, é o dever do clero secular e dos institutos monacais, cujo celibato não pode ser outra coisa do que pedra de escândalo, escárnio da Natureza e do voto.
O voto leva a ultrajar a Natureza, e a Natureza a passar por cima de votos antinaturais. Por isso a história do clero recorda a da prostituição, e a de muitos conventos as aberracões obscenas de Sodoma. A família é a base da sociedade, e o voto que obriga ao celibato é um rude ataque à organização e santidade da família. (Respeitando a palavra de Amália Domingo Soler dentro do contexto histórico do Espiritismo, julgamos de bom alvitre oferecer ao leitor as palavras textuais do médium Francisco Cândido Xavier, em resposta a um médico uberabense que lhe fez a seguinte pergunta: "- Chico, acha você bom para o Espiritismo os seminários católicos estarem quase todos se fechando?" Eis a resposta lapidar do médium do Parnaso de Além Túmulo: "- Meu amigo. diz nosso Emmanuel que a cada seminário que cerra suas portas, pelo menos dois sanatórios para doenças mentais devem surgir para comportar o número de desequilibrados do espírito. Que surjam sempre novos institutos de educação religiosa, para que novos pastores da alma se formem, com segurança, a fim de ampararem os corações aflitos, porque as religiões, em si, são caminhos que se continuam uns aos outros, até que venhamos a chegar todos, devidamente irmanados, na estrada real do conhecimento superior que nos reunirá na integração com Deus." - Nota do Revisor)
Deixando este ponto, e passando para outra ordem de considerações, digo que é o absurdo dos absurdos o dogma das penas eternas. Deus, em sua glória, rodeado dos seus anjos, desentendendo-se do eterno tormento de uma grande parte de seus filhos, seria o horrível divinizado. Negar a Deus é mil vezes preferível à crê-lo tão monstruosamente cruel.
- Meu amigo, - disse-me o jesuíta - suas palavras provam-me quão acertada esteve a Igreja em proibir, aos seus fiéis, o estudo e até a leitura dos livros sagrados. Ao cristão basta crer. Só os ateus necessitam entregar-se à perigosa mania de pensar em que não entendem. Parece-lhe que as penas eternas são o absurdo dos absurdos, quando elas demonstram, de modo mais evidente, a grandeza e a justiça de Deus. Vejamo-lo com exemplos práticos:
Um homem do povo, num ímpeto de ira, movido por alguma paixão insensata, ou algum estímulo brutal, produz em outro da sua classe, uma ou duas feridas graves; é preso, processado e condenado a uns quantos anos de prisão. Que o ferido gravemente seja um dignatário da nação, um título ou um personagem influente: O agressor não pagaria com menos do que cadeia perpétua pelo atentado. E se o agredido é o Soberano? Oh! então o delinqüente só com a vida paga o crime de lesa-majestade, não escapando do cadafalso e do verdugo. Pois bem. Que significa essa gradação de penas para um mesmo delito? Significa que a gravidade da ofensa e do castigo aumenta com a categoria do ofendido.
Não é, portanto, justo que, sendo Deus o ofendido, o pecador expie eternamente seu pecado?
O jesuíta não compreendia, ou não queria compreender, que a justiça divina não admite comparação com isso que se chama justiça humana; que Deus não pode ser ofendido pela criatura; e que as faltas são apenas infrações à lei moral, que na mesma lei têm seu necessário corretivo. E este é o homem sábio? Este é o diretor espiritual que dispõe da tranquilidade de muitas famílias? Este é o mestre da virtude e guia das consciências .. .? Não quis perder tempo opondo meus argumentos aos seus, mas meu sorriso e a expressão dos meus olhos disseram-lhe com toda clareza que não havia logrado me convencer. Os argumentos do ateu são mil vezes mais lógicos .
Lá pelos anos de 1857 ou 1858, li as obras de Allan Kardec. Já faz meio século. Meditei sobre elas e, como se meu cérebro estivera envolto em múltiplos véus, parecia-me que iam caindo e deixando penetrar nele a claridade. À medida que avançavam em minha leitura, meus pensamentos sucediam-se uns aos outros, cada vez mais luminosos. Como os magos dos contos orientais, possuía uma varinha mágica, uma chave misteriosa, que abria todas as portas e penetrava nos lugares mais recônditos, antes inacessíveis aos olhos da minha alma. Desde então, minha amiga, sou espirita racionalista e, desde então, sei porque vivo, porque sofro, porque trabalho, porque espero, e creio na lei do progresso indefinido, sem o qual não poderia explicar-me a razão da vida. Não admito nem o mistério, nem o milagre. Para mim não há mais do que a ciência, disposta sempre a difundir os raios luminosos sobre aqueles que se consagram ao seu culto, pela investigação da Natureza, de suas leis e fenômenos. Duas ambições agitam meu espírito: quisera ser Sábio para ser grande; quisera ser bom para ser justo.
Que recordação tão agradável deixou em minha mente o relato do meu bom amigo! Se todos os homens tivessem semelhantes aspirações, quão rápido se verificaria o progresso da Humanidade terrestre !
Os sábios ensinando e ilustrando a Humanidade; os bons secando o pranto dos atribulados. A ciência e o amor universal dominando em todos os espíritos ... que sonho formoso!
Quando, quando será um fato o triunfo da ciência do amor, da verdadeira fraternidade!
Amália D. Soler

27 de julho de 2009

AS PROVAÇÕES


“A página de nossa irmã e benfeitora espiritual Maria Dolores foi recebida em nossa reunião pública. Achava-se conosco distinto jornalista da Guanabara, interessado em observar como se processava a psicografia. Ele mesmo guardou o original a lápis, deixando a cópia em nossas mãos.
Esclareço ainda que na reunião mencionada o tema trazido a estudo foi a questão 738 de O Livro dos Espíritos, relativa às provações que assediam a humanidade.”

ELEVAÇÃO

Maria Dolores

Escuta, alma querida,
Aceita as aflições e as lágrimas da vida,
Por agentes de acesso à Esfera Superior...
Mágoa, queixa, revolta e rebeldia
Lembram muralhas sob a noite fria
Furtando o coração à luz do amor.
Se a prova te retalha a alma sincera,
Perdoa, faze o bem, trabalha e espera
Aprendendo da estrada em derredor...
Tudo o que vive e sonha, sofre e ama,
Dos astros do Infinito aos vermes sob a lama,
Dando-se à elevação do futuro melhor...
O Sol potente que nos ilumina
É um gigante em perpétua disciplina,
Varando luta.s que desconhecemos,
Por mais se lhe arremesse lixo h face,
Brilha em silêncio como se explicasse
Que só o amor domina os Céus Supremos...

Corre a fonte da penha ao chão da serra,
Depois, ganhando o vale, faz da terra
Verdejante celeiro em garbos de jardim...
Pelo bem que constrói, de segundo a segundo,
Muitas vezes recolhe os detritos do mundo,
Mas beija lodo e pedra e canta mesmo assim!.
O carvão na lareira acende a chama,
O tronco mutilado não reclama,
A estrada se aprimora agüentando tratares...
No trigo triturado o pão puro se asila,
Cria-se a porcelana em fogo sobre a argila,
O roseiral podado dá mais flores!...
Assim também, alma querida e boa,
Não recuses a dor que aperfeiçoa,
Se nos espanca os sonhos, teus e meus...
Golpes, tribulações, angústias, tempestade
São recursos da vida erguendo a Humanidade
Para a Bênção de Deus.

A DOR E O TEMPO

Irmão Saulo

As coisas naturais são constantes lições de paciência ao nosso redor. Tudo no mundo nos ensina duas lições fundamentais: a da evolução e a da imortalidade. Porque tudo se desenvolve em direção ao futuro e tudo morre para renascer. A Ciência reconhece que nada se perde, tudo se transforma. A Filosofia, mesmo em suas correntes mais atuais e mais negativas, reconhece a evolução geral e admite que o homem é um projeto, ou seja, uma flecha que atravessa a existência em direção a um alvo superior.
Se nos recusamos a entender as lições que nos rodeiam e as que brotam do fundo de nós mesmos é por que, segundo explica a questão 738 de O Livro dos Espíritos: "Durante a vida o homem relaciona tudo ao seu corpo". Mas diz, a mesma questão: "Após a morte [o homem] pensa de outra maneira". Apegados ao corpo, limitados pelas percepções físicas, avaliamos a dor pela medida de tempo. Entretanto, os Espíritos nos lembram, ainda na mesma questão: "Um século do vosso mundo é um relâmpago na eternidade".
Jesus nos ensinou, por isso, o desapego, advertindo: "Quem se apega à sua vida perdê-la-á" [João 12:25]. Maria Dolores (ver quadro abaixo) se comunica em poesia para nos tocar, ao mesmo tempo, no sentimento e na razão. É a mesma técnica usada por Jesus nas parábolas e na poesia do Sermão do Monte. A didática moderna confirma a eficiência desse método que nos relaciona com as coisas naturais, que se serve do estímulo do ambiente, da lição das coisas concretas para nos levar à compreensão do sentido da vida.

A dor, ensinou Léon Denis, discípulo e sucessor de Kardec, é uma lei de equilíbrio e educação. A Psicologia moderna comprova que aprendemos pelas tentativas frustradas, pelos ensaios sucessivos. É por meio dos erros que chegamos ao acerto. A sabedoria popular nos diz: "O que arde cura, o que aperta segura". As pessoas inquietas perguntam por que tem de ser assim, por que Deus não nos criou perfeitos e bons. Mas o educador e filósofo Jean Jacques Rousseau (1712-1778) já ensinava que tudo sai perfeito das mãos do Criador. A perfeição, porém, inclui o livre-arbítrio, pois só através dele chegamos à consciência plena. A dor de um minuto nos desperta para a felicidade sem limites como a ventania de um instante limpa a atmosfera por muitos dias.

Do livro “Na Era do Espírito”. Psicografia de Francisco C. Xavier e Herculano Pires. Espíritos Diversos

26 de julho de 2009

AS QUALIDADES DE DEUS



As qualidades de Deus são marcadas pelas nossas comparações pálidas, por não haverem outras em que possamos nos apoiar. Sujeitamos o Senhor às nossas fracas deduções em confronto com os nossos dons, colocando o nosso Pai Celestial dotado das nossas faculdades altamente aprimoradas. Que Ele nos perdoe as comparações.
Quando falamos que Deus é a Suprema Inteligência, é porque não encontramos recursos na linguagem para destacá-lO de outra forma.
Inteligência e razão ainda são posses do Espírito comum; o Criador está acima de todas as colocações humanas, e mesmo espirituais, do nosso plano.
Quando falamos que Deus é Amor, certamente estamos diminuindo o Grande Foco de Luz que nos sustenta todos. O amor é um dos seus atributos; Ele é muito mais que o amor. Ele é, pois, o Incomparável.
A ansiedade dos homens em conhecer Deus, seus atributos, sua intimidade, é impulso dos primeiros passos da criatura na escala evolutiva, e isso vai se arrefecendo de acordo com a seqüência do despertar espiritual; não que os Espíritos percam a vontade de conhecê-lo, pelo contrário: o que perdem é o interesse de passar dos limites das suas forças. Não desejando contrariar as leis, cumprem os seus deveres e esperam a sábia vontade d'Aquele que tudo conhece pela onisciência dos seus valores.
A magnitude de Deus ofusca todas as luzes e a sua bondade inspira todas as bondades do universo; o seu amor alimenta todo o amor da criação e o seu trabalho éo exemplo que deveremos operar constantemente. É muito bom falar de Deus, pensar em Deus e, se for o caso, escrever sobre Deus, porque é neste ambiente que passamos a conhecê-lo melhor e respeitá-lo condignamente. Enquanto assim agimos, estamos condicionando idéias elevadas acerca da sua inconfundível personalidade. Este exercício é de alto valor para a nossa integração com a Divindade, pois se processa uma operação de seleção de valores nas nossas intimidades, como no íntimo de quem, porventura, nos ouvir ou ler. É tempo que o próprio tempo aperfeiçoará nas bênçãos do Comandante Maior.
Uma coisa falamos com muita alegria: que as sementes dos atributos do Criador se encontram plantadas nas nossas consciências, na profundidade do nosso ser e, se assim podemos dizer, a força do progresso se encarregará de despertá-las para a luz e fazê-las crescerem para a fonte de onde vieram.
Ninguém foge desses caminhos delineados pela Grande Vida. A área da nossa liberdade é muito pequena para sabermos o de que verdadeiramente precisamos; tudo obedece à vontade dAquele que nos criou, tudo vem dEle e vai para o seu seio fecundo e celestial.
Quem deseja analisar a capacidade de Deus, que observe a sua criação, a harmonia e a mecânica do Universo. Tudo é luz na sua feição divina, mesmo o que pensamos ser treva, por nos faltarem dons desenvolvidos na busca da intimidade das coisas.
Oh! Homens que caminhais conosco, se quereis viver felizes, deixai despertar as luzes que existem em vossos corações, na conjuntura das vossas forças, agradecendo à Divindade e tomando as mãos do Cristo, que Ele vos libertará!
Sejamos fortes na educação de nós mesmos todos os dias, porque é na persistência do trabalho e no esforço do dever, que beijamos as flores da sabedoria como se fossem a face do Criador, nos dignando para um novo amanhecer.
Pelo espírito Miramez

21 de julho de 2009

PRIORIDADE DE MADALENA


“E Jesus, tendo ressuscitado na manhã do primei­ro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual tinha expulsado sete demônios”. (Marcos, 16:9)
Os quatro evangelistas são unânimes na afirmação de que Jesus, após a sua crucificação, apareceu, em espírito, primeiramente a Maria Madalena, antes mesmo de tornar-se visível aos apóstolos.
Qual a razão dessa prioridade de Maria Madalena, quando seria de se esperar que Ele desse preferência em aparecer primeiramente à sua própria mãe ou a algum dos seus irmãos?
O que teria levado o Mestre a não procurar, em primeiro lugar, Pedro, João ou Tiago, os três apóstolos que, invariavelmente, o seguiam nos episódios mais importantes de sua vida?
Porque o Mestre não se manifestou com primazia a qualquer outro discípulo —dentre os quais Natanael, que merecera o elogio de ser “um verdadeiro israelita em quem não havia dolo”?
Podemos afirmar, contudo, que a escolha do Messias foi das mais acertadas, pois, se perlustrarmos as páginas dos Evangelhos — de João Batista ao Apocalipse — talvez não encontremos uma personalidade que tenha, em tão curto prazo, triunfado em batalha tão difícil de ser vencida.
Pedro lutou contra a indecisão, a falta de fé e o apego às tradições inócuas;
Paulo travou gigantesca ba­talha contra os preconceitos das leis religiosas e contra o fanatismo;
Judas Escariotes, embora fracassado, deve ter, lógica­mente, lutado contra a tentação da riqueza; o publicano Zaqueu venceu a batalha contra o enriqueci­mento ilícito; entretanto, Maria Madalena venceu o maior conflito, lutando contra inúmeros vícios, entre os quais alguns dos mais degradantes, saindo plenamente vitoriosa da peleja. E ninguém desconhece os percalços de uma luta sem quartel contra o império dos vícios.
Madalena, dentre todos aqueles que conviveram com o Mestre, foi quem dispendeu maior soma de esforços em favor da própria reforma moral, conseguindo, com sua fé inabalável remover as montanhas de vícios que jaziam no recesso do seu ser.
Após ter Jesus expelido dela uma legião de sete espíritos obsessores, Madalena se converteu incondicionalmente à Boa-Nova, transmudando-se numa das mais equilibradas assessoras do Mestre, ao ponto de deixar para trás todas as vantagens transitórias que o mundo lhe oferecia.
Amando o Cristo na verdadeira acepção do termo e dedicando-se com abnegação à portentosa obra reformista da qual Ele era o porta-voz, Madalena se enquadrou nos ensinos evangélicos do “amor que cobre a multidão de pecados”, segundo Paulo, e do “muito será perdoado a quem muito amou”, segundo Jesus. Maria Madalena tornara-se a mulher compenetrada dos seus deveres e plenamente cônscia das imensas responsabilidades da criatura perante o Criador
* * *
O Espiritismo nos ensina que a alma humana, em seu interminável processo evolutivo, é submetida às mais variadas provas, imprescindíveis para se ascender aos pá­ramos mais elevados da espiritualidade.
No decurso desses processos probatórios, através dos quais a alma burila-se e adquire virtude e sabedoria, é imperioso ser-se suficiente­mente forte para não falir. A falta de vigilância, a desídia, a prática de atos iníquos, são portas abertas pa­ra a queda da alma, e essa queda, inapelavelmente, acarreta os agudos e inevitáveis ciclos expiatórios, que se processam pelas vidas sucessivas do espírito na carne.
Na quase absoluta totalidade, a expiação é o caminho fatal para a reabilitação e soerguimento da alma. Entretanto, existe outra senda: a prática do amor, senda essa que muito dificilmente é escolhida por alguém.
Madalena havia pecado muito, mas, o seu arrependi­mento sincero, seu amor à causa cristã que havia esposado e sua eficiente colaboração no Messiado de Jesus Cristo, certamente fizeram com que se apresentasse aos olhos do Mestre como aquela que melhor havia assimilado e posto em prática os seus ensinamentos, daí a prioridade que gozou ao ser a primeira criatura encarna­da a receber a visita do Espírito de Jesus, após a consumação do hediondo sacrifício do Calvário.
Fonte: Correio Fraterno – dezembro, 1967

19 de julho de 2009

A TERAPÊUTICA DA PRECE



No tratamento da obsessão, é necessário salientar a terapêutica da prece como elemento valioso de introdução à cura.
Não ignoramos que a psiquiatria, nova ciência do mundo médico, apesar de teorizada nos hospícios, somente corporificou-se na prática que a define, nos campos de guerra do século presente.
Chamados ao pronto-socorro das retaguardas, desde o conflito russo-japonês, os psiquiatras esbarraram com numerosos problemas da neurose traumática, identificando as mais estranhas moléstias da imaginação e usando a palavra de entendimento e simpatia como recurso psicoterápico de incalculável importância.
Por isso, dispomos, atualmente, na moderna psicanálise, da psicologia do desabafo como medicação regeneradora.
A confissão do paciente vale por expulsão de resíduos tóxicos da vida mental e o conselho do especialista idôneo age por doação de novas formas-pensamento, no amparo ao cérebro enfermiço.
Invocamos semelhante apontamento para configurar na luta humana verdadeiro combate evolutivo em que milhares de almas caem diariamente nos meandros das próprias complicações emocionais, entrando, sem perceber, na faixa das forças inferiores que, a surdirem do nosso passado, nos espreitam e geram em nosso prejuízo dolorosos processos de obsessão, retardandonos o progresso, por intermédio dos pensamentos desequilibrados com que se justapõem à nossa vida íntima.
É por essa razão que vemos, tanto nos círculos terrestres, como nas regiões inferiores da vida espiritual, as enfermidades-alucinações que se alongam na mente, ao comando magnético dos poderes da sombra, com os quais estejamos em sintonia.
E a técnica das Inteligências que nos exploram o patrimônio mento-psíquico baseia-se, de maneira invariável, na comunhão telepática, pela qual implantam naqueles que lhes acedem ao domínio as criações mentais perturbadoras, capazes de lhes assegurar o continuísmo da vampirização.
Atentos, assim, à psicogênese desses casos de desarmonia espiritual, quase sempre formados pela influenciação consciente ou inconsciente das entidades infelizes, desencarnadas ou encarnadas, que se nos associam à experiência cotidiana, recorramos à prece como elemento de ligação com os Planos Superiores, exorando o amparo dos Mensageiros Divinos, cujo pensamento sublimado pode criar, de improviso, novos motivos mentais em nosso favor ou em favor daqueles que nos propomos socorrer.
Não nos esqueçamos de que possuímos na oração a nossa mais alta fonte de poder, em razão de facilitar-nos o acesso ao Poder Maior da Vida.
Assim sendo, em qualquer emergência na tarefa assistencial, em nosso benefício ou em benefício dos outros, não olvidemos o valor da prece em terapia, recordando a sábia conceituação do Apóstolo Tiago, no versículo 16 do capítulo 5, em sua Epístola Universal:
— «Orai uns pelos outros, a fim de que sareis, porque a prece da alma justa muito pode em seus efeitos.»

(Francisco de Menezes Dias da Cruz, Instruções Psicofônicas, 62, FCXavier)
(1) O estudo a que nos reportamos começa com a mensagem intitulada “Alergia e Obsessão”, constante deste livro.

17 de julho de 2009

UM ALERTA AOS ESPÍRITAS


A tempestade de aproxima. As negras nuvens se avolumam e tentam encobrir o sol da verdade. Espíritas, estejamos atentos diante deste quadro, pois o sol da verdade tem que brilhar. Diante do testemunho que os desafia, irmãos espíritas, estejam alertas.
Ninguém sabe o que vai encontrar na primeira esquina.
Ninguém sabe e nem pode saber o que nos espera ali adiante.
Pensar é bom, mas não esperar para pensar. Pensem agora, o momento é este, a hora é agora. Espíritas, companheiros queridos, Jesus foi tão bom que nos avisou e, sobretudo, apresentou-nos a necessidade de abastecer a candeia e conservar acesa a lâmpada da verdade. O insigne Mestre em certo momento orienta a todos dizendo: "esteja cingidas as vossas cintas e acesas as vossas candeias ...
Vós sois a luz do mundo, vós sois o sal da Terra...
Quem estiver no monte não volte para trás, prossiga..."
Deixemos a capa do comodismo e empunhemos a espada, instrumento de luta, com o qual devemos combater em nós o indiferentismo, a preguiça e o nosso orgulho.
O Mestre, sempre preocupado com as suas ovelhas, alerta sem cessar sobre a renúncia, o bom senso e o trabalho.
Abençoada Doutrina Espírita, que nos ensina o caminho e nos ajuda na marcha!
Espero que possam me entender.
Com extremoso abraço, o pequeno servidor, Caibar Shutel.

14 de julho de 2009

NÃO SEPULTAMOS O ESPÍRITO


Alguns dias após a tragédia ocorrida em Nova Iorque, que abalou o mundo inteiro e, de forma especial, os norte-americanos, o número de mortos já somava milhares.

As pessoas, inconformadas pela separação brusca dos entes queridos que foram arrebatados do corpo de forma violenta, eram tomadas pelo desespero.

Após uma cerimônia simples, dezenas de bombeiros foram sepultados.

Aqueles homens morreram no cumprimento do dever. Morreram tentando apagar as labaredas que devoravam os dois edifícios e também socorrendo os feridos mais graves.

Agora eles também se despediam do palco terreno, encerrando definitivamente o expediente no corpo físico.

O Capelão, encarregado da capela do corpo de bombeiros, proferia algumas palavras de consolo aos familiares dos falecidos. De forma serena, expressava profunda fé na vida eterna. Dizia ele aos seus ouvintes:

- Logo mais estes corpos serão enterrados...

- Nós vamos enterrar os corpos, mas não sepultaremos os espíritos, pois o espírito continua vivo, após a morte.

- Vamos enterrar as mãos, mas não sepultaremos suas obras.

- Vamos enterrar os pés, mas não sepultaremos seus passos.

- Vamos enterrar as bocas, mas não sepultaremos as palavras que foram ditas.

- Vamos enterrar os cérebros, mas suas idéias não podem ser sepultadas.

- Vamos enterrar os corações, mas seus sentimentos ninguém conseguirá sepultar.

- Assim sendo, este não é um momento de dizer um adeus definitivo, mas de dizer “até breve”, pois iremos encontrá-los na outra vida.

O capelão, como todo cristão, sabe que não se pode sepultar o Espírito, pois o Espírito é imortal. Todo cristão sabe que só corpos podem ser destruídos, porque o Espírito é indestrutível.

Todo cristão tem certeza de que a vida não acaba com a morte, pois é eterna, conforme ensinou e demonstrou o Mestre de Nazaré.

Vitor Hugo, poeta e romancista francês que viveu no século passado, falou da imortalidade da alma dizendo: de cada vez que morremos ganhamos mais vida.

As almas passam de uma esfera para a outra sem perda da personalidade, tornando-se cada vez mais brilhantes. Eu sou uma alma. Sei bem que vou entregar à sepultura aquilo que não sou.

Quando eu descer à sepultura, poderei dizer, como tantos: meu dia de trabalho acabou. Mas não posso dizer: minha vida acabou. Meu dia de trabalho se iniciará de novo na manhã seguinte. O túmulo não é um beco sem saída, é uma passagem. Fecha-se ao crepúsculo e a aurora vem abri-lo novamente.

As palavras do capelão e o depoimento de Victor Hugo, demonstram que a imortalidade e a individualidade da alma, bem como sua conseqüente evolução infinita, é uma necessidade lógica para todos aqueles que acreditam num Deus sábio e justo.

Pense nisso!

É natural que você lamente o sofrimento daqueles familiares que choram a morte dos seus e que rogue a Deus para que os fortaleça nessa hora amarga.

Todavia, pense um pouco naqueles que promovem o terrorismo e com ele tanta desgraça.

Lembre-se que esses são merecedores da nossa mais profunda compaixão, pois são loucos que não sabem o que fazem.

Aqueles que perderam o corpo no desastre, resgataram algum débito pendente com as leis divinas e se libertaram, mas os terroristas estão se endividando desastrosamente.

Quem, nesse caso, é mais necessitado de piedade e preces?

Pense nisso, e não se esqueça de rogar a Deus por eles também!

5 de julho de 2009

OS ESPÍRITOS TÊM FIM?


Inicialmente, reafirmamos que o espírito encarnado sofre grandes limitações no que concerne à capacidade de maior entendimento, principalmente sobre a vida espiritual. Também nós sofremos, como espírito fora da carne, incapacidade de responder a determinadas perguntas, feitas pelos homens. Nem tudo nos é dado a saber. O conhecimento sempre acompanha o crescimento espiritual e é uma lei de equilíbrio em favor das próprias criaturas.
A pergunta, se os Espíritos têm fim, certamente foi feita inspirada na razão, por saber que ele teve princípio, no entanto, devemos dizer que as leis no plano maior da vida nem sempre têm relação com as que existem na Terra e que são conhecidas pelos homens. O que é impossível para os homens não o é para Deus, como igualmente o que se conhece por princípio se perde na grande equação da Divindade. O que se entende como sendo fim sofre diferenciação no seio dAquele que tudo gerou. Já falamos alhures que a linguagem humana é deficiente para conversar sobre as coisas transcendentais. Podemos assinalar por ela algumas coisas, o que já constitui uma misericórdia para todos nós.
O espírito que respondeu a Allan Kardec sobre o assunto, limitou-se a dizer ao codificador: “Dizemos que a existência dos espíritos não tem fim”. E acrescentou mais adiante: “É tudo o que podemos, por agora, dizer”. É certo que, em geral, os homens têm ansiedade pela vida. Se ela terminasse no túmulo, e com isso o espírito tivesse fim, seria fator de desestímulo para todos os homens da terra e dos outros planetas habitados para os quais a evolução e o progresso não existiriam.
Porém, a bondade de Deus é tamanha que Ele nos fez à Sua semelhança, palavra divina que ilumina, consola e se transforma em felicidade para todas as criaturas.
Se somos semelhantes ao Criador, somos eternos, e o tempo para nós, como espíritos, servir-nos-á para a renovação interior: quanto mais velhos, mais novos...
Muitos espiritualistas reclamam da nossa conversa que, dizem, se parece com parábolas de difícil entendimento. Desejam coisas mais claras, mais objetivas. Se estivesse ao nosso alcance, falaríamos com todo prazer, porém, para sermos bem entendidos, épreferível falarmos pouco por faltar na linguagem humana, recursos e mesmo preparo por parte dos homens para ouvir determinados assuntos, que se simples para alguns, em outros poderão suscitar dúbias interpretações. Estamos na escola divina, todos juntos, àprocura dos mesmos ideais. Para o nosso consolo e alegria, cumpre refletir que fomos criados por Deus, a Suprema Inteligência, a Suprema Perfeição, que não iria fazer algo imperfeito. A harmonia vibra em tudo que Suas mãos tocaram.
No mundo espiritual, estudamos e pesquisamos os mistérios de Deus, que são muitos. Descem ao nosso plano grandes almas, para nos ensinar algo mais sobre o amor, a ciência e a própria filosofia, e devemos dizer que há assuntos para os quais nos falta ainda o entendimento. Usamos a oração para compreender, na gradação das leis, o que é nos dado a conhecer. Do que compreendemos, algumas coisas passamos para os homens, pelas faculdades mediúnicas dos mesmos.
Devemos repetir, para o bem-estar geral, que somos eternos na eternidade de Deus, mesmo com todas as transformações sofridas.

1 de julho de 2009

O REMÉDIO OBJETIVO




Isidoro Vianna, colaborador nos serviços da caridade cristã, não obstante o devotamento com que se entregara aos princípios evangélicos torturava-se, infinitamente, ante os golpes da crítica.
Nas sessões do grupo, vivia em queixas constantes.
Tão logo se incorporava Policarpo, o benfeitor espiritual que dirigia a casa, intervinha Isidoro, reclamando:
-Irmão Policarpo, está exausto! Que me aconselha? O mau juízo sufoca-me. Se cumpro minhas obrigações, chamam-me bajulador; se me afasto do dever durante alguns minutos, acusam-me de preguiçoso. Toma-se a iniciativa do bem, declaram-me afoito, e, se aguardo a cooperação de alguém, classificam-me de tardio. Que fazer?
O mentor desencarnado contornava o problema, delicadamente, e acabava asseverando:
-O plano Terrestre, meu amigo, ainda é de enormes contrastes. A luz é combatida pelas trevas, o mal pelo bem. A hostilidade que a ignorância nos abre favorece o trabalho geral de esclarecimento. Tenhamos calmas e prossigamos a serviço de Nosso Senhor, que nos ajudou até à cruz.
O companheiro choramingava e, na próxima reunião, voltava a pedir:
-Irmão Policarpo, que tentar em favor da harmonia? Minha boa-vontade é inexcedível, entretanto, como proceder ante os adversários gratuitos? O cerco dessa gente é insuportável. Não consigo caminhar em paz. Renda-se culto à gentileza, abrindo o espírito à ternura dos amigos, dizem que sou explorador da confiança alheia e, se busco isolar-me, atento aos compromissos que assumi, afirmam que não passo de orgulhoso e mau irmão.
O protetor respondia tolerante:
-
A tarefa, meu amigo, será mesmo assim. Quem conhece Jesus deve desculpar a leviandade daqueles que ainda o não conheço. Aliás, a obra de evangelização das almas demanda paciência e perdão, com o sacrifício de nós mesmos. Se não nos dispusermos a sofrer, de algum modo, pela causa do bem vitorioso, quem nos libertará do mal? Tenhamos suficiente valor e imitemos o exemplo da suprema renúncia, do Mestre.
Isidoro gemia, concordando a contragosto; contudo, na semana seguinte, repisava:
-Irmão Policarpo, que será de mim? A opinião do mundo é obstáculo intransponível. Não agüento mais. Em tudo a censura castiga. Dão-se recursos materiais, contribuindo nas obras da compaixão fraternal, sou apontado por vaidoso com mania de ostentação, e, se procuro retrair-me, de alguma sorte, gritam por aí que tenho um coração empedernido e gangrenado. A incompreensão dá para enlouquecer. Como agir?
O amigo generoso replicava sereno:
-Semelhantes conflitos são injunções da luta santificante. Quem muito fala aprenderá, mais tarde, a calar-se... Não se prenda às desarmonias alheias. Ligue-se ao bem e acompanhe as sugestões mais nobres. Enquanto a imperfeição dominar as almas, a crítica será um estilete afiado convocando-nos à demonstração das mais altas virtudes. Coloque sua mente e seu coração na Vontade do Senhor e caminhe para frente. As árvores ressequidas ou estéreis jamais recebem pedradas, Não têm fruto que tente os que passam. Avancemos corajosos no trabalho cristão.
Isidoro lamentava-se e o assunto transferia-se à reunião imediata.
De semana a semana, o aprendiz chorão multiplicava perguntas, até que, certa noite, agastado talvez com os incessantes apelos à serenidade que o instrutor lhe propunha, exclamou desesperado:
-O que eu desejo irmão Policarpo, é uma orientação decisiva contra os ataques indébitos. Que medida adotar para não sermos perturbados? Como anular a reprovação desalentadora? Por que processo nos livrar-nos dela?
Como furtar-nos ao remoque, à deturpação, à maldade?
O benfeitor espiritual sorriu magnânimo, e acentuou:
-Ah! Já sei... Você pede um remédio objetivo...
-Isto mesmo! -tornou Isidoro, ansioso.
- Pois bem - concluiu o amigo espiritual, benevolente-, a única medida aconselhável é a paralisia da consciência. Tome meio quilo de anestésicos por dia, descanse o corpo em poltronas e leitos, durma o resto da existência, despreocupe-se de todos os deveres, fuja à aspiração de elevar-se, resigne-se à própria ignorância e cole-se a ela, tanto quanto a ostra se agarra ao penedo, e, desde que você se faça completamente inútil, por mais nada fazer, a crítica baterá em retirada. Experimente e verá.
Isidoro escutou a estranha fórmula, de olhos arregalados e, daí em diante, começou a servir sem perguntar.

"Livro:" Contos e Apólogos "- Psicografia Francisco C. Xavier- Espírito Irmão X".