29 de julho de 2009

SOMBRAS E LUZ


Perguntando a um espírita se fazia muitos anos que havia deixado suas crenças de criança, disse-me:
- Muitíssimos, porque, quanto às religiões positivas, observei o fruto que davam e, quanto ao catolicismo, bastou-me ver, para deixá-lo, o que vou contar:
Junto à minha casa, vivia um casal, honrado ao extremo. Marido e mulher, trabalhando dia e noite, lograram reunir um capital mais do que regular, que destinavam ao seu único filho, o jovem Jacinto, rapaz ingênuo que amava a seus pais e ao padre da Igreja vizinha, a cujo lado estava quase sempre, servindo-lhe de coroinha, sineiro e camareiro de todos os Santos Cristos e Virgens que havia nos velhos altares. Tanto se afeiçoou às coisas da Igreja, que pediu permissão aos pais para entrar na Companhia de Jesus. Os pobres pais não se atreveram a contrariar sua vocação decidida, e Jacinto, cumprindo seus desejos veementes, ausentou-se da terra natal para seguir seus estudos reeligiosos.
Seus pais, já de idade avançada, que o queriam com delírio, que haviam trabalhado sem descanso toda a sua vida para que o filho vivesse como um principe, ao verem-se sem ele, se entristeceram ao extremo. O pobre velho ficou prostrado na casa, sem poder dar um passo; toda a sua atividade, toda a sua energia, ficou reduzida à inanição mais completa, e, olhando sua atribulada companheira, dizia-lhe que a ausência de Jacinto o levaria rapidamente à morte.
Sua esposa escreveu uma carta ao filho ausente, rogando-lhe pelo céu que voltasse para ver e consolar seu pai. Mas o jovem jesuíta respondeu que já pertencia a Deus de corpo e alma, e que sua família da Terra havia morrido para ele.
Quando o infeliz pai concluiu a leitura da carta, à semelhança de Jesus, murmurou: "Perdoa-lhe, Senhor, pois não sabe o que faz".
Em poucos dias, morria chamando o filho ingrato, inutilmente ...
A esposa, ao ver-se sem marido e sem o filho amado, tornou a escrever a Jacinto, pedindo-lhe compaixão para a sua angustiosa soledade.
Esta carta obteve uma resposta não menos cruel do que a anterior. O jesuíta havia rompido todos os laços e parentescos que antes o uniam ao mundo, e seu coração pertencia inteiramente à Ordem, à Igreja e a Jesus.
Assisti aos dois enterros, e, diante das desastrosas conseqüências da ingratidão religiosa, continuei crendo em Deus, mas sem aceitar religião alguma. Acabou de separar-me delas um diálogo que tive com um jesuíta, que tinha fama de ser muito entendido, eloqüente pregador e conselheiro, vinculado a muitas famílias ricas.
Uma tarde, tive que ir a um colégio da Companhia, onde falando com o aludido discípulo de Loyola, depois de alguns circunlóquios e rodeios, disse-me:
- Tenho entendido que você é uma ovelha desgarrrada, que não crê em nenhum mistério religioso e nega as sagradas revelações que formam a base da religião Católica Apostólica Romana.
- Efetivamente - respondi-lhe -; se pelo fruto se conhece a árvore, a religião católica é uma árvore seca, sem folhas, sem flores e sem fruto. Não dá sombra porque seus ensinos dividem e desnaturam a família. Não dá perfumes, porque seca as flores do sentimento. Não dá frutos, porque seus ministros têm de viver em um estado antinatural, fora das leis da Humanidade: o celibato é a violacão da mais formosa das leis da Natureza. Infringi-la, violá-la, é o dever do clero secular e dos institutos monacais, cujo celibato não pode ser outra coisa do que pedra de escândalo, escárnio da Natureza e do voto.
O voto leva a ultrajar a Natureza, e a Natureza a passar por cima de votos antinaturais. Por isso a história do clero recorda a da prostituição, e a de muitos conventos as aberracões obscenas de Sodoma. A família é a base da sociedade, e o voto que obriga ao celibato é um rude ataque à organização e santidade da família. (Respeitando a palavra de Amália Domingo Soler dentro do contexto histórico do Espiritismo, julgamos de bom alvitre oferecer ao leitor as palavras textuais do médium Francisco Cândido Xavier, em resposta a um médico uberabense que lhe fez a seguinte pergunta: "- Chico, acha você bom para o Espiritismo os seminários católicos estarem quase todos se fechando?" Eis a resposta lapidar do médium do Parnaso de Além Túmulo: "- Meu amigo. diz nosso Emmanuel que a cada seminário que cerra suas portas, pelo menos dois sanatórios para doenças mentais devem surgir para comportar o número de desequilibrados do espírito. Que surjam sempre novos institutos de educação religiosa, para que novos pastores da alma se formem, com segurança, a fim de ampararem os corações aflitos, porque as religiões, em si, são caminhos que se continuam uns aos outros, até que venhamos a chegar todos, devidamente irmanados, na estrada real do conhecimento superior que nos reunirá na integração com Deus." - Nota do Revisor)
Deixando este ponto, e passando para outra ordem de considerações, digo que é o absurdo dos absurdos o dogma das penas eternas. Deus, em sua glória, rodeado dos seus anjos, desentendendo-se do eterno tormento de uma grande parte de seus filhos, seria o horrível divinizado. Negar a Deus é mil vezes preferível à crê-lo tão monstruosamente cruel.
- Meu amigo, - disse-me o jesuíta - suas palavras provam-me quão acertada esteve a Igreja em proibir, aos seus fiéis, o estudo e até a leitura dos livros sagrados. Ao cristão basta crer. Só os ateus necessitam entregar-se à perigosa mania de pensar em que não entendem. Parece-lhe que as penas eternas são o absurdo dos absurdos, quando elas demonstram, de modo mais evidente, a grandeza e a justiça de Deus. Vejamo-lo com exemplos práticos:
Um homem do povo, num ímpeto de ira, movido por alguma paixão insensata, ou algum estímulo brutal, produz em outro da sua classe, uma ou duas feridas graves; é preso, processado e condenado a uns quantos anos de prisão. Que o ferido gravemente seja um dignatário da nação, um título ou um personagem influente: O agressor não pagaria com menos do que cadeia perpétua pelo atentado. E se o agredido é o Soberano? Oh! então o delinqüente só com a vida paga o crime de lesa-majestade, não escapando do cadafalso e do verdugo. Pois bem. Que significa essa gradação de penas para um mesmo delito? Significa que a gravidade da ofensa e do castigo aumenta com a categoria do ofendido.
Não é, portanto, justo que, sendo Deus o ofendido, o pecador expie eternamente seu pecado?
O jesuíta não compreendia, ou não queria compreender, que a justiça divina não admite comparação com isso que se chama justiça humana; que Deus não pode ser ofendido pela criatura; e que as faltas são apenas infrações à lei moral, que na mesma lei têm seu necessário corretivo. E este é o homem sábio? Este é o diretor espiritual que dispõe da tranquilidade de muitas famílias? Este é o mestre da virtude e guia das consciências .. .? Não quis perder tempo opondo meus argumentos aos seus, mas meu sorriso e a expressão dos meus olhos disseram-lhe com toda clareza que não havia logrado me convencer. Os argumentos do ateu são mil vezes mais lógicos .
Lá pelos anos de 1857 ou 1858, li as obras de Allan Kardec. Já faz meio século. Meditei sobre elas e, como se meu cérebro estivera envolto em múltiplos véus, parecia-me que iam caindo e deixando penetrar nele a claridade. À medida que avançavam em minha leitura, meus pensamentos sucediam-se uns aos outros, cada vez mais luminosos. Como os magos dos contos orientais, possuía uma varinha mágica, uma chave misteriosa, que abria todas as portas e penetrava nos lugares mais recônditos, antes inacessíveis aos olhos da minha alma. Desde então, minha amiga, sou espirita racionalista e, desde então, sei porque vivo, porque sofro, porque trabalho, porque espero, e creio na lei do progresso indefinido, sem o qual não poderia explicar-me a razão da vida. Não admito nem o mistério, nem o milagre. Para mim não há mais do que a ciência, disposta sempre a difundir os raios luminosos sobre aqueles que se consagram ao seu culto, pela investigação da Natureza, de suas leis e fenômenos. Duas ambições agitam meu espírito: quisera ser Sábio para ser grande; quisera ser bom para ser justo.
Que recordação tão agradável deixou em minha mente o relato do meu bom amigo! Se todos os homens tivessem semelhantes aspirações, quão rápido se verificaria o progresso da Humanidade terrestre !
Os sábios ensinando e ilustrando a Humanidade; os bons secando o pranto dos atribulados. A ciência e o amor universal dominando em todos os espíritos ... que sonho formoso!
Quando, quando será um fato o triunfo da ciência do amor, da verdadeira fraternidade!
Amália D. Soler

Um comentário:

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