29 de agosto de 2009

EM HOMENAGEM AOS 178 ANOS DE NASCIMENTO DO DR. ADOLFO BEZERRA DE MENEZES CAVALCANTI

A Mais Preciosa Herança
Bezerra de Menezes
Todos os pais, aqueles que são responsáveis, aqueles que assumiram, realmente, o suporte de uma família, eles pensam em deixar para os filhos uma herança, um pecúlio. Para isso eles trabalham incessantemente, com o objetivo de ver em segurança a sua prole. Mas, existe uma herança muito mais preciosa de que bens materiais: a herança do exemplo, a herança moral, a herança da dignidade. Mesmo que os filhos, por circunstâncias naturais da vida, se apartem daquele caminho que lhes foi ensinado e exemplificado, a semente ali está e vicejará. Principalmente quando existe o suporte dos valores da religião, do respeito a Deus e às criaturas, que, na verdade, é a sustentação maior para todos que vivem nas suas experiências carnais.
Quase sempre os pais se preocupam com o colégio do filho, com a freqüência do filho às aulas, como o seu rendimento escolar e deixam em segundo plano aquilo que é importante para eles, que seria, também, a educação religiosa, seja que religião for. A religião é sempre um freio, uma responsabilidade, um compromisso assumido com Deus.
É preciso, desde cedo, começar a implantar nos corações dos filhos uma crença. Para que eles possam crer neles e nos seus semelhantes, é preciso que tenham uma crença superior. Se chegar a juventude, a maturidade e esses filhos se afastarem dessa senda cristã, podem ter certeza de que será por algum tempo, não de forma definitiva. Porque a semente vai vicejar, vai cair no solo dessa alma e vai dar frutos. Pode demorar, mas, na verdade, a responsabilidade de todos nós é semear.
Cada um é dono do seu espaço de colheita pessoal, esse terreno da alma. Todos jogam sobre nós sementes boas e más, ela vicejam de acordo com a preparação do nosso solo da alma. Nós temos que extirpar aquilo que é ruim, pernicioso, para, realmente, deixar o que é bom e produtivo. Isso, as vezes, leva tempo, mesmo porque, vocês que estão no plano terreno, estão envoltos em forças magnéticas muito pesadas, vivendo em ambientes, os mais diferentes, os mais heterogêneos.
Então, vocês realmente sofrem as influências de inteligências intrusas, sofrem perseguições de entidades de vidas pretéritas, sofrem o momentâneo desequilíbrio de seres que foram até afeiçoados a vocês, mas que, passando para o plano espiritual, passaram por aquela situação vibracional, que é inerente a todos os espíritos que desencarnam. Essa momentânea perturbação, não existe nenhum espírito que não passe por ela, uns com mais intensidade, outros com menos, dependendo de como viveram, de como era o gênio, o comportamento, a vida dessa pessoa.
O simples fato de desencarnarmos não nos torna pessoas angelicais e, muito menos, nós dá maior mérito pelo simples fato de termos deixado a vida carnal. Nós continuamos sendo o que somos, amando ou desamando, equilibrados ou desequilibrados, com uma gama de sentimentos, às vezes, agravados pela convivência com entidades que estão desencarnadas e que, às vezes, durante o decorrer de toda uma existência foram nossos associados em ações menos felizes ou em ações felizes. As companhias que teremos no plano espiritual serão Por isso, é importante se viver bem. Porque aquilo que vocês fizeram na Terra vocês encontrarão no plano espiritual, como uma conseqüência natural dos seus atos. Quem vive bem na Terra, dentro dos padrões morais, tem o respeito da comunidade em que vive. Quem vive desrespeitando a lei e vivendo em desatinos, terá a reprovação coletiva da comunidade em que vive. Assim também é no plano espiritual. Assim como você vive, assim será a sua vida no plano do além.
Espírito: Dr. Bezerra de Menezes
Psicofonia: Shyrlene Soares Campos
Dia 22/03/2000, no Núcleo Servos Maria de Nazaré, Uberlândia, MG

28 de agosto de 2009

CIÊNCIA E RELIGIÃO

Allan Kardec, em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, faz judiciosas considerações a respeito da Ciência e da Religião, logo no primeiro capítulo dessa obra monumental.
Assinalando serem a Ciência e a Religião as duas alavancas de que dispõe a inteligência humana para devassar o mundo material e o mundo moral, torna evidente que ambas provêm da mesma fonte – as leis de Deus.
Assim, Ciência e Religião se completam pela origem comum, não podendo haver contradição e antagonismo entre elas.
Entretanto, o que se observa há séculos, no mundo, é a divisão, a incompatibilização dos dois campos do conhecimento, repelindo-se entre si.
A que se deve essa suposta incompatibilidade?
A Nova Revelação trazida pelos Espíritos Superiores à Humanidade aclarou a questão.
Dois são os elementos do Universo – matéria e espírito – ambos criação de Deus.
O Universo material e o Universo espiritual convivem dentro de leis eternas e imutáveis.
O que tem faltado aos homens é a compreensão necessária dos princípios comuns que regem um e outro.
A Ciência, cuidando da matéria, tornou-se exclusivista e materialista, negando-se a tomar conhecimento do elemento espiritual.
Por sua vez, a Religião não pode desconhecer a evidência da matéria e das leis que lhe dizem respeito.
Há necessidade de cooperação mútua, combinando Razão e Fé, Conhecimento e Sentimento, dentro de um Universo unificado.
Até os dias atuais não se tornou possível a cooperação, o entendimento franco e leal entre os cultores dos múltiplos conhecimentos científicos e os arraiais religiosos.
Predomina o espírito de sistema, inconciliável, exclusivista.
A Ciência, de um lado, irredutível no cultivo de suas tradições puramente materialistas, ou positivistas, no sentido de exclusão de tudo que estiver além dos sentidos físicos. E as Religiões presas aos mistérios e à dogmática criados por teólogos cuja visão não consegue romper os horizontes muito limitados de suas crenças tradicionais.
Após séculos de incompatibilidade, a Nova Luz evidencia os vínculos que unem as duas fontes do saber e dos sentimentos que proporcionam o progresso humano.
O Espiritismo, assentando-se nas próprias leis divinas ou naturais, vem aproximar a verdadeira Ciência, que está presente tanto no campo material quanto no espiritual, dos sentimentos simbolizados no coração do homem.
Conhecer e amar, eis os dois alicerces em que se assenta a evolução individual, como de toda a Humanidade.
Acima dos antagonismos, científicos e religiosos, algumas personalidades, em pleno século XX, notoriamente vinculadas aos meios científicos romperam velhos preconceitos e declararam-se convencidas da existência de um Poder criador e orientador de tudo que existe.
São os primeiros passos em direção da realidade imanente, que vai sendo percebida na medida do avanço do conhecimento. Preconceitos e ignorância vão cedendo terreno, pouco a pouco, a idéias e conceitos reais e verdadeiros.
Também as idéias religiosas, que acompanham o ser humano sob múltiplas formas, já cumpriram e percorreram ciclos inferiores de manifestação, de conformidade com as condições evolutivas dos habitantes deste Planeta.
Mesmo o Cristianismo, que trouxe à Humanidade os mais belos ensinos e preceitos morais, não resistiu à inferioridade humana, que o mesclou e o invadiu com dogmas e superstições deturpadores, incompatíveis com a Mensagem do Cristo.
Entretanto, sinais positivos de compreensão e de evolução ocorrem ao fim de séculos de obscurantismo, com o reconhecimento de inúmeros erros e desvios, seguidos da confissão e pedidos de perdão de parte da autoridade máxima da Igreja Romana.
Esse gesto não deixa de ser um sinal de progresso da poderosa Instituição, reconhecendo seus próprios enganos.
Se as religiões assim procedem, é sinal de que a lei divina do progresso atinge a tudo e a todos. Podemos cultivar a esperança de que as religiões e cultos, desviados das leis superiores, expressões da vontade do Criador, retifiquem seus procedimentos, suas doutrinas, suas tradições. O determinismo da evolução é um fato e uma realidade inegáveis, resultante do aperfeiçoamento das idéias.
O mesmo ocorre no campo das ciências.
Conceitos tidos como verdades assentes, aceitas por séculos e milênios, são superados e substituídos por outros, apesar da oposição daqueles que se agarram às tradições.
Por mais poderoso que seja o passado, influindo sobre o presente e o futuro, as idéias evoluem e são substituídas por outras. Quando se descobre a realidade afastam-se as hipóteses e utopias.
Assim ocorreu com a teoria dominante por milênios de que a Terra era o centro do Universo e que o Sol girava em torno dela. Os conhecimentos astronômicos atuais substituíram inteiramente os antigos.
Na Física, as descobertas de Max Planck dão novo sentido à matéria, modificando radicalmente as teorias da Física clássica aceitas por séculos.
A Biologia, a Genética, a Medicina renovam-se continuamente com novos conhecimentos.
O fantástico século XX revolucionou os costumes, os hábitos, as organizações políticas e sociais com inúmeras descobertas científicas e com a aplicação de novas tecnologias nas atividades humanas.
As ciências e as religiões renovam-se sem dúvida, embora lentamente. Só permanecem os conceitos embasados nas realidades e verdades eternas, intemporais, como os ensinos de Jesus.
A Doutrina dos Espíritos, como Nova Revelação, vem ao Mundo em uma época em que grande parte da Humanidade encontra-se em condições de aceitar novas concepções, tanto no campo científico quanto no religioso.
Ela unifica os dois campos, do conhecimento e do sentimento, da ciência e da moral, da matéria e do espírito.
Além disso, o Espiritismo não comete o erro do passado das ciências e das religiões, cristalizando-se em concepções transitórias, com rejeição de novos conhecimentos. Pelo contrário, os Espíritos Reveladores alertaram o Codificador no sentido de que a Doutrina deixasse em aberto a possibilidade de incorporar novos descobrimentos, novas verdades, novas realidades, uma vez comprovados.
Esse caráter evolutivo da Doutrina Espírita, criteriosamente aplicado, sem as precipitações inconvenientes, garante-lhe permanente atualização perante os conhecimentos novos.
Sob a égide da novel Doutrina, a simples crença transforma-se em certeza, a fé conjuga-se à razão esclarecida, os princípios filosóficos são deduzidos dos fatos e não de hipóteses.
No terreno religioso, os Espíritos Superiores não deixaram a menor dúvida de que a Mensagem do Cristo de Deus já trouxera aos homens a moral mais pura e elevada de que se tem conhecimento em todos os tempos, baseada na lei de Amor e Justiça, síntese de todas as leis divinas.
Sobre essa base firme, que representa a Vontade Divina manifestada aos homens, Espíritos Superiores encarnados e desencarnados têm trazido sua contribuição, seja no campo experimental científico, seja no desdobramento ético-moral-religioso que há de constituir a Religião do futuro, para uma Humanidade liberta dos dogmas impróprios, dos preconceitos divisionistas, das superstições e das deduções teológicas eivadas de erros.
Objeta-se, por vezes, que pelo menos algumas das verdades do Espiritismo não são novidades, mas repetições de idéias e pensamentos já conhecidos no passado.
Não há dúvida de que a idéia reencarnacionista, a comunicação dos Espíritos com os homens, a moral do Cristo e outros ensinos da Doutrina vêm de um passado distante.
Essas idéias estão dispersas no Mundo, ora constituindo partes de religiões, ora como partes de sistemas filosóficos individuais.
Sócrates e Platão, Buda, Aristóteles, Immanuel Kant, René Descartes e tantos outros, desde a antiguidade até os dias atuais, têm manifestado suas idéias pessoais que muitas vezes contêm parcelas da Verdade.
O Espiritismo representa uma síntese das Verdades eternas, que são intemporais e que, embora parcialmente, foram vislumbradas por Espíritos missionários encarnados na Terra.
Allan Kardec, inspirado nos ensinos recebidos do Alto, já advertira que a Revelação Espírita tem caráter divino e humano e que muitas de suas verdades, baseadas em antigos conhecimentos, conjugam-se com outros provindos da Espiritualidade, na Era atual.
As comunicações entre os dois mundos sempre existiram. Esse fato está patente em todos os livros sagrados das religiões.
A partir de determinado momento da história humana, após preparo de séculos por precursores, eclode o mundo invisível através de inúmeros seres, que entram em comunicação com os homens.
Toda essa fenomenologia obedece a uma planificação superior, que hoje podemos perceber.
Os precursores, o Codificador e seus cooperadores, a planificação da obra monumental a ser entregue aos homens fazem parte dos desígnios do Governo Espiritual da Terra, em favor de toda a Humanidade.
Estamos convencidos de que esse plano não se resume na manifestação maciça dos gênios espirituais, da qual resultou a Revelação Espírita, superiormente sistematizada pelo missionário Allan Kardec.
Ele se desdobra no tempo para que possa produzir os efeitos desejados pela Providência.
Os conhecimentos trazidos pela Doutrina Consoladora precisam ser difundidos por todas as latitudes do globo terrestre.
Há uma obra gigantesca a ser enfrentada pelos homens, os incumbidos de levá-los a toda parte.
As ciências do mundo precisam das luzes da ciência integral, que abrange os conhecimentos relativos à matéria e ao espírito.
As religiões diversificadas necessitam das certezas proporcionadas pelos
Espíritos Superiores, universais e impessoais, que são aceitas pela razão esclarecida e que independem de dogmas e de imposições para se firmarem no imo dos seres.
Os ensinos do Cristo de Deus, que estão no Mundo há dois milênios, agora serão entendidos na sua essência, que se conjuga inteiramente com a Nova Revelação.
O compromisso dos espíritas sinceros é, pois, em primeiro lugar o de assimilar a Doutrina Esclarecedora e Consoladora e, em segundo lugar, o de vivenciá-la e divulgá-la, multiplicando sua influência como base para a transformação do mundo.
Essa tarefa compete a todos nós, espíritas de hoje e de amanhã, unidos pelo sentimento da legítima fraternidade.


JUVANIR BORGES DE SOUZA

23 de agosto de 2009

MÁGOA

Síndrome alarmante, de desequilibro, a presença da mágoa faculta a fixação de graves enfermidades físicas e psíquicas no organismo de quem a agasalha.
A mágoa pode ser comparada à ferrugem perniciosa que destrói o metal em que se origina.
Normalmente se instala nos redutos do amor-próprio ferido e paulatinamente se desdobra em seguro processo enfermiço, que termina por vitimar o hospedeiro.
De fácil combate, no início, pode ser expulsa mediante a oração singela e nobre, possuindo, todavia, o recurso de, em habitando os tecidos delicados do sentimento, desdobrar-se em modalidades várias, para sorrateiramente apossar-se de todos os departamentos da emotividade, engedrando cânceres morais irreversíveis. Ao seu lado, instala-se, quase sempre, a aversão, que estimulam o ódio, etapa grave do processo destrutivo.
A mágoa, não obstante desgovernar aquele que a vitaliza, emite verdadeiros dardos morbíficos que atingem outras vítimas incautas, aquelas que se fizeram as causadoras conscientes ou não do seu nascimento.
Borra sórdia, entorpece os canais por onde transita a esperança, impedindo-lhe o ministério consolador.
Hábil, disfarça-se, utilizando-se de argumentos bem urdidos para negar-se ao perdão ou fugir ao dever do esquecimento. Muitas distonias orgânicas são o resultado do veneno da mágoa, que, gerando altas cargas tóxicas sobre a maquinaria mental, produz desequilíbrio no mecanismo psíquico com lamentáveis consequências nos aparelhos circulatório, digestivo, nervoso...
O homem é, sem dúvida, o que vitaliza pelo pensamento. Sua idéias, suas aspirações constituem o campo vibratório no qual transita e em cujas fontes se nutre.
Estiolando os ideais e espalhando infundadas suspeitas, a mágoa consegue isolar o ressentido, impossibilitando a cooperação dos socorros externos, procedentes de outras pessoas.
Caça implacavelmente esses agentes inferiores, que conspiram contra a tua paz. O teu ofensor merece tua compaixão, nunca o teu revide.
Aquele que te persegue sofre desequilibros que ignoras e não é justo que te afundes, com ele, no fosso da sua animosidade.
Seja qual for a dificuldade que te impulsione à mágoa, reage, mediante a renovação de propósitos, não valorizando ofensas nem considerando ofensores.
Através do cultivo de pensamentos salutares, pairarás acima das viciações mentais que agasalham esses miasmas mortíferos que, infelizmente, se alastram pela Terra de hoje, pestilenciais, danosos, aniquiladores.
Incontáveis problemas que culminam em tragédias quotidianas são decorrência da mágoa, que virulenta se firmou, gerando o nefando comércio do sofrimento desnecessário.
Se já registras a modulação da fé raciocinada nos programas da renovação interior, apura aspirações e não te aflijas. Instado às paisagens inferiores, ascende na direção do bem. Malsinado pela incompreensão, desculpa. Ferido nos melhores brios, perdoa.
Se meditares na transitoriedade do mal e na perenidade do bem, não terás outra opção, além daquela: amar e amar sempre, impedindo que a mágoa estabeleça nas fronteiras da tua vida as balizas da sua província infeliz.
"Quando estiveres orando, se tiverdes alguma coisa contra alguém, perdoai-lhe, para que vosso Pai que está nos Céus, vos perdoe as vossas ofensas". - Marcos: 11-25.
"Não sou feliz! A felicidade não foi feita para mim! exclama geralmente o homem em todas as posições sociais. Isto, meus caros filhos, prova melhor do que todos os raciocínios possíveis, a verdade desta máxima do Eclesiastes: "A felicidade não é deste mundo". - ESE Cap.V - Item 20.

Joanna de Ângelis
Psicografia de Divaldo P. Franco - Florações Evangélicas

18 de agosto de 2009

PALAVRAS IMPRÓPRIAS


Graças a Deus não ignoramos o sentido etimológico do vocábulo milagre. Temo-lo provado em muitos artigos e, notadamente, no da Revista de setembro de 1860. Não é, pois, nem por engano, nem por inadvertência que repelimos a sua aplicação aos fenômenos espíritas, por mais extraordinários que possam parecer à primeira vista, mas em perfeito conhecimento de causa e com intenção.

Na sua acepção usual o vocábulo milagre perdeu sua significação primitiva, como tantos outros, a começar pela palavra filosofia (amor à sabedoria), da qual se servem hoje para exprimir as idéias mais diametralmente opostas, desde o mais puro espiritualismo até o materialismo mais absoluto. Não é duvidoso para ninguém que, no pensamento das massas, milagre implica a idéia de um fato extranatural. Perguntai a todos os que acreditam nos milagres se os olham como efeitos naturais. A Igreja está de tal modo fixado neste ponto que anatematiza os que pretendem explicar os milagres pelas leis da natureza. A Academia mesma assim define este vocábulo: Ato de poder divino, contrário às leis conhecidas da natureza. - Verdadeiro, falso milagre. - Milagre certificado. - Operar milagres. - O dom dos milagres.

Para ser por todos compreendidos, é preciso falar como todo o mundo. Ora, é evidente que se tivéssemos qualificado os fenômenos espíritas de miraculosos, o público ter-se-ia enganado quanto ao seu verdadeiro caráter, a menos que de cada vez se empregasse um circunlóquio e dizer que há milagres que não são milagres, como geralmente se os entendem. Desde que a generalidade a isto liga a idéia de uma derrogação das leis naturais, e que os fenômenos espíritas não passam de aplicação dessas mesmas leis, é bem mais simples e, sobretudo, mais lógico dizer claramente: Não; o Espiritismo não faz milagres. Desta maneira, nem há engano, nem falsa interpretação. Assim como o progresso das ciências físicas destruiu uma porção de preconceitos, e fez entrar na ordem dos fatos naturais um grande número de efeitos outrora considerados como miraculosos, o Espiritismo, pela revelação de novas leis, vem restringir ainda o domínio do maravilhoso; dizemos mais: dá-lhe o último golpe, pela razão por que está por toda a parte em odor de santidade, não tanto quanto a astronomia e a geologia.

Se os que crêem nos milagres entendessem esta palavra na sua acepção etimológica (coisa admirável), admirariam o Espiritismo, em vez de lhe lançar o anátema; em vez de pôr Galileu na prisão por ter demonstrado que Josué não podia ter parado o sol, ter-lhe-iam tecido coroas por ter revelado ao mundo coisas de outro modo admiráveis, e que atestam infinitamente melhor a grandeza e o poder de Deus.

Pelos mesmos motivos, repelimos o vocábulo sobrenatural do vocabulário espírita. Milagre ainda teria sua razão de ser em sua etimologia, salvo em determinar a sua acepção; sobrenatural é uma insensatez do ponto de vista do Espiritismo.

A palavra sobre-humano, proposta por Philalethes é igualmente imprópria, em nossa opinião, porque os seres que são agentes primitivos dos fenômenos espíritas, posto que no estado de Espíritos, não pertencem menos à humanidade. A palavra sobre-humano tenderia a sancionar a opinião longamente acreditada, e destruída pelo Espiritismo, que os Espíritos são criaturas à parte, fora da humanidade. Uma outra razão peremptória é que muitos desses fenômenos são o produto direto dos Espíritos encarnados, por conseqüência, homens, e em todo o caso, requerem quase sempre o concurso de um encarnado. Então, não são mais sobre-humanos do que sobrenaturais.

Uma palavra que também se afastou completamente de sua significação primitiva é demônio. Sabe-se entre os Antigos dizia-se daimon dos Espíritos de uma certa ordem, intermediários entre os homens e aqueles que eram chamados deuses. Esta designação não implicava, na origem, nenhuma qualidade má; ao contrário, era tomada em bom sentido. O demônio de Sócrates certamente não era um mau Espírito; ao passo que, segundo a opinião moderna, saída da teologia católica, os demônios são anjos decaídos, seres à parte essencialmente e perpetuamente votados ao mal.
Para ser conseqüente com a opinião de Philalethes, seria preciso que, em respeito à etimologia, o Espiritismo também conservasse a qualificação de demônios. Chamando o Espiritismo seus fenômenos de milagres e os Espíritos de demônios, seus adversários teriam feito um belo jogo! Teria sido repelido por três quartos dos que hoje o aceitam, porque nisso teriam visto um retorno a crenças que já não são de nosso tempo. Vestir o Espiritismo com roupas velhas teria sido uma inabilidade; teria sido dar um golpe funesto na doutrina que teria tido o trabalho de dissipar as prevenções que denominações impróprias teriam alimentado. (Allan Kardec - 1867)

16 de agosto de 2009

SEXO E DESTINO


Existem livros que pedem uma leitura calma, repetida com intervalos, que não podemos entender de pronto, ao primeiro impacto emocional, e que por isso não devemos julgar apressadamente.
Sexo e Destino é um desses livros.
Focalizando, com realismo um assunto dos mais delicados, verdadeiro tabu, a brochura psicografada por Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira teria inevitavelmente de provocar, em alguns, impressões desconcertantes, de grande efeito, mas de pouca consistência.
Há, na história que André Luiz nos relata, convocando-nos para o estudo criterioso de palpitantes questões íntimas, determinados pontos que, por não terem sido bem assimilados, convém passarmos em revista.
Um deles é o estilo da linguagem, fluente, polido, porém um tanto áspero, em diversos lances, para a sensibilidade puritana. O autor fala sobre sexo para ensinar e não para agradar. Usa uma ou outra expressão forte, intencionalmente, com o fito de espanar da consciência do leitor o pó dos velhos preconceitos. Nunca, entretanto, recorre às frases de sentido dúbio e muito menos às comparações chocantes.
Descrevendo um drama real, como esclarece logo de início, coloca nos lábios de cada personagem palavras que refletem o seu caráter. Seria imperdoável, literariamente, se não procedesse assim. Justifica-se, pois, que um Espírito atrasado, ignorante e perverso, dirigindo-se a uma entidade superior, em quem pressente o perigo de uma ameaça aos seus planos infelizes, expresse descontentamento nestes termos:
“Dê o fora, que não vou com sua lata! Vá-se catar, vá-se catar!...” (Página 147.)
E, prosseguindo, apela para a gíria, designando os recém-desencarnados que se lhe assemelham como “descascados”, numa tirada original e quase pitoresca.
Justifica-se, ainda, que outro Espírito, não de ordem inferior, mas também não suficientemente evoluído, numa explosão de revolta ante a presença de inocente jovem desonrada, exclame:
— “Veja esta menina. Correta, fiel.., submeteu-se, confiante. Que culpa no vaso de porcelana violentamente destampado por um animal?” (Página 79)
A imagem tem cor rubra, porém o que defrontamos não é um romance açucarado, cheirando a pétalas de rosa é uma narrativa séria e grave, digna de respeitosa meditação.
Um pouco mais à frente, no entrecho das figurações, surge a poesia em tons amenos, quando é o próprio André Luiz o artista do verbo:
“O rosto esculpido em linhas raras, os olhos escuros contrastando com a brancura da tez, as mãos pequenas e as unhas róseas complementavam belo manequim de carne, apresentando por dentro uma criança assustada e ferida.”
“Tristeza maquilada. Aflição no disfarce de flor.” (Página 60)
Além do estilo da linguagem, o que mais, em Sexo e Destino, é passível de comentário?
— A ligação dos fatos coincidentes, que se sucedem em ajustado entrelaçamento, tudo se relacionando nas menores particularidades, em função da trama, em benefício do enredo?
Esta restrição carece de fundamento, porque, filosoficamente, todos concordamos em que não existe o acaso. Os mínimos acontecimentos possuem uma razão de ser, e na existência humana, muito mais que nas novelas vulgares, é natural que os fatos se encadeiem harmoniosamente.
— A transformação radical da personalidade de um homem que, após violar a filha supostamente adotiva, converte-se ao ideal espírita e apresenta-se regenerado?
Vasculhemos a memória. Antes de abraçar a fé que nos enobrece, cometemos erros talvez igualmente mesquinhos, embora diferentes (só antes?). E, possivelmente, chegamos ao vero Cristianismo sem experimentar uma tragédia tão dolorosa quanto aquela que avassalou a alma de Cláudio Nogueira.
— As cenas do gari “regando as areias da praia” e da enferma acidentada, quase agonizante, com as vestes tingidas de sangue, suor e excremento?
Tais cenas, evidentemente, não deleitam a imaginação; nada obstante, lembram que nos cumpre encarar com naturalidade as deficiências e as necessidades orgânicas; depreende-se, de imediato, que elas não foram cunhadas com objetivos estéticos, e sim com intenções psicológicas, visando a contrabalançar a sugestão de outras cenas que poderão despertar o sensualismo (despertá-lo em quem o tiver, é claro...). Recurso técnico válido, este, e característico dos escritores de talento que se preocupam em controlar as emoções de seus leitores, valendo-se de contrastes, a fim de ajudá-los a não cair em estados mentais indesejáveis
A respeito dê Sexo e Destino, todas as objeções até aqui vistoriadas são demasiado frágeis para merecerem mais longas considerações.
Destaca-se, contudo, um, aspecto do livro que faz jus a rigorosa análise, por ser o mais importante, o fundamental.
Trata-se do problema do vampirismo.
Sempre admitimos, pacificamente, que os desencarnados nos influenciam as ações, o que, aliás, é princípio básico da Doutrina. Como, no entanto, se processa esta influência? Qual o seu mecanismo? Que os obsessores utilizam os métodos da hipnose, já o sabíamos. Mas, como aplicam esses métodos, de que maneira operam?
Sexo e Destino mostra-nos, com minúcias, com riqueza de detalhes, o modo de atuar dos perseguidores invisíveis, transmitindo-nos informes que surpreendem.
Demonstra-nos, de saída, simplesmente isto: a atração magnética entre o obsidiado e o obsessor pode ser tão forte que os dois, identificados em perfeita sintonia vibratória, imantam-se em autêntica simbiose, e, colados um ao outro, como que se transfundem permutando idéias e sensações, parecendo “dois seres num corpo só” (Página 82).
Eis o vampirismo fotografado em seu aspecto fisiológico. Para completar o quadro, vejamos como se passam as coisas no plano subjetivo. Recordemos trecho do livro em que personagem central se prepara para conquistar o amor da própria filha adotiva, porém hesita reconhecendo a vileza do ato que almeja praticar. Jungido a tal personagem, um Espírito ainda escravizado a instintos animais espera a consumação do delito, anseia por ele, na certeza de que partilhará o prazer do momento que se aproxima.
Tal Espírito procura induzir tal personagem a cometer tal crime.
De um lado, o obsessor formulando hábeis insinuações; do outro lado, o obsidiado tentando resistir, e supondo que trava consigo mesma (subconsciente, etc.) o diálogo mantido, na realidade, com uma entidade à qual se ligou por afinidade moral,
Em pensamento, pondera o obsidiado que não é licito cobiçar a filha, e imediatamente ouve, na acústica do cérebro, como se lhe pertencesse, a argumentação do obsessor:
— “Filha? Mero artifício social. Apenas mulher. E quem assegurará que. ela também não espera por seu beijo com a sede da corsa presa ao pé da fonte? Você não é nenhum neófito; sabe que toda mulher estima render-se, em trabalhosa porfia.” (Página 85.)
Aí está o quadro acabado, suscitando dúvidas. Nesta altura de Sexo e Destino ficamos cientes de que:
1 — Os Espíritos podem confabular conosco normalmente, fazendo gestos, como se ainda vivessem na matéria;
2 — Podem envolver-nos, penetrando nossa organização física e fundindo-se a ela;
3 — E podem, como resultado disso, além de comunicar-nos suas idéias, transferir para nós suas, sensações.
Será possível? Será lógico?
Ou será mera fantasia, pura invencionice?
Parece-nos que, em Espiritismo, a única autoridade inatacável é a de Allan Kardec. Para dirimir dúvidas, portanto, há um recurso acessível a todos e bem mais interessante do que as discussões apaixonadas e as críticas sibilinas —consultar as obras da Codificação!
Ora, o que importa acima de tudo não é verificarmos se as revelações de André Luiz nos satisfazem ou contrariam, O que importa é sabermos se elas estão ou não corretas, doutrinariamente.
Folheemos Kardec.
Não é necessária uma pesquisa meticulosa; basta tomarmos um só volume, aproveitando a oportunidade para homenagear aquele cujo centenário presentemente comemoramos. Para começar, as transcrições de O Céu e o Inferno, leiamos parte de um período extraído de mensagem espiritual inserida na página 177:
1 — “Estou junto dos meus amigos e aperto-lhe as mãos sem que disso se, apercebam...
2 — “Quanto à nossa fluidez e graças a ela, podemos estar em toda parte sem interceptar o espaço...
3 — “Ou produzir quaisquer sensações, se assim o desejamos”
Confira-se o que consta nestes três itens a com o que consta nos três itens anteriores, e as dúvidas se dissolverão como sorvete.
Provado está que André Luiz tão somente confirma e desenvolve Kardec.
Entretanto, tem mais,... Duas outras contestações, feitas a Sexo e Destino, exigem sumário e pulverizante juízo. Primeira:
A de que os obsessores não cogitam de sexo...
Será que não??? Voltemos às mensagens de O Céu e o Inferno, agora na página 259
Será que não??? Voltemos às mensagens de O Céu e o Inferno, agora na página 259:
“... sabeis qual a existência desses homens sensuais que não deram ao Espírito outra atividade além da invenção de novos prazeres?
“A influência da matéria segue-se além-túmulo, sem que a morte lhes ponha termo aos apetites...”
Segunda:
A de que é absurdo aceitarmos a possibilidade de os obsessores morarem com suas vítimas, residindo na mesma casa como se fossem membros da família.
Visitemos, para finalizar, mais uma página de O Céu e o Inferno, desta feita a de número 183:
“Um Espírito tanto pode, conseguintemente, habitar entre vós depois de morto como quando vivo, ou, por outra, melhor ainda depois de morto, uma vez que pode ir e vir livre e voluntariamente. Deste modo temos uma multidão de comensais, indiferentes uns, outros atraídos por afeição.”
Como vimos, Sexo e Destino não colide com os fundamentos da Doutrina Espírita, nada contém em desacordo com os princípios gerais esboçados nas obras da Codificação.
No que tange ao seu conteúdo, é um livro de grande utilidade, porque amplia o horizonte de nossos conhecimentos psíquicos, auxiliando-nos a compreender os problemas do sexo, embaraçantes e sutis, dentro de uma dimensão que transcende os estreitos limites da psicologia clássica.
No que se refere à sua forma, é um livro de bom gosto, que prende a atenção do princípio ao fim, que joga inteligentemente com os implementos da dialética literária, que tem a virtude de manipular ingredientes ácidos sem produzir substâncias corrosivas, que consegue comover sem enveredar pelo melodrama piegas, que diz toda a verdade sem escandalizar.
Um livro caridoso, que entende e conforta:
“A sublimação progressiva do sexo, em cada um de nós, é fornalha candente de sacrifícios continuados. Não nos cabe condenar alguém, por faltas em que talvez possamos incidir ou nas quais tenhamos sido passíveis de culpa em outras ocasiões.” (Página 48)
Mas é também um livro altamente instrutivo, que educa e adverte:
“A responsabilidade tem o tamanho do conhecimento.” (Página 57)
Leiam-no até o fim, os que pararam pelo meio; leiam-no como obra de estudo, os que o receberam como simples romance.
Nazareno Tourinho
Fonte: Reformador – setembro, 1965

10 de agosto de 2009

EM HOMENAGEM AOS 121 ANOS DE NASCIMENTO DE ANDRÉ LUIZ




ANDRÉ LUIZ
Em 19.5.04, distribuí texto pela internet sobre o espírito André Luiz, mostrando-lhe os olhos e informando que o médium Waldo Vieira identificara para um amigo dele (e meu) quem era realmente o famoso médico carioca. Naquele texto, voltei a explicar que, no início da década de 70, após extenuante pesquisa com 286 médicos desencarnados de 1926 a 1936 (68 foram categoricamente de doenças ou cirurgias gastro-intestinais), eu houvera chegado ao verdadeiro nome, que nada tem a ver com Carlos Chagas, Miguel Couto, Osvaldo Cruz ou Francisco de Castro, os mais citados. O médium Francisco Cândido Xavier me confirmara o nome, mas considerou que a identidade deveria ser mantida em segredo.
Durante minhas pesquisas aconteceu o menos esperado: a família soube dos meus passos e me procurou. Percebi então que o Chico tinha razão quanto a sermos cautelosos e disse àqueles familiares - que já sabiam de tudo - que, de minha parte, o público ainda nada saberia.
Guardei esse segredo até a recente distribuição do texto pela internet, quando divulguei junto os olhos de André Luiz, receoso de que a revelação do Waldo se espalhasse sem mais controle. Agora porém tudo mudou e não vejo mais motivo para qualquer reserva. Pretendo contar tudo e até publicar minha pesquisa em livro, pois não sei quem conheça mais detalhes dessa história do que eu; não apenas em relação às ponderações do Chico, mas também relativamente à conversa que tive com a família de André Luiz.
A pessoa a quem o Waldo passou a informação é meu amigo, Osmar Ramos Filho. Ele é o autor da extraordinária obra O Avesso de um Balzac Contemporâneo, análise de amplo espectro do livro Cristo Espera por Ti, de Honoré Balzac, psicografado pelo Waldo Vieira. Um estudo notável de corroboração da mediunidade do Waldo. Acertei com o Osmar que continuaríamos mantendo segredo, transferindo para meu filho Luciano dos Anjos Filho o encargo de fazer a identificação pública, quando as circunstâncias se mostrassem propícias, isto é, ao tempo em que a conduta terrena de André Luiz, narrada em Nosso Lar, pudesse ser melhor assimilada pelos descendentes.
Por que meu novo posicionamento? Afirmei certa vez que, após a precisão da minha pesquisa, o Chico havia passado para o Newton Boechat a identificação correta. Eles eram muito amigos, muito ligados. A atitude do Chico, portanto, nunca me surpreendeu, especialmente ao constatar que eu já havia chegado ao nome certo. Em qualquer circunstância acabaria ali o mistério. E - confesso hoje mais claramente - eu sabia que o Boechat sabia, pois a respeito disso conversamos várias vezes, sempre sem nenhuma testemunha.
Ocorre que o Newton Boechat achou por bem abrir uma exceção e estendeu a identificação, também em caráter confidencial, a uma outra pessoa. E esta, por motivos que ignoro, recentemente repassou a informação para mais alguém, num lamentável e inconseqüente deslize verbal. Bem, agora já se trata de segredo condominial. Estão querendo inclusive publicar um livro sobre a vida do verdadeiro André Luiz. Já tem até editora. A intenção é temerária, porque nem sabem da conversa que tive com os familiares. O levantamento dos dados está sendo feito às pressas e em sigilo, naturalmente para parecer que a identificação já era conhecida antes de mim. Como não sou tão ingênuo como os mais ingênuos supõem, estou agora abortando essa esperteza.Já relembrei que desde o início da década de 70 divulguei na imprensa, por mais de uma vez, minha pesquisa, embora sem revelar o resultado final. Não seria, pois, tão necessária essa minha decisão de agora, pois ninguém no movimento espírita desconhece meu trabalho. Mas já apareceu até quem dissesse que foi um velho amigo meu de Franca que me passou o segredo. Lorota de alto vôo e alta envergadura, seja lá de quem for a versão e diante da qual os que me conhecem preferem acreditar que os condores têm medo das alturas... Ninguém mais além de mim, do Newton Boechat, do Chico e do Waldo (estes dois obviamente) sabiam da verdadeira identidade de André Luiz. Incluo ainda a discreta e amorável Maria Laura Hermida de Salles Gomes (Mariazinha), que se relacionava com uma sobrinha de André Luiz e a qual teve papel importante na conexão com o Chico e o Waldo. Pouco depois, mais aquele amigo do Newton Boechat passou a saber também, em caráter excepcional. Foi ele que, aperaltando assunto tão sério, acabou contando para quem está agora esboçando o livro. Minimizar minha pesquisa fazendo dela fruto de mera informação do amigo francano é denunciar a si mesmo de oportunista, enquanto perambula pelo humorismo barato dos pobres de espírito, na tentativa de ignorar que uma lorota dessas só é degustável com sal de fruta.
Ora, nesse ritmo, logo outros, muitos outros, todos saberão e, se eu esperasse o tal livro aparecer, ninguém mais deixaria de saber, com todos os holofotes em quem tomou o bonde andando. Eis por que, nesta data, me antecipo e universalizo o segredo.
FAUSTINO ESPOSEL
André Luiz é Faustino Esposel.
Faustino Monteiro Esposel nasceu na rua dos Araújos nº 10, bairro do Engenho Velho, cidade do Rio de Janeiro (registro 14º 69), em 10.8.1888. Desencarnou no Rio de Janeiro, às 17 horas de 16.9.1931, residindo então na rua Martins Ferreira nº 23, no bairro nobre de Botafogo.
Era filho de João Paiva dos Anjos Esposel e de Maria Joaquina Monteiro (filha reconhecida, ou seja, não registrada oficialmente).
Ele nasceu no Rio de Janeiro, em 29.5.1847, conforme registro de batismo feito em 2.8.1847 (livro AP 1199, fls. 128 v.), na Catedral e Capela Imperial de Nossa Senhora do Monte Carmo. Desencarnou de tísica, no Rio de Janeiro, em Irajá, em 1º.5.1900, sendo sepultado no carneiro CP 1814 quadra 39 do cemitério de São João Batista. Foi a mulher dele, Maria Joaquina Monteiro, quem mandou fazer a sepultura. Ela desencarnou no Engenho Velho, no Rio de Janeiro, em 29.9.1910, portanto, dez anos depois dele. Casados no Engenho Velho, Rio de Janeiro (registro nº 6º, 35), em 7.12.1871.João Paiva dos Anjos Esposel e Maria Joaquina Monteiro tiveram os seguintes filhos:1. Oscar Monteiro Esposel, nascido no Engenho Velho, Rio de Janeiro (registro 8º 73). Casado com Orminda Monteiro Esposel. Moravam na rua Bambina (estou omitindo o número de propósito). Seu filho, Léo Esposel, em 1974 estava casado com Maria de Lourdes Ribeiro Esposel. Tinha também três filhas, Lívia Monteiro Esposel, que morava em 1974 na praia do Flamengo (idem, idem), Ida Esposel Neves e Elza Esposel. Orminda nasceu em 1884, no Rio de Janeiro, tendo desencarnado em novembro de 1978, quando morava na praia do Flamengo. Oscar e Orminda tinham sete netos (Luiz, Francisco, Nélida, Consuelo, Maria Cristina, Mônica e Patrícia) e oito bisnetos (Marcos André, Luiz, Guilherme, Marcelo, Ricardo, Luciana, Márcia e Camila).2. Noêmia Monteiro Esposel, nascida no Engenho Velho, Rio de Janeiro (registro 10º v.).3. Mário Monteiro Esposel, nascido no Engenho Velho, Rio de Janeiro (registro 11º, 64). Era almirante. Em 1975 morava na rua Prudente de Morais (idem, idem).4. Adolfo Monteiro Esposel, nascido no Engenho Velho, no Rio de Janeiro, em 30.11.1885. Desencarnou com apenas quatro meses, no Rio de Janeiro, em 13.4.1886, na rua dos Araújos nº 10, tendo sido sepultado no cemitério do Caju (4m.B.d.). (Em Nosso Lar aparece como menina, mas na verdade era um menino. Quando desencarnou, em 1886, Faustino ainda não era nascido, o que só vai acontecer dois anos depois, em 1888. André Luiz deslocou o acontecimento para depois do nascimento dele, quando ele era "pequenino".)
5. Carlos Monteiro Esposel, nascido no Engenho Velho, Rio de Janeiro (registro 12º 4v). Em 1974 morava na rua São Salvador (idem, idem). Mudou-se depois para a rua Paissandu (idem, idem). Acabou indo morar em Santa Catarina.6. Faustino Monteiro Esposel.
Eram avós paternos de Faustino Esposel: José Maria dos Anjos Esposel e Margarida Maria; e avós maternos: Isidro Borges Monteiro (desembargador) e Paulina Luísa de Jesus.
João Paiva dos Anjos Esposel, pai do Faustino, tinha um irmão chamado Joaquim Maria dos Anjos Esposel (1842-1897), casado com Maria José de Barros Carvalho (filha de Delfim Carlos de Carvalho, barão da Passagem, herói da primeira guerra do Paraguai, e de Ana Elisa de Mariz e Barros, filha do visconde de Inhaúma). O casamento foi celebrado na igreja de São José. Tiveram quatro filhos:
1. Alice Esposel (casada com Andrônico Tupinambá).
2. Dulce Esposel (casada primeiro com Sabino Elói Pessoa e, em segundasnúpcias, com Joaquim Bernardo da Cruz Secco).
3. Eponina Esposel (casada com Alberto da Costa Rodrigues).
4. Delfina Esposel.
(Há uma rua no Rio de Janeiro chamada Joaquim Esposel.)
Faustino Esposel tinha muitos sobrinhos, dentre os quais Lívia Monteiro Esposel, Elza, Ida Esposel Neves, Lúcia e Léo, casado com Maria de Lourdes Ribeiro Esposel (todos residentes no Rio de Janeiro). E sobrinhos-netos: Élcio (almirante), Carlos, Ronaldo (morava em 1974 na rua Prudente de Moraes, era comerciante de couro, casacos de couro, ligado ao Jockey Club Brasileiro). Todos pessoas de bem.
Outros parentes: Laís de Niemeyer Esposel, residente em 1974 na av. Vieira Souto, desencarnada em fevereiro de 1994; Jayme Carneiro de Campos Esposel, residente em 1974 na estrada do Joá, era capitão de fragata quando comandou o contratorpedeiro Ajurieda, de 16.10.56 a 29.11.1957; Marcello, residente em 1974 na rua Cândido Mendes. Nomes de respeitabilidade entre os que os conhecem.
Faustino Esposel casou com Odette Portugal Esposel, conhecida por Detinha. Era filha do médico José Teixeira Portugal, nascido em 1874 e desencarnado em 1927. Ela nasceu em 6.6.1900 e desencarnou em 5.2.1978. A missa foi rezada no dia 13 daquele mês, na igreja de Santa Margarida Maria, na Lagoa.Irmã da Odette Portugal Esposel: Olga Portugal, viúva de Gumercindo Loretti da Silva Lima, casada em segundas núpcias com o primo Arthur Machado Castro, que tinha uma irmã chamada Lygia. Odette e Olga tiveram uma filha: Regina, casada com Jorge C. Dodsworth. Gumercindo Loretti foi figura muito ligada aos ideais do escotismo e tinha um irmão, Jarbas Loretti da Silva Lima, diplomata e poeta, nascido em 1868, no Rio de Janeiro, autor de Vozes Andinas, 1918.
Faustino Monteiro Esposel e Odette Portugal Esposel moravam na rua Martins Ferreira nº 23, em Botafogo, cidade do Rio de Janeiro. A partir de 1954, a casa passou a ser propriedade da Associação de Educação Católica do Brasil, subordinada à Conferência dos Religiosos do Brasil e que permaneceu ali até 1981, quando se transferiu para Brasília. A casa passou a abrigar, então, a Creche Escola Favinho do Mel, patrocinada pela Associação e dirigida por três senhoras que ali residem até hoje (2005). O atual porteiro se chama “coincidentemente” André Luiz...
Faustino Esposel nasceu na capital federal, no dia 10 de agosto de 1888. Era professor substituto da seção de neurologia e psiquiatria da Faculdade de Medicina e reputado clínico, catedrático de neurologia na Faculdade Fluminense de Medicina. Foi ainda chefe do serviço da Policlínica de Botafogo e do Sanatório de Botafogo e médico da Associação dos Empregados do Comércio. E era também sanitarista, portador por concurso do título de docente de higiene da Escola Normal do Rio de Janeiro, na qual foi continuamente encarregado de cursos complementares. Fez os estudos primários na Escola Alemã, conhecia profundamente o idioma germânico, cursou durante alguns anos o externato Mosteiro de São Bento. Formou-se em 1910 em farmácia e em medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde defendeu tese sobre "Arteriosclerose cerebral", em que recebeu a nota de distinção.
Durante o curso acadêmico, foi adido dos serviços clínicos da 7ª e da 18ª enfermarias da Santa Casa da Misericórdia, chefiadas respectivamente pelos mestres Miguel Couto e Paes Leme. Ainda nessa época, exerceu o internato oficial da Clínica Pediátrica dos professores Barata Ribeiro e Simões Corrêa.
Pouco após a formatura, candidatou-se a médico da Assistência de Alienados do Rio de Janeiro, classificando-se em primeiro lugar, pelo que foi nomeado assistente do Hospital Nacional de Alienados. Chegou a titular de livre docente da Faculdade de Medicina, exercendo ali o cargo de professor substituto de neurologia e psiquiatria. Nessa condição teve ensejo de integrar diversas bancas examinadoras de teses de doutoramento.
Foi ainda interno e assistente da clínica neurológica e médico adjunto do Hospital da Misericórdia. Deixou muitos trabalhos publicados sobre a especialidade, o que lhe permitiu ingressar em diversas sociedades científicas nacionais e estrangeiras. Em 1918 fez parte da missão médica brasileira que foi à Europa durante a I Grande Guerra. Como representante do Brasil participou de congressos na Europa e na América do Sul. Foi organizador e secretário-geral da Segunda Conferência Latino-Americana de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal. Sobre a epidemia de gripe no Hospital Brasileiro, em Paris, apresentou em 1919 substancioso relatório ao chefe da Missão Médica Brasileira. Recebeu honroso diploma do curso oficial de Pierre-Marie, assinado por este famoso professor e pelo decano da Faculdade de Paris, professor Roger.
Durante o impedimento do professor Antônio Austregésilo Rodrigues de Lima, catedrático de Clínica Neurológica (fora eleito para o Congresso Nacional), Faustino Esposel exerceu com brilho aquela função, conquistando grande renome como didata. Conseguiu elevado prestígio entre os seus colegas, gozando de justa projeção nos meios sociais. Aficionado dos esportes, criou largo círculo de amizades nas rodas desportivas, em época em que o futebol não era unanimidade nas elites do país.
Faustino Esposel desencarnou na capital federal, às 17 horas do dia 16 de setembro de 1931, com 43 anos 1 mês e 7 dias. O sepultamento foi numa quinta-feira, no dia 17, às 16:30h, no cemitério de São João Batista (registro 9817 – Quadra 12, Nº RG Livro 775 – p. 17). O corpo saiu da residência. Missa de 7º dia foi celebrada em 23.9.31, às 10 horas, na igreja da Candelária.
Antônio Austregésilo, amigo de infância, assinou o atestado de óbito, nele fazendo constar, como causa da morte, apenas uremia. Era portador de uma nefrite crônica. Entretanto, os familiares sabiam e alguns descendentes vivos sabem que ele desencarnou de câncer, o que foi omitido por todos os jornais da época, que apenas mencionaram, como era praxe nesses casos, "a violência da súbita enfermidade que o acometeu" sendo "todos os esforços impotentes no combate ao mal insidioso" (Diário de Notícias, 17.9.31); ou "acometido de moléstia aguda, que sobreveio inesperadamente" (Jornal do Commércio, 17.9.31). Quando do falecimento, o amigo Antônio Austregésilo fez um panegírico, inserido em Arquivo Brasileiro de Medicina, nº 8, de 1931 (Biblioteca Nacional).
Em 29.9.1927, Faustino Esposel inscreveu-se à vaga aberta na Academia Nacional de Medicina decorrente da passagem de Teófilo de Almeida Torres, membro titular da Seção de Medicina Geral, para a classe dos Membros Titulares Honorários. Apresentou juntamente com os seus trabalhos a memória intitulada "Em torno do sinal de Babinsky". Aprovado, a eleição teve lugar em 17.11.1927 e a cerimônia de posse na sessão de 24.5.1928, sob a presidência do acadêmico Miguel Couto, que designou os acadêmicos Antônio Austregésilo e J. E. da Silva Araújo para acompanhar o novo acadêmico ao recinto. Fez-lhe a saudação de paraninfo o acadêmico Joaquim Moreira da Fonseca. Com o seu falecimento, sua poltrona passou a ser ocupada pelo acadêmico Odilon Gallotti, eleito em 23.6.32 e empossado em sessão de 25.6.36. Na sessão de 30.6.32 a Academia promoveu uma homenagem a Faustino Esposel, discursando na ocasião o orador oficial Alfredo Nascimento. Tenho em meus arquivos todos os discursos pronunciados naquela instituição.
Faustino Esposel era católico. Militou na União Católica Brasileira. Foi congregado mariano. Comungava com freqüência, o que era hábito da maioria religiosa daquela época.
Tinha ficha de cadeira cativa do Clube de Regatas do Flamengo, dos anos de 1925 a 1930. Foi presidente do clube no biênio 1920-1922, depois de 1924 a 1927, ano este em que renunciou, assumindo Alberto Borgerth. Em 1928 voltara à presidência, não tendo completado o mandato em virtude da doença. Na assembléia de 23 de dezembro de 1920, quando o presidente já era Faustino Esposel, o Flamengo aprovou o seu novo uniforme, usado até hoje. Em 1926, os Guinle pediram a devolução do imóvel que estava arrendado ao clube. Fez-se então uma campanha de arrecadação junto ao quadro social para a aquisição de um local próprio. Desde 25 de março de 1925, Faustino Esposel havia reunido a diretoria comunicando a disposição do então prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Antônio Prado Jr., de ceder uma área de mais de 34 mil metros quadrados às margens da lagoa Rodrigo de Freitas. Após negociações que se sucederam com o prefeito Alaor Prata, o presidente Faustino Esposel obteve a desejada área na Gávea.
O primeiro jogo ali promovido, ainda sem muro e cercado por madeiras, aconteceu sob a presidência de Faustino Esposel, no dia 26 de novembro de 1926, entre a Liga de Amadores de Foot-Ball (São Paulo) e a Association de Amateurs de Argentina. Nesse período, Oscar Esposel, irmão de Faustino e conselheiro do clube, propôs a inauguração do estádio da Gávea em 15 de novembro de 1938, quando o Flamengo estaria completando 43 anos de fundação. Mas a festa acabou acontecendo antes, no dia 4 de setembro daquele ano com um jogo entre Flamengo e Vasco, vitória vascaína por 2 a 0 que, no entanto, não abafou a alegria rubro-negra, por estar com a nova casa concluída.Entusiasta dos esportes e da educação física, que sempre cultivou, pertenceu a muitas associações esportivas em que exerceu cargos técnicos e administrativos e de que foi presidente por diversas vezes, como a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos e a Federação Brasileira de Desportes.
Há dois retratos de Faustino Esposel na sede do Flamengo, na Gávea. Outro, de corpo inteiro, não está, como alguns parentes supunham, no gabinete do Deolindo Couto, de quem foi professor. Constatei que se encontrava no corredor escuro da Faculdade de Medicina, então na praia Vermelha (hoje não existe mais). Existe também um quarto quadro, em que ele está de meio-perfil, na residência da Maria Laura Hermida de Salles Gomes (Mariazinha), em Cambuquira, na rua Getúlio Vargas, 141.
Um último registro: Antônio Austregésilo, talvez o maior amigo do Faustino, chegou a presentear Odette com livros de André Luiz.
Bem, eis o que posso adiantar. Tenho muitas outras informações, mas meu acervo completo só pode ser aberto realmente em livro, dados os comentários e as explicações que o tema exige. Aí então farei a necessária análise comparativa com o livro Nosso Lar e outros da série. Devo salientar, desde logo, que André Luiz fez pequenas modificações para despistar o leitor, em obediência à preocupação exposta no prefácio de Emmanuel no sentido de ocultar sua verdadeira identidade, o que ele mesmo reafirma na mensagem de abertura ("Manifestamo-nos, junto a vós outros, no anonimato que obedece à caridade fraternal.") Noutras ocasiões deixou pistas insuspeitadas. Mas, num único ponto a modificação não foi pequena, ou melhor, foi radical: a família deixada na terra. Na verdade, Faustino Esposel não deixou filhos. Então, quem são aquelas pessoas referidas no livro? Segundo explicação do Chico, apresentada desde 1975, são todos membros de uma família de que o Faustino era membro em encarnação anterior. A fim de ilustrar os ensinamentos ele foi buscar a situação doméstica no seu passado mais remoto.Outros detalhes que posso antecipar:
- André Luiz informa que foi assistido na colônia Nosso Lar por um médico chamado Henrique de Luna. Na terra, De Luna (médico, com esse mesmo nome) era contemporâneo de Faustino Esposel.
- André Luiz narra em Nosso Lar que teve quinze anos de clínica. Formado em 1910, consta que a partir da segunda metade da década de 20 ele viveu muito mais para o magistério e trabalhos intelectuais ligados à medicina, além das atividades desportivas.
- Luísa, a irmã que André Luiz conta ter desencarnado cedo, quando ele era "pequenino", na verdade era um irmão (Adolfo Monteiro Esposel), desencarnado com apenas quatro meses, em 1886, dois anos portanto antes de ele nascer.
- Quem privou muito da proximidade de Faustino Esposel foi um porteiro que, até meados da década de 70, embora aposentado, ainda costumava freqüentar o Pinel. Disse-me conhecer toda a vida do professor Faustino Esposel, que ele atendia muitos doentes de graça e que era famoso de verdade. A par disso, aludiu a alguns fatos que se ajustam perfeitamente ao que está confessado nas páginas de Nosso Lar. E confirmou, inclusive, detalhes de comportamento que o próprio André Luiz também não escondeu no livro.
Rio de Janeiro, 1º de julho de 2005
LUCIANO DOS ANJOS

6 de agosto de 2009

A VISÃO ESPÍRITA DA EPILEPSIA

A epilepsia é uma das enfermidades mais antigas da humanidade.
Na antiga Babilônia, eram feitas restrições ao casamento de pessoas epilépticas, com o argumento de que eram possuídas pelo demônio. Já na Idade Média, a epilepsia era considerada uma doença mental e contagiosa, visão que persiste nos tempos atuais nas pessoas desinformadas.
Na bíblia, encontramos a passagem do “menino epiléptico”, narrada por Mateus (17: 14 a 19), na qual Jesus, “tendo ameaçado o demônio, fez com que ele saísse da criança, que foi curada no mesmo instante”. No livro A Gênese, Allan Kardec explica que a “imensa superioridade do Cristo lhe dava tal autoridade sobre os Espíritos imperfeitos, chamados então de demônios, que lhe bastava ordenar que se retirassem para que não pudessem resistir a essa injunção”.
Para nós, Espíritos em aprendizado, fazer uma desobsessão é mais complexo. Precisamos ter ajuda espiritual e muito carinho com nossos semelhantes, pois o verdugo de hoje foi vítima ontem.
Para sabermos se o problema é um processo obsessivo ou carma, devemos analisar os tipos de reencarnação: expiação, provação e missão. A expiação é o resgate, por meio da dor, de erros cometidos noutras existências. Pela provação, temos provas voluntariamente solicitadas pelo Espírito, as quais, se bem suportadas, resultarão em seu progresso espiritual. A missão é a realização de qualquer tarefa, de pequena ou grande relevância. A Terra pertence à categoria dos mundos de expiação e provas.
A medicina descreve uma crise epiléptica como uma desordem cerebral, causada por descarga elétrica anormal, excessiva e transitória das células nervosas, decorrente de correntes elétricas que são fruto da movimentação iônica através da membrana celular. Existem diversos tipos de crises, como parciais, parciais e completas, generalizadas e tônico-clônicas.
Normalmente, como qualquer outra enfermidade, a epilepsia está ligada a um resgate que temos de efetuar, devido a algo errôneo que praticamos no passado. Por estarmos sempre consertando nossas falhas, pois somos imperfeitos, é graças à lei divina que temos esta oportunidade de correção e, ao mesmo tempo, de evolução moral. A reencarnação faz que possamos nos redimir de atos praticados em vidas anteriores contra nossos irmãos.
As causas da epilepsia podem ser desde uma lesão na cabeça como um parto a fórceps. O uso abusivo de álcool e drogas, além de outras doenças neurológicas, também pode gerar a doença. Na maioria dos casos, entretanto, desconhece-se as causas que lhe dão origem. Muitas vezes, o paciente tem as convulsões e os exames realizados dão resultados normais. Manoel Philomeno de Miranda, no livro Grilhões Partidos, psicografado por Divaldo Pereira Franco, afirma que “mesmo nesses casos, temos que levar em conta os fatores cármicos incidentes para imporem ao devedor o precioso reajuste com as leis divinas, utilizando-se do recurso da enfermidade-resgate, expiação purgadora de elevado benefício para todos nós”.
Vale ressaltar que a medicina terrestre evoluiu, não só porque conta com a cirurgia, que é usada quando o resultado da medicação não foi satisfatório e o médico avalia as possibilidades de sucesso cirúrgico, mas por que os médicos têm se preocupado em adaptar o paciente à vida social e familiar, além da reabilitação aos estudos.
Muitas vezes, envolvem vários profissionais de diversas áreas, como psicólogos, terapeutas etc., elucidando o paciente e sua família sobre a importância do uso dos remédios e o apoio dos pais nesta caminhada. Estes, inclusive, com receio das crises epilépticas, acabam dando uma superproteção ao filho, temendo que ele se machuque. Essa proteção é normal, mas deixa o epiléptico dependente dos genitores, tornando-o uma criança isolada e fechada.
Algumas pessoas, sem o devido estudo, alegam que a epilepsia é uma mediunidade que deve se desenvolver. Porém, conforme afirma Manoel Philomeno de Miranda em Grilhões Partidos, vale ressaltar que “não desconhecemos que toda enfermidade procede do Espírito endividado, sendo a terapêutica espiritista de relevante valia. Porém, convém considerar que, antes de qualquer esforço externo, há que se predispor o paciente à renovação íntima, intransferível, ao esclarecimento, à educação espiritual, a fim de que se conscientize das responsabilidades que lhe dizem respeito, dando início ao tratamento que melhor lhe convém, partindo de dentro para fora. Posteriormente e só então, far-se-á lícito que participe dos labores significativos do ministério mediúnico, na qualidade de observador, cooperador e instrumento, se for o caso”.
Existem processos perniciosos de obsessão que fazem lembrar um ataque epiléptico devido à igualdade da manifestação.
Também com uma gravidade séria, ainda conforme as palavras de Manoel Philomeno, “ocorrência mais comum se dá quando o epiléptico sofre a carga obsessiva simultaneamente, graças aos gravames do passado, em que sua antiga vítima se investe da posição de cobrador, complicando-lhe a enfermidade, então com caráter misto”.
Independente do fato de o epiléptico estar sob um processo obsessivo ou não, é importante a freqüência ao centro espírita para a reforma íntima e para receber aplicação de passes, que é uma transfusão de energias fisiopsiquicas. Porém, mesmo com o tratamento espiritual, o epiléptico deve manter controle com a medicina terrestre, com a aplicação de anticonvulsivos, pois cada caso é um caso.
Pode-se fazer um tratamento de desobsessão e o inimigo do passado ser doutrinado, mas a dívida persistirá enquanto não for regularizada, como explica Manoel Philomeno no livro.
‘Considerando-se que o devedor se dispõe à renovação, com real propósito de reajustamento íntimo, modificando as paisagens mentais a esforço de leitura salutar, oração e reflexão com trabalho edificante em favor do próximo e de si mesmo, mudam-se-lhe os quadros provacionais e providências relevantes são tomadas pelos mensageiros encarregados de sua reencarnação, alterando-lhe a ficha cármica. Como vê, o homem é o que lhe compraz, o que cultiva’, descreve.
Gostaria de terminar dizendo às pessoas que têm epilepsia e seus familiares que jamais desanimem, em momento algum, sobretudo nos momentos mais difíceis, onde a doença parece incontrolável. Os pais são o alicerce para o filho epiléptico e este só poderá obter a cura total ou parcial com o apoio dos familiares e muita fé em Deus.
Ao terminar de ler esta matéria, não se preocupe em ficar remoendo na mente sobre os atos que poderia ter feito no pretérito que lhe fizessem voltar com essa enfermidade. Cuide da sua reforma íntima e espiritual, para que, posteriormente, venha a trabalhar em prol dos mais necessitados. Dessa forma, além de se ajudar a evoluir espiritualmente, ajudará também muitas pessoas que virão ao seu socorro.
Fim.
Marco Tulio Michalick

5 de agosto de 2009

PROBLEMAS SOBRE O SUICÍDIO

Por que motivo o homem, que tem a firme intenção de se matar, revoltar-se-ia contra a idéia de ser morto por um outro e defender-se-ia contra os ataques, no mesmo instante em que vai cumprir o seu desígnio?
- Porque o homem tem sempre medo da morte. Quando se suicida, está superexcitado, com a cabeça transtornada, e realiza esse ato sem coragem nem medo e, por assim dizer, sem ter conhecimento do que faz; ao passo que se lhe fosse dado raciocinar não veríamos tantos suicídios. O instinto do homem o leva a defender a própria vida e, durante o tempo que decorre entre o momento em que o seu semelhante se aproxima para o matar e o momento em que o ato é cometido, tem ele sempre um movimento de repulsa instintiva da morte; e este o leva a repelir esse fantasma, só apavorante para um Espírito culposo. O homem que se suicida não experimenta tal sentimento porque se acha cercado de Espíritos que o impelem, que o ajudam em seus desejos e lhe fazem perder completamente a lembrança do que não seja ele mesmo, isto é, dos pais, daqueles que o amam e de uma outra existência. Nesse momento o homem é todo egoísmo.
- Aquele que, desgostoso da vida, mas não quer suicidar-se e deseja que sua morte sirva para alguma coisa será culpado se a buscar no campo de batalha, defendendo o seu país?
- Sempre. O homem deve seguir o impulso que lhe é dado. Seja qual for a vida que leve, é sempre assistido por Espíritos que o conduzem e o dirigem, mau grado seu. Ora, procurar agir contra os seus conselhos é um crime, pois que aqueles aí estão para nos dirigir e, quando queremos agir por nós mesmos, esses bons Espíritos estão prontos a ajudar-nos. Entretanto, se o homem, arrastado por seu próprio Espírito, quer deixar esta vida, é abandonado; mais tarde reconhece que terá de recomeçar uma outra existência. Para elevar-se, deve o homem ser provado. Parar a sua ação, pôr um entrave em seu livre-arbítrio seria ir contra Deus e, neste caso, as provas tornar-se-iam inúteis, porque os Espíritos não cometeriam faltas. O Espírito foi criado simples e ignorante; então, para chegar às esferas felizes, é necessário elevar-se em Ciência e em sabedoria e é somente na adversidade que adquire um coração elevado e melhor compreende a grandeza de Deus.
- Um dos assistentes observou que notava uma contradição entre estas últimas palavras de São Luís e as precedentes, quando disse que o homem pode ser arrastado ao suicídio pelos Espíritos que a isto o excitam. Neste caso cederia a um impulso estranho.
- Não existe contradição. Quando disse que o homem impelido ao suicídio era cercado de Espíritos que a isto o solicitavam, não me referia aos bons Espíritos, que fazem todo esforço para o evitar; isto deveria estar subentendido; sabemos todos que temos um anjo da guarda ou, se proferis, um guia familiar. Ora, o homem tem o seu livre-arbítrio; se, a despeito dos bons conselhos que lhe são dados, persevera nesta idéia criminosa, ele a realiza, no que é ajudado pelos Espíritos levianos e impuros, que o cercam e que se sentem felizes por ver que ao homem, ou Espírito encarnado, também falta a coragem para seguir conselhos de seu bom guia, por vezes de Espíritos de parentes mortos que o rodeiam, sobretudo em circunstâncias semelhantes. (Respostas do Espírito de São Luís - R. E. 1858).