30 de setembro de 2009

CONSCIÊNCIA DO DEVER


Como temos cumprido os nossos deveres? Na família, na escola, na profissão, como temos nos portado?

Somos dos que primamos pela qualidade do que fazemos, sempre preocupados em realizar o melhor ou somos dos que não nos importamos muito com o resultado, desde que a tarefa seja concluída?
Embora vivamos em uma sociedade que exige qualidade, especificações técnicas, aprimoramento profissional, observamos que, de um modo geral, cada qual busca fazer o estritamente necessário e exigível.
E, contudo, deveria ser tão diferente. Deveríamos nos preocupar em tudo realizar da forma mais primorosa, quase perfeita.
Deveríamos ser criaturas sempre insatisfeitas com os resultados dos nossos trabalhos, no sentido de, embora reconhecê-los bons, saber que sempre existe a possibilidade de se melhorar um tanto mais.
Se todos assim pensássemos, não haveria necessidade de possuirmos órgãos controladores, disciplinadores, fiscalizadores e reguladores de qualidade.
Não haveria peças defeituosas, mal elaboradas, tarefas mal executadas.
A preocupação constante e de todos seria realizar o melhor.
Recordamos de que há muito tempo, na Grécia Antiga, um escultor já velho estava lapidando um bloco de pedra.
Com cuidado, examinava a rocha com o cinzel, lascava um fragmento por vez, avaliando as medidas com suas mãos vigorosas antes de dar mais um golpe.
Quando estivesse pronta, a peça serviria de capitel, aquela parte superior das colunas. Ela seria içada e colocada sobre o topo de um comprido pilar. A coluna comporia o suporte do teto de um templo majestoso.
Um funcionário do Governo, que passava, em vendo o esforço do escultor se aproximou e lhe perguntou:
Para que gastar tanto tempo e esforço nessa parte? Essa peça vai ficar a quinze metros do chão. Nenhum olho humano será capaz de ver esses detalhes.
O velho artista descansou o martelo e o cinzel. Enxugou o suor da testa, fixou seu interlocutor e respondeu:
Mas Deus verá!
A frase resume a consciência da criatura que sabe que, embora possa enganar os homens, não enganará a Divindade. Retrata igualmente a consciência do dever, que é um dos belos ornamentos da razão.
* * *
Na ordem dos sentimentos, o dever é muito difícil de se cumprir por se achar em antagonismo com as atrações do interesse e do coração.
O dever do homem fica entregue ao seu livre-arbítrio.
E o homem tem de amar o dever, não porque preserve de males a vida, mas porque confere à alma suficiente vigor para o seu desenvolvimento.
Redação do Momento Espírita com base no item 7 do cap. XVII de  O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, ed. Feb e de texto intitulado Deus verá, de autoria desconhecida

29 de setembro de 2009

A ESTRADA DA VIDA



A comparação seguinte pode ajudar a fazer compreender as peripécias da vida da alma.

Suponhamos uma longa estrada, sobre o percurso da qual se encontram, de distância em distância, mas em intervalos desiguais, florestas que é preciso atravessar; à entrada de cada floresta, a estrada larga e bela é interrompida e não retoma senão na saída.
Um viajor segue essa estrada e entra na primeira floresta; mas lá, não mais vereda batida [sem estrada]; um dédalo inextricável no meio do qual se perde; a claridade do Sol desapareceu sob o espesso maciço das árvores; ele erra sem saber para onde vai; enfim, depois de fadigas extraordinárias chega aos confins da floresta, mas abatido de fadiga, rasgado pelos espinhos, machucado pelos calhaus. Lá, reencontra a estrada e a luz, e prossegue seu caminho, procurando se curar de suas feridas.
Mais longe, encontra uma segunda floresta, onde o esperam as mesmas dificuldades; mas já tem um pouco de experiência e dela sai menos contundido.
Numa, encontra um lenhador que lhe indica a direção que deve seguir e impede-o de se perder.
A cada nova travessia a sua habilidade aumenta, se bem que os obstáculos são mais e mais facilmente superados; seguro de reencontrar a bela estrada na saída, essa confiança o sustenta; depois sabe se orientar para encontrá-la mais facilmente.
A estrada termina no cume de uma montanha muito alta, de onde avista todo o percurso desde o ponto de partida; vê também as diferentes florestas que atravessou e se lembra das vicissitudes que experimentou, mas essa lembrança nada tem de penosa, porque alcançou o objetivo; é como o velho soldado que, na calma do lar doméstico, se lembra das batalhas às quais assistiu.
Essas florestas disseminadas sobre a estrada são para ele como pontos negros sobre uma condecoração branca; ele diz a si mesmo:
- “Quando estava nessas florestas, nas primeiras sobretudo, como me pareciam longas para atravessar! Parecia-me que não chegaria mais ao fim; tudo me parecia gigantesco e intransponível ao meu redor. E quando penso que, sem esse bravo lenhador que me recolocou no bom caminho, talvez estaria ali ainda! Agora que considero essas mesmas florestas, do ponto de vista onde estou, como me parecem pequenas! Parece-me que, com um passo, teria podido transpô-las; bem mais, a minha vista as penetra e nelas distingo os menores detalhes; vejo até as faltas que cometi.”
Então, um velho lhe diz:
- Meu filho, eis-te no fim da viagem, mas um repouso indefinido te causaria logo um tédio mortal, e ficarias a lamentar as vicissitudes que experimentaste e que deram atividade aos teus membros e ao teu Espírito. Vês daqui um grande número de viajores sobre a estrada que percorreste, e que, como tu, correm risco de se perder no caminho; tens a experiência, não temes mais nada; vai ao seu encontro e, pelos teus conselhos, trata de guiá-los, a fim de que cheguem mais cedo.
- Vou com alegria, redargüe [responde] nosso homem; mas, ajuntou, por que não há uma estrada direta do ponto de partida até aqui? Isso pouparia, aos viajores, passar por essas abomináveis florestas.
- Meu filho, replica o velho, olha bem nelas e verás que muitos evitam um certo número delas; são aqueles que, tendo adquirido mais cedo a experiência necessária, sabem tomar um caminho mais direto e mais curto para chegar; mas essa experiência é o fruto do trabalho que as primeiras travessias necessitaram, de tal sorte que não chegam aqui senão em razão de seu mérito. Que saberias, tu mesmo, se por ali não tivesses passado? A atividade que deveste desdobrar, os recursos de imaginação que te foram necessários para te traçar um caminho, aumentaram os teus conhecimentos e desenvolveram a tua inteligência; sem isso, serias novato como em tua partida. E depois, procurando tirar-te dos embaraços, tu mesmo contribuíste para a melhoria das florestas que atravessaste; o que fizeste é pouca coisa, imperceptível; mas pensa nos milhares de viajores que o fazem também, e que, trabalhando todos para eles, trabalham, sem disso desconfiarem, para o bem comum. Não é justo que recebam o salário de seu trabalho pelo repouso do qual gozam aqui? Que direito teriam a este repouso se nada tivessem feito?
- Meu pai, refete o viajor, numa dessas florestas, encontrei um homem que me disse: “Sobre a borda há um imenso abismo que é preciso transpor de um salto; mas, sobre mil, apenas um consegue; todos os outros lhe caem no fundo, numa fornalha ardente e estão perdidos sem retorno. Esse abismo eu nunca vi.”
- Meu filho, é que não existe, de outro modo isso seria uma armadilha abominável estendida a todos os viajores que viessem em minha casa. Eu bem sei que lhes é preciso superar as dificuldades, mas sei também que, cedo ou tarde, as superarão; se tivesse criado impossibilidades para um único, sabendo que deveria sucumbir, teria sido cruel, e com mais forte razão se o fizera para o grande número. Esse abismo é uma alegoria da qual vais ver a explicação. Olha sobre a estrada, nos intervalos das florestas; entre os viajores, vês os que caminham lentamente, com um ar feliz, vês esses amigos que se perderam de vista nos labirintos da floresta, como estão felizes em se reencontrarem na saída; mas, ao lado deles, há outros que se arrastam penosamente; são estropiados e imploram a piedade dos que passam, porque sofrem cruelmente das feridas que, por sua falta, fizeram a si mesmos através das sarças; mas disso se curarão, e isso será, para eles, uma lição da qual aproveitarão na nova floresta que terão que atravessar, e de onde sairão menos machucados. O abismo é a figura dos males que sofrem, e dizendo que sobre mil só um o transpõe, esse homem teve razão, porque o número dos imprudentes é muito grande; mas errou dizendo que, uma vez caído dentro, dele não se sai mais; há sempre uma saída para chegar a mim. Vai, meu filho, vai mostrar essa saída àqueles que estão no fundo do abismo; vai sustentar os feridos da estrada e mostra o caminho àqueles que atravessam as florestas.
A estrada é a figura da vida espiritual da alma, sobre o percurso da qual se é mais ou menos feliz; as florestas são as existências corpóreas, onde se trabalha para o seu adiantamento, ao mesmo tempo que para a obra geral;o viajor que chega ao objetivo e que retorna para ajudar aqueles que estão atrasados, é a dos anjos guardiães, missionários de Deus, que encontram a sua felicidade em seu objetivo, mas também na atividade que desdobram para fazerem o bem e obedecerem ao supremo Senhor.

Fonte: KARDEC, Allan. Obras Póstumas.

12 de setembro de 2009

ENSINOS ESPIRITUALISTAS SEÇÃO III

(A intensidade com que a comunicação precedente foi escrita, era fato completamente novo para mim; a pena enchia páginas após páginas traçando minuciosamente os caracteres, assinalando sempre o nome de Deus com letras maiúsculas, paragrafando e deixando uma margem, de sorte que a escrita impressionava a vista com um trabalho perfeito de caligrafia. A mão açoitava, o braço batia e eu tinha consciência de que ondas de força passavam por mim. Terminada a comunicação, fiquei exausto de cansaço, com violenta dor de cabeça na base do cérebro. No dia seguinte perguntei a causa disso; recebi a seguinte resposta, porém muito mais tranqüilamente:)
A vossa dor de cabeça foi à conseqüência da intensidade do poder e da rapidez da escrita; não podemos tratar, sem veemência, de tal assunto, que é de interesse vital para aqueles a quem somos enviados. Quereríamos capacitar-vos da convicção de que é de primeira necessidade obedecer a essas leis inalteráveis, por Deus estabelecidas, leis que violais com risco e perigo.
As guerras são, porém, os resultados da cobiça, que vos excita, as paixões ambiciosas, dominadoras e vingativas. E, que resulta disso? As belas obras de Deus destruídas, os pacíficos esforços, os agradáveis e engenhosos produtos da indústria humana reduzidos ao nada; os santos laços do lar, do parentesco, cortados; milhares de famílias mergulhadas na miséria; rios de sangue derramados sem causa; inúmeras almas arrancadas dos corpos para serem precipitadas na vida espiritual, sem preparo, sem educação, nem purificação. Mau! Tudo mau! A desgraça dimana da Terra, tornando-se miséria. Enquanto não souberdes proceder melhor, a vossa raça só lentamente progredirá, pois lançais, sem cessar, sementes que produzem uma seara de obstáculos contra o nosso trabalho. Tendes muito que retificar para a gestão dos negócios do Estado, e também para a economia social. Quantas coisas há a acrescentar ao pouco que sabeis!
Por exemplo: legislais para as massas, mas ocupai-vos somente com o culpado. A vossa legislação deve punir, mas deve também curar. Recolheis os que julgais loucos, com receio de que prejudiquem os outros. Há poucos anos os torturáveis, enchendo os asilos de desgraçados, cuja única moléstia era não compartilharem das fúteis opiniões dos seus compatriotas, ou dos desgraçados que estavam sob a influência de espíritos não desenvolvidos; houve e ainda há muitos desses. Aprendereis um dia, à vossa custa, que deixar o caminho percorrido nem sempre é provar demência de espírito, e que servir de veículo ao ensinamento espírita não prova desequilíbrio de inteligência. O poder de proclamar a sua missão foi cassado a inúmeros indivíduos. Tem-se falsamente afirmado que temos enchido os hospitais e conduzido os médiuns à loucura, porque homens cegos e ignorantes têm acusado de dementes todos aqueles que se arriscam a proclamar a sua relação conosco e com os nossos ensinos; argumenta-se ser uma prova de demência o estar em comunicação com o mundo espiritual. Por conseqüência, todos quantos o confessam são loucos, devem ser recolhidos. E porque esses ignorantes chegaram, graças a essas asserções falazes, a imprimir o estigma nos médiuns e a encarcerá-los, sobrecarregaramnos, por cúmulo, do pecado que inventaram, de conduzir os médiuns à demência.
Se isso não fosse ignorância, seria blasfêmia. Temos trazido apenas a bênção aos nossos amigos; somos para eles intérpretes da Verdade Divina. Se o homem, pela sua posição perversa e pela vida culpada, atrai Espíritos congêneres, que exageram ainda a sua maldade, a falta deve recair sobre a sua cabeça, pois só fez cultivar a seara que havia semeado; era louco já; louco, desprezando o seu próprio espírito e o corpo; louco, repelindo as santas influências; mas não nos ocupamos disso.
Mais loucos que outros, verdadeiramente, são esses ébrios imbecis que não julgais loucos. Não há, aos olhos do Espírito, mais horroroso espetáculo que o desses antros de maldade e impureza onde os homens maus se reúnem para mergulhar os seus sentidos no esquecimento, para excitar as concupiscências dos seus miseráveis corpos, para oferecer-se, em vítima voluntária, aos mais baixos e piores Espíritos que pairam ao redor deles, os quais acham gozo em fazer viver novamente as suas baixas vidas corpóreas. São antros da mais hedionda degradação, uma mancha na vossa civilização, uma desgraça para a vossa inteligência.
Que entendeis pela expressão: viver novamente as suas baixas vidas?
Esses Espíritos ligados a Terra conservam em grande parte as suas disposições e paixões terrestres; os desejos do corpo não estão extintos, posto que a faculdade de os satisfazer esteja suprimida.
O ébrio conserva a sua antiga sede, mais exagerada, agravada pela impossibilidade de saciar; o desejo não satisfeito queima-o e impele-o a procurar os lugares, cenários dos seus vícios de outrora, a arrastar miseráveis como ele para a completa degradação. A sua existência anterior aparece-lhe diante da vista e ele se desaltera, com feroz satisfação, pelos excessos que os incita a cometer, e assim o seu vício perpetua-se, aumentando a série de pecados e de dores. O estúpido miserável, estimulado por agentes que não pode ver, chafurda-se cada vez mais no lodo. Sua mulher e filhos inocentes têm fome, choram e agonizam, enquanto perto deles adeja e sobre eles se aflige o anjo da guarda, sem força para atingir o culpado, que lhes destrói a vida e o coração. Quando vos dizemos que o Espírito, escravo da Terra, revive a sua vida de excesso nos excessos daqueles que ele é capaz d° conduzir à ruína, apenas apresentamos uma imperfeita imagem.
O remédio é lento, pois se na elevação moral e material da raça, no progresso gradual, nos conhecimentos mais puros e mais exatos, em uma educação adiantada na mais lata extensão do termo.
Esses esforços poderiam então prevenir a obsessão tal como a entendeis?
Poderiam, finalmente; nenhuma outra coisa o poderá, enquanto persistirdes em alimentar ativamente a fonte malévola.
As crianças passam imediatamente a uma esfera elevada?
Não. Não se pode ser dispensado da experiência da vida terrestre. A ausência de contacto assegura um rápido acesso às esferas de purificação; mas a ausência de experiência e de saber impõe um preparo e educação aos Espíritos, cujo encargo especial é dirigir essas tenras almas e suprir o que lhes falta. Não há vantagem em ser retirado da vida terrestre, salvo no caso de mal empregar as ocasiões oportunas, ocasionando grande perda de tempo e retardando o progresso. A alma que mais ganha é a que se consagra à tarefa que lhe é conferida, que trabalha com zelo pelo seu próprio aperfeiçoamento e pelo bem das outras, que ama e serve a Deus, e segue a direção dos seus guias. Essa alma progride rapidamente, tem menos coisas a retificar. Toda vaidade e egoísmo sob qualquer forma que seja, toda inércia e indulgência pessoal embaraçam o progresso. Nada dizemos do vício nem do pecado, nem da recusa obstinada em aprender e ser instruído. Amor e Ciência ajudam a alma. A criança pode ter uma dessas coisas, mas a outra só a obterá pela educação, freqüentemente adquirida ligando-se a um médium e vivendo assim uma nova vida terrestre. Muitas almas de crianças que teriam sido expostas à tentação, a penosas provações, deixam a Terra, sem máculas, ganhando assim em pureza o que perderam em conhecimentos. Mas o espírito que lutou e venceu é o mais nobre; purificado pela provação, sobe à esfera reservada às almas que combateram com êxito. Tal experiência é necessária e, com o fim de consegui-la, inúmeros Espíritos escolhem a volta a esse planeta para obter o que lhes falta, ligando-se a um médium. É preciso a um a cultura das afeições; a outro, o sofrimento e a aflição; a este, a cultura mental, àquele, dominar, limitar as impulsões do espírito e equilibrá-las.
Todos os Espíritos que voltam, exceto os que, como nós, estão encarregados de determinada missão, têm um fim imediato a atingir; associando-se a nós e a vós, adiantam-se, o que é desejo dominante do Espírito. Mais progresso! Mais saber! Mais amor! Até que, arrancado o joio, possa sua alma largar o vôo cada vez mais altívolo para o Supremo.
À volta a Terra não é o único método de progresso?
Não; nem mesmo é o usual. Temos muitas escolas de instrução e não empregamos segunda vez aquela cujo sistema abortou.
(Depois de algumas permutas de idéias relativas ao envoltório e à ocupação do Espírito, interroguei, sem receber informação alguma satisfatória, se o escritor conhecia estados de existência quer superiores ou inferiores ao da encarnação terrestre. Informaram-me que os Espíritos não podiam abranger em seu conjunto a extensão infinita da existência espiritual, e que os seus conhecimentos eram limitados pelo abismo que separa o que se chama esferas de provação ou algumas vezes purgatórios - nos quais a alma se desenvolve, aperfeiçoando-se - e as esferas de contemplação, pelas quais a alma passou, nunca a elas voltando, exceto em raríssimos casos.
Resposta:)
A passagem da mais elevada esfera de provação a mais baixa das esferas de contemplação é uma mudança análoga à que chamais morte. Essa vida de além nos é pouco conhecida, ainda que saibamos que os Bem-aventurados, que aí vivem, têm o poder de nos auxiliar e nas guiar tal como velamos par vós. Por experiência nada sabemos daquilo em que se ocupam, a não ser que uma ciência superior lhes permite melhor compreender a Divina Perfeição, apreender mais exatamente a origem das coisas e de adorar mais de perto o Supremo. Achamo-nos muito distanciados desse estado de bem-aventurança. Temos a nossa tarefa a desempenhar, e nela trabalhando achamos as nossas delícias. Lembrai-vos sem cessar de que os Espíritos falam segundo a experiência e o saber que possuem; alguns, interrogados sobre pontos abstratos, a que respondem conforme as suas capacidades, enganam-se. Não os censureis contudo. Acreditamos estabelecer uma certeza quando dizemos que a Terra é a mais elevada das esferas, às quais sucedem sete esferas de trabalho ativo, depois sete esferas de divina contemplação. Mas cada esfera tem muitos graus. Já vos fizemos entrever como as almas, que se degradam voluntariamente, chegam de queda em queda a tornar a renovação difícil. Preferir sempre o mal ao bem produz o ódio ao que é puro e bom. Os Espíritos desse caráter têm sido usualmente encarnados em corpos nos quais as paixões animais predominavam, sendo a estes submetidos primeiramente e por fim tornando-se seus escravos. Aspirações nobres, desejos de santidade e de pureza, divina energia, tudo é aniquilado, e em vez do Espírito, o corpo reina como soberano, ditando as suas próprias leis, apagando todo o vislumbre moral e intelectual e rodeando a alma de influências e associações de impurezas. O caso é perigoso. Os guias retiram-se assustados, não podem respirar essa atmosfera, mas outros Espíritos os substituem, e, possuídos dos mesmos vícios, fazem reviver as suas existências sensuais e comprazem-se em aviltar o desgraçado de quem se apoderaram. Essa tendência do pecado corporal, persistindo, é uma das mais terríveis conseqüências da voluntária e grosseira transgressão às leis da Natureza. O espírito que vive unicamente para e pelas satisfações materiais, erra, depois da morte do corpo, por toda parte onde o chamam as suas antigas volúpias; faz reviver a sua vida corpórea nos vícios daqueles aos quais atrai ao pecado. Se pudésseis ver os sombrios Espíritos formando multidões, por toda parte onde os viciosos se reúnem, saberíeis alguma coisa dos mistérios do mal. A influência desses vis Espíritos facilita a queda persistente e mostra invencíveis obstáculos àquele que tivesse a veleidade de regressar. Cada ser miserável é o centro de um grupo malfazejo, que apresenta uma energia feroz para o rebaixar ao seu próprio nível.
Tais são os que, despojados dos corpos, gravitam em esferas inferiores à Terra. Eles vivem com quem os tenta, no desespero de satisfazer paixões e apetites inextintos, apesar da perda dos órgãos que, outrora, lhes permitiam gozá-los.
Nessas esferas, eles são entretanto acessíveis às tentativas dos Espíritos missionários, que procuram despertar neles um desejo de melhora. Quando esse desejo surge o Espírito dá o seu primeiro passo para diante, torna-se menos rebelde às santas influências e é protegido pelos seres puros e devotados, cuja missão é socorrer e guiar as almas em perigo.
Tendes entre vós homens ardentes e generosos, cuja missão na vida terrestre é permanecer nos antros de infâmia e de vício, para salvar, ajudar alguns infelizes; e cujo amor e abnegação os coroam de glórias. Assim entre nós há Espíritos dedicados ao trabalho de ajudar os aviltados, os abandonados. Por seus esforços, inúmeros seres se elevam e, salvos da degradação, prosseguem laboriosamente em longa purificação através das esferas de provação. Sabemos pouco a respeito das baixas esferas; sabemos apenas que há linhas de demarcação entre as gradações e as diferentes espécies de vício. Aqueles que desconhecem e recusam aceitar o menor vislumbre vivificante, que se revolvem na impureza e no vício, caem cada vez mais baixo, a tal ponto que perdem a consciência de sua identidade, e são praticamente extintos, no que diz respeito à existência pessoal; é pelo menos o que acreditamos.
Ah! quão opressivo é esse pensamento. Tais casos são raros, atingindo somente a alma que, de propósito deliberado, rejeitou tudo o que é bom e nobre. É isso o pecado até na morte, de que falou Jesus aos seus discípulos. E o pecado de exaltar o animal até à extinção do espiritual, de degradar mesmo o corporal, de reduzir o homem ao nível do mais baixo dos brutos, e assim como o doente é corrompido e esmagado sob indômitas dores, o Espírito é reprimido e perde-se em insondável escuridão. isso o pecado imperdoável; não
porque o Supremo não queira perdoar, mas porque o pecador quer que isso seja assim. Imperdoável porque o perdão é impossível ali onde o pecado é congenial e inacessível a penitencia.
O castigo é sempre a conseqüência mediata ao pecado; não é uma medida arbitrária, mas o resultado inevitável da violação da lei. As conseqüências da transgressão não podem ser evitadas, ainda que pudessem ser disfarçadas pelo remorso, que sugere o desgosto da falta e o desejo de repará-la. Isso é o primeiro passo, depois uma melhor aspiração surge no Espírito, a atmosfera espiritual muda e os bons guias se apresentam prontamente para ajudar a alma que quer lutar. Ela é afastada dos inimigos; remorsos e aflições são consolados. O Espírito torna-se ameno e terno, sensível às influências do bem, e progride. Assim o pecado é expiado, a duração e a amargura do castigo são aliviados. Isso sucede em todos os tempos.
E de acordo com esse princípio que assinalamos a loucura da vossa conduta em face daqueles que transgridem as vossas leis. Se agíssemos do mesmo modo com os culpados, não haveria redenção, e as esferas dos depravados estariam repletas de almas perdidas e arruinadas. Porém Deus é mais sábio e nós somos os seus ministros.
Texto retirado do livro "Ensinos Espiritualistas"seção III.

9 de setembro de 2009

A DIVINDADE DE JESUS

Tentaremos, com este estudo, mostrar que esta questão é importante para nós os Cristãos.
Se tivermos a Jesus como o próprio Deus é-nos difícil seguir seus ensinos, exemplificados em suas ações, pois tudo o que fez não servirá para nós como modelo de como fazer ou agir, visto ter partido de um ser que tudo pode, seria algo inatingível para nós os mortais. Por outro lado, com o conhecimento que vamos adquirindo através de estudos vemos, como iremos demonstrar, uma perfeita consonância com os missionários divinos de religiões não cristãs, e com isto a crença em nossa religião fica bem abalada. E se ao contrário o colocarmos na condição de homem, ficaria muito mais fácil seguir seus exemplos, pois de igual para igual encontraremos forças para aplicar os seus ensinos.
Mas afinal quando Jesus foi considerado Deus? Desde o início do cristianismo? O que pensavam seus discípulos sobre o assunto? O que o povo e Ele mesmo pensava?
Para respondermos estas perguntas, primeiramente, iremos recorrer ao Evangelho.
a) O que o povo pensava
Mateus 16, 13-14: “Tendo chegado à região de Cesaréia de Filipe, Jesus perguntou aos discípulos: Quem dizem por ai as pessoas que é o filho do homem?” Responderam: “Umas dizem que é João Batista, outras que é Elias, outras enfim, que é Jeremias ou alguns dos profetas”.
Mateus 26, 67-68: “Então, cuspiram no seu rosto e cobriram-no de socos. Outros lhe davam bordoadas. E lhe diziam: "Mostra que és profeta, ó Cristo, advinha quem foi que te bateu? "
João 7, 40-41: “Muitos daquela gente que tinham ouvido essas palavras de Jesus afirmavam: "Verdadeiramente ele é o profeta”.
João 9, 17: “Perguntaram ainda ao cego: "Qual é a tua opinião a respeito de quem abriu os olhos?" Respondeu: "É um profeta".
b) O que os discípulos pensavam
Lucas 24, 19 “Jesus de Nazaré foi um profeta, poderoso em obras e palavras diante de Deus e do povo".
Atos 2, 22: “Homens de Israel, escutai o que digo: "Jesus de Nazaré foi o homem credenciado por Deus junto a nós com poderes extraordinários, milagres e prodígios. Bem sabeis as coisas que Deus realizou através dele no meio de vós. "
c) O que dizia Jesus
Lucas 13, 33: “Entretanto devo continuar meu caminho hoje, amanhã e no dia seguinte, porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém".
João 8, 40: “Procurais tirar-me a vida a mim que sou homem, que vos digo a verdade que de Deus ouvi".
Marcos 6, 4-5: “Mas Jesus lhes dizia:" Um profeta só deixa de ser honrado em sua pátria, em sua casa e entre seus parentes. E não podia ali fazer milagre algum". (Argumento que utilizou para justificar porque Ele não conseguia fazer milagres em Nazaré).
Observamos, assim, que o povo e os seus discípulos acreditavam que Jesus era um profeta, o que foi confirmado pelo próprio Jesus.
Na passagem de João 14, 12-13, ele diz: “Eu vos afirmo e esta é a verdade: quem crê em mim fará as obras que eu faço. E fará até maiores, porque vou ao Pai, e o que pedirdes ao Pai em meu nome eu farei, para que o Pai seja glorificado no filho".
Se seguirmos a linha de raciocínio que Ele seja Deus, nós também seríamos deuses, pois segundo suas próprias palavras, poderíamos fazer o que ele fez e até mais. Vemos que não há como considerá-lo Deus.
A base central desta linha de pensamento, que ele era Deus, basicamente vamos encontrá-la em João 10, 30: “Eu e o Pai somos um". Com isto chegaram à conclusão de que se o Pai é Deus e Jesus sendo um com o Pai, por conseguinte também seria Deus. Conclusão digamos apressada e incoerente, pois não pegaram o sentido da frase, apegaram-se à letra. Mas porque não tiveram a mesma linha de pensamento nesta outra passagem de João (17, 20-23): “Não rogo somente por eles, mas também por todos aqueles que hão de crer em mim pela sua palavra. Que todos sejam um! Meu pai, que eles estejam em nós, assim como tu estás em mim e eu em ti. Que sejam um, para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes dei a glória que tu me deste, para que sejam um, como nós somos um: eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitamente unidos, e o mundo conheça que tu me enviaste e que os amaste como tu me amaste". Não seria o caso de dizer então que os discípulos eram deuses?
Em outras passagens, Jesus se coloca na condição de subordinado a Deus, prestando-lhe obediência e cumprindo-lhe a vontade, ora quem é subordinado está sob ordens de alguém que lhe é superior, vejamos:
João 4, 34: “Jesus afirmou: "Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou a levar a cabo a sua obra".
João 5, 19: “Eu vos afirmo e esta é a verdade: o Filho nada pode fazer por si mesmo, a não ser o que vê o Pai fazer".
João 5, 30: “Não posso fazer nada por mim mesmo. Julgo segundo o que ouço; e o meu julgamento é justo, porque não procuro a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou".
João 6, 37-38: “Tudo o que o Pai me dá, virá a mim e não jogarei fora o que vem a mim, porque desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou".
João 7, 28: “Se me amásseis, vos alegraríeis de que eu vá ao Pai, porque o Pai é maior do que eu".
Nessa última passagem, é bem taxativa a superioridade do Pai sobre Jesus. Não há como contestar.
A questão da divindade de Jesus, rejeitada por três concílios, dos quais o mais importante foi o de Antioquia (269) foi, em 325, proclamado pelo de Nicéia. Após a declaração de que Jesus era Deus, vem para encaixá-lo o dogma da Santíssima Trindade. Mas somos levados a crer, que esta trindade nada mais foi que uma cópia da base fundamental de outras religiões, bem mais antigas que o cristianismo. Podemos citar as que constam do Livro “O Redentor” de Edgard Armond:
Brahma, Siva e Vischnu – dos hindus
Osiris, Isis e Orus – dos egípcios
Ea, Istar e Tamus – dos babilônios
Zeus, Demétrio e Dionísio – dos gregos
Orzmud, Arimam e Mitra – dos persas
Voltan, Friga e Dinas – dos celtas
Achamos muito interessante o estudo do Dr. Paul Gibier (O Espiritismo –o faquirismo ocidental) em que ele coloca: “Uma das analogias mais notáveis do catolicismo, não com o Budismo, mas com Bramanismo, encontra-se em uma das encarnações de Vischnu (filho de Deus) sob a forma de Krischna.
Krischna, que alguns autores escreviam Christna ou Kristna, foi concebido “sem pecado”, seu nascimento foi anunciado por profecias numerosas e muito antigas. Sua mãe Devanaguy, o concebeu por obra de um Espírito, que lhe apareceu sob os traços de Vischnu, segunda pessoa da trindade Hindu. Segundo a tradição Hindu e o “Bhagavedagita”, anunciando uma profecia que ele destronaria seu tio, o tirano de Madura, este último mandou encarcerar sua sobrinha Devanaguy, que foi libertada por Vischnu; então o tirano mandou assassinar em todos os seus estados as crianças do sexo masculino nascidas na mesma noite em que Krischna viu a luz (grifo do original). Mas o menino foi salvo por milagre, e, 3500 anos mais ou menos antes de nossa era, ele pregava a sua doutrina. Depois de converter os homens, morreu de morte violenta as margens do Ganges, segundo ordens de Brahma (Deus, o Pai), para realizar a redenção dos homens, como lhes fora prometido.”
Parece que tudo se encaixa na tradição cristã a respeito de Jesus, talvez até fosse necessário, considerando a cultura da época, torná-lo um Deus para que as pessoas pudessem acreditar em seus ensinos, entretanto, achamos, que para os dias de hoje isto poderá causar mais incrédulos, por uma coisa bem simples é que o homem moderno coloca a razão e a lógica com base para acreditar ou não em algo, e agindo assim também em relação à crença religiosa terá uma fé inabalável.
Com relação a Jesus, poderemos afirmar com absoluta certeza que era um ser superior a nós humanos, sem, entretanto, chegar a ser um Deus, principalmente pelos seus ensinos e exemplos de vida, virtudes essas que serão o nosso passaporte para o “Reino dos Céus”, pois somente através dele é que chegaremos ao Pai, conforme suas palavras: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão através de mim”.
Paulo da Silva Neto Sobrinho
Bibliografia:
Novo Testamento, LEB – Edições Loyola, São Paulo, SP, 1984.
O Espiritismo (o faquirismo ocidental), Dr. Paul Gibier, FEB, Brasília, DF, 4ª Edição, 1990.
O Cristianismo: a mensagem esquecida, Herminio C. Miranda, Matão, SP, Casa Editora O Clarim, 1ª Edição, 1988.
Cristianismo e Espiritismo, Léon Denis. Brasília – DF, FEB, 8ª Edição.
O Redentor, Edgard Armond. São Paulo, SP, Editora Aliança, 6ª Edição.

7 de setembro de 2009

PÁTRIA DO EVANGELHO



 
Com a República, atingiu o Brasil a sua maioridade coletiva e as falanges do Infinito, naturalmente, concentraram as suas possibilidades e esforços no desenvolvimento da obra de Ismael no país do Cruzeiro.
Seus maiores eventos puramente políticos não deixaram, no entanto, de ser acompanhados pelos mensageiros do Bem, objetivando a tranqüilidade comum e a evolução geral.
Todavia, com o grande feito de 15 de novembro de 1889, terminamos este escorço, à guisa de história.
Outros, por certo, consultando as razões dos fatos relacionados no tempo, poderão apresentar trabalho mais pormenorizado e melhor, no domínio dos estudos transcendentes do psicólogo e do historiador, onde se emaranham as causas profundas dos menores acontecimentos, englobando as atividades de quantos, ainda encarnados, se encontram em evidência no país e são suscetíveis de apresentar, de futuro, mais amplos esclarecimentos.
Nosso objetivo, trazendo alguns apontamentos à história espiritual do Brasil, foi tão-somente encarecer a excelência da sua missão no planeta, demonstrando, simultaneamente, que cada nação, como cada indivíduo, tem sua tarefa a desempenhar no concerto dos povos. Todas elas têm seus ascendentes no mundo invisível, de onde recebem a seiva espiritual necessária à sua formação e conservação. E um dos fins principais do nosso esforço foi examinar, aos olhos de todos, a necessidade da educação pessoal e coletiva, no desdobramento de todos os trabalhos do país. Porque, a realidade é que o Brasil, na sua situação especialíssima e com o seu patrimônio imenso de riquezas, não poderá insular-se do resto do mundo ou acastelar-se na sua posição de Pátria do Evangelho, embora a época seja de autarquias detestáveis, neste período de decadência e transição de todos os sistemas sociais.
O maior problema é o da educação nacional, para que os filhos das outras terras, necessários e indispensáveis ao progresso econômico da nação, não se sintam dispostos a reviver, no Brasil, as taras de suas antigas organizações e sim, absorvidos no círculo espiritual do país do Evangelho, possam integrar as suas fileiras de fraternidade e evolução.
Apesar da recente filosofia do “bastar-se a si mesmo”, nenhum país do mundo pode viver independente da comunidade internacional. Toda a grandeza material de um povo repousa na regularidade dos fenômenos da troca e todas as guerras, quase sempre, têm origem na desarmonia do comércio entre as nações. No Brasil, a chamada contribuição estrangeira é indispensável; e o único recurso, contra a incursão do elemento nocivo ou ameaçador da instabilidade das instituições brasileiras, é a educação ampla do povo, em cujos labores sagrados deveriam viver todos os programas do bom nacionalismo.
Se muitas escolas existem no Sul, onde somente se ensina o idioma alemão, em muitos casos é porque os professores do Brasil não se decidiram a enfrentar as surpresas da região, a fim de zelarem pelo patrimônio intelectual dos novos operários da pátria.
Se algumas dezenas de agrônomos viram diretamente de Tóquio para os riquíssimos vales do Amazonas, é que os agrônomos brasileiros não se animaram a trabalhar no sertão hostil, receosos do sacrifício. Entretanto, não faltariam espíritos abnegados e corajosos, no seio do povo fraterno que floresce no coração geográfico do mundo, ansiosos por participarem da grande obra construtiva de organização cultural e econômica da terra em que se desenvolvem numa grande tarefa de amor, se os ambientes universitários, com as suas habilitações oficiais, não estivessem abertos somente à aristocracia do ouro. A palavra de um mestre custa uma fortuna, apenas suscetível de ser remunerada pelas famílias mais abastadas e mais favorecidas, e nem sempre nesses ambientes confortáveis se encontram as almas apaixonadas pela luta em prol do progresso comum.
Nesta época de confusão e amargura, quando, com as mais justas razões, se tem, por toda parte, a triste organização do homem econômico da filosofia marxista, que vem destruir todo o patrimônio de tradições dos que lutaram e sofreram no pretérito da humanidade, as medidas de repressão e de segurança devem ser tomadas a bem das coletividades e das instituições, a fim de que uma onda inconsciente de destruição e morticínio não elimine o altar de esperanças da pátria. Que o capitalismo, visando a própria tranqüilidade coletiva, seja chamado pelas administrações ao debate, a incentivar com os seus largos recursos a campanha do livro, do saneamento e do trabalho, em favor da concórdia universal.
Não nos deteremos a falar, depois da República, de quantos se encontram ainda no cenáculo das atividades e dos feitos do país, porquanto semelhante ação de nossa parte constituiria uma intervenção indébita nas iniciativas e empreendimentos dos “vivos”.
Jesus, que é a suprema personificação de toda a misericórdia e de toda a justiça, auxiliará a cada qual, no desdobramento dos seus esforços para glória da nacionalidade.
O Brasil está cheio de ideologias novas, refletindo a paisagem do século; cabe aos bons operários do Evangelho concentrar suas atividades no esclarecimento das almas e na educação dos espíritos.
Todas as fórmulas humanas, dentro das concepções que exprimam, por mais alevantadas que se afigurem, são perecíveis e transitórias. A política sofrerá, no curso dos séculos, as alternativas do direito da força e da força do direito, até que o planeta possa atingir relativa perfeição social, com a cultura generalizada. A Ciência, como a Filosofia e as escolas sectárias, viverá entre dúvidas e vacilações, assentando seus feitos na areia instável das convenções humanas. Só o legítimo ideal cristão, reconhecendo que o reino de Deus ainda não é deste mundo, poderá, com a sua esperança e o seu exemplo, espiritualizar o ser humano, espalhando com os seus labores e sacrifícios as sementes produtivas na construção da sociedade do futuro.
Conhecedores dessa grande verdade, supliquemos a Jesus se digne derramar do orvalho de seu amor sobre os vermes da Terra.
Que as falanges de Ismael possam, aliadas a quantos se desvelam pela sua obra divina, reunir o material disperso e que a Pátria do Evangelho mais ascenda e avulte no concerto dos povos, irradiando a paz e a fraternidade que alicerçam, indestrutivelmente, todas as tradições e todas as glórias do Brasil.
Livro – “Brasil – Coração do Mundo – Pátria do Evangelho”n - Espírito: Humberto de Campos
Psicografia: Francisco C. Xavier

1 de setembro de 2009

O PROBLEMA DA CREMAÇÃO

Observada do plano espiritual a celeuma no Rio de Janeiro, em torno da incineração dos cadáveres, a ser estabelecida por lei, reparamos que o assunto não é realmente para rir.
De um lado, temos os legisladores preocupados com a terra dos cemitérios, e, de outro, as autoridades eclesiásticas lançando a excomunhão sobre os responsáveis pelo movimento inovador. Entre os atores da peça, vemos os defuntos de amanhã, sorridentes e bem humorados, apreciando a pugna entre a igreja e a edilidade carioca.
Aqueles, como nós, que já atravessaram a garganta da sombra, seguem a novidade, com a apreensão das pessoas mais velhas, à frente de um parque de crianças.
O problema da cremação do corpo, realmente, deveria merecer mais demorado estudo nos gabinetes legislativos.
Há muito caminho por andar, antes que o homem comum se beneficie com a verdadeira morte.
A cessação dos movimentos do corpo nem sempre é o fim do expressivo transe.
O túmulo é uma passagem especial, a cujas portas muitos dormem, por tempo indeterminado, criando forças para atravessa-la com o preciso valor.
Morrer não é libertar-se facilmente.
Para quem varou a existência na Terra entre abstinência e sacrifícios, a arte de dizer adeus é alguma coisa da felicidade ansiosamente saboreada pelo Espírito, mas para o comum dos mortais, afeitos aos “comes e bebes” de cada dia, para os senhores da posse física, para os campeões do conforto material e para os exemplares felizes do prazer humano, na mocidade ou na madureza, a cadaverização não é serviço de algumas horas... Demanda tempo, esforço, auxílio e boa vontade.
Por trás da máscara mortuária, muitas vezes, esconde-se a alma, inquieta e dolorida, sob estranhas indagações, na vigília torturada ou no sono repleto de angústia.
Para semelhantes viajores da grande jornada, a cremação imediata do comboio fisiológico será pesadelo terrível e doloroso.
Eis porque, se pudéssemos, pediríamos tempo para os mortos.
Se a lei divina fornece um prazo de nove meses para que a alma possa nascer ou renascer no mundo com a dignidade necessária, e se a legislação humana já favorece os empregados com o benefício do aviso prévio, porque razão o morto deve ser reduzido à cinza com a carne ainda quente?
Sabemos que há cadáveres, dos quais, enquanto na Terra, estimaríamos a urgente separação, entretanto, que mal poderá trazer aos vivos o defunto inofensivo, sem qualquer personalidade nos cartórios? Não seria justo conferir algumas semanas de preparação e refazimento ao peregrino das sombras, para a desistência voluntária dos enigmas que o afligem na retaguarda?
Acreditamos que ainda existe bastante solo no Brasil e admitimos, por isso, que não necessitamos copiar costumes, em pleno desacordo com a nossa feição espiritual.
Meditando na pungente situação dos recém-desencarnados, no Rio, observo quão longe vai o tempo em que os mortos eram embalados com a doce frase latina – “Requiescant in pace”.
Não basta agora o enterro pacífico! É imprescindível a apressada desintegração dos despojos! E se a lei não for suavizada com a quarentena de repouso e compaixão para os desencarnados, na laje fria de algum necrotério acolhedor, resta aos mortos a esperança de que os saltitantes conselheiros da cremação de hoje sejam amanhã igualmente torrados.
Irmão X
Psicografia em Reunião Pública. Data – 26-7-1952.
Local – Centro Espírita Luiz Gonzaga, na cidade de Pedro Leopoldo, Minas.
(De: “Taça de Luz” (Espíritos Diversos), de Francisco Cândido Xavier)