3 de novembro de 2009

FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO

Em dia com o Espiritismo – Educação e Instrução

Ambos os conceitos se relacionam, mas não significam a mesma coisa. Um é amplo, abrangente, outro é restritivo, específico. Educar é disponibilizar ao ser humano possibilidades ao seu pleno desenvolvimento físico, intelectual, psíquico, psicológico, moral, social, estético e ecológico. Instruir é transmitir/adquirir conhecimento, que pode ser realizado por meio do ensino, ainda que existam outras formas de instrução: observação, imitação, repetição, inspiração etc.
Enquanto a educação é entendida como processo e resultado, que jamais desconsidera a premissa de o homem se transformar em pessoa melhor, a instrução se limita à transferência e à assimilação de conhecimentos ou habilidades, direcionados para o aprendizado cognitivo e/ou formação de talentos. Dessa forma, a educação “consiste na arte de formar os caracteres”,1 como afirma Allan Kardec; já a instrução é mais útil ao exercício profissional. O emprego das duas palavras como sinônimo é equívoco comum que leva a outros, como confundir processo educativo com processo docente.
Ao analisar o assunto Emmanuel considera
[...] a necessidade imprescritível da educação para todos os seres. Lembremo-nos de que o Eterno Benfeitor, em sua lição verbal, fixou na forma imperativa a advertência a que nos referimos: “Brilhe vossa luz”. Isso quer dizer que o potencial de luz do nosso espírito deve fulgir em sua grandeza plena. E semelhante feito somente poderá ser atingido pela educação que nos propicie o justo burilamento. Mas a educação, com o cultivo da inteligência e com o aperfeiçoamento do campo íntimo, em exaltação de conhecimento e bondade, saber e virtude, não será conseguida tão-só à força de instrução, que se imponha de fora para dentro [...].2
Tais proposições destacam a importância de realizar reflexão mais aprofundada a respeito dos estudos regulares que ocorrem, usualmente, na Casa Espírita. A resposta a duas indagações simples, honestas e despretensiosas fornece boa avaliação: prioriza-se mais a forma de transmissão do conteúdo doutrinário (processo docente) do que a educação espírita, propriamente dita? O estudo espírita tem conduzido o estudante para querer se transformar em pessoa melhor?
É óbvio que a instrução espírita deva ser ensinada, sobretudo no que se refere aos ensinos da Codificação, e métodos para facilitar a aprendizagem devam ser utilizados como mero apoio didático. É certo que o estudo espírita deve ser priorizado nas instituições espíritas, principalmente porque na época atual os valores morais e éticos são pouco considerados, amplamente questionados pela sociedade hedonista. É imperioso considerar, contudo, que o espírita deve ser preparado para conhecer os postulados da Doutrina, mas, acima de tudo, ele precisa ser capaz de desenvolver e exemplificar características do homem de bem, no dia a dia da existência.
Atento ao assunto, Kardec escreveu em seu admirável livro Plano Proposto para a Melhoria da Educação Pública, em 1828, quando ainda se encontrava investido da personalidade professor Hippolyte Léon Denizard Rivail:
Todos falam da importância da educação, mas esta palavra é, para a maioria, de um significado excessivamente impreciso [...]. Em geral nós a vemos somente no sistema de estudos, e este equívoco é uma das principais causas do pouco progresso que ela obteve. [...] A educação é a arte de formar os homens, isto é, a arte de neles fazer surgir os germes das virtudes e reprimir os do vício; de desenvolver sua inteligência e dar-lhes a instrução adequada às suas necessidades [...]. Em uma palavra, o objetivo da educação consiste no desenvolvimento simultâneo das faculdades morais, físicas e intelectuais. [...]3
O tema educação versus instrução tem sido palco de férteis discussões e reforma do sistema educativo em diferentes nações. Neste sentido, o francês Jacques Delors apresentou em 1996, quando ocupava o cargo de presidente da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, da Unesco, importante relatório denominado Educação, um tesouro a descobrir. Em razão do grande impacto provocado pelo Relatório Delors, como é conhecido, ele não deve ser ignorado pelo educador moderno. Neste documento são expostos e analisados os Quatro pilares da educação moderna que, como esclarece a confreira Sandra Borba, é:
[...] rico material para as reflexões tão necessárias em momentos tão graves como os que vivemos, em que se impõe a urgência de uma educação para todos, comprometida com o bem-estar sociomoral de todos os habitantes da Terra. Temas importantes são tratados de modo objetivo e em fácil linguagem, como um exercício de espalhar luz, semear ideias e relatar fatos capazes de fundamentar as propostas ali contidas, nos velhos ideais da igualdade e da solidariedade humanas. [...]4

Os Quatro Pilares da Educação Moderna são:5
1. Aprender a conhecer: visa menos aquisição de um repertório de saberes codificados e mais domínio dos próprios instrumentos do conhecimento, considerados meio e finalidade da vida humana.
2. Aprender a fazer: embora mais relacionado à questão da formação profissional, este pilar propõe que não basta ensinar alguém a realizar uma tarefa específica nem ser reduzida a simples transmissão de práticas mais ou menos rotineiras, mas que a aprendizagem deve evoluir, melhorando o homem como ser integral.
3. Aprender a conviver: este aprendizado representa, hoje, um dos maiores desafios da educação, quando se considera os conflitos e o extraordinário potencial de autodestruição, criados pela Humanidade, amplamente acelerados no século passado.
Implica em construir uma identidade própria e cultural, situar-se com os outros seres compartilhando experiências e desenvolvendo responsabilidades sociais. As experiências sociais nos facultam o acesso ao saber, ao fazer, ao viver em conjunto, ao crescer em todas as nossas potencialidades. [...]6
4. Aprender a ser: a educação deve contribuir para o desenvolvimento total da pessoa – espírito e corpo, inteligência, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade pessoal e espiritualidade.

Sem qualquer sombra de dúvida é o mais importante entre todos os princípios. Ressalta a necessidade de superação das visões dualistas sobre o homem, das visões fragmentadas acerca da educação, fruto das limitações, dos preconceitos, das más paixões, da ignorância e do orgulho que lhe são próprios. Contempla a adoção da concepção integral do ser humano [...].7
O Relatório Delors não deve surpreender os espíritas esclarecidos, uma vez que o Espiritismo valoriza as conquistas da inteligência, indica a necessidade de uma prática profissional ética, mas, sobretudo, enfatiza a necessidade do desenvolvimento moral do ser humano, que, agora, está despertando o verdadeiro interesse dos educadores e adquirindo força para modificar processos e métodos educacionais, tendo em vista os desafios presentes no mundo.
Sem a educação moral, ou educação moral de superfície, dificilmente o indivíduo se transforma em pessoa de bem, condição que, necessariamente, deve ser enfatizada nos estudos doutrinários da Casa Espírita. Daí o Codificador analisar com a lucidez que lhe era própria:
[...] Quando se pensa na grande quantidade de indivíduos que todos os dias são lançados na torrente da população, sem princípios, sem freio e entregues a seus próprios instintos, serão de admirar as consequências desastrosas que daí resultam? Quando essa arte [educação moral] for conhecida, compreendida e praticada, o homem terá no mundo hábitos de ordem e de previdência para consigo mesmo e para com os seus, de respeito a tudo o que é respeitável, hábitos que lhe permitirão atravessar com menos dificuldade os dias ruins que não pode evitar. [...]8

Marta Antunes Moura
Reformador Novembro2009

Referências:
1KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. de Evandro Noleto Bezerra. Edição Comemorativa do Sesquicentenário. Rio de Janeiro: FEB, 2007. Comentário de Kardec à questão 685a.
2XAVIER, Francisco C. Pensamento e vida. Pelo Espírito Emmanuel. 18. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Cap. 5, p. 27-28.
3RIVAIL, Hippolyte Léon Denizard. Plano proposto para a melhoria da educação pública. Trad. de Albertina Escudeiro Sêco. Rio de Janeiro: Edições Léon Denis, 2005. p. 11-12.
4PEREIRA, Sandra Maria Borba. Reflexões pedagógicas à luz do evangelho. Curitiba: Federação Espírita do Paraná, 2009. Cap. 2, p. 39.
6PEREIRA, Sandra Maria Borba. Op. cit., p. 43.
7______.______. p. 44.
8KARDEC, Allan. Op. cit., comentário de Kardec à questão 685a.





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