9 de janeiro de 2010

EM HOMENAGEM AOS 148 ANOS DE NASCIMENTO DE ERNESTO BOZZANO

Tomo-o ao livro intitulado Messages from the Unseen. Trata-se de uma santa mãe que se comunica por intermédio de sua filha. Orna a brochura o retrato da morta, cujos traços angélicos se harmonizam de modo muito sugestivo com o conteúdo das mensa-gens, das quais se exala o perfume celeste de uma bela alma, em suprema comunhão de amor com todos os seres do Universo.

É tão espontânea, tão natural a forma em que são ditadas as mensagens, que sugere aos que as lêem a intuitiva certeza da origem, autenticamente transcendental, donde promanam.

Na primeira, a morta exprime a sua viva alegria por sentir-se, enfim, liberta do corpo.

Dirige-se, depois, ao marido, nos termos seguintes:

“Acho-me, neste momento, contigo, bem perto de ti e dos meus filhos. Varre da mente essa idéia de que me encontro muito longe do meio onde vivi. Podes consultar-me sobre tudo o que te apraza, com mais facilidade do que antes. Estarei sempre em relação com todos vós; não vos deixarei um só ins-tante, até ao dia em que vos der as boas-vindas à passagem do grande rio. Possa essa passagem ser para todos tão suave quanto o foi para mim. Não me lembro de coisa alguma con-cernente à travessia.

Devo ter dormido longo tempo, se bem não conserve disso nenhuma recordação. Mas, quando abri os olhos, achei-me curada miraculosamente. Vi-me tal como era no curso dos melhores anos da minha mocidade, porém, infinitamente mais exuberante de vida, mais lúcida de espírito, mais ditosa. O extenso período da minha enfermidade me pareceu um mau sonho, do qual por fim despertara, para volver à afeição das pessoas que me são caras e que me assistiram com tanta abnegação. Sentia-me na posse de toda a rica experiência adquirida durante a minha passagem através da existência ter-restre...”

Na segunda mensagem, volta à circunstância da crise da morte, dizendo:

“Ignoro o que experimentam os outros na travessia do grande ribeiro que separa o mundo espiritual do mundo terreno; a minha experiência se resume num despertar maravilhoso que, ainda agora, me enche de extática alegria. Não temais a morte; não há o que temer; todas as penas, todas as dores, tudo o que há de feio na grande crise, pertence ao seu lado físico; do outro lado, há o amor – o Divino Amor – combinado com a glória inexprimível do despertar espiritual. Quando despertei, vi-me cercada pela assembléia de todos os que eu amara na Terra. Via, em torno de mim, os semblantes de todas as pessoas queridas que eu conhecera nas diferentes épocas da vida, a partir da mais tenra infância, pessoas essas que, na sua maioria, tinham sido, havia muitos anos, ar-rancadas à minha afeição. Ao mesmo tempo, ressoavam no ar maravilhosos acordes musicais, literalmente celestes, que eu escutava extasiada. No meu trespasse, não houve mudanças bruscas; adormeci e despertei, pouco a pouco, para uma vida em que se tem uma consciência mais vasta de si mesmo e se sabe muito bem estar curado de todas as enfermidades e livre, livre para sempre do meu pobre corpo envelhecido, que durante tão largo tempo me pesara sobre o Espírito qual geena. Como exprimir, pela palavra, o que esta revelação significava para mim?

Só os que, como eu, sofreram longamente, aguardando com ansiedade a liberação, se acham em condições de o conceber. Sinto-me perfeitamente bem, exuberante de vitalidade, rejuvenescida. Quando, ao despertar, respondi às saudações de boas-vindas de tantas pessoas queridas, que me tinham vindo receber, sabia que não sonhava, que efetivamente havia entrado no meio espiritual; sabia que estava morta.

“Morta”! esta palavra é um contra-senso! Nunca faleis de mim como de uma pessoa morta. Estou viva, com uma vitalidade que jamais experimentara, nem sonhara, na posse de novas faculdades, de novas energias, com um poder de amar e de ser feliz dez vezes mais forte do que antes. Tudo isto me revela o grande fato de que a existência, nestas esferas, deve constituir uma alegria permanente. Para alcançar tal meta, valia bem a pena de viver uma vida de lutas e de sofrimentos. Presentemente me parece que vivi na Terra uma existência de sonho; somente esta é, com efeito, vida real; aquela era uma sombra de vida. Só vós outros continuais a ser para mim uma realidade da existência terrena; o amado companheiro de minha vida e meus filhos constituem o laço único que me prende ainda ao mundo dos vivos.

No paraíso, onde me acho, reinam o perfeito amor e a harmonia universal, a se manifestarem numa glória de luz radiosa, vibrante de energias vitais, que enchem a alma de sentimentos agradáveis e de suprema alegria. Em o nosso meio, os pensamentos substituem a palavra; eles não só vibram em uníssono com as almas, como revestem cores admiráveis e se transformam em sons muito harmoniosos, o que faz ouçamos ressoar em torno de nós uma sinfonia de acordes musicais sempre mais e mais maravilhosos, de uma beleza de gradações infinitas.

... Desejo ainda falar-vos da maravilhosa música que me acolheu, à minha entrada no mundo espiritual, experiência que ultrapassa tudo o que conheci na Terra. Não era eu a única a ouvi-la; a maioria dos Espíritos que se tinham reunido para me receber a ouviram e dela gozaram comigo. Era uma série gloriosa de acordes musicais que pareciam vir de um instrumento central, de um órgão gigantesco. Espalhavam-se e vibravam no espaço, em ondas de harmonias celestes, que pareciam elevar-se, até se fundirem em Deus. Era tão possante essa sinfonia, tão grandiosa, tão penetrante, que se diria dever o Universo inteiro ouvi-la. E, no entanto, ao escutá-la, eu tinha a intuição de que aqueles acordes ressoavam só para mim, que eles me chegavam como uma voz que se dirigia à minha alma, revelando-me a natureza íntima e os segredos maravilhosos do meu ser e me ensinando que no mundo espiritual a música é o veículo revelador das grandes verdades cósmicas... Se me perguntásseis onde estava o instrumento musical, donde vinha aquela música, quem era o músico, não saberia responder. Ela se fez ouvir de repente, sem que ninguém a houvesse pedido. Sei apenas que representa, com relação a mim, o primeiro passo para a iniciação nas maravilhas da esfera espiritual que tive a dita de alcançar...

Um dos grandes atrativos desta esfera consiste no fato de haver alguns lados da sua configuração que são invariáveis, havendo, porém, ao mesmo tempo, nela uma espécie de configuração particular superposta – se assim se pode dizer – que é, ao contrário, muito variável. É que todos possuímos faculdades criadoras, que atuam perpetuamente sobre o meio imediato onde existimos. Segue-se que toda variação em a nossa maneira de sentir e de pensar acarreta variação correspondente no meio que nos cerca. As nossas vestes são também criações do nosso pensamento e constituídas de elementos tirados do meio onde existimos. Ainda não aprendi exatamente o processo pelo qual se opera o milagre, mas o fato é que essas manifestações exteriores do nosso pensamento traduzem as disposições interiores do nosso espírito. Resulta daí que, para os Espíritos existentes de há muito neste meio, as vestes constituem um símbolo infalível, que lhes revela o valor moral intrínseco...

Embora a natureza deste mundo difira enormemente da Terra, os dois mundos se assemelham, com a diferença, porém de que o mundo espiritual é infinitamente mais apurado, mais sublime, mais etéreo: eis tudo.

Coisa singular! conquanto, à minha chegada no mundo espiritual, tudo o que nele existe me haja parecido tão maravilhoso, experimentei logo a sensação de me encontrar num meio que me era familiar; ou, mais precisamente, de me encontrar outra vez num meio que não era novo para mim. Exprimi esta impressão aos meus companheiros espirituais e eles então me informaram de que eu recuperaria gradualmente a lembrança de acontecimentos pessoais que se estendem muito para além da minha última existência terrestre, abran-gendo recordações de um tempo em que habitei o mundo espiritual, que é a nossa verdadeira morada. Começo, com efeito, a lembrar-me... Não desejo entrar em longa dissertação sobre este tema, mas, bom é diga o que daí resulta para mim a tal respeito. É que meus filhos, assim como outros Espíritos com os quais tenho tido ensejo de falar deste assunto, me informaram que se lembravam claramente de todas as existências que viveram no planeta Terra. Eu mesma principio a recordar-me das fases de existências encarnadas, anteriores à que acabei ultimamente. Apenas, pelo que me toca, não poderia dizer se essas recordações se referem a vidas passadas na Terra ou em outros planetas do Universo. Do que sei com toda a certeza é que me achava revestida de um corpo muito semelhante ao corpo velho que acabo de deixar.”

No caso presente, assiste-se à passagem de uma bela alma para o meio espiritual, alma que, pela “lei de afinidade”, gravita para uma esfera elevada do meio “astral”. Concebe-se então que as cir-cunstâncias do seu trespasse sejam um pouco diferentes daquelas pelas quais passa a maioria dos outros Espíritos que desencarnam.

Segue-se que, em a narrativa de que se trata, nenhuma referência se encontra a duas circunstâncias relevantes das precedentes experiências análogas. A primeira consiste no detalhe de os Espíritos não se aperceberem de que estão mortos; a outra consiste no fenômeno da “visão panorâmica” de todos os aconteci-mentos pelos quais se tenha passado – fenômeno, ou “prova” quase infalível, na crise da morte, para as almas que desencarnam em condições normais de espiritualidade. Vê-se, no caso com que nos ocupamos, que a personalidade que se comunica refere haver despertado sabendo perfeitamente que estava morta e se achava no mundo espiritual, ao passo que não fala de uma irrupção geral de lembranças na sua consciência, nem durante a agonia, nem após o despertar.

Afora isso, a sua descrição concorda, em todos os detalhes, com as outras narrativas do mesmo gênero. Nota-se, com efeito, que ela passa por uma fase de sono reparador que, no que lhe diz respeito, se combina, sem solução de continuidade, com o sono da morte, de maneira a lhe poupar os estados de ansiedade e de confusão, inerentes à crise suprema. Observa-se, além disso, que é acolhida no mundo espiritual pelos Espíritos dos defuntos a quem amou, quando viva. Finalmente, ela se acha de novo em forma humana no mundo espiritual.

Notemos também haver dito que, nesse mundo, os Espíritos conversam entre si por meio da transmissão dos pensamentos; que o pensamento e a vontade espirituais constituem forças criadoras. A propósito desta última circunstância, cumpre-me assinalar um detalhe secundário, que concorda perfeitamente com o que relatam os outros Espíritos que se comunicam com os vivos: é que a paisagem “astral” se compõe de duas séries de objetivações do pensamento, bem distinta uma da outra. A primeira é permanente e imutável, por ser a objetivação do pensamento e da vontade de entidades espirituais muito elevadas, prepostas ao governo das esferas espirituais inferiores; a outra é, ao contrário, transitória e muito mutável; seria a objetivação do pensamento e da vontade de cada entidade desencarnada, criadora do seu próprio meio imedia-to.

Do ponto de vista das informações concernentes a detalhes que só raramente se dão no período inicial da existência espiritual, é muito de notar-se que, no caso que nos ocupa, o Espírito autor da mensagem fala de duas circunstâncias deste gênero: a de haver percebido, logo após o seu despertar, uma onda de “música transcendental” e a de não haver tardado a experimentar a sensação do “já visto”, a propósito do meio espiritual em que se encontrava e em que pensava achar-se pela primeira vez.

A análise comparada, aplicada a um número adequado de “revelações” desta espécie, demonstra doravante que as circunstâncias de que se trata constituem uma prova da elevação espiritual do desencarnado que as experimenta no curso do período inicial que se segue à crise da morte.

No que concerne à “música transcendental”, farei notar, primeiramente, que este fenômeno, às vezes, se produz no leito de morte de enfermos espiritualmente elevados. Neste caso, acontece muito freqüentemente que alguns dos assistentes percebem, ao mesmo tempo que o moribundo, a manifestação supranormal; porém, raríssimo é que toda gente a ouça. Ora, é de considerar-se que, no caso a que nos referimos, a personalidade que se comunica diz que “a maioria dos Espíritos que se tinham reunido para recebê-la percebiam a aludida música, da qual gozavam deliciosamente, ao mesmo tempo que ela”, o que subentende que, entre os Espíritos em questão, alguns se contavam que não a percebiam, ou, em outros termos, que havia entre eles Espíritos ainda não bastante evoluídos para chegar a percebê-la. Forçoso é se deduza daí que a tonalidade vibratória de seus “corpos etéreos” não estava suficientemente apurada para sintonizar-se com a tonalidade vibratória daqueles acordes musicais muito elevados. A esse respeito, importa observar que os Espíritos que se comunicam mostram-se unânimes em afirmar que, no meio espiritual, os acordes musicais apresentam um valor psíquico-construtivo de primeira ordem, que corresponde, de modo impressionante, a uma das nossas mais importantes generalizações científicas, segundo a qual tudo o que o Universo contém parece poder ser reduzido a um múltiplo ou submúltiplo de uma grande lei misteriosa: a lei do “ritmo”, que, em última análise, reduziria todo o Universo – matéria e espírito – a um fenômeno de “vibrações”, donde a profunda intuição dos filósofos orientais, quando dizem que, no fenômeno do “movimento”, assistimos à manifestação imanente de um atributo de Deus. Ora, os acordes musicais podem ser reduzidos, em última análise, a uma combinação e a uma sucessão de “vibrações”, que se harmonizam entre si. Por outro lado, no fenômeno “vibratório” se desenha um mistério primordial, destinado a reger o Universo inteiro. Segue-se que se chega facilmente a conceber o grande interesse espiritual e construtor que os acordes musicais deveriam apresentar, num ciclo de existência puramente mental, qual a dos Espíritos desencarnados.

Vou agora assinalar, nalgumas linhas, a sensação do “já visto”, que a personalidade autora da mensagem experimentou – sensação que subentende a teoria das “vidas sucessivas”, isto é, a hipótese “reencarnacionista”. Sabe-se que é o único ponto importante em que se depara com um desacordo parcial nas mensagens dos Espíritos que se comunicam: entre os povos latinos, eles afirmam constantemente a realidade das vidas sucessivas, ao passo que, entre os povos anglo-saxões, estão em desacordo, na proporção de dois terços que negam mais ou menos claramente esta forma evolutiva do ser humano, e de um terço que a afirma, de modo mais ou menos categórico. Não esqueçamos, com efeito, que os povos anglo-saxões experimentam uma aversão de raça, por assim dizer, contra a solução reencarnacionista do mistério do ser. Entretanto, conforme já o fiz notar em outras obras, este contraste de opiniões, relativamente a um problema insolúvel para os que o discutem – e, por conseguinte, essencialmente metafísico – nada significa, pois que os próprios Espíritos reconhecem que tudo ignoram a esse respeito e julgam do assunto segundo suas mesmas aspirações pessoais. Declaram, ao demais, que uma espécie de “segunda morte” se verifica nas esferas espirituais, precisamente como se morre no mundo dos vivos, isto é, quando um Espírito tem chegado à maturidade espiritual, adormece e desaparece de seu meio, sem que os outros saibam o que foi feito dele. São, pois, levados, como nós, a fazer, sobre esse ponto, induções muito diferentes. Eis em que termos fala a respeito o Espírito Jorge Dawson, no livro da Sra. Dawson Scott, From Four who are Dead (pág. 126):

“Nossa existência na mesma esfera espiritual pode prolongar-se por muito tempo. Todavia, meu pai e minha mãe já deixaram o meio onde me encontro e penso que não tardarei a segui-los. Suponho que eles partiram porque a evolução espiritual de ambos atingira o grau máximo conciliável com a existência em nossa esfera.

Sra. Dawson Scott – Ignoras para onde eles foram?

O Espírito – Imagino que a razão por que se nos tornaram invisíveis é terem seus corpos espirituais atingido o grau máximo de purificação, conciliável com as condições da nossa esfera de existência. Em outros termos: imagino que o fato é devido às minhas condições, que ainda não chegaram ao necessário grau de purificação.

Sra. Dawson Scott – Qual será a finalidade dessa longa e lenta evolução?

O Espírito – Uns pensam a este respeito de uma maneira, outros pensam diferentemente. Por mim, renuncio a essas especulações e vivo ditoso por entre as alegrias da hora presente.” (págs. 126-127).

Tais são as declarações das entidades que se comunicam, acerca do estado de incerteza em que se encontram, relativamente ao destino que as aguarda, após a crise da “segunda morte”: estado de incerteza absolutamente análogo aos dos vivos, com a diferença de que, no meio espiritual, se tem a certeza da sobrevivência. As opiniões preconcebidas dos Espíritos – pró ou contra a teoria das “vidas sucessivas” – contribuem, provavelmente, para acentuar entre eles o desacordo sobre esse ponto. Com efeito, os que expe-rimentam aversão à teoria impedem, por esse fato, que as lembranças de suas vidas anteriores lhes surjam da memória latente; enquanto que os que pensam favoravelmente à doutrina favorecem, como esse modo de pensar, a emergência de suas recordações, tornando-se ainda mais afirmativos a tal respeito. Em suma, forçoso é ainda concluir-se que, se os Espíritos, em suas comunicações, manifestam opiniões discordantes, relativamente à reencarnação – que continua a ser para eles uma questão metafísica – isso lhes concerne e nada tira ao valor das concordâncias positivas, concretas, indubitáveis, que se comprovam nas informações que eles nos fornecem, com referência ao meio e à existência espirituais. É muito de notar-se, ao mesmo tempo, que tudo contribui para demonstrar que a verdade, acerca das “vidas sucessivas”, deve estar reservada a entidades que existem em condições espirituais muito evolvidas, condições que favoreceriam a emergência espontânea das recordações desta natureza. As condições espirituais da personalidade mediúnica, de quem se trata neste caso, devem justamente ser tais, pelo que ela experimentou a sensação do “já visto”, apenas chegada ao mundo espiritual, sensação seguida logo das primeiras lembranças das existências anteriormente vividas.

Parte do livro A CRISE DA MORTE

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