20 de janeiro de 2010

FAMÍLIA


São as grandes forças da gravitação e do magnetismo que organizam na família a base estrutural de tudo quanto existe. Os astros se movem no espaço em sistemas solares, e os sistemas solares se agrupam em galáxias e aglomerados, que são famílias siderais, regidas por suas estrelas solares. Toda matéria inerte é compacta família de moléculas interligadas. Todo tecido vivo é conjunto de células que se interagem. Tudo o que existe na Natureza integra-se em alguma família de seres ou de coisas. O próprio universo é imensa família, a grande família de Deus.
As famílias se formam no enlace inicial de dois seres, ou de duas coisas, que se atraem pela força natural de um magnetismo irresistível que impele à agregação. Essa conjugação gera núcleos que se desdobram em novos núcleos, multiplicando-se em processos de infindável crescimento.
No seio fecundo das famílias eclode a vida. No turbilhão das nebulosas surgem constelações. Na espessura das sementes guardam-se frutos futuros. Na tessitura dos ninhos aves preparam novas asas para novos vôos. Cardumes vencem correntezas em rios encachoeirados, para a festa de novas procriações.
No recesso dos lares, mães em potencial alimentam nos úteros crianças do amanhã.
Famílias se multiplicam e se sucedem, forjando povos e civilizações, na progressão incessante do porvir.
Nada existe isolado ou vazio no universo. Tudo é comunhão, família.
Famílias reunidas compõem comunidades, e as comunidades se estendem, multifárias, na Natureza. Peixes reúnem-se em cardumes; e vegetais, em florestas. Grãos de areia alongam-se em dunas e praias. Minerais erigem-se em montanhas e pedreiras. Animais juntam-se em manadas, enxames e colmeias.
Gotas de vapor d’água desenham nuvens na atmosfera. Move-se o ar em aragens, lufadas e furacões. Grânulos de terra compactam-se em planícies e planaltos. Fluxos oceânicos produzem correntes e ondas. Cristais de gelo engendram icebergs e calotas. Micróbios ligam-se em colônias, e as estrelas do céu moldam constelações.
Costuma-se definir componentes da família humana os pais, os filhos, seus ancestrais e descendentes, e os colaterais, como primos, sobrinhos, cunhados, genros, sogros, noras, e também, de certo modo, pessoas afins, como padrinhos, madrinhas, padrastos, madrastas, compadres, e amigos íntimos de longa data.
Leis, tradições e usos estabelecem, em cada país, os direitos e deveres nas relações familiares, mas o instinto natural prevalece em toda parte, garantindo a sobrevivência das espécies. Basta ver com que cuidado, dedicação e coragem os animais alimentam e defendem suas crias. Vegetais produzem sementes, mudas, flores e frutos, buscando reproduzir-se. Até os minerais resistem a mutilações em sua integridade, como pedreiras e jazidas, cuja exploração pelo homem só se processa pela força de picaretas e explosões.
As crianças do sexo masculino nascem dotadas, pela Natureza, de características especiais, para o futuro exercício das elevadas funções da paternidade responsável. Seu organismo infantil possui, desde o berço, as condições necessárias para o vindouro desenvolvimento de forte musculatura, ossada resistente e bolsa escrotal apta para armazenar e fornecer, na forma e nas circunstâncias apropriadas, o sêmen fecundante, capaz de produzir filhos saudáveis. Seu preparo educacional compete, normalmente aos seus tutores familiares e sociais, mas o homem precisa preparar-se desde a juventude para o seu magno destino. Sonhará, decerto, com formosos castelos de amor, nas florações da adolescência, mas importa não permitir que ideários desrespeitosos e malsãos envenenem a dignidade dos seus sentimentos, ou que suas energias vitais se prostituam nos lamaçais da promiscuidade irresponsável. Nasceu para ser pai, e ser pai significa, antes de tudo, ser o iniciador, chefe e guardião de uma nova família humana, o forte, corajoso e dedicado companheiro da mulher que eleger par ser a mãe dos seus filhos.
A mulher-mãe é o fulcro magnífico para o qual tudo converge e do qual tudo se irradia. Ela é o poder moderador do reino familiar, o esteio amoroso do companheiro, a administradora providencial dos recursos do lar. Amamentando os filhos, não só os alimenta, também os vacina contra numerosos perigos que possam afetar-lhes a saúde. Será sempre, para eles, a conselheira afetuosa e confiável, diligente e acolhedora.
Os filhos devem aos seus pais não apenas a herança corporal, mas o amor incomparável que nada neste mundo pagará. Seu procedimento na vida poderá ser, para eles, a pior das tristezas ou a maior das alegrias.
A família humana é o fundamento de todas as comunidades sociais, a semente da qual nascem, com seus defeitos e virtudes, os povos e as nações.
Mas a família verdadeira, a família real, não se restringe aos laços corporais de carne e sangue. Além dos sistemas solares e dos sistemas atômicos, existem os sistemas anímicos, as famílias espirituais, estruturadas nos evos insondáveis do espaço e do tempo, imorredouras na sua infinita progressão. As forças de coesão que ligam as moléculas nos blocos de pedra não se dissolvem no tempo. Assim como as nuvens de gás turbilhonam em nebulosas e explodem nos vórtices que geram as estrelas, assim também os remoinhos da evolução ligam para sempre, nas tensões dos esforços ascensionais compartilhados, as almas imortais que avançam juntas, nos trilhos milenares das experiências vitais, consolidando liames indeléveis de amor indestrutível nos Espíritos imortais que ascendem, interligados, nas lides de crescer e amadurar para glória da vida.
Essas famílias espirituais são como sistemas solares, que também se aglutinam com outros sistemas semelhantes, formando galáxias e constelações espirituais nos universos infinitos da Criação Divina. Refere Emmanuel que o nosso Cristo, governador espiritual do orbe terráqueo, integra a Comunidade dos Espíritos Puros que governa o nosso sistema solar.
As famílias humanas crescem, mas o seu crescimento é limitado, porque depende de condicionamentos restritivos para a procriação dos seus membros componentes, e seus registros quase sempre se perdem no tempo, como se confirma nas chamadas “árvores genealógicas”. Ao contrário, o crescimento das famílias espirituais é ilimitado e constante, porque os Espíritos se relacionam incessantemente uns com os outros, forjando múltiplos e vigorosos laços de interesses e afetividade. Isso os leva a integrar-se também noutras greis familiares, sem perder os liames ancestrais que lhes são próprios.
Além disso, o contato forte e permanente com inúmeras vidas inferiores faculta aos Espíritos o apadrinhamento de muitos seres ainda em, vias de espiritualização, dentro dos mecanismos divinos de co-criação, no dilargamento da fraternidade universal. Têm o mais alto sentido as palavras do Mestre, registradas por Mateus. Disse Jesus: “Não desprezeis nenhum destes pequeninos, porque vos afirmo que os seus anjos, nos céus, vêemincessantemente a face de meu Pai”.
Na verdade, todo ser vivente integra-se em alguma família, e cada família espiritual se estende dos círculos mais recônditos até os píncaros dos céus.
Numerosos relatos divulgados em nossa literatura mediúnica dão notícias comovedoras de mães, esposas, pais, filhos e avós desencarnados capazes de superar com heroísmo todas as dificuldades, e sacrificar meritórias conquistas pessoais, para socorrer e salvar seres amados em aflitiva situação. São eloqüentes testemunhos de renúncia e abnegação das famílias espirituais, cujo amor tudo vence, além do espaço e do tempo, da morte e da dor.
Nem sempre, porém, o lar da família é um ninho acolhedor de amor e paz, entendimento e ventura. Nele podem entrechocar-se, muitas vezes, inimigos ferrenhos de outras eras, sedentos de vingança, antigos credores prejudicados que exigem reparações. Quem tirou a vida de outrem pode receber, inconscientemente, como filhos, no recesso do seu próprio lar, aqueles que assassinou, para devolver-lhes os corpos ceifados. Quem lançou pessoas à desgraça pode ser forçado, sem saber, a cuidá-las sacrificialmente no seio de sua própria família, para estituir-lhes a alegria de viver. Quem levou alguém à depravação e à delinqüência terá de reconduzi-lo à senda do bem, por mais que isso lhe custe. Quem desmantelou lares alheios precisará esforçar-se bastante para reconstruir seu próprio lar.
Sempre se recolhe na vida o que se planta, porque a justiça perfeita é lei divina. Não é por castigo que se sofre, e sim para que se recomponha a harmonia da vida. A família também é, portanto, bendita escola onde se aprende o abecedário do amor, um campo de provas onde se exercitam, na prática, a ciência e a arte de viver, e uma sagrada oficina onde se forja, no dia-a-dia, a grandeza do futuro. .

HERNANI T. SANT’ANNA
Reformador Jan.99

Nenhum comentário:

Postar um comentário