14 de janeiro de 2010

MORRER É VOLTAR PARA CASA

Você está preparado para morrer? Você se sente amadurecido para receber a notícia que seus dias de vida na terra estão contados? Este é o tema que o médico Dráuzio Varela discorre no seu novo livro "Por um Fio". A tese central que ele defende é a de que a notícia da morte iminente opera transformações inesperadas nas pessoas a ponto de tornar alguns pacientes mais felizes do que nunca. Experiência para afirmar isso Dráuzio Varela possui, afinal, acompanhou, em trinta anos de carreira, doentes sem chances de cura. Ele conta que as reações diante do fim anunciado são as mais diversas. Uns se revoltam, outros se sentem surpresos, alguns têm uma aceitação passiva, muitos choram convulsivamente e há aqueles que até riem. A reação para a notícia da própria morte - ou a dos outros - está diretamente relacionada ao conceito particular que se tem sobre o assunto.
A morte representa o abandono do corpo físico pelo espírito, à medida que o corpo físico não apresenta mais condições vitais adequadas para sua manifestação. Morrer, portanto, é um ato de libertação para a verdadeira vida, a vida espiritual. Esta é a perspectiva fundamental a ser compreendida: somos seres espirituais que vestimos temporariamente um corpo físico e não seres carnais que temos um espírito. Não temos um espírito, somos um espírito. O corpo físico, na realidade, é uma roupa emprestada que, com o uso, necessita ser devolvida a sua origem. A dimensão verdadeira de todos nós não é a material, mas a espiritual. Daí chegar-se rapidamente a conclusão de que morrer, na prática, é voltar para casa, o nosso habitat primário.
A inexistência da morte fez desenvolver-se um outro termo mais consentâneo com o que na prática acontece: desencarnar. Desencarnação, no significado etimológico da palavra, é a ação de sair do corpo de carne. É um fenômeno, porém, que exige desprendimento psicológico. Explico melhor. Há pessoas que são demasiadamente apegadas às coisas materiais e que ao "morrer" continuam num estado psicológico, mesmo na condição espiritual, presas a realidade terrena como se vivo na carne estivesse no seu relacionamento com o meio ambiente. Morrer, diria, é um fenômeno físico, porém, desencarnar é um fenômeno mental. Assim, poder-se-ia chegar a conclusão de que muitas pessoas morrem, mas não desencarnam.
Ao desencarnar, voltando a sua condição fluídica, o ser passa por um período de adaptação, mais ou menos longo, dependendo exatamente de seu estágio mental e sentimental. No mundo espiritual, somos avaliados pela qualidade da nossa última encarnação, se evoluímos moralmente, se aumentamos a nossa bagagem de virtudes ao retornar ao nosso lar. Desta forma, a Lei das Afinidades atuará irremediavelmente de acordo com as nossas tendências. Os iguais, na dimensão do espírito, se atraem mutuamente.
Próximo ao desencarne, diluindo-se gradativamente as ligações vitais, o ser começa a vislumbrar a espiritualidade - ambiência espiritual - e a se relacionar com aqueles que vê, geralmente parentes e amigos que já retornaram antecipadamente e vem ajudar ao "moribundo" na sua reentrada ao mundo dos vivos sem corpos de carne.
Oportunamente, o tema de abertura da atual novela da Rede Globo de Televisão, Senhora do Destino, de autoria de Milton Nascimento e Fernando Brant, expressa com sabedoria esta rotina: "todos os dias é um vai-e-vem, a vida se repete na estação (da terra). Tem gente que chega pra ficar, tem que gente que vai pra nunca mais. (...). E assim, chegar e partir, são só dois lados da mesma viagem (encarnação e desencarnação). O trem (espírito) que chega é o mesmo trem da partida. A hora do encontro é também despedida".
Até mais e uma boa morte a todos!

Carlos Pereira

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