28 de fevereiro de 2010

EXPERIÊNCIA NO TEMPO

O homem realiza a experiência de Deus no tempo, ao longo de sua evolução natural. Não se pode ter uma experiência artificial de Deus em alguns minutos ou algumas horas de meditação. Essa experiência é natural - e de natureza vital - faz parte integrante da vida e da existência humana. Podemos lembrar a expressão de Descartes: A idéia de Deus no homem é a marca do obreiro na sua obra. Descartes foi o precursor de Kardec, como João Batista o foi do Cristo. Temos, assim, uma curiosa correlação histórica entre o advento do Cristianismo e o advento do Espiritismo, que se completa em numerosos outros aspectos.
Lembrando a teoria da reminiscência em Platão, em que as almas nascem na Terra marcadas pela recordação do mundo das idéias, compreenderemos mais facilmente a existência da idéia inata de Deus no homem. Essa idéia inata não é apenas marca, mas também o marco inicial e o pivô em torno do qual se processa todo o desenvolvimento espiritual da criatura humana. Podemos acompanhar esse processo desde a adoração dos elementos naturais pelo homem primitivo (a partir da litolatria, adoração da pedra e de outras formações minerais) até à eclosão do monoteísmo, com a idéia do Deus Único, que Kant considerou o mais elevado conceito formulado pela mente humana. E vemos então que a idéia de Deus representa, histórica e antropologicamente, uma espécie de marca-passo de toda a evolução do homem.
No episódio do Cógito, da cogitação de Descartes sobre a realidade ou não da existência, temos o momento em que ele descobre, no mais profundo de si mesmo, uma idéia estranha, que é a da existência de um Ser Absoluto e portanto absolutamente perfeito. Essa idéia não podia ter sido originada pelas suas experiências de ser relativo e imperfeito. Descartes a considerou estranha porque só poderia vir de fora dele, da existência real desse Ser Absoluto. Descobria assim que tivera uma experiência de Deus, inteiramente independente de todas as suas experiências terrenas.
A importância desses fatos históricos e culturais foi negligenciada pela cultura leiga que se desenvolveu na Renascença e deu forma ao mundo moderno. O predomínio crescente das conquistas materiais da, Civilização Ocidental asfixiou essas conquistas do espírito. O homem se esqueceu do significado desses fatos, desses episódios culminantes da cultura humana, e as religiões dogmáticas transformaram a idéia de Deus em simples crença desprovida de raízes experimentais. Coube ao Espiritismo restabelecer a verdade e colocar a experiência de Deus no seu devido lugar, no vasto panorama da evolução da Humanidade. Trata-se da mais importante e profunda experiência do homem, uma experiência vital que deverá levá-lo à compreensão da sua verdadeira natureza e do seu verdadeiro destino. Impossível reduzi-la a uma conquista particular e eventual de algumas criaturas que hoje se entregam a práticas de meditação.
Claro que com isso não pretendo negar nem diminuir o valor da meditação como disciplina mental e como recurso de elevação espiritual. Sustento apenas que a meditação é o produto e não a produtora da experiência de Deus, pois essa experiência já marcava o homem muito antes que ele houvesse adquirido o poder do pensamento abstrato e pudesse meditar. A vivência religiosa, pelo simples fato de ser vivência e não reflexão, é inerente ao homem desde o seu aparecimento no planeta. Essa é uma questão que hoje se, coloca de maneira evidente.
A concepção espírita vai mais longe e mais fundo, negando ao homem atual o direito de isolar-se do mundo para buscar a Deus, e portanto de buscar a Deus ou aos poderes espirituais através de processos artificiais. O meio natural de evolução, para o homem e para todas as coisas e todos os seres, é a relação. Se nos afastamos do relacionamento social e cultural paara nos elevarmos, estamos nos colocando em posição errada e tomando um caminho ilusório. A busca solitária de Deus é um ato egocêntrico e preferencial. O místico vulgar não mergulha em si mesmo para encontrar em Deus a relação com o mundo, como o fez Descartes, mas, pelo contrário, para desligar-se do mundo e ligar-se isoladamente a Deus. Não é guiado pelo amor à Humanidade, mas pelo amor a si mesmo. Prefere elevar-se acima dos outros para encontrar em Deus o refúgio e a fortaleza em que poderá construir e usufruir sozinho a sua felicidade particular. Prefere a fuga ao mundo, em termos de superioridade pessoal e portanto egoísta, anti-religiosa, à ligação com o mundo e com Deus para a realização da unidade global que é o objetivo da religião.
A diferença absoluta entre a posição do Cristo e a posição do Buda e das chamadas religiões orientais é precisamente essa. Enquanto o Buda abandona o mundo para buscar a Deus na solidão, o Cristo mergulha no mundo para religar os homens a Deus. A ação do Buda é subjetiva e contrária à experiência do mundo, enquanto a ação do Cristo é objetiva, considerando a experiência do mundo como necessária ao desenvolvimento da experiência de Deus no homem. Meio miilhão de pessoas entregues à meditação para tentar a ligação pessoal de cada uma delas com Deus não representa um esforço coletivo de unidade - uma ação religosa - mas a simples coincidência de esforços particulares e isolados, como vemos na busca do ouro nas regiões auríferas. Não se trata, pois, de uma ação coletiva e sim de milhares de ações individuais e egoístas.
Não quero de maneira alguma negar o valor espiritual do Buda, cuja posição correspondia à necessidade de orientação de uma comunidade de almas estranhas à Terra, exiladas em nosso planeta, que tinham por objetivo a volta aos seus mundos de origem. Nesse caso, a negação individual do mundo (do nosso mundo) tornava-se coletiva em virtude do objetivo comum do retorno ao paraíso perdido. A teoria espírita da migração entre os mundos - apoiada na teoria cristã das muitas moradas da Casa do Pai - é a chave indispensável à compreensão desse problema.
A evolução de cada mundo atinge o momento em que a sua população se divide em dois campos bem diferenciados, como vemos hoje na Terra. Um deles evoluiu o suficiente para integrar uma humanidade planetária superior, o outro continua em estado inferior. A população desse campo inferior precisa ser transferida para outro mundo que esteja no seu nível evolutivo, a fim de que as criaturas refaçam ali o tempo perdido. Quando essa população atingir ali, no outro planeta o nível de evolução necessário, voltará ao seu mundo de origem. Nessa situação, a vivencia isolada nas práticas solitárias da meditação constitui uma recapitulação de aprendizado. Era a essas almas emigradas que o Buda dirigia a sua mensagem superior, como outros haviam feito antes dele.
Em nossa humanidade terrena somente a ação do Cristo - vencendo o mundo, segundo suas próprias palavras - impulsionou-nos ao aceleramento evolutivo que vem transformando a Terra não só nas áreas cristãs, mas em toda a sua extensão. O Cristianismo institucional, igrejeiro, absorvendo elementos espirituais das religiões orientais, que se opunham aos princípios de entrega ao mundo das religiões mitológicas, mergulhou no ascetismo das ordens monásticas do Oriente e no isolacionismo da concepção sócio-cêntrica de Israel. As seitas cristãs fecharam-se em si mesmas, desde a comunidade apostólica do Livro de Atos dos Apóstolos, estabelecendo uma divisão arbitrária entre os escolhidos de Deus e os abandonados por Ele. A prática do batismo do espírito, do tempo de Jesus, que dava à criatura a experiência direta da realidade espiritual, converteu-se nas formas de evocação ritual e privilegiada do Espírito Santo, que dá ao crente a ilusão de uma separatividade conferida pela graça. As igrejas cristãs transformaram-se em ilhas de santidade e pureza em meio à impureza do mundo, como a Israel antiga no mundo mitológico. A experiência de Deus, pessoal e intransferível, substituiu a experiência de Deus no mundo, a vivência universal do ensino e do exemplo de Jesus. É por isso que os cristãos de hoje se formalizam em grupos sócio-cêntricos fechados.
Ao contrário disso, a revelação espírita considera a graça simplesmente como a força que Deus concede ao homem de boa-vontade para vencer as suas imperfeições, seja ele desta ou daquela religião ou de nenhuma delas. O batismo exclusivista e sectário é substituído pelo antigo batismo do espírito, acessível a todos, não segundo o critério eclesiástico mas segundo o critério de Deus. Nada exemplifica melhor essa questão do que o episódio de Atos em que o Apóstolo Pedro, em Jope, se recusa a atender o centurião Cornélius, mas advertido pelo mundo espiritual o atende e descobre o sentido universal do batismo do espírito. Pedro, ainda imbuído dos princípios isolacionistas do Judaísmo, não podia entender que lhe fosse permitido socorrer uma família de romanos impuros em que a mediunidade eclodia. Foi necessário que o Espírito advertisse - a ele que seguira e ouvira o Cristo até o momento da prisão - de que Deus nada fizera de impuro, para que a sua consciência se abrisse à verdadeira compreensão da mensagem cristã.
O egocentrismo humano, essa centralização do homem em si mesmo, que gera e alimenta o orgulho, é uma decorrência natural das fases de formação da consciência, de formação do indivíduo como uma unidade espiritual específica, oposta à pluralidade e confusão do mundo. Mas esse egocentrismo, que deve abrir-se em altruísmo na proporção em que o homem amadurece, é alimentado pelo anseio de privilégios que as igrejas satisfazem com as suas concessões ilusórias aos fiéis. Tudo tem a sua utilidade em seu tempo, mas depois se torna inútil e até mesmo prejudicial. No próprio meio espírita essa tendência a conservar posições do passado ainda subsiste, particularmente no plano institucional, onde os postos de comando reacendem no espírito a chama de velhas e desvairadas ambições. O homem, espírito encarnado - envolto na neblina da carne, como ensina Emmanuel está sempre e inevitavelmente propenso a reincidir em seus erros do passado. A volta às condições da vida material o coloca de novo ante a possibilidade de desfrutar as oportunidades que lhe foram úteis ou agradáveis no passado. As ilusões renascem no seu coração humano. As perspectivas espirituais se perdem no nevoeiro. Nas religiões formalistas esse apelo do passado adquire muito mais força.
A luta contra os resíduos do passado exige oração e vigilância, como Jesus ensinou. Não obstante a idealização do Diabo, como personificação mitológica do Mal, todas as grandes religiões reconhecem que a tentação está dentro de nós mesmos. Muito mais que a influência dos espíritos inferiores, o que nos arrasta de volta aos velhos caminhos do erro são as próprias tendências que trazemos em nosso íntimo. A oração consciente, feita com sinceridade e fé, areja o nosso íntimo, lança a sua luz sobre as escuras paisagens interiores da alma, fazendo-nos discernir o contorno real das coisas. Nada que modifica em nós, mas iluminamo-nos por dentro. E se mantivermos a nossa vigilância na intenção verdadeira de acertar, facilmente veremos o que nos convém e o que não nos convém. Poderemos então repetir com Paulo: Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém. E, seguindo assim o caminho que a prudência esclarecida nos indica, tudo modificaremos para melhor em nós mesmos, tornando-nos aptos a auxiliar os outros a se melhorarem.
Temos a cada instante, a cada minuto, diariamente em nossa vida a experiência de Deus. Porque a própria vida é, em si mesma, essa experiência. Desde o momento em que nascemos até o instante final da nossa existência estamos em relação permanente com Deus, não o Deus particular desta ou daquela igreja, mas o Deus em espírito e matéria que se manifesta numa haste de relva, na beleza gratuita de uma flor, no brilho de uma estrela, num perfume, numa voz, numa nota musical isolada, num aperto de mão e principalmente numa idéia, num sentimento, numa aspiração que brota do anseio de transcendência da nossa alma. O que nos falta é estar mais atentos, mais despertos para a percepção consciente desses múltiplos e infindáveis milagres da vida cotidiana. O homem sem Deus é somente aquele que se nega a aceitar a presença de Deus em si e em seu redor. Para esse homem, a meditação é um ensaio no campo da frustração, um mergulho no mundo opaco do sem-sentido.

J. Herculano Pires - Agonia das Religiões

27 de fevereiro de 2010

REFLEXÕES SOBRE O COTIDIANO

"Não pensem que vim trazer a paz sobre a Terra, mas a espada." Jesus, (Mateus, 10:34)

Na lIª Epístola aos Corínntios, capítulo 13, versículo 7, Paulo de Tarso diz textualmente: "Estamos orando a Deus para que não façais mal algum, não para que simplesmente pareçamos aprovados, mas para que façais o bem ... "
É interessante notar a postura que cada um de nós assume ante o compromisso de fazer o bem. Quase sempre desejamos que seja feito da forma como idealizamos e não se podendo executar dessa maneira, preferimos nada fazer.
Vaidade ou fuga? Presunção ou preguiça? Melhor será que, diante de tal situação, examinemos com juízo qual é o sentimento verdadeiro que nos move a ação. A transparência no julgamento íntimo é base fundamental para que possamos encarar as nossas imperfeições e fragilidades.
Tentar a fuga do compromisso, imaginando que o outro é o culpado pela nossa desistência é, no mínimo, uma atitude infantil. Pretender que somente a solução que temos para resolver a questão seja a única, por ser a melhor, e que, portanto, deve ser seguida por todos, mostra, certamente, quanto o egoísmo ainda se faz presente nas nossas atitudes, fazendo-nos imaginar que somos o centro do mundo, seja no círculo doméstico ou não.
A assertiva de Paulo nos propõe assim, um exame mais cuidadoso dessas nossas atitudes, frente às inúmeras oportunidades que temos para fazer o bem e não o fazemos.
Examinemos essa colocação por alguns instantes: estamos inseridos em um grupo familiar que é, na verdade, uma terra fértil a ser cultivada. Não ignoramos seja o lar a primeira escola de amor que freqüentamos na nossa jornada evolutiva e, portanto, torna-se fundamental que aprendamos a lutar para que a harmonia ali se instale - e permaneça - entre todos os seus membros. É imprescindível verificarmos o quanto cada um pode fazer pelos demais, colocados que estamos, todos, no mesmo cadinho, ajudando-nos mutuamente a crescer moralmente,
Ampliando um pouco mais essas relações humanas, encontramos nosso local de trabalho, não importando se é para o sustento material ou espiritual. Também ele é, sem sombra de dúvida, uma terra a ser tratada, na medida em que esses companheiros de jornada configuram-se como plantas a serem amparadas para que floresçam e produzam o melhor.
Mas também vivemos em sociedade, em comunidades maiores que com suas chagas sociais - compreensíveis numa coletividade de Espíritos imperfeitos - movimentam nossas emoções e nos oferecem imensas possibilidades de correção e aperfeiçoamento das nossas próprias mazelas, permitindo, a cada um de nós, um proceder honesto de apoio aos semelhantes com a força moral do bom exemplo. Não se resolve problema algum criticando a atitude do outro. Ensina-se com o exemplo. Aprende-se com ele.
Gostaríamos, sem dúvida, de secar as lágrimas de todos os sofredores da Terra; entretanto, isso não é possivel e, por causa disso, nada fazemos. Mas, será que não teriamos condição de atenuar o sofrimento de um amigo, de um vizinho, mostrando a ele que o amor não desapareceu do planeta e que a esperança deve persistir em seu coração? A pessoa, quando se sente só e desesperançada, não precisa de muito.
Bastam, às vezes, palavras de conforto, de confiança, de compreensão do seu problema. Ela necesssita, tão somente. compartilhar a sua dor, e essa atitude de solidariedade que podemos ter - e não nos custa nada e pode fazer toda a diferença para quem sofre.
Desejaríamos que nossos familiares não tivessem problemas, mas é impossivel evitá-los. Todavia, nada e nem ninguém nos impede de ajudar aquele mais necessitado: e mesmo nessa impossibilidade, é possível cooperar para que a tranqüilidade na casa possa ser instalada. Emmanuel alerta: "O Senhor nunca nos solicitou o impossível e nem nunca exigiu da criatura falivel espetáculos de grandeza compulsória."
Existem sobre o planeta, é verdade, inúmeros desertos, mas também encontramos pequeninas fontes, fecundando o chão por onde passam. Deus sabe das nossas limitações e não podemos ter a pretensão de ser Seus colaboradores nas grandes obras - isso Ele realiza sozinho - mas sim, de nos conscientizar de que somos peças fundamentais nas pequeninas coisas.
Meditemos: o que seria do mar se não fossem as pequenas fontes que correm em sua direção? "Não nos é facultado corrigir todos os erros e extinguir todas as aflições que campeiam nas trilhas da existência, mas todos podemos atravessar o cotidiano, melhorando a vida e dignificando-a, em nós e em torno de nós".

Leda Maria Flaborea - Jornal Espírita - setembro/07

26 de fevereiro de 2010

QUEM PROCURA, ACHA

Allan Kardec, na obra O Evangelho Segundo o Espiritismo, capíítulo 25, cita o ensinamento Buscai e achareis, mencionando Mateus, 19:21 e 25-34, subtítulo Olhai as aves do céu: "Olhai as aves do céu, que não semeiam, nem segam, nem fazem provimentos nos celeiros; e, contudo, vosso Pai celestial as sustenta. Porventura não sois muito mais que elas?"
Allan Kardec, na explicação deste ensinamento, coloca a questão: "Se tomásssemos estas palavras ao pé-da-letra, elas seriam a negação de toda a providência e de todo o trabalho, e, conseqüentemente, de todo o progresso". E conclui: "Não se pode ver nestas palavras, portanto, mais do que uma alegoria poética da Providência, que jamais abandona os que nela confiam, mas com a condição de que também se esforçam. Finalizando, Allan Kardec comenta: "É assim que, se nem sempre os socorre com ajuda material, inspira-lhe os meios de saírem por si mesmos de suas dificuldades".
André Luiz, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, sinaliza que esta questão das dificuldades se exemplifica com a ação da prece: "Você é o lavrador; o outro é o campo: você é o desejo de seguir para Deus, mas entre Deus e você, o próximo é a ponte. E conclui textualmente:"O Criador atende as criaturas, através das criaturas. É por isso que a Oração é você, mas o seu merecimento está nos outros".
Contextualização - Neste sentido, temos o fortalecimento da prece. Allan Kardec nos oferece modelos de preces, para o começo e o fim de uma reunião espírita. No primeiro caso, para o começo de uma reunião, tem-se: "Rogamos ao Senhor enviar-nos Bons Espíritos para nos assistirem, afastar aqueles que possam induzir-nos ao erro, e darmos a luz necessária para distinguirmos a verdade da impostura. Pedimos especialmente ao Espírito, nosso guia espiritual, para nos assistir e velar por nós.
Emmanuel, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, nos oferece, também, uma Prece no Templo Espírita: "Senhor Jesus, abençoa, por misericórdia, o lar que nos deste ao serviço da Oração. Reúne-nos aqui em teu amor; sê nossa força: sê nosso arrimo. Ajuda-nos para que a caridade em nossa existência não seja vaidade. Auxilia-nos para que a nossa Fé não se converta em fanatismo. Mestre sublime: reergue-nos para a lição. E, sobretudo, Senhor, faze que entendamos a Divina Vontade, a fim de que, aprendendo a servir contigo, saibamos dissolver a sombra de nossa presença na glória de tua Luz".
Allan Kardec, por fim, nos oferece uma prece sintética para o fim das reuniões espíritas: "Agradecemos aos Bons Espíritos que vieram comunicar-se conosco; pedimos que nos ajudem a pôr em prática as instruções que nos deram, e façam que cada um de nós, ao sair daqui, seja fortificado na prática do bem e do amor ao próximo".
Através da psicografia de Chico Xavier, Emmanuel complementa Kardec com a Prece de gratidão e rogativa: "Senhor! Ensina-nos a agradecer os bens que temos recebido. Agradecemos a presença dos amigos. Agradecemos a bênção dos associados de trabalho e de ideal que nos reconfortam. Senhor!... Agradecemos a luz e o clima de harmonia que nos tranqüiliza a estrada que nos cabe percorrer. E sejam quais forem as provas a que fomos chamados, ajuda-nos a reconhecer que a tua sabedoria reina sobre nós e que, acima das nossas tribulações e obstáculos, dificuldades e lágrimas, estamos todos sustentados em teu amor, para sempre".
Conclusão - O Buscai e achareis e o Olhai as aves do céu, nos leva, simbolicamennte, à prece espírita, e à prática evangélica do Lar como conseqüência necessária e sublime entre os espíritas. A propósito, o que se chama Evangelho no Lar corresponde diretamente a uma reunião espírita que trata da Oração, da Prece e do ensino-aprendizagem do O Evangelho Segundo o Espiritismo no Lar. É uma oportunidade marcante para ensejar às famílias o encontro de seus participantes na intimidade do Lar, com o estudogem e meditação do Evangelho de Jesus de Nazaré à luz da Doutrina Espírita.
E é ainda onde, argumentamos, se ampliam os conhecimentos necessários à vivência diária. É, portanto, a prática evangélica do Lar, através da prece, da oração e do estudo, que nos traz benefícios salutares, como permite a compreeensão ampla dos ensinamentos de Jesus de Nazaré, através dos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, sob a interpretação espírita, de acordo com Allan Kardec e Espíritos superiores como Emmanuel, André Luiz e outros, bem como a prática eficiente da Boa Nova, da boa notícia, do Evangelho em sua plenitude, no ambiente doméstico em que vivemos, no dia-a-dia desta existência.

Dulcídio Dibo - O Semeador - abril/07

25 de fevereiro de 2010

ASSIM SERÁ SEMPRE

Jesus, por onde andou, tranqüilizava as almas e convulsionava os quadros da vida exterior. Representava em si a Verdade, e a Verdade ainda não é aceita no mundo sem ásperos conflitos.
Decerto, não provocou intencionalmente qualquer choque; no íntimo, sabia que as realidades das quais se fazia mensageiro fermentariam as massas. Em razão disso, afirmou: - "Não vim trazer a paz, porém, a divisão"; asseverando de outra feita: - "Vim para trazer fogo à Terra."
Desde o berço, viu-se rodeado de agitações.
O problema começou na família, constrangida a fugir para o Egito, em seguida à glorificação da manjedoura.
Para eliminá-lo, Herodes mandou fossem exterminadas numerosas crianças em Belém e arredores.
Deslocavam-se multidões de uma região para outra, a fim de ouvi-lo.
Os gadarenos rogaram a ele para retirar-se das suas terras, amedrontados com o domínio que demonstrava sobre os Espíritos obsessores.
Os fariseus afirmaram que ele restabelecia os enfermos, operando pelo poder do demônio.
Autoridades judaicas representaram publicamente contra ele, acusando-o de injuriar tradições, porque se utilizava dos sábados para fazer o bem.
O povo de Nazaré, onde residia desde a infância, escandalizou-se ante a sua presença, atirando-lhe sarcasmos.
Cobradores de impostos experimentaram-lhe a paciência.
Ele, a seu turno, enfrentou as situações difíceis qual se apresentavam. Não poupou os fariseus. Fez calar os saduceus. Argumentava com sacerdotes e escribas com tamanha lógica que lhes ocasionava melindre e indignação. Esclareceu os discípulos que seriam odiados por todas as nações, à vista de seu nome. Anunciou, com antecedência, a conspiração com que lhe tramavam a perda.
De resto, foi preso pela multidão armada de espadas e varapaus e, no Sinédrio onde compareceu, escribas, anciães, sacerdotes e guardas lhe salivaram o rosto, espancaram-no, esbofetearam-no.
No triênio que lhe marcou o apostolado, foi a verdade invariável, fulgurando entre ironias e pedradas, perturbações e dificuldades, atritos e deserções, malícias e tumultos, até que os homens, incapazes de lhe suportarem as lições vivas, o colocaram na cruz, para se livrarem da sua presença.
É que os preceitos do Mestre nos obrigam a reconhecer que não há reforma sem renovação profunda, nem renascença da alma sem que se desatem os laços da rotina comodista.
Eis por que, ainda hoje, na luz da Nova Revelação que lhe revive o ensinamento libertador, para que tenhamos paz intima é preciso conservar tranqüilidade na consciência, cultivando tolerância diante das reações alheias, sem nos acomodarmos com a estagnação e sem nos acumpliciarmos com aqueles que exploram a região dos desentendimentos humanos em proveito de interesses inferiores.
Jesus e o Espiritismo esclarecem que não existe verdadeira paz sem preço. Quem quiser a luz da paz, por dentro do coração, aceite o combate da sombra em derredor. Assim será sempre.

EURÍPEDES BARSANULFO

24 de fevereiro de 2010

A CARIDADE E O PORVIR

Afirmas que a caridade está a caminho do desaparecimento, pois que, em se elevando gradualmente o padrão da vida terrestre, dia virá no qual as populações não mais carecerão de assistência, de vez que o futuro lhes conferirá automaticamente a bênção do lar, a luz da escola, o alimento básico, o vestuário seguro, o transporte fácil e o trabalho compensador.
Sim, realmente este é o supremo anelo de todos nós quanto à vida material.
Contudo, a beneficência é simples faceta da caridade que, em si mesma, é o Sol do Divino Amor, a sustentar o Universo.
E o dia para a vitória do amor, entre os homens, ainda está longe de alvorecer.
Até lá, torna-se mister remediar os infortúnios e os males desvelados e ocultos que atormentam o Espírito humano, enleado na rede das provas necessárias e justas, seja por exigências da evolução, seja pelos impositivos de causa e efeito.
Importa observar que, na imensa luta por nossa libertação coletiva, se encontramos as sombras coaguladas na ignorância. surpreendemos também os perigosos desmandos da inteligência. Entre a rebeldia dos que não sabem e o orgulho dos que sabem, proliferam delitos e conflitos, junto dos quais é preciso ajudar e sofrer, se aspiramos a melhorar e servir.
Dominar o plano físico é tão-só controlar a veste.
Nós não somos daí.
Centralizemos a atenção na realidade maior. Os Espíritos não nascem na carne.
Dela se valem para a colheita de evolução, à maneira do lavrador que se utiliza do arado.
Nenhum de nós tem a sua eternidade ligada a panoramas terrestres. Demandamos a profundez do Infinito, no tempo e no espaço, obedecendo a programas de serviço e aperfeiçoamento que nos transcendem o quadro de todas as previsões.
Recordemos, assim, que o ato caritativo mais difícil de ser praticado gravita em órbita exclusivamente moral.
Muito fácil dar do que temos; muito difícil dar do que somos.
Com as dádivas para o corpo, estendamos as dádivas para o espírito, na certeza de que, ainda quando não mais houver na Terra desabrigados e analfabetos, subnutridos e desequilibrados, desnudos e desempregados, todos temos e teremos de viver no lar da compreensão verdadeira, cursar a escola da humildade, cultivar o perdão recíproco, agasalhar-nos em bons exemplos, atender espontaneamente ao concurso fraterno e transpirar na abnegação ...
Com Jesus, aprendemos que a caridade é semelhante ao ar que respiramos - agente da vida que atinge a tudo e a todos.
Saibamos, desse modo, afeiçoar-nos a ela, santificando sonhos e enobrecendo ações, iluminando idéias e burilando impulsos, servindo qual se estivéssemos sendo servidos e beneficiando a figurar-nos na posição daqueles que recebem auxílio. Isso porque a caridade, sendo amor puro, crescerá sempre em nós com o nosso próprio crescimento no amor puro, à feição de Luz imperecedoura renascendo das épocas que se foram e ultrapassando os evos que hão de vir.

Leopoldo Cirne

23 de fevereiro de 2010

CRISTIANISMO, MENSAGEM DE VIDA ETERNA

Quando uma idéia é falsa, ela não se concretiza. É o caso, por exemplo, do Nazismo, que muito embora, de quando em quando, surjam grupos que defendem a idéia, ela não se propaga, por estar praticamente morta. Outro exemplo é o do materialismo.
Atualmente, com o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, com as descobertas da Ciência com relação ao Universo, com as descobertas antropológicas, com a propagação dos ensinamentos espíritas, que tudo explicam à luz da razão, é muito difícil sustentar uma teoria materialista.
Mas quando uma idéia é verdadeira, ela se concretiza. É o caso do Cristianismo, que apesar de todas as deturpações porque passou, é uma idéia que sempre se propagará, sempre se perpetuará, pois o Cristianismo é un mensagem de vida eterna.
Apesar de todas as evidências da passagem de Jesus na Terra, sempre aparecem estudiosos e pesquisadores que desmentem que essa passagem tenha existido. Entre os argumentos para a defesa dessa toria, dizem que é muito difícil acreditar num história que começou a ser escrita muitos anos após o nascimento do personagem.
Realmente, os Evangelhos começaram a ser escritos cerca de 40 anos após a passagem de Jesus na Terra. Mas até que os mesmos surgissem, os ensinamentos eram transmitidos oralmente, isto é, de boca a boca. Os judeus diziam que o verdadeiro discípulo é semelhante a uma cisterna sem rachaduras, que não deixa escapar uma gota sequer, dos ensinamento dos seus mestres.
Deus criou o Universo com o grande propósito de promover o progresso e a evolução do Universo e a evolução e o progresso dos Espíritos que vivem no Universo. Para nós, cristãos, a única maneira de progredirmos e evoluirmos até Deus é através do estudo, do aprendizado e da exemplificação das lições de Jesus.
Por isso, Jesus disse, conforme está registrado no Evangelho de João, (14: 6): "Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim." Mas, será que os adeptos de religiões que não são cristãs, não irão ao Pai? Porque os adeptos do budismo, por exemplo, não seguem Jesus, seguem Buda; os adeptos do maometismo não seguem Jesus, seguem Maomé. Eles irão ao Pai, sim. Mas considerando-se que Jesus é o responsável pelo planeta Terra desde a época de sua formação e de que o Espírito é eterno, um dia, na sua caminhada, ele se conscientiza, para o aprendizado das lições de Jesus.
Nessa marcha do Espírito em direção ao Pai, é importante que, cristãos ou não, a fé seja sempre acompanhada pelas obras. Tiago Menor, na sua Epístola Universal (2:17), disse: "Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma"; Paulo de Tarso, na Ia. Epístola aos Coríntios (13: 3), disse: "... E ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse caridade, nada disso me aproveitaria." E os Espíritos dizem que A fé sem obras é irmã das obras sem fé.
Na questão 798 de O Livro dos Espíritos, uma prova de outra idéia verdadeira, o Espiritismo, quando o Codificador pergunta: "O Espiritismo se tornará uma crença comum ou será apenas a de algumas pessoas?" Os Espíritos respondem: "Certamente ele se tornará uma crença comum e marcará uma nova era na História da Humanidade, porque pertence à Natureza e chegou o tempo em que deve tomar lugar nos conhecimentos humanos.
Haverá, entretanto, grandes lutas a sustentar, mais contra os interesses do que contra a convicção, porque não se pode dissimular que há pessoas interessadas em combatê-lo, umas por amor-próprio e outras por motivos puramente materiais. Mas os seus contraditores, ficando cada vez mais isolados, serão afinal forçados a pensar como todos os outros, sob pena de se tornarem ridículos."
Kardec complementa a resposta: "As idéias só se transformam com o tempo e não subitamente; elas se enfraquecem de geração em geração e acabam por desaparecer com os que as professavam e que são substituídos por outros indivíduos imbuídos de novos princípios, como se verifica com as idéias políticas.
Vede o paganismo; não há ninguém, certamente, que professe hoje as idéias religiosas daquele tempo; não obstante, muitos séculos depois do advento do Cristianismo ainda havia deixado traços que somente a completa renovação das raças pôde apagar. O mesmo acontecerá com o Espiritismo; ele faz muito progresso, mas haverá ainda, durante duas ou três gerações, um fenômeno de incredulidade que só o tempo fará desaparecer.
Contudo, sua marcha será mais rápida que a do Cristianismo, porque é o próprio Cristianismo que lhe abre as-vias sobre as quais ele se desenvolverá. O Cristianismo tinha que destruir; o Espiritismo só tem que construir."
E o tradutor J. Herculano Pires, em nota de rodapé, diz: "O transcurso do primeiro século do Espiritismo, a 18 de abril de 1957, veio confirmar plenamente esta extraordinária previsão de Kardec. No primeiro século do seu desenvolvimento, o Cristianismo era ainda uma seita obscura e terrivelmente perseguida. Somente nos fins do terceiro século atingiu as proporções de desenvolvimento e universalização que o Espiritismo apresenta no seu primeiro século.
A marcha do Espiritismo se fez com muito maior rapidez e sua vitória brilhará mais rápida do que se espera."

Altamirando Carneiro - Jornal Espírita - junho/06

22 de fevereiro de 2010

CRISTO, A LUZ DO MUNDO

"Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida." (João, 8:12)
"Ali estava a luz verdadeira, que ilumina todo o homem que vem a este mundo." (João, 1:9)

Logo após o seu nascimento, o menino Jesus foi levado ao Templo para procederem, com Ele, de acordo com a Lei. Logo, em seguida, compareceu ali um médium chamado Simeão, o qual, tomando o menino nos braços, levantou-o e, entre outras coisas, disse: "Luz, para iluminar as nações, e glória de Israel, teu povo." (Lucas, 2:32). Simeão foi, deste modo, o primeiro a anunciar que Jesus seria a luz do mundo.
O Evangelho, segundo João (1:5), afirma: "A luz resplandeceu nas trevas, mas as trevas não a compreenderam". O que significa dizer que a vinda de Jesus Cristo à Terra foi um resplendor que iluminou os horizontes sombrios do mundo. Todavia, os homens não compreenderam a extensão dessa generosa dádiva dos Céus, não hesitando mesmo em levar ao Calvário o grande Mensageiro Celeste que a revelou. Afirma, ainda, o evangelista João (1:11) que "Jesus veio para o que era seu, mas os seus não o receberam".
Como interpretar as palavras de Jesus, quando afirma ser a luz do mundo? É imperioso ter em mente que o Mestre é o Ungido de Deus, encarregado de presidir os destinos do nosso Planeta, evitando, assim, que este nosso mundo viva eternamente mergulhado nas trevas. O Pai Celestial o enviou à Terra com a transcendental missão de lançar um convite à Humanidade, para se integrar no laborioso e indispensável processo de reforma íntima.
Entretanto, para que isso fosse colimado, ele houve por bem traçar um roteiro luminoso, suscetível de fazer com que todas as criaturas, indistintamente, tivessem a oportunidade de se subtrair ao domínio das trevas. Como parte integrante desse roteiro, o Mestre revelou os Evangelhos, régio presente dos Céus para a Humanidade carente de luz, pois eles representam imenso foco de luz, que brilha nas trevas, que empolga a todos com a mensagem de vida eterna que encerram. .
O Cristo é essa luz, e os Evangelhos representam a expressão máxima do amor e da vontade Dele, pois todos os que observarem os preceitos neles contidos, amando a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmos, estarão abrigados sob essa luz e abominando as trevas. Infelizmente, decorridos 20 séculos do advento de Jesus Cristo à face da Terra, elevado é ainda o contingente de pessoas que persiste em viver mergulhado nas trevas da ignorância, ao rebelar-se contra as sapientes Leis de Deus, desta forma, retardando o processo evolutivo.
Jesus é realmente a luz do mundo; conforme suas palavras, contidas em numerosas citações evangélicas, Ele veio para cumprir a vontade soberana do Criador de todas as coisas. E a vontade do Criador é que todos os seus filhos se reunam, em torno do Mestre, sob sua égide misericordiosa, para que, um dia, haja um só rebanho e um único pastor.
Existem no mundo três agrupamentos distintos:
1 - O primeiro abarca os que aceitam a palavra de Deus e, conseqüentemente, vivem na luz, usufruindo de uma paz íntima que enobrece e eleva as almas. São aqueles que acolhem em seus corações os ensinamentos altamente consoladores dos Evangelhos.
2 - O segundo é composto pelos que repelem a luz, porque suas obras são más, preferindo, antes, viver mergulhados nas trevas, contrapondo-se à vontade soberana do Criador.
São os que vivem em constante revolta, insubmissos às palavras luminosas dos Evangelhos, muitos praticando iniquidades na Terra.
3 - O terceiro é composto pelos que, vivendo nas trevas, ao verem brilhar a luz, não hesitam em mudar de posição, deixando uma vida eivada de erros trevosos, para abrigar-se sob o esplendor da luz que brilhou em suas almas.
São os homens de boa vontade, que viveram algum tempo na obscuridade e na incompreensão, por desconhecerem a mensagem evangélica, que se reformaram interiormente, quando entraram em contato com essa mensagem de vida eterna.

21 de fevereiro de 2010

OS INIMIGOS DESENCARNADOS


Não sendo a morte física o aniquilar da vida, é natural que todos aqueles Espíritos que se transferem de retorno para o mundo espiritual mantenham as características morais que lhes assinalavam a individualidade.
Recuperando a lucidez após o decesso celular, volvem à consciência as mensagens que foram armazenadas durante a trajetória orgânica, auxiliando-os na evocação de acontecimentos e feitos nos quais participaram.
Em algumas ocasiões não ocorre esse fenômeno em razão do estado de perturbação em que se encontram após o túmulo, mantendo fixações enfermiças e condutas infelizes.
Compreensivelmente, no primeiro caso, ressumam com mais facilidade as impressões vigorosas, aquelas que fortemente feriram ou dignificaram as emoções.
Nesse capítulo, os sentimentos de animosidade que tipificam os Espíritos inferiores ressurgem, levando-os aos processos de angústia e ressentimento, que procuram contornar mediante o desforço a que se propõem contra aqueles que os afligiram e que permanecem na viagem carnal.
É compreensível que não possuindo os tesouros morais de nobreza nem de elevação, deixam-se consumir pelo ódio, sendo levados às fontes geradoras do sofrimento que experimentam, no caso, as pessoas que se fizeram responsáveis pela sua desdita.
Surgem, nessa fase, as vinculações psíquicas com os antigos desafetos, aqueles que se tornaram motivo da sua aflição.
Reconhecendo a razão do sofrimento, sem, no entanto, entender as causas profundas, aquelas que dizem respeito à Justiça Divina, em face do desconhecimento da reencarnação e sua lei de Causa e Efeito, convertem-se em inclementes cobradores do que supõem ser dívidas para com eles contraídas.
Dispondo de mobilidade e fixando-se mentalmente ao adversário mediante a afinidade moral, inicia-se o doloroso processo de obsessão, que tanto se apresenta em forma de surto patológico, na área dos distúrbios psicológicos de conduta e de emoção, bem como em lenta e perversa inspiração doentia que termina por transformar-se em transtorno mais grave.
Quando não se encontram lúcidos, são igualmente atraídos, em razão da lei de sintonia existente entre devedor e cobrador, decorrente da convivência espiritual nas mesmas faixas de inferioridade em que se movimentam os encarnados e os desencarnados.
Não padece qualquer dúvida quanto à influência exercida pelos Espíritos na convivência com as criaturas humanas, especialmente com aquelas de natureza permissiva e vulgar, cruel e indiferente, em razão do estágio moral em que ainda se encontram.
Pululam em volta do planeta bilhões de seres espirituais em estágio primário de evolução, aguardando ensejo de renascimento carnal, tanto quanto de desencarnados em estado de penúria e de sofrimento que se transformam em parasitas dependentes de energias específicas, que exploram e usurpam dos seres humanos que se lhes assemelham.
Desse modo, aqueles que se sentem prejudicados de alguma forma, têm maior facilidade em imiscuir-se na economia mental e emocional daqueles que consideram seus adversários pelos prejuízos que lhes teriam causado, perseguindo-os de maneira consciente ou não.
Os inimigos desencarnados constituem fator de desequilíbrio na sociedade terrestre que deve ser levado em conta pelos estudiosos do comportamento e das diretrizes sociológicas.
*
O mundo espiritual é preexistente ao físico, real e fundamental de onde vêm as populações humanas e para onde retornam mediante o veículo da desencarnação.
O objetivo essencial da desencarnação é propiciar o desenvolvimento intelecto-moral do Espírito na sua trajetória evolutiva.
Possuindo o psiquismo divino embrionário, em cada etapa do processo de crescimento desdobram-se-lhes faculdades e funções adormecidas que se agigantarão através dos evos, até que seja alcançada a plenitude.
Não obstante, os atavismos que remanescem como tendências para repetir os gravames e os equívocos a que se acostumaram, exercem maior predominância em a natureza de todos, embora o Deotropismo que o atrai na direção fecunda e original da sua causalidade.
A escolha de conduta define-lhe o rumo de ascensão ou de queda, a fim de permanecer no obscurantismo em relação à verdade ou no esforço dignificante da auto-iluminação.
Quando se esforça pelo bem proceder, prosseguindo na vivência das regras da moral e do bem, libertando-se dos grilhões dos vícios, mais facilmente alcança os níveis elevados de harmonia interior e os planos espirituais de felicidade, onde passa a habitar. Todavia, quando se compromete na ação do mal, é induzido a reescrever as páginas aflitivas que ficaram na retaguarda, resgatando os delitos praticados através do sofrimento ou mediante as ações de benemerência que o dignificam.
Em razão da comodidade moral e da preguiça mental, situa-se, não raro, na incerteza, na indiferença em relação ao engrandecimento ou comprazendo-se nas sensações nefastas, quando poderia eleger as emoções superiores para auxiliar-se e para socorrer aqueles a quem haja prejudicado, reparando os males que foram gerados mediante os contributos de amor educativo oferecidos.
Os inimigos desencarnados, desse modo, vinculam-se aos seres humanos atraídos pelas afinidades morais, pelos sentimentos do mesmo teor, pelas condutas extravagantes que se permitem.
*
Nunca desperdices a oportunidade de ser aquele que cede em contendas inúteis quão perniciosas;
de perder, no campeonato da insensatez, a fim de ganhar em paz interior;
de servir com devotamento, embora outros sirvam-se, explorando a bondade do seu próximo;
de oferecer compreensão e compaixão em todas e quaisquer circunstâncias que se te deparem;
de edificar o bem onde te encontres, na alegria ou na tristeza, na abundância ou na escassez;
de oferecer esperança, mesmo quando reinem o pessimismo e a crueldade levando ao desânimo e à indiferença;
de ser aquele que ama, apesar das circunstâncias perversas;
de silenciar o mal, a fim de referir-te àquilo que contribua em favor da fraternidade;
de perdoar, mesmo aquilo e aquele que, aparentemente não mereçam perdão;
de ensinar corretamente embora predominem a prepotência, e por essa razão mesmo...
Nunca te canses de confiar em Deus, seja qual for a situação em que te encontres.
Vestindo a couraça da fé e esgrimindo os equipamentos do amor, os teus inimigos desencarnados não encontrarão campo emocional nem vibratório em ti para instalar as suas matrizes obsessivas, permitindo-te seguir em paz, cantando a alegria de viver e iniciando a Era Nova de felicidade na Terra.

Joanna de Ângelis
Página psicografada pelo médium Divaldo P. Franco, na sessão mediúnica da noite de 28 de fevereiro de 2005, no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador, Bahia.

20 de fevereiro de 2010

DEPOIS DA MORTE

O homem é um ser complexo. Nele se combinam três elementos para formar uma unidade viva, a saber:
O corpo, envoltório material temporário, que abandonamos na morte como vestuário usado;
O perispírito, invólucro fluídico permanente, invisível aos nossos sentidos naturais, que acompanha a alma em sua evolução infinita, e com ela se melhora e purifica;
A alma, princípio inteligente, centro da força, foco da consciência e da personalidade.
A alma, desprendida do corpo material e revestida do seu invólucro sutil, constitui o Espírito, ser fluídico, de forma humana, liberto das necessidades terrestres, invisível e impalpável em seu estado normal. O Espírito não é mais que um homem desencarnado. Todos tornaremos a ser Espíritos. A morte restitui-nos à vida do espaço.
Que se passa no momento da morte?
Como se desprende o Espírito da sua prisão material?
Que impressões, que sensações o esperam nessa ocasião temerosa?
É isso o que interessa a todos conhecer, porque todos cumprem essa jornada. A vida foge-nos a todo instante: nenhum de nós escapará a morte.
Deixando sua residência corpórea, o Espírito purificado pela dor e pelo sofrimento, vê sua existência passada recuar, afastar-se pouco a pouco com seus amargores e ilusões; depois, dissipar-se como as brumas que a aurora encontra estendidas sobre o solo e que a claridade do dia faz desaparecer. O Espírito acha-se, então, como que suspenso entre duas sensações: a das coisas materiais que se apagam e a da vida nova que se lhe desenha à frente. Entrevê essa vida como através de um véu, cheia de encanto misterioso, temida e desejada ao mesmo tempo. Após, expande-se a luz, não mais a luz solar que nos é conhecida, porém uma luz espiritual, radiante, por toda parte disseminada.
Pouco a pouco o inunda, penetra-o, e, com ela, um tanto de vigor, de remoçamento e de serenidade. O Espírito mergulha nesse banho reparador. Aí se despoja de suas incertezas e de seus temores. Depois, seu olhar destaca-se da Terra, dos seres lacrimosos que cercam seu leito mortuário, e dirige-se para as alturas. Divisa os céus imensos e outros seres amados, amigos de outrora, mais jovens, mais vivos, mais belos que vêm recebê-lo, guiá-lo no seio dos espaços. Com eles caminha e sobe às regiões etéreas que seu grau de depuração permite atingir. Cessa, então, sua perturbação, despertam faculdades novas, começa o seu destino feliz.
A entrada em uma vida nova traz impressões tão variadas quanto o permite a posição moral dos Espíritos.

Extraído do livro “Depois da Morte” de Léon Denis.

19 de fevereiro de 2010

OS ANIMAIS E O HOMEM

O homem é um ser à parte.

Por sua natureza orgânica assemelha-se a um animal, mais do ponto de vista moral distancia-se daquele de forma espetacular.

Os corpos dos animais e do homem são bastante análogos: são seres ocupando uma forma física animados pelo princípio vital.

A natureza propicia aos animais tudo que o homem é obrigado a descobrir com a utilização de sua inteligência, atendendo assim às suas necessidades de conservação. Mas o homem se diferencia dos animais também por possuir uma alma mais evoluída.

O ser humano já passou por várias encarnações e mesmo permanecendo recalcitrante em erros desnecessários consegue ao longo destes anos atingir um progresso coletivo e das sociedades.Sem contar o progresso alcançado pelas diferentes categorias dos mundos, como é o caso de nosso planeta, que, em breve, será um mundo de regeneração.

O homem desenvolve sua inteligência, ainda que em muitas ocasiões movido pelo instinto: nos animais a característica é o domínio do instinto em suas ações: possuem inteligência bastante limitada. Não tendo grande necessidade de comunicação, como o homem, os animais não possuem a linguagem falada com sílabas e palavras, mas, segundo esclarecem os Espíritos Superiores, muitas coisas falam entre si, muito mais do que supomos.

Os animais não gozam do livre arbítrio; possuem, no entanto uma alma, já individualizada, que sobrevive a morte. Sua alma está para a alma humana como está para Deus.

Entre os animais a ternura da mãe por seus filhos tem por base o instinto de conservação, mas no momento em que estiverem em condições de se proteger sozinhos, a mãe inicia a libertação de seus cuidados, abandona-os para que possa cuidar dos novos filhotes que virão.

Equilíbrio e harmonia envolvem os seres e a criação divina num perfeito intercâmbio e interdependência. Assim também ocorre entre os demais reinos da natureza, onde a solidariedade nos processos evolutivos está sempre presente.

È que os Espíritos não se cansam de nos esclarecer.

“Tudo em a Natureza se encadeia por elos que ainda não podeis aprender. Assim, as coisas aparentemente mais díspares têm pontos de contato que o homem, no seu estado atual, nunca chegará a compreender”.

Por um esforço da inteligência poderá entrevê-los; mas somente quando esta inteligência estiver no máximo grau de desenvolvimento e liberta dos preconceitos do orgulho e da ignorância, logrará ver claro na obra de Deus.

Até lá, suas muito restritas idéias lhe farão observar as coisas por um mesquinho e acanhado prisma. Sabei não ser possível que Deus se contradiga e que, na Natureza, tudo se harmoniza mediante leis gerais, que por nenhum de seus pontos deixam de corresponder à sublime sabedoria do Criador.”


S.Xavier
“O Livro dos Espíritos” (592 a 604).

18 de fevereiro de 2010

HÁ QUANTO TEMPO?...

Há quanto tempo não percebes o perfume de uma flor?... Há quanto tempo não encontras tempo para observar o nascer do Sol?... De quanto tempo dispõe para observar um arvoredo, o cantar dos pássaros?... És capaz de perceber o som das águas correndo em um riacho?... Qual a última vez que observaste um céu estrelado e meditaste sobre o que tudo isso significa para ti?...
Será que te consideras parte integrante dessa dinâmica universal?... Será que percebes realmente o significado e a harmonia que reina à tua volta? Esse mundo chega à tua sensibilidade?...
Na maioria das vezes a resposta será não, e estás perplexo em ver o quanto te isolaste de Deus em tua egoística lógica ou em tua falsa idéia de auto-valorização. Observa mais o que anda à tua volta e então te sentirás pequeno e assim te tornarás grande pela retomada de teu ser humilde, pela reintegração a teu Criados. Perceberás então que és responsável por parte desse equilíbrio e desse amor, e só então entenderás a ti mesmo e a teu próximo, entenderás porque todos somos irmãos.

Mensagem do Espírito Lindinalva
A Caridade - Julho de 1990

17 de fevereiro de 2010

ESPAÇO PARA DEUS

Todos nós trazemos na profunda intimidade do ser um amplo espaço reservado para Deus. São muitos, contudo, nos dias que correm, aqueles que julgam poder expulsá-lo daí. Em verdade, é como se Deus se deixasse mesmo expulsar, pois é grande seu respeito pelo nosso livre-arbítrio. E embora ele continue ali mesmo, pois não há como dissociarmo-nos dele, de vez que nada existe senão nele, as coisas se passam como se Deus não existisse mesmo, pelo menos, ali, nos limites daquele território pessoal.
Há uma personagem de Somerset Maugham, creio que em THE RAZOR'S EDGE (O FIO DA NAVALHA), que dá graças a Deus por não mais acreditar nele. Sente-se aliviado, o pobre! E a primeira coisa que lhe ocorre fazer é prestar seu tributo de gratidão a Deus por ter desocupado espaço interior.
Resta, porém, um problema: com o que preencher aquela vastidão íntima que. de repente, parece desértica, árida, morta e empenhada apenas em repetir os ecos de nossa inesperada solidão? Subitamente ficamos sem lastro, como que soltos no tempo e no espaço. sem rumo e sem retorno, livres, sim, de ir para onde quisermos, mas para onde mesmo queremos ir? Livres para fazer o que muito bem entendermos, mas o que é mesmo que estamos pretendendo fazer? O que fazer da "liberdade" recém-adquirida? E será que estávamos presos a alguma coisa antes? Ou era apenas a birra ingênua da criança que ,e solta das mãos da mãe e dá meia dúzia de passos incertos, apenas para saborear uma liberdade que não pode e não sabe como usar e nem para que a deseja?
Em livro denominado CHRISTIANITY AND THE CRISIS (1) publicado em 1933, teólogos e pensadores de formação predominantemente anglicana apresentam uma demorada reflexão, tentando caracterizar as eventuais responsabilidades do Cristianismo na crise em que mergulhara o mundo daqueles tempos, mal saído de uma guerra mundial e às vésperas de outra, ainda mais terrível e assustadora. Será que não tinha a doutrina de Jesus uma contribuição positiva para as mudanças que, evidentemente, a comunidade mundial estava a exigir?
Eram muitas as especulações e as interpretações postas no livro, dado que eram muitas as cabeças a pensar. Talvez por isso, as conclusões foram, a meu ver. desalentadoras, uma vez que o Sr. Arcebispo de York, incumbido de redigi-las, encerra seu texto com uma proposta um tanto romântica, acho eu, de arrependimento, mas que nem a ele próprio parece viável:
- Nem existe qualquer esperança prática - diz ele - de tal arrependimento até que os seres humanos acreditem efetivamente e ajam de acordo com a boa nova a respeito de Deus, segundo a palavra veiculada pelo Cristo.
Como se vê, o problema continuava posto em termos de fé. Mas como posso eu estruturar a minha fé sobre alicerces que, no meu entender, não resistem aos testes mais elementares da racionalidade de que necessito para confiar neles e na fé que me propõem?
Por isso, diferem as minhas conclusões das que propõe o Sr. Arcebispo e, conseqüentemente, minhas opções, tal como as expus, umas e outras, em livro ainda inédito (CRISTIANISMO A MENSAGEM ESQUECIDA). De forma alguma acho que o fracasso deva ser atribuído AO Cristianismo e sim a ESSE Cristianismo que nos está sendo oferecido desde muitos séculos.
E neste ponto, concordo (eliminando os talvez ) com um dos contribuintes do livro, o Dr. A. Herbet Gray, que assim escreve:
- Talvez o Cristo tenha sido largamente incompreendido ao longo de todos esses séculos. Talvez as Igrejas tenham-no deturpado. Talvez o que os seres humanos tenham rejeitado não seja o real Cristianismo do Cristo, mas algo parcialmente falsificado.
Por isso, propõe ele uma volta, sem intermediários, ao Cristo, àquele "profeta campesino que fala mim tom que exige atenção".
Ao lado de muitas outras, vamos encontrar especulações semelhantes em livro bem mais recente, do eminente teólogo católico suíço Hans Küng (2), compreensivelmente em desgraça perante sua própria Igreja por causa de suas idéias não muito ortodoxas.
Após abordar com sensibilidade e inteligência a inquietação mundial em busca de alternativas, Küng parece convicto de que essa procura, que resulta em dramático esvaziamento das Igrejas em geral e não apenas da sita, é motivada pelo pouco que as teologias vigentes têm a oferecer, principalmente aos jovens. As estatísticas são particularmente contundentes neste ponto, muito embora, segundo o Dr. Küng, as hierarquias eclesiásticas não pareçam muito preocupadas com essa fuga maciça.
Mesmo a mim, leitor habitual de tais informes, surpreende-me o vertical mergulho rumo ao zero que se observa nas curas de freqüência reveladas pelo autor. Segundo ele, verificou-se, nos últimos vinte e cindo anos, entre pessoas menores de 30 anos de idade, uma queda de 13 para 2 por cento na freqüência regular aos templos protestantes e de 59 para 14 por cento nus templos católicos. O ilustre teólogo considera alarmantes tais números e o são, de fato e não hesita em atribuir a esse êxodo impressionante, "a muito lamentada perda de sentido e o vácuo de orientação-experimentados pela juventude contemporânea.
- Para muitos críticos da civilização - prossegue ele - esse vácuo de orientação e de identidade é urna das causas da óbvia crise de nossa sociedade.
É certo que o Prot Kung identifica bem as causas e prega-lhes a rótulo adequado, mas devo confessar honestamente, que não encontro nas suas propostas, por motivos igualmente óbvios para mim, remédios aplicáreis ás mazelas que aponta.
E que, a despeito de toda a sua proclamada rebeldia a importantes posturas de sua Igreja, ele continua operando dentro de um contexto pesadamente dogmático quanto a aspectos citais ao entendimento dos mecanismos da vida. A sobrevivência do ser continua posta em termas de fé, ou, no máximo, de esperança. A razão de nossa presença na Terra ainda é questão aberta; a morte, um problema espinhoso que, a seu ver, o próprio Jesus encarou com temores (?!), ao queixar-se do abandono a que havia sido relegado pelo Pai; a ressurreição do Cristo, ainda um enigma e uma exceção, não a regra; a existência terrena, uma só; o mundo póstumo, um denso mistério especulativo; a doutrina da graça persiste.
Como poderia um pensador cercado de tantas inibições propor soluções compatíveis corri a complexidade e profundidade da crise contemporânea, que transcende dogmas e ignora especulações filosóficas? Que sugestões oferecer ao jovem que busca alternativas para os regimes políticos vigentes. para a cultura, os costumes, a economia. e para a própria religião?
Se a vida é só isto aqui e ninguém lhe assegura e demonstra uma existência póstuma, que resta ao j jovem senão tentar tirar a máximo proveito desta única que ele conhece?. Dar :r sofreguidão pelo prazer, sela dual for o seu custo em termos materiais. morais, de saúde e paz interior. É tal como dizia Paulo. o primeiro e mais esquecido teólogo cristão: se a vida é só isto que se vê, então comamos e bebamos despreocupadamente, pois a morte está logo ali, à nossa espera, para levar-nos de volta ao nada, de onde viemos.
- A nossa sociedade - escreve um jovem citado por Küng - oferecer-me apenas os familiares e surrados caminhos e me concede a "liberdade” de escolher um deles. Mas eu não quero, nem estou em condições de levar uma vida pré-programada, com um dia de oito horas, seguro de vida, promoção e aposentadoria; quero, de fato, viver a minha vida.
E, para concluir, mais adiante, a razão de tudo isso:
- Esta é a minha única vida.
Pois não é. E isto faz uma brutal diferença. Nós, os que nos situamos num contexto ideológico em que o conceito das vidas sucessivas é um dos seus predominantes princípios ordenadores. nem nos damos conta do quanto isso é vital para exata avaliação das opções que temos diante de pós, dado que viver é escolher. Não há como exigir ou esperar de uma pessoa enjaulada no conceito da unicidade da vida, que tenha uma visão ampla e equilibrada dos seus encaixes nas engrenagens dessa mesma vida. Falta-lhe perspectiva, é exígua demais a sua paisagem e, por isso, angustiante. É certo que a fé ou a esperança numa existência futura, ou melhor, na continuidade da vida, podem proporcionar alguns dados para um planejamento mais inteligente de nossos atos, mas o que realmente decide aqui é a c convicção da sobrevivência não a hesitante expectativa. Essa é a idéia básica que retira da morte o seu aguilhão, como está em Paulo, e nos coloca no exato ponto de onde podemos contemplar, com serenidade, mesmo as perspectivas mais remotas que a nossa visão, necessariamente limitada, não possa alcançar.
Sem isso, e programados pela noção de que a vida é só isto aqui, então Indo é válido, em termos de satisfação sensorial. de alienação, de irresponsabilidade. Tudo se pensa e faz com um toque aflitivo de que-me-importismo. Para que tensões, aflições, preocupações, se tudo se resolve com o término da existência física? Para que renúncias, aceitações relutantes e sacrifícios anônimos? Por que a dor?
E é assim que se tenta, desesperadamente, preencher o vasto espaço que se abre, quando pensamos expulsar Deus pela porta dos fundos. Assusta-nos a solidão, soam soturnamente nossos passos, no silencio que se faz, projetam-se sombras fantasmagóricas em paredes inexistentes, de cada canto escuro espreitam-nos temores desconhecidos e mistérios insondáveis, a própria vida parece tini equívoco, uma vaga piada de mau gosto. Por isso, são tantos os que procuram atordoar-se com sons ensurdecedores, com drogas alienantes, com agressividades assustadoras, com doutrinas alucinantes, com fantasias e fuga, impossíveis.
Não estaríamos vivendo esse momento trágico se a mensagem cristã tivesse sido mantida em todo o vigor da sua pureza primitiva, mas já que o estamos vivendo, é preciso entender que a única saída é por ali através da passagem que nos leva de volta à doutrina universal do amor, posta em ação dentro de um inteligente contexto de racionalidade, em que a fé amadureceu em convicção é e a esperança virou certeza.
Ao contrário do que muita gente está (desastradamente) pensando, não tentos somente uma vida. A morte é apenas mudança de estado e dimensão. Co mo poderia haver morte como extinção da vida se Deus é Vida inextinguível e nele vivemos todos?
Muito bom seria que os que levam uma existência de "faz de conta", questionassem, como Heine, citado, aliás, pelo Prof. Küng:
-Deixe dessas parábolas sagradas e hipóteses pietistas: responda-nos a estas terríveis perguntas... Nada de evasivas, por favor. Por que cambaleiam, em sangue, os homens justos, esmagados sob o peso de suas cruzes. enquanto os maus cavalgam belos corcéis, vitoriosos e felizes, bafejados pela sorte? Quem é culpado disso?. Deus não é poderoso, dotado de um poder revestido de armaduras? Ou será que o mal é de sua própria autoria" Ah, mas isso seria realmente uma vileza? E assim, perguntamos e continuamos a perguntar, até que um punhado de frio barro cale a nossa boca, afinal, com segurança... Mas, por favor, será essa a resposta?
Claro que não, meu caro Heinrich. Você morreu em 1856 e o barro frio não calou a sua boca, você pode continuar falando. Ao tapar-lhe os olhos da carne, a terra iria abriu-lhe o, do espírito para uma insuspeitada realidade, onde os justos não gemem ao peso de suas dores, nem os maus desfilam suas trágicas "vitórias". Agora você sabe. Fale, pois, a sua boca daquilo que está no seu coração.
E se ele houvesse esperado um pouco mais, talvez chegasse a saber, mesmo aqui, deste lado da vida, pois em 1857 no ano seguinte ao da sua partida, apareceu nas vitrines das livrarias parisienses a obra que continha as respostas com as quais sonhara e que até pressentira com a sensibilidade de poeta, mas que não estava encontrando naquilo que lhe diziam ser a mensagem de Jesus, o Poeta Maior do amor universal.
O LIVRO DOS ESPIRITOS foi o título. É que nós, os humanos, nos perdêramos de novo e foi preciso virem os Espíritos nos dizer outra vez aquilo que não tínhamos o direito de ignorar.
Fique, pois, reservado em nós o espaço de Deus. Se não cremos nele. ele acredita em nós. Falemos com ele, pois ele está ali mesmo, e ouve e responde. E exatamente porque ele crê em nós é que traçou nas trilhas cósmicas do infinito um roteiro pontilhado de vidas e mais vidas, até que a gente aprenda a suprema arte de viver. Aí, sim, teremos uma só vida - a eterna, mas mesmo isto será apenas um diferente aspecto da verdade, porque tia eternidade já estamos, enquanto escrevo estas mal traçadas linhas e o leitor as lê...

Bibliografia
1- DIVERSOS - Coordenação de Percv Dearmer CHRISTIANITY AND THE CRISIS, Ed. Victor Gollancz, Londres, 1933
2- Hans Küng - ETERNAL LIFE'' Ed. Collins. Londres e Doubledav, New York, 1984, trad. de Edward Quinn do original alemão EWIGES LEBEN?, Ed. Piper&Co. Munich, 1982

7º Congresso Espírita Estadual - Águas de São Pedro - SP - 22 a 24/Agosto-86
Tema Central: O Espiritismo no Século XX
Hermínio C. Miranda
Revista Internacional de Espiritismo - Julho de 1986

15 de fevereiro de 2010

A MORTE DIVIDE AS FASES DA NOSSA VIDA

"Necessário vos é nascer de novo" (Jesus a Nicodemos)

Entre inúmeros benefícios que decorrem do estudo e da assimilação da Doutrina Espírita, podemos indicar, sem dificuldade, aquele que orienta o homem acerca do milenário problema da Morte.
Inegavelmente, sem qualquer partidarismo, somos levados a compreender que só o Espiritismo estuda o velho problema, com riqueza de pormenores, uma vez que sobre tal assunto muito pouco, ou que nada, disseram as demais religiões, que se limitaram, simplesmente, a admitir e anunciar a existência do Mundo Espiritual.
Sem as consoladores luzes da nossa amada Doutrina, marcharia o homem para o túmulo - diremos melhor; para a Pátria da Verdade - sem idéia segura do que lhe acontecerá após o choque biológico do desenlace.
Nenhuma noção da morte.
Nenhum conhecimento das leis admiráveis que rege a vida no plano espiritual.
Nenhuma informação sobre o que sucede a ama durante e depois da desencarnação.
Em suma, verdadeiro cego, ante o mundo grandioso que o aguarda; um indígena, atônito, perplexo nos pórticos de estranha, quão maravilhosa civilização.
Essa ignorância, praticamente total, a respeito de tão importante problema, é a triste herança de velhas e novas religiões mestras no ocultar e fantasiar a realidade da vida além das fronteiras terrenas.
Religiões que procederam e procedem à maneira dos cronistas sociais modernas: depois eu conto¼
O Espiritismo é profundamente, intensamente realista, tanto nesse como em todos os assuntos de interesse da alma eterna.
Identificando a criatura, sem subterfúgio de qualquer espécie, com os seus postulados, fazendo-a absorver a parcela de verdade que ela suporta, torna-se tranqüila ante a perspectiva da desencarnação.
Não cremos, nem anunciamos um Céu grandioso, adquirível à custa de promessas, espórtulas, louvaninhas ou petitórios, nem um inferna tenebroso, eterno, de onde jamais sairemos.
O nosso conceito a respeito da morte e de suas conseqüências, se alicerça no Evangelho: "A cada um será dado de acordo com as suas obras".
Seria, naturalmente, leviandade afirmarmos que o Espiritismo já revelou, em toda a sua extensão e plenitude, a vida no plano extrafísico.
Expressando, todavia, a misericórdia divina, vem erguendo gradualmente, em doses nem sempre homeopáticas, a cortina que separa o mundo físico do mundo espiritual, consentindo estendamos o olhar curioso, indagativo, sobre o belo panorama da vida além da carne.
O espírita convicto não teme a morte, nem para si nem para os outros, mas procurar cumprir, da melhor maneira possível, apesar de suas imperfeições, imperfeições que não desconhece, os deveres que lhe cabem na erra, aguardando, assim, confiante, a qualquer tempo, hora e lugar, o momento da Grande Passagem.
Não a considera pavorosa, lúgubre, terrificante, tampouco a define por suave e milagrosa porta de redenção e felicidade.
O Espiritismo ensina, com apoio no Cristianismo, que não há das vidas, mas sim duas fases, que se prolongam, de uma só vida.
Se a Doutrina preleciona: "nascer, morre, renascer ainda, progredir continuamente" Jesus notifica a Nicodemos: "necessário vos é nascer de novo".
A uma daquelas fases, dá-se o nome de Etapa Corporal. Vai do berço ao túmulo. À outra, dá-se o nome de Etapa Espiritual. Vai do túmulo ao berço.
A nossa alma é como o Sol, que se esconde no horizonte, ao pôr de um dia, para, no alvorecer de novo dia, retornar pelo mesmo caminho.
A vida, em si mesma, é sublime cadeia de experiências que se repetem, séculos e mais séculos, até que obtenhamos a perfeição.
Maravilhosa cadeia, cujos elos se entrelaçam, se entrosam, se harmonizam, justapostos...
Pensando atuando dentro da conceituação, estranha para muitos, por enquanto, porém muito lógica e racional para nós, sabe o espírita, em tese, o que a Morte, como fenômeno simplesmente transitivo, lhe reservará.
Sabe que o sistema de vida adotado aqui na Terra, o seu comportamento ético, terá justa e equânime correspondência no mundo espiritual que é indefectivamente, um prolongamento do terráqueo.
Boas sementes, bons frutos produzem.
Más sementes, amargos frutos produzem.
Seremos, aqui e em qualquer parte, o resultado de nós mesmos, de nossos atos, pensamentos e palavras, sem embargo da generosas intercessões de amigos que se nos anteciparam na Grande Viagem.
Proporcionando alegria e amparo, alimento e instrução, aqui na Terra, aos nossos semelhantes, a Lei nos assegurará, no Plano Espiritual, instrução e alimento, amparo e alegria.
Tais noções, hauridas no Espiritismo, tornam o homem mais responsável e mais cuidadoso, mais esclarecido e mais consciente, compelindo-o a passos mais seguros, dentro da Vida - em suas duas faces - para que a Vida lhe sorria, agora e sempre.
Evidentemente, sem subestimar, nem sobreestimar a morte, o espírita caminha, luta, sofre, trabalha e evolui conscientemente, na direção do Infinito Bem, felicidade, os renas cimentos, sucessivos a que se referiu Jesus, no diálogo com Nicodemos.
 

13 de fevereiro de 2010

RAUL TEIXEIRA E O CARNAVAL

ME – O que significa para você o carnaval, diante do mundo?
RT – Valendo-me da expressão de um benfeitor Espiritual, direi que, para mim, o Carnaval é aquele fruto apodrecido, do qual ainda não soubemos retirar a mensagem de advertência, de atenção e vigilância, observando, ao longo do tempo, a semente infeliz que há germinando nas almas incautas, gerando colheitas de decepções e dores de elevada monta.

ME – Como você melhor colocaria o Carnaval: como um mal para o homem que preza a elevação da moral, ou do remédio para o homem asfixiado pelas lutas amargas do cotidiano, necessitado de extravasar seu psiquismo?
RT – Verdadeiramente o Carnaval, como se vem apresentando, representa um mal não apenas para o homem que busca evoluir moral e espiritualmente, como também para os demais ainda apegados às sensações físicas muito mais que às emoções sutis, que só a pouco e pouco o Espírito vai desenvolvendo.
Reconhecemos que a alegria, a descontração, as expansões dos júbilos entre as criaturas humanas funcionam como excelente válvula de escape para as tensões diárias, fomentando a tranqüilização da alma, quanto o reequilibramento das funções psíquicas. Contudo, não é o que estamos observando na estrutura carnavalesca. Encontramos, isto sim, a perversão, a enfermidade espiritual que jorra, absolutizando a loucura que campeia infreada, devassando e infelicitando. Não creio que ao homem mais simples, porém de bom senso, isso lhe pareça extravasamento para os júbilos anelados, senão desbordamento das paixões inferiores que mais fazem amargar seu cotidiano já de si mesmo tão amaro.

ME – Por ser uma festa de cunho material, somos induzidos a pensar que a maioria dos participantes não seja religioso. Dado que o ser humano precisa dissipar as energias acumuladas, não poderíamos, então, classificar o Carnaval como “um mal necessário”, pois, sem ele, que permite extravasar, e sem a religião, que permite equilibrar essas cargas energéticas, os homens, inevitavelmente seriam levados a atitudes agressivas ou neuróticas no dia-a-dia?
RT – A mim me parece que tudo isso não passa de tenebroso sofisma. Vamos por partes, a fim de expressar-me melhor.
O Carnaval não é somente uma festa de cunho material, como se poderia supor. Ele é profundamente espiritual, só que a faixa espiritual em que se situa é a dos Espíritos infelizes que se locupletam com os desejos e usanças daqueles outros que, embora encarnados, ajustam-se aos apelos do Além-infeliz, servindo-lhes de alimárias ou de vasos nutrientes, onde as sombras babejam e triunfam por momentos. Está claro, com isso, que os que se banqueteiam nesse festim, embora se digam religiosos, só o são na fachada. Não aprenderam que não se pode servir a Deus e a Mamon, que ser religioso é assumir um compromisso com a própria consciência. Não foram advertidos pelos seus líderes que tais festividades momescas tiveram seu incremento nas orgias templárias da Velha Roma, do mundo antigo, nas loucuras das homenagens aos deuses Lupércio, Saturno, Baco, etc, ditas festas em que não faltavam luxúria, os excessos de toda ordem, desde o prato às explorações sexuais, determinando a miséria moral e material, como enorme soma de sofrimentos.
Por outro lado, meu companheiro, se me é dito que o Carnaval é o extravasador e que a Religião é equilibrante, creio que, em boa linha, nos quedaríamos com a Religião. Entretanto, a grande parte escolhe a descarga carnavalesca.
O que vemos é que, muito embora se afirme ser o Carnaval um extravasador das tensões, não encontramos diminuídas as taxas de agressividade e de neuroses que infestam nossas cidades, as mais diversas, dando-nos, isso sim, um somatório de violência urbana, de infelicidade familiar como jamais ocorreu no mundo contemporâneo. Creio que devamos repensar a questão do Carnaval, a fim de não desculparmos o que é indesculpável, pelo menos na conotação que se lhe dá atualmente.

ME – No campo físico já conhecemos algumas das conseqüências do “reinado de Momo”, como por exemplo, a proliferação de abortos, o aumento de criminalidade, múltiplos suicídios, o incremento do uso de tóxicos e de alcoólicos, assim como o surgimento de novos viciados, e muitas outras. O que você citaria como conseqüência no campo espiritual?
RT – No hemisfério espiritual encontramos por conseqüências todas decorrentes dos excessos, erros e crimes apontados na sua pergunta. É mais um testemunho de que as “alegrias de Momo” não são tão alegres como parecem e que, ao invés de descontrair, muitos são traídos pela invigilância, pela irreflexão, pela imoderação.

ME – Estaria sujeito às influenciações negativas o indivíduo que, não se integrando aos folguedos, saísse à rua apenas para assistir aos desfiles, ou mesmo para, simplesmente apreciar os acontecimentos?
RT – Os espíritos do Senhor orientam-nos através da Doutrina Espírita que Deus vê as intenções nossas. Jesus Cristo, por seu turno, diz-nos, em Lucas 6:45, que onde estivesse o nosso tesouro, aí estaria o nosso coração, dizendo, sem dúvida, que nos deslocaríamos em espírito para aquilo a que déssemos valor. Há um provérbio popular que prega que quem sai na chuva é porque deseja molhar-se... Entendemos que, se tomamos conhecimento do que está ocorrendo nas ruas e nos clubes, se nos damos conta das nossas próprias tendências pouco recomendáveis, na condição de “homem velho” da referência paulina, há que pensar um pouco, antes de nos expormos às ruas, ainda que seja para assistir.

ME – Como você acha que o cristão-espírita deve proceder diante do companheiro que se mostra favorável ao evento?
RT – Como deve proceder com qualquer um que não nos compartilhe os conceitos e idéias, ou seja, respeitando-o, compreendendo-o, sem, contudo permitir que ele nos “faça a cabeça”, usando uma expressão muito em moda.

ME – Que atitude se poderá tomar para mantermos nossos filhos, ainda crianças, quando não livres da influência, pelo menos livres da fascinação que o Carnaval exerce sobre eles?
RT – Entendamos que a família tem fundamental importância em tudo isso. É a velha questão educacional que vem à tona. Se os pais não freqüentam os festejos carnavalescos, se os pais aproveitam os dias feriados de tais festas para o descanso, para a convivência familiar harmoniosa e boa; se sabem conversar com os pequenos sobre a improcedência de nos arrojarmos a tais loucuras, exemplificando com a própria conduta o que diz, não vemos por que os filhos ficariam fascinados com Momo. Se, mesmo diante do exemplo e dos informes e esclarecimentos eles o desejarem, deverá prevalecer o bom senso dos pais, não o permitindo, até que os pequenos de hoje conduzam as suas experiências de vida, fazendo o que bem entendem, porém, não antes de serem devidamente educados para viverem o bem que todos buscamos.
Muitos pais afirmam que soltaram seus filhos por causa das pressões de vizinhos, de familiares outros, dos colegas, etc. Não se lembram, entretanto, os pais espíritas, que estamos diante dos graves compromissos com Espíritos ligados a nós, pelos vínculos reencarnatórios, e que teremos que prestar contas da orientação e da condução que lhes tenhamos dado, sem que isto pese nos ombros dos demais, pelo menos a princípio. Tomemos por compromisso de honra o conduzimento dos nossos, deixando de lado admoestações e zombarias, motejos e incompreensões, porque somente o tempo dirá do nosso acerto, com o salário da paz e da alegria.

ME – Com relação aos nossos Centros Espíritas, é válido fechar as portas nos dias de Carnaval, ou mudar o procedimento das reuniões?
RT – Realmente seria muito bom se pudéssemos continuar nossas atividades doutrinárias em nossas instituições, exatamente porque são os dias em que mais necessárias se fazem as preces e as vinculações com os Bons Espíritos, por múltiplas razões, bem óbvias, por sinal. Entretanto, não deveremos olvidar que grande parte dos Centros estão em locais de muito movimento carnavalesco e que, ainda que não estejam, os companheiros das tarefas deverão deslocar-se de seus lares, atravessando o tumulto e as dificuldades se ampliam com o risco de variada monta para os passantes. Eis a razão porque, costumeiramente, se interrompem os trabalhos nos Centros Espíritas nesses dias, o que não representa que devamos deixar de orar e vigiarmos, onde e com quem estivermos, servindo como antenas de nobres inspirações e assistência necessárias, como verdadeiros cristãos que desejamos ser.

Fonte: Entrevista ao Jornal Mundo Espírita - Fevereiro/1988

12 de fevereiro de 2010

A MÃO DE DEUS

Conta-se que o conquistador mongol Genghis-Khan tinha como animal de estimação um falcão. Com ele saía a caçar. Era seu amigo inseparável.
Certo dia, em uma das suas jornadas, com o falcão como companhia, sentiu muita sede. Aproximou-se de um rochedo de onde um filete de água límpida brotava.
Tomou da sua taça, encheu até a borda e levou aos lábios. No mesmo instante, o falcão se jogou contra a taça e o líquido precioso caiu ao chão.
Genghis-Khan ficou muito irritado. Levou a taça novamente até o filete de água e tornou a encher. De novo, antes que ele pudesse beber uma gota sequer, o falcão investiu contra sua mão, fazendo com que caísse ao chão a taça e se perdesse a água.
Desta vez o impiedoso conquistador olhou para a ave e falou:
Vou tornar a encher a taça. Se você a derrubar outra vez, impedindo que eu beba, você perderá a vida.
Na mão direita segurando a espada mongol, com a esquerda ele tornou a colocar a taça debaixo do filete de água e a encheu.
No exato momento que a levava aos lábios, o falcão voou rápido e a derrubou.
Ágil como ele só, Genghis-Khan utilizou a espada e, em pleno ar, decepou a cabeça do falcão, que lhe caiu morto aos pés.
Ainda com raiva, ele chutou longe o corpo do animal.
E porque a taça se tivesse quebrado na terceira queda, ele subiu pelas pedras para beber do ponto mais alto do rochedo, no que imaginou fosse a nascente da fonte.
Para sua surpresa, descobriu presa entre as pedras, bem no meio da nascente, uma enorme cobra venenosa. O animal estava morto há tempo, com certeza, porque mostrava sinais de decomposição. O cheiro era insuportável.
Nesse instante, e somente então, o grande conquistador se deu conta de que o que o falcão fizera, por três vezes, fora lhe salvar a vida, pois se bebesse daquela água contaminada, poderia adoecer e morrer.
Tardiamente, lamentou o gesto impensado que o levara a matar o animal, seu amigo.
* * *
Assim muitas vezes somos nós. A Providência Divina estabelece formas de auxílio para nós e não as entendemos. Pelo contrário, nos rebelamos.
Por vezes, a presença de Deus em nossas vidas se faz através dos sábios conselhos de amigos. Contudo, quando eles vêm nos falar de como seria mais prudente agirmos nessa ou naquela circunstância, nos irritamos. E podemos chegar a romper velhas amizades.
De outras vezes, Deus estabelece que algo que desejamos intensamente, não se concretize. Algo que almejamos: um concurso, uma viagem, um prêmio, uma festa, um determinado emprego. É o suficiente para que gritemos contra o Pai, nos dizendo abandonados, esquecidos do Seu apoio.
Raras vezes paramos para pensar e analisar sobre o que nos está acontecendo. Quase nunca paramos para nos perguntar: Não será a mão de Deus agindo, para me dizer que este não é o melhor caminho para mim?
Nada ocorre ao acaso. Tudo tem uma razão de ser. Você nunca se deu conta que um engarrafamento que o detém no trânsito por alguns preciosos minutos, pode lhe impedir de ser participante de um acidente mais adiante?
Um contratempo à saída de casa, que lhe retarde a tomada do ônibus no momento que você planejava, pode ser a mão de Deus interferindo para que você não se sirva daquela condução, para não estar presente no acidente que logo acontece.
Providência Divina. Esteja atento. Busque entender as pequenas mensagens que Deus lhe envia todas as horas.
E não se irrite. Não se altere. Agradeça. A mão de Deus está agindo em seu favor, em todos os momentos, todos os dias.

Redação do Momento Espírita.

8 de fevereiro de 2010

COMEMORAÇÕES DO CENTENÁRIO DE CHICO XAVIER TEM INICIO EM PEDRO LEOPOLDO

O “Projeto Centenário de Chico Xavier”, coordenado pela Federação Espírita Brasileira, foi iniciado com comemorações em Pedro Leopoldo (MG), terra natal do médium. Na manhã do dia 1o de janeiro, houve alvorada com apresentação da Banda da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais, na Praça Chico Xavier. Numa promoção conjunta da Federação Espírita Brasileira e da União Espírita Mineira (UEM), na noite do mesmo dia ocorreu a abertura das comemorações no Centro Espírita Luiz Gonzaga, fundado pelo médium. A Mesa foi coordenada pela dirigente deste Centro, Célia Diniz Rodrigues, ocorrendo apresentação de grupo musical da UEM, prece de abertura por Juselma Maria Coelho (de Belo Horizonte), saudação pelo presidente da UEM,Marival Veloso de Matos, e a palestra proferida pelo presidente da FEB, Nestor João Masotti. Após leitura de poema pelo presidente da UEM, foram lidas as mensagens psicografadas por Wagner Gomes da Paixão: “Mediunidade sublimada”, de Irmão X e “Sob a tutela de Ismael”, de Manuel Quintão, as quais serão publicadas em próximas edições de Reformador. A prece de encerramento, com manifestações de gratidão a Chico Xavier, foi proferida por Jaques Albano da Costa (diretor do Centro-sede de 1971 a 1988). Integraram a Mesa o vice-presidente da FEB Altivo Ferreira, os diretores da FEB Antonio Cesar Perri de Carvalho e João Pinto Rabelo, o presidente da Fundação Cultural Chico Xavier, os presidentes das Alianças Municipais Espíritas das cidades de Pedro Leopoldo e Uberaba, e Wagner Gomes da Paixão.
Na manhã do dia 2 houve uma caminhada, coordenada pelo presidente da Aliança Municipal Espírita de Pedro Leopoldo, John Harley Marques, saindo da Praça Chico Xavier e visitando a Casa de Chico Xavier (sua residência de 1948 a 1958, agora um museu), o Centro Espírita Luiz Gonzaga, o Centro Espírita Meimei (também fundado por Chico Xavier). Neste local, onde estava montada uma mostra de fotos sobre o médium, houve saudação pelo dirigente Eugênio Eustáquio dos Santos e apresentação sobre a campanha publicitária do Centenário e do 3o Congresso Espírita Brasileiro, feita por Ricardo Mesquita, assessor da FEB. Às 18 horas do mesmo dia, os visitantes compareceram à reunião que habitualmente se realiza na Casa de Chico Xavier, e, às 20 horas, ocorreu um sarau musical no Lar Espírita Chiquinho Carvalho, local em que Chico Xavier, muitas vezes, participava da confraternização de passagem de ano. Em vários locais compareceram sobrinhos do homenageado e, neste último evento, esteve presente sua irmã Cidália Xavier de Carvalho. Informações sobre o Centenário de Chico Xavier e o 3o Congresso Espírita Brasileiro:

A PRÁTICA DO ABORTO

“Hoje vim aqui para cuidar de um assunto que me foi incumbido pelos mentores deste trabalho. Estou em tratamento, recuperando-me em uma cidade transitória próxima deste orbe e tive uma experiência de vida que não desejaria para o meu pior inimigo.
Fui uma mulher abastada em minha última existência terrena. Trabalhava meus dons intelectuais de forma digna até parte de minha vida, quando uma oportunidade me acenou para uma situação de mais posses. Só que para isso eu teria que burlar as leis de Deus.
Desempenhava a profissão de enfermeira prática em uma conceituada clínica, numa grande cidade brasileira. Tinha o respeito dos meus colegas, pois naquela época não se dispunha de muitas escolas de enfermagem no país e as profissionais eram respeitadas pela boa prática de sua profissão, adquiridas muito mais pelo dom de que algumas eram aquinhoadas desde a mocidade. Assim foi comigo, que desde cedo manifestei afinidade pela prática do cuidado aos enfermos.
Com mais ou menos 10 anos de vida dedicados à prática do bem, no desempenho de minha profissão com responsabilidade e amor, me deparei com um convite para trabalhar em um serviço particular onde se praticaria o aborto. A princípio aquilo me pareceu estranho, mas logo a oferta de melhores condições de vida material em curto espaço de tempo me fez esquecer os ensinos morais que me foram dados por minha mãe, na sua incansável tarefa de falar do catecismo católico. Lembrei-me de que falara muitas vezes que evitar a vinda de um ser era terrível crime. Entretanto, minha consciência embotou-se deliberadamente pelo amor ao vil metal e logo eu estava morando em grande casa, vivendo uma vida de abastança, proporcionada por ganhos materiais que vinham da prática criminosa.
O dono do estabelecimento deu a mim toda a gerência do negócio e, além de administrar a casa, eu era o principal instrumento da estranha prática. Por mais de quinze anos pratiquei o aborto em milhares de mulheres. Ricas e pobres, jovens e maduras. Todas com a intenção de interromper o santo ato do nascimento. Algumas inconscientes do que faziam, pois eram trazidas por suas mães, senhoras da sociedade, querendo encobrir a vergonha de ver suas filhas gerando filhos de pais desconhecidos e indesejáveis socialmente. A maioria, entretanto, embora casadas, ao cometer o adultério geravam filhos do erro, não querendo com isso manchar seu próprio nome. Achavam que praticando o aborto livrar-se-iam do problema. E assim foi por longos anos.
Um dia, ainda jovem, doença fatal acometeu-me, levando-me ao leito de morte em menos de 5 anos. Durante o tempo em que permaneci doente recebi muita solidariedade dos meus cúmplices, pois nessa vida de marginal eu aquilatara muitos "amigos". Claro, amigos que "amavam-me" porque eu sabia de seus segredos. Em meu desespero por ver próxima a morte, refleti enormemente sobre meus atos. Um dia, gentil senhora, amiga de minha mãe, visitou-me trazendo em mãos um exemplar do Novo Testamento. Ali, aos 47 anos de idade, entrei em contato com o conhecimento da verdade pela primeira vez. Chorei amargamente nos meus últimos dias de vida, pois só vim a despertar para os valores da alma nos últimos 6 meses de minha existência terrena.
Ao deixar o corpo já tinha consciência dos meus débitos e de quanto sofreria no mundo espiritual. E assim permaneci por longos anos, com extremo remorso em meu o peito, envolvida em pesadas nuvens de vibrações deletérias a adornar-me a alma. Por muito tempo permaneci assim. Punia-me por conta de minha grande vergonha. Não compreendia que a minha atitude mental levava-me a ser prisioneira de mim mesma. Orava, mas penitenciando-me, querendo permanecer naquela situação achando que ficaria ali eternamente, a purgar para sempre meu pecado.
Um dia, ao elevar meu pensamento aos céus, vi tênue luz a aproximar-se de mim. Era a senhora que me presenteara com o Evangelho de Jesus. Chorei copiosamente e adormeci ali mesmo para acordar mais tarde em leito limpo e ambiente harmonioso, com ela a velar-me o sono. Chamava-se Dalva. Instruía-me sobre os dons da vida e sobre todas as vidas que havia ceifado irresponsavelmente. Falo a todos desta casa da grande responsabilidade que assumimos ao entrar na vida. Não só o aborto é grave crime mas todos os outros que ferem as leis divinas.
Sofrem os aborteiros como eu, da mesma forma que sofrem os suicidas, os assassinos, os adúlteros, os ladrões. Enfim, os que de uma forma ou de outra fazem deliberadamente o mal para locupletar-se com os bens materiais que ele proporciona. Em tudo está o egoísmo e orgulho da criatura que cava o próprio destino, estimulado pelas tortas linhas de conduta materialista, ensinando que nada mais resta além da morte. Triste engano que leva pessoas como eu a caminhos tortuosos de sofrimentos no futuro". - Um Espírito endividado.

Espírito: Um Espírito endividado
Sociedade de Estudos Espíritas Allan Kardec