31 de março de 2010

RELEMBRANDO KARDEC


O calendário espírita assinala, para hoje, 31 de março, exatos 141 anos da desencarnação de Hyppolyte Léon Denizard Rivail, nosso querido Allan Kardec, insigne codificador da doutrina espírita.

Sua passagem desta para a outra vida se deu na manhã de 31 de março de 1869, entre onze e doze horas, na rua Sainte-Anne, 59, passagem Sainte-Anne, no momento em que atendia a um caixeiro de livraria. Vitimado pela ruptura de um aneurisma, teve morte instantânea.

Nas últimas horas de sua existência, ultimava preparativos de mudança para a Villa Ségur, 39, onde, a partir de 1º de Abril de 1869, fixaria sua residência e o escritório de redação da "Revue Spirite".

O féretro de Kardec, com mais de mil pessoas, saiu em direção ao Cemitério Montmartre, no dia 2 de abril, ao meio dia. Seu corpo foi inumado em uma cova simples.

Discursaram: o vice-presidente da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, Sr. Levent, o célebre astrônomo Camille Flamarion, que fez um relato da veneranda existência do codificador, Alexandre Delanne e E. Muller.

A morte de Kardec foi noticiada pelos jornais de Paris, de diversas outras cidades francesas e pela imprensa do exterior.

CEMITÉRIO PÈRE LACHAISE
Os amigos e a viúva de Kardec, Srª Amélie Gabrielle Boudet, pouco tempo depois, resolveram prestar-lhe homenagem encomendando projeto de um túmulo em forma de dólmen, onde seria colocado seu busto.

Esse tipo de construção, muito difundido em territórios da Europa e do Oriente, era comum nas Gálias, onde, segundo informes dos espíritos superiores, o codificador do espiritismo estivera encarnado séculos antes, ostentando o nome Allan Kardec, pseudônimo adotado para assinar as obras que codificou.

Para tanto, foi escolhido o Cemitério Père Lachaise, uma enorme área verde de Paris com 44 hectares, cinco mil árvores e 50 essências diferentes, anteriormente um parque de jesuítas em estilo francês, que foi transformado em um cemitério-jardim e hoje se inscreve entre as indicadas atrações turísticas da cidade.

O desenho foi do Sr. Sebille e o peso das pedras totaliza mais de trinta toneladas. O busto foi executado em bronze pelo escultor francês Charles-Romain Capellaro.

Em 29 de março de 1870, os despojos de Kardec foram exumados e transferidos para o Père-Lachaise. A inauguração do belo dólmen se deu às duas horas da tarde do dia 31.

Na comovente solenidade, falaram os eminentes vultos do espiritismo da França: Levent, Desliens, Leymarie e Guilbert.

A pedra que encima o túmulo, pesando seis toneladas, traz uma legenda que bem sintetiza os postulados da doutrina espirita: "Nascer, viver, morrer, renascer de novo e progredir continuamente, tal é a Lei".

O TÚMULO MAIS VISITADO
Como dissemos, o cemitério Père-Lachaise é referência turística, ao lado de outros grandes cemitérios de Paris, como Montparnasse e Montmartre. Todavia, nenhum deles tem a fama do Père Lachaise, onde estão sepultadas personalidades famosas, expoentes das ciências, filosofia, religião, política, pintura, escultura, cinema, teatro, literatura, que desencarnaram em Paris, especialmente no século passado, aquele em que Kardec viveu.

Os que visitam Paris, a capital mundial do turismo, têm no famoso cemitério um grande desafio: o de tentar localizar o maior número possível de notáveis que constam no mapa do cemitério, entre elas as de Alfred de Musset, Auguste Comte, Camille Pissarro, Edith Piaf, Claude Bernard, Maria Callas, Oscar Wilde, Théodore Géricault, Frédéric Chopin, Vivant Denon, Gay Lussac, Samuel Hahnemann, Honoré de Balzac, Jean-François Champollion, Jim Morrison, Louis Viscont, Vincenzo Bellini, Luigi Cherubini, Gustave Doré, Molière, La Fontaine, Marcel Proust, Sarah Bernhardt, Simone Signoret, Georges Bizet, Amedeo Modigliani, e dezenas e dezenas de outros vultos de destaque.

E um dos túmulos mais visitados é o de Kardec. Ali, quando se permanece por algum tempo, é possível contatar com pessoas de diversos países, muitos dos quais fazendo suas preces com a mão postada sobre o lado esquerdo do busto do codificador, que apresenta, devido a isso, uma superfície mais polida e brilhante.

Tanto o dólmen de Kardec, como as sepulturas de outros dois grandes vultos do espiritismo francês - Gabriel Delanne e Pierre-Gaetan Leymarie -, no Père Lachaise, estão permanentemente cobertas de flores frescas. Com relação ao de Kardec assim se expressa Jacques Barozzi, autor do "Guide des Cimetières Parisiens": "Fondateur de la doctrine du spiritisme et auteur du Livre des esprits. Sa tombe est la plus visitée et la plus fleurie du Père-Lachaise".

PEQUENA SÍNTESE BIOGRÁFICA
Hippolyte-Léon Denizard Rivail (Allan Kardec) nasceu em Lyon, França, em 3 de outubro de 1804, filho de Jean-Baptiste Antoine Rivail e Jeanne Louise Duhamel.

Em 1815, sua mãe o conduz ao Instituto Pestalozzi, em Yverdon, para os primeiros estudos. A escola de Pestalozzi era uma das mais famosas da época, recebendo alunos de diversos países.

Ali, os meninos estudavam disciplinas de ciências exatas e humanas, segundo o método Pestalozziano, que incluía a auto-avaliação, sem atribuição de notas, recompensas ou lista de classificação, e os alunos que mais se destacavam eram aproveitados para lecionar, o que aconteceu com Denizard Rivail.

Em 1822, o jovem Rivail deixa Yverdon e se estabelece em Paris, onde se dedica ao magistério e escreve diversas obras de cunho educacional.

Seu primeiro livro - "COURS Pratique et Théorique D'ARITHMÉTIQUE" -, segundo o método de Pestalozzi, foi lançado em 1824, quando tinha apenas 18 anos.

Foi premiado em 1831 pela Academia Real de Arras, da qual era membro, pelo seu trabalho sobre a questão: "Qual o sistema de estudos mais de harmonia com as necessidades da época?"

Em 6 de fevereiro de 1832, casa-se com Amélie-Gabrielle Boudet, normalista e professora de Letras e Belas-Artes.Ministrou, no período de 1835 a 1840, em sua própria casa, diversos cursos gratuitos de Química, Física, Anatomia comparada e Astronomia.

Escreveu, dentre outras obras importantes: "Plano proposto para melhoramento da Instrução pública" (1828), "Gramática francesa clássica"(1831), "Soluções racionais das questões e problemas de Aritmética e de Geometria"(1846), "Programa dos cursos usuais de Química, Física, Astronomia, Fisiologia", que lecionava no Liceu Polimático, "Ditados especiais sobre as dificuldades ortográficas" (1849).

O ESPIRITISMO
No final de 1854, quando já tinha cinqüenta anos, o amigo Fortier lhe fala pela primeira vez dos fenômenos espiríticos que pululavam por Paris, sobretudo os fenômenos das mesas girantes. Responde ao amigo "Só acreditarei quando o vir e quando me provarem que uma mesa tem cérebro para pensar, nervos para sentir e que possa tornar-se sonâmbula. Até lá, permita que eu não veja no caso mais do que um conto da carochinha". Todavia, a partir daí começa a se interessar pelo assunto.

Entre 1855 e 1856, participou de muitas reuniões, analisou vários cadernos de mensagens que os amigos lhe apresentaram e, em 18 de abril de 1857, lança a obra básica da codificação "O Livro dos Espíritos", assinando-a, como já assinalamos, com o pseudônimo Allan Kardec.

O Livro dos Espíritos, que é dividido em quatro livros: AS CAUSAS PRIMEIRAS; MUNDO ESPÍRITA OU DOS ESPÍRITOS; LEIS MORAIS E ESPERANÇAS E CONSOLAÇÕES, devidamente ampliados, fizeram surgir as outras quatro obras do pentateuco kardequiano:
A GÊNESE( janeiro de 1868);
O LIVRO DOS MÉDIUNS (janeiro de 1861);
O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO (1864) 
O CÉU E O INFERNO (agosto de 1865).

Além disso, lançou o livro "O QUE É O ESPIRITISMO", em 1859; a REVISTA ESPÍRITA, em 1º de janeiro de 1858 e fundou em Paris, em 1º de abril de 1858, a SOCIEDADE PARISIENSE DE ESTUDOS ESPÍRITAS.

KARDEC, UM ESPÍRITO DE ESCOL
As reverências que devemos a Kardec não estão moldadas pelo fanatismo; ao contrário, o respeito que lhe devotamos estriba-se no sincero apreço, consideração e estima que granjeou ao longo de sua existência imaculada, onde, segundo os historiadores e escritores sérios, jamais se vislumbrou um único arranhão, desde o nascimento, na famosa Lyon, até seu descenso, na celebrada Paris.

Foi um gênio preparado desde a mais tenra idade em todos os ramos do conhecimento, absorvendo brilhantemente os postulados da pedagogia de Pestalozzi, base para o desempenho eficiente dos trabalhos da codificação do Espiritismo, uma empreitada árdua que lhe exigiu trabalho diuturno, paciência, abnegação, coragem e perseverança continua.

O Espiritismo não está personificado em nenhum homem. É obra dos Espíritos Superiores, cuja falange, dirigida pelo Espírito de Verdade, encontrou em Allan Kardec o seu mais abnegado missionário, o esteio na Terra para implementação da nova ordem prometida por Jesus.

Embora tenha contado com o concurso dos médiuns para recepção das mensagens, Kardec foi aquele que ordenou, de forma a tornar facilitado o estudo das verdades espirituais difundidas pelo Espiritismo, transformando em Código as dezenas de brochuras que recebeu dos amigos que o convidaram a participar das sessões espíritas em Paris. Isto significa dizer que Kardec não se prestou a mero papel de "office boy" dos espíritos, levando ao livreiro uma obra pronta para publicação.

Kardec usou seu talento para colocar em ordem as mensagens recebidas; elaborou as perguntas cujas respostas encontrava naquelas orientações superiores; refazia-as pacientemente até que se ajustassem ao comando superior; enfim, não seria para qualquer um a missão de codificar uma doutrina como o Espiritismo, lançando o "Livro dos Espíritos", sua obra basiliar, em apenas dois anos (1855-1857), dominando todo seu conteúdo por antecipação, justamente para poder, pelo método da codificação, tornar a obra dos espíritos fácil e inteligível a todos que buscam seus venerandos ensinos.

O bom-senso é uma das características mais apreciadas em Allan Kardec. Sempre ponderado, disse tudo aquilo que era necessário e nada daquilo que não devia dizer, embora o soubesse, deferindo ao tempo o surgimento das informações adicionais que o amadurecimento estava a recomendar.

Foi humilde, usou o pseudônimo Allan Kardec para não ensejar dúvidas de que o Espiritismo é realmente obra dos Espíritos e não uma concepção humana de Hyppolyte Léon Denizard Rivail, o professor e homem de ciência respeitado, honrado e competente, pinçado pelos amigos de Paris como o estudioso melhor preparado ao estudo dos fundamentos desta doutrina que abalou o mundo, derrotando o materialismo e provando, de forma irretorquível e insofismável: a imortalidade da alma; a reencarnação; a comunicabilidade dos Espíritos; a sublimidade da lei de causa e efeito; a inexorável obrigatoriedade do palmilhar pelas sendas do progresso, sempre em marcha ascensional e a necessidade da prática reiterada da lei de amor e caridade, valioso passaporte à conquista da felicidade que nunca se acaba.

Kardec, obrigado pelo seu exemplo. Que possamos, no dia a dia, lutar para seguir suas pegadas luminosas. Que Jesus, o Mestre de todos nós, o recompense por tudo. Ajuda-nos, Kardec, a honrar a divisa de Cristãos-Espíritas que portamos no peito, inspira-nos na boa obra, única forma que temos para homenagear convenientemente a ti e a Jesus.

Obras consultadas:
OBRAS PÓSTUMAS (Allan Kardec);
ALLAN KARDEC (Zeus Wantuil e Francisco Thiesen);
"LES JARDINS DE PARIS" (Prefeitura de Paris);
"GUIDE DES CIMETIÈRES PARISI-ENS" (Jacques Barozzi).

30 de março de 2010

A MORTE NÃO EXISTE


A morte é uma simples mudança de estado, a destruição de uma forma frágil que já não proporciona à vida as condições necessárias ao seu funcionamento e à sua evolução. Para além da campa, abre-se uma nova fase de existência. O Espírito, debaixo da sua forma fluídica, imponderável, prepara-se para novas reencarnações; acha no seu estado mental os frutos da existência que findou.

Por toda parte se encontra a vida. A Natureza inteira mostra-nos, no seu maravilhoso panorama, a renovação perpétua de todas as coisas. Em parte alguma há a morte, como, em geral, é considerada entre nós; em parte alguma há o aniquilamento; nenhum ente pode perecer no seu princípio de vida, na sua unidade consciente. O Universo transborda de vida física e psíquica. Por toda parte o imenso formigar dos seres, a elaboração de almas que, quando escapam às demoradas e obscuras preparações da matéria, é para prosseguirem, nas etapas da luz, a sua ascensão magnífica.

A vida do homem é como o Sol das regiões polares durante o estio. Desce devagar, baixa, vai enfraquecendo, parece desaparecer um instante por baixo do horizonte. É o fim, na aparência; mas, logo depois, torna a elevar-se, para novamente descrever a sua órbita imensa no céu.

A morte é apenas um eclipse momentâneo na grande revolução das nossas existências; mas, basta esse instante para revelar-nos o sentido grave e profundo da vida. A própria morte pode ter também a sua nobreza, a sua grandeza. Não devemos temê-la, mas, antes, nos esforçar por embelezá-la, preparando-se cada um constantemente para ela, pela pesquisa e conquista da beleza moral, a beleza do Espírito que molda o corpo e o orna com um reflexo augusto na hora das separações supremas. A maneira por que cada qual sabe morrer é já, por si mesma, uma indicação do que para cada um de nós será a vida do Espaço.

Há como uma luz fria e pura em redor da almofada de certos leitos de morte. Rostos, até aí insignificantes, parecem aureolados por claridades do Além. Um silêncio imponente faz-se em volta daqueles que deixaram a Terra. Os vivos, testemunhas da morte, sentem grandes e austeros pensamentos desprenderem-se do fundo banal das suas impressões habituais, dando alguma beleza à sua vida interior. O ódio e as más paixões não resistem a esse espetáculo. Ante o corpo de um inimigo, abranda toda a animosidade, esvai-se todo o desejo de vingança. Junto de um esquife, o perdão parece mais fácil, mais imperioso o dever.

Toda morte é um parto, um renascimento; é a manifestação de uma vida até aí latente em nós, vida invisível da Terra, que vai reunir-se à vida invisível do Espaço. Depois de certo tempo de perturbação, tornamos a encontrar-nos, além do túmulo, na plenitude das nossas faculdades e da nossa consciência, junto dos seres amados que compartilharam as horas tristes ou alegres da nossa existência terrestre. A tumba apenas encerra pó. Elevemos mais alto os nossos pensamentos e as nossas recordações, se quisermos achar de novo o rastro das almas que nos foram caras.

Não peçais às pedras do sepulcro o segredo da vida. Os ossos e as cinzas que lá jazem nada são, ficai sabendo. As almas que os animaram deixaram esses lugares, revivem em formas mais sutis, mais apuradas. Do seio do invisível, onde lhes chegam as vossas orações e as comovem, elas vos seguem com a vista, vos respondem e vos sorriem. A Revelação Espírita ensinar-vos-á a comunicar com elas, a unir os vossos sentimentos num mesmo amor, numa esperança inefável.

Muitas vezes, os seres que chorais e que ides procurar no cemitério estão ao vosso lado. Vêm velar por vós aqueles que foram o amparo da vossa juventude, que vos embalaram nos braços, os amigos, companheiros das vossas alegrias e das vossas dores, bem como todas as formas, todos os meigos fantasmas dos seres que encontrastes no vosso caminho, os quais participaram da vossa existência e levaram consigo alguma coisa de vós mesmos, da vossa alma e do vosso coração. Ao redor de vós flutua a multidão dos homens que se sumiram na morte, multidão confusa, que revive, vos chama e mostra o caminho que tendes de percorrer.

Ó morte, ó serena majestade! Tu, de quem fazem um espantalho, és para o pensador simplesmente um momento de descanso, a transição entre dois atos do destino, dos quais um acaba e o outro se prepara. Quando a minha pobre alma, errante há tantos séculos através dos mundos, depois de muitas lutas, vicissitudes e decepções, depois de muitas ilusões desfeitas e esperanças adiadas, for repousar de novo no teu seio, será com alegria que saudará a aurora da vida fluídica; será com ebriedade que se elevará do pó terrestre, através dos espaços insondáveis, em direção àqueles a quem estremeceu neste mundo e que a esperam.

Para a maior parte dos homens, a morte continua a ser o grande mistério, o sombrio problema que ninguém ousa olhar de frente. Para nós, ela é a hora bendita em que o corpo cansado volve à grande Natureza para deixar à Psique, sua prisioneira, livre passagem para a Pátria Eterna.

Essa pátria é a Imensidade radiosa, cheia de sóis e de esferas. Junto deles, como há de parecer raquítica a nossa pobre Terra” O Infinito envolve-a por todos os lados. O infinito na extensão e o infinito na duração, eis o que se nos depara, quer se trate da alma, quer se trate do Universo.

Assim como cada uma das nossas existências tem o seu termo e há de desaparecer, para dar lugar a outra vida, assim também cada um dos mundos semeados no Espaço tem de morrer, para dar lugar a outros mundos mais perfeitos.

Dia virá em que a vida humana se extinguirá no Globo esfriado. A Terra, vasta necrópole, rolará, soturna, na amplidão silenciosa.

Hão de elevar-se ruínas imponentes nos lugares onde existiram Roma, Paris, Constantinopla, cadáveres de capitais, últimos vestígios das raças extintas, livros gigantescos de pedra que nenhum olhar carnal voltará a ler. Mas, a Humanidade terá desaparecido da Terra somente para prosseguir, em esferas mais bem dotadas, a carreira de sua ascensão. A vaga do progresso terá impelido todas as almas terrestres para planetas mais bem preparados para a vida. É provável que civilizações prodigiosas floresçam a esse tempo em Saturno e Júpiter; ali se hão de expandir humanidades renascidas numa glória incomparável. Lá é o lugar futuro dos seres humanos, o seu novo campo de ação, os sítios abençoados onde lhes será dado continuarem a amar e trabalhar para o seu aperfeiçoamento.

No meio dos seus trabalhos, a triste lembrança da Terra virá talvez perseguir ainda esses Espíritos; mas, das alturas atingidas, a memória das dores sofridas, das provas suportadas, será apenas um estimulante para se elevarem a maiores alturas.

Em vão a evocação do passado, lhes fará surgir à vista os espectros de carne, os tristes despojos que jazem nas sepulturas terrestres. A voz da sabedoria dir-lhes-á: “Que importa as sombras que se foram! Nada perece. Todo ser se transforma e se esclarece sobre os degraus que conduzem de esfera em esfera, de sol em sol, até Deus”. Espírito imorredouro, lembra-te disto: “A morte não existe”.

(Léon Denis - O Problema do Ser, do Destino e da Dor).

29 de março de 2010

PARÁBOLA DO SEMEADOR



Afluindo uma grande multidão e vindo ter com Ele gente de todas as cidades, disse Jesus em parábola:
“Saiu o Semeador para semear a sua semente. E quando semeava, uma parte da semente caiu à beira da caminho; foi pisada, e as aves do Céu a comeram. Outra caiu sobre a pedra; e tendo crescido, secou, porque não havia umidade. Outra caiu no meio dos espinhos; e com ela cresceram os espinhos, e sufocaram-na. E a outra caiu na boa terra, e, tendo crescido, deu fruto a cento por um. Dizendo isto clamou: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
Os seus discípulos perguntaram-lhe o que significava esta parábola.  Respondeu-lhes Jesus: A vós vos é dado conhecer os mistérios do Reino de Deus, mas aos outros se lhes fala em parábolas, para que vendo não vejam; e ouvindo não entendam:”
O sentido da parábola é este:
“A semente é a Palavra de Deus. Os que estão à beira do caminho são os que têm ouvido; então vem o Diabo e tira a Palavra dos seus corações, para que não suceda que, crendo, sejam salvos. Os que estão sobre a pedra são os que, depois de ouvirem, recebem a Palavra com gozo; estes não têm raiz e crêem por algum tempo, mas na hora da provação voltam atrás. A parte que caiu entre os espinhos, estes são os que ouviram, e, indo seu caminho, são sufocados pelos cuidados, riquezas e deleites da vida e o seu fruto não amadurece. E a que caiu na boa terra, estes são os que, tendo ouvido a palavra com coração reto e bom, a retêm e dão frutos com perseverança.”
(Mateus, XIII, 1-9 – Marcos, IV, 1-9 – Lucas, VIII, 4-15.)

A Parábola do Semeador é a parábola das parábolas: sintetiza os caracteres predominantes em todas as almas, ao mesmo tempo que nos ensina a distingui-las pela boa ou má vontade com que recebem as novas espirituais.
Pelo enredo do discurso vemos aqueles que, em face a Palavra de Deus, são “beiras de caminho” onde passam todas as idéias grandiosas como gentes nas estradas, sem gravarem nenhuma delas; são “pedras” impenetráveis às novas idéias, aos conhecimentos liberais; são “espinhos” que sufocam o crescimento de todas as verdades, como essas plantas espinhosas que estiolam e matam os vegetais que tentam crescer, nas suas proximidades.
Mas se assim acontece para o comum dos homens, como para a grande parte de terra improdutiva, que faz arte do nosso mundo, também se distingue, dentre todos, uma plêiade de espíritos de boa vontade, que ouvem a Palavra de Deus, põem-na por obra, e, dessa semente bendita resulta tão grande produção que se pode contar a cento por uma”.
De maneira que a “semente” é a palavra de Deus, Lei do Amor que abrange a Religião e a Ciência, a Filosofia e a Moral, inclusive os “Profetas” e se resume no ditame cristão: “Adora a Deus e faze o bem até aos teus próprios inimigos.”
A Palavra de Deus, a “semente”, é uma só, quer dizer, é sempre a mesma que tem sido apregoada em toda arte, desde que o homem se achou em condições de recebê-la. E se ela não atua com a mesma eficácia em todos, deriva esse fato da variedade e da desigualdade de espíritos que existem na Terra; uns mais adiantados, outros mais atrasados; uns propensos ao bem, à caridade, à liberalidade, à fraternidade; outros propensos ao mal, ao egoísmo, ao orgulho, apegados aos bens terrenos, às diversões passageiras.
A terra que recebe as sementes, representa o estado intelectual e moral de cada um: “beira do caminho, pedregal, espinhal e terra boa”.
Acresce ainda que nem todos os pregoeiros da Palavra a apregoam tal como ela é, em sua simplicidade e despida de formas enganosas. Uns revestem-na de tantos mistérios, de tantos dogmas, de tanta retórica; ornam-na com tantas flores que, embora a “palavra permaneça”, fica obscurecida, enclausurada na forma, sem que se lhe possa ver o fundo, o âmago, a essência!
Muitos a pregam por interesse, como o “mercenário que semeia”; outros por vangloria, e, grande parte, por egoísmo.
Nestes casos não dissipam as trevas, mas aumentam-nas; não abrandam corações, mas endurece-os; não anunciam a Palavra, mas dela fazem um instrumento para receber ouro ou glórias.
Para pregar e ouvir a Palavra, é preciso que não a rebaixemos, mas a coloquemos acima de nós mesmos; porque aquele que despreza a Palavra, anunciando-a ou ouvindo-a, despreza o seu Instituidor, e, como disse Ele: “Quem me despreza e não recebe as minhas palavras, tem quem o julgue; a Palavra que falei, esta o julgará no último dia: Sermo, quem locutus sum, ille judicabit eum in novíssimo dia.” (João, XII, 48.)

Que belíssimo quadro apresenta-se às nossas vistas, quando, animados pelo sentimento do bem e da nossa própria instrução espiritual, lemos, com atenção, a Parábola do Semeador! A nossa frente desdobra-se vasto campo, onde aparece a extraordinária Figura do Excelso Semeador, o maior exemplificador do amor de todas as idades, e aquele monumental Sermão ressoa aos nossos ouvidos, convidando-nos à prática das virtudes ativas, para o gozo das bem-aventuranças eternas!
O Espiritismo, filosofia, ciência, religião, independente de todo e qualquer sectarismo, é a doutrina que melhor nos põe a par de todos esses ditames, porque, ao lado dos salutares ensinos, faz realçar a sobrevivência humana, base inamovível da crença real que aperfeiçoa, corrige e felicita!
Que os seus adeptos, compenetrados dos deveres que assumiram, semelhantes ao Semeador, levem, a todos os lares, e plantem em todos os corações, a Semente da fé que salva, erguendo bem alto essa Luz do Evangelho, escondida sob o alqueire dos dogmas e dos falsos ensinos que tanto têm prejudicado a Humanidade!

28 de março de 2010



Bendito seja nosso Senhor Jesus Cristo! Vim para falar sobre a Fé. A Fé é virtude das mais poderosas que o homem possa ter. Isto, porque a Fé não duvida em momento algum. Ela não questiona, simplesmente sabe e crê. Esta capacidade é algo superior a ser desenvolvido pelos entes humanos. Poucos são os que a têm naturalmente, intuitivamente, por isso, muitos cambaleiam sobre a Terra à busca no que crer, sem um timão que dê um rumo seguro ao barco da vida. A fábula que contarei em seguida, exemplifica o que quero passar aos meus irmãos encarnados.
“A Fé, um dia encontrando-se com a Dúvida, por um caminho da vida, percebendo-lhe o semblante triste, perguntou-lhe: – Por que és infeliz?
A Dúvida, personificação da derrota, lhe respondeu: – Sou tão pequena, que até duvido de minha própria existência!
A Fé, corajosa, replicou: – E porque chegas a duvidar que tu existas, se eu falo contigo e tu me respondes?
A Dúvida, na sua insignificância, rebateu: – Veja bem, o vento pode falar mas, na realidade, apesar do som que emite, ele é oco e sem substância. Com esta resposta tão deprimente e destituída de força, a Fé teve compaixão da Dúvida, aconselhando-a que primeiramente acreditasse em Deus e que, em seguida, experimentasse acreditar que ela era filha deste mesmo Deus e Pai, que a tudo provê na medida certa. Quem sabe se agindo assim, ela se torne mais feliz, pensou a Fé. Porém, a Dúvida dando de ombros e voltando a seguir pela estrada, como a se arrastar, disse por fim: – Deus pode até existir, mas se Ele fosse bom de fato, eu não seria triste e desolada como sou. E foi-se.”
Pois é meus irmãos, assim caminha a humanidade, culpando a Deus por suas dúvidas e incertezas acerca da vida e da morte. Na realidade, cada ser humano é o verdadeiro construtor de seu destino, ou seja, cada pessoa é unicamente vitoriosa ou derrotada por si própria. A responsabilidade sobre o futuro humano não é de Deus. Ele apenas mostra, através de seus mensageiros, como discernir o bom caminho, evitando os atalhos que levam ao sofrimento. Além disso, o Pai Maior nos oferece múltiplas oportunidades de acerto ou de correção dos erros passados. Por isso, nós é que deteremos o mérito ou colheremos os espinhos oriundos das ações que praticamos. A Lei Divina existe com o intuito de corrigir, nunca apenas punir ou castigar. A misericórdia de Deus vai além do que nossos limitados olhos podem alcançar.
Tendes Fé. Experimentai trocar vossos pensamentos de dúvida pela esperança, pois, um dia, a esperança se transformará em certeza, que é a Fé pura e inabalável na vitória sobre as limitações humanas.

Charles
09/05/1995

27 de março de 2010

SOLIDÃO



Declarar de modo geral que o divórcio é sempre errado é tão incorreto quanto assegurar que está sempre certo.
Sofremos de solidão toda vez que desprezamos as inerentes vocações e naturais tendências de nossa alma. Assim que nos distanciamos do que realmente somos, criamos um autodesprezo, passando, a partir daí, a desenvolver um sentimento de soledade, mesmo rodeados das pessoas mais importantes e queridas de nossa vida.
Na auto-rejeição, esquecemos de perceber a presença de Deus vibrando em nossa alma; logo, anulamos nossa força interior. É como se esquecêssemos a consciência de nós mesmos.
Para que nossa essência emerja, é preciso abandonarmos nossa compulsão de fazer-nos seres idealizados, nossa expectativa fantasiosa de perfeição e nosso modelo social de felicidade. Somente assim, exterminamos o clima de pressão, de abandono, de tensão e de solidão que sentimos interiormente, para transportarmo-nos para uma existência de satisfação íntima e para uma indescritível sensação de vitalidade.
A renúncia de nosso eu idealizado nos dará uma sensação de renascimento e uma atmosfera de liberdade como nunca antes havíamos sentido.
O ser idealizado é uma fantasia mental. É uma imitação inflexível, construída artificialmente sobre uma combinação de dois básicos comportamentos neuróticos, a saber: adotar padrões existenciais super-rígidos, impossíveis de serem atingidos, e alimentar o orgulho de acreditar-se onipotente, superior e invulnerável.
A coexistência desses dois modos de pensar ocasiona freqüentes estados de solidão, tristeza habitual e sentimentos mútuos de vazio e aborrecimento na vida afetiva de um casal.
O amor e o respeito a nós mesmos cria uma atmosfera propícia para identificarmos nossa verdadeira natureza, isto é, nossa identidade de alma, facilitando nosso crescimento espiritual e, por conseguinte, proporcionando-nos alegria de viver.
Quase todos nós crescemos ansiosamente querendo ser adequados e certos para o mundo, porque acreditamos que não somos suficientemente bons para ser amados pelo que somos. Por isso, procuramos, desesperadamente, igualar-nos a uma imagem que criamos de como deveríamos ser. O esforço metódico para sustentar essa versão idealizada é responsável por grande parte dos nossos problemas de relacionamento conosco e com os outros.
Entre todos os problemas de convivência, o de casais, talvez, seja um dos mais comuns entre as pessoas. Todavia, todos nós queremos companhia e afeto, mas para desfrutarmos uma união amorosa, madura e equilibrada é preciso, acima de qualquer coisa, respeitar o direito que cada criatura tem de ser ela mesma, sem mudar suas predileções, idéias e ideais.
Os traços de personalidade não são futilidades, teimosia ou manias. Cada parceiro tem seus “direitos individuais” de manter sua parcela de privacidade e preferências.
Para tanto, o diálogo compreensivo, a renúncia aos próprios caprichos, o compromisso de lealdade são fatores imprescindíveis na vida a dois, que não pode permitir a confusão de “direitos individuais” com direitos individualistas, com vulgaridade, com cobrança e com leviandade.
Eis a razão de viver bem consigo mesmo: tudo passa, pois todos somos viajores do Universo, porém só nós viveremos eternamente com nós mesmos.
A complexidade maior das dificuldades nos matrimônios talvez seja a não-valorização dos verdadeiros sentimentos, que força um dos parceiros, ou mesmo ambos, a contrariar sua natureza para satisfazer as opressões, intolerâncias e imposições do outro. Ninguém pode ser feliz assim, subordinando-se ao que o cônjuge quer ou decide.
“...a indissolubilidade absoluta do casamento” (...) “É uma lei humana muito contrária à da Natureza. Mas os homens podem modificar suas leis, só as da Natureza são imutáveis.” (1)
Declarar de modo geral que o divórcio é sempre errado é tão incorreto quanto assegurar que está sempre certo. Em algumas circunstâncias, a separação é um subterfúgio para uma saída fácil ou um pretexto com que alguém procura esquivar-se das responsabilidades, unicamente.
Há uniões em que o divórcio é compreensível e razoável, porque a decisão de casar foi tomada sem maturidade, porque são diversos os equívocos e desencontros humanos.
Em outros casos, há anos de atitudes de desrespeito e maus-tratos, há os que impedem o desenvolvimento do outro. São variadas as necessidades da alma humana e, muitas vezes, é melhor que os parceiros se decidam pela separação a permanecerem juntos, fazendo da união conjugal uma hipocrisia. Em todas as atitudes e acontecimentos da vida, somente a própria consciência do indivíduo pode fazer o auto julgamento e decidir sobre suas carências e dificuldades da vida a dois.
Todos os livros sacros da humanidade têm como máxima ou mandamento o amor. A base de todo compromisso é o amor. O amor enriquece mutuamente as pessoas e é responsável pela riqueza do seu mundo interior.
A estrutura do verdadeiro ensino religioso nos deve unir amorosamente uns aos outros e não nos manter unidos pela intimidação, pelo medo do futuro ou pelas convenções sociais.
O ensino espírita, propagado pelo “O Livro dos Espíritos”, nos faz redescobrir o sentimento de religiosidade inato em cada criatura de Deus. Religiosidade é o que possuía Allan Kardec em abundância, pois enxergava os fatos da vida com os olhos da alma, quer dizer, ia além dos recursos físicos, usando os sentidos da transcendência a fim de encontrar a verdade escondida atrás dos aspectos exteriores.
O eminente professor Rivail entendia que o verdadeiro sentido da religião deve consistir na busca da liberdade, no culto da verdade e na clara distinção entre o temporal/passageiro e o real/permanente.
Estar com alguém por temor religioso é diferente de estar com alguém por amor. Somente o amor tem significado perante a Divina Providência.
Lembremo-nos de que a solidão aparece, quando negamos nossos sentimentos e ignoramos nossas experiências interiores. Essa forma comportamental tende a fazer-nos ver as coisas do jeito como queremos ver, ou seja, como nos é conveniente, em vez de vê-las como realmente são. Assim é que distorcemos nossa realidade.
Não rejeitemos o que de fato sentimos. Isso não quer dizer viver com liberdade indiscriminada e sem controle, mas sim reconhecer o devido lugar que corresponda aos nossos sentimentos, sem ignorá-los, nem tampouco deixá-los ser donos de nossa vida.
Se devemos permanecer ou não ao lado de alguém, é decisão que se deve tomar com espontaneidade, harmonia e liberdade, sem mesclas de medo ou imposições.
 
(1) Questão 697 – Está na lei da Natureza, ou somente na lei humana, a indissolubilidade absoluta do casamento?
“É uma lei humana muito contrária à da Natureza. Mas os homens podem modificar suas leis; só as da Natureza são imutáveis.”

As Dores da Alma - Hammed

26 de março de 2010

POR QUE TE QUEIXAS?


Tuas mãos calejadas testemunham os anos e anos de lutas e decepções!
Não te desesperes, contudo! Olha ali à frente: Milhares e milhares de irmãos nossos que não têm um teto para o merecido repouso...
E, um pouco mais adiante, crianças em tenra idade, catando restos de comida nos lixões da cidade!
Nestas horas de tristeza e dor, lembra-te do querido mestre Jesus que, deixando as fulgurações estelares, veio à Terra para exemplificar o amor e a humildade.
E Ele, caro amigo, sequer tinha uma pedra onde encostar a cabeça!

Cornelius

Como encaram os guias espirituais as nossas queixas?
Muitas são consideradas verdadeiras preces dignas de toda a carinhosa atenção dos amigos desencarnados.
A maioria, porém, não passa de lamentação estéril, a que o homem se acostumou como um vício qualquer, porque, se tendes nas mãos o remédio eficaz com o Evangelho de Jesus e com os consoladores esclarecimentos da doutrina dos Espíritos, a repetição de certas queixas traduz má vontade na aplicação legítima do conhecimento espiritista a vós mesmos.
Pergunta extraída do livro "O Consolador", por Emmanuel, psicografada por Francisco Cândido Xavier

25 de março de 2010

A CRIANÇA OBSIDIADA

“Aliás, não é racional considerar-se a infância como um estado normal de inocência.
Não se vê em crianças dotadas dos piores instintos, numa Idade em que ainda nenhuma influência pode ter tido a educação?
Donde a precoce perversidade, senão da inferioridade do Espírito, uma vez que a educação em nada contribuiu para isso?”
(O Livro dos Espíritos, Allan Kardec questão 199-a.)

Crianças obsidiadas suscitam em nós os mais profundos senti¬mentos de solidariedade e comiseração.

Tal como acontece ante as demais enfermidades que atormentam as crianças, também sentimos ímpetos de protegê-las e aliviá-las, de¬sejando mesmo que nada as fizesse sofrer.

Pequeninos seres que se nos apresentam torturados, inquietos, padecentes de enfermidades impossíveis de serem diagnosticadas, cujo choro aflito ou nervoso nos condói e impele à prece imediata em seu benefício, são muita vez obsidiados de berço. Outros se apresentam sumamente irrequietos, irritados desde que abrem os olhos para o mundo carnal. Ao crescer, apresentar-se-ão como crianças-problemas, que a Psicologia em vão procura entender e explicar.

São crianças que já nascem aprisionadas — aves implumes em gaiolas sombrias —, trazendo nos olhos as visões dos panoramas apa¬vorantes que tanto as inquietam. São reminiscências de vidas ante¬riores ou recordações de tormentos que sofreram ou fizeram sofrer no plano extrafísico, antes de serem encaminhadas para um novo corpo. Conquanto a nova existência terrestre se apresente difícil e dolorosa, ela é, sem qualquer dúvida, bem mais suportável que os sofrimentos que padeciam antes de reencarnar.

O novo corpo atenua bastante as torturas que sofriam, torturas estas que tinham as suas nascentes em sua própria consciência que o remorso calcinava. Ou no ódio e revolta em que se consumiam.

E as bênçãos de oportunidades com que a reencarnação lhes fa¬vorece poderão ser a tão almejada redenção para essas almas cow turbadas.

A Misericórdia Divina oferecerá a tais seres instantes de refa¬zimento, que lhes chegarão por vias indiretas e, sobretudo, reiterados chamamentos para que se redimam do passado, através da resignação, da paciência e da humildade.

Na obra “Dramas da Obsessão”, Bezerra de Menezes narra a vida de Leonel, que desde a infância apresentou crises violentas, evi¬denciando a quase possessão por desafetos do pretérito. Este mesmo Leonel, já adulto e casado, acompanhou a espinhosa existência de sua filha Alcina, que como ele era obsidiada desde o berço.

Crianças que padecem obsessões devem ser tratadas em nossas instituições espíritas através do passe e da água fluidificada, e é imprescindível que lhes dispensemos muita atenção e amor, a fim de que se sintam confiantes e seguras em nosso meio. Tentemos cativá¬-las com muito carinho, porque somente o amor conseguirá refrigerar essas almas cansadas de sofrimentos, ansiando por serem amadas.

Fundamental, nesses casos, a orientação espírita aos pais, para que entendam melhor a dificuldade que experimentam, tendo assim mais condições de ajudar o filho e a si próprios, visto que são, pro¬vavelmente, os cúmplices ou desafetos do pretérito, agora reunidos em provações redentoras. Devem ser instruídos no sentido de que fa¬çam o Culto do Evangelho no Lar, favorecendo o ambiente em que vivem com os eflúvios do Alto, que nunca falta àquele que recorre à Misericórdia do Pai.

A criança deve ser levada às aulas de Evangelização Espírita, onde os ensinamentos ministrados dar-lhe-ão os esclarecimentos e o conforto de que tanto carece.

O número de crianças obsidiadas tem aumentado consideravel¬mente. Há bem pouco tempo chegaram às nossas mãos, quase simul¬taneamente, cinco pedidos de orientação a crianças que se apresen¬tavam todas com a mesma problemática de ordem obsessiva.

Um desses casos era gravíssimo.

Certa criança de três anos e alguns meses vinha tentando o suicídio das mais diferentes maneiras, o que lhe resultara, inclusive, ferimentos: um dia, jogou-se na piscina; em outro, atirou-se do alto do telhado, na varanda de sua casa; depois, quis atirar-se do carro em movimento, o que levou os familiares a vigiá-la dia e noite. Seu comportamento, de súbito, tornou-se estranho, maltratando especial-mente a mãe, a quem dirigia palavras de baixo calão que os pais nunca imaginaram ser do seu conhecimento.

Foram feitas reuniões de desobsessão em seu benefício, quando se verificaram as origens do seu estado atual. Atormentada por muitos obsessores, seu comprometimento espiritual é muito sério.

As outras crianças mencionadas tinham sintomas semelhantes: acordavam no meio da noite, inconscientes, gritando, falando e rindo alto, não atendiam e nem respondiam aos familiares, nem mesmo dando acordo da presença destes.

Todas são menores de cinco anos.

Com a terapêutica espírita completa, essas crianças melhoraram sensívelmente, sendo que três retornaram ao estado normal.

LIVRO OBSESSÃO E DESOBSESSÃO
SUELY CALDAS SCHUBERT

24 de março de 2010

O CRIMINOSO NASCE NO LAR



Formação moral adquire solidez e vitalidade durante período educativo da infância
Violência, do latim violentia, é qualidade de violento; é constrangimento físico ou moral; uso da força; coação, diz o dicionarista Aurélio Buarque de Holanda. Como a violência se apodera de uma pessoa fazendo-a insensível ante o sofrimento alheio? O que leva o ser humano ao crime? De que sentimentos ele se acha possuído quando usando de violência bate, tortura, mata, esquarteja um outro ser humano? Chegar a uma constatação requer muitos estudos, e inúmeros foram os estudiosos da criminologia, da psicologia, da sociologia, da psiquiatria, da antropologia que se entregaram com denodo na busca das respostas a tais indagações.
Como espíritas sabemos que a violência acha-se insculpida no espírito imortal, no ser psíquico, e investindo na educação deste se poderá aniquilar a violência, substituindo-a pela tolerância, compreensão, mansuetude. Ela não está fora do ser, mas dentro dele.
Toda pesquisa que se faça sobre psicologia criminal, fora do Espiritismo, deve ter seu início no estado psicológico do indivíduo. Infere-se daí o quanto é importante lograr-se conhecer a personalidade do delinqüente em todo o seu desenvolvimento psicológico, e também as circunstâncias em que se viu envolvido na vida desde o útero materno. Nós aprofundamos a questão, pois queremos saber sobre o seu passado espiritual.

Desatenção dos pais
Pais desavisados podem estar forjando um criminoso, sem proceder conscientemente.
Eles, em verdade, potencializam o que o espírito (filho) traz de bagagem moral/espiritual de outras reencarnações.
Como se pode, pois, engendrar um criminoso dentro de um lar? São muitos os motivos: dar ao filho tudo quanto quer, desde cedo, a começar na infância. Quando crescer acreditará que o mundo tem a obrigação de satisfazer-lhe as vontades, sem que para isso despenda o mínimo esforço. Quando ele, ainda criança, disser nomes feios ache graça, o que fará com que se sinta interessante. Quando puxar os cabelos de alguém, ache graça, diga “que bonitinho”! Fuja de dar-lhe uma orientação religiosa, deixando que depois de crescido ele próprio escolha. Apanhe, guarde e arrume tudo que ele for deixando jogado pelo chão, dentro de casa. Assim ele acreditará que os outros são os únicos responsáveis pela limpeza e arrumação do ambiente onde vive. Quer vê-lo discutindo, falando em alta voz com os outros, discuta na frente dele, xingue quem lhe contrarie numa discussão. Ponha-lhe ao alcance todo dinheiro que ele precisar. Ele achará que a vida tem de lhe endinheirar sem nada exigir, muito menos trabalhar, esforçar-se para possuir. Satisfaça-lhe todos os desejos, dando-lhe as melhores roupas, calçados, bebidas finas, comida refinadas. Ele se habituará a exigir sempre o melhor, e quando não obtiver... Tome sempre o seu partido quando entrar em choque com vizinhos, amigos, professores, etc. Os outros, para ele, serão sempre os implicantes, os errados. Quando ele se meter num sério problema policial contrate os melhores advogados e faça-lhe ver que é inocente. Culpados são os que o estão julgando. Ao tomar conhecimento de que ele foi visto drogando-se, não acredite. Tudo não passa de intriga dos despeitados. Faça mais e melhor: beba com ele, acompanhe-o ao barzinho da esquina e fique com ele e amigos até altas horas todos os finais de semana. Faça dele um alcoólatra. E não esqueça de ter em casa um bar muito bem provido de bebidas importadas. Compre para ele a moto do momento, a mais incrementada; ele sentir-se-á o “máximo”. Não o induza a respeitar os adultos, com isso ele começará por você, pela mãe e demais parentes. Matricule-o numa academia de lutas marciais dizendo-lhe que está ali para aprender a se defender, é verdade, mas também para bater nos outros. Não o quer ver chegar em casa machucado. Quando se envolver em brigas de gangue ache tudo normal, dê-lhe sempre razão. Ao perceber que ele anda faltando à escola, tirando notas baixas, sem nenhum interesse pelos estudos, considere normal; todo jovem é assim mesmo. Afinal de contas você não quer que ele passe pelo que você passou.

Deveres educacionais
É nos lares de hoje, sim, que se forjam os criminosos de amanhã, quando os pais deixam de cumprir com seus amplos e profundos deveres educacionais para com os filhos.
Em essência somos todos criminosos, assaltantes, ou seja, carregamos uma dose de criminalidade sem tomarmos parte direta, efetiva no assalto, no crime. Sabem quando? Quando deixamos de ajudar os mais pobres; quando nos mostramos orgulhosos, vaidosos e ambiciosos; quando desprezamos as crianças carentes e nada realizamos por elas; quando negamos a mão forte e amiga ao idoso que, fraco das pernas, deseja levantar-se; quando acostumamos nossos filhos com gritos e palavrões, desmerecendo-os diante de outros; quando nem nos tocamos sobre a necessidade de darmos um telefonema a alguém doente; quando não paramos nossas atividades para orar e agradecermos a Deus por tudo que Ele nos dá, e quando não temos tempo de apreciar as belezas da natureza.
Nos muitos instantes bonitos da vida que passam sem que a nossa sensibilidade sinta-se tocada por eles, estamos contribuindo para a criação de um delinqüente, colocando em suas mãos uma arma e em seus pensamentos a vontade de assaltar, roubar, violentar, matar... Toda vez que deixamos de viver o amor ao próximo estamos construindo pessoas frias, indiferentes, criminosas, cruéis... Toda vez que omitimos dizer “eu te amo” anulamos em nós e nos outros o despertar para uma convivência de paz, de solidariedade, da mais legítima fraternidade.
O mundo precisa de amor que partam de corações tangidos pelas suaves melodias encontradas na vivência do Evangelho de Jesus.

Fonte: O Clarim – nov/2005

23 de março de 2010

SINTOMAS DA MEDIUNIDADE


A mediunidade é faculdade inerente a todos os seres humanos, que um dia se apresentará ostensiva mais do que ocorre no presente momento histórico.

À medida que se aprimoram os sentidos sensoriais, favorecendo com mais amplo cabedal de apreensão do mundo objetivo, amplia-se a embrionária percepção extrafísica, ensejando o surgimento natural da mediunidade.

Não poucas vezes, é detectada por características especiais que podem ser confundidas com síndromes de algumas psicopatologias que, no passado, eram utilizadas para combater a sua existência.

Não obstante, graças aos notáveis esforços e estudos de Allan Kardec, bem como de uma plêiade de investigadores dos fenômenos paranormais, a mediunidade vem podendo ser observada e perfeitamente aceita com respeito, face aos abençoados contributos que faculta ao pensamento e ao comportamento moral, social e espiritual das criaturas.

Sutis ou vigorosos, alguns desses sintomas permanecem em determinadas ocasiões gerando mal-estar e dissabor, inquietação e transtorno depressivo, enquanto que, em outros momentos, surgem em forma de exaltação da personalidade, sensações desagradáveis no organismo, ou antipatias injustificáveis, animosidades mal disfarçadas, decorrência da assistência espiritual de que se é objeto.

Muitas enfermidades de diagnose difícil, pela variedade da sintomatologia, têm suas raízes em distúrbios da mediunidade de prova, isto é, aquela que se manifesta com a finalidade de convidar o Espírito a resgates aflitivos de comportamentos perversos ou doentios mantidos em existências passadas. Por exemplo, na área física: dores no corpo, sem causa orgânica; cefalalgia periódica, sem razão biológica; problemas do sono _ insônia, pesadelos, pavores noturnos com sudorese -; taquicardias, sem motivo justo; colapso periférico sem nenhuma disfunção circulatória, constituindo todos eles ou apenas alguns, perturbações defluentes de mediunidade em surgimento e com sintonia desequilibrada. No comportamento psicológico, ainda apresentam-se: ansiedade, fobias variadas, perturbações emocionais, inquietação íntima, pessimismo, desconfianças generalizadas, sensações de presenças imateriais _ sombras e vultos, vozes e toques _ que surgem inesperadamente, tanto quanto desaparecem sem qualquer medicação, representando distúrbios mediúnicos inconscientes, que decorrem da captação de ondas mentais e vibrações que sincronizam com o perispírito do enfermo, procedentes de Entidades sofredoras ou vingadoras, atraídas pela necessidade de refazimento dos conflitos em que ambos _ encarnado e desencarnado _ se viram envolvidos.

Esses sintomas, geralmente pertencentes ao capítulo das obsessões simples, revelam presença de faculdade mediúnica em desdobramento, requerendo os cuidados pertinentes à sua educação e prática.

Nem todos os indivíduos, no entanto, que se apresentam com sintomas de tal porte, necessitam de exercer a faculdade de que são portadores. Após a conveniente terapia que é ensejada pelo estudo do Espiritismo e pela transformação moral do paciente, que se fazem indispensáveis ao equilíbrio pessoal, recuperam a harmonia física, emocional e psíquica, prosseguindo, no entanto, com outra visão da vida e diferente comportamento, para que não lhe aconteça nada pior, conforme elucidava Jesus após o atendimento e a recuperação daqueles que O buscavam e tinham o quadro de sofrimentos revertido.

Grande número, porém, de portadores de mediunidade, tem compromisso com a tarefa específica, que lhe exige conhecimento, exercício, abnegação, sentimento de amor e caridade, a fim de atrair os Espíritos Nobres, que se encarregarão de auxiliar a cada um na desincumbência do mister iluminativo.

Trabalhadores da última hora, novos profetas, transformando-se nos modernos obreiros do Senhor, estão comprometidos com o programa espiritual da modificação pessoal, assim como da sociedade, com vistas à Era do Espírito imortal que já se encontra com os seus alicerces fincados na consciência terrestre.

Quando, porém, os distúrbios permanecerem durante o tratamento espiritual, convém que seja levada em conta a psicoterapia consciente, através de especialistas próprios, com o fim de auxiliar o paciente-médium a realizar o autodescobrimento, liberando-se de conflitos e complexos perturbadores, que são decorrentes das experiências infelizes de ontem como de hoje.

O esforço pelo aprimoramento interior aliado à prática do bem, abre os espaços mentais à renovação psíquica, que se enriquece de valores otimistas e positivos que se encontram no bojo do Espiritismo, favorecendo a criatura humana com alegria de viver e de servir, ao tempo que a mesma adquire segurança pessoal e confiança irrestrita em Deus, avançando sem qualquer impedimento no rumo da própria harmonia.

Naturalmente, enquanto se está encarnado, o processo de crescimento espiritual ocorre por meio dos fatores que constituem a argamassa celular, sempre passível de enfermidades, de desconsertos, de problemas que fazem parte da psicosfera terrestre, face à condição evolutiva de cada qual.

A mediunidade, porém, exercida nobremente se torna uma bandeira cristã e humanitária, conduzindo mentes e corações ao porto de segurança e de paz.

A mediunidade, portanto, não é um transtorno do organismo. O seu desconhecimento, a falta de atendimento aos seus impositivos, geram distúrbios que podem ser evitados ou, quando se apresentam, receberem a conveniente orientação para que sejam corrigidos.

Tratando-se de uma faculdade que permite o intercâmbio entre os dois mundos _ o físico e o espiritual _ proporciona a captação de energias cujo teor vibratório corresponde à qualidade moral daqueles que as emitem, assim como daqueloutros que as captam e as transformam em mensagens significativas.

Nesse capítulo, não poucas enfermidades se originam desse intercâmbio, quando procedem as vibrações de Entidades doentias ou perversas, que perturbam o sistema nervoso dos médiuns incipientes, produzindo distúrbios no sistema glandular e até mesmo afetando o imunológico, facultando campo para a instalação de bactérias e vírus destrutivos.

A correta educação das forças mediúnicas proporciona equilíbrio emocional e fisiológico, ensejando saúde integral ao seu portador.

É óbvio que não impedirá a manifestação dos fenômenos decorrentes da Lei de Causa e Efeito, de que necessita o Espírito no seu processo evolutivo, mas facultará a tranqüila condução dos mesmos sem danos para a existência, que prosseguirá em clima de harmonia e saudável, embora os acontecimentos impostos pela necessidade da evolução pessoal.

Cuidadosamente atendida, a mediunidade proporciona bem-estar físico e emocional, contribuindo para maior captação de energias revigorantes, que alçam a mente a regiões felizes e nobres, de onde se podem haurir conhecimentos e sentimentos inabituais, que aformoseiam o Espírito e o enriquecem de beleza e de paz.

Superados, portanto, os sintomas de apresentação da mediunidade, surgem as responsabilidades diante dos novos deveres que irão constituir o clima psíquico ditoso do indivíduo que, compreendendo a magnitude da ocorrência, crescerá interiormente no rumo do Bem e de Deus.


Manoel Philomeno de Miranda (Espírito)
(Página psicografada pelo médium Divaldo P. Franco, no dia 10 de julho de 2000, em Paramirim, Bahia)

22 de março de 2010

O INGLÊS

Nasci em terras europeias, mais precisamente na Inglaterra. Lá conheci a amargura e a solidão. Rejeitado desde a infância, aprendi a não sonhar. Obter o pão de cada dia era toda a felicidade que poderia conseguir. Tive uma vida indisciplinada e livre. A única lei que conheci e respeitei foi a lei do mais forte. Tal como o abutre à espreita do alimento, eu vivia o dia a dia. A fome era a minha bússola.

Não questionava minha situação, pois já tendo nascido num ambiente miserável, não conhecia outra vida. Mais tarde, passei a observar as crianças abastadas, acompanhadas de suas mães, senhoras de fino trato. Também admirava os homens nobres, que se apresentavam sempre bem arrumados, ostentando uma riqueza inatingível. Desgostava profundamente do inverno, pois o frio era intenso. Resistia às custas de cobertores que roubava, ou que conseguia trocando por pequenos serviços prestados. Cresci de forma vil e ultrajante, sendo repudiado por comerciantes e mal visto pelas pessoas que passavam nas ruas. Praticava pequenos furtos para sobreviver ou mendigava.

Quando atingi a maioridade, fui recolhido à prisão por meus desvios de conduta.

Então, degenerei mais rapidamente. O frio das celas e o gelo dos corações dos guardas faziam piorar meu estado de espírito. Não havia solidariedade alguma. A dor e o sofrimento constantes provocaram uma revolta íntima. Comecei a indagar porque a minha vida era tão difícil. Esta miserável pergunta multiplicou a insatisfação com tudo. Passando a questionar, perdi a defesa natural da inocência e comecei a desejar vingança. Os outros deveriam conhecer o meu sofrer. Não ficaria mais calado, eu revidaria.

Após cumprir a minha pena, voltei a caminhar a esmo pelas ruas. Desta feita, as delinquências que cometia tornaram-se mais graves. Assaltava com estiletes ou facas e intimidava jovens, mulheres e viajantes. Tornei-me um marginal consumado.

Numa noite de nevoeiro, comum em Londres, encontrava-me à espreita de uma nova vítima. Deparei-me com um homem obeso que caminhava lentamente sob a friagem, à distância. Aguardei nas sombras como o lobo espera a presa se aproximar. Surgi da escuridão, despejando várias estocadas no infeliz homem. Queria roubá-lo, mas o sangue que eu nunca havia derramado aterrorizou-me. Corri o quanto pude, desesperado pelo atentado cometido num momento de insânia. Somente quando me faltaram as forças por completo, eu parei. Nos dias seguintes, perambulei atormentado pela imagem sangrenta, que martelava a minha mente sem parar.

Após um curto período em que me desequilibrei por completo, dirigi-me ao rio Tamisa. Do alto da ponte que o atravessa, vislumbrei as águas que refletiam um céu cinzento.

Comecei a chorar. Pensei o quanto eu era um ser miserável e, desta forma, quis punir-me com a morte, acreditando que tudo se extinguiria para sempre. Então, mergulhei e logo bati com a cabeça em algo sólido, mas não perdi os sentidos de imediato, sentindo a água invadir os meus pulmões. Amarga ilusão! A morte veio rapidamente, mas eu continuava vivo em espírito, não percebendo que havia perdido o corpo físico. Na minha mente, as sensações da pancada na cabeça, do sangue a jorrar e do afogamento perduravam. A sequencia da cena do suicídio repetia-se incessantemente. Eu era um pesadelo vivo. Por que não morria de vez?

Num estado de sofrimento muito pior que o de antes, permaneci por longos anos. Não havia meio de parar o processo. A ânsia pelo ar e a dor da ferida aberta eram minhas companheiras inseparáveis. Mas, em um momento de lucidez, clamei pela ajuda divina.

Lembrei-me de Deus porque usava seu Santo Nome para pedir esmolas quando fora mendigo, antes de me tornar um bandido. Não sabia ao certo se Deus existia, porém a quem recorreria?

Tive uma grande surpresa ao ser retirado das águas por mãos generosas, em meio a minha dolorosa aflição. Emocionado e esgotado, deixei-me invadir por um intenso torpor, vindo a desfalecer.

Fiquei por muito tempo num hospital espiritual, recebendo tratamento. Eu tinha muitas crises no princípio, ainda rememorando o suicídio, mas também lembrando o assassinato que cometera. Não tinha muitas esperanças de alcançar o equilíbrio, pois apesar da pequena melhora inicial, estava já estagnado por longo período. Assim, mergulhei de volta à matéria densa, renascendo no Brasil, à busca de lenitivo e regeneração.

Obtive um corpo defeituoso, mas que me foi muito útil para esquecer o passado tenebroso. Minha nova vida foi relativamente curta e sofrida, mas durou o necessário para que eu me reequilibrasse.

Hoje, permaneço à espera de melhor chance na Terra, a fim de desenvolver sentimentos mais nobres e, de fato, evoluir. Já fui informado que quando reencarnar novamente terei que resgatar o assassinato que cometi. Provavelmente terei uma morte abrupta, não sei se da mesma forma que provoquei. Porém, estou consciente da lei de causa e efeito e aceitarei o que Deus me reservar. Tenho conhecimento de que a família que albergará meu espírito é modesta, mas de bons princípios, e me facultará a oportunidade de estudar e ter uma profissão. Agora compreendo as causas das minhas duras provações no passado e pretendo, de forma mais resoluta, cumprir as metas traçadas a fim de melhorar-me.

Jordão
26/04/1995

Mensagem do livro Depoimentos do Além

21 de março de 2010

TRAJETÓRIA DE VIDA

No processo de aprendizado, a pessoa tem momentos de profunda reflexão na busca do significado de sua existência: Quem eu sou? De onde eu vim? Por que estou aqui? Para onde eu vou ?São perguntas cujas respostas são essenciais para o indivíduo deixar de ser passageiro do mundo imediato e se transformar em agente consciente e conseqüente do seu processo de vida, passando, dessa forma, a planejar sua evolução.

A proposta da Doutrina Espírita é tentar fornecer instrumentos e instruções para que se possa compreender e construir a pluralidade de caminhos que compõe a trajetória de vida. Portanto, é fundamental conhecer as alternativas existentes e ter consciência clara ¾ sabedoria — dos caminhos que podem ser escolhidos.

É muito importante, ao se falar em trajetória de vida, conceituar passado, presente, futuro e referencial de vida.

O passado são os acontecimentos vividos, experiências acumuladas. O presente é o que a pessoa é e o que ela faz. Ao agir, o homem faz transformações — "quem não age não é" (Antonio Grimm). O futuro é a expectativa do que a pessoa quer ser.

O presente da pessoa possui suas bases no somatório das suas experiências e vivências, portanto é um resultado único e individual. A observação plena, racional e intensa do presente possui profundo significado para o homem. Viver o presente, analisá-lo, pesquisá-lo é dar a dimensão do Universo à vida do homem (Antonio Grimm).

A Doutrina Espírita promove o processo sustentável de vida por meio do encontro do homem consigo mesmo; ou seja, aquele que vive somente os acontecimentos do passado, ou apenas as expectativas do futuro, não vive o presente, portanto não age e não transforma.

A análise do passado, do presente e do futuro é feita de acordo com determinado referencial de vida. Para a Doutrina Espírita, referencial de vida é um sistema de valores utilizado como parâmetro de avaliação crítica das decisões, das ações e do comportamento.

Pode-se tentar traduzir a idéia de referencial de vida usando o seguinte exemplo: uma pessoa decidiu viajar. Viajar é uma experiência bastante interessante que permite conhecer outros lugares, pessoas e viver momentos novos. Ou seja, viajar é uma oportunidade de aprendizagem. Se esta viagem for planejada previamente, levando-se em conta as experiências anteriores da pessoa, acrescida das suas preferências e tendências atuais, além de se considerar as informações e indicações dos lugares a serem visitados, com certeza a viagem será mais condizente com as expectativas. O planejamento permitirá a escolha de caminhos mais objetivos e, o que é muito importante, servirá como referência caso, por engano, a pessoa saia do trajeto que escolheu. Entretanto, supondo-se que a pessoa não fez o planejamento prévio, deixando para o momento e para o acaso a escolha do caminho a ser tomado, a probabilidade da viagem não ser satisfatória será maior. Corre-se o risco de levar a trajetos perigosos, muitas vezes difíceis e penosos. Todo este cenário pode ser agravado pela falta de um ponto de referência para saber se a pessoa está se aproximando ou se afastando do objetivo desejado.

Dessa forma, a trajetória de vida de um indivíduo pode ser encarada como uma viagem do espírito a várias culturas, lugares, momentos, situações, desafios, funções e oportunidades. A abordagem da vida como trajetória e a utilização do referencial como ferramenta são muito úteis na otimização da evolução de cada pessoa. É importante estar reavaliando continuamente o referencial, transformando-o e corrigindo-o.

O sistema referencial proposto pela Doutrina Espírita traz alguns conceitos tais como: capital de vida, história de vida, inventário de vida, projeto de vida.

Capital de vida é a duração potencial, a quantidade de tempo disponível pelo espírito para construção de sua trajetória no polissistema material.

História de vida é a resultante singular e universal do somatório contínuo de experiências vividas e convividas pelo espírito.

Inventário de vida é o levantamento e avaliação de valores agregados pelo espírito ao longo de sua trajetória; coleção do resultado de suas experiências.

Projeto de vida é a construção da trajetória de vida do indivíduo na expectativa do que ele quer ser - projeto de construção do ser na ação de sua consciência.

O objetivo da vida é a evolução. Como evolução é um processo, a vida é necessariamente aberta, não há destino. A trajetória de vida é construída pela pessoa ao desenvolver os seus potenciais e superar os seus limites.

Resumindo, trajetória de vida é um caminho construído livremente pelo espírito ao interagir de forma consciente e conseqüente consigo mesmo, com os outros, com a natureza, com o Universo.

Fonte: Site da SBEE - http://www.sbee.com.br/

20 de março de 2010

O PODER DA FÉ

A constatação da falta de fé reinante em todos os níveis da vida é um facto de observação diária para qualquer pessoa que se preocupe com o estado actual da humanidade. Falamos não somente da fé divina, mas também da fé humana.

Chegou-se a um tal estado de desânimo, de pessimismo, de descrença das potencialidades da criatura humana, que a maior parte das pessoas não acredita em si própria. Surgem dúvidas quanto à eficácia da bondade e caridade face ao domínio das trevas; qual a utilidade da labuta diária, tantas vezes feita de renúncias e sacrifícios, quando o futuro se apresenta sombrio e inatingível, devido em grande parte às ideias divulgadas pelos profetas da desgraça, que se comprazem em baixar o nível moral e mental de todos os que deles se aproximam; que gosto ou estímulo dá a observação diária dos noticiários do mundo que só apresentam desgraças, crimes, violências, sem que as notícias boas compensem as más (não se faz aqui a apologia de ignorar o estado do mundo só porque ele é desagradável, mas a simples verificação de que o que vende mais é a notícia triste e macabra).

Estamos, é certo, no "fim dos tempos" preditos por Jesus e por todos os profetas antes e depois dele. Mas, reconhecer isso é sinónimo de cruzar os braços e desanimar? Não! Definitivamente não. É agora que nos cumpre trabalhar mais e melhor, fazendo tudo o que estiver ao nosso alcance para levantar a moral da humanidade. E aí cabe um importante papel ao espiritismo como Consolador prometido e ao movimento espírita em particular. É agora o momento ideal para informar as pessoas, não que chegou o "fim dos tempos", mas que se avizinha uma nova era que está ao nosso alcance e em que todos somos chamados a colaborar.

Para mudar este estado de coisas é preciso que o ser humano tenha fé em si próprio. Qualificando a fé como o sentimento inato no homem sobre o seu destino, vemos que ela não se impõe, mas que todos podem adquiri-la em maior ou menor proporção, desde que se mentalizem capazes de uma vontade de querer e acreditem que essa vontade pode realizar-se. Era isto que Jesus referia ao dizer aos apóstolos: "Gente de pouca fé, porque na verdade vos digo que se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: passa daqui para acolá; e ele há-de passar, e nada vos será impossível (Mateus, XVII, 14-19).

Todos temos que acreditar nas nossas próprias forças para vencer as dificuldades, para "mover as montanhas" da indiferença, da angústia, da má vontade, da rotina, das paixões inferiores. A fé traz-nos paciência, calma e o discernimento necessário para enfrentar o futuro, por mais incerto que se apresente. Esta é a fé humana de que precisa toda a criatura.

Se a esta juntarmos a fé divina, que é a alavanca do progresso da humanidade, chegaremos à fé que realiza milagres. Actualmente acreditar em milagres não faz mais sentido, desde que a ciência, principalmente o magnetismo, tem vindo a explicar as leis naturais por que se regem esses factos prodigiosos. Também aí é ainda a fé que, aliada à acção magnética, age sobre o fluido que é agente universal, princípio e causa de todas as coisas.

Quem melhor que Allan Kardec estudou esses fenómenos do magnetismo e que o levaram a concluir: "Eis porque as pessoas que aliam uma fé ardente a uma grande potência fluídica normal podem, pela simples vontade dirigida para o bem, operar esses fenómenos estranhos de cura que antigamente eram considerados prodígios, quando são apenas a consequência de uma lei natural (em "O Evangelho Segundo o Espiritismo", cap. XIX). Desde que se conheça as leis naturais que regem todos os actos da vida, explicando e compreendendo-os, deixa de haver milagres, porque os factos como tal qualificados hoje terão a sua explicação lógica na ciência de amanhã.

A fé é humana e divina. Se todas as pessoas tivessem consciência da força que trazem em si mesmas e se estivessem dispostas a colocar a sua vontade ao serviço dessa força, seriam capazes de operar prodígios que mais não são que o desenvolvimento harmónico e equilibrado das faculdades humanas. Qualquer ser humano que esteja disposto a agir, trabalhando com vontade séria para o bem dos outros, será sempre secundado e ajudado pelos bons espíritos que se preocupam com o destino da humanidade.

Fonte: Revista de Espiritismo nº 40, Julho/Set/1998

19 de março de 2010

O TRISTE BALIDO DA OVELHA DESGARRADA - DOUTRINAÇÃO DE UM ESPÍRITO

O companheiro cuja história nos propomos a reproduzir aqui integrava um grupo de espíritos desencantados (ou assim se apresentavam) com as religiões em geral, embora, contraditoriamente, mantivessem procedimentos ditos religiosos na instituição em que viviam, com pregações, cultos, rituais e estruturas eclesiásticas. (Ver história: Reencontro com Hans)

Era polido, falava pausado e seguro. Comparecia - fez questão de afirmar logo de início - para desculpar-se de .. "alguns senões" de companheiros seus desavisados, que em reuniões anteriores não "tiveram comportamento cavalheiresco" conosco. Parecia preocupado com a imagem de sua instituição que não desejava ser avaliada pela atitude dos ditos companheiros. Afinal de contas, estavam todos "abertos ao entendimento, dispostos e predispostos até a cooperar conosco no que fosse necessário". Ademais, não havia razão alguma para hostilidades, encontramos todos irmãos e havia ideais nobres e dignos de parte a parte, pois nossos objetivos eram análogos, ou seja: o desejo da fraternidade, em nome da caridade e da melhor compreensão quanto à destinação do ser humano, obviamente criado para a grandeza. Apenas nos "separava" - se esse era mesmo o verbo - dizia ainda, era a diversidade de métodos operacionais, pois nós seguíamos caminhos com base numa religião, na qual confiávamos e eles eram "arreligiosos". Mas afinal, somos todos irmãos e nossa destinação final era a mesma, ou seja, a perfeição. Então, para que aquela divisão ideológica? Pelo sentido etimológico, lembrava ele, religião é um processo de religação da criatura com Deus, mas religar como, se o elo com o Criador nunca foi quebrado? Sob certo aspecto, o doutrinador concorda com tal conceituação, porque, na verdade, não há desligamento entre o homem e Deus, mesmo porque nele vivemos e nos movemos, como tão bem ensinava Paulo. Se o vínculo entre Deus e o ser humano se rompesse, este deixaria de ser, pois nada há senão em Deus. Daí, porém, a considerar a prática religiosa desnecessária, vai uma distância enorme, donde se depreende que não estávamos concordando era na conceituação de religião. Entendida a religião como uma estrutura hierárquica, de apoio, e, de outro lado, como um conjunto de rituais, dogmas e sacramentos, realmente, poderíamos até concordar com ele, mas não é disso que cuida o Evangelho do Cristo, que pregou uma ética religiosa e um plano de ação moral consubstanciados na prática universal da doutrina do amor que se transmuta em caridade, tolerância, serviço ao próximo, paciência, etc.

Mas ele não estava disposto a deter-se nesses aspectos que, por certo, considerava irrelevantes. Aliás, afirmava mesmo que "por mais importante que seja o Cristo, ele não está entre a criatura e Deus", ou seja, ninguém precisa ficar na dependência do Cristo para alcançar o reino de Deus. As religiões, a seu ver, prendem a criatura que é, em essência, divina.

De todas as religiões, porém, o Espiritismo era, na sua opinião, "a mais perniciosa", pois é a que mais chama o homem para a sua degradação, para os piores aspectos de sua personalidade, "fixando sua atenção na idéia do erro". A doença, por exemplo, seria um estigma que vinha como provação que era preciso aceitar. Interpelado com dificuldade, pois somente queria falar, concordou que temos, sim, aspectos negativos, mas "desde que alguém atue positivamente, a parte negativa é anulada."

Vemos, pois, que o problema era o mesmo de sempre. Quanto mais profunda a dor, mais aflitivo o passado de culpas e mais angustiosa a expectativa do resgate, mais esses pobres irmãos desarvorados se agarram à trágica filosofia da fuga que ignora deliberadamente a responsabilidade pelas faltas cometidas como se o simples fato de verbalizar o conceito de que somos deuses, nos redimisse, por um passe de mágica, de todas as culpas acumuladas pelos séculos afora. Daí o implacável combate ao Espiritismo, essa doutrina incômoda, que está sempre a nos lembrar nossas imperfeições e, conseqüentemente, o trabalho árduo que nos incumbe fazer para conseguir a realização da paz em nós mesmos. Para isso, há um esquema que vem da identificação da falta, passa pelo reconhecimento de nossas responsabilidades e vai à aceitação da correção de rumos, muitas vezes, mas não necessariamente, dolorosa. Não há como fugir à lei de causa e efeito, de ação e reação, ou seja, ao princípio cármico. Isso é o que mais assusta e acovarda aqueles que se embrenharam tão fundo no cipoal dos erros que não sabem como e nem desejam tentar voltar sobre seus passos em busca do rumo perdido. Vivem, assim, em bolsões de rebeldia, em verdadeiras penitenciárias do medo, onde passam séculos a articular e promover a implantação das mais estranhas filosofias, desde que fiquem por ali mesmo, vivendo uma imitação da vida, adiando o quanto possam o inexorável encontro com a verdade, mais cedo ou mais tarde.

Por isso, quanto mais firme a obstinação em torno desses exdrúxulos conceitos, mais aflitivas as suas angústias, mais paralisantes os seus temores, mais agoniados os seus remorsos, por mais arrogantes e seguros que nos pareçam de início. Pensando em tudo isso é que ouvimos com paciência e atenção, colocando apenas uma ou outra observação ou comentário para dar rumo ao diálogo e aferirmos a profundidade de suas dores. Poucas coisas merecem e precisam tanto do nosso respeito e carinho quanto a dor, especialmente a dor moral.

Esgotado o nosso tempo, vimo-nos forçados a convidar o companheiro a retirar-se, o que ele fez, educadamente, colocando-nos à sua disposição para eventual retomada do diálogo, se ele assim o entendesse.

Como era de esperar-se, tivemo-lo de volta em nossa reunião da semana seguinte. Apresentava-se sensivelmente agitado, aflito mesmo, e a palavra, antes fluente, em frases bem torneadas, era agora gaguejada com esforço.

Queria saber se havíamos meditado acerca das alternativas que nos propusera na semana anterior - mudar a natureza do nosso trabalho, acabar,com o grupo ou, ainda, desenvolver um trabalho conjunto, no qual haveria espaço para eles colaborarem conosco. Que decisão havíamos tomado?

- A decisão é uma só, meu querido - foi a resposta até a de continuarmos a oferecer a você nosso afeto, o nosso respeito, o desejo de uma aproximação e entendimento, Ele rejeitou a contra-proposta com energia: não estava disposto a começar com "panos quentes" e nem com "conversinhas" como aquela, destinadas a "conquistar os tolos e incautos", o que não era, como afirmou, o seu caso.

A certa altura, ressentiu-se do tratamento que lhe dava o doutrinador, tomando a paciência e a voz calma, por superioridade. Protestou energicamente:

- Quero que o senhor me trate como pessoa de certa posição. Como adulto. Não sou um doente, não sou um deficiente não sou um delinquente, nada disso, para ser tratado paternalmente de filho. Não preciso desses termos.

- Desculpe. Foi um lapso de minha parte. Mas você não aceitou também o de irmão. Então, como devo lhe chamar? Se você prega a fraternidade, como recusa o tratamento de irmão:

Vamos conversar com mais calma?

- Eu estou calmo, muito calmo. E lhe digo mais uma coisa: queiram os senhores espíritas ou não, as suas casas vão todas se transformar. Ou os senhores se transformam, ou os espíritas vão sair, porque aqueles que têm mente mais aberta vão sair e vão fundar instituições livres de limitações, livres de dogmas kardecistas, livres, enfim, da canga de que você tem de sofrer porque é carma. Ninguém tem que sofrer, não! que ninguém foi criado para sofrer e o senhor sabe disso.

Na sua opinião, o primeiro passo será dado, substituindo-se intitulações limitadoras como Centro ou Grupo Espírita por Fraternidade Cristã ou Evangélica, ou o que seja. Em seguida, tais Fraternidades se ampliariam em Comunidades e daí por diante, até que, a seu ver, se cumpra o que afirmou o Cristo: um só rebanho e um só pastor. Ele não diz, mas evidentemente, o que pretendem é descaracterizar pouco a pouco a prática espírita, interessando as pessoas em estruturas doutrinárias mais vagas, ou em pesquisas ditas científicas. Tudo serve, contanto que os deixem em paz - se é que essa é a expressão adequada - com as suas tarefas inglórias. O objetivo final é um só: a fuga, pois chega a ser obsessiva a preocupação deles com a responsabilidade cármica que o Espiritismo faz questão de enfatizar no seu contexto doutrinário.

A eles, prossegue, não importam os rótulos, pois aceitam todos aqueles que queiram "desenvolver suas potencialidades". O homem não precisa crescer porque já é grande; ele precisa é desenvolver-se.

- Se o senhor não quer ser grande, se o senhor se compraz em ser pequeno, em humilhar-se, é problema seu! Mas deixe que os outros cresçam!

Como "condutor de almas" ele tem que estar alertado para tais aspectos, mesmo porque conhece todas as religiões e todas são perniciosas, mas o Espiritismo - repete - é das piores, porque "é uma das que mais limitam o homem", é a que aponta o homem e diz: "Você é um joão-ninguém!" Sua exaltação vai num crescendo impressionante e a palavra começa a sair com maior facilidade, em apaixonado tom oratório. "O Cristo não disse que somos deuses?" - O que oferecem àqueles que os procuram - pois diz não fazer proselitismo - é desenvolver as potencialidades de cada um.

Quando o doutrinador o adverte de que está gritando, ele fica um tanto desarmado e reconhece, para logo em seguida, dizer que foi levado àquele entusiasmo pelas observações do próprio doutrinador. É claro que a sua imagem de agora não confere mais com a que procurou revelar nos primeiros momentos de nosso encontro anterior, quando teria vindo principalmente para apresentar-nos suas excusas pelo comportamento inadequado de companheiros seus que anteriormente nos visitaram. Parece falar a um grupo grande de espíritos atentos e repete a sua proposta-chave:

- Eu digo: quem quer aceitar o que falo, que dê um passo à frente. Quem quer aceitar. Eu não digo tem de dar! Quem quer aceitar a libertação, quem quer sair das trevas para a luz, aquele que quiser verdadeiramente conhecer a si mesmo, dê um passo à frente! Aqueles que dão um passo à frente, são os iniciados e passam a ser orientados. Vão para as nossas classes para aprender.

O doutrinador lhe faz um apelo em voz pausada e firme, para que ele se porte com mais serenidade. Ele se tranqüiliza um pouco e, como que se desculpando acrescenta que se deixou levar pelo entusiasmo, pois é um pregador e tem que ser veemente naquilo que diz. Reitera o ponto de vista anteriormente expresso de que não tem interesse em "entrar em contenda" conosco.

- Não quero me envolver com os senhores, porque ... porque ...

Embora não consiga articular o que pensa, não é difícil imaginar o que seja - o verdadeiro pânico em face da dura realidade íntima, da responsabilidade cármica ante o erro cometido, o medo da dor, enfim.

- Eu sei irmão - diz o doutrinador. Desculpe. Não leve a mal a observação que foi apenas para conter um pouco a sua veemência. Acho, e sempre digo isso, que a veracidade, a veemência daquilo que dizemos não está no grito.

O debate continua em torno das mesmas teses por mais algum tempo. Ele é um vivo argumentador, eloqüente expositor e parece legitimamente convicto de sua postura aos que não suspeitam das aflições e angústias que deve carregar nas profundezas do ser. As vezes, temos a impressão de que fala para ouvir seus próprios argumentos e não aqueles que a consciência um tanto dopada pela maciça auto doutrinação procura igualmente colocar, pois é impossível fazê-la calar-se.

A partir de certo momento começa a indução magnética, pois não há como alcançar o núcleo de seus problemas apenas com o diálogo mais ou menos filosófico. Embora resista, como de esperar-se, pouco a pouco vai cedendo, o que percebemos pelos bocejos e pela maior dificuldade em articular o pensamento e em falar. Daí a uns poucos momentos mergulha fundo no sono magnético. A regressão é induzida. Há uma longa pausa e, para surpresa nossa, quando volta a falar expressa-se em perfeito inglês com óbvio sotaque britânico.

É necessário esclarecer aqui que não consideramos o fenômeno como de pura xenoglossia porque a médium conhece bem a língua inglesa e o espírito manifestante encontrou nos seus arquivos mentais condições que lhe permitiram falar a língua que foi a sua naquela existência à qual se achava ali regredido. Estou propondo a expressão xenoglossia pura para conceituar o fenômeno de uso de língua estrangeira quando o médium desconhece a língua na qual o espírito se expressa, o que não é o caso aqui, como vimos. Cabe acrescentar ainda, que o doutrinador também fala fluentemente o inglês e por isso o diálogo que a seguir reproduzimos em português, foi todo em inglês.

- I must perform a service for the Queen - diz ele, com excelente pronúncia e ênfase. ou seja: "Tenho que prestar um serviço à Rainha!

A uma pergunta do doutrinador, esclarece que se trata da Rainha Victoria. (l)

- Que espécie de serviço é esse? - pergunta-lhe o doutrinador.

Ele não parece inclinado, de início, a contar exatamente o que se passou, limitando-se a dizer que se trata de algo sem importância, bobagem (rubbish), mas o doutrinador insiste para que conte mesmo assim, e pergunta:

- Ela pediu a você para fazer alguma coisa?

Longa pausa e, por fim, a mesma palavra: rubbish ...

O que aconteceu? O que você teve de fazer? - Batizar uma criança.

- Você é um sacerdote? Por que parece não gostar da idéia de batizar uma criança?

Ele repete a palavra de sempre: rubbish!

Por que?

- Não acredito nisso.

- Você não acredita? Que sacerdote estranho é você ...

Ele ri, e o doutrinador segue questionando: - De quem é essa criança?

Ele continua desinteressado de contar a história. Queixa-se de que está com a mente confusa.

- Descobri que a criança. .. você sabe. .. A Rainha - diz ele em tom confidencial, como se contasse um segredo terrível - a Rainha não quer que eu batise a criança. Ela quer que eu a faça desaparecer.

- A Rainha Victória? Ela pediu a você para fazer isso?

Que criança é essa? Quem é a mãe dela?

Uma dama de companhia.

- Foi ela quem lhe disse o que fazer com a criança?

- Sim. Ela me disse assim: "A Rainha quer que o senhor preste esse serviço a ela. A Rainha mandou-lhe este dinheiro". E disse: "A Rainha diz que esta criança não pode ... " (viver?) (Pausa) Oh, ... isto tudo ...

Mas o que você fez?

Sabe, eu ... bem ... Eu sufoquei a criança. Você fez isso? E depois ...

Coloquei-a numa cesta e joguei-a no canal que vai dar no rio Tâmisa.

Estou muito admirado de que a Rainha tenha pedido a você para fazer isso. Você tem certeza de que foi ela quem mandou?

- A moça disse que a Rainha mandou. Ela trouxe o dinheiro e trouxe o selo real, por isso pensei que foi a Rainha que mandou.

Mas quem é a mãe da criança? A moça que a trouxe?

-Sim.

-E o pai?

-É um membro do Conselho (de Ministros).

-Você sabe quem é?

-Não. Não lhe perguntei.

-E depois disso o que aconteceu?

-Depois daquilo eu tive de fazer um sermão na igreja.

-Abri, então, o Livro (a Bíblia) e li: "Não matarás!" - E você pregou um sermão sobre esse tema?

- Sim. E eu disse que às vezes temos de matar, em nome de Deus. Sabe, tive aí um problema de consciência, mas eu queria o dinheiro ...

- Era muito dinheiro?

- Quem é você? - pergunta ele, já desconfiado com tantas perguntas.

Sou apenas um amigo. Amigo? Então eu o conheço?

- Talvez.

- Não o conheço! Você não é meu amigo. (Pausa). De nada vale a religião.

- Mas, então, por que você se tornou um religioso?

- Eu tinha de ser.

- Como profissão?

- Eu tinha de ser. Tive de fugir. Fugir de minha terra.

- Você foi infeliz lá?

- Ora, não me pergunte ...

- Por favor, vamos em frente. Conte tudo.

Canterbury.(2)

- Por que você teve de fugir? Você cometeu lá algum erro grave, algum crime ou coisa assim?

- Eu ... Ora, deixa isso pra lá. Sinto como se algo estivesse prendendo minha língua. Não posso faiar ...

- Não. Não há nada prendendo a sua língua. Você pode falar perfeitamente. Vamos, por favor.

- Juliet - diz ele. Uma menina ... Eu a usei. Ela tinha apenas cinco anos, sabe?

Cinco? Cinco anos de idade?

- É. Acharam que eu era um tarado. E você, quantos anos tinha?

- Vinte e cinco.

- E por isso você se tornou um sacerdote?

- Ninguém sabe que não sou um sacerdote de verdade.

- Não tive nenhuma iniciação. Eu queria apenas um lugar para esconder-me.

- Mas você se tornou mesmo um sacerdote?

- Eles me fizeram sacerdote. Eu tinha de fazer todo o trabalho sujo ali. Você sabe ... Todos aqueles nobres, até mesmo sacerdotes, você sabe ... E me diziam: "Isso não tem nada a ver com ... " (religião?). Mesmo porque eu não creio em nada disso. Deus é apenas um nome. Só os tolos acreditam.

- E você? Tornou-se um velho ou morreu jovem? O que aconteceu?

- Fui assassinado. - Como foi isso?

- Sabe, eu tinha minha predileção por meninas ... doze, treze, quatorze anos. E um dia o pai de uma delas me matou.

- E então? O que aconteceu com a sua alma, seu espírito? Alma? Espírito?

- Você não acredita nisso também?

- Não. Acredito no corpo e nos prazeres do corpo. Como é que você foi assassinado e está falando comigo agora?

A pergunta, obviamente, pega-o de surpresa. - É mesmo! Não havia pensado nisso ...

Na pausa que se segue ele parece adaptar-se a esta nova e sensacional idéia de que continua vivo depois de "morto". Sua reação, afinal, é de alegria. Ri de satisfação.

- Puff! Está brincando ... Então, ele apenas pensou que me matou!

- É o que você acha, então? E onde está você agora enquanto fala comigo?

Ele está realmente perplexo. Contempla as mãos da médium, olha em volta de si.

- Eu estava em algum lugar. Eu estava sentado ali vendo todas essas coisas. Agora não sei mais. .. Estou aqui. O que aconteceu comigo? Por que ... Ei! ... Que lugar é este? (Longas e perplexas pausas) Eu não deveria ter me descoberto assim.. (Longo silêncio),

Nesse ponto o doutrinador tenta trazê-lo para o seu contexto atual e lhe pergunta o que acha ele de tudo aquilo e se está entendendo melhor as coisas agora. Ele assume sua postura normal e parece despertado, embora não o esteja, como veremos a seguir.

- Deixe-me dizer-lhe então. Isto significa que você é um espírito imortal, responsável pelas suas faltas, por seus atos bons ou maus. Que você necessita do perdão divino, mas não apenas isso: que você precisa refazer os seus passos...

- Lembro-me agora. Os demônios...os demônios vieram. " Gente correndo atrás de mim, armados de paus a me baterem, .. E gritavam: .. Assassino! Tarado!" E eu corria e corria e não tinha onde esconder-me.

- Sim, mas afinal você encontrou um lugar onde esconder-se. Onde foi isso?

- Uma caverna...

- Sim, mas você não está mais lá, Onde você está agora?

- Alguém tirou você de lá?

- Não sei,

- Onde você estava antes de vir aqui hoje?

- Eu fiquei Já naquela caverna muito tempo, muito tempo. Tinha medo de sair, Um dia uma menina, eu acho que era Juliet, aquela menina, sabe? Ela veio me buscar, Deu-me a mão e me conduziu não sei para onde, mas ela me guiou para fora dali. Não sei, " Ela me disse: "Vou levar você para dormir, Vou botar você na cama e você vai dormir. E quando acordar, tudo isso terá passado. Você será outro homem, numa nova vida e então você aprenderá a amar."

- Essa é a história toda? Como foi, então, que você foi encontrar-se naquela Fraternidade?

- O que? Que Fraternidade?

Isto quer dizer que ele ainda não venceu o espaço de tempo entre aquela vida tenebrosa na Inglaterra vitoriana e o momento presente, Faz uma longa pausa e repete a palavra misteriosa:

- Fraternidade...

- Você disse que é um pregador que proclama a liberdade do espírito e tem muitos seguidores. Foi o que você me disse, - Não me lembro...

Apesar de aparentemente despertado, ainda se conserva preso às memórias da vida na Inglaterra. O doutrinador lhe transmite, então, a sugestão necessária para trazê·lo de volta ao momento em que ali estamos a falar, conservando, porém, todas as lembranças do que acaba de narrar. Só então ele desperta e assume a sua consciência do momento presente.

A primeira reação é de indignação, que procura expressar, novamente em luta com terrível inibição da gagueira, e novamente em português:

- Ora, isso não quer dizer nada. . . Nada!

- Meu caro irmão. Desculpe. Não nos leve a mal. Aceite nosso respeito pela sua dor.

- Eu não tenho dor! Religiões são coisas sem sentido, ..

- Sim, mas os nossos crimes não são sem sentido, não é?

- Eles nos seguem através da voz de Deus em nós mesmos.

- Não há crimes. Ninguém pode ficar preso a um passado, Precisa libertar·se, sair da caverna do medo para a liberdade, compreende? Engraçado... tenho visão clara de vários episódios de minha vida passada, mas não tinha esse fato ... Sabe? Eu vou lhe dizer: fui daqueles... numa vida ... engraçado! Estou vendo agora! Fui um daqueles homens do Norte (Nórdicos), sabe? que vinham nos barcos. .. e saqueavam cidades ...

- E na Alemanha?

- Alemanha? (Pausa) Eu agora vejo que daí para traz sempre fui um homem ... digamos... de ação. Não um homem necessariamente violento. Fui um "Alderman". Sabe o que é um "Alderman"? (3)

- Onde você vivia? Você era, então, um homem de respeito e merecia a estima da comunidade.

- Eu era um "Alderman" - repete ele. Onde? Não estou conseguindo me lembrar.

- Em que época foi isso? Quem você conheceu lá? Quem era o seu rei?

- Está tudo confuso. Você fala em rei, mas quando fui um Alderman, eu mandei queimar vários ... eh, eh, eh. " sabe? aqueles ... Mandei queimar casas e todas as pessoas que me negavam o imposto que era de direito.

- Meu querido irmão. Não queremos, por favor, que você se deixe levar pelo desalento em face dessas dores tão profundas que traz no seu espírito. Queríamos apenas chamar a sua atenção.

- Que realidade pode ter uma religião, quando o homem precisa é de viver, quando tem de se alimentar, vestir-se e prover a todas as suas necessidades? Se houvesse realmente uma divindade como querem fazer crer, o homem não precisaria disso. Teria todas as suas necessidades providas e atendidas.

- Você, então, não acredita em Deus. Como que você foi criado? Quem sustenta a chama de sua inteligência? Você não tem amor no coração, meu querido irmão?

Nesse ponto ele leva terrível e inesperado choque ante uma visão que o põe realmente desesperado, a gritar de espanto, de dor, literalmente arrasado.

- Que horror! - consegue dizer, enfim. Não! Não! Que horror! Tirem essas imagens daqui da minha frente! Não! Não pode ser .. Que vocês estão fazendo? Por favor, tirem essas imagens da minha frente. Nãããão! Isso não pode ser verdade! Sabe o que puseram aqui na minha frente? Eu, quando fui um Alderman .. (Arrebenta, afinal, o pranto agoniado, terrível, incontrolável, que mal permite que ele fale, mesmo aos arrancos). Quando fui um Alderman - repete - tive uma família e tive uma filha .. , E agora me mostram que foi esta filha que eu violentei e sacrifiquei aos cinco anos na outra existência! Não! Isto é muito horror! Eu tinha uma vida pervertida na Alemanha e a única coisa sagrada era esta criança. E agora me mostram que ela veio para me despertar o sentimento, para que eu me libertasse e eu a matei! Oh, foi horrível. .. foi horrível... Eu falhei. .. Que horror! Que arquivo maldito é este que se revela ... ? E sabe o que vejo agora? Aquela outra criança que botei na cesta, tinha sido uma de minhas vítimas do passado. E foi levada para que eu lhe desse proteção, e eu ...

O doutrinador interrompe-o na tentativa de fazer parar por um momento que seja aquele dramático relato de horrores, mas ele prossegue inexorável:

- Que sou eu? Um homem? Um monstro? Ou uma fera selvagem? No que me transformei e como pretendia dirigir almas? Eu, um réprobo! Eu ... eu ... eu ... É para isso que Deus existe? Para criar monstros? Ou será que eu fui uma aberração da criação?

- Nem uma coisa nem outra. Você errou gravemente, como você mesmo está reconhecendo hoje. Isto não quer dizer que você deixou de ser um filho de Deus. Não quer dizer que não tenha oportunidades de recuperação, mas é claro, meu querido, se voce insistir em permanecer no erro, quando é que vai começar a reconstuir a sua vida?

- Você acabou comigo! Você vibrou-me um golpe por baixo, tirou-me dos pés o chão. Você sabe o que eu fiz? Eu estava com todas as antenas de lá ligadas aqui para me ouvirem e você fez com que essas coisas fossem reveladas. (Pausa) Diga-me uma coisa: que posso eu querer de um Deus que me permitiu fazer o que fiz? Como posso crer num Deus que cria monstros como eu? Eu escarneço mesmo, eu zombo, eu o destruo. Por que essa imagem ... não pode, não ...

- Deus cometeu os erros por você? Você pode fazer o bem também; por que não o faz? A opção é sua, você é o pregador da liberdade, meu querido irmão. E eis aí a liberdade de - agir. Você teve exemplos dramáticos disso nas suas vidas. Você recebeu espíritos para proteger, para amar, para encaminhar e trucidou-lhes os corpos.

- Mas a culpa não foi minha porque se você manda uma criança para uma fera sem antes ter-lhe cortado as garras e arrancado os dentes, que você quer senão que ela seja destruída? Por que as mandaram? Por que? Se Deus me conhece, se Deus sabia, por que não me cortou as garras?

- Escuta: Deus não vai lhe arrancar à força do local onde você se encontra agora. Você terá que sair de lá por seus próprios pés. Você quer sair?

- Não. Quero ficar. Não há lugar para mim. E o pior é que você me tirou de lá o lugar. Agora terei que voltar para outra caverna e meter-me lá, até quando?

- Não, meu querido. Isso não é verdadeiro. Você não precisa voltar para caverna alguma. Vamos propor uma coisa. Em primeiro lugar: dê-nos uma oportunidade de lhe ajudar. Fique conosco algum tempo, procure tranqüilizar-se, meditar sobre tudo isso para que você possa resolver com calma (o que tem a fazer).

- O que vocês fizeram comigo? De repente, é como se ...

- Não sei. .. eu... Não sei o que vocês fizeram comigo. Vocês me prenderam ...

Nesse ponto, o querido irmão é adormecido e retirado.

As lições que esse terrível episódio deixou conosco são dramáticas e inesquecíveis. Em primeiro lugar, na reiteração do sutil e complexo mecanismo da fuga: para tornar tolerável à convivência consigo mesmo, o espírito como que lacra num compartimento indevassável da memória a lembrança dos crimes mais hediondos que tenha cometido. Isto é conseguido, usualmente, por hábeis manipuladores da hipnose que criam bloqueios de dificílima remoção em torno de lembranças penosas como aquelas. Tais infelizes são recolhidos como verdadeiros farrapos humanos nos mais excusos porões da espiritualidade e trazidos para organizações como aquela de que cuidávamos no momento, onde os réprobos de muitos crimes se reúnem acovardados perante a enormidade de seus erros e assustados ante a perspectiva do resgate que os aguarda inexoravelmente. Alí todos encontram uma filosofia de vida que consiste basicamente em ignorar o passado e convencer o homem de que, tendo em si uma centelha divina - o que é verdadeiro - ele é também um deus e que, portanto, não precisa nem do próprio Deus, quanto mais do Cristo, para ajudá-lo nas dificuldades da redenção espiritual.

Outro aspecto importante aqui: o bloqueio da memória neste caso fora tão bem elaborado que ele próprio confessa que embora com acesso a lembranças de tantas vidas, nada sabia daquela durante a qual mais hediondo fora o seu erro. Ficou-nos disso um veemente indício, de vez que foi preciso mergulhá-lo tão fundo nas memórias daquela vida trágica que ele somente soube expressar-se na língua que então foi a sua - o inglês, que, felizmente, conheciam tanto médium quanto o doutrinador.

Ainda um pormenor cujas amplas implicações se percebe de seus comentários finais. Notáramos a eloqüência, a veemência com que se expressava. Parecia falar a uma atenta platéia cativa e de fato o fazia, porque por um processo que às vezes empregam nossos orientadores espirituais, o diálogo manifestante doutrinador estava como que sendo "retransmitido" para a instituição a que o Espírito pertencia. Isto acontece usualmente quando o Espírito que comparece aos nossos trabalhos vem tão convicto de que vai sair-se bem do contacto conosco que deseja que seus companheiros e subalternos assistam ao vivo sua "vitória" sobre os "adversários". Por isso, mantêm-se ligados ao grupo que, ao mesmo tempo, procura proporcionar-lhe "cobertura" e apoio moral. E assim, o dispositivo montado para transmitir o espetáculo de arrasadora batalha verbal, da qual o emissário das sombras voltaria coberto de glórias, converte-se no próprio monumento do que eles entendem como sua perdição.

Uma observação final: não ficou bem claro para nós o papel do nosso caro irmão no seio da Igreja da Inglaterra naquela época. Diz ele que "fizeram-no sacerdote", mas ao mesmo tempo declara que não foi "iniciado". Parece querer dizer que não fora regularmente "ordenado", mas que exercia alí algumas funções sacerdotais, pois até pregava. Deixa entender ainda que era utilizado em certas tarefas excusas por nobres e sacerdotes pouco escrupulosos que sabiam, por certo, da sua própria ausência de escrúpulos. Tudo isso, afinal de contas, com trágica conseqüência da sua total descrença em Deus e da ausência do amor em seu coração empedernido. É impressionante a minuciosa frieza com que narra suas escabrosas aventuras, tanto quanto foi dramática a explosão do seu desespero ao acordar para aquela realidade quase insuportável das suas angústias até então aprisionadas nos subterrâneos mais profundos da memória.

E, por fim, a reiteração de um constante ensinamento: o de que a misericórdia de Deus é infinitamente maior do que a enormidade de nossos crimes e de que o Cristo vai mesmo buscar a ovelha extraviada, onde quer que esteja, sejam quais forem suas condições, tão logo ouça à distância, o balido aflito do ser que se perdeu no espinheiro e quer voltar e não sabe por onde ..

NOTAS:
1- VICTORIA
Rainha da Inglaterra de 1837 a 1901, nasceu em 24 de maio de 1819, filha única de Edward. Duque de Kent, quarto filho do Rei George III. Tal como Elizabeth I, ainda que em diferente conjunto de circunstâncias, eram remotas suas chances de tornar-se rainha, de vez que na rígida escala de precedência, muita gente havia entre ela e o trono, mas foi o que aconteceu. Governou a Inglaterra e a Irlanda, suas colônias e possessões durante 64 anos, até o primeiro ano do século XX.
Apesar de coroada com apenas 18 anos de idade e ser uma jovem relativamente inexperiente e até modesta, no meio de toda aquela pompa. Victória soube ser rainha desde os primeiros atos até o último suspiro.
Casou-se em 1840 com o Príncipe Albert, a quem ela pediu em casamento em outubro do ano anterior. Amaram-se ternamente, mas nunca houve dúvida de que ela era a raínha. Da mesma idade que ela. Albert morreu em 1861, deixando-a viúva aos 42 anos de idade, com 9 filhos e ainda 40 anos de vida e saudade intensa.
Seu reinado foi o mais longo da História da Inglaterra. A Britânica informa com singela eloquência que ela "restaurou a dignidade e a popularidade a uma deslustrada coroa, proeza tanto de caráter quanto de longevidade" .
Ainda que os historiadores possam divergir quanto à sua acuidade política, ninguém jamais questionou "seu elevado senso de dever como esposa, mãe e rainha, ou sua transparente honestidade e a sólida simplicidade de seu real caráter".
Não há como atribuir-lhe o excuso episódio relatado pelo Espírito de que ela, a rainha, tenha mandado pedir-lhe o sacrifício do recém-nascido. Obviamente o nome da rainha foi usado indevidamente e ele sabia disso.

2 - CANTERBURY
É o nome de uma cidade e respectivo condado em Kent, na Inglaterrra, a 55 milhas (cerca de 90 quilômetros) de Londres e a 16 milhas de Dover.
A região é muito bonita e sua história rica e antiga, dado que excavações ali feitas revelaram vestígios de uma comunidade cerca de 200 anos antes do Cristo.
Muitos vultos importantes da História da Inglaterra ali viveram. Em Canterbury está uma das mais famosas catedrais inglesas, cujas origens remontam à missão do Santo Agostinho ali enviado pelo Papa Gregório I em 597.

3 -ALDERMAN
Nas suas origens, a palavra significa "o mais velho", pois nas antigas comunidades certas funções - especialmente as de aconselhamento - eram reservadas às pessoas mais idosas, nas quais se presumia maior saber, experiência e serenidade.
No contexto dos povos de língua inglesa, o termo identifica o membro do corpo legislativo nos municípios, ou seja, algo correspondente ao vereador no Brasil.
Entre os anglo-saxões mais antigos (alemães, inclusive, é claro), assim eram conhecidos os condes, governadores de províncias e outras pessoas de Status semelhante. Posteriormente o título passou a ser aplicado ao principal magistrado de uma comunidade (vila, cidade, condado) ou de um pequeno grupo delas na região, onde exercia o Alderman sua autoridade em nome do rei ou de um príncipe local.
É neste sentido, que parece ser utilizado pelo nosso companheiro, cuja história ficou relatada páginas atrás, pois cabia-lhe até o poder de tributar, além do poder maior de vida e morte.

Hermínio C. Miranda