19 de março de 2010

O TRISTE BALIDO DA OVELHA DESGARRADA - DOUTRINAÇÃO DE UM ESPÍRITO

O companheiro cuja história nos propomos a reproduzir aqui integrava um grupo de espíritos desencantados (ou assim se apresentavam) com as religiões em geral, embora, contraditoriamente, mantivessem procedimentos ditos religiosos na instituição em que viviam, com pregações, cultos, rituais e estruturas eclesiásticas. (Ver história: Reencontro com Hans)

Era polido, falava pausado e seguro. Comparecia - fez questão de afirmar logo de início - para desculpar-se de .. "alguns senões" de companheiros seus desavisados, que em reuniões anteriores não "tiveram comportamento cavalheiresco" conosco. Parecia preocupado com a imagem de sua instituição que não desejava ser avaliada pela atitude dos ditos companheiros. Afinal de contas, estavam todos "abertos ao entendimento, dispostos e predispostos até a cooperar conosco no que fosse necessário". Ademais, não havia razão alguma para hostilidades, encontramos todos irmãos e havia ideais nobres e dignos de parte a parte, pois nossos objetivos eram análogos, ou seja: o desejo da fraternidade, em nome da caridade e da melhor compreensão quanto à destinação do ser humano, obviamente criado para a grandeza. Apenas nos "separava" - se esse era mesmo o verbo - dizia ainda, era a diversidade de métodos operacionais, pois nós seguíamos caminhos com base numa religião, na qual confiávamos e eles eram "arreligiosos". Mas afinal, somos todos irmãos e nossa destinação final era a mesma, ou seja, a perfeição. Então, para que aquela divisão ideológica? Pelo sentido etimológico, lembrava ele, religião é um processo de religação da criatura com Deus, mas religar como, se o elo com o Criador nunca foi quebrado? Sob certo aspecto, o doutrinador concorda com tal conceituação, porque, na verdade, não há desligamento entre o homem e Deus, mesmo porque nele vivemos e nos movemos, como tão bem ensinava Paulo. Se o vínculo entre Deus e o ser humano se rompesse, este deixaria de ser, pois nada há senão em Deus. Daí, porém, a considerar a prática religiosa desnecessária, vai uma distância enorme, donde se depreende que não estávamos concordando era na conceituação de religião. Entendida a religião como uma estrutura hierárquica, de apoio, e, de outro lado, como um conjunto de rituais, dogmas e sacramentos, realmente, poderíamos até concordar com ele, mas não é disso que cuida o Evangelho do Cristo, que pregou uma ética religiosa e um plano de ação moral consubstanciados na prática universal da doutrina do amor que se transmuta em caridade, tolerância, serviço ao próximo, paciência, etc.

Mas ele não estava disposto a deter-se nesses aspectos que, por certo, considerava irrelevantes. Aliás, afirmava mesmo que "por mais importante que seja o Cristo, ele não está entre a criatura e Deus", ou seja, ninguém precisa ficar na dependência do Cristo para alcançar o reino de Deus. As religiões, a seu ver, prendem a criatura que é, em essência, divina.

De todas as religiões, porém, o Espiritismo era, na sua opinião, "a mais perniciosa", pois é a que mais chama o homem para a sua degradação, para os piores aspectos de sua personalidade, "fixando sua atenção na idéia do erro". A doença, por exemplo, seria um estigma que vinha como provação que era preciso aceitar. Interpelado com dificuldade, pois somente queria falar, concordou que temos, sim, aspectos negativos, mas "desde que alguém atue positivamente, a parte negativa é anulada."

Vemos, pois, que o problema era o mesmo de sempre. Quanto mais profunda a dor, mais aflitivo o passado de culpas e mais angustiosa a expectativa do resgate, mais esses pobres irmãos desarvorados se agarram à trágica filosofia da fuga que ignora deliberadamente a responsabilidade pelas faltas cometidas como se o simples fato de verbalizar o conceito de que somos deuses, nos redimisse, por um passe de mágica, de todas as culpas acumuladas pelos séculos afora. Daí o implacável combate ao Espiritismo, essa doutrina incômoda, que está sempre a nos lembrar nossas imperfeições e, conseqüentemente, o trabalho árduo que nos incumbe fazer para conseguir a realização da paz em nós mesmos. Para isso, há um esquema que vem da identificação da falta, passa pelo reconhecimento de nossas responsabilidades e vai à aceitação da correção de rumos, muitas vezes, mas não necessariamente, dolorosa. Não há como fugir à lei de causa e efeito, de ação e reação, ou seja, ao princípio cármico. Isso é o que mais assusta e acovarda aqueles que se embrenharam tão fundo no cipoal dos erros que não sabem como e nem desejam tentar voltar sobre seus passos em busca do rumo perdido. Vivem, assim, em bolsões de rebeldia, em verdadeiras penitenciárias do medo, onde passam séculos a articular e promover a implantação das mais estranhas filosofias, desde que fiquem por ali mesmo, vivendo uma imitação da vida, adiando o quanto possam o inexorável encontro com a verdade, mais cedo ou mais tarde.

Por isso, quanto mais firme a obstinação em torno desses exdrúxulos conceitos, mais aflitivas as suas angústias, mais paralisantes os seus temores, mais agoniados os seus remorsos, por mais arrogantes e seguros que nos pareçam de início. Pensando em tudo isso é que ouvimos com paciência e atenção, colocando apenas uma ou outra observação ou comentário para dar rumo ao diálogo e aferirmos a profundidade de suas dores. Poucas coisas merecem e precisam tanto do nosso respeito e carinho quanto a dor, especialmente a dor moral.

Esgotado o nosso tempo, vimo-nos forçados a convidar o companheiro a retirar-se, o que ele fez, educadamente, colocando-nos à sua disposição para eventual retomada do diálogo, se ele assim o entendesse.

Como era de esperar-se, tivemo-lo de volta em nossa reunião da semana seguinte. Apresentava-se sensivelmente agitado, aflito mesmo, e a palavra, antes fluente, em frases bem torneadas, era agora gaguejada com esforço.

Queria saber se havíamos meditado acerca das alternativas que nos propusera na semana anterior - mudar a natureza do nosso trabalho, acabar,com o grupo ou, ainda, desenvolver um trabalho conjunto, no qual haveria espaço para eles colaborarem conosco. Que decisão havíamos tomado?

- A decisão é uma só, meu querido - foi a resposta até a de continuarmos a oferecer a você nosso afeto, o nosso respeito, o desejo de uma aproximação e entendimento, Ele rejeitou a contra-proposta com energia: não estava disposto a começar com "panos quentes" e nem com "conversinhas" como aquela, destinadas a "conquistar os tolos e incautos", o que não era, como afirmou, o seu caso.

A certa altura, ressentiu-se do tratamento que lhe dava o doutrinador, tomando a paciência e a voz calma, por superioridade. Protestou energicamente:

- Quero que o senhor me trate como pessoa de certa posição. Como adulto. Não sou um doente, não sou um deficiente não sou um delinquente, nada disso, para ser tratado paternalmente de filho. Não preciso desses termos.

- Desculpe. Foi um lapso de minha parte. Mas você não aceitou também o de irmão. Então, como devo lhe chamar? Se você prega a fraternidade, como recusa o tratamento de irmão:

Vamos conversar com mais calma?

- Eu estou calmo, muito calmo. E lhe digo mais uma coisa: queiram os senhores espíritas ou não, as suas casas vão todas se transformar. Ou os senhores se transformam, ou os espíritas vão sair, porque aqueles que têm mente mais aberta vão sair e vão fundar instituições livres de limitações, livres de dogmas kardecistas, livres, enfim, da canga de que você tem de sofrer porque é carma. Ninguém tem que sofrer, não! que ninguém foi criado para sofrer e o senhor sabe disso.

Na sua opinião, o primeiro passo será dado, substituindo-se intitulações limitadoras como Centro ou Grupo Espírita por Fraternidade Cristã ou Evangélica, ou o que seja. Em seguida, tais Fraternidades se ampliariam em Comunidades e daí por diante, até que, a seu ver, se cumpra o que afirmou o Cristo: um só rebanho e um só pastor. Ele não diz, mas evidentemente, o que pretendem é descaracterizar pouco a pouco a prática espírita, interessando as pessoas em estruturas doutrinárias mais vagas, ou em pesquisas ditas científicas. Tudo serve, contanto que os deixem em paz - se é que essa é a expressão adequada - com as suas tarefas inglórias. O objetivo final é um só: a fuga, pois chega a ser obsessiva a preocupação deles com a responsabilidade cármica que o Espiritismo faz questão de enfatizar no seu contexto doutrinário.

A eles, prossegue, não importam os rótulos, pois aceitam todos aqueles que queiram "desenvolver suas potencialidades". O homem não precisa crescer porque já é grande; ele precisa é desenvolver-se.

- Se o senhor não quer ser grande, se o senhor se compraz em ser pequeno, em humilhar-se, é problema seu! Mas deixe que os outros cresçam!

Como "condutor de almas" ele tem que estar alertado para tais aspectos, mesmo porque conhece todas as religiões e todas são perniciosas, mas o Espiritismo - repete - é das piores, porque "é uma das que mais limitam o homem", é a que aponta o homem e diz: "Você é um joão-ninguém!" Sua exaltação vai num crescendo impressionante e a palavra começa a sair com maior facilidade, em apaixonado tom oratório. "O Cristo não disse que somos deuses?" - O que oferecem àqueles que os procuram - pois diz não fazer proselitismo - é desenvolver as potencialidades de cada um.

Quando o doutrinador o adverte de que está gritando, ele fica um tanto desarmado e reconhece, para logo em seguida, dizer que foi levado àquele entusiasmo pelas observações do próprio doutrinador. É claro que a sua imagem de agora não confere mais com a que procurou revelar nos primeiros momentos de nosso encontro anterior, quando teria vindo principalmente para apresentar-nos suas excusas pelo comportamento inadequado de companheiros seus que anteriormente nos visitaram. Parece falar a um grupo grande de espíritos atentos e repete a sua proposta-chave:

- Eu digo: quem quer aceitar o que falo, que dê um passo à frente. Quem quer aceitar. Eu não digo tem de dar! Quem quer aceitar a libertação, quem quer sair das trevas para a luz, aquele que quiser verdadeiramente conhecer a si mesmo, dê um passo à frente! Aqueles que dão um passo à frente, são os iniciados e passam a ser orientados. Vão para as nossas classes para aprender.

O doutrinador lhe faz um apelo em voz pausada e firme, para que ele se porte com mais serenidade. Ele se tranqüiliza um pouco e, como que se desculpando acrescenta que se deixou levar pelo entusiasmo, pois é um pregador e tem que ser veemente naquilo que diz. Reitera o ponto de vista anteriormente expresso de que não tem interesse em "entrar em contenda" conosco.

- Não quero me envolver com os senhores, porque ... porque ...

Embora não consiga articular o que pensa, não é difícil imaginar o que seja - o verdadeiro pânico em face da dura realidade íntima, da responsabilidade cármica ante o erro cometido, o medo da dor, enfim.

- Eu sei irmão - diz o doutrinador. Desculpe. Não leve a mal a observação que foi apenas para conter um pouco a sua veemência. Acho, e sempre digo isso, que a veracidade, a veemência daquilo que dizemos não está no grito.

O debate continua em torno das mesmas teses por mais algum tempo. Ele é um vivo argumentador, eloqüente expositor e parece legitimamente convicto de sua postura aos que não suspeitam das aflições e angústias que deve carregar nas profundezas do ser. As vezes, temos a impressão de que fala para ouvir seus próprios argumentos e não aqueles que a consciência um tanto dopada pela maciça auto doutrinação procura igualmente colocar, pois é impossível fazê-la calar-se.

A partir de certo momento começa a indução magnética, pois não há como alcançar o núcleo de seus problemas apenas com o diálogo mais ou menos filosófico. Embora resista, como de esperar-se, pouco a pouco vai cedendo, o que percebemos pelos bocejos e pela maior dificuldade em articular o pensamento e em falar. Daí a uns poucos momentos mergulha fundo no sono magnético. A regressão é induzida. Há uma longa pausa e, para surpresa nossa, quando volta a falar expressa-se em perfeito inglês com óbvio sotaque britânico.

É necessário esclarecer aqui que não consideramos o fenômeno como de pura xenoglossia porque a médium conhece bem a língua inglesa e o espírito manifestante encontrou nos seus arquivos mentais condições que lhe permitiram falar a língua que foi a sua naquela existência à qual se achava ali regredido. Estou propondo a expressão xenoglossia pura para conceituar o fenômeno de uso de língua estrangeira quando o médium desconhece a língua na qual o espírito se expressa, o que não é o caso aqui, como vimos. Cabe acrescentar ainda, que o doutrinador também fala fluentemente o inglês e por isso o diálogo que a seguir reproduzimos em português, foi todo em inglês.

- I must perform a service for the Queen - diz ele, com excelente pronúncia e ênfase. ou seja: "Tenho que prestar um serviço à Rainha!

A uma pergunta do doutrinador, esclarece que se trata da Rainha Victoria. (l)

- Que espécie de serviço é esse? - pergunta-lhe o doutrinador.

Ele não parece inclinado, de início, a contar exatamente o que se passou, limitando-se a dizer que se trata de algo sem importância, bobagem (rubbish), mas o doutrinador insiste para que conte mesmo assim, e pergunta:

- Ela pediu a você para fazer alguma coisa?

Longa pausa e, por fim, a mesma palavra: rubbish ...

O que aconteceu? O que você teve de fazer? - Batizar uma criança.

- Você é um sacerdote? Por que parece não gostar da idéia de batizar uma criança?

Ele repete a palavra de sempre: rubbish!

Por que?

- Não acredito nisso.

- Você não acredita? Que sacerdote estranho é você ...

Ele ri, e o doutrinador segue questionando: - De quem é essa criança?

Ele continua desinteressado de contar a história. Queixa-se de que está com a mente confusa.

- Descobri que a criança. .. você sabe. .. A Rainha - diz ele em tom confidencial, como se contasse um segredo terrível - a Rainha não quer que eu batise a criança. Ela quer que eu a faça desaparecer.

- A Rainha Victória? Ela pediu a você para fazer isso?

Que criança é essa? Quem é a mãe dela?

Uma dama de companhia.

- Foi ela quem lhe disse o que fazer com a criança?

- Sim. Ela me disse assim: "A Rainha quer que o senhor preste esse serviço a ela. A Rainha mandou-lhe este dinheiro". E disse: "A Rainha diz que esta criança não pode ... " (viver?) (Pausa) Oh, ... isto tudo ...

Mas o que você fez?

Sabe, eu ... bem ... Eu sufoquei a criança. Você fez isso? E depois ...

Coloquei-a numa cesta e joguei-a no canal que vai dar no rio Tâmisa.

Estou muito admirado de que a Rainha tenha pedido a você para fazer isso. Você tem certeza de que foi ela quem mandou?

- A moça disse que a Rainha mandou. Ela trouxe o dinheiro e trouxe o selo real, por isso pensei que foi a Rainha que mandou.

Mas quem é a mãe da criança? A moça que a trouxe?

-Sim.

-E o pai?

-É um membro do Conselho (de Ministros).

-Você sabe quem é?

-Não. Não lhe perguntei.

-E depois disso o que aconteceu?

-Depois daquilo eu tive de fazer um sermão na igreja.

-Abri, então, o Livro (a Bíblia) e li: "Não matarás!" - E você pregou um sermão sobre esse tema?

- Sim. E eu disse que às vezes temos de matar, em nome de Deus. Sabe, tive aí um problema de consciência, mas eu queria o dinheiro ...

- Era muito dinheiro?

- Quem é você? - pergunta ele, já desconfiado com tantas perguntas.

Sou apenas um amigo. Amigo? Então eu o conheço?

- Talvez.

- Não o conheço! Você não é meu amigo. (Pausa). De nada vale a religião.

- Mas, então, por que você se tornou um religioso?

- Eu tinha de ser.

- Como profissão?

- Eu tinha de ser. Tive de fugir. Fugir de minha terra.

- Você foi infeliz lá?

- Ora, não me pergunte ...

- Por favor, vamos em frente. Conte tudo.

Canterbury.(2)

- Por que você teve de fugir? Você cometeu lá algum erro grave, algum crime ou coisa assim?

- Eu ... Ora, deixa isso pra lá. Sinto como se algo estivesse prendendo minha língua. Não posso faiar ...

- Não. Não há nada prendendo a sua língua. Você pode falar perfeitamente. Vamos, por favor.

- Juliet - diz ele. Uma menina ... Eu a usei. Ela tinha apenas cinco anos, sabe?

Cinco? Cinco anos de idade?

- É. Acharam que eu era um tarado. E você, quantos anos tinha?

- Vinte e cinco.

- E por isso você se tornou um sacerdote?

- Ninguém sabe que não sou um sacerdote de verdade.

- Não tive nenhuma iniciação. Eu queria apenas um lugar para esconder-me.

- Mas você se tornou mesmo um sacerdote?

- Eles me fizeram sacerdote. Eu tinha de fazer todo o trabalho sujo ali. Você sabe ... Todos aqueles nobres, até mesmo sacerdotes, você sabe ... E me diziam: "Isso não tem nada a ver com ... " (religião?). Mesmo porque eu não creio em nada disso. Deus é apenas um nome. Só os tolos acreditam.

- E você? Tornou-se um velho ou morreu jovem? O que aconteceu?

- Fui assassinado. - Como foi isso?

- Sabe, eu tinha minha predileção por meninas ... doze, treze, quatorze anos. E um dia o pai de uma delas me matou.

- E então? O que aconteceu com a sua alma, seu espírito? Alma? Espírito?

- Você não acredita nisso também?

- Não. Acredito no corpo e nos prazeres do corpo. Como é que você foi assassinado e está falando comigo agora?

A pergunta, obviamente, pega-o de surpresa. - É mesmo! Não havia pensado nisso ...

Na pausa que se segue ele parece adaptar-se a esta nova e sensacional idéia de que continua vivo depois de "morto". Sua reação, afinal, é de alegria. Ri de satisfação.

- Puff! Está brincando ... Então, ele apenas pensou que me matou!

- É o que você acha, então? E onde está você agora enquanto fala comigo?

Ele está realmente perplexo. Contempla as mãos da médium, olha em volta de si.

- Eu estava em algum lugar. Eu estava sentado ali vendo todas essas coisas. Agora não sei mais. .. Estou aqui. O que aconteceu comigo? Por que ... Ei! ... Que lugar é este? (Longas e perplexas pausas) Eu não deveria ter me descoberto assim.. (Longo silêncio),

Nesse ponto o doutrinador tenta trazê-lo para o seu contexto atual e lhe pergunta o que acha ele de tudo aquilo e se está entendendo melhor as coisas agora. Ele assume sua postura normal e parece despertado, embora não o esteja, como veremos a seguir.

- Deixe-me dizer-lhe então. Isto significa que você é um espírito imortal, responsável pelas suas faltas, por seus atos bons ou maus. Que você necessita do perdão divino, mas não apenas isso: que você precisa refazer os seus passos...

- Lembro-me agora. Os demônios...os demônios vieram. " Gente correndo atrás de mim, armados de paus a me baterem, .. E gritavam: .. Assassino! Tarado!" E eu corria e corria e não tinha onde esconder-me.

- Sim, mas afinal você encontrou um lugar onde esconder-se. Onde foi isso?

- Uma caverna...

- Sim, mas você não está mais lá, Onde você está agora?

- Alguém tirou você de lá?

- Não sei,

- Onde você estava antes de vir aqui hoje?

- Eu fiquei Já naquela caverna muito tempo, muito tempo. Tinha medo de sair, Um dia uma menina, eu acho que era Juliet, aquela menina, sabe? Ela veio me buscar, Deu-me a mão e me conduziu não sei para onde, mas ela me guiou para fora dali. Não sei, " Ela me disse: "Vou levar você para dormir, Vou botar você na cama e você vai dormir. E quando acordar, tudo isso terá passado. Você será outro homem, numa nova vida e então você aprenderá a amar."

- Essa é a história toda? Como foi, então, que você foi encontrar-se naquela Fraternidade?

- O que? Que Fraternidade?

Isto quer dizer que ele ainda não venceu o espaço de tempo entre aquela vida tenebrosa na Inglaterra vitoriana e o momento presente, Faz uma longa pausa e repete a palavra misteriosa:

- Fraternidade...

- Você disse que é um pregador que proclama a liberdade do espírito e tem muitos seguidores. Foi o que você me disse, - Não me lembro...

Apesar de aparentemente despertado, ainda se conserva preso às memórias da vida na Inglaterra. O doutrinador lhe transmite, então, a sugestão necessária para trazê·lo de volta ao momento em que ali estamos a falar, conservando, porém, todas as lembranças do que acaba de narrar. Só então ele desperta e assume a sua consciência do momento presente.

A primeira reação é de indignação, que procura expressar, novamente em luta com terrível inibição da gagueira, e novamente em português:

- Ora, isso não quer dizer nada. . . Nada!

- Meu caro irmão. Desculpe. Não nos leve a mal. Aceite nosso respeito pela sua dor.

- Eu não tenho dor! Religiões são coisas sem sentido, ..

- Sim, mas os nossos crimes não são sem sentido, não é?

- Eles nos seguem através da voz de Deus em nós mesmos.

- Não há crimes. Ninguém pode ficar preso a um passado, Precisa libertar·se, sair da caverna do medo para a liberdade, compreende? Engraçado... tenho visão clara de vários episódios de minha vida passada, mas não tinha esse fato ... Sabe? Eu vou lhe dizer: fui daqueles... numa vida ... engraçado! Estou vendo agora! Fui um daqueles homens do Norte (Nórdicos), sabe? que vinham nos barcos. .. e saqueavam cidades ...

- E na Alemanha?

- Alemanha? (Pausa) Eu agora vejo que daí para traz sempre fui um homem ... digamos... de ação. Não um homem necessariamente violento. Fui um "Alderman". Sabe o que é um "Alderman"? (3)

- Onde você vivia? Você era, então, um homem de respeito e merecia a estima da comunidade.

- Eu era um "Alderman" - repete ele. Onde? Não estou conseguindo me lembrar.

- Em que época foi isso? Quem você conheceu lá? Quem era o seu rei?

- Está tudo confuso. Você fala em rei, mas quando fui um Alderman, eu mandei queimar vários ... eh, eh, eh. " sabe? aqueles ... Mandei queimar casas e todas as pessoas que me negavam o imposto que era de direito.

- Meu querido irmão. Não queremos, por favor, que você se deixe levar pelo desalento em face dessas dores tão profundas que traz no seu espírito. Queríamos apenas chamar a sua atenção.

- Que realidade pode ter uma religião, quando o homem precisa é de viver, quando tem de se alimentar, vestir-se e prover a todas as suas necessidades? Se houvesse realmente uma divindade como querem fazer crer, o homem não precisaria disso. Teria todas as suas necessidades providas e atendidas.

- Você, então, não acredita em Deus. Como que você foi criado? Quem sustenta a chama de sua inteligência? Você não tem amor no coração, meu querido irmão?

Nesse ponto ele leva terrível e inesperado choque ante uma visão que o põe realmente desesperado, a gritar de espanto, de dor, literalmente arrasado.

- Que horror! - consegue dizer, enfim. Não! Não! Que horror! Tirem essas imagens daqui da minha frente! Não! Não pode ser .. Que vocês estão fazendo? Por favor, tirem essas imagens da minha frente. Nãããão! Isso não pode ser verdade! Sabe o que puseram aqui na minha frente? Eu, quando fui um Alderman .. (Arrebenta, afinal, o pranto agoniado, terrível, incontrolável, que mal permite que ele fale, mesmo aos arrancos). Quando fui um Alderman - repete - tive uma família e tive uma filha .. , E agora me mostram que foi esta filha que eu violentei e sacrifiquei aos cinco anos na outra existência! Não! Isto é muito horror! Eu tinha uma vida pervertida na Alemanha e a única coisa sagrada era esta criança. E agora me mostram que ela veio para me despertar o sentimento, para que eu me libertasse e eu a matei! Oh, foi horrível. .. foi horrível... Eu falhei. .. Que horror! Que arquivo maldito é este que se revela ... ? E sabe o que vejo agora? Aquela outra criança que botei na cesta, tinha sido uma de minhas vítimas do passado. E foi levada para que eu lhe desse proteção, e eu ...

O doutrinador interrompe-o na tentativa de fazer parar por um momento que seja aquele dramático relato de horrores, mas ele prossegue inexorável:

- Que sou eu? Um homem? Um monstro? Ou uma fera selvagem? No que me transformei e como pretendia dirigir almas? Eu, um réprobo! Eu ... eu ... eu ... É para isso que Deus existe? Para criar monstros? Ou será que eu fui uma aberração da criação?

- Nem uma coisa nem outra. Você errou gravemente, como você mesmo está reconhecendo hoje. Isto não quer dizer que você deixou de ser um filho de Deus. Não quer dizer que não tenha oportunidades de recuperação, mas é claro, meu querido, se voce insistir em permanecer no erro, quando é que vai começar a reconstuir a sua vida?

- Você acabou comigo! Você vibrou-me um golpe por baixo, tirou-me dos pés o chão. Você sabe o que eu fiz? Eu estava com todas as antenas de lá ligadas aqui para me ouvirem e você fez com que essas coisas fossem reveladas. (Pausa) Diga-me uma coisa: que posso eu querer de um Deus que me permitiu fazer o que fiz? Como posso crer num Deus que cria monstros como eu? Eu escarneço mesmo, eu zombo, eu o destruo. Por que essa imagem ... não pode, não ...

- Deus cometeu os erros por você? Você pode fazer o bem também; por que não o faz? A opção é sua, você é o pregador da liberdade, meu querido irmão. E eis aí a liberdade de - agir. Você teve exemplos dramáticos disso nas suas vidas. Você recebeu espíritos para proteger, para amar, para encaminhar e trucidou-lhes os corpos.

- Mas a culpa não foi minha porque se você manda uma criança para uma fera sem antes ter-lhe cortado as garras e arrancado os dentes, que você quer senão que ela seja destruída? Por que as mandaram? Por que? Se Deus me conhece, se Deus sabia, por que não me cortou as garras?

- Escuta: Deus não vai lhe arrancar à força do local onde você se encontra agora. Você terá que sair de lá por seus próprios pés. Você quer sair?

- Não. Quero ficar. Não há lugar para mim. E o pior é que você me tirou de lá o lugar. Agora terei que voltar para outra caverna e meter-me lá, até quando?

- Não, meu querido. Isso não é verdadeiro. Você não precisa voltar para caverna alguma. Vamos propor uma coisa. Em primeiro lugar: dê-nos uma oportunidade de lhe ajudar. Fique conosco algum tempo, procure tranqüilizar-se, meditar sobre tudo isso para que você possa resolver com calma (o que tem a fazer).

- O que vocês fizeram comigo? De repente, é como se ...

- Não sei. .. eu... Não sei o que vocês fizeram comigo. Vocês me prenderam ...

Nesse ponto, o querido irmão é adormecido e retirado.

As lições que esse terrível episódio deixou conosco são dramáticas e inesquecíveis. Em primeiro lugar, na reiteração do sutil e complexo mecanismo da fuga: para tornar tolerável à convivência consigo mesmo, o espírito como que lacra num compartimento indevassável da memória a lembrança dos crimes mais hediondos que tenha cometido. Isto é conseguido, usualmente, por hábeis manipuladores da hipnose que criam bloqueios de dificílima remoção em torno de lembranças penosas como aquelas. Tais infelizes são recolhidos como verdadeiros farrapos humanos nos mais excusos porões da espiritualidade e trazidos para organizações como aquela de que cuidávamos no momento, onde os réprobos de muitos crimes se reúnem acovardados perante a enormidade de seus erros e assustados ante a perspectiva do resgate que os aguarda inexoravelmente. Alí todos encontram uma filosofia de vida que consiste basicamente em ignorar o passado e convencer o homem de que, tendo em si uma centelha divina - o que é verdadeiro - ele é também um deus e que, portanto, não precisa nem do próprio Deus, quanto mais do Cristo, para ajudá-lo nas dificuldades da redenção espiritual.

Outro aspecto importante aqui: o bloqueio da memória neste caso fora tão bem elaborado que ele próprio confessa que embora com acesso a lembranças de tantas vidas, nada sabia daquela durante a qual mais hediondo fora o seu erro. Ficou-nos disso um veemente indício, de vez que foi preciso mergulhá-lo tão fundo nas memórias daquela vida trágica que ele somente soube expressar-se na língua que então foi a sua - o inglês, que, felizmente, conheciam tanto médium quanto o doutrinador.

Ainda um pormenor cujas amplas implicações se percebe de seus comentários finais. Notáramos a eloqüência, a veemência com que se expressava. Parecia falar a uma atenta platéia cativa e de fato o fazia, porque por um processo que às vezes empregam nossos orientadores espirituais, o diálogo manifestante doutrinador estava como que sendo "retransmitido" para a instituição a que o Espírito pertencia. Isto acontece usualmente quando o Espírito que comparece aos nossos trabalhos vem tão convicto de que vai sair-se bem do contacto conosco que deseja que seus companheiros e subalternos assistam ao vivo sua "vitória" sobre os "adversários". Por isso, mantêm-se ligados ao grupo que, ao mesmo tempo, procura proporcionar-lhe "cobertura" e apoio moral. E assim, o dispositivo montado para transmitir o espetáculo de arrasadora batalha verbal, da qual o emissário das sombras voltaria coberto de glórias, converte-se no próprio monumento do que eles entendem como sua perdição.

Uma observação final: não ficou bem claro para nós o papel do nosso caro irmão no seio da Igreja da Inglaterra naquela época. Diz ele que "fizeram-no sacerdote", mas ao mesmo tempo declara que não foi "iniciado". Parece querer dizer que não fora regularmente "ordenado", mas que exercia alí algumas funções sacerdotais, pois até pregava. Deixa entender ainda que era utilizado em certas tarefas excusas por nobres e sacerdotes pouco escrupulosos que sabiam, por certo, da sua própria ausência de escrúpulos. Tudo isso, afinal de contas, com trágica conseqüência da sua total descrença em Deus e da ausência do amor em seu coração empedernido. É impressionante a minuciosa frieza com que narra suas escabrosas aventuras, tanto quanto foi dramática a explosão do seu desespero ao acordar para aquela realidade quase insuportável das suas angústias até então aprisionadas nos subterrâneos mais profundos da memória.

E, por fim, a reiteração de um constante ensinamento: o de que a misericórdia de Deus é infinitamente maior do que a enormidade de nossos crimes e de que o Cristo vai mesmo buscar a ovelha extraviada, onde quer que esteja, sejam quais forem suas condições, tão logo ouça à distância, o balido aflito do ser que se perdeu no espinheiro e quer voltar e não sabe por onde ..

NOTAS:
1- VICTORIA
Rainha da Inglaterra de 1837 a 1901, nasceu em 24 de maio de 1819, filha única de Edward. Duque de Kent, quarto filho do Rei George III. Tal como Elizabeth I, ainda que em diferente conjunto de circunstâncias, eram remotas suas chances de tornar-se rainha, de vez que na rígida escala de precedência, muita gente havia entre ela e o trono, mas foi o que aconteceu. Governou a Inglaterra e a Irlanda, suas colônias e possessões durante 64 anos, até o primeiro ano do século XX.
Apesar de coroada com apenas 18 anos de idade e ser uma jovem relativamente inexperiente e até modesta, no meio de toda aquela pompa. Victória soube ser rainha desde os primeiros atos até o último suspiro.
Casou-se em 1840 com o Príncipe Albert, a quem ela pediu em casamento em outubro do ano anterior. Amaram-se ternamente, mas nunca houve dúvida de que ela era a raínha. Da mesma idade que ela. Albert morreu em 1861, deixando-a viúva aos 42 anos de idade, com 9 filhos e ainda 40 anos de vida e saudade intensa.
Seu reinado foi o mais longo da História da Inglaterra. A Britânica informa com singela eloquência que ela "restaurou a dignidade e a popularidade a uma deslustrada coroa, proeza tanto de caráter quanto de longevidade" .
Ainda que os historiadores possam divergir quanto à sua acuidade política, ninguém jamais questionou "seu elevado senso de dever como esposa, mãe e rainha, ou sua transparente honestidade e a sólida simplicidade de seu real caráter".
Não há como atribuir-lhe o excuso episódio relatado pelo Espírito de que ela, a rainha, tenha mandado pedir-lhe o sacrifício do recém-nascido. Obviamente o nome da rainha foi usado indevidamente e ele sabia disso.

2 - CANTERBURY
É o nome de uma cidade e respectivo condado em Kent, na Inglaterrra, a 55 milhas (cerca de 90 quilômetros) de Londres e a 16 milhas de Dover.
A região é muito bonita e sua história rica e antiga, dado que excavações ali feitas revelaram vestígios de uma comunidade cerca de 200 anos antes do Cristo.
Muitos vultos importantes da História da Inglaterra ali viveram. Em Canterbury está uma das mais famosas catedrais inglesas, cujas origens remontam à missão do Santo Agostinho ali enviado pelo Papa Gregório I em 597.

3 -ALDERMAN
Nas suas origens, a palavra significa "o mais velho", pois nas antigas comunidades certas funções - especialmente as de aconselhamento - eram reservadas às pessoas mais idosas, nas quais se presumia maior saber, experiência e serenidade.
No contexto dos povos de língua inglesa, o termo identifica o membro do corpo legislativo nos municípios, ou seja, algo correspondente ao vereador no Brasil.
Entre os anglo-saxões mais antigos (alemães, inclusive, é claro), assim eram conhecidos os condes, governadores de províncias e outras pessoas de Status semelhante. Posteriormente o título passou a ser aplicado ao principal magistrado de uma comunidade (vila, cidade, condado) ou de um pequeno grupo delas na região, onde exercia o Alderman sua autoridade em nome do rei ou de um príncipe local.
É neste sentido, que parece ser utilizado pelo nosso companheiro, cuja história ficou relatada páginas atrás, pois cabia-lhe até o poder de tributar, além do poder maior de vida e morte.

Hermínio C. Miranda

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