30 de abril de 2010

BENS E MALES

Quase sempre, na Terra, muitos bens são caminhos a muitos males e muitos males são caminhos a muitos bens.
Por isso, muitas vezes, quem vive bem à frente dos preceitos humanos, pode estar mal ante as Leis Divinas.

A dor, sendo um mal, é sempre um bem, se sabemos bem sofrê-la, enquanto que o prazer, sendo um bem, é sempre um mal se mal sabemos fruí-lo.
Em razão disso, há muitas situações, nas quais o bem de hoje é o mal de amanhã, ao passo que o mal de agora é o bem que virá depois.

Muita gente persegue o bem, fugindo ao bem verdadeiro e encontra o mal com que não contava e muita gente se desespera, a fim de desvencilhar-se do mal que não consegue entender e acaba encontrando o bem por surpresa divina.

Há quem se ria no gozo dos bens do mundo para chorar nos males da Terra para colher os bens da Esfera Superior.

Não procures unicamente estar bem, porquanto no bem apenas nosso talvez se ache oculto o mal que flagela os outros por nossa causa e o mal que flagela os outros por nossa causa é mal vivo em nós mesmos, a roubar-nos o bem que furtamos do próximo..

Se desejas entesourar na estrada o em dos mensageiros do bem, atende, antes de tudo, ao bem dos semelhantes, sem cogitar do bem que se te faça posse exclusiva.
Recordemos o Cristo que, aparentemente escravo ao mal do mundo, era o Senhor do Bem, a dominar, soberano, acima das circunstâncias terrestres, e, tentando seguir-Lhe o passo, aceitemos com valor, no mal da própria cruz, o roteiro do bem para a Grande Vida.

Scheilla
De “Passos da Vida”, de Francisco Cândido Xavier – Espíritos Diversos

27 de abril de 2010

DEPOIMENTOS DE SUICIDAS

MESMO DESILUDIDOS, É PRECISO VIVER

NO HOSPITAL DE MARIA, NO PLANO ESPIRITUAL

Não existe olhar mais tristonho que o de remorsos, e por ali era só o que víamos. Aproximei-me de uma jovem que se havia atirado do alto de um edifício. Ela caminhava devagar; observando-a, pareceu-me estranha: era como se ela fosse de porcelana e houvesse trincado. Nas partes em que sofrera fratura no corpo físico, apresentava ainda dificuldade de movimentos.

Sorri. Meio envergonhado, retribuiu-me o sorriso, iniciando a conversação:

- És suicida?

- Não, não sou. Aqui me encontro em estudo.

Com triste expressão, falou:

- Deve ser muito bom vir até aqui na condição de estudante.

- Por que se suicidou?

- Fui abandonada pelo namorado e julguei que sem ele não suportaria viver.

- Irmã, há quanto tempo isso aconteceu?

- Há dez anos. O remorso me corrói o espírito. Muitas vezes me apalpo, procurando em mim algo que possa interromper a vida. Parece-me que desde aquele terrível dia jamais minha mente cessou de trabalhar; é um desespero constante. Por mais que eu receba ajuda, sinto-me consciente a cada momento do meu gesto impensado. Como é mesmo o teu nome?

- Luiz Sérgio – falei, estendendo minha mão em sinal de sincera amizade.

- Luiz Sérgio, não sei por que não existe na Terra campanhas de esclarecimento sobre o suicídio.

Fala-se tanto em aborto, em assassinato, em furto, mas ninguém se lembra de alertar sobre o pior dos crimes. Vamos até o jardim, sinto-me ainda muito cansada, lá saberás tudo.

Bem alojados sob um belo caramanchão florido, esperei pacientemente que ela iniciasse o relato:

- Tinha eu quinze anos quando conheci Alexandre. Foi amor à primeira vista: apaixonamo-nos, um pelo outro. Inebriante, entregamos-nos intimamente e, quando percebi, eu não era mais a querida namorada e sim a mulher da qual ele vinha se cansando. Fui ficando ciumenta, desesperada, insegura, e as minhas reclamações o cansavam cada vez mais. Um dia ameacei-o de contar tudo a meu pai. Olhando- me firmemente, redarguiu: “Não foste forte e cuca livre para assumir um caso? Então, tem agora dignidade pra compreender que tudo acabou. Foi belo enquanto durou”. Nem podes, Luiz, imaginar o que me aconteceu.

Ele tinha razão: eu não estava preparada para uma entrega tão íntima. Qualquer mulher, quando chega a uma situação como essa, precisa estar despojada de preconceitos e eu sempre sonhara entrar de braços dados com meu pai em uma igreja florida e o meu príncipe me esperando no altar com o olhar de homem apaixonado.

- Então, por que você iniciou essa aventura?

- Paixão e falta de coragem para negar.

- Mas hoje, Lucy, as menininhas estão indo nessa e, muitas se casando apenas por casar. Nem sempre a orientação sobre liberdade é a correta e assim vários jovens estão se vendo presos em uma rede de remorsos. Mas e depois? Conte minha irmã, eu a interrompi.

- Alexandre começou a me evitar. Bastava eu chegar onde ele estivesse, para que se retirasse. Um dia fui procurá-lo em sua casa e lá encontrei uma jovem de minha idade, que me foi apresentada como sua noiva. Abafei um grito em meu peito, tal a minha dor. Quando de lá saí, só desejava morrer. Chegando a casa, tomei a decisão e saltei, à procura da morte. Mas ela não existe e me vi estirada, toda moída, lá no asfalto. Perdi a noção do tempo; lembro-me apenas que uma velhinha sempre ficava ao meu lado, dando-me forca através da prece: era minha avozinha. Muitas vezes desejei levantar, mas podes imaginar alguém todo quebrado? Assim era a minha realidade. Pensei demais, ate que um dia minha avó ajudou-me a me erguer e, com dificuldade, conseguimos dali sair, chegando até um centro espírita. Graças às preces aos suicidas, recebemos um cartão que nos permitia um tratamento na própria casa. O meu sofrimento só cessaria quando eu tivesse setenta e cinco anos, época em que estava programado o meu desencarne natural.

- Irmã, por que tudo isso? Temos presenciado suicidas já conscientes, que não padeceram tanto.

- Luiz, muitos aprenderam a desencarnar, e depois, cada caso é um caso.

- E daí, Lucy? Pode continuar...

- Sim, faz-me muito bem recordar, principalmente os tratamentos nos grupos especializados. Ah, isso é ótimo! Gostaria de relatar. Éramos levados até o grupo mediúnico, pois que internados nos encontrávamos naquele Centro. Quando entrávamos na sala, muitos sentiam o odor forte, nós, principalmente, éramos atormentados com o cheiro dos nossos próprios corpos putrificados e, muitas vezes, tínhamos a impressão de que os vermes nos corroíam. O grupo mediúnico que prestava auxilio era composto de pessoas muito equilibradas, já que nós nos perdêramos por fraqueza. Não podes imaginar o alivio que experimentava o espírito de um suicida ao contato com um médium amoroso. Quando o mentor nos aproximava do médium, era como se o nosso espírito adormecesse, anestesiado pelos fluídos bons do encarnado, afastando-se de nós aquela desagradável sensação que vínhamos experimentando desde o instante do ato impensado. Muitos choravam quando eram retirados de juntos do médium; era como se nos tirassem o oxigênio. Luiz Sérgio existe tão poucos grupos que prestam ajuda aos suicidas! Para esses grupos, não são necessários médiuns de psicofonia, pois muitas vezes o suicida não deseja falar, almeja, apenas, deixar de sentir o desespero. Enganam-se aqueles que organizam grupo de auxilio ao suicida, somente com os chamados médiuns de incorporação. Os encarregados devem aproveitar aqueles que são ótimos auxiliares do Cristo, mas ainda esquecidos na Doutrina – os médiuns doadores. Só o contato do doente com um médium equilibrado já o beneficia. E ali, Luiz Sérgio, permaneci muitos meses, até que um dia fui trazida até aqui, onde já me sinto curada. Sei, entretanto, que levarei de volta, quando reencarnar, um corpo doente, porque eu mesma o destruí e só o meu coração regenerado poderá curar-me.

Esforçava-se para não chorar. Segurei a mão de Lucy e, com os olhos orvalhados de lágrimas, falei-lhe:

- Minha querida irmã, jamais a esquecerei; sempre que eu puder, virei revê-la. Você representa também para mim uma mão estendida. Mão esta que precisou ser marcada pela dor, para voltar à vida.

- Obrigada, Luiz Sérgio, fico contente por ter-te conhecido. És muito bacana; a tua alegria me fez lembrar o passado, quando eu sonhava em ser feliz.

- Sonhava não, Lucy, sonha, porque como diz Ocaj: “Não assassinemos as nossas realidades para não distanciarmos nossos sonhos”.

Ela me fitou e pela primeira vez vi a esperança naqueles belos olhos azuis. Apertando bem forte sua mão, despedi-me. Caminhei, pensando: “Deus, como sois poderoso em tão bem nos compreender. Se hoje nada desejamos, amanhã, em busca de algo nos encontraremos e assim, Pai, ides compreendendo as nossas fraquezas e não nos ofertando por ofertar e sim, quando , quando já adultos, soubermos o que desejamos. Hoje, Senhor, peço-Vos por todos aqueles que vivem duras e cruéis realidades e estão em vias de deixar tudo para trás através do suicídio. Fortalecei, Senhor, os Seus protetores para que possam segurar bem firme essas almas em desespero”.

Que estas linhas possam chegar às mãos de todos aqueles que desesperados se encontram e que eles saibam que deste lado do horizonte existe alguém que todos os dias pede a Deus muita paz e muito amor para todos os seus irmãos.

“Eu amos todos vocês, meus queridos amigos”.

Mãos Estendidas – Luiz Sérgio – cap. V – pág. 29

24 de abril de 2010

CONSEQUÊNCIAS DO PASSADO

1 - Como podemos compreender os resultados de nossas experiências anteriores?
Para compreender os resultados de nossas experiências anteriores, basta que o homem observe as próprias tendências, oportunidades, lutas e provas.

2 - Como entender, na essência, as dívidas ou vantagens que trazemos das existências passadas?
Estudos que efetuamos corretamente, ainda que terminados há longo tempo, asseguram-nos títulos profissionais respeitáveis. Faltas praticadas deixam azeda sucata de dores na consciência, pedindo reparação. Se plantamos preciosa árvore, desde muito, é natural venhamos a surpreendê-la, carregada de utilidades e frutos para os outros e para nós. Se nos empenhamos num débito, é justo suportemos a preocupação de pagar.

3 – Qual a lição que as horas nos ensinam?
Meditemos a simples lição das horas.
Comumente, durante a noite, o homem repousa e dorme; em sobrevindo a manhã, desperta e levanta-se com os bens ou com os males que haja procurado para si mesmo, no transcurso da véspera.
Assim, a vida e a morte, na lei da reencarnação que rege o destino.

4 – Qual a situação moral da alma no túmulo e no berço?
No túmulo, a alma, ainda vinculada ao crescimento evolutivo, entra na posse das alegrias e das dores que amontoou sobre a própria cabeça; no berço, acorda e retoma o arado da experiência, nos créditos que lhe cabe desenvolver e nos débitos que está compelida a resgatar.

5 – Em síntese, onde permanece, espiritualmente, a criatura reencarnada?
Cada criatura reencarnada permanece nas derivantes de tudo o que fez consigo e com o próximo.

6 – Qual a explicação lógica das enfermidades congênitas?
Os grandes delitos operam na alma estados indefiníveis de angústia e choque, daí nascendo a explicação lógica das enfermidades congênitas, às vezes inabordáveis a qualquer tratamento.

7 – O que ocorre aos suicidas nas vidas ulteriores?
Suicidas que estouraram o crânio ou que se entregaram a enforcamento, depois de prolongados suplícios, nas regiões purgatórias, frequentemente, após diversos tentames frustrados de renascimento, readquirem o corpo de carne, mas transportam nele as deficiências do corpo espiritual, cuja harmonia desajustaram. Nessa fase, exibem cérebros retardados ou moléstias nervosas obscuras.

8 – E os protagonistas de tragédias passionais?
Protagonistas de tragédias passionais, violentas e obscuras, criminosos de guerra, aproveitadores de lutas civis, que manejam a desordem para acobertar interesses escusos, exploradores do sofrimento humano, caluniadores, empreiteiros do aborto e devassidão e malfeitores outros, que a justiça do mundo não conseguiu cadastrar, voltam à reencarnação em tribulações compatíveis com os débitos que assumiram e, muitas vezes, junto das próprias vítimas, sob o mesmo teto, marcados por idênticos laços consanguíneos, tolerando-se mutuamente até a solução dos enigmas que criaram contra si mesmos, atentos ao reequilibro de que se veem necessitados; ou sofrem a pena do resgate preciso em desastres dolorosos, integrando os quadros inquietantes dos acidentes em que se desdobra o resgate do espírito reencarnado, seja nos transes individuais ou nas provações coletivas.

9 – E aos cúmplices de erros e enganos?
As grandes dificuldades não caem exclusivamente sobre os suicidas e homicidas comuns. Quantos se fizeram instrumentos diretos ou indiretos das resoluções infelizes que se adotaram são impelidos a recebê-los nos próprios braços, ofertando-lhes o recinto doméstico por oficina de regeneração.

10 – O que ocorre àqueles que provocaram o suicídio de alguém?
Se levianamente provocamos o suicídio de alguém, é possível que tenhamos esse mesmo alguém, muito breve, na condição de um filho-problema ou de um familiar padecente, requisitando-nos auxílio, na medida das responsabilidades que assumimos, na falência a que se arrojou.

11 – Que acontece àqueles que impelem o próximo à falência moral?
Se instilamos viciação e criminalidade em companheiros do caminho, asfixiando-lhes as melhores esperanças na desencarnação prematura, é certo que se corporificarão, de novo, na Terra, ao nosso lado, a fim de que lhes prestemos concurso imprescindível à reeducação, na pauta dos compromissos a que enredamos, ao precipitá-los aos enganos terríveis de que buscam desvencilhar-se, abatidos e desditosos.
Nas mesmas circunstâncias, carreamos em nós, enraizados nas forças profundas da mente, os bens ou os males que cultivamos.

12 – E o que ocorre aos desencarnados que malbarataram os tesouros da emoção e da ideia?
Quando desencarnados, não fugimos as leis de causa e efeito.
Se malbaratamos os tesouros da Terra, deambulamos nas esferas espirituais por doentes da alma, que a perturbação ensandece, fadados a reaparecer no plano carnal com as enfermidades consequentes, a se entranharem, nos tecidos orgânicos, que nos compõem a vestimenta física.

13 – E aqueles que se entregam aos desequilíbrios do sexo?
Se abraçamos desequilíbrios de sexo, agravados com padecimentos alheios por nossa conta, aguentamos inibições genésicas, muitas vezes, com o cansaço precoce e a distrofia muscular, a epilepsia ou o câncer, de permeio.

14 - E àqueles que perpetram crimes?
Se perpetramos crimes na pessoa dos semelhantes, ei-nos a frente de mutilações dolorosas.

15 – E àqueles que se entregam às extravagâncias da mesa?
Se nos entregamos às extravagâncias da mesa, arcamos com ulcerações e gastralgias que persistem tanto tempo quanto se nos perdurem as alterações do veículo espiritual.

16 – E àqueles que se afeiçoam ao alcoolismo?
Se nos afeiçoamos ao alcoolismo ou ao abuso de entorpecente, somos induzidos à loucura ou à idiotia seja onde for.

17 – E àqueles que se empenham em delitos de maledicência e calúnia?
Se nos empenhamos em delitos de maledicência e calúnia, atravessamos vastos períodos de surdez ou mudez, precedidas ou seguidas por distonias correlatas.

18 – As consequências de nossos erros se verificam apenas na forma de doenças comuns?
Não. Além disso, é preciso contar com as probabilidades da obsessão, porquanto, cada vez que ofendemos aos que partilham a marcha, atraímos, em prejuízo próprio, as vibrações de revolta ou desespero daqueles que se categorizam por vítimas de nossas ações impensadas.

19 – Qual deve ser nossa atitude perante as provas da vida?
Diante das provas inquietantes que se demoram conosco, aprendamos a refletir, para auxiliar, melhorar, amparar e servir aqueles que nos cercam.

20 – Quais as relações entre o presente, o passado e o futuro?
Todos estamos no presente, com o ensejo de construir o futuro, mas envolvidos nas consequências do passado que nos é próprio. Isso porque tudo aquilo que a criatura semeie, isso mesmo colherá.

EMMANUEL
Extraído do livro "Leis de Amor", ítem VI - Francisco C. Xavier e Waldo Vieira - pelo espírito de Emmanuel - 3º ed. FEESP

22 de abril de 2010

A AÇÃO DO PENSAMENTO

“Pensar é criar. A realidade dessa criação pode não exteriorizar -se, de súbito, no campo dos efeitos transitórios, mas o objeto formado pelo poder mental vive no mundo intimo, exigindo cuidados especiais para o esforço de continuidade ou extinção.”
(Pão Nosso, Emmanuel, psicografia de Francisco Cândido Xavier, capítulo 15.)

Obsessão e desobsessão: escravização e libertação do pensamento.

Ensinamento extraordinário que a Doutrina Espírita lega à Humanidade.

Escravização que está sendo analisada neste livro e que nos demonstra: a que ponto de subjugação pode chegar o ser humano, atormentado por outro ser humano, em gradações que vão desde a obsessão sutil até a possessão e o vampirismo; o ser humano autoflagelando-se mentalmente, até atingir a auto - obsessão, que, como vimos, abre campo para sintonias inferiores; o ser humano assolado pelo remorso, pela descrença ou egoísmo, enclausurando–se no pensamento viciado, cujo centro é ele próprio, num processo de autodestruição que o levará, após a desencarnação, persistindo o circuito mental viciado, a transubstanciar-se num ovoide.

Libertação — meta principal de todos nós. Escopo final do homem, que aspira a ser livre para sempre. E nesse ideal de liberdade julga erradamente que irá encontrá-la em aventuras arriscadas e dispendiosas, sondando o cosmos, lançando-se ao espaço, na ânsia de conquistar o infinito.

Não descobriu até hoje que o infinito está muito perto. Que o Infinito é ele mesmo: o ser imortal e eterno, cujas potencialidades maravilhosas jazem adormecidas e inexploradas, formando um microuniverso quase totalmente desconhecido.

Há um universo em cada um de nós, aguardando ser descoberto e guardando riquezas cósmicas que um dia nos tornarão “deuses”.

Na obra “Libertação” encontramos estas afirmativas que pela sua importância merecem ser mencionadas:

“(. ..) o espírito humano lida com a razão há, precisamente, quarenta mil anos (01)

“(...) Há milhões de almas humanas que se não afastaram, ainda, da Crosta Terrestre, há mais de dez mil anos. Morrem no corpo denso e renascem nele, qual acontece às árvores que brotam sempre, profundamente arraigadas no solo. Recapitulam, individual e coletivamente, lições multimilenárias, sem atinarem com os dons celestiais de que são herdeiras, afastadas deliberadamente do santuário de si mesmas, no terreno movediço da egolatria inconsequente, agitando-se, de quando em quando, em guerras arrasadoras que atingem os dois planos, no impulso mal dirigido de libertação, através de crises inomináveis de fúria e sofrimento.” .(02)

Milhares de anos em que utilizamos o nosso pensamento para o mal, para a destruição. Milênios de dor e sofrimento. Séculos de experiências dolorosas.

Nossa colheita tem sido de pranto, para que nas fontes do sentimento dilacerado pudéssemos mudar o rumo do pensamento envolvido no mal, preso ao jugo dos instintos inferiores.

Pensamentos viciados. Mente subjugada à escravidão das paixões.

Caminhos que escolhemos por vontade própria. Deixamos passar as oportunidades de modificar o nosso clima mental e nos comprometemos cada vez mais com a retaguarda de sombras, que hoje nos está cobrando pesado ônus.

Profundamente habituados a orientar erroneamente a direção do nosso pensamento, eis que surge o Espiritismo, como bênção de acréscimo da Misericórdia Divina, para nos libertar. A Doutrina Espírita veio desvendar o processo de nossa libertação E demonstrar que a liberdade tem que ser conquistada com o empenho de todas as nossas energias e com o selo de nossa responsabilidade.

Liberdade e responsabilidade. Para merecermos a primeira temos que assumir a segunda.

Dos tormentosos processos obsessivos, o homem só se liberará quando entender o quanto é responsável pelo próprio tormento e pelos que infligiu aos que hoje lhe batem às portas do coração, roubando a paz que julgava merecer.

Os Benfeitores Espirituais têm trazido ensinamentos renovados sobre a importância de nossa atitude mental. Julgamos, entretanto, que mesmo nós, os espíritas, ainda não conseguimos avaliar o que representa o pensamento em nossa romagem de Espíritos imortais, encarnados ou não. A verdade é que refletimos pouco a esse respeito. Não damos o devido valor à necessidade de selecionar as ondas mentais que emitimos e as que captamos. E nisto reside todo o segredo, se assim podemos dizer, da existência humana.

Na qualidade do pensamento que emitimos, que cultivamos e que recebemos dos outros, aceitando-os ou não, está o ‘mistério” da saúde ou da doença, da paz ou do desequilíbrio

É sabido que o pensamento é mensurável. Que é uma força eletromagnética, conforme ensina Emmanuel. Mas, estando cientes disto tudo, ainda assim não damos a devida importância à ação do pensamento.

Ao conquistar o raciocínio, o homem adquiriu a consciência, a faculdade de estabelecer padrões morais Ao tornar -se espírita, o ser humano teve a sua consciência clarificada pelos ensinamentos da Terceira Revelação, o que a torna plenamente lúcida, capaz de discernir com profundidade, de enxergar além dos limites físicos. vislumbrando o seu passado e antevendo o seu futuro.

Jamais teve o homem tal clareza de raciocínio. Jamais a sua consciência se apresentou tão viva e atuante. Mesmo não tendo cultura vasta, mesmo não sendo letrado, porque o discernimento independe de cursos. A consciência do espírita acorda no homem a responsabilidade.

Diante disto tudo, é muito importante direcionar o nosso pensamento. Não podemos permanecer indiferentes ante essa força que existe em nós, que expressa a nossa própria essência.

Somos responsáveis pela qualidade dos nossos pensamentos. Não nos basta frenar atitudes menos dignas e permitir que nas asas do pensamento elas se realizem. Não nos é suficiente disciplinar o nosso comportamento e trazer no intimo o pensamento conturbado, ansiando pelas realizações que a consciência censurou.

Cabe-nos disciplinar as emoções e os pensamentos que defluem delas.

Mas essa disciplina deve ser fruto da compreensão. Da certeza do que é realmente melhor. É preciso querer gostar de atuar no bem e conseqüentemente de pensar no bem e pensar bem.

Essa é uma laboriosa conquista. É filha da reflexão, do amadurecimento interior. É filha da necessidade que todos temos de ser bons. E ser bom é ter amor, O amor é a necessidade primeira do ser humano, é o seu alimento, o ar que respira, a vida que estua dentro dele. Por isto sofremos tanto quando nos afastamos do amor. Estamos assim negando ao nosso Criador, que nos criou no Seu Divino Amor, e negando a nós mesmos.

O nosso pensamento estagiou por milênios em faixas primitivas. Aos poucos, fomos vagarosamente imprimindo-lhe nova direção. Os sucessivos aprendizados enriqueceram a nossa mente com experiências diversas e a nossa emissão mental se aprimorou. Mesmo assim, demoramos a entender que o controle de nosso pensamento é de nossa exclusiva responsabilidade. E essa nova compreensão é decisiva em nosso destino.

De acordo com o que pensamos serão as nossas companhias espirituais e, parodiando a sentença popular diremos: “Dize-me o que pensas e te direi com quem andas. .

Esse é o notável ensinamento que a Doutrina Espírita nos apresenta.

Pelo pensamento desceremos aos abismos ou chegaremos às estrelas.

Pelo pensamento nós nos tornamos escravos ou nos libertamos.

A obsessão é, pois, o pensamento a transitar e a sintonizar nas faixas inferiores.

Desobsessão, ao invés, é a mudança de direção do pensamento para rumos nobres e construtivos. É a mudança do padrão vibratório, sob o influxo da mente, que optou pela freqüência mais elevada.

Essa mudança é uma questão de escolha. De seleção.

E só se chega a tal estado, a uma transformação dessa espécie, acionando-se uma das maiores potencialidades que existe no ser humano: a Vontade.

(01) Libertação, André Luiz, psicografia de Francisco Cândid o Xavier, capítulo 1º, 8ª edição FEB.
(02) Id. ib, capítulo II.

Obsessão e desobsessão
Suely Caldas

20 de abril de 2010

PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS

“(...) Como pode um homem nascer já estando velho?
Pode tornar ao ventre de sua mãe para nascer outra vez?”
Nicodemos.(Jo..3:4.)

Com razão afirma Kardec que só a reencarnação explica o que sem ela, se mantém inexplicável; que é altamente consoladora e conforme à mais rigorosa justiça; que constitui para o homem a âncora de salvação que Deus, por misericórdia, lhe concedeu.

As próprias palavras de Jesus não permitem dúvida a tal respeito, mas hoje, como ontem, existem muitos “mestres” que invectivam contra a palingenesia.

Observamos que a resposta de Jesus a Nicodemos foi precedida por aquelas célebres palavras tão comuns aos orientais quando desejam enfatizar algo: “Em verdade, em verdade te digo que, se um homem não renascer da água e do Espírito, não poderá entrar no Reino dos Céus”.

Jesus chama a atenção do vaidoso doutor para o ensinamento novo...

Em verdade, em verdade significa: preste atenção, aguce os ouvidos, é importante!...

Na verdade o homem não prestou atenção e desse diálogo, em vez de aprender a respeito da reencarnação, na sua ignorância ele inventou o batismo, como se um pouco de água derramada na cabeça de alguém pudesse transformar ou limpar algo além das sujidades exteriores.

Kardec continua seu lúcido raciocínio:

“(...) Em suma, como quer que opinemos acerca da reencarnação, quer a aceitemos, quer não, isso não constituirá motivo para que deixemos de sofre-la, desde que ela exista, mau grado a todas as crenças em contrário. O essencial está em que o ensino dos Espíritos é eminentemente cristão; apoia-se na imortalidade da alma, nas penas e recompensas futuras, na justiça de Deus, no livre-arbítrio do homem, na moral do Cristo. Logo, não é anti-religioso.

Temos raciocinado, abstraindo, como dissemos, de qualquer ensinamento espírita que, certas pessoas, carece de autoridade. Não é somente porque veio dos Espíritos que nós e tantos outros nos fizemos adeptos da pluralidade das existências. É porque essa doutrina nos pareceu a mais lógica e porque só ela resolve questões até então insolúveis.

Ainda quando fosse da autoria de um simples mortal, tê-la-íamos igualmente adotado e não houvéramos hesitado um segundo mais em renunciar às idéias que esposávamos. Em sendo demonstrado o erro, muito mais que perder do que ganhar tem o amor próprio, com o se obstinar na sustentação de uma idéia falsa. Assim também, tê-la-íamos repelido, mesmo que provindo dos espíritos, se não parecera contrária à razão, como repelimos muitas outras, pois sabemos, por experiência, que não se deve aceitar cegamente tudo o que venha deles, da mesma forma que se não deve adotar às cegas tudo o que procedera dos homens.

O melhor título que, ao nosso ver, recomenda a idéia da reencarnação é o de ser, antes de tudo, lógica. Outro, no entanto, ela apresenta: o de a confirmarem os fatos, fatos positivos e por bem dizer, materiais, que um estudo atento e criterioso revela a quem se dê ao trabalho de observar com paciência e perseverança e diante dos quais não há mais lugar para a dúvida. Quando esses fatos forem conhecido, como os da formação e do movimento da Terra forçoso será que todos se rendam à evidência e os que se lhes colocaram em posição ver-se-ão constrangidos a desdizer-se.

(...) Ensinando acerca da pluralidade das existências corporais, os Espíritos renovam uma doutrina que teve origem nas primeiras idades do mundo e que se conservou no íntimo de muitas pessoas, até aos nossos dias.

Simplesmente, eles a apresentam de um ponto de vista mais racional, mais acorde com as leis progressivas da Natureza mais de conformidade com a sabedoria do Criador, despindo-a de todos os acessórios da supertição. Circunstância digna de nota é que não só neste livro os Espíritos a ensinaram no decurso dos últimos tempos: já antes da sua publicação, numerosas comunicações da mesma natureza se obtiveram em vários países, multiplicando-se depois, consideravelmente.

(...) Muitos repelem a idéia da reencarnação pelo só motivo de ela não lhes convir. Dizem que uma existência já lhes chega de sobra e que, portanto, não desejariam recomeçar outra semelhante. De alguns sabemos que saltam em fúria só com o pensarem que tenham de voltar à Terra. Perguntar-lhes-emos apenas se imaginam que Deus lhes pediu o parecer, ou consultou os gostos, para regular o Universo.

Uma de duas: ou a reencarnação existe, ou não existe; se existe, nada importa que os contrarie; terão que a sofrer, sem que para isso lhes peça Deus permissão. Afiguram-se-nos os que assim falam um doente a dizer: Sofri hoje bastante, não quero sofrer mais amanhã. Qualquer que seja o seu mau-humor, não terá por isso que sofrer menos no dia seguinte, nem nos que se sucederem, até que se ache curado. Conseguintemente, se os que de tal maneira se externam tiverem que viver de novo, corporalmente, tornarão a viver, reencarnarão. Nada lhes adiantará rebelarem-se quais crianças que não querem ir para o colégio, ou condenados, para prisão. Passarão pelo que têm de passar.

São demasiado pueris semelhantes objeções, para merecerem exames mais sérios. Diremos, todavia, aos que as formulam que se tranqüilizem, que a Doutrina Espírita, no tocante à reencarnação, não é tão terrível como a julgam; que, se a houvessem estudado a fundo, não se mostrariam tão aterrorizados; saberiam que deles dependem as condições da nova existência, que será feliz ou desgraçada, conforme ao que tiverem feito neste mundo; que desde agora poderão elevar-se tão alto que a recaída no lodoçal não lhes seja mais de temer”.

Em verdade, em verdade te digo!...

Acre Espírita 

18 de abril de 2010

O LIVRO DOS ESPÍRITOS



EM 18 DE ABRIL É COMEMORADO O DIA DO LIVRO ESPÍRITA, DIA NACIONAL DO ESPIRITISMO E TAMBÉM COMEMORAMOS O ANIVERSÁRIO DA PUBLICAÇÃO DE “O LIVRO DOS ESPÍRITOS” OCORRIDO NO ANO DE 1857.

A Doutrina Espírita, ou Espiritismo, é o corpo doutrinário mais lógico e seguro conhecido pelos homens, no campo filosófico-religioso-moral.

Suas verdades lastreiam-se nas realidades imanentes do espírito e da matéria, os dois elementos do Universo.

A obra basilar da Doutrina – O Livro dos Espíritos – parte da idéia de Deus, o Criador, perlustra a criação, indo muito além do objeto da ciência terrena, que se tem ocupado somente com a matéria.

O mundo dos Espíritos, a Vida nos seus múltiplos desdobramentos, as leis morais decorrentes de princípios divinos, ou naturais, a evolução dos seres em demanda da perfeição, a conexão entre antigos conhecimentos de posse dos homens e novas revelações trazidas pelas “Virtudes dos Céus” demonstram que essa síntese admirável – a Doutrina do Consolador – é a marca de um novo tempo, prevista e enviada pelo Cristo de Deus, caracterizando uma Nova Era para a Humanidade.

Todo esse conjunto de conhecimentos, de princípios, de leis morais, de ciência abrangente e não restrita à matéria, de deduções filosóficas verdadeiras porque baseadas em fatos é o que se denomina a Terceira Revelação, resultado de um planejamento superior e do esforço comum de um grupo de Espíritos Superiores com seus instrumentos encarnados na Terra.

O Livro dos Espíritos tem sua origem nesse trabalho conjunto entre dois planos de vida.

A essência provém dos Espíritos Reveladores, à frente o Espírito de Verdade. A mediação, a forma, o método, a sistematização dos assuntos e das matérias, os comentários judiciosos constantes da obra são de seu autor, o Professor Hippolyte Léon Denizard Rivail – Allan Kardec – que se apoiou em “mais de dez médiuns” para o trabalho de recepção.

Essa obra, que se apresenta aos homens sob a forma de um livro, tem uma significação transcendente para toda a Humanidade.

Seu aparecimento, nos meados do século XIX, é, na realidade, o marco inicial de uma Nova Era, que se vinha preparando no decorrer dos séculos anteriores.

O homem já conhece muitas verdades, a respeito de si mesmo e do mundo que o cerca, desde muitos milênios. São parcelas das realidades trazidas pelos emissários do Cristo, o Governador Espiritual deste Orbe, que deram origem às antigas religiões e a sistemas filosóficos.

A Mensagem do Cristo consolidou o que já havia de real, de verdadeiro na Revelação mosaica, retificando as distorções dos princípios do judaísmo, especialmente no tocante aos ensinos morais, que se tornaram os fundamentos do Cristianismo.

Mas a interpretação dos homens distorceu a Mensagem, dando-lhe sentido ao sabor dos interesses pessoais e institucionais das igrejas cristãs, a ponto de desvirtuá-la profundamente, com grave prejuízo da essência do Cristianismo primitivo.

Impunha-se, assim, a retificação dos enganos, a separação da dogmática criada à sombra dos princípios ensinados pelo Cristo mas com eles conflitantes, a retomada do caminho certo.

Essa retomada de rumos não se tornou possível senão dezoito séculos após a Grande Mensagem.

Enredou-se o mundo ocidental de tal sorte com os poderes políticos, feudais, da realeza e da autocracia, civil e religiosa, que se tornava praticamente impossível a reação e o retorno aos ensinos evangélicos na sua pureza primitiva.

Chegou-se ao ponto de utilizar a guerra e a violência em nome de Deus.

As Cruzadas e o Tribunal do Santo Ofício, com a Inquisição, de triste memória, atestam a impossibilidade do surgimento de uma retificação de enganos dos detentores do poder civil e religioso por muitos séculos.

Entretanto, a retomada do caminho certo estava prevista pelo Cristo, como prevista foi por Ele a deturpação de sua Mensagem.

A prova dessa antevisão está na promessa do envio do Consolador:

“Eu rogarei ao Pai e Ele vos dará um outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece (...) mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que eu vos disse.” (João, 14:16-26.)

Antes da vinda do Consolador era necessário que os homens pudessem recebê-lo.

Para tanto havia necessidade da derrubada da autocracia, do absolutismo, da imposição sistemática, da ausência da liberdade.

Do fim da Idade Média, símbolo histórico do atraso, da ignorância e da intolerância da Humanidade, até meados do século XIX, quando eclode a Doutrina Consoladora, decorreram mais de três séculos.

Nesse período de renovação e de transição para uma nova civilização, ocorrem a invenção da imprensa, os grandes descobrimentos marítimos, a Reforma, o Iluminismo e a Revolução Francesa, acontecimentos que transformaram o mundo, implantando a liberdade e pondo fim ao absolutismo político e religioso.

Havia, portanto, no século XIX, condições para a eclosão da Nova Luz.

A liberdade de pensamento e de sua expressão garantia, na Europa e na América, como em todos os países civilizados, apesar da resistência de setores retrógrados das sociedades humanas, a manifestação de novas idéias, proporcionando largo avanço das ciências e do conhecimento em geral.

Nessas condições é que começam as manifestações espíritas, nos Estados Unidos da América e na Europa, numa clara demonstração de que os tempos do Consolador eram chegados.

Hoje, podemos perceber o planejamento espiritual para a vinda da Nova Luz.

O missionário maior da Nova Revelação estava à espera da grande missão, para a qual renasceu em 1804.

Os fatos inusitados das manifestações espirituais chamaram a atenção dos americanos.

As mesas girantes e falantes tornaram-se comuns nos salões europeus.

Era o prelúdio e os fundamentos fáticos do fenômeno espírita, largamente observados por quem tivesse “olhos de ver” mais profundamente o que significavam.

O Professor Rivail observou os fenômenos, estudou-os profundamente, tirou conclusões lógicas, usando o método experimental e a razão, os conhecimentos que detinha e o bom-senso, eliminando tudo que conduzisse à ingenuidade e à credulidade excessiva.

De seu trabalho metódico e inteligente, usando o nome de sua antiga personalidade druida – Allan Kardec – surgiu o monumental O Livro dos Espíritos, sob a orientação do Espírito de Verdade.

...

A obra fundamental do Espiritismo foi lançada em 18 de abril de 1857, em sua feição original, posteriormente revista e reestruturada, sempre com a supervisão do Espírito de Verdade, resultando na segunda edição, definitiva, lançada a 16 de março de 1860.

A Doutrina Espírita está sintetizada nesse livro, que inaugura a Era Espírita neste Orbe.

Tanto a Lei antiga no que diz respeito a verdades incontestes, quanto os ensinos do Cristo, escoimados das deturpações humanas, somam-se às novas revelações do Mundo Espiritual.

Todo esse imenso cabedal de conhecimentos representa um vasto universo de difícil apreensão pelo homem, não fosse contornada a dificuldade pela Espiritualidade Superior, resumindo todo o acervo intelecto-moral no livro-síntese que é O Livro dos Espíritos.

Esse livro é, pois, alimento permanente para a inteligência e o sentimento humanos. Fala-nos silenciosamente sobre múltiplos assuntos, dirime nossas dúvidas, chama-nos a atenção para a vida que nos envolve e que se desdobra em mil formas, à nossa volta.

Ensina-nos a melhor compreender Deus, mas sobretudo senti-lO como o Criador, a Inteligência Suprema e causa primária de todas as coisas.

Revela-nos o sentido espiritual da vida, com sua progressão contínua dentro da Lei de Evolução, ora ligada à matéria, ora em estado livre.

Mostra-nos serem infinitos os Universos material e espiritual, criação de Deus.

Esclarece a tormentosa questão do Bem e do Mal e relaciona as Leis Morais de forma didática e simples para a compreensão das inteligências comuns.

Combate o materialismo, em suas diferentes faces, mostrando sua incongruência diante da realidade patente da existência de Deus, de suas leis, e do Espírito imortal.

Indica a realidade das vidas sucessivas na Terra, dando um novo e correto entendimento à antiga doutrina da reencarnação do Espírito, retificando os desvios e enganos das velhas concepções.

Coloca em evidência o caráter religioso da Doutrina dos Espíritos, escoimada dos cultos exteriores das diversas denominações religiosas, mostrando que a verdadeira adoração ao Criador há que partir do coração da criatura, de seus sentimentos e não de atos exteriores.

Este pequeno resumo mostra-nos a abrangência das matérias, das questões e das orientações dos Espíritos constantes do livro fundamental da Doutrina Espírita.

Mas estamos longe de alcançar, nesse resumo, o poder de síntese dos Espíritos Reveladores.

Por isso, cumpre a todo espírita sincero estudar sempre o livro-base da Doutrina.

Sua importância é tal que os próprios Autores Espirituais consideraram necessário o seu desdobramento, sem modificação do original. Desse entendimento resultaram as demais obras da Codificação Kardequiana, cada qual estendendo e desenvolvendo partes do livro-síntese: O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese.

Os próprios Espíritos Reveladores fizeram preceder ao corpo da obra de que foram autores duas observações que vamos transcrever aqui, por sua importância na elucidação de diversas dúvidas que assaltam os que se iniciam no estudo da Doutrina.

Eis os textos:

“As comunicações entre o mundo espírita e o mundo corpóreo estão na ordem natural das coisas e não constituem fato sobrenatural, tanto que de tais comunicações se acham vestígios entre todos os povos e em todas as épocas.Hoje se generalizaram e tornaram patentes a todos.”

“Os Espíritos anunciam que chegaram os tempos marcados pela Providência para uma manifestação universal e que, sendo eles os ministros de Deus e os agentes de Sua vontade, têm por missão instruir e esclarecer os homens, abrindo uma nova era para a regeneração da Humanidade.”
(Prolegômenos, p. 48, 80. ed. FEB.)

JUVANIR BORGES DE SOUZA

15 de abril de 2010

VOLTANDO PARA CASA

É chegado o momento de voltar para casa. Os olhos, o corpo e o coração de quem caminha preferem, desta vez, não olhar para trás. Talvez estes sejam alguns dos passos mais duros e inesquecíveis dados no decorrer de uma vida.
A poucos metros dali, ficou o corpo do ser querido, velado sob a amarga vigília das horas choradas, diante das quais as lembranças ininterruptas de todos os momentos vividos em comum se fizeram presentes, bem como os infindáveis porquês dos que se viram no direito de perguntar a Deus a razão d’Ele ter querido levar o ente amado daquela forma, naquele momento.
O ato de entrar de novo em casa, agora um pouco mais vazia, inaugura também o ingresso emocional nos lutos da perda e solidão, que invadem o coração de forma silenciosa, para ocuparem por algum tempo o espaço ausente do outro.
Os armários e as gavetas, repletos das lembranças de quem acabou de partir, insistem em deixar no ar uma atmosfera de que aquilo é um sonho e que, como ocorre todos os dias, também vai passar e tudo voltará ao normal. Alguns fazem a opção de pedir um prazo ao tempo e mergulham no cultivo da saudade, que se manifesta no ato de diariamente arrumar o quarto daquele que já morreu.
Conheço pessoas que agiram de forma diferente, nessa hora. De imediato, arrumaram as roupas, os pertences, os brinquedos que não mais serviriam naquele ambiente e distribuíram para creches, hospitais e asilos. Só que o fizeram com o coração trancafiado pela ausência de perdão aos desígnios divinos, e então iluminaram pela metade o que poderiam ter feito por inteiro. O gesto de amor e desprendimento acabou por não desprendê-las do fardo da tristeza, que mais tarde volta a aparecer, fazendo com que a vida se transforme em um mar de lamentações e de lágrimas.
Mais difícil do que vencer as lembranças dos que foram para o além é a descoberta de que a morte passou perto e, da mesma maneira firme e serena como levou nosso amor, deixou no ar um desafio, a nos instigar constantemente: por que você não aproveita a oportunidade e tenta descobrir o que os sábios querem dizer, quando afirmam que eu sou uma mensageira da vida, e não o retrato do fim?
A respeito desse assunto de tão grande importância, um primo que não via há muito tempo proporcionou-me uma vivência muito interessante, certa vez. Sua mãe morrera havia alguns anos, o que lhe causara uma dor profunda, quase insuperável. Materialista de convicções arraigadas, jamais aceitara ao menos refletir sobre alguns dos pontos de vista e idéias que eu, seu primo, sustentava, uma vez por outra, quando passava com ele algumas horas.
Todas as vezes em que conversávamos, fazia questão de sobrepor-se aos argumentos espíritas, afirmando que os temas “vida após a morte”, “imortalidade da alma” e “reencarnação” provocavam-lhe especial enfado, não preenchendo nenhuma das necessidades intelectuais de sua vida de magistrado.
Depois da desencarnação da mãe, meu parente sofreu outra dor profunda. O irmão com que ele mais se afinava também morreu, deixando-o em preocupante estado de consternação e revolta.
No dia do enterro, ele ficou com a incumbência de acompanhar a preparação do jazigo da família, a fim de colocar ali o corpo inerte do companheiro inesquecível. Assim que o último tijolo que cobria a entrada do túmulo foi retirado, viu, reunidos em um saco plástico, os ossos daquela que em vida fora sua mãe; perto do embrulho, observou ainda alguns maços de cabelo da mãezinha adorável, cuja partida tanto lhe fez sofrer.
Diante daquele quadro, ele, acompanhado apenas da esposa, parou por um instante e sentiu uma vibração diferente bater-lhe no íntimo do peito. Levantando-se depois de alguns minutos, olhou para a mulher e afirmou:
— Meu bem, acho que neste momento estou descobrindo que a alma é realmente imortal. Preste bem atenção na cena que vemos nesse túmulo, onde colocaremos dentro em breve o corpo de meu irmão. Os ossos e os restos de cabelo de minha mãe estão me falando, com silenciosa persistência, que a mulher franzina que cuidou de mim com imenso amor durante tão longos anos, sem nunca ter reclamado atenção e carinho; que se dedicou feito missionária ao apostolado da renúncia, sem jamais ter pedido reconhecimento pela fiel execução das árduas tarefas, não pode ter acabado dessa forma. Recuso-me a crer que minha mãezinha resume-se hoje a esse monte de ossos.
Procurando-me depois dessa belíssima vivência, perguntou-me, de imediato: — “Diga-me logo, onde está mamãe? Abra, por favor, para mim, as portas da espiritualidade para que eu mesmo faça a viagem da busca”.
Depois de um longo e afetuoso abraço, disse-lhe que o anseio da procura começava no esforço do estudo incessante das obras de Allan Kardec e ia se concretizando aos poucos, à medida que ele se transformasse no homem de bem que a vida nos pede que sejamos, uma vez que essa efetiva mudança pessoal para melhor remete o novo ser aos ambientes elevados, aonde estão as chances de reencontro com os que nos merecem amor.
Naquele dia, meu primo voltou para casa, após o enterro do corpo do irmão, com os pés e a alma buscando outra direção. Não mais com a pesada sensação de vazio e revolta, mas com a esperança de que por trás da experiência da morte há a expectativa do reencontro, a realidade infinita da vida e a grandeza da misericórdia de Deus, a dizer, para os que aprenderam a ouvir, que morrer é sobretudo uma volta e que ninguém ficará sem estar de novo com aqueles que ama verdadeiramente.

REFORMADOR, AGOSTO/1997

14 de abril de 2010

ADVERSIDADES


São muitos os inimigos e adversários que temos de enfrentar em nossas vidas. Tanto no ser eterno quanto no corpo denso, arrostamos inimigos que se instalam em forma de enfermidades físicas e morais. Aquelas acometem o corpo somático; estas infestam a alma imortal.
As primeiras decorrem de causas diversificadas tais como a degeneração dos próprios órgãos e tecidos pela ação do tempo; o mau uso a que submetemos nosso corpo, sujeitando-o a vícios e abusos variados como o do fumo, do álcool, o dos entorpecentes, o dos desregramentos sexuais, a demasiada alimentação e o insuficiente repouso, a inadequada atividade ou a excessiva inação, além de muitos outros hábitos perniciosos.
Dentre os vícios que mais danos acarretam destacam-se o tabagismo, o alcoolismo e o consumo de várias drogas.
A submissão ao fumo leva a pessoa a expor a função pulmonar a risco muitas vezes fatal como o do enfisema, que além de reduzir a capacidade respiratória torna-a penosa e dolorosa, acarretando conseqüências danosas a outros órgãos com sacrifício do metabolismo humano. Por sua vez, a viciação em bebidas alcoólicas trará, forçosamente, o entorpecimento do fígado, facilitando o advento da cirrose e várias outras moléstias, afetando, inclusive, o sistema nervoso. Conduz, pois, inexoravelmente, a criatura à degradação.
Quanto às drogas, ninguém mais pode ter dúvidas da degeneração que impõem ao indivíduo, tanto ao que a elas está subjugado quanto àquele que as mercadeja. São as criaturas incursas nas penalidades decorrentes das graves violações das leis naturais e humanas.
Sabemos que na Terra as doenças são numerosas e têm sido preocupação constante do homem. A Ciência mostra que se não fossem as defesas naturais do corpo humano, as descobertas dos micro-organismos com o advento do microscópio, as vacinas, as assepsias já alcançadas e outras conquistas, o panorama das enfermidades seria ainda mais apavorante.
Dentre aquelas defesas mencionadas, os pesquisadores apontam o envolvimento do corpo humano pela pele, derma e epiderme, como uma barreira à penetração de micro-organismos e até com capacidade para exterminar muitos que ali se depositam. As mucosas nasal, pulmonar, intestinal, etc. são outros tantos obstáculos de que a Natureza dispõe para defender o organismo humano contra a incursão externa perigosa e indesejável. Mas, internamente, dispõe o corpo humano de organização a serviço de sua defesa. São mecanismos de autodefesa automaticamente acionados e que entram imediatamente em atividade sempre que ocorre uma lesão, um risco, uma invasão microbiana, etc.
Os medicamentos, as diversas terapias, os hábitos saudáveis e higiênicos e outros fatores são outros tantos recursos de defesa do organismo humano. Mas, além desses meios que fazem parte da matéria densa, há outros pouco ou menos conhecidos, mas também relacionados com a nossa integridade física e que constituem seus poderosos defensores os quais, entretanto, não estão catalogados pela ciência do mundo. No futuro, quando a luz se fizer nos horizontes dos observadores atentos, eles irão constatar a efetiva existência de outras proteções. Exemplo típico é o da aura humana. A vibração das nossas células faz com que emitam radiações que formam um halo energético em torno de nós semelhante a uma túnica eletromagnética. É o que constitui a aura e dentre as suas funções podemos citar que representa defesa do corpo contra várias espécies de micro-organismos. Saliente-se, contudo, que ainda não foi devidamente considerada pela ciência oficial.
Mas não é só. As energias cósmicas, a luz solar, os fluidos ainda não pesquisados constituem poderosos elementos a serviço da saúde humana, atuantes permanentemente, a despeito e à revelia da nossa ignorância e da insensibilidade em face da sua ação e eficácia.
Em síntese, estão mencionados alguns dos inimigos do corpo humano e dos modos de defendê-lo. Assim, esses infortúnios fundamentam a nossa constante preocupação em virtude da perspectiva que representam de dores e sofrimentos ou até a da própria morte.
Mas há outros males que se instalam em nosso interior e parecem ter vida simbiótica em nossa alma, em processos doentios demorados, de difícil erradicação. O egoísmo, o orgulho, a vaidade, o desânimo, a inveja, o ciúme, o ódio e tantos outros que infestam a alma tornando-a enfermiça e terminam por impor ao próprio corpo físico conseqüências mórbidas dolorosas.
Todas as desditas humanas decorrem da inobservância e da infringência das leis divinas, resultam das nossas imperfeições, as quais ditam nossos procedimentos malévolos com os semelhantes, advindo daí os efeitos desastrosos a despontarem em nosso caminho.
O renascimento em mundos como a Terra já revela a presença de imperfeições e os quadros dolorosos de nossas vidas também constituem, muitas vezes, seguros indicadores de que, de alguma maneira, deixamos de observar a obrigação de fazer o bem ao semelhante ou, mais grave ainda, demonstram outras vezes claramente, que nossas feridas são resultantes de outras tantas chagas abertas, outrora, por nós em irmãos do caminho.
Há nas leis naturais escala verdadeira de valores, a qual, quando devidamente observada e adotada, impulsiona o progresso da criatura, aperfeiçoando-lhe a alma imortal.
Sabemos que a situação social das pessoas é tão variada como o são suas atividades. Seu comportamento também é diversificado de conformidade com seu adiantamento moral.
Portanto, os valores são escalonados sob os aspectos moral, econômico e intelectual. Perante as leis naturais nada impede que essas três condições coexistam na criatura, em elevado grau, ou cada qual isoladamente. Todavia, somente o aperfeiçoamento moral caracteriza o verdadeiro progresso perante as normas divinas.
Muitas pessoas que ocupam posições sociais elevadas e até mesmo no exercício de funções e atividades religiosas relevantes, diante das disposições divinas, são havidas como deficientes em termos de bondade, compreensão, fraternidade, em razão de seus comportamentos no trato com os semelhantes. Não é raro observar-se a desatenção com que tratam as pessoas. Entendem que as altas funções que exercem no seio da sociedade são mais importantes do que as próprias criaturas. Sempre ocupadas e apressadas não podem dispensar um instante sequer a um irmão, a um amigo do caminho. Alegam que não dispõem de tempo. Seus próprios filhos são tratados como se fossem estranhos. Não têm tempo para amá-los, para educá-los na faculdade de amar. Esquecem-se tais criaturas que o tempo é algoz dos que erram e abençoado bálsamo dos injustiçados. Que o importante é a pessoa, é o próximo, o nosso semelhante. O que conta no fim da trilha que leva ao túmulo é o amor que se dedica e este é a chave que abre a porta para a senda de luz e felicidade depois do sepulcro.
O menosprezo dessa verdade enseja muitas adversidades no futuro.
Portanto, não basta abstermo-nos de praticar o mal. Os princípios universais que regulam a evolução impõem-nos o dever de promover sempre o bem do próximo.
Todos nós na Terra enfrentamos dificuldades inumeráveis, as quais fazem parte do processo evolutivo. Mas as dores e vicissitudes, antes de tudo, devem sempre servir de alerta de que jamais devemos impô-las aos semelhantes.
Permanentemente temos de lembrar-nos de que vivemos cercados pela Infinita Misericórdia a começar pelo dom da vida, pelas possibilidades de amar e de ser amados, de servir e pagar dívidas, de trabalhar e evoluir, de recolher a cada manhã como raios de luz a renascente esperança de felicidade e a certeza de que a morte não existe.

REFORMADOR-AGOSTO/1997

13 de abril de 2010

COISAS PARA DESAPRENDER


As crianças não vêm com esses bem -acabados folhetos impressos que explicam minuciosamente como funcionam os aparelhos que adquirimos nas lojas. Não trazem um manual de ins truções, que ensine como devemos abrir o pacote, tirar o aparelho da caixa, instalá -lo e fazê-lo funcionar. Também não trazem certificado de garantia, que se possa apresentar ao representante autorizado, juntamente com a nota fiscal, caso haja algum defeito de fabricação.

Dizem até que um jovem pai, que acabara de retirar mulher e filho do hospital, levou-o de volta, para reclamar, porque ele estava com um vazamento...

Com o tempo, vamos aprendendo a resolver os pequenos pro blemas que surgem. E os grandes também, se e quando surgirem. Nós nos valemos da experiência dos mais velhos, geralmente uma das avós, ou ambas, tias, vizinhas e, naturalmente, dos médicos, quando a situação assim exige.

Para facilitar as coisas, comprei o livro de um famoso pediatra da época, que substituía razoavelmente bem os manuais de instruções que acompanham os eletrodomésticos de hoje e ajudam a solucionar ou prevenir alguns dos “enguiços” mais comuns. Recebíamos dele ensinamentos minuciosos sobre a maneira de cuidar do bebê durante seus primeiros dias de vida: o banho, o sono, a roupa, a alimentação, bem como a interpretação de certos sinais típicos que marcam as diferentes etapas de desenvolvimento: os primeiros passos, os dentinhos de leite, peso, altura, hábitos de higiene e inúmeros outros indicadores.

Toda essa logística tem por objetivo proporcionar aos pais uma criança sadia para que nela se desenvolvam as faculdades mais nobres de inteligência, vivacidade e boas maneiras. Para que ela seja, enfim, uma pessoa útil a si mesma e à sociedade na qual está começando a viver, e na qual vai se envolvendo, cada vez mais, na escola, em seus diversos níveis, e depois, no trabalho, no relacionamento com a família, com os amigos e tudo mais.

Realmente, todos esses elementos são da mais alta relevância e de imediata aplicação naquilo que constitui praticamente um projeto, que é o de criar uma criança proporcionando-lhe todos os elementos possíveis a uma vida decente, equilibrada, normal e feliz. Isso, contudo, é apenas parte do problema, uma vez que continuam sem resposta numerosas questões que podem ocorrer à mãe e ao pai da criança. Em suma, temos livros de obstetras, psicólogos, psiquiatras e pediatras, mas onde encontrar obras escritas por “espiritiatras”?

Enquanto o problema consiste apenas em dar este alimento ou aquele, dormir à tarde ou de manhã, vestir ou não agasalho, ventilar o quarto de dormir, tomar sol, tratar um resfriado ou dor de barriga, as opiniões variam, mas podemos chegar a um consenso, adaptado às nossas próprias condições e, obviamente, às do bebê. Acabamos acertando com o alimento que melhor “concorda” com ele, como dizem os americanos, ou com seus hábitos de repouso e atividade, bem como o tipo de roupinha que melhor lhe convém.

Mas, e ele mesmo, como pessoa humana, como individualidade, como é? Por que é temperamental ou apático? O que o faz pacífico e sereno ou agitado e mal-humorado? Por que ele gosta de algumas pessoas e não de outras? Por que chora tanto ou não chora, a não ser excepcionalmente? Por que custa tanto a falar ou a andar, ou a aprender a ler? E, mais tarde, por que gosta de matemática e não de línguas, ou vice -versa? E, acima de tudo, quando se tem dois ou mais filhos, por que são tão diferentes entre si, uma vez que gerados todos a partir do mesmo conjunto de genes e criados, no lar, sob idênticas ou muito semelhantes condições?

Afinal, quem são nossos filhos, o que representam em nossas vidas e o que representamos nós na vida deles, além do simples relacionamento pais e filhos?

Longe de respostas mais claras e objetivas, ou, pelo menos, de hipóteses orientadoras, o que observamos, no dia a dia das lutas e alegrias da vida, é uma coletânea de clichês obsoletos, ou seja, idéias preconcebidas e cristalizadas que de tão repetidas assumiram status de verdades inquestionáveis, que vamos aceitando meio desatentos, sem procurar examiná -las em profundidade.

Por exemplo: o Marquinho “puxou” o jeito enérgico da mãe, ou a Mônica herdou a inteligência do pai, ou o gosto da tia pelas artes plásticas, ou, a inda, o temperamento da avó Adelaide.

A primeira coisa a desaprender com relação às crianças é a de que elas não herdam características psicológicas, como inteligência, dotes artísticos, temperamento, bom ou mau gosto, simpatia ou antipatia, doçura ou agressividade. Cada ser é único, em sua estrutura psicológica, preferências, inclinações e idiossincrasias. Somente características físicas são geneticamente transmissíveis: cor da pele, dos olhos, ou dos cabelos, tendência a esta ou àquela conformação física , predisposição a esta ou àquela enfermidade, ou a uma saúde mais estável, traços fisionômicos e coisas dessa ordem.Quanto ao mais, não. Pais inteligentíssimos podem ter filhos medíocres, tanto quanto pais aparentemente pouco dotados podem ter filhos geniais.

Pessoas pacíficas geram filhos turbulentos e, vice-versa, pais desarmonizados produzem crianças excelentes, equilibradas e sensatas.

Qualquer um de nós poderá citar pelo menos uma dúzia de exemplos de seu conhecimento para testemunhar a exatidão dess as afirmativas.

Por isso, repetimos, cada criança, cada pessoa, é única, é dife rente, e embora possam ter, duas ou mais, certas características em comum ou muito semelhantes, cada uma delas é um universo próprio, como que individualizado.

Até mesmo gêmeos univitelinos, ou seja, gerados a partir do mesmo ovo, trazem, na similitude de certos traços físicos, diferenças fundamentais de temperamento e caráter que os identificam com precisão, como indivíduos perfeitamente autônomos e singulares.

Vamos logo, portanto, definir um importante aspecto: os pais produzem apenas o corpo físico dos filhos, não o espírito (ou alma) deles.

Outra coisa convém desaprender logo, para abrir espaço para novos conceitos, mais inteligentes, racionais e competentes acerca da vida. Esses espíritos ou almas que nos são confiados, já embalados em corpos físicos, que nós mesmos lhes proporcionamos, através do processo gerador, não são criados novinhos, sem passado e sem história! Elesjá existiam antes, em algum lugar, têm uma biografia pessoal, trazem vivências e experiências e aqui aportam para reviver e não para viver. Estão, portanto, renascendo e não apenas nascendo.

É espantosa a reação que esta idéia simples e genuína tem encontrado para impor-se como verdade que é. O próprio Cristo ensinou que João Batista era o profeta Elias renascido, embora não reconhecido pelos seus contemporâneos. Em outra passagem, falando a Nicodemos, admirou-se de que o ilustrado membro do Sinédrio ignorasse verdade tão elementar, ou seja, a de que é preciso nascer de novo para alcançar a paz espiritual, à qual Jesus dava o nome de Reino de Deus ou Reino dos Céus.

Eis, portanto, a pura, simples e inquestionável verdade: nossos filhos, tanto quanto nós mesmos, são seres humanos que já viveram antes. Trazem em si todo um passado mais ou menos longo de experiências, equívocos, conquistas, realizações e, conseqüentemente, um programa a executar na vida que reiniciam junto de nós. Da mesma forma que não nos desintegramos em nada ao morrer, também não viemos do nada quando nascemos de novo na carne. Tudo é continuidade, etapas que se sucedem, em ciclos alternados, aqui e além.

Anotem aí, portanto: somos todos seres criados por Deus, sim, mas há muito, muito tempo, e não no momento da concepção ou na hora do nascimento, para “ocupar” um novo corpo físico.

Esta idéia constitui a viga mestra de toda a arquitetura da vida, o conceito-diretor que nos leva ao entendimento dos seus enigmas, mistérios e belezas imortais. E, portanto, esta idéia, este conceito, esta verdade que escolhemos para alicerçar este livro, a fim de ordenar o que precisamos saber — dentro das limitações humanas — para entender a vida e, também, ajudar aqueles que nos cercam a entendê-la melhor. Tudo aquilo, mas tudo mesmo, que se chocar com esta verdade, tem de ser desaprendido, se é que estamos realmente empenhados em fazer da nossa vida um projeto inteligente de evolução rumo à perfeição espiritual.

Se o bisavô Joaquim foi um sujeito ranzinza e impertinente e vier renascer como seu filho, provavelmente você vai ter uma criança um pouco difícil e impaciente (a não ser que ele tenha se modificado um pouco nesse ínterim). Da mesma forma que, se uma pessoa de bom coração e pacífica renascer como sua filha ou filho, você terá uma criança calma, bem-humorada, simpática, desde os primeiros momentos de vida, ainda que ocasionalmente apronte uma choradeira homérica se estiver com fome, sentindo calor ou frio, ou porque deseja que suas fraldinhas sejam trocadas.

De que outra maneira iria ela pedir isso? Se lh e fosse possível falar, ela diria, educadamente: —Mamãe, você quer fazer o favor de trocar minha fralda? — Ou: —Você não está se esquecendo de me dar a papinha das dez horas?

Deixe-me, pois, dizer-lhe, para ajudar a armar o esquema de como cuidar do seu bebê: ele é um espírito adulto, inteligente e experimentado, aprisionado em um corpinho físico que ainda não lhe proporciona as condições mínimas de que precisa para expressar todo seu potencial. Isto se dará com o tempo, como você poderá observar, à medida que a criança vai crescendo e se revelando como realmente é.

Então, sim, quem disser que ela “puxou” ao birrento bisavô Joaquim é possível que tenha razão, porque, de fato, pode ser o próprio, de volta. Ou se ela for aquele remoto parente genial que escre veu livros, compôs música ou foi um brilhante político, então você terá o privilégio e a responsabilidade de ajudá-la a expressar-se novamente como ser humano; provavelmente, em outro campo de atividade. Em verdade, responsabilidade você tem sempre, seja qual for o filho ou filha, brilhante ou deficiente, amigo ou não tão amigo, sadio ou doente, compreensivo ou rebelde.

Por alguma razão, que um dia você saberá, ele foi encaminhado, atraído ou convidado para vir para sua companhia. Dificilmente será um estranho total, cujos caminhos jamais tenham se cruzado com os seus, no passado. Não se esqueça de que também você é um ser renascido.
 
Livro: Nossos filhos são espíritos

12 de abril de 2010

AS VIDAS SUCESSIVAS

EM LEMBRANÇA AOS 83 ANOS DO DESENCARNE DE LÉON DENIS,
OCORRIDO EM 12 DE ABRIL DE 1927.

Como tínhamos dito, o homem deve antes de tudo aprender a se conhecer a fim de clarear seu porvir. Para caminhar com passo firme, precisa saber para onde vai. É conformando seus atos com as leis superiores que o homem trabalhará eficazmente para a própria melhoria e do meio social. O importante é discernir essas leis, determinar os deveres que elas nos impõem, prever as conseqüências de suas ações. O dia em que estiver compenetrado da grandeza de sua função, o ser humano poderá melhor se desapegar daquilo que o diminui e rebaixa; poderá se governar com sabedoria, preparar por seus esforços a união fecunda dos homens em uma grande família de irmãos.

Mas estamos longe desse estado de coisas. Ainda que a humanidade avance na via do progresso, pode-se dizer, entretanto, que a imensa maioria de seus membros caminha pela via comum, em meio à noite escura, ignorante de si mesma, nada compreendendo do propósito real da existência.
Espessas trevas obscurecem a razão humana. As radiações da verdade chegam empalidecidas, enfraquecidas, impotentes para aclarar as rotas sinuosas trilhadas pelas inumeráveis legiões em marcha e para fazer resplender aos seus olhos o objetivo ideal e longínquo.

Ignorando seus destinos, flutuando sem cessar entre o preconceito e o erro, o homem maldiz, por vezes, a vida. Curvando-se sob seu fardo, lança sobre seus semelhantes a culpa das provas que suporta e que, muito freqüentemente, são geradas por sua imprevidência. Revoltado contra Deus, a quem acusa de injustiça, chega mesmo, algumas vezes, na sua loucura e desespero, a desertar do combate salutar, da luta que, por si só, poderia fortificar sua alma, esclarecer seu julgamento, prepará-lo para os trabalhos de uma ordem mais elevada.

Por que é assim? Por que o homem desce fraco e desarmado na grande arena onde trava sem trégua, sem descanso, a eterna e gigantesca batalha? É porque este globo, a Terra, está em um degrau inferior na escala dos mundos. Aqui residem em sua maior parte espíritos infantis, isto é, almas nascidas há pouco tempo para a razão. A matéria reina soberana em nosso mundo. Nos curva sob seu jugo, limita nossas faculdades, estanca nossos impulsos para o bem e nossas aspirações para o ideal.

Além disso, para discernir o porquê da vida, para entrever a lei suprema que rege as almas e os mundos, é preciso saber se libertar dessas pesadas influências, desapegar-se das preocupações de ordem material, de todas essas coisas passageiras e cambiantes que encobrem nosso espírito e que obscurecem nossos julgamentos. É nos elevando pelo pensamento acima dos horizontes da vida, fazendo abstração do tempo e do lugar, pairando, de alguma forma, acima dos detalhes da existência, que perceberemos a verdade.

Por um esforço de vontade, abandonemos um instante a Terra e gravitemos nessas alturas imponentes. De cima se desenrolará para nós o imenso panorama das idades sem conta, e dos espaços sem limites. Da mesma forma que o soldado, perdido no conflito, não vê senão confusão em torno dele, enquanto o general, cujo olhar abraça todas as peripécias da batalha, calcula e prevê os resultados; da mesma forma que o viajante, perdido nas sinuosidades do terreno pode, escalando a montanha, vê-las se fundir em um plano grandioso; assim a alma humana, da altura onde plana, longe dos ruídos da terra e longe dos baixios obscuros, descobre a harmonia universal — aquilo que, aqui em baixo, lhe parece contraditório, inexplicável e injusto, quando visto do alto, se reata, se aclara; as sinuosidades do caminho se endireitam; tudo se une, se encadeia; ao espírito, fascinado, aparece a ordem majestosa que regula o curso das existências e a marcha do universo.

Dessas alturas iluminadas, a vida não é mais, para os nossos olhos, como é para os da multidão — uma vã perseguição de satisfações efêmeras — mas antes um meio de aperfeiçoamento intelectual, de elevação moral, uma escola onde se aprende a doçura, a paciência e o dever. E essa vida, para ser eficaz, não pode ser isolada.

Fora de seus limites, antes do nascimento e após a morte, vemos, em uma espécie de penumbra, desenrolar-se inúmeras existências através das quais, ao preço do trabalho e do sofrimento, conquistamos, peça por peça, retalho por retalho, o pouco de saber e de qualidades que possuímos; por elas igualmente conquistaremos o que nos falta: uma razão perfeita, uma ciência sem lacunas, um amor infinito por tudo que vive.

A imortalidade se assemelha a uma cadeia sem fim e se desenrola para cada um de nós na imensidade dos tempos. Cada existência é um elo que se religa, na frente e atrás, a elos distintos, a vidas diferentes, mas solidárias entre si. O presente é a conseqüência do passado e a preparação do futuro. De degrau em degrau, o ser se eleva e cresce. Artesã de seu próprio destino, a alma humana, livre e responsável, escolhe seu caminho e, se este caminho é mau, as quedas que advirão, as pedras e os espinhos que a dilacerarão, terão o efeito de desenvolver sua experiência e esclarecer sua razão nascente.
 
Léon Denis
O Porque da Vida

11 de abril de 2010

ADOLFO BEZERRA DE MENEZES


EM LEMBRANÇA AOS 110 ANOS DO DESENCARNE DE ADOLFO BEZERRA DE MENEZES

Apontamentos biobibliográficos

Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti nasceu em 29 de agosto de 1831 na fazenda Santa Bárbara, no lugar chamado Riacho das Pedras, município cearense de Riacho do Sangue, hoje Jaguaretama, estado do Ceará.

Descendia Bezerra de Menezes de antiga família, das primeiras que vieram ao território cearense. Seu avô paterno, o coronel Antônio Bezerra de Souza e Menezes tomou parte da Confederação do Equador, e foi condenado à morte, pena comutada em degredo perpétuo para o interior do Maranhão, e que não foi cumprida porque o coronel faleceu a caminho do desterro, sendo seu corpo sepultado em Riacho do Sangue. Seus pais, Antônio Bezerra de Menezes, capitão das antigas milícias e tenente-coronel da Guarda Nacional, desencarnou em Maranguape, no dia 29 de setembro de 1851, de febre amarela; a mãe, Fabiana Cavalcanti de Alburquerque, nascida em 29 de setembro de 1791, desencarnou em Fortaleza, aos 91 anos de idade, perfeitamente lúcida, em 5 de agosto de 1882.

Desde estudante, o itinerário de Bezerra de Menezes foi muito significativo. Em 1838, no interior do Ceará, conheceu as primeiras letras, em escola da Vila do Frade, estando à altura do saber de seu mestre em 10 meses.

Já na Serra dos Martins, no Rio Grande do Norte, para onde se transferiu em 1842 com a família, por motivo de perseguições políticas, aprendeu latim em dois anos, a ponto de substituir o professor.

Em 1846, já em Fortaleza, sob as vistas do irmão mais velho, o Dr. Manoel Soares da Silva Bezerra, conceituado intelectual e líder católico, efetuou os estudos preparatórios, destacando-se entre os primeiros alunos do tradicional Liceu do Ceará.

Bezerra queria tornar-se médico, mas o pai, que enfrentava dificuldades financeiras, não podia custear-lhe os estudos. Em 1851, aos 19 anos, tomou ele a iniciativa de ir para o Rio de Janeiro, a então capital do Império, a fim de cursar medicina, levando consigo a importância de 400 mil réis, que os parentes lhe deram para ajudar na viagem.

No Rio de Janeiro, ingressou, em 1852, como praticante interno no Hospital da Santa Casa de Misericórdia.

Para poder estudar, dava aula de filosofia e matemática. Doutorou-se em 1856 pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.

Em março de 1857, solicitou sua admissão no Corpo de Saúde do Exército, sentando praça em 20 de fevereiro de 1858, como cirurgião tenente.

Ainda em 1857, candidatou-se ao quadro dos membros titulares da Academia Imperial de Medicina com a memória "Algumas considerações sobre o cancro, encarado pelo lado do seu tratamento", sendo empossado em sessão de 1º de junho. Nesse mesmo ano, passou a colaborar na "Revista da Sociedade Físico-Química".

Em 6 de novembro de 1858, casou-se com a Sra. Maria Cândida de Lacerda, que desencarnou no início de 1863, deixando-lhe um casal de filhos.

Em 1859 passou a atuar como redator dos "Anais Brasilienses de Medicina", da Academia Imperial de Medicina, atividade que exerceu até 1861.

Em 21 de janeiro de 1865, casou-se, em segunda núpcias com Dona Cândida Augusta de Lacerda Machado, irmã materna de sua primeira esposa, com quem teve sete filhos.

Já em franca atividade médica, Bezerra de Menezes demonstrava o grande coração que iria semear, até o fim do século, sobretudo entre os menos favorecidos da fortuna, o carinho, a dedicação e o alto valor profissional.

Foi justamente o respeito e o reconhecimento de numerosos amigos que o levaram à política, que ele, em mensagem ao deputado Freitas Nobre, seu conterrâneo e admirador, definiu como “a ciência de criar o bem de todos”.

Elegeu-se vereador para Câmara Municipal do Rio de Janeiro em 1860, pelo Partido Liberal.

Quando tentaram impugnar sua candidatura, sob a alegação de ser médico militar, demitiu-se do Corpo de Saúde do Exército. Na Câmara Municipal, desenvolveu grande trabalho em favor do “Município Neutro” e na defesa dos humildes e necessitados.

Foi reeleito com simpatia geral para o período de 1864-1868. Não se candidatou ao exercício de 1869 a 1872.

Em 1867, foi eleito deputado-geral (correspondente hoje a deputado federal) pelo Rio de Janeiro. Dissolvida a Câmara dos Deputados em 1868, com a subida dos conservadores ao poder, Bezerra dirigiu suas atividades para outras realizações que beneficiassem a cidade.

Em 1873, após quatro anos afastados da política, retomou suas atividades, novamente como vereador.

Em 1878, com a volta dos liberais ao poder, foi novamente eleito à Câmara dos Deputados, representando o Rio de Janeiro, cargo que exerceu até 1885.

Neste período, criou a Companhia de Estrada de Ferro Macaé a Campos, que veio proporcionar-lhe pequena fortuna, mas que, por sua vez, foi também o sorvedouro dos seus bens, deixando-o completamente arruinado.

Em 1885, atingiu o fim de suas atividades políticas. Bezerra de Menezes atuou 30 anos na vida parlamentar. Outra missão o aguardava, esta mais nobre ainda, aquela de que o incumbira Ismael, não para o coroar de glórias, que perecem, mas para trazer sua mensagem à imortalidade.

O Espiritismo, qual novo maná celeste, já vinha atraindo multidões de crentes, a todos saciando na sua missão de consolador. Logo que apareceu a primeira tradução brasileira de “O Livro dos Espíritos”, em 1875, foi oferecido a Bezerra de Menezes um exemplar da obra pelo tradutor, Dr. Joaquim Carlos Travassos, que se ocultou sob o pseudônimo de Fortúnio.

Foram palavras do próprio Bezerra de Menezes, ao proceder a leitura de monumental obra: “Lia, mas não encontrava nada que fosse novo para meu espírito, entretanto tudo aquilo era novo para mim [...]. Eu já tinha lido ou ouvido tudo o que se achava no Livro dos Espíritos [...]. Preocupei-me seriamente com este fato maravilhoso e a mim mesmo dizia: parece que eu era espírita inconsciente, ou mesmo, como se diz vulgarmente, de nascença”.

Contribuíram também, para torná-lo um adepto consciente, as extraordinárias curas que ele conseguiu, em 1882, do famoso médium receitista João Gonçalves do Nascimento.

Mais que um adepto, Bezerra de Menezes foi um defensor e um divulgador da Doutrina Espírita. Em 1883, recrudescia, de súbito, um movimento contrário ao Espiritismo e, naquele mesmo ano, fora lançado por Augusto Elias da Silva o “Reformador”, órgão oficial da Federação Espírita Brasileira e o periódico mais antigo do Brasil, ainda em circulação. Elias da Silva consultava Bezerra de Menezes sobre as melhores diretrizes a seguir em defesa dos ideais espíritas. O venerável médico aconselhava-o a contrapor-se ao ódio, o amor, e a agir com discrição, paciência e harmonia.

Bezerra não ficou, porém, no conselho teórico. Com as iniciais A. M., principiou a colaborar com o “Reformador”, emitindo comentários judiciosos sobre o Catolicismo.

Fundada a Federação Espírita Brasileira em 1884, Bezerra de Menezes não quis inscrever-se entre os fundadores, embora fosse amigo de todos os diretores e sobremaneira, admirado por eles.

Embora sua participação tivesse sido marcante até então, somente em 16 de agosto de 1886, aos 55 anos de idade, Bezerra de Menezes, perante grande público, em torno de 1.500 a 2.000 pessoas, no salão de Conferência da Guarda Velha, em longa alocução, justificou a sua opção definitiva de abraçar os princípios da consoladora doutrina.

Daí por diante Bezerra de Menezes foi o catalisador de todo o movimento espírita na Pátria do Cruzeiro, exatamente como preconizara Ismael. Com sua cultura privilegiada, aliada ao descortino de homem público e ao inexcedível amor ao próximo, conduziu o barco de nossa doutrina por sobre as águas atribuladas pelo iluminismo fátuo, pelo cientificismo presunçoso, que pretendia deslustrar o grande significado da Codificação Kardequiana.

Presidente da FEB em 1889, ao espinhoso cargo foi reconduzido em 1895, quando mais se agigantava a maré da discórdia e das radicalizações no meio espírita, nele permanecendo até 1900, quando desencarnou.

O Dr. Bezerra de Menezes foi membro da Sociedade de Geografia de Lisboa, da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, da Sociedade Físicoquímica, sócio e benfeitor da Sociedade Propagadora das Belas-Artes, membro do Conselho do Liceu de Artes e presidente da Sociedade Beneficente Cearense.

Escreveu em jornais como “O Paiz”, redigiu “Sentinela da Liberdade”, os “Anais Brasilienses de Medicina”, colaborou na “Reforma”, na “Revista da Sociedade Físico-química” e no “Reformador”. Utilizava os pseudônimos de Max e Frei Gil.

O dicionarista J. F. Velho Sobrinho alinha extensa bibliografia de Bezerra de Menezes, relacionando para mais de quarenta obras escritas e publicadas.

São teses, romances, biografias, artigos, estudos, relatórios, etc.

Bezerra de Menezes desencarnou em 11 de abril de 1900, às 11h30min., tendo ao lado a dedicada companheira de tantos anos, Cândida Augusta.
Morreu pobre, embora seu consultório estivesse cheio de uma clientela que nenhum médico queria; eram pessoas pobres, sem dinheiro para pagar consultas. Foi preciso constituir-se uma comissão para angariar donativos visando a possibilitar a manutenção da família. A comissão fora presidida por Quintino Bocayuva.

Por ocasião de sua morte, assim se pronunciou Leon Denis, um dos maiores discípulos de Kardec: “Quando tais homens deixam de existir, enlutase não somente o Brasil, mas os espíritas de todo o mundo”.

Fonte: Texto incluído nas obras que integram a Coleção Bezerra de Menezes, publicada pela FEB.