30 de maio de 2010

AS EMOÇÕES


A palavra emoção provém do verbo latino emovere, que significa mover ou movimentar, sendo, portanto, qualquer tipo de sentimento que produza na mente algum tipo de movimentação, que tanto pode ser positiva, negativa ou mesmo neutra.

Importantes na ocorrência desse fenômeno são o seu propósito assim como as suas consequências.

Quando se direciona ao bem-estar, à paz, à alegria de viver e de construir, contribuindo em favor do próximo, temo-la como positiva ou nobre, porque edificante e realizadora.

No entanto, se inquieta, estimulando transtornos e ansiedade, conduzindo nossa mente a distúrbios de qualquer natureza, temo-la negativa ou perturbadora, que necessita de orientação e equilíbrio.

Os resultados serão analisados pelos efeitos que produzam no indivíduo assim como naqueles com os quais convive, estabelecendo harmonia ou gerando empecilhos.

São as emoções responsáveis pelos crimes hediondos, quando transtornadas, assim como pelas grandes realizações da Humanidade, quando direcionadas para os objetivos dignificantes do ser.

No primeiro caso, desfruta-se da alegria de viver e de produzir o bem, enquanto que, no segundo, proporciona sofrimento e angústia, desespero e consumpção.

Para um ou outro objetivo são necessárias ferramentas específicas, tais como o amor, a bondade, a compaixão, a gentileza, a caridade, a fim de se lograr os resultados nobres, ou, do contrário, a ira, a cólera, o ódio, o ressentimento, a desonestidade, que levam ao crime e a todas as urdiduras do mal.

No primeiro caso, encontramos a nobreza de caráter e dos sentimentos edificantes, enquanto que, no segundo, constatamos a pequenez moral, o primarismo em que se detém o ser humano.

As emoções, do ponto de vista psicológico, podem ser agradáveis ou perturbadoras, estabelecendo identidades, tais como aproximação, medo, repugnância e rejeição.

O importante, no que concerne às emoções, é o esforço que deve ser desenvolvido a fim de que sejam transformadas as nocivas em úteis.

Quando se expressam prejudiciais, o indivíduo tem o dever de trabalhá-las, porque algo em si mesmo não se encontra saudável nem bem orientado. Ao invés de dar expansão às suas tempestades interiores, deve procurar examinar em profundidade a razão pela qual assim se encontra, de imediato, tentando alterar-lhe o direcionamento.

As emoções têm sua origem nas experiências anteriores do ser, que se permitiu o estabelecimento de paisagens internas de harmonia ou de conflitos.

Não se deve lutar contra as emoções, mesmo aquelas denominadas prejudiciais, antes cabendo o esforço para desviar-se a ocorrência daquilo que possa significar danos em relação a si mesmo ou a outrem.

Inevitavelmente ocorrem momentos em que as emoções nocivas assomam volumosas. A indisciplina mental e de comportamento abrem-lhes espaços para que se expandam, no entanto, a vigilância ao lado do desejo de evitar-se danos morais oferece recurso para impedir-lhe as sucessivas consequências infelizes.

Nem sempre é possível evitar-se ocorrências que desencadeiam emoções violentas. Pode-se, porém, equilibrar o curso da sua explosão e o direcionamento dos seus efeitos.

Raramente alguém é capaz de permanecer emocionalmente neutro em uma situação conflitiva, especialmente quando o seu ego é atingido. Irrompe, automaticamente, a hostilidade, em forma de autodefesa, de acusação defensiva, de revide...

Pode-se, no entanto, evitar que se expanda o sentimento hostil, administrando-se as reações que produz, mediante o hábito de respeitar o próximo, de tê-lo em trânsito pelo nível de sua consciência, se em fase primária ou desenvolvida.

Torna-se fácil, desse modo, superar o primeiro impacto e corrigir-se o rumo daquele que se transformou em emoção de ira ou de raiva...

Se tomas consciência de ti mesmo, dos valores que te caracterizam, das possibilidades de que dispões, é possível exercer um controle sobre as tuas emoções, evitando que as perniciosas se manifestem ante qualquer motivação e as edificantes sejam equilibradas, impedindo os excessos que sempre são prejudiciais.

Quando são cultivadas as reminiscências das emoções danosas, há mais facilidade para que outras se expressem ante qualquer circunstância desagradável.

Como não se pode nem se deve viver de experiências transatas, o ideal é diluir-se em novas experiências todas aquelas que causaram dor e hostilidade.

Isso é possível mediante o cultivo de pensamentos de paz e de solidariedade, criando um campo mental de harmonia, capaz de manifestar-se por automatismo, diante de qualquer ocorrência geradora de aflição.

Gandhi afirmava que não se deve matar o indivíduo hostil, mas matar a hostilidade nesse indivíduo, o que corresponde ao comportamento pacífico encarregado de desarmar o ato agressivo de quem se faz adversário.

Eis por que a resistência passiva consegue os resultados excelentes da harmonia. Provavelmente, o outro, o inimigo, não entenderá de momento a não-violência daquele a quem aflige, mas isso não é importante, sendo valioso para aquele que assim procede, porque não permite que a insânia de fora alcance o país da sua tranquilidade interior.

A problemática apresenta-se como necessidade de eliminar os sentimentos negativos, o que não é fácil, tornando-se mais eficiente diluí-los mediante outros de natureza harmônica e saudável.

Acredita-se que a supressão da angústia, da ansiedade, da raiva proporciona felicidade. Não será o desaparecimento de um tipo de emoção que fará com que se desfrute imediatamente de outra. A questão deve ser colocada de maneira mais segura, trabalhando-se, sim, pela eliminação das emoções perturbadoras, porém, ao mesmo tempo, cultivando-se e desenvolvendo-se aquelas que são as saudáveis e prazenteiras.

Não se torna suficiente, portanto, libertar-se daquilo que gera mal-estar e produz decepção, mas agir de maneira correta, a fim de que se consiga alegria e estímulo para uma vida produtiva.

Viver por viver é fenômeno biológico, automático, no entanto, é imprescindível viver-se em paz, bem viver-se, ao invés do tradicional conceito de viver de bem com tudo e com todos, apoiado em reservas financeiras e em posições relevantes, sempre transitórias...

Pensa-se que é uma grande conquista não se fazer o mal a ninguém. Sem dúvida que se trata de um passo avançado, entretanto, é indispensável fazer-se o bem, promover-se o cidadão, a cultura, a sociedade, ao mesmo tempo elevando-se moralmente.

Quando se está com a emoção direcionada ao bem e à evolução moral, o pensamento torna-se edificante e tudo concorre para a ampliação do sentimento nobre. O inverso também ocorre, porquanto o direcionamento negativo, as suspeitas que se acolhem, a hostilidade gratuita que se desenvolve, contribuem para que o indivíduo permaneça armado, porque sempre se considera desamado.

Mediante o cultivo das emoções positivas, aclara-se a percepção da verdade, das atitudes gentis, dos sentimentos solidários, enquanto que a constância das emoções prejudiciais faculta a distorção da óptica em torno dos acontecimentos, gerando sempre mau-humor, indisposição e malquerença.

Quando se alcançar o amor altruísta, haverá o sentimento da real fraternidade e o equilíbrio real no ser em busca de si mesmo e de Deus.

Jesus permanece como sendo o exemplo máximo do controle das emoções, não se deixando perturbar jamais por aquelas que são consideradas perniciosas. Em todos os Seus passos, o amor e a benevolência, assim como a compaixão e a misericórdia estavam presentes, caracterizando o biótipo ideal, guia e modelo para todos os indivíduos.

Traído e encaminhado aos Seus inimigos, humilhado e condenado à morte, não teve uma emoção negativa, mantendo-se sereno e confiante, lecionando em silêncio o testemunho que é pedido a todos quantos se entregam a Deus e devem servir de modelo à Humanidade.

Não se podendo viver sem as emoções, cuidar daquelas que edificam em detrimento das que perturbam, tal é a missão do homem e da mulher inteligentes na Terra.


Joanna de Ângelis
(Página psicografada pelo médium Divaldo Pereira Franco, na manhã de 9 de março de 2009, no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador, Bahia.)

26 de maio de 2010

O ASSASSÍNIO


Em pleno século 20, homens existem que ainda defendem com ardor a pena capital para certos criminosos e, em vários casos, o direito de matar.

Via de regra, argumentam que o sexto mandamento não pode ser interpretado em sentido absoluto, já que o próprio Deus teria estatuído uma série de circunstâncias e de motivos em que o assassínio seria não apenas lícito, mas até aconselhável ou necessário.

Surgem, então, citações do V. T. quais as seguintes: “Se algum boi escornear homem ou mulher, que morra, será apedrejado, e não se comerão as suas carnes; o dono do boi, contudo, será inocente. Mas se o boi já era escorneado e o seu dono foi conhecedor disso e não o encurralou, matando homem ou mulher, o boi será apedrejado e também o seu dono morrerá.”

“A feiticeira não deixarás viver.”

“Todo aquele que se deitar com animal, morrerá.”

“O que sacrificar aos deuses, e não só ao Senhor, será morto.” (Êxodo)

“Se um homem tiver um filho contumaz e insolente, que não está pelo que seu pai e sua mãe lhe ordenam, e, castigado, recusar com desprezo obedecer-lhes, pegarão nele e o levarão aos anciães daquela cidade e, à porta onde se fazem os juízos, lhes dirão: Este nosso filho é rebelde e contumaz, despreza as nossas admoestações, passa a vida em comezainas, dissoluções e banquetes. O povo da cidade o apedrejará e ele morrerá, para que assim tireis o mal do meio de vós. (Deut.)

Ainda segundo o Velho Testamento, Moisés teria recebido, diretamente de Deus, ordens taxativas e peremptórias para eliminar os transgressores da fé judaica e os adversários do povo judeu, como se vê nos seguintes excertos:

“Estando os filhos de Israel no deserto, acharam um homem apanhando lenha no dia de sábado, o qual foi metido em prisão, porque ainda não se sabia o que deviam fazer com ele. Disse então o Senhor a Moisés: Este homem morra de morte, todo o povo o apedreje fora do arraial. Toda a congregação o lapidou, e o tal homem morreu, como o Senhor ordenara a Moisés.” (Números, capítulo 15 versículos 32 a 36.)

“Das cidades destas nações que o Senhor teu Deus te dá em herança, nenhuma coisa que tem fôlego deixarás com vida, antes destruí-las-ás, para que não vos ensinem as abominações que fizeram a seus deuses e pequeis contra o Senhor vosso Deus.” (Deut.)

Não é de se admirar, portanto, que, seguindo à risca tais prescrições, os reis de Israel tenham praticado os crimes mais horripilantes.

Uma pequena amostra: “Ajuntou David todo o povo e marchou contra Rabbath: e depois de combatida, a tomou... E trazendo os seus moradores, os mandou serrar, e que passassem por cima deles carroças ferradas, e que os fizessem em pedaços com cutelos, e os botassem em fornos de cozer tijolo. Assim o fez com todas as cidades dos amonitas, etc.” (II Reis, 12: 29-31.)

Se tais sentenças procedessem realmente de Deus — agora somos nós que o dizemos não haveria porque hesitarmos na prática de qualquer assassínio, visto que o (mau) exemplo viria de cima.

Já é tempo, entretanto, de sabermos que tudo o que se contém na Bíblia, em contraposição ao Decálogo, não é e nem poderia ser de origem divina, mas tão somente preceitos humanos, quase sempre outorgados por Moisés para o povo judeu e para aquela época de ignorância e barbarismo.

Tanto assim que o Cristo, várias vezes, após fazer referência a eles, acrescentava: “eu, porém, vos digo”, e se punha a ensinar coisas diametralmente opostas.

Efetivamente, Aquele que ditou o NÃO MATARÁS e “em quem não há mudança nem sombra de variação”, segundo o apóstolo Tiago, não poderia contradizer-se, ordenando alhures: “mata, destrói, extermina!”

Não se encontra, em todo o Evangelho, uma só passagem que autorize o uso da violência, nem mesmo uma palavra ofensiva, quanto mais o assassínio!

E a Doutrina Espírita, em tudo conforme com a moral cristã, proclama que, mesmo quando agredido e em situação extremamente difícil, cabe ao homem apenas o direito de defender-se, de modo que possa preservar sua vida, nunca o de atentar contra a de seu agressor, pois, qualquer que seja a hipótese, é preferível morrer a ter que matar.

(Capítulo 6º, questão 748).

Rodolfo Calligaris
Livro: Leis Morais da Vida

25 de maio de 2010

CASAMENTO RELIGIOSO


1 - Sou espírita e estou noivo de uma jovem católica. Tanto ela quanto sua família insistem que devemos casar na Igreja. Já deixei bem claro que não concordo. Não estou certo?
O problema é que ela também está certa. Se encara com seriedade sua religião, natural que deseje a bênção nupcial, guardando fidelidade aos seus princípios.

2 - Também levo a sério minha convicção espírita. Como ficamos, já que o Espiritismo não adota rituais?
Não há posições inconciliáveis quando prevalece o bom senso. Disponha-se ao casamento religioso na intimidade do lar, com a presença de reduzido grupo familiar e do sacerdote.

3 - De qualquer forma, mesmo na intimidade não estarei desobedecendo aos princípios espíritas?
Doutrina da consciência livre, o Espiritismo não proíbe nada. Apenas orienta para que façamos o melhor, particularmente em relação às pessoas de nossa convivência, respeitando suas convicções.

4 - Em que a transferência da cerimônia religiosa para o lar fará diferença?
Na intimidade, em reduzido grupo familiar, será diluído o formalismo, favorecendo um legítimo envolvimento dos participantes, particularmente do sacerdote. Haverá mais espiritualidade, menos pirotecnia cerimonial.

5 - E se minha noiva não concordar?
Você saberá que ela não está preocupada com a bênção; apenas com a badalação na igreja.

6 - Digamos que nosso casamento obedece a uma programação da Espiritualidade. Viemos para essa união. Será justo deixar de fazê-lo por simples querela a respeito de uma cerimônia religiosa?
Seria lamentável. Não obstante, com diálogo e compreensão o problema será solucionado.
Faça sentir à sua noiva que você está disposto a dar o passo mais importante, concordando com a cerimônia no lar. A parte dela é bem mais simples. Não envolve seus princípios.

7 - E se os pais insistirem na cerimônia na igreja?
É um mau começo permitir que os pais interfiram em algo que compete aos noivos decidir.

8 - Os sacerdotes costumam exigir que os noivos se submetam a determinados sacramentos e orienta ções da Igreja para realizarem o casamento religioso. Como ficamos?
Não se preocupe. Há sacerdotes esclarecidos que compreenderão sua posição e saberão respeitar suas convicções. Sabem que o sucesso de um casamento não está subordinado a mero formalismo religioso.
 
Richard Simonetti
Livro: Não Pise na Bola

24 de maio de 2010

MORTE DO CORPO FÍSICO

O fato mais temido pela grande maioria dos homens durante suas vidas aqui neste planeta é justamente aquele que apresenta condição irrefutável à nossa realidade, a morte.

Indivíduos cujos credos são baseados na inexistência de uma força suprema, criadora da vida e de todas as coisas, tendem ao sentimento de desespero face à aproximação da morte, uma vez que, para estes, o fim da vida corpórea significa, realmente, o fim de absolutamente tudo. Realmente, analisando este ponto de vista com frieza seria verdadeiramente desesperador a aproximação da morte física, já que representaria, em si própria, o término completo da existência do indivíduo.

Não é incomum tomarmos conhecimento de pessoas que, tendo sido condenadas pela medicina humana a um tempo determinado de vida, entregam-se inteiramente a excessos inimagináveis, que muitas vezes causam prejuízos irreparáveis a terceiros. Para esses indivíduos, como não existe nada após a morte do corpo físico, e sabendo que sua hora se aproxima, não há mais a necessidade de preocupações com ações e suas consequências. O único objetivo dessas pessoas neste momento é o de aproveitar ao máximo, os dias que lhes sobram de existência, muitas vezes mergulhando em prazeres mundanos. A outras resta, na maioria das vezes, a revolta, quando entes que lhes são queridos se deparam com o sono final. Muitas, nunca recuperam seu equilíbrio durante o restante de suas vidas, quando pessoas que são do seu círculo de afeição rompem o laço da encarnação. Podemos realmente entender o terror que estes indivíduos possuem da morte, quando a perspectiva que possuem da vida é a que foi apresentada acima.

Outro grupo de indivíduos que merece análise é aquele formado por pessoas que creem na existência de vida após a morte do corpo físico, mas, acredita também que existe apenas uma vida corpórea, a presente. Para estas, também não é incomum o sentimento de revolta, ante a perda de entes amados, uma vez que, de acordo com seu credo, nunca mais desfrutarão de sua companhia. Analisemos agora, neste grupo, aqueles que acreditam na clássica divisão entre inferno, purgatório e céu, para a vida pós-túmulo. Imaginem o desespero ao aproximar-se a morte, quando percebem que passaram a vida praticando ações que os condenariam a torturas inimagináveis e eternas no chamado inferno, sem a possibilidade de resgate de suas falhas? E o que falar do estado mental de criaturas de bem que perderam entes queridos para a morte corpórea, sendo estes últimos, pessoas condenadas ao inferno infinito? Como conseguiriam continuar sua caminhada se acreditam que aquele ser que amaram tanto, está condenado ao fogo insuportável do inferno, para toda sua eternidade? Teriam estes realmente paz de espírito, para quando sua hora também chegar, simplesmente abraçar a contemplação beatífica do céu prometido, sabendo que pessoas às quais amaram tanto, durante sua passagem pela vida, sofrem eternamente no inferno?

Analisemos agora, aqueles indivíduos que acreditam na vida após a morte, e também na reencarnação. Para eles, a vida corpórea nada mais é que estado temporário, e curto, que serve apenas como mais uma fase do seu estado evolucionário. A vida física, mesmo sendo o bem mais precioso que possuem durante esse período, uma vez que possibilita fonte de aprendizado valiosíssimo para a caminhada evolutiva, é encarada de forma menos material por eles, e a consequente morte, nada mais é que uma mudança de estado físico.

Mantendo este ponto de vista em mente, é realmente reconfortante sabermos que aqueles que nos são queridos, que agora partem para a grande viagem, não estarão inacessíveis ao nosso convívio no futuro, e que também poderemos novamente desfrutar de sua companhia quando as circunstâncias assim o permitirem. A saudade que nos toma de rompante, devido à distância colocada entre os estados físicos; encarnado e desencarnado, nada mais é que temporária, uma vez que poderemos, novamente, estar com eles em futuro próximo, na vida além túmulo.

Esta vertente também nos tranquiliza com relação às nossas próprias falhas. A certeza de que teremos outras oportunidades de aprendizado e resgate de nossas imperfeições, as outras encarnações, aquece nossos corações de otimismo, mesmo com proximidade do longo sono. Nesta corrente, o inferno não é mais caracterizado como o lugar no qual sofreremos torturas eternas, mas um estado também transitório, do qual poderemos a certo momento, sair, para mais uma encarnação, que mais uma vez nos possibilitará oportunidade para nossa melhora interior, de forma que não precisemos retornar a este estado mental no futuro. Utilizando-se do mesmo raciocínio para com os nossos entes queridos, é realmente reconfortante sabermos que, mesmo que eles se encontrem em estado de sofrimento após a morte do corpo, como consequência da vida que levaram quando encarnados na matéria, este estado também é temporário, e a felicidade certamente lhes chegará no futuro; felicidade esta que está intimamente relacionada com suas próprias ações.

O outro lado da moeda para esse reconforto é o fato de que todas as ações praticadas por indivíduos que, direta ou indiretamente, causaram dor e tristeza aos seus semelhantes, serão, em tempo, resgatadas, durante a encarnação atual, ou em próximas. O fato de que toda causa gera um efeito, é uma das leis do Universo. Nenhum indivíduo está imune a ela. A conhecida expressão “Aqui se faz, aqui se paga.”, possui caráter muito mais abrangente do que poderíamos inicialmente prever. Em tempo, à medida que, determinado indivíduo praticante desse tipo de ação, chega a um nível de entendimento que lhe permite compreender que sua infelicidade é diretamente relacionada à infelicidade que ele, agora ou no passado, impôs a semelhante, ele sabe que passará por situação semelhante, quando encarnado, que lhe proporcionará ferramenta valiosíssima de aprendizado.

O Mestre Jesus nos ensinou que o perdão é uma condição fundamental para a nossa felicidade. Entendendo-se o conceito de causa e efeito, e o de reencarnação, torna-se simples a compreensão desta afirmação. Nós também, como seres imperfeitos, seja durante a encarnação atual, seja em uma passada, certamente tomamos atitudes que trouxeram pesar para nosso próximo, as quais, em tempo, reconheceremos como uma das fontes da nossa infelicidade. A felicidade gerada por conquistas materiais é efêmera. Ditado como “O quanto mais se tem, mais se quer.”; ilustra essa efemeridade. Indivíduos que atingem sucesso financeiro continuam sua procura cada vez mais por bens materiais, uma vez que não reconhecem que essa busca contínua pelo algo mais, indica que, o que intimamente procuram não pode ser encontrado nas finanças.

Entenderemos que o perdão concedido pelo semelhante recipiente de nossas atitudes impensadas nos trará a paz de espírito necessária para que continuemos nossa luta a caminho da felicidade verdadeira. Da mesma forma como precisaremos contar com o perdão de nossos semelhantes para nossas falhas, outros que nos afligiram, ou recentemente ou em pretérito distante, também contam com nossa capacidade de perdoar, para que eles também possam continuar nas suas próprias caminhadas. Sentimentos menos dignos, como a vingança, nada mais são que entraves para a nossa própria evolução, uma vez que são contrários à lei de causa e efeito. A máxima “É perdoando que se é perdoado.”; também carrega muito peso, e vai muito mais além que um simples dogma quando nos diz que devemos perdoar nossos agressores. O perdão é uma verdadeira necessidade, a partir da lei de causa e efeito, que no determinado tempo, aprenderemos a reconhecer e abraçar.

Todos, independentemente de credo, desenvolvimento intelectual, cultural ou religioso, nutrem dentro de si, sentimento de auto preservação que, uma vez posto à prova, em face de situações que apresentem ameaças reais à continuação da vida, gera sentimentos diversos, que, como foi explicado, variam dependendo do grau de evolução e entendimento em que cada indivíduo se encontra.

O sentimento de auto-preservação vem de um conhecimento íntimo que temos, que nos diz, todos os dias, o quanto nossa vida é preciosa ferramenta de aprendizado e resgate. Por isso que atitudes como o suicídio, em tempo, causam arrependimento na vida pós-túmulo, uma vez que esta prática, por qualquer motivador que seja, abrevia a nossa própria oportunidade de aprendizado e evolução. O Espiritismo prega que cada indivíduo é o senhor de sua própria felicidade, e que toda causa carrega um efeito. Atitudes de caridade e desprendimento para com nossos semelhantes trazem os frutos benéficos da simpatia e amizade dos nossos irmãos para conosco. Ao mesmo tempo, ações que infligem dor e tristeza, trazem a seu tempo, arrependimento e remorsos arrebatadores, que se transformam em infelicidade.

O corpo físico deve realmente ser tratado como verdadeiro templo, pois é o veículo que nos permite a vida encarnada, que como já discutimos, é um dos mais importantes instrumentos de aprendizado e evolução. A preocupação vaidosa com o corpo, é sentimento fútil, pois a verdadeira beleza se encontra no âmago dos sentimentos; mas, devemos cuidar do envoltório físico como cuidaríamos de uma máquina de valor incalculável, pois ela, como foi explicado, é de fato essa máquina. Pode-se dizer que o ditado “Corpo são, mente sã”; possui raízes no conceito da lei de causa e efeito, já que sabemos que o corpo é ferramenta fundamental para o nosso caminho evolutório, que é basicamente o nosso campo mental, e como tal, deve ser preservado com o melhor de nossas habilidades.

Com esses conceitos em mente, pode-se agora concluir o processo da morte do corpo físico propriamente dito. Como já foi explicado anteriormente, o espírito é o centro de individualidade que é mantido após a morte do corpo físico. Durante a vida corpórea, este espírito, então encarnado, permanece ligado ao corpo por intermédio do perispírito. Também foi explicado que as funções dos órgãos vitais estão diretamente ligadas ao chamado fluido vital.

Portanto, é natural entendermos que a morte do corpo físico se dá, primeiramente, pela interrupção do funcionamento destes órgãos vitais, o que é causada pelo esgotamento do fluido vital.

O esgotamento do fluido vital e a interrupção total do funcionamento dos órgãos do corpo ocasionam o desprendimento da ligação do perispírito com o corpo. Uma vez que este desligamento está completo, o espírito se encontra totalmente liberto do corpo físico, o que caracteriza então, a morte do corpo físico e a passagem de estado do espírito, de encarnado para espírito errante.

Os famosos milagres reportados no Evangelho, nos quais o Mestre Jesus trouxe pessoas de volta à vida, depois de consideradas mortas, podem ser explicados à luz da ciência Espírita.

Nessas pessoas, ainda que seus órgãos tenham parado de funcionar e tenham sido declaradas como mortas à luz da ciência material, seus fluidos vitais ainda não se encontravam totalmente esgotados, e, consequentemente, seus perispíritos ainda estavam ligados ao corpo físico. O ato de “ressurreição” praticado por Nosso Senhor pode ser entendido como uma revigoração do fluido vital dos enfermos, efetuado pelo Mestre, que proporcionou a volta do funcionamento dos órgãos, e consequentemente o reinício de suas funções motoras. Como foi mencionado anteriormente, o termo sobrenatural muito utilizado pelos homens, nada mais é que fatos além do nosso conhecimento, que ainda engatinham, sobre as leis naturais. O “milagre” da ressurreição de mortos praticados pelo Mestre, seguiu as leis da física Universal, que ainda não é totalmente dominada pela ciência humana.

Livro: Espiritismo: Filosofia, Ciência e Religião
Espíritos: Camile Flammarion e Jose de Anchieta

22 de maio de 2010

O DEVOTO DESILUDIDO

O fato parece anedota, mas um amigo nos contou a pequena história que passamos para frente, assegurando que o relato se baseia na mais viva realidade.

Hemetério Rezende era um tipo de crente esquisito, fixado à ideia de paraíso. Admitia piamente que a prece dispensava a boas obras, e que a oração ainda era o melhor meio de se forrar a qualquer esforço.

“Descansar, descansar!...” Na cabeça dele, isso era um refrão mental incessante. O cumprimento de mínimo dever lhe surgia à vista por atividade sacrificial e, nas poucas obrigações que exercia, acusava-se por penitente desventurado, a lamentar-se por bagatelas. Por isso mesmo, fantasiava o “doce fazer nada” para depois da morte do corpo físico. O reino celeste, a seu ver, constituir-se-ia de espetáculos fascinantes de permeio com manjares deliciosos... Fontes de leite e mel, frutos e flores, a se revelarem por milagres constantes, enxameariam aqui e ali, no éden dos justos...

Nessa expectativa, Rezende largou o corpo em idade provecta, a prelibar prazeres e mais prazeres.

Com efeito, espírito desencarnado, logo após o grande transe foi atraído, de imediato, para uma colônia de criaturas desocupadas e gozadoras que lhe eram afins, e aí encontrou o padrão de vida com que sonhara: preguiça louvaminheira, a coroar-se de festas sem sentido e a empanturrar-se de pratos feitos.

Nada a construir, ninguém a auxiliar...

As semanas se sobrepunham às semanas, quando, Rezende, que se supunha o céu, passou a sentir-se castigado por terrível desencanto. Suspirava por renovar-se e concluía que para isso lhe seria indispensável trabalhar...

Tomado de tédio e desilusão, não achava em si mesmo senão o anseio de mudança.

À face disso, esperou e esperou, e, quando se viu à frente de um dos comandantes do estranho burgo espiritual, arriscou súplice:

- Meu amigo, meu amigo!... Quero agir, fazer algo, melhorar-me, esquecer-me!... Peço transformação, transformação!...

- Para onde deseja ir? – indagou o interpelado, um tanto sarcástico.

- Aspiro a servir, em favor de alguém... Nada encontro aqui para ser útil... Por piedade, deixe-me seguir para o inferno, onde espero movimentar-me e ser diferente...

Foi então que o enigmático chefe sorriu e falou claro:

- Hemetério, você pede para descer ao inferno, mas escute meu caro!... Sem responsabilidade, sem disciplina, sem trabalho, sem qualquer necessidade de praticar a abnegação, como vive agora, onde pensa você que já está?

Irmão X
Livro Estante da Vida

19 de maio de 2010

PROBLEMAS E PROVAÇÕES

Enquanto estivermos encarnados estaremos às voltas com dificuldades e lutas.

Abençoemos os problemas e as provas que a infinita sabedoria nos proporciona que visa o nosso aprimoramento.

Evitemos choros e lamentações. Todo lamento debilita nossas forças internas, necessárias para superar nossas dificuldades. Se mudarmos nossa atitude mental veremos que com valentia, venceremos às vicissitudes adversas que a vida nos impõem.

Notaremos surpresos que os obstáculos que antes achávamos insuperáveis não são tão grandes como pensávamos.

O problema é mantermos uma atitude mental positiva de triunfador.

Acreditemos em nossa força interior e tenhamos fé que Deus é nosso Pai e por isso jamais nos abandonará, por mais difícil que seja nossa provação.

Provas e problemas foram feitos para serem resolvidas com fé, empenho e muita determinação.

Façamos nossas, as palavras do apóstolo Paulo: “Tudo podemos naquele que nos conforta, tudo podemos naquele que nos fortalece.” (Fp 4:13).

Aceitemos sem desfalecimento nossas provações, confiando nas forças divinas que jamais nos abandonarão.

Temos consciência que o planeta que nos acolhe é local de expiação e dor e que a dor nos purifica e nos eleva quando a aceitamos sem revoltas.

Dores e sofrimentos devem ser aceitos com calma, resignação e até com certa alegria. A dor é o caminho mais alto para nossa ascensão e o modo mais seguro para nos afastar das futilidades e veleidades humanas.

O Cristão verdadeiro deve encarar a existência material como um curso de provas de toda a espécie, tanto físicas quanto morais.

Não peçamos ao nosso Pai Celestial o afastamento da dor. Roguemos forças para suportá-las. É mais sensato não solicitar o desaparecimento das pedras do nosso caminho e sim, a maneira de como nos livrarmos delas.

Jesus quando solicitava ao Pai favores em prol dos seus discípulos, assim rogava: “Não peço que os tireis do mundo, mas que os livreis do mal” (Jo 17:15).

Aceitemos nossos sofrimentos sem revoltas e sem desespero, mas os aceitemos com resignação e paciência, pois, assim como chegaram, um dia, também partirão.

Lutemos sempre por nosso melhoramento moral, estudando, e sobretudo, procurando vivenciar os ensinos do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo e não nos esquecermos que, na maioria das vezes, fomos nós que escolhemos as provações atuais.

O Pai jamais abandona qualquer um de seus filhos. O que hoje nos esmaga e nos parece uma calamidade insuportável, se diluirá em poucos dias ou até em poucas horas.

Com Jesus, todas, as dores e tormentas passarão e todas as lágrimas se secarão.

Se tivermos fé, veremos então que essas dores transformar-se-ão em cicatrizes e essas cicatrizes serão luzes a iluminar nossos caminhos.

17 de maio de 2010

VARIADAS DE APTIDÕES



QUESTÃO 366 - O LIVRO DOS ESPÍRITOS
Parte Segunda
Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos
CAPÍTULO VII
DA VOLTA DO ESPÍRITO À VIDA CORPORAL
Faculdades morais e intelectuais do homem
366. Que se deve pensar da opinião dos que pretendem que as diferentes faculdades intelectuais e morais do homem resultam da encarnação, nele, de outros tantos Espíritos, diferentes entre si, cada um com uma aptidão especial?
“Refletindo, conhecereis que é absurda. O Espírito tem que ter todas as aptidões. Para progredir, precisa de uma vontade única. Se o homem fosse um amálgama de Espíritos, essa vontade não existiria e ele careceria de individualidade, pois que, por sua morte, todos aqueles Espíritos formariam um bando de pássaros escapados da gaiola. Queixa-se, amiúde, o homem de não compreender certas coisas e, no entanto, curioso é verse como multiplica as dificuldades, quando tem ao seu alcance explicações muito simples e naturais. Ainda neste caso tomam o efeito pela causa. Fazem, com relação à criatura humana, o que, com relação a Deus, faziam os pagãos, que acreditavam em tantos deuses quantos eram os fenômenos no Universo, se bem que as pessoas sensatas, com eles coexistentes, apenas viam em tais fenômenos efeitos provindos de uma causa única - Deus.”
A.K. O mundo físico e o mundo moral nos oferecem, a este respeito, vários pontos de semelhança. Enquanto se detiveram na aparência dos fenômenos, os cientistas acreditaram fosse múltipla a matéria. Hoje, compreende-se ser bem possível que tão variados fenômenos consistam apenas em modificações da matéria elementar única.
As diversas faculdades são manifestações de uma mesma causa, que é a alma, ou do Espírito encarnado, e não de muitas almas, exatamente como diferentes sons do órgão, os quais procedem todos do ar e não de tantas espécies de ar, quantos os sons. De semelhante sistema decorreria que, quando um homem perde ou adquire certas aptidões, certos pendores, isso significaria que outros tantos Espíritos teriam vindo habitá-lo ou o teriam deixado, o que o tornaria um ser múltiplo, sem individualidade e, conseguintemente, sem responsabilidade. Acresce que o contradizem numerosíssimos exemplos de manifestações de Espíritos, em que estes provam suas personalidades e identidade.



COMENTÁRIOS DE MIRAMEZ
Os que acreditam que cada faculdade do ser humano tem um Espírito que lhe corresponde estão enganados, como estavam iludidos os que no passado acreditavam em vários deuses, apontando em cada fenômeno da natureza um Deus que seria a fonte do acontecimento.

Essa tese hoje caiu no esquecimento, anotando os mais entendidos que os deuses dos povos antigos eram Espíritos sob o comando do Pai Celestial.

A ciência divina nos mostra que todas as aptidões que o homem pode mostrar, em se movendo no corpo da carne, são qualidades da alma que se desenvolvem nas bênçãos do tempo, por vontade do Deus verdadeiro imortal. Compreende-se portanto, que o homem somente tem um Espírito com variadas manifestações dos seus dons, como sendo talentos espirituais, oferta do Senhor ao seu coração.

Cabe-nos buscar na própria matéria a realidade do que falamos: a ciência achava que a matéria era diversificada na sua estrutura, e a razão do equívoco são as suas modalidades diferentes. Hoje o homem inteligente reconhece que as expressões diferentes da matéria provêm da unidade da mesma, que em se movimentando, mostra diferenciações inúmeras; a matéria provém de um só elemento primitivo, assim como o Espírito, com todas as suas nuances de vida, de uma só fonte de vida – Deus.

A Doutrina do Espíritos tem a missão de nos levar a Deus pela sabedoria e pelo amor, porque o Senhor tem todas as aptidões na amplitude dos Seus poderes, e os Seus filhos trazem a sua semelhança, com dilatados poderes menores, que crescem de acordo com o tempo, nas bênçãos do espaço, somadas em esforço próprio, na dimensão exata do amor.

As afirmativas de que o homem é dotado de vários Espíritos devem ser ignoradas, porque a consciência em Cristo não dá crédito às ilusões desta forma, que fazem perder tempo no tempo que passa.

Certamente que o homem caminha e com ele muitos Espíritos que com ele afinam, sendo guias espirituais, ou inimigos com os mesmos sentimentos, mas que não estão ligados ao corpo desse homem pela lei da reencarnação.

É preciso compreender bem esse posicionamento teológico: um comandante de um exército, de um navio ou de um país é somente um, mas nem por isso ele deixa de ter muitos cooperadores, para que a harmonia se instale nas tropas, no barco e mesmo na nação.

Se tivéssemos muitos Espíritos para dirigir um corpo sequer, e quando eles entrassem em desacordo? Não é lógico pensar desta forma; são idéias soltas sem base na verdade, que o tempo faz desaparecer. Como na direção de cada planeta existe somente um diretor que, no caso da Terra, é Jesus Cristo. No entanto, os auxiliares são sem conta, para que a obra se aperfeiçoe. Se a Terra precisasse de um Espírito para encarnar nela, este seria o Cristo, responsável pela sua marcha em ascensão à vida superior.

14 de maio de 2010

PREOCUPAÇÃO

Toda vida em nós e fora de nós está em constante ritmicidade. Por que, então, desrespeitar os mecanismos de que se utilizam as leis divinas na evolução? Por que nos afligirmos e tentarmos mudar o imutável?

Nossa percepção, hoje, nos esclarece sobre os fatos do ontem, talvez sobre acontecimentos da semana anterior ou, possivelmente, sobre eventos quase esquecidos de anos passados.

Tudo ocorre dentro de um perfeito sincronismo tempo/espaço. Não adianta nos preocuparmos com o nosso processo de aprendizado nem com o dos outros, pois, se alguém não está conseguindo caminhar convenientemente agora, é porque lhe falta algo a fazer, ou mesmo, coisas a aprender. No Universo, tudo obedece a um ritmo natural; as raízes de nossa evolução corporal/espiritual estão arraigadas nas íntimas relações com a Natureza. Em nível mais profundo, somos parte dela.

Vivenciamos conscientemente, a todo instante, os ciclos da Natureza com nossas emoções e sentimentos. Experimentamos desânimo e abatimento no transcurso de um longo período de estiagem; porém, quando a chuva cai, a nossa sensação é de alegria e prazer; ou, durante as tempestades, nossas impressões oscilam desde a apreensão até o medo. Sentimos a alma leve e feliz com o surgimento do sol, nos dias calmos e iluminados.

Há um tempo para tudo. Em verdade, os ritmos que os governam são inerentes à vida. Também nós, os espíritos domiciliados ou não na Terra física, identificamos nossos ritmos internos através das sensações da dor e do prazer, a fim de avaliarmos o “grau de acerto” de nossos atos e decisões.

Dia e noite, primavera e inverno, amanhecer e entardecer são fases da Natureza, atuando diretamente nos ritmos de nossas ocupações e procedimentos do cotidiano.

Em verdade, a nossa identificação com a Vida Superior se plenifica quando harmonizamos nossos ritmos internos com os ritmos externos da Natureza.

Propõe o professor Rivail aos Nobres Emissários: “Os seres que habitam cada mundo hão todos alcançado o mesmo nível de perfeição?” E os Espíritos respondem à questão com sabedoria: “Não; dá-se em cada um o que ocorre na Terra: uns Espíritos são mais adiantados do que outros.”

Os ritmos interiores dos indivíduos se prendem ao nível evolucional/espiritual de cada um, e toda a vida no Universo está dentro de uma ordem perfeita. Tanto os astros da abóbada celeste, como os seres microscópicos do nosso planeta, todos são regidos por um Divina Ordem, que mantém trajetórias e órbitas perfeitamente alinhadas, como também os ritmos e os propósitos coerentes como grau de necessidade e progresso das criaturas e das demais criações.

Embora os ritmos biológicos de uma pessoa difiram completamente dos ritmos de outros seres, podemos encontrar rimos orgânicos semelhantes em membros de uma mesma espécie.

A ação de inspirar resulta com exata precisão em seu reverso, ação de expirar. Esta sucessão ou alternância produz um ritmo. Quando suprimimos um deles, o outro também desaparecerá, pois se submetem mutuamente. Por que aquilo que nos parece tão evidente na respiração nos passa despercebido, ou mesmo sem análise alguma, nos outros campos do conhecimento humano?

Os pulmões sustentam a vida orgânica descarregando periodicamente bióxido de carbono e absorvendo oxigênio, que é levado pelo sangue, vitalizando as células, invariavelmente. As atividades celulares nos tecidos permanecem num constante estado de multiplicação, e a respiração é contínua e compassada.

Certos ritmos que nos dirigem são considerados como qualidades inerentes à vida e não podem ser impostos pela exterioridade.

O músculo cardíaco apresenta ritmo espontâneo. As batidas do coração dispõem de seus próprios marca passos. Na aurícula direita, um minúsculo nódulo, conhecido como “sinus”, à feição de um timoneiro numa antiga embarcação romana, possui uma tarefa gigante: marca o ritmo das batidas no “barco da vida”. As células nervosas do cérebro detonam freqüentes impulsos que, por sua vez, repercutem na ritmicidade das ondas cerebrais, que podem ser registradas pelo eletro encefalograma.

Em todo reino vegetal e animal, a função sexual é um fenômeno periódico, desde a polinização das plantas até o ciclo menstrual das mulheres – que é o resultado direto do aumento e diminuição dos hormônios num ritmo mais ou menos mensal.

Se pudéssemos observar o interior de alguém que está correndo, veríamos, com certa regularidade, a contração de grupos alternados de músculos. Os chamados “flexores” se contraem, fazendo endireitar as articulações.

Toda vida em nós e fora de nós está em constante ritmicidade. Por que, então, desrespeitar os mecanismos de que se utilizam as leis divinas na evolução? Por que nos afligirmos e tentarmos mudar o imutável?

Como é importante caminhar, passo após passo, acompanhando nosso próprio “compasso existencial” e percebendo a hora propícia de mudança!

O dia de hoje nos fornecerá exatamente as oportunidades de que precisamos para compor com estrofes e versos harmônicos o “poema de nossa vida”, cuja métrica foi antecipadamente determinada por nós no ontem. Nossas experiências da vida não acontecem por acaso. O Planejamento Divino nada faz sem um desígnio proveitoso; tudo tem sua razão de ser. Não é preciso desespero, nem preocupação; tudo acontece como tem que acontecer.

Espírito: HAMMED
Médium: Francisco do Espírito Santo Neto – As dores da alma.

13 de maio de 2010

A ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA - PRINCEZA ISABEL

Entrevista: Irene Carvalho

“A promulgação da Lei Áurea foi da mais alta importância, por tratar-se de um planejamento feito pelo plano espiritual”

Em abril de 1988, um mês antes da comemoração do primeiro centenário da Abolição da escravatura no Brasil, O Imortal publicou a entrevista que Irene Carvalho, de Brasília-DF, con-cedeu a Marcelo Borela de Oliveira, em que o assunto principal foi o papel da Princesa Isabel na decretação da chamada Lei Áurea, que revogou em 13 de maio de 1888 a legislação que permitia até então a existência da escravidão em nosso país.

Dando continuidade ao propósito de reprisar ao longo de 2003, quando este jornal come-mora 50 anos de existência, as principais matérias aqui publicadas nos últimos vinte anos, de dezembro de 1983 a esta data, reproduzimos na íntegra a citada entrevista.

Os espiritistas de nosso país já aprenderam a admirar o trabalho que Irene Carvalho desenvolve em Brasília no campo mediúnico, notadamente no capítulo das terapias espirituais. Autora teatral de renome, é, contudo, na atividade mediúnica que Irene tem marcado uma presença exuberante em seus 27 anos de militância no Espiritismo. A Comunhão Espírita de Brasília, sem favor a instituição espírita mais importante da Capital federal, conta com seu trabalho ativo na direção da Casa, na coordenação do Departamento de Orientação Espiritual Dias da Cruz e na supervisão dos grupos mediúnicos de atendimento físico-espiritual, que realizam, em diversos dias da semana, uma tarefa notável na área da terapia espiritual. “Os atendimentos físico-espirituais”- esclarece Irene – “são supervisionados pelas equipes do Dr. Bezerra de Menezes, Dias da Cruz e Ramayana, este último, médico espiritual hindu, com quem trabalho há vinte e dois anos no atendimento a cancerosos.”

Na seara mediúnica, Irene tem mantido contato assíduo com o Espírito daquela que foi Princesa Isabel, autora da célebre Lei Áurea, que completa em maio próximo o seu primeiro centenário.

Foi para ouvi-la, sobretudo acerca dos temas ligados à escravidão no Brasil, que O Imortal pre-parou a entrevista seguinte.


Em existência anterior, Princesa Isabel foi também uma negra escrava

O IMORTAL – Quando você se tornou espírita?
Irene – Há vinte e sete anos, pelo chamamento ao trabalho mediúnico.

O IMORTAL – Quais as suas atividades na seara espírita em Brasília?
Irene – Faço parte da diretoria da Comunhão Espírita de Brasília e sou a responsável pelo Departamento de Orientação Espiritual Dias da Cruz, onde respondemos a mais de quinhentas cartas mensais de pedido de orientação a respeito de saúde e mediunidade. Sou, ainda, responsável pelos grupos mediúnicos de atendimento físico-espiritual, que atuam em nossa Casa nas seguintes especialidades e dias: oncologia, às quartas-feiras; obstetrícia, ginecologia, esterilidade masculina e feminina e cardio-logia, às segundas-feiras; clínica geral, com dois atendimentos por noite, às terças-feiras; pediatria, com dois grupos de atendimento por noite, às quintas-feiras; geriatria, às sextas-feiras à tarde; e clínica geral, à noite. Contamos, para esses trabalhos, com excelentes equipes de médiuns e dirigentes, dos quais se exige muito preparo, assiduidade e dedicação. Em nenhuma orientação ou atendimento nos nossos trabalhos deixamos de frisar a importância do atendimento médico convencional, nos casos de problemas físicos.

O IMORTAL – Uma pesquisa recente, divulgada pela revista VEJA, assegura que existe ainda um forte conteúdo racista nas relações humanas em nosso país. Há racismo também nos meios espíritas?
Irene – Sim, como em qualquer outro aglomerado de seres humanos. Outro dia mesmo alguém me procurou dizendo que desejava conhecer um determinado médium da Comunhão que – sabe-se – dedica a sua vida quase totalmente aos trabalhos de Jesus, em prol dos que sofrem. Aliás, existem na Comunhão muitos médiuns que são verdadeiros obreiros do Senhor. Naquele instante, Mãe Isabel indicou-me tratar-se de pessoa de pele escura e, imediatamente, veio-me à mente a figura do maravilhoso médium. Para minha surpresa, eis que ele entra na Comunhão naquele momento. Apontando-o, falei: “O médium que procura é aquele”. A mulher, revelando surpresa, respondeu-me: “Aquele preto?”
Por incrível que pareça, essa senhora é de berço e vivência espírita, e o médium em causa é pessoa muito querida de todos.

O IMORTAL – Valentim Lorenzetti, confrade e jornalista de São Paulo, é a favor de que nas sessões mediúnicas não exista qualquer preconceito quanto às comunicações dos chamados “pretos-velhos”, que muitos não aceitam por temor de serem confundidos com os umbandistas. Qual a sua opinião a respeito?
Irene – O jornalista Lorenzetti tem toda a razão nesse assunto, que aliás já foi amplamente discutido e divulgado pela Federação Espírita Brasileira. O que dificulta a aceitação e a comunicação dos “pretos-velhos” é o seu linguajar e gesticulação abundante. O que não se pode é acatar o uso da vela, do fumo, da bebida e de outros rituais que não condizem com os ensinamentos da Doutrina codificada por Allan Kardec.

O IMORTAL – Sabe-se que Princesa Isabel comunica-se como uma preta-velha, a Mãe Isabel, já tão amada pelos freqüentadores da Comunhão Espírita de Brasília. Esse fato significa que ela tenha vivido entre escravos?
Irene – Sim! E o seu trabalho libertador de escravos foi a mais alta missão que enfrentou durante a Coroa. Afirma-nos, a própria Mãe Isabel, que foi muito difícil tomar essa decisão, já que eram inú-meras as correntes contrárias.

O IMORTAL – Podemos saber qual a avaliação que a ex-Princesa faz a respeito da Lei Áurea, que completa cem anos de existência em 13 de maio próximo?
Irene – Revela-nos ela ter sido de suma importância para o processo de humanização do País e que somente no mundo espiritual pôde avaliar a real grandeza do evento. Ela tem a certeza de ter contado com a ajuda espiritual. Afirma que em sonho era levada às regiões dos Planos mais Altos, onde recebia instruções de como proceder. As palavras que me transmite neste instante são confirmadas por Bezerra de Menezes.

O IMORTAL – Estatísticas recentes apontam que 38% de todos os africanos negros deportados como escravos, durante os três séculos e meio em que perdurou o sistema escravista, vieram para o Brasil. Quem eram esses Espíritos?
Irene – Mãe Isabel silencia e eu compreendo que não é o momento de falar a respeito do assunto. No entanto, Bezerra de Menezes aponta-nos o livro “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evange-lho”, de Humberto de Campos, onde encontramos muitas respostas a esta indagação.
Com o semblante carregado, Mãe Isabel fala, com certa tristeza, que a escravatura ainda persiste...

O IMORTAL – Há alguma relação entre os negros da África do Sul, que sofrem a terrível situação causada pelo “apartheid”, e os brancos que mantiveram por três séculos e meio o regime de escravidão que imperou nas Américas?
Irene – Sim! A lei de causa e efeito funcionará sempre...

O IMORTAL – A raça negra, através de seus membros mais ilustres, considera não ser o dia 13 de maio, data da assinatura da Lei Áurea, mas sim o que assinalou a morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, o Dia Nacional dos Negros do Brasil. Qual a opinião de Princesa Isabel sobre isso?
Irene – A relevância da morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, no processo de valori-zação e conscientização da raça negra, é fato inconteste e merece reflexão. Todavia, afirma-nos Mãe Isabel que a promulgação da Lei Áurea foi da mais alta importância, por tratar-se de um planejamento feito pelo plano espiritual, para dar oportunidade às criaturas de se amarem e compreenderem, em situação de igualdade.
Segundo suas palavras, que registramos nestas observações, embora tenha levado um século para que as criaturas comecem a despertar para essa realidade, chegou o momento de agir, e a raça negra, num brado justo, reclama os seus direitos.

O IMORTAL – Mais de trinta anos antes da Lei Áurea, o Livro dos Espíritos assinalava que a escravidão é um abuso da força, contrária à natureza e à lei de Deus, implicando para os escravagistas sérios compromissos perante o Criador. Essa posição dos Espíritos que assistiam Kardec na codificação da doutrina espírita demonstra sua preocupação com o problema?
Irene – Depois de João Evangelista, escrevendo o Apocalipse, ninguém melhor do que Allan Kardec para receber e transmitir com tanta segurança uma mensagem desse teor. Isso comprova as palavras de Mãe Isabel sobre a preocupação dos Espíritos acerca do assunto.

O IMORTAL – Como será o porvir da Nação brasileira? E qual será o papel da raça negra na construção de um País novo, em que a prosperidade e a paz reinem soberanas?
Irene – Não somente no Brasil, como também em outros países, a raça negra vai se destacar. Mãe Isabel é categórica em afirmar que grandes acontecimentos estão por vir. Reencarnado em corpo de cor negra, um Espírito de grande força moral e de persuasão subirá ao poder...

O IMORTAL – Neste 13 de maio de 1988, cem anos após a promulgação da Lei Áurea, que aboliu a escravatura no brasil, se fosse possível à Princesa Isabel dizer-nos alguma coisa, quais seriam suas palavras?
Irene – A mensagem seria dirigida à Nação brasileira. Lembro-me de que Francisco Cândido Xavier disse que, numa ocasião como esta, nós médiuns, para captar a adequada resposta espiritual, temos de esperar que o “telefone toque”. Foi o que fiz. Sem demora apresentou-se à minha mente o telão onde costumo ver mensagens e textos teatrais a mim transmitidos. Acompanhada da abnegada figura de Bezerra de Menezes, Mãe Isabel pediu-nos toda a atenção para que não perdesse nenhuma das palavras que seriam projetadas. Ressaltamos que Mãe Isabel prefere apresentar-se como uma “preta-velha” e não com a envergadura da Princesa Isabel. De uma ou de outra forma, ela é linda e nós a amamos profundamente. Ela nunca erra em suas palavras e está sempre pronta para atender aos que sofrem.

Eis sua mensagem:

“Diletos irmãos,

Abençoe-nos Jesus em Sua Luz.

O momento é de profunda reflexão. Neste instante, ainda ouço o clamor do negro escravo, que mesmo depois de liberto chorava suas dores, sem ter para onde ir. Reporto-me a esses dias com muita emoção.

Ao assinar a Lei Áurea, a minha mão foi conduzida por outra mão mais forte. Uma enorme força brotou dentro de mim e mesmo que eu quisesse não poderia retroceder. Foi um momento de enorme emoção e eu chorei.

O Brasil é sem dúvida um país de grandes dimensões e haverá lugares para todos, se houver, realmente, uma compreensão maior por parte daqueles que o governam. Dirijo-me a eles, em especial, afirmando que a palavra empenhada recebe na Espiritualidade o selo dos grandes compromissos, severamente inadiáveis. Que ninguém se iluda, pois a cobrança dos débitos será sempre feita.

Que a semeadura do Evangelho chegue também aos corações dos políticos e atinja as crianças que percorrem as ruas dos grandes centros em busca do pão e da verdade, escravas da fome e do vício. Para elas a única verdade é fugir do abandono. Alimentá-las não é o suficiente, mas sim possibilitar-lhes um mundo melhor. Uma vida equilibrada para os escravos dos novos tempos só será possível numa sociedade voltada para o bem e a fraternidade.

Quem não recebe amor não o pode dar a outrem. Os que fecham os olhos a essa dura realidade, de adultos e crianças subjugados a condições subumanas, e especialmente os que se com-prazem na existência de tal condição, por fazer dela sua base de lucro e promoção pessoal, estes, sem dúvida, podem ser considerados os novos feitores, como os de outrora...

Mãos à obra, brasileiros. Que o anjo Ismael continue a proteger essa terra gigantesca, que dia a dia se destaca das demais, convergindo tantas atenções e atraindo múltiplas famílias es-trangeiras que jamais a deixam.

Que o 13 de maio seja lembrado como uma data simbólica, que nos desperte para as mais nobres realizações de libertação do ser humano e não como um grito de angústia.

Dia há de chegar em que todos na Terra se abraçarão como irmãos.

Muita alegria!

Mãe Isabel.”

9 de maio de 2010

MÃE DAS MÃES


Maria,
É a Mãe piedosa
De todas as mães resignadas e sofredoras.
É a consolação
Que se derrama puríssima
Sobre os prantos maternos,
Vertidos na corola imensa das dores;
É o manto resplandecente
Que agasalha os corações das mães piedosas,
Amarguradas e infelizes,
Que orvalham com lágrimas benditas
As flores do seu amor desvelado,
Espezinhadas pelo sofrimento,
Fustigadas pelo furacão da desgraça, atropeladas pelo mal,
Perseguidas pelo infortúnio
No sombrio orbe das lágrimas e das provações.
Todas as preces maternas
Ascendem aos espaços
Como um doloroso brado de angústia a Maria,
E a rosa sublime de Nazaré
Escuta-as piedosamente,
Estendendo os seus braços tutelares
Às Mães carinhosas e desprotegidas;
E bastam os eflúvios do seu amor sacrossanto
Para que as consolações se derramem
Cicatrizando as feridas,
Balsamizando os pesares,
Lenindo os padeceres
Das Mães desoladas, que encontram nela
O símbolo maravilhoso de todas as virtudes!...
Ao seu olhara compassivo,
Pulverizam-se os rochedos do mal
Do oceano da vida de desterro e de exílio,
Para que o Brigue da Esperança,
Com as suas velas alvas e pandas,
Veleje tranqüilamente,
Buscando o porto esperado com ânsia,
Da salvação das almas que sofreram
Nos torvelinhos do mundo,
Como náufragos de uma tormenta gigantesca,
Que não se perderam no abismo das águas tenebrosas
Do mar da iniqüidade,
Porque se apegaram
À âncora da Fé.
Maria é o anjo, pois
Que nos ampara e guia em nossa cruz;
Levando-nos ao Céu, cheia de piedade e comiseração
Pelas nossas fraquezas.
Ela é a personificação do amor divino
No vale das sombras e das amarguras,
E sendo o arrimo de todas as criaturas,
É sobretudo
A Virgem da Pureza
- Mãe das Mães.

Marta
Livro “Parnaso de Além Túmulo” – Psicografado por Francisco Cândido Xavier

4 de maio de 2010

REFLEXÕES DE MÃE

O coração não perde os grandes sentimentos que nos animam em toda a vida, tão somente porque a morte nos altera o caminho.

As mães continuam, cada vez mais vivas, amando mais os filhinhos de sua alma.

Nosso primeiro pensamento, depois da separação do corpo, é volver ao mundo e ensinar o caminho da verdade aos nossos amados que ficam à distância.

Os obstáculos,porém,são muito grandes e, por mais que façamos, é muito difícil desfazer às dúvidas que aparecem...

De qualquer modo, no entanto, não renunciamos à tarde de auxiliar,embora saibamos que muitos dos nossos não nos possam aceitar as idéias renovadoras.

Não exigimos,contudo, a crença no que afirmamos.

Basta compreendermos a necessidade de servir a Deus, em favor de nós mesmos.

O imenso carinho das mães não termina no túmulo.

O coração materno encontra sempre o seu melhor sustentáculo no amor de que se alimenta.

Enquanto a Providência Divina permite, peregrinamos em torno daqueles que são as flores da nossa vida.

E penso que as lágrimas de nossa devoção caem sobre os nossos filhos, como o orvalho do Céu sobre as plantas, porque tudo faz por auxiliá-los e sustentá-los na missão de que se incumbem na Terra.

Num mundo qual o nosso, a harmonia não é uma luz que possa estar acessa todos os dias, mas os espíritos da espera carnal nos ajudam a descobrir as flores que o Céu nos destina.

Guardamos conosco, entretanto, a certeza de que Deus nos concederá sempre a paz de que necessitamos, na jornada para o Alto, e o consolo de saber que a mão do Senhor tudo converte para o bem, com o auxilio do tempo.

Esperemos, pois, o futuro.

Maria F. de Souza
Livro: “Cartas do Coração” – Psicografia Francisco Cândido Xavier – Espíritos Diversos

2 de maio de 2010

GRANDE ALÉM

Nos mais estranhos lugares do mundo, todas as pessoas trazem o passaporte invisível para o Grande Além. O esquimó e o europeu, o hotentote e o americano encaminham-se, diariamente, para o mesmo fim.

Em algumas antigas regiões asiáticas, a roupa velha dos viajantes, que atravessam as fronteiras da morte, é confiada aos abutres famintos, e, nas cidades supercivilizadas dos tempos modernos, as vestes rotas dos que demandam o invisível são consumidas no forno crematório ou abandonadas à cinza do sepulcro.

Todos seguirão.

Testas coroadas deixam o trono e o cetro aos aventureiros; filósofos e sábios costumam legar tesouros aos estúpidos; legisladores e estadistas entregam suas obras aos caprichos populares; os amantes afastam-se do objeto de sua adoração, atirando-se à grande experiência. Não valem as lágrimas da dor, nem os argumentos da Ciência. Não prevalecem as invocações do sangue ou da condição. Partem os algozes e as vítimas, os bons e os maus. Sócrates, condenado à cicuta, apenas antecede os seus juízes. Dario e Alexandre, fulgurantes de armaduras, põem-se a caminho, seguidos de todos os vassalos. Nero determina o flagelo dos circos, aciona a maquinaria do martírio e da destruição, fazendo igualmente a grande viagem, através de terríveis circunstâncias.

Quem escapará?

Magos de todas as épocas intentam descobrir o vinho miraculoso da eterna mocidade do corpo físico. Desejando fugir aos imperativos: da consciência, tenta o homem esquecer os seus títulos de imortalidade espiritual, com que receberá sempre de acordo com as suas obras, procurando perpetuar o baile de máscaras, onde estima a opressão e disfarça o vício.

Entretanto, por mais que sonde os segredos da Mãe Natura, descobrindo rotas aéreas e caminhos subterrâneos, não conseguirá improvisar a invulnerabilidade dos ossos com que se materializa, por tempo determinado, na Terra, atendendo a místicos desígnios da esfera superior. A enfermidade segui-la-á, de perto; se persevera no desequilíbrio, a luta vergastá-lo-á, todos os dias; a morte espera-o, em cada esquina da precipitação ou da imprudência.

As vacilações alegres da infância exigir-lhe-ão os graciosos ridículos do princípio e as dolorosas hesitações da velhice reclamarão dele os detestáveis ridículos do fim.

Há sempre, em cada existência, o período de aproveitamento, onde a criatura pode revelar-se.

Alguns homens, raros embora, valem-se da ocasião para o esforço supremo da tarefa a que foram chamados a cumprir. A maioria, como deuses caídos, entrega-se às dissipações da prodigalidade, aproveitando o tempo de serviço em banquetes de criminosos prazeres.

Do nascente orvalhado ao poente sombrio, o Sol brilha apenas algumas horas, em cada dia do ano. Do berço risonho à sepultura tenebrosa, a vida de um homem fulgura apenas por limitado tempo, no curso da existência que é um dia da eternidade. Vieira faz alguns sermões e desaparece do cenário. Pasteur sofre pela Ciência e termina a missão que o trouxe.

Todos conhecem a verdade da morte. O índio sabe que abandonará sua tribo, como o cientista reconhece que não escapará do último dia do corpo. Todos demandarão a pátria comum, onde o criminoso encontrará o seu inferno e o santo identificará o céu que construiu com o sacrifício e a esperança. Nesse infinito país, existem vales escuros de condenados e montanhas gloriosas onde respiram os justos. Há liberdade e asfixia, luz e treva, alegria e dor, reencontro e separação, recompensa e castigo, júbilo e tormento, novas esperanças e novas desilusões. Ninguém ignora que haverá continuidade de lutas, modificação de aspectos, extinção da oportunidade; no entanto, em toda parte, pulsam rígidos corações de pedra, que reclamam irresponsabilidade e indiferença. Querem a morfina dos prazeres fáceis, com que abreviam a morte.

De quando em quando, rajadas de extermínio cruzam a atmosfera planetária, multiplicando gemidos de angústia e tentando acordar as almas adormecidas na carne. Bocas de fogo precedem o bico de corvos famulentos. Jardins transformam-se em ossuários. A realidade terrível do ódio faz cair as máscaras diplomáticas, a fim de que os agrupamentos humanos se mostrem tais quais são. Milhares de criaturas acorrem ao Grande Além, reconhecendo, mais uma vez, que o sílex e a baioneta, a catapulta e a granada são filhos da mesma ignorância primitivista, em que se mergulham voluntariamente as criaturas da Terra, há milênios numerosos.

Continuará o seio da vida alimentando a Humanidade sobre milhões de túmulos, e escancarada permanecerá a porta da morte, esperando todos os seres.

Ninguém fugirá.

Mães e filhos, jovens e velhos, ricos e pobres estarão de partida, a qualquer momento.

Todos guardam o passaporte final, com que regressam ao país de que procedem. Hóspedes temporários da carne, voltam ao lar comum, onde colherão, de acordo com a semeadura. No pórtico, entre os dois planos, movimenta-se a alfândega da Justiça, que confere asas divinas à consciência reta para os vôos do cimo resplandecente e verifica as algemas pesadas escolhidas pelos criminosos para o mergulho no precipício das sombras.

Grande Além!... Grande Além!... Onde estão na Terra os homens que te recordam? Entretanto, na fronte de todos eles permanece o sinal de teu invisível poder!

Irmão X
Lazaro Redivivo