11 de junho de 2010

OS PORTÕES DE CHEGADA


Cada abraço daqueles, guarda uma história diferente...

Cada reencontro daqueles revela um outro mundo, uma outra vida, diversa da nossa, da sua...

Se você nunca teve a oportunidade de observar, por mais de cinco segundos, todas aquelas pessoas - desconhecidos numa multidão - esperando seus amigos, seus familiares, seus amores, não tenha medo de perceber da próxima vez, a magia de um momento, de um lugar.

Falamos dos portões de chegada de um aeroporto, um desses lugares do mundo onde podemos notar claramente a presença grandiosa do amor.

Invisível, quase imperceptível, ali ele está com toda sua sublimidade.

Nas declarações silenciosas de um olhar tímido. No calor ameno de um abraço apertado. No breve constrangimento ao tentar encontrar palavras para explicá-lo.

Na oração de três segundos elevada ao alto - agradecendo a Deus por ter cuidado de seu ente querido que retorna.

Richard Curtis, que assina a produção cinematográfica de nome "Love actually" - traduzida no Brasil como "Simplesmente amor", traz essas cenas com uma visão muito poética e inspirada.

O autor oferece na primeira e última cenas do filme exatamente a contemplação dos portões de chegada de um aeroporto, e de seu belíssimo espetáculo representando a essência do amor.

Ouve-se um narrador nos primeiros segundos, confessando que toda vez que a vida se lhe mostrava triste, sem graça, cruel, ele se dirigia para o aeroporto para observar aqueles portões, e ali encontrava o "amor por toda parte".

Seu coração alcançava uma paz, um alívio, em notar que o amor ainda existia, e que ainda havia esperança para o mundo.

Isso tudo pode parecer um tanto "poético" demais para os mais práticos, é certo.

Assim, a melhor forma de compreender a situação proposta é a própria vivência.

Sugerimos que faça a experiência de, por alguns minutos, contemplar essas cenas por si mesmo, seja na espera de aviões ou outros meios de transporte coletivos.

Propomos que parta de uma posição mais analítica, de início, com algumas pitadas de curiosidade:

"Que grau de parentesco possui aquelas pessoas?"- "Há quanto tempo não se vêem?"- "De onde chegam?"

Ou, quem sabe, sobre outros: "Que histórias têm para contar!"- "O que irão narrar por primeiro ao saírem dali? Sobre a família, sobre a viagem, sobre a espera em outro aeroporto?"

Ao perceber lágrimas em alguns olhos, questione: "De onde elas vêm?”.

- "Há quanto tempo não se encontram?”.

- "Que felicidade não existe dentro da alma naquele momento!”.

Por fim, reflita:

"Por quanto tempo àquele instante irá ficar guardado na memória!". O instante do reencontro...

Tudo isso poderá nos levar a uma analogia final, a uma nova questão: não seria a Terra um imenso aeroporto? Um lugar de chegadas e partidas que não param constantes, inevitáveis?

Pensando nos portões de chegada na Terra, lembramos dos bebês, que abraçamos ao nascerem, com este mesmo amor daqueles que esperam num aeroporto por seus amados.

Choramos de alegria, contemplando a beleza de uma nova vida, e muitas vezes este choro é de gratidão pela oportunidade do reencontro.

É um antigo amor que, por vezes, volta ao nosso lar através da reencarnação.

Pensando agora nos portões de partida, inevitavelmente lembramos da morte, da despedida.

Mas este sentir poderá ser também feliz!

Como o sentimento que invade uma mãe ou um pai que dá adeus a um filho que logo embarcará em direção a outro país, a fim de fazer uma viagem de aprendizagem, de estudo, ou profissional.

Choram sim, de saudade, mas o sentimento que predomina no bom coração dos pais é a felicidade pela oportunidade que estão recebendo, pois têm consciência de que aquilo é o melhor para ele no momento.



* * *



Vivemos no aeroporto Terra.

Todos os dias milhares partem, milhares chegam.

Chegadas e partidas são inevitáveis.

O que podemos mudar é a forma de observá-las.


Texto da Redação do Momento Espírita com base no cap. Os portões de chegada, do livro O que as águas não refletem, de Andrey Cechelero.

10 de junho de 2010

O OBJETIVO DA VIDA

“Reflitais sobre a vida presente e procurai as razões de vossas existências neste planeta. Pensai bem se devem ser os únicos objetivos da vida a melhoria material e o progresso intelectual que podeis adquirir nas vossas atividades normais. Verificai se por ventura a constituição de uma família e o encaminhamento na educação formal, intelectual e profissional dos que foram colocados ao vosso lado, é a única responsabilidade que tendes”.

Tudo isto é importante na caminhada na vida na matéria, no entanto, vossa verdadeira missão é muito maior do que pensais. Na verdade o objetivo maior desta passagem na vida física é a busca da evolução espiritual, assim como de todas as outras existências. De nada valerá vossas obras se elas não forem revestidas da pureza de vossa intenção, que deve ser o da elevação moral. Ser bons pais, bons profissionais, vos é necessário, mas tudo isto não vos acrescentará nada, se não procurardes a melhoria moral que é muito mais do que imaginais.

Podeis até questionar se não estais melhores moralmente com estas condutas consideradas pelo mundo como boas, mas nem sempre com este comportamento estareis usufruindo da verdadeira melhoria espiritual, que exige muito mais do que isto. Esta só vos chegará se tiverdes a verdadeira compreensão dos ensinamentos que vos tem sido revelado desde há muito, que são os ensinos do Cristo.

Não basta dizer-se cristãos, é necessário agir como tal e, para isto, é preciso aprofundar vosso entendimento nas verdades divinas. Muitos crêem estar no caminho certo por se declararem cristãos, mas na verdade se observarem em seu íntimo verão que suas atitudes os aproximam mais do mundo do que do Criador.

Alertai-vos, irmãos, para esta oportunidade que tendes mais uma vez, pois certamente não é a primeira vez que tivestes contato com estas verdades. Poderá acontecer de não terdes em outra ocasião estas condições materiais e intelectuais que hoje possuís. Quantos, no mundo espiritual, vivem amargurados por não terem aproveitado a oportunidade recebida em tantas vidas e estão no sofrimento, temporários é bem verdade, mas nem por isso menos atrozes.

Não penseis que para avançar espiritualmente tereis que necessariamente sofrer, pois na verdade só sofreis pela pequenez de vosso entendimento e pela dificuldade que tendes em compreender e seguir os ensinamentos libertadores. Também não penseis que as dores passarão à largo por terdes adquirido a compreensão da doutrina de Jesus, pois, lembreis, estais ainda num mundo de provas e expiação no qual são muitas as adversidades. Mas é certo que com o verdadeiro entendimento, a carga vos será mais leve.

Atentai, pois, para esta oportunidade de entrar em contato com este tesouro, proporcionado pelo Espiritismo a auxiliar-vos neste entendimento. Tendes a razão para mudar vossa vida, tendes os ensinamentos a vos auxiliar, o que vos falta então? É preciso pois que esta razão e os ensinamentos toquem vosso coração verdadeiramente de forma a mudardes a vossa visão do mundo. Assim estareis dando o definitivo passo para a verdadeira transformação.

Cada dia que passar sem que tomeis a decisão vos pesará no futuro. Portanto, busqueis já iniciar a retomada de vossa caminhada e, com estes ensinamentos que estão à vossa disposição, certamente tereis o ânimo em continuar a busca da perfeição para a qual fostes criados. Que a paz de Jesus vos acompanhe!". – Um Espírito amigo.

Um Espírito amigo
Sociedade de Estudos Espíritas Allan Kardec

9 de junho de 2010

O LIVRE ARBÍTRIO

Que é o livre-arbítrio?
Abrindo “O Livro dos Espíritos”, vamos encontrar no Capítulo X - Da Lei de Liberdade -, 3ª Parte da obra, oito questões relacionadas com o assunto livre-arbítrio (Questões 843 a 850), nas quais os Espíritos superiores instruem-nos a respeito.

Logo na Questão 843, indaga o Codificador se o homem tem o livre-arbítrio de seus atos. E os Espíritos respondem que se tem a liberdade de pensar, tem igualmente a de obrar, porquanto, sem o livre-arbítrio ele seria máquina.

Em resposta à Questão 845, os Espíritos afirmam que conforme se trate de Espírito mais ou menos adiantado, as predisposições instintivas podem arrastá-lo a atos repreensíveis, porém não existe arrastamento irresistível.

Basta que o Espírito (encarnado ou desencarnado), sendo consciente do mal a que esteja ou se sinta arrastado, utilize a vontade no sentido de a ele resistir.

Verificamos, no contexto geral das Questões acima referidas, que não há desculpa óbvia para o mal que o homem venha a praticar, uma vez que ele, por mais imperfeito que seja, tem a consciência do ato que pratica - se é bom ou se é mau.

O livre-arbítrio é uma faculdade indispensável ao ser humano, não nos resta qualquer dúvida, pois, sem ele, já foi dito, o ser espiritual seria simples máquina ou robô, sem qualquer responsabilidade dos atos que viesse a praticar.

É justamente a faculdade do livre-arbítrio que empresta ao homem certa semelhança com o Pai soberano do Universo. E constitui desiderato pleno desse Pai magnânimo que os Espíritos, seus filhos, cresçam para a glória eterna, iluminando-se na prática da sabedoria e do bem.

A prática do mal pelo Espírito, encarnado ou desencarnado, não tem qualquer justificativa porque ele sabe quando obra indevidamente. Caim, no exemplo bíblico, ao matar Abel, tinha plena consciência do que fazia tanto que o fez às escondidas. O que faltou a Caim foi a compreensão de que nada há oculto aos olhos de Deus!

Pode-se, verdadeiramente, lesar os homens, pode-se até mesmo lesar-se a si próprio, mas nunca lesará alguém a magnânima justiça de Deus.

Esclarece-nos a Revelação da Revelação, ou “Os Quatro Evangelhos”, que o Espírito antes de encarnar toma resoluções quanto ao gênero das provações, quanto à extensão e ao termo delas, até mesmo quanto à duração da existência bem como quanto aos atos que praticará durante a mesma, no entanto, o emprego, o uso ou o abuso que ele faz da vida terrena muitas vezes o impedem de atingir o limite e o bom cumprimento daquela resolução (l.º Volume, pág. 139, 7ª edição FEB).

No caso enfocado, o Espírito teve o livre-arbítrio de programar o que seria a sua encarnação, no entanto, em função do próprio livre-arbítrio, por usá-lo mal ou dele abusar, estragou um bom programa de vida. Há, porém, aqueles que procuram justificar-se com fundamento no esquecimento produzido pelo véu da carne.

Os Espíritos, todavia, em resposta à Questão 392 de “O Livro dos Espíritos”, explicam que “não pode o homem, nem deve, saber tudo. Deus assim o quer em sua sabedoria. Sem o véu que lhe oculta certas coisas, ficaria ofuscado, como quem, sem transição, saísse do escuro para o claro.” E concluem: “Esquecido de seu passado ele é mais senhor de si.”

Vejamos, por exemplo, uma situação em que determinado indivíduo houvesse sido homicida em sua última encarnação e tivesse programado para a atual existência a quitação desse delito. Não obstante a desnecessidade de desencarnar assassinado, ele não teria paz até o dia de seu retorno à vida espírita. Estaria sempre sobressaltado e na expectativa da presença de alguém que lhe viesse subtrair a vida física, se recordasse sua transgressão anterior.

O esquecimento do passado é necessário, misericordioso, e justifica perfeitamente a prova ou provas a que todos estamos naturalmente submetidos, pois essa é uma das funções da vida corporal.

Sentimos a importância do livre-arbítrio quando somos levados a tomar decisões que incomodam a consciência... Isto significa quanto o Pai celestial é bom, nos ama e se preocupa com o nosso progresso. Concede-nos o livre-arbítrio, mas concede-nos igualmente a consciência, espécie de censor natural, que nos alerta quando dele pretendemos abusar.

A propósito queremos fazer um paralelo entre duas informações ou elucidações em torno do livre-arbítrio e as conseqüências de sua errônea utilização. Uma se encontra em “Os Quatro Evangelhos” ou Revelação da Revelação (l.º Vol. pág. 299, 7ª edição FEB), nos seguintes termos:

“Esses Espíritos presunçosos e revoltados, cuja queda os leva às condições mais materiais da Humanidade, são então humanizados, isto é, para serem domados e progredirem sob a opressão da carne, encarnam em mundos primitivos, ainda virgens do aparecimento do homem, mas preparados e prontos para essas encarnações (grifos da obra).

A outra se encontra em “O Evangelho segundo o Espiritismo” (Capítulo III, Item 16, edição FEB), nos termos seguintes:

“Já se vos há falado de mundos onde a alma recém-nascida é colocada, quando ainda ignorante do bem e do mal, mas com a possibilidade de caminhar para Deus, senhora de si mesma, na posse do livre-arbítrio. Já também se vos revelou de que amplas faculdades é dotada a alma para praticar o bem. Mas, Ah! Há as que sucumbem, e Deus, que não as quer aniquiladas, lhes permite irem para esses mundos onde, de encarnação em encarnação, elas se depuram, regeneram e voltam dignas da glória que lhes fora destinada.”

Em ambas as elucidações, vê-se que o livre-arbítrio é um dom de que o Espírito pode abusar, mas terá sempre de enfrentar as conseqüências desse abuso, sofrendo encarnações destinadas a purificá-lo, transformá-lo, regenerá-lo, o que não deixa de ser pena de efeito verdadeiramente misericordioso.

Os itens 16 e 17 desse capítulo de “O Evangelho segundo o Espiritismo” são constituídos de uma mensagem de Santo Agostinho, que deve ser lida atenciosamente pelo espírita estudioso. Pois a questão livre-arbítrio confunde bastante aqueles que a conhecem apenas superficialmente, literariamente, sem analisar-lhe a profundidade científico-filosófica.

Há, ainda, aqueles que confundem livre-arbítrio com direito, quando são duas coisas diferentes. No livre-arbítrio temos uma ação voluntariosa de escolha entre alternativas diferentes em que o ator é responsável pelas conseqüências do seu ato. Na ciência do direito a responsabilidade do ato praticado decorre da lei humana.

A Doutrina Espírita exerce, portanto, considerável papel em sua função de Consolador prometido pelo Cristo de Deus: o de alertar as almas que atingiram determinado degrau da escala evolutiva, em que a alegação de ignorância já não atenua determinados erros cometidos em função do livre-arbítrio. No que diz respeito aos habitantes de um mundo em vias de mudança para estágio de regeneração, vale acentuar ainda, conforme vimos acima, a função da consciência como faculdade de alertamento no processo optativo das alternativas para a ação.

A Doutrina está no mundo para todos. Ela não pertence aos espiritistas. Enviou-a Jesus à Humanidade. Os espiritistas somos apenas seus instrumentos de exemplificação e divulgação sem qualquer outro “privilégio” além da consciência do livre-arbítrio.


Inaldo Lacerda Lima
Fonte: Reformador nº1984 – Julho/1994

8 de junho de 2010

O DÓLMEN DE KARDEC


Na primeira reunião da Sociedade Espírita de Paris, após as exéquias de Allan Kardec, os membros presentes emitiram a idéia de se levantar um monumento que fosse testemunha da simpatia e do reconhecimento dos espíritas em geral à memória do inolvidável mestre. Essa aspiração, humana mas sincera, ganhou vulto e em pouco tempo a ela aderiu grande número de correligionários da França e de outros países europeus.

Ficou estabelecido, de comum acordo com Madame Allan Kardec, que a maneira mais racional de simbolizar o homem que foi a simplicidade encarnada, seria levantar-lhe um monumento por excelência simples, e que lhe recordasse também o pseudônimo gaulês – Allan Kardec. Foram então buscar no passado, entre os monumentos sepulcrais célticos ou druídicos, simples como os povos primitivos que os elevaram aos seus mortos, a representação ideal do túmulo de Kardec.

Tais construções funerárias cobrem, até hoje, o solo da antiga Bretanha e se acham espalhadas em toda a Europa Ocidental, no norte da Europa, na bacia do Mediterrâneo, no Irã, na Líbia, na Índia, no Extremo Oriente (especialmente o Japão), na Ásia, etc., permitindo crer que o uso desses monumentos megalíticos era quase universal. E como, de todas as crenças mais remotas, é o druidismo, praticado pelos antigos iniciados gauleses, uma das que mais se identificam com alguns princípios fundamentais da filosofia espirítica, especialmente a reencarnação, muito felizes foram, pois, os discípulos do eminente fundador do Espiritismo na escolha do monumento druídico para perpetuar-lhe, na pedra, o nome e a obra.

Projetada a construção de um dólmen, que figurava, no fundo, simplicidade, universalidade e eternidade, confiaram esse trabalho ao talentoso escultor francês Charles Romain Capellaro, bastante conhecido no mundo das artes, expositor premiado nos Salões de Paris, desde 1860, e que aceitava os princípios fundamentais do Espiritismo.

Adquiriu-se no Cemitério do Père-Lachaise (administrativamente conhecido por Cemitério do Leste) um terreno situado na confluência de duas aléias (44ª divisão) e a uma altitude de onde se domina todo o campo de repouso, e logo se pôs mãos à obra.

Já quase terminados os trabalhos, procedeu-se à exumação dos despojos mortais de Allan Kardec e sua transferência para a nova morada.

No dia 31 de março de 1870, pelas duas horas da tarde, os espíritas inauguravam o monumento dolmênico levantado em memória de Allan Kardec. De imponente simplicidade, aquele túmulo “fala aos olhos e à alma a linguagem dos séculos desaparecidos, evocando a lembrança das antigas gerações que consagraram por seu culto e por suas sepulturas as crenças reencontradas pelo Espiritismo moderno”.

Na inauguração fizeram uso da palavra, em eloqüentes expressões de reconhecimento e gratidão, as respeitáveis figuras do Espiritismo na França: Levent, Desliens, Leymarie e Guilbert.

O dólmen de Kardec, simples e severo em suas linhas, é constituído de três pedras de granito bruto em posição vertical (esteios), sobre as quais repousa uma quarta pedra tabular (mesa ou chapéu) em suave declive para trás, de modo a delimitarem, todas elas, um espaço (câmara), de cujo centro se eleva um pedestal quadrangular, igualmente de granito, no topo do qual está colocada a herma, em bronze, de Allan Kardec, executada por Capellaro.

Na face dianteira do referido pedestal lêem-se as seguintes inscrições:

Fondateur de la Philosophie Spirite. – Tout effet a une cause. Tout effet intelligent a une cause intelligente. La puissance de la cause est em raison de la grandeur de l’effet. – 3 Octobre 1804 – 31 Mars 1869.

No bordo frontal da pedra que, pesando seis toneladas, serve de teto, achasse gravado o apotegma que resume a doutrina kardequiana, de justiça e progresso:

Naître, mourir, renaître encore et progresser sans cesse telle est la loi.

Tendo sido sepultada nesse mesmo dólmen, em 1883, a veneranda companheira de trabalho do Codificador, gravou-se, na face esquerda do pedestal que suporta o busto de Kardec, o nome da viúva: Amélie-Gabrielle Boudet, seguido das respectivas datas de nascimento e morte.

Uma corrente de grossos elos, a simbolizar a união em torno de Kardec, liga as pilastras de sustentação da chamada “mesa”.

O Cemitério do Père-Lachaise, o mais importante de Paris, “verdadeiro museu” segundo a expressão de certo escritor, encerra maravilhosas sepulturas que ilustres artistas ergueram em homenagem a celebridades da música, das ciências, do teatro, da pintura, da literatura, da política, da filosofia, da guerra, etc.

Sendo uma das necrópoles mais visitadas em todo o mundo, e isto desde a sua inauguração, em 1804, ainda hoje atrai a admiração dos turistas que vão à Cidade Luz.

Nesses últimos cinqüenta anos, o dólmen de Kardec tornou-se como que o ponto obrigatório dos visitantes do Père-Lachaise, sejam eles espíritas ou não.

A imprensa de várias nações tem salientado essa curiosa preferência, explicando-a quer pela forma original do sepulcro, quer pela divulgação sempre crescente do nome Allan Kardec, quer, ainda, pela profusão de flores depositadas junto ao dólmen, a demonstrar, de conformidade com as palavras de Samuel Smiles, que “os homens verdadeiramente grandes e bons nunca morrem, nem mesmo neste mundo”.

Edmundo Lys, ilustre jornalista e cronista, que por muitos anos abrilhantou as páginas do jornal guanabarino O Globo, disse, certa vez, que o túmulo de Kardec, no Père-Lachaise, bem cuidado e florido, era o único que realmente permanecia vivo no meio de todos aqueles mortos.

Em 1959, a prestigiosa revista norte-americana – Holiday, editada em Filadélfia, publicava em seu número de janeiro o artigo de J. Bryan – “Paris: The Bust end the Chain”, ilustrado com fotografias, e no qual o jornalista vivamente recomendava, aos turistas em Paris, duas atrações inesquecíveis: o pôr-do-sol emoldurado pelo Arco do Triunfo, e o dólmen de Kardec.

Posteriormente, a conhecida revista Horizontes, da capital mexicana, num interessante trabalho intitulado “Difuntos de Paris”, assim assinalava:

“Dos notas curiosas, entre otras, del Père Lachaise: el sauce sobre la tumba de Musset, como el poeta pidió em una de sus poesias, y la tumba del fundador del espiritismo como doctrina, Allan Kardec (Hipólito Rivail), perennemente cubierta de flores por sus adeptos.”

Bem recentemente, os leitores da folha francesa Coopérateur, de 11 de novembro de 1967, puderam fazer uma peregrinação aos principais cemitérios de Paris através de longo artigo do jornalista Clément-Chavardês. Ao percorrer o Père-Lachaise, ele confirmou que “o túmulo mais solicitado é o de Allan Kardec, chefe dos espíritas” (la tombe la plus demandée est celle d’Allan Kardec, chef des spirites), fato que não lhe era desconhecido, consoante suas próprias palavras:

“Eu sabia que Kardec atraía gente de todas as classes sociais, que vinha de longe, até do estrangeiro, para entregar-se a meditações junto ao seu túmulo cercado de rosas e dálias.”

Desde 1870, espiritistas de várias partes do mundo, inclusive do Brasil, têm-se reunido anualmente, no dia 31 de março, diante do dólmen, em homenagem e reconhecimento a Kardec, numa demonstração patente de que os sacrifícios do missionário francês não foram em vão e que ele permanece tão vivo no passado quanto no presente. 

Fonte: Reformador de fevereiro de 1969, p. 32-34.

7 de junho de 2010

COM DEUS ME DEITO COM DEUS ME LEVANTO.

Numa antiga oração popular, ensinada às crianças para que seja orada antes de dormir, encontramos uma expressão muito interessante:

"Com Deus me deito, com Deus me levanto..."

Eis então algumas considerações importantes inspiradas neste costume:

"Com Deus me deito..."

Que importante anelo para alguém que se prepara para o sono!

Tendo em vista que ao dormir, ao se penetrar o universo do sono e dos sonhos, ninguém pode garantir a qualidade deste transe, a harmonização com Deus faz-se fundamental.

Cada pessoa que se desprende do corpo físico, passa a travar contato com os variados tipos espirituais.

Amigos uns, inimigos outros, comparsas do pretérito reencarnatório, incontáveis.

Por causa disso, torna-se primordial criar-se o hábito benfazejo de orar, antes de dormir, entregando a mente, os raciocínios e os sentimentos às mãos do Criador.

Quando alguém mergulha nesse rio do sono, não tem idéia de com quem deparará.

É o que nos ajuda a entender os sonhos suaves, cheios de estesias, repletos de alegrias, que levam muita gente a dizer que chega a ter vontade de não despertar.

Há, por outro lado, os conhecidos pesadelos, que não são, senão, o resultado do contato angustiante e perturbador com adversários ou inimigos, cobradores, em vários níveis, das condutas daquele que dorme.

Deitar-se com Deus, então, transforma-se em providência muito feliz, com o fito de libertar-se de qualquer perseguição sombria.

"Com Deus me levanto..."

Em realidade, a referência é ao ato de despertar do sono.

É fundamental alguém aprender a levantar-se com Deus, num mundo em que, de costume, muitos indivíduos anseiam por levantar-se admitindo a não necessidade de cogitar Deus.

Quantos indivíduos, caídos na rua da amargura, rogam a ajuda divina para erguer-se da dificuldade em que se acham?

Mãos anônimas, mãos amigas, benfeitores humanos, socorristas encarnados, atendentes sociais, todo este plantel de almas do bem representa a presença de Deus junto aos irmãos que sofrem.

Tanto caminho, tanta ajuda, tanto apoio impulsionarão o sofredor para que ele se levante, e se levante com Deus.

Quantos experimentam dramas econômico-financeiros, fazendo-se endividados, inadimplentes, desgastados sociais, desacreditados, muito embora a sua honestidade, a sua consciência dos próprios deveres?

Esses companheiros anseiam pelo socorro de amigos e de instituições bancárias que lhes retirem do pescoço o nó, que lhes ofertem algum oxigênio.

Assim livrando-os da sufocação em que se acham, para que se levantem, e se levantem com Deus.

Qualquer que seja a queda humana, material ou moral, a possibilidade de levantar-se com Deus, com o apoio do Mundo Superior, será sempre a melhor maneira de se levantar no Planeta.

* * *

A oração é uma das melhores maneiras de nos colocarmos em sintonia com os amigos espirituais.

Eis um hábito muito salutar: travar conversas constantes, onde quer que estejamos, com nosso Espírito Protetor, e com os Espíritos afins que nos acompanham diariamente.

Mantendo-nos em sintonia com os bons Espíritos, através de pensamentos elevados, de alegria, gratidão e amor, conseguiremos ouvir suas inspirações, e delas nos utilizarmos para nosso bem.

Contemos mais com este recurso fabuloso que temos: a prece, e nos surpreendamos com os bons resultados obtidos.



Texto da Redação do Momento Espírita com base no cap. "Levanta-te com Deus", do livro Em nome de Deus, do Espírito José Lopes Neto, psicografado por Raul Teixeira, ed. Fráter.

6 de junho de 2010

A VIDA MORAL

Gravados em si todo ser humano traz os rudimentos da lei moral. É neste mundo mesmo que ela recebe um começo de sanção. Qualquer ato bom acarreta para o seu autor uma satisfação íntima, uma espécie de ampliação da alma; as más ações, pelo contrário, trazem, muitas vezes, amargores e desgostos em sua passagem. Mas essa sanção, tão variável segundo os indivíduos, é muito vaga, muito Insuficiente do ponto de vista da justiça absoluta. Eis por que as religiões transferiram para a vida futura, para as penas e recompensas que ela nos reserva, a sanção capital de nossos atos. Ora, tais dados, carecendo de base positiva, foram postos em dúvida pela maioria das massas, pois, embora tivessem eles exercido uma séria Influência sobre as sociedades da Idade Média, já agora não bastam para desviar o homem dos caminhos da sensualidade.

Antes do drama do Gólgota, Jesus havia anunciado aos homens um outro consolador, o Espírito de Verdade, que devia restabelecer e completar o seu ensino. Esse Espírito de Verdade veio e falou à Terra; por toda parte fez ouvir a sua voz.

Dezoito séculos depois da morte do Cristo, havendo-se derramado pelo mundo a liberdade de palavra e de pensamento, tendo a Ciência sondado os céus, desenvolvendo-se a inteligência humana, a hora foi julgada favorável.

Legiões de Espíritos vieram ensinar a seus irmãos da Terra a lei do progresso infinito e realizar a promessa de Jesus, restaurando a sua doutrina, comentando as suas parábolas.

O Espiritismo dá-nos a chave do Evangelho e explica seu sentido obscuro ou oculto. Mais ainda: traz-nos a moral superior, a moral definitiva, cuja grandeza e beleza revelam sua origem sobre-humana.

Para que a verdade se espalhe simultaneamente por todos os povos, para que ninguém a possa desnaturar, destruir, não é mais um homem, não é mais um grupo de apóstolos que se encarrega de fazê-la conhecida da Humanidade.

As vozes dos Espíritos proclamam-na sobre todos os pontos do mundo civilizado e, graças a esse caráter universal, permanente, essa revelação desafia todas as hostilidades, todas as inquisições. Pode-se destruir o ensino de um homem, falsificar, aniquilar suas obras, mas quem poderá atingir e repelir os habitantes do espaço? Estes aplanarão todas as dificuldades e levarão a preciosa semente até às mais escuras regiões. Dai a potência, a rapidez de expansão do Espiritismo, sua superioridade sobre todas as doutrinas que o precederam e que lhe prepararam a vinda.

Assim, pois, a moral espírita edifica-se sobre os testemunhos de milhões de almas que, em todos os lugares, vêm, pela interferência dos médiuns, revelar a vida de além-túmulo, descrever suas próprias sensações, suas alegrias, suas dores.

A moral independente, essa que os materialistas tentaram edificar, vacila, ao sabor dos ventos, por falta de base. A moral das religiões, como incentivo, adstringe-Se sobretudo ao terror, ao receio dos castigos infernais: sentimento falso, que só pode rebaixar e deprimir. A filosofia dos Espíritos vem oferecer à Humanidade uma sanção moral consideravelmente elevada, um ideal eminente, nobre e generoso. Não há mais suplícios eternos; a consequência dos atos recai sobre o próprio ser que os pratica.

O Espírito encontra-se em todos os lugares tal como ele mesmo se fez. Se violenta a lei moral, obscurece sua consciência e suas faculdades, materializa-Se, agrilhoa-se com suas próprias mãos. Mas, atendendo à lei do bem, dominando as paixões brutais, fica aliviado e vai-se aproximando dos mundos felizes.

Sob tais aspectos, a lei moral impõe-se como obrigação a todos os que não descuram dos seus próprios destinos. Daí a necessidade de uma higiene d’alma que se aplique a todos os nossos atos e conserve nossas forças espirituais em estado de equilíbrio e harmonia. Convém-se submetermos o corpo, este invólucro mortal, este instrumento perecível, às prescrições da lei física que o mantêm em função, urge desde já vigiarmos o estado dessa alma que somos nós, como eu indestrutível e de cuja condição depende a nossa sorte futura. O Espiritismo fornece-nos os elementos para essa higiene da alma.

O conhecimento do por que da existência é de consequências incalculáveis para o melhoramento e a elevação do homem. Quem sabe onde vai pisa firme e imprime a seus atos um impulso vigoroso.

As doutrinas negativistas obscurecem a vida e conduzem, logicamente, ao sensualismo e à desordem. As religiões, fazendo da existência uma obra de salvação pessoal, muito problemática, consideram-na de um ponto de vista egoísta e acanhado.

Com a filosofia dos Espíritos, modifica-se, alarga-se a perspectiva. O que nos cumpre procurar já não é a felicidade terrestre, pois neste mundo a felicidade não passa de uma quimera, mas, sim, a melhoria contínua. O meio de a realizarmos é a observação da lei moral em todas as suas formas.

Com esse ideal, a sociedade é indestrutível: desafia todas as vicissitudes, todos os acontecimentos. Avigora-se nos infortúnios e encontra sempre meios para, no seio da adversidade, superar-se a si mesma. Privada de ideal, acalentada pelos sofismas dos sensualistas, a sociedade só poderá esperar o enfraquecimento; sua fé no progresso e na justiça extingue-se com sua noção de virilidade; muito em breve, será um corpo sem alma e, fatalmente, tornar-se á vítima dos seus inimigos.

Ditoso quem, nesta vida cheia de trevas e embustes, caminha corajosamente para o fim almejado, para o ideal que descortina, que conhece e do qual está certo. Ditoso quem, inspirado em boas obras, se sente impelido por um sopro do Altíssimo. Os prazeres são-lhe indiferentes; as tentações da carne, as miragens enganosas da fortuna não mais dispõem de ascendência sobre ele. Viajor em marcha, só aspira ao seu alvo, e para ele se lança!

Léon Denis
Depois da Morte

3 de junho de 2010

SOBRE O SENTIDO OCULTO DOS EVANGELHOS.

Muitos dentre os padres da Igreja afirmam que os Evangelhos encerram um sentido oculto.

Orígenes diz:

"As Escrituras são de pouca utilidade para os que as tomem como foram escritas. A origem de muitos desacertos reside no fato de se apegarem à sua parte carnal e exterior."

"Procuremos, pois, o espírito e os frutos substanciais da Palavra que são ocultos e misteriosos."

0 mesmo diz ainda:

"Há coisas que são referidas como histórias, que nunca se passaram e que eram impossíveis como fatos materiais, e outras que eram possíveis, mas que não se passaram."

Tertuliano e Denis, o Areopagita, falam também de um esoterismo cristão.

Santo Hilário declara repetidas vezes que é necessário, para inteligência dos Evangelhos, supor-lhes um sentido oculto, uma interpretação espiritual (146).

No mesmo sentido se externa Santo Agostinho:

"Nas obras e nos milagres de Nosso Salvador há ocultado mistérios que se não podem levianamente, e segundo a letra, interpretar sem cair em erro e incorrer em graves faltas."

São Jerônimo, em sua Epístola a Paulino, declara com insistência:

"Toma cuidado, meu irmão, no rumo que seguires na Escritura Santa. Tudo o que lemos na Palavra santa é luminoso e por isso irradia exteriormente, mas a parte interior ainda é mais doce. Aquele que deseja comer o miolo deve quebrar a casca."

Sobre esse mesmo assunto, animada controvérsia teológica se travou entre Bossuet e Fenelon. Afirmava este haver um sentido secreto das Escrituras, transmitido unicamente a iniciados, uma gnose católica vedada às pessoas vulgares(147).

De todas essas ocultas significações a primitiva Igreja possuía o sentido, mas dissimulava-o cuidadosamente; pouco a pouco veio ele a se perder.

Léon Denis
Espiritismo e Cristianismo
 
146 - Ver a esse respeito o prefácio dos Beneditinos ao comentário do Evangelho segundo S. Mateus. "Obras de S. Hilário", cols. 599-600.
147 - Ver Júlio Blois, "O mundo invisível", pág. 62.

2 de junho de 2010

A MISÉRIA E A OPULÊNCIA

As desigualdades sociais nas civilizações, através da História, significam, para muitos, uma injustiça de Deus, que pretensamente estabelece privilégios para alguns, em detrimento dos aparentes méritos de outros. Ninguém é trazido às lides reencarnatórias na Terra para gozar dos prazeres ilícitos oferecidos pela vida material. Nosso planeta é uma escola e ao mesmo tempo um cadinho de purificação, onde Espíritos em experiências sucessivas buscam o próprio aperfeiçoamento através dos entrechoques na vida comunitária, com vistas à conquista das condições que lhes assegurem a felicidade, o poder e a liberdade na vida eterna, que é a vida espiritual.

A riqueza material é uma das mais difíceis provas por que poderão passar os Espíritos encarnados na Terra e da qual poucos saem vitoriosos; isto porque a tendência natural dos homens é usá-la a serviço de suas paixões, criando confortos sofisticados e amealhando haveres cada vez em maior quantidade, que longe de lhe propiciarem a felicidade desejada, tornam-se motivo de preocupações e aflições pela fictícia necessidade de preservá-los, constituindo-se em pesado fardo que, ao final da existência, inexoravelmente ficará aquém-túmulo, já que não pertencem à vida espiritual.

Falindo pelo egoísmo, vaidade e orgulho em que se deixam mergulhar, os homens não aplicam de maneira fraterna e caridosa aqueles valores conquistados e, assim, comprometem-se com a lei do progresso, retardando sobremaneira a felicidade perene e verdadeira, objetivo real a ser alcançado.

A grande lei, a lei de causa e efeito, preside à vida até nos mais insignificantes aspectos e detalhes; fomos, somos e seremos regidos pela profunda lógica que ela encerra e faz com que seja a nossa vida, por toda a eternidade, uma consequência de nós mesmos, pelo que pensamos, dizemos e fazemos. Será interessante observarmos que uma das mais importantes características dessa lei é o automatismo de sua ação! Uma vez deflagrada a causa, o efeito correspondente estará determinado e eclodirá no momento oportuno, quando as condições eletivas se reunirem para otimizar a ação útil no caminho evolutivo da criatura.

O determinismo divino é o bem!

Fomos criados pela infinita bondade de Deus para o bem! O amor, que é a sua mais generalizada expressão, é a única força edificadora da ventura em todos os seus múltiplos aspectos. Quando, em decorrência das imperfeições que nos caracterizam, violamos o determinismo divino, criamos automaticamente o determinismo humano, ou seja, a necessidade de reparação e resgate com que restabeleceremos o equilíbrio interrompido. Este objetivo será alcançado mediante as reencarnações sucessivas, em cujo programa preestabelecido inserem-se as necessidades retificadoras.

As considerações aqui estabelecidas nos auxiliam a compreender as situações de penúria em que encarnam alguns irmãos, representados pelos párias, mendigos, famintos, ou por aqueles aos quais faltem quaisquer recursos que lhes permitam ganhar o próprio sustento com o trabalho honesto e bem remunerado.

Jesus, em seu Evangelho, oferece aos homens a maneira exata como devem conduzir-se na vida de relação com os semelhantes, toda vez que nossa ação envolver os direitos e as necessidades daqueles que nos cercam: Nunca façamos a ninguém o que não quisermos para nós mesmos.

MAURO PAIVA FONSECA
Reformador Ago/09

1 de junho de 2010

COMO ADORAR A DEUS?


Em todas as épocas, todos os povos praticaram, a seu modo, atos de adoração a um Ente Supremo, o que demonstra ser a idéia de Deus inata e universal.

Com efeito, jamais houve quem não reconhecesse intimamente sua fraqueza, e a conseqüente necessidade de recorrer a Alguém, todo poderoso, buscando-Lhe o arrimo, o conforto e a proteção, nos transes mais difíceis desta tão atribulada existência terrena.

Tempos houve em que cada família, cada tribo, cada cidade e cada raça tinha os seus deuses particulares, em cujo louvor o fogo divino ardia constantemente na lareira ou nos altares dos templos que lhes eram dedicados.

Retribuindo essas homenagens (assim se acreditava), os deuses tudo faziam pelos seus adoradores, chegando até a se postar à frente dos exércitos das comunas ou das nações a que pertenciam, ajudando-as em guerras defensivas ou de conquista.

Em sua imensa ignorância, os homens sempre imaginaram que, tal qual os chefes tribais ou os reis e imperadores que os dominavam aqui na Terra, também os deuses fossem sensíveis às manifestações do culto exterior, e daí a pomposidade das cerimônias e dos ritos com que os sagravam.

Imaginavam-nos, por outro lado, ciosos de sua autenticidade ou de sua hegemonia e, vez por outra, adeptos de uma divindade entravam em conflito com os de outra, submetendo-a a provas, sendo então considerado vencedora aquela que conseguisse operar feito mais surpreendente.

Sirva-nos de exemplo o episódio constante do III Livro dos Reis, cap. 18, v. 22 a 40. Ali se descreve o desafio proposto por Elias aos adoradores de Baal, para saber-se qual o deus verdadeiro. Colocadas as carnes de um boi sobre o altar dos holocaustos, disse Elias a seus antagonistas: "Invocai, vós, primeiro, os nomes dos vossos deuses, e eu invocarei, depois, o nome do meu Senhor; e o deus que ouvir, mandando fogo, esse seja o Deus."

Diz o relato bíblico que por mais que baalitas invocassem o seu Deus, em altos brados e retalhando-se com canivetes e lancetas, segundo o seu costume, nada conseguiram.

Chegada à vez do deus de Israel, este fez cair do céu um fogo terrível, que devorou não apenas a vítima e a lenha, mas até as próprias pedras do altar.

Diante disso, auxiliado pelo povo, Elias agarrou os seguidores de Baal e, arrastando-os para beira de um rio, ali os decapitou.

O monoteísmo, depois de muito tempo, impôs-se, afinal, ao politeísmo, e seria de crer-se que, como esse progresso, compreendendo que o Deus adorado por todas as religiões é um só, os homens passassem, pelo menos, a respeitar-se mutuamente, visto as diferenças, agora, serem apenas quanto à forma de cultuar esse mesmo Deus.

Não foi tal, porém, o que sucedeu. E os próprios "cristãos", séculos, contrastando frontalmente com os piedosos ensinamentos do Cristo, empolgados pelo fanatismo da pior espécie, não hesitaram em trucidar, a ferro e fogo, milhares de "hereges" e "infiéis", para maior honra e glória de Deus!" – como se Aquele que é o Senhor da Vida pudesse sentir-se honrado e glorificado com tão nefandos assassínios...

Atualmente, bastante enfraquecido, o sectarismo religioso começa a derruir, o que constitui prenúncio seguro de melhores dias, daqui, daqui para o futuro.

Acreditamos, mesmo, que, graças à rápida aceitação que a Doutrina Espírita vem alcançando por toda parte, muito breve haveremos de compreender que todos, sem exceção, somos de origem divina e integrantes de uma só e grande família. E posto que Deus é Amor, não há como adorá-Lo senão "amando-nos uns aos outros", pois, como sabidamente nos ensina João, o apóstolo ( I ep., 4:20), "se o homem não ama a seu irmão, que lhe está próximo, como pode amar a Deus, a quem não vê?"

Rodolfo Calligaris
De “As Leis Morais, segundo a filosofia espírita”