8 de junho de 2010

O DÓLMEN DE KARDEC


Na primeira reunião da Sociedade Espírita de Paris, após as exéquias de Allan Kardec, os membros presentes emitiram a idéia de se levantar um monumento que fosse testemunha da simpatia e do reconhecimento dos espíritas em geral à memória do inolvidável mestre. Essa aspiração, humana mas sincera, ganhou vulto e em pouco tempo a ela aderiu grande número de correligionários da França e de outros países europeus.

Ficou estabelecido, de comum acordo com Madame Allan Kardec, que a maneira mais racional de simbolizar o homem que foi a simplicidade encarnada, seria levantar-lhe um monumento por excelência simples, e que lhe recordasse também o pseudônimo gaulês – Allan Kardec. Foram então buscar no passado, entre os monumentos sepulcrais célticos ou druídicos, simples como os povos primitivos que os elevaram aos seus mortos, a representação ideal do túmulo de Kardec.

Tais construções funerárias cobrem, até hoje, o solo da antiga Bretanha e se acham espalhadas em toda a Europa Ocidental, no norte da Europa, na bacia do Mediterrâneo, no Irã, na Líbia, na Índia, no Extremo Oriente (especialmente o Japão), na Ásia, etc., permitindo crer que o uso desses monumentos megalíticos era quase universal. E como, de todas as crenças mais remotas, é o druidismo, praticado pelos antigos iniciados gauleses, uma das que mais se identificam com alguns princípios fundamentais da filosofia espirítica, especialmente a reencarnação, muito felizes foram, pois, os discípulos do eminente fundador do Espiritismo na escolha do monumento druídico para perpetuar-lhe, na pedra, o nome e a obra.

Projetada a construção de um dólmen, que figurava, no fundo, simplicidade, universalidade e eternidade, confiaram esse trabalho ao talentoso escultor francês Charles Romain Capellaro, bastante conhecido no mundo das artes, expositor premiado nos Salões de Paris, desde 1860, e que aceitava os princípios fundamentais do Espiritismo.

Adquiriu-se no Cemitério do Père-Lachaise (administrativamente conhecido por Cemitério do Leste) um terreno situado na confluência de duas aléias (44ª divisão) e a uma altitude de onde se domina todo o campo de repouso, e logo se pôs mãos à obra.

Já quase terminados os trabalhos, procedeu-se à exumação dos despojos mortais de Allan Kardec e sua transferência para a nova morada.

No dia 31 de março de 1870, pelas duas horas da tarde, os espíritas inauguravam o monumento dolmênico levantado em memória de Allan Kardec. De imponente simplicidade, aquele túmulo “fala aos olhos e à alma a linguagem dos séculos desaparecidos, evocando a lembrança das antigas gerações que consagraram por seu culto e por suas sepulturas as crenças reencontradas pelo Espiritismo moderno”.

Na inauguração fizeram uso da palavra, em eloqüentes expressões de reconhecimento e gratidão, as respeitáveis figuras do Espiritismo na França: Levent, Desliens, Leymarie e Guilbert.

O dólmen de Kardec, simples e severo em suas linhas, é constituído de três pedras de granito bruto em posição vertical (esteios), sobre as quais repousa uma quarta pedra tabular (mesa ou chapéu) em suave declive para trás, de modo a delimitarem, todas elas, um espaço (câmara), de cujo centro se eleva um pedestal quadrangular, igualmente de granito, no topo do qual está colocada a herma, em bronze, de Allan Kardec, executada por Capellaro.

Na face dianteira do referido pedestal lêem-se as seguintes inscrições:

Fondateur de la Philosophie Spirite. – Tout effet a une cause. Tout effet intelligent a une cause intelligente. La puissance de la cause est em raison de la grandeur de l’effet. – 3 Octobre 1804 – 31 Mars 1869.

No bordo frontal da pedra que, pesando seis toneladas, serve de teto, achasse gravado o apotegma que resume a doutrina kardequiana, de justiça e progresso:

Naître, mourir, renaître encore et progresser sans cesse telle est la loi.

Tendo sido sepultada nesse mesmo dólmen, em 1883, a veneranda companheira de trabalho do Codificador, gravou-se, na face esquerda do pedestal que suporta o busto de Kardec, o nome da viúva: Amélie-Gabrielle Boudet, seguido das respectivas datas de nascimento e morte.

Uma corrente de grossos elos, a simbolizar a união em torno de Kardec, liga as pilastras de sustentação da chamada “mesa”.

O Cemitério do Père-Lachaise, o mais importante de Paris, “verdadeiro museu” segundo a expressão de certo escritor, encerra maravilhosas sepulturas que ilustres artistas ergueram em homenagem a celebridades da música, das ciências, do teatro, da pintura, da literatura, da política, da filosofia, da guerra, etc.

Sendo uma das necrópoles mais visitadas em todo o mundo, e isto desde a sua inauguração, em 1804, ainda hoje atrai a admiração dos turistas que vão à Cidade Luz.

Nesses últimos cinqüenta anos, o dólmen de Kardec tornou-se como que o ponto obrigatório dos visitantes do Père-Lachaise, sejam eles espíritas ou não.

A imprensa de várias nações tem salientado essa curiosa preferência, explicando-a quer pela forma original do sepulcro, quer pela divulgação sempre crescente do nome Allan Kardec, quer, ainda, pela profusão de flores depositadas junto ao dólmen, a demonstrar, de conformidade com as palavras de Samuel Smiles, que “os homens verdadeiramente grandes e bons nunca morrem, nem mesmo neste mundo”.

Edmundo Lys, ilustre jornalista e cronista, que por muitos anos abrilhantou as páginas do jornal guanabarino O Globo, disse, certa vez, que o túmulo de Kardec, no Père-Lachaise, bem cuidado e florido, era o único que realmente permanecia vivo no meio de todos aqueles mortos.

Em 1959, a prestigiosa revista norte-americana – Holiday, editada em Filadélfia, publicava em seu número de janeiro o artigo de J. Bryan – “Paris: The Bust end the Chain”, ilustrado com fotografias, e no qual o jornalista vivamente recomendava, aos turistas em Paris, duas atrações inesquecíveis: o pôr-do-sol emoldurado pelo Arco do Triunfo, e o dólmen de Kardec.

Posteriormente, a conhecida revista Horizontes, da capital mexicana, num interessante trabalho intitulado “Difuntos de Paris”, assim assinalava:

“Dos notas curiosas, entre otras, del Père Lachaise: el sauce sobre la tumba de Musset, como el poeta pidió em una de sus poesias, y la tumba del fundador del espiritismo como doctrina, Allan Kardec (Hipólito Rivail), perennemente cubierta de flores por sus adeptos.”

Bem recentemente, os leitores da folha francesa Coopérateur, de 11 de novembro de 1967, puderam fazer uma peregrinação aos principais cemitérios de Paris através de longo artigo do jornalista Clément-Chavardês. Ao percorrer o Père-Lachaise, ele confirmou que “o túmulo mais solicitado é o de Allan Kardec, chefe dos espíritas” (la tombe la plus demandée est celle d’Allan Kardec, chef des spirites), fato que não lhe era desconhecido, consoante suas próprias palavras:

“Eu sabia que Kardec atraía gente de todas as classes sociais, que vinha de longe, até do estrangeiro, para entregar-se a meditações junto ao seu túmulo cercado de rosas e dálias.”

Desde 1870, espiritistas de várias partes do mundo, inclusive do Brasil, têm-se reunido anualmente, no dia 31 de março, diante do dólmen, em homenagem e reconhecimento a Kardec, numa demonstração patente de que os sacrifícios do missionário francês não foram em vão e que ele permanece tão vivo no passado quanto no presente. 

Fonte: Reformador de fevereiro de 1969, p. 32-34.

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