24 de julho de 2010

ELUCIDANDO

Admira-se você de que a Doutrina Espírita recrute, por vezes, criaturas de escassa instrução intelectual, para os seus misteres, e acentua quase sarcástico: -“Porque não aconselham vocês, os desencarnados, mais ampla cultura aos que se proponham ministrar os talentos espíritas? É estranho possa qualquer um ainda mesmo os que até ontem hajam manchado a própria vida com faltas confessas, penetrar-lhe as fileiras é atender-lhe as atividades!...”

E, no mesmo tom, misturando ironia e veemência, você suspira por uma organização primorosamente talhada, em que doutrinadores e médiuns se obriguem a exibir diplomas de especialização acadêmica, a fim de se consagrarem ao socorro dos semelhantes.

Creia que em nossa resposta não vai a mínima dose de menosprezo ao doutorado terrestre, nem julgue desconheçamos o valor de companheiros ilustres que militam no campo do Espiritismo.

São eles professores distintos, médicos respeitáveis, advogados e engenheiros, administradores e industriais. Surgem, prestimosos e dignos dos mais altos ministérios da vida pública, dos santuários da educação, dos quartéis da ordem, dos caminhos da arte e dos círculos da finança...

Entretanto, porque isso aconteça, não podemos esquecer que a Doutrina Espírita, revivendo o Evangelho, é o Cristianismo em ação por instituto de todos.

E o Cristianismo, exaltando embora a grandeza do cérebro, fala primeiramente às forças do coração.

Nesse sentido, recorde você, versado qual se mostra em letras sagradas, a atitude do Cristo nos alicerces da Boa Nova.

Lembrar-se-á, facilmente, de que o Senhor procurou, no início do apostolado, os doutores do Templo para entregar-lhes à ideação fulgurante aos tesouros do amor de que se fazia intérprete.

Decerto que os preclaros rabinos entraram em longas cogitações, acerca da verdade que lhes ouviam da boca, e tudo indica que o mestre esperou quase vinte anos pelos maiorais de Israel, todos eles chumbados ao vale da indecisão.

Entretanto, porque o demorado concurso não viesse da inteligência aperfeiçoada, procurou demandar o coração generoso. E vêmo-lo desistir da aristocrática hierosolimita para buscar a humildade dos Galileus.

Entende-se, então, com os espíritos simples, totalmente arredados da casuística, indenes de preconceitos sociais e dúvidas filosóficas.

Pretendia a libertação do povo cativo às trevas do mal e, por isso, importava, antes de tudo, o bem puro a fazer.

É assim que ergue da ignorância e do anonimato o rude agente de impostos que seria mais tarde o evangelista Mateus; o temperamento agressivo de Simão Pedro, que se transforma em timoneiro da fé; o bisonhice de Tiago, filho de Zebedeu, que se converteu em heroísmo na resistência moral, e a juventude ingênua de João, que se faz patrimônio de luz para a Humanidade.

Ele, que honorificou a mulher, integrando-a no respeito devido, não tem o beneplácito das herdeiras de Ester, a sobrinha de Mardoqueu que obteve perdão de Assuero para os judeus perseguidos, ou o destemor das sucessoras de Judite, a viúva famosa, que defendeu a raça hebréia, na luta contra os generais de Nabucodonosor, todas elas irrepreensíveis e imaculadas no fausto de vivendas floridas e suntuosas; mas encontra na pobre filha de Magdala, obsediada de sete gênios infernais, a mensageira da ressurreição, e nas mulheres sem nome, de Jerusalém, as companheiras fiéis de sua dor sob a cruz da morte, endereçando à posteridade Cristã o testemunho da compaixão feminina.

No quadro de Jesus, meu amigo, não falta nem mesmo Judas, o negociante que aspirava a ser bom, recebido por Ele com extremado carinho, mas que subitamente se vê sem forças para segui-lo, com a pureza de amor da primeira hora.

Como vê, a cooperação popular nas obras do Espiritismo não é assunto novo para quem se dedique ao exame do Testamento Divino.

Em problemas de espírito, nem sempre avançam na dianteira os que se vinculam à eminência no mundo.

E esteja convicto de que, se ao nosso lado respiram muitas almas, inclusive o pobre escriba desencarnado que lhe escreve esta carta, que até ontem mancharam a própria vida com faltas confessas, segundo a sua expressão feliz, é porque os chamados puros da Terra, quase sempre, no estojo tranquilo da suposta virtude, se recebem o apelo ao suor e à aflição, em serviço dos outros, raramente se animam a responder.

Livro Relatos da Vida - Psicografia Francisco C. Xavier - Espírito Irmão X

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