29 de agosto de 2010

DIVISIONISMO E ESPIRITISMO

É comum encontrarmos pessoas bem dotadas de inteligência e espírito inquisitivo que experimentam dificuldade em aceitar fatos convincentes e comprovados. Ainda há pouco estive lendo um livro escrito por um desses homens inteligentes e de grande cultura humanística. Ele procurava demonstrar, a certa altura, que não existem raças inferiores e, por conseguinte, o mito da superioridade racial é outra tolice. Sua argumentação se desenvolve por páginas e mais páginas, citando, entre outros, o caso do grande negro americano George Washington Carver, que dedicou sua vida e sua inteligência a serviço da Humanidade, descobrindo, além de outras coisas, cerca de 300 aplicações diferentes para um simples produto da terra, o amendoim. Milhares de exemplos semelhantes poderiam ser citados pois a história está cheia deles. Em nosso próprio país, encontraremos figuras como a de Machado de Assis, de origem humílima, doentio, mas iluminado pela fulguração do gênio. Encontraremos José do Patrocínio, dono daquela inteligência magnífica, que tanto fez pelos homens de sua raça. E quantos outros? Nem todos usam seus talentos na direção inequívoca do bem, mas a grande maioria realiza, de um modo ou de outro, as coisas que estavam em seu poder e em sua compreensão realizar. Muitos argumentos poderão ser alinhados contra a teoria absurda e desumana da desigualdade racial.
O argumento máximo porém, e irrespondível, é fornecido pela Doutrina Espírita. O corpo - branco, negro ou amarelo - é mera vestimenta designada por Deus. Os Espíritos não têm cor, nem nacionalidade, nem raça, nem mesmo religião, tomada no estreito sentido com que nos acostumamos a equacionar esse problema. Sua nacionalidade é universal, sua raça emana de tronco único, da única fonte criadora que é Deus. Sua religião, antes de ser católica, protestante, judaica ou budista, o culto supremo de Deus, a prática permanente da caridade, o exercício constante do amor ao próximo.
*
Muitas vezes temos ouvido que todas as religiões são boas e todos os caminhos levam a Deus.
Há mais verdade nisto do que se pensa. Mas há também alguma incompreensão. Todos os caminhos, de fato, levam a Deus, porque Ele está sempre no horizonte, no ponto de convergência de nossas vidas. Para Ele caminhamos todos. Só que uns levam mais tempo que outros. Uns conseguem “enxergar” mais claro as veredas e atravessam logo o espaço que os separa de Deus. Outros se perdem na noite do pecado e do crime e vagueiam desorientados pelos atalhos. Levam muito mais tempo, mas, afinal de contas, que é a fração de tempo de nossas existências terrenas, comparada com o maravilhoso desdobramento da eternidade?
Todos esses caminhos estão abertos à nossa frente. Nenhuma religião pode arvorar-se em proprietária absoluta da verdade. O proprietário da verdade é Deus e Ele jamais cuidou de fundar religiões. Nem mesmo Jesus-Cristo, seu enviado especial à Terra, preocupou-se em fundar mais uma religião. Basta ler com atenção seus ensinamentos.
Que dizia ele?
Que não vinha destruir ou reformar a lei antiga. Vinha reforçá-la, vinha abrir os olhos dos povos, vinha reavivar nos corações embotados o senso da verdadeira religiosidade.
No fundo de seu ser, o homem anseia por Deus, como a mais forte de suas necessidades espirituais. Não é o homem que bate no peito e diz Senhor, Senhor, que irá para a glória, dizia o Cristo, mas todo aquele que ouve a palavra de Deus. Quanto aos ritos e fórmulas cabalísticas, não lhos interessavam, porque Ele sabia, na luminosidade de Seu espírito, que os homens estavam dando mais importância às fórmulas que ao conteúdo de sua religiosidade.
Curar no sábado? Pecado, diziam os ortodoxos... Colher trigo no sábado? Sacrilégio, resmungavam os hipócritas. Mas a palavra de Jesus foi clara e continua clara, dois mil anos depois: o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado.
Essa frase ainda possui o mesmo significado hoje. As fórmulas não importam, o que importa é a legitimidade do sentimento cristão. Então, deixa-se morrer a criatura humana porque é pecado curar no sábado?
Ninguém vai para o céu ou para o inferno pelo simples fato de ter praticado esta religião em lugar daquela outra. Na verdade, as grandes religiões do mundo fundamentam-se em princípios gerais, como a prática do bem, a existência de um ente supremo, o aperfeiçoamento moral e espiritual. Se despojarmos as grandes religiões de suas fórmulas e de seu processamento exterior, veremos que, fundamentalmente, elas têm surpreendentes semelhanças. Um estudo mais profundo talvez revelasse que emanam todas da mesma fonte suprema, embora sob inspiração às vezes diversa.
O certo seria - e lá chegaremos um dia - as religiões vivessem em co-existência harmoniosa, completando-se, trabalhando pelo objetivo comum, que é o aperfeiçoamento do Espírito e sua preparação para novos e mais altos desígnios. Há uma tremenda perda de energia nessas questiúnculas e polêmicas teológicas e filosóficas.
Em vez de se combaterem inutilmente, em pura perda de energia deveriam unir-se contra inimigos comuns a todas as religiões - o crime, o erro, a dissolução social, os transviamentos políticos, a cegueira espiritual, o ateísmo. Esse, sim é o objetivo das religiões autênticas, dignas do legado espiritual que receberam.
A diferença entre elas é mais aparente que real. O que as torna antagônicas, por vezes, não é a força que as inspirou e as estabeleceu no plano da humanidade, mas os homens que vieram depois e as confundiram em interpretações contraditórias da mesma verdade eterna. Quiseram explicar o que já estava explicado. E em explicações de explicações, nos perdemos pelos caminhos.
A verdade absoluta está certamente mais na singeleza poética dos Evangelhos, que nos rótulos eventualmente adotados pelas diversas interpretações que se chamam religiões.
Até lá continuaremos nosso trabalho silencioso, despretensioso, sem a preocupação de sermos os únicos proprietários da verdade, porque, do outro lado da vida, sabemos que vamos encontrar junto ao trono de Deus todos os bons católicos, ou bons judeus, os bons maometanos, os bons protestantes. Lá estarão também os que em sua passagem pela Terra tiveram peles brancas, pretas, amarelas ou mestiças. Todos os bons Espíritos, enfim, purifica¬dos e evoluídos na prática do bem.
A casa do Senhor tem muitas mansões, dizia o Mestre. Haverá, certamente, lugar para todos os que legitimamente aspirarem à glória e trabalharem para obtê-la.

Fonte: Reformador – dezembro, 1956

28 de agosto de 2010

ESPÍRITAS, HONREMOS NOSSA TAREFAS!


Segundo o texto bíblico, João Batista enviou dois emissários a Jesus, indagando se o Nazareno era o Messias Prometido. O Divino Mestre respondeu: “Ide e anunciai a João que os cegos vêem, os paralíticos andam e aos pobres é anunciado o Evangelho.”(Lucas, 7:18-22)

Por outro lado, após o regresso vitorioso de Jesus ao Plano Espiritual, o apóstolo Pedro, certo dia, encontrava-se meditativo e acabrunhado, quando, num lance esplêndido, vê que, ao longo do caminho, Jesus se aproximava. Pedro recobrou as energias, com um júbilo indescritível, pois, certamente, o Mestre vinha ao seu encontro. Ficou expectante. Contudo, o Celeste Amigo, silencioso, demonstrou que não se dirigia a Pedro: ia transitando.

O apóstolo, atônito, exclamou:

“Senhor”. Foi quando Jesus lhe disse: “Pedro, eu vou à Casa do Caminho”. Num átimo, o apóstolo compreendeu: o imperativo da hora era o serviço desinteressado aos semelhantes. Pedro, de imediato, acompanhou o Mestre, compreendendo a grandeza do ensinamento.

Nós, os espíritas, que tivemos a graça de conhecer a Codificação de Allan Kardec – a qual interpreta, em Espírito e Verdade, a Mensagem augusta de Nosso Senhor Jesus cristo –, devemos preocupar-nos, na hora que passa, com as tarefas que nos são próprias e para cujo desempenho temos a confiança dos nossos Mentores espirituais, sem perdermos tempo em discutir ideias divergentes acerca de mensagens mediúnicas ou de livros fantásticos, que falam de outros mundos, ou de cogitar que entidades espirituais elevadíssimas que transitaram pela Terra tenham sido a reencarnação de personagens ancestrais na retrovisão (às vezes obumbrada) dos subsídios que determinados pesquisadores nos ofereceram em suas publicações.

Na Terra, embora a evidência de uma civilização repleta de avanços tecnológicos e indiscutível desenvolvimento científico, a fome dizima milhões de irmãos nossos, que o egoísmo humano sitiou em bolsões de miséria e prostituição, renteando com antros de criminalidade e desespero. Por essa razão, na medida de nossas possibilidades, devemos socorrer os famintos e acender a chama da fé nos corações angustiados, honrando, assim, as luminosas tarefas que nos identificam como servidores de Jesus, registrando em nossos tímpanos espirituais a resposta do Celeste Amigo ao apóstolo: “Pedro, eu vou à Casa do Caminho”.

Sabemos que é necessário pesquisar, indagar, refletir, em síntese, analisar as mensagens e estabelecer, entre nós, a conversa franca sobre nossas dúvidas, identificando os possíveis enganos e omissões em que, por vezes, temos permanecido.

Mas guardemos a certeza de que, ao longo do tempo, ante o sol da verdade, que a evidência dos fatos vai desdobrando, a nossa visão perceberá que a névoa da ignorância se dissolverá ante o fulgor da Luz Divina, à medida que os nossos merecimentos – mesmo conquistados com suor e lágrimas –, se desenvolverem.

Não nos compete emitir julgamentos apressados ou tirar conclusões de fatos ainda inabordáveis à nossa percepção espiritual, uma vez que estamos transitando da sombra para a luz e, pelos ensinamentos recebidos na imensa bibliografia espírita, os homens estão longe de alcançar a explicação de determinados aspectos da vida extrafísica mais próxima da Terra.

Vamos, pois, com entusiasmo e fé, à execução de nossas tarefas, recordando as palavras de Emmanuel, através do médium Francisco Cândido Xavier: “O nome de Jesus está empenhado em nossas mãos.”

REFORMADOR SET. 2004

23 de agosto de 2010

POLÍTICA À LUZ DO ESPIRITISMO


Votemos conscientes...

Aurélio Buarque de Holanda, no Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa, nos diz que "política é o ramo das ciências sociais que trata da organização e do governo dos estados"; "é ciência ou arte de dirigir os negócios públicos".
Allan Kardec, em Obras Póstumas (Cap. Credo Espírita), assegura que "a doutrina espírita não se limita a preparar o homem para o futuro, forma-o também para o presente, para a sociedade; melhorando-se moralmente, os homens prepararão na Terra o reinado da paz e da fraternidade".
Os Espíritos afirmam, na q.573 do Livro dos Espíritos, que a nossa missão enquanto espíritos encarnados é "instruir os homens, ajudá-los a avançar, melhorar as suas instituições, por meios diretos e materiais".
Conseqüentemente, mediante uma análise mais aprofunda e isenta de preconceitos, percebe-se o quanto existe de afinidade entre a filosofia política e a filosofia espírita.
A 3a. parte do Livro dos Espíritos, que Kardec classificou como Leis Morais, é um claro, transparente e fraterno código de direitos e deveres entre criaturas, quando, por exemplo, detalha as leis de sociedade, de igualdade, de liberdade, de conservação, de reprodução, do trabalho, de justiça, amor e caridade etc; leis que uma vez assimiladas e postas em prática estabelecerão efetivamente entre nós o "reinado da solidariedade e da fraternidade, que será forçosamente o da justiça para todos; e o da justiça será o da paz e da harmonia entre os indivíduos, as famílias, os povos e as raças" (O.P. - Cap. Questões e Problemas).
Na verdade, a doutrina espírita é, sem dúvida, basicamente educativa e esclarecedora; não nos vende ilusões nem formula falsas promessas ou alimenta esperanças infundadas. Demonstra claramente que, embora amparados pelos bons amigos espirituais, somos responsáveis pelas nossas escolhas e atitudes delas decorrentes.
Por isso, Kardec ainda afirma que "por melhor que seja uma instituição social, sendo maus os homens, eles a falsearão e lhe desfigurarão o espírito para a explorarem em proveito próprio. Quando os homens forem bons, organizarão boas instituições (...) A questão social está toda no melhoramento moral dos indivíduos e das massas (...) Aí está a verdadeira chave da felicidade humana, porque então os homens não mais cogitarão de se prejudicarem reciprocamente. Não basta se cubra de verniz a corrupção, é indispensável extirpá-la" (O.P. - Cap.Credo Espírita).
Que atualidade constatamos nesses esclarecimentos! E muitos e muitos outros ainda poderiam ser citados comprovando a interrelação entre os princípios espiritistas e os princípios ético-fraternos que devem reger não só a ciência política, mas todas as outras que atuam e influenciam nossa vida social. Hoje (felizmente) já podemos tomar conhecimento abertamente, através de diversos meios de comunicação, de tantos atos arbitrários e inescrupulosos cometidos no decorrer de tantos anos por pessoas que outrora eram símbolo de respeitabilidade - juízes, desembargadores, fiscais, políticos, médicos, religiosos...
Essa devassa, exposta muitas vezes de forma contundente, dando a impressão de que regredimos moralmente em lugar de avançar, é que nos permitirá a "extirpação da corrupção", o saneamento de sentimentos inferiores a serviço do personalismo e de interesses pessoais excusos. Na q.789 do Livro dos Espíritos, os Espíritos nos encorajam explicando acerca do momento em que "o excesso do mal nos faz compreender a necessidade do bem e das reformas".
Portanto, nós espíritas, assim como todos os demais cidadãos que almejam condições sociais adequadas, não podemos simplesmente dizer (como tantas vezes acontece em todos os meios) que"política é coisa ruim", que "nenhum político presta" e, a partir daí, nos omitirmos, deixando de cumprir com a nossa "missão de espíritos encarnados".
Aproxima-se mais um ano de eleições, mais uma oportunidade de utilizarmos um "meio direto e material", ou seja, o nosso voto, para auxiliar o progresso geral e a implantação do "reinado da justiça". Vamos começar a observar agora (se ainda não o fazemos) o comportamento e as ações daqueles ora imbuídos de poder executivo e legislativo, a fim de passarmos a nossa procuração (porque na verdade é isso o nosso voto - uma procuração para alguém agir em nosso nome a benefício da coletividade) de forma consciente e esclarecida; a fim de realizar o nosso dever sócio-político de cidadãos, de "homens de bem", em conformidade com os princípios regidos pelas Leis Morais, que em suma são as Leis Divinas.

21 de agosto de 2010

MIGALHA DE AMOR


Não menosprezes a migalha de amor que te pode marcar o concurso no serviço do bem.
Estende o coração através dos braços e auxilia sempre.
Quem definirá, entre os homens, toda a alegria da xícara de leite nos lábios da criancinha doente ou da gota de remédio na boca atormentada do enfermo? Quem dirá o preço de uma oração fervorosa, erguida ao Céu, em favor do necessitado? Quem medirá o brilho oculto da caridade que socorre os sofredores e desvalidos?
Recorda a importância do pano usado para os que choram de frio, da refeição desaproveitada para o companheiro subnutrido, do vintém a transformar-se em mensagem de reconforto, do minuto de conversação consoladora que converte o pessimismo em esperança, e auxilia quanto possas.
Lembra-te que Jesus renovou a Terra, utilizando diminutas migalhas de boa vontade e cooperação... Dos recursos singelos da Manjedoura faz o mais belo poema de humildade, de cinco pães e dois peixes retira o alimento para milhares de criaturas, em velhos barcos emprestados erige a tribuna das sublimes revelações do Céu... Para ilustrar seus preciosos ensinamentos, detém-se na beleza dos lírios do campo, salienta o valor da candeia singela, comenta a riqueza de um grão de mostarda e recorre ao merecimento de uma dracma perdida.
Não olvides que teu coração é esperado por bênção viva, na construção da felicidade humana e, empenhando-lhe, agora,a tua migalha de carinho, recolhê-la-ás, amanha, em forma de alegria eterna no Reino do Eterno Amor.

Meimei
Livro: Sentinelas da Alma. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

19 de agosto de 2010

TÉDIO NO LAR

Uma vez que os Espíritos simpáticos são induzidos a unir-se, como é que, entre os encarnados, freqüentemente só de um lado há afeição e que o mais sincero amor se vê acolhido com indiferença e, até, com repulsão?
Como é, além disso, que a mais viva afeição de dois seres pode mudar-se em antipatia e mesmo em ódio?
“Não compreendes então que isso constitui uma punição, se bem que passageira?
Depois, quantos não são os que acreditam amar perdidamente, porque apenas julgam pelas aparências, e que, obrigados a viver com as pessoas amadas, não tardam a reconhecer que só experimentaram um encantamento material.
Não basta uma pessoa estar enamorada de outra que lhe agrada e em quem supõe belas qualidades.
Vivendo realmente com ela é que poderá apreciá-la.
Tanto assim que, em muitas uniões, que a princípio parecem destinadas a nunca ser simpáticas, acabam os que as constituíram, depois de se haverem estudado bem e de bem se conhecerem, por votar-se, reciprocamente, duradouro e terno amor, porque assente na estima! Cumpre não se esqueça de que é o Espírito quem ama e não o corpo, de sorte que, dissipada a ilusão material, o Espírito vê a realidade.
“Duas espécies há de afeição: a do corpo e a da alma, acontecendo com freqüência tomar-se uma pela outra.
Quando pura e simpática, a afeição da alma é duradoura; efêmera a do corpo.
Daí vem que, muitas vezes, os que julgavam amar-se com eterno amor passam a odiar-se, desde que a ilusão se desfaça.
” Seja qual seja o motivo em que o tédio se fundamente, recorram os companheiros imanizados em mútua associação no lar ao apoio recíproco mais profundo e mais intensivo.
Com isso, estarão em justa defesa da harmonia íntima, sem castigarem o próprio corpo.
E reeducar-se-ão, sem hostilizar os que, porventura, lhes demonstrem afeto, mas acolhendo-os, não mais na condição de cúmplices das aventuras deprimentes, a que se renderam outrora, e sim por irmãos queridos, com quem podemos fundir-nos, em espírito, no mais alto amor espiritual.

Emmanuel
Psicografia : Francisco Cândido Xavier Livro : Vida e Sexo

17 de agosto de 2010

AMAR OS INIMIGOS

“Amai os vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei o bem aos que vos odeiam; orai pelos que vos perseguem e caluniam, a fim de serdes filhos de vosso Pai - que está nos céus.” Jesus, (MATEUS, 5: 44-45.)


Como amar um inimigo? Conforme o texto de Lucas (23:34) amou Jesus a todos aqueles que o perseguiram, caluniaram e cheios de ódio exigiram a sua condenação, que efetivamente se cumpriu. Eis o testemunho de Lucas:
"E, quando chegaram ao lugar chamado a caveira, ali o crucificaram, e aos malfeitores, um à sua direita e outro à esquerda. E disse Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem."
Aí está o exemplo do Cristo, no auge do martírio: "Pai, perdoa-lhes..." reconhecendo que não sabiam o que lhe faziam. Eis que o Senhor leva-lhes em conta a ignorância: não sabem o que fazem. O que existia neles era maldade mesmo. Além de o matar, quiseram humilhar o Cristo, crucificando-o entre ladrões e homicidas.
Mesmo assim, o Mestre ergue a voz na direção do Céu e os perdoa a todos. Eram sacerdotes, eram fariseus, eram doutores da lei. E, no entanto, não sabiam o que estavam fazendo, porque dominados pelo ódio, o terrível gigante da alma a que já nos referimos numa outra parte desta série, citando o professor Mira y Lopez.
Mais tarde, durante toda a Idade Média, a maldade se repete, quando continuaram torturando e matando, sempre com requintes de perversidade, isto é, queimando vivos os que lhes caíam em desgraça. E, naturalmente, consoante o espírito do Cristianismo, suas vítimas persistiram rogando ao Pai perdão para seus algozes. Mas será que eles, os novos doutores da lei, continuavam sem saber o que faziam? Sim, de certo! E muitos, ainda hoje, se julgam injustiçados pela própria História!...
Há alguns anos, caiu-nos nas mãos um livro de um autor para nós desconhecido, intitulado "Os Papas na Idade Média", de Geoffrey Barraclough, editado em Lisboa pela Editorial Verbo. E pensamos: deve ser interessante conhecermos a história da Igreja de Roma, porquanto pode existir aí um mundo de informações importantes, dado que se tratava do último volume de uma série intitulada "História Ilustrada da Europa". E de fato não nos enganamos. Apenas indagamos a nossa consciência sobre a razão pela qual tivéramos de ler tal livro.
Esse livro nos permitiu compreender certos fatos de um período trevoso da história da Humanidade e entender cada vez mais e melhor a conduta de Jesus ao expressar-se: "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem."
Quando nos propusemos realizar, pedagogicamente, este trabalho relacionado com uma exercitação do Evangelho, é claro que objetivando um treinamento de auto-aperfeiçoamento com vistas à nossa purificação, não podíamos deixar de fora aquilo que mais difícil nos parece: o amor aos inimigos!
Se a história dos papas na Idade Média - numa extensão de pouco mais de dez séculos - testemunha-nos a presença do ódio no coração de homens que se propunham viver um amor que foi ensinado e exemplificado pelo redentor da Humanidade, obviamente ou o Cristo não foi compreendido ou o ódio aos inimigos é de um poder bem mais forte do que toda a excelsitude do Amor, o que não deixa de ser uma absurdidade filosófica.
Logo, o problema maior estava no atraso moral e intelectual do homem medieval, que não lhe permitia olhar para dentro de si mesmo, a fim de identificar e desarraigar o seu maior óbice ao exercício, desenvolvimento e ensino das lições do Evangelho do Cristo. De modo que, antes de pensar na continuidade abnegada dos primeiros apóstolos, tiveram as suas atenções voltadas para duas coisas muito perigosas: o poder e o luxo...
Reflitamos profundamente nestas palavras de Allan Kardec, dirigindo-se aos espíritas, no capítulo XII de "O Evangelho segundo o Espiritismo":
"Se o amor do próximo constitui o princípio da caridade, amar os inimigos é a mais sublime aplicação desse princípio, porquanto a posse de tal virtude representa urna das maiores vitórias alcançadas contra o egoísmo e o orgulho."
Somente com o Espiritismo se nos revelou o verdadeiro sentido das palavras do divino Amigo. Delas têm zombado os homens por não lhes permitir o estágio evolutivo em que se encontram - mormente na Idade Média - a interpretar o verdadeiro sentido das palavras de Jesus, que não pretendeu, segundo Kardec, "que cada um de nós tenha para com o seu inimigo a ternura que dispensa a um irmão ou amigo. A ternura pressupõe confiança (...)."
Esclarece, ainda, o Codificador que amar os inimigos não é ter por eles uma afeição que não está na Natureza. Consiste tal amor em não lhes guardar ódio, nem rancor, nem desejos de vingança.
Eis como nos adverte o Cristo, em seu Evangelho: "Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai não perdoará as vossas" (Mateus, 6:15). E ficamos a meditar, ainda uma vez, no que dissemos acima em relação ao período de trevas da Idade Média, quando os tribunais daquele chamado santo ofício se reuniam para condenar seres humanos à morte nas fogueiras, e em nome de Deus. Tudo em contradição com os ensinos de Jesus!
A propósito, examinando a Bíblia, no livro de Josué - aquele que conseguiu o estapafúrdio "milagre" de parar o Sol, que parado já é em relação à Terra, o que nos mostra a ingenuidade ou inocência do homem bíblico, lá nos detemos, um pouco, no exame do ódio contra os cananeus, tudo porque Cão, o segundo filho de Noé, responsável pela nação cananéia, foi pelo pai amaldiçoado, e por um motivo fútil.
Jeová, apoiando as razões de Noé, não ficou satisfeito com as vitórias de Josué contra os cananeus e autorizou a total exterminação deles, no que foi desobedecido pela nação israelita que, ao invés de exterminar Canaã, resolveu fazê-la tributária de Israel. (Josué, 17:13, e Juizes, 1:28.)
É deveras espantoso verificar quanto ódio, quanta matança, quantos massacres e quantas vezes a palavra vingança é repetida no livro dos livros!
É curioso que, no Evangelho, o Plenipotenciário divino nunca se refira a Jeová, Elohim, ou Yhvh nem a Adonai. Muitas dezenas de vezes repetiu a palavra Deus ou as expressões Pai, meu Pai, vosso Pai. E ele era insistentemente testado por escribas e fariseus. E os próprios judeus maravilhavam-se, dizendo: "Como sabe estas letras, não as tendo aprendido?" (João, 7:15.)
Logo, incontestável é a sabedoria e a autoridade do Cristo, não obstante em contradição com o espírito de ódio e vingança que parece reger toda a conduta do chamado povo de Deus.
Vale acentuar, ainda, o encontro do Mestre com a mulher cananéia ou cananeiana de que nos falam os evangelistas Mateus (15:21-28) e Marcos (7:24-30), que desejava a cura de sua filha possessa de um Espírito mau. E o Cristo encontra nela a oportunidade para mais uma lição aos judeus e à Humanidade futura de modo geral. Ele lhe nega o pedido, explicando a ela não ser justo dar aos cães o pão destinado aos filhos. E diante da resposta que ela lhe dá, naturalmente inspirada, o Mestre se maravilha e responde: "Mulher, grande é a tua fé: seja-te feito conforme desejas!" E no mesmo instante ficou-lhe curada a filha. E os judeus presentes não encontraram razão para censurá-lo, mesmo tendo ele dado a todos testemunho de que não ignorava a procedência daquela mulher.
Tudo o que pretendemos, neste estudo, é justificar a preocupação de Jesus com o amor aos nossos inimigos.
Nossas referências à ação má e perversa dos detentores do poder secular, na Idade Medieval, e à ação beligerante e vingativa do chamado povo de Deus na era recuada de sua história, tem como objetivo lembrar aos atuais trabalhadores da última hora - vivendo, hoje, sob as luzes do Consolador - que, em nós, a indumentária personalística atual bem pode estar substituindo a indumentária brutal ou estúpida do homem atrasado de ontem.
Amar os inimigos, os que nos feriram ou ferirem, os que nos perseguiram ou perseguirem, os que nos caluniaram ou caluniarem não é coisa impossível, já não é fardo tão pesado se, no exercitamento do Evangelho, nós reconhecermos efetiva e sinceramente, não apenas o preço (que nos pareça dor) mas o caminho e o portal de nossa libertação, que tem o sabor da glória!
Se estivermos, cientes, pela fé apoiada na razão, que Deus, nosso Pai, nunca permitirá que soframos o que não merecermos sofrer, não nos será difícil entender que o inimigo de hoje poderá estar representando o inimigo que ontem fomos de alguém, a quem devemos ter machucado seriamente.
Além do mais, basta ler cada item, cada frase, cada pensamento daquele capítulo XII de "O Evangelho segundo o Espiritismo", e sobre eles meditar para compreendermos o real sentido das palavras do Cristo de Deus.
Amar os inimigos não é ir ao encontro deles, abraçá-los e beijá-los. Amar os nossos inimigos, se os tivermos, ainda que supostamente gratuitos, é jamais lhes guardar ódio, é perdoá-los sem pensamento ou intenções ocultas, é nunca lhes opor obstáculo à reconciliação, desejando-lhes sempre o bem e até vibrarmos de contentamento, quando formos informados de um grande bem que lhes advenha; numa palavra, não guardarmos contra eles qualquer ressentimento.
Sempre que nos surpreendermos na emissão natural ou espontânea de um pensamento de amor, em favor de alguém que haja procedido mal para conosco, estaremos recolhendo, aí, o testemunho de um coração em processo de espiritualização. Que isto ocorra com todos nós.
Se porventura tivermos dúvida a respeito do vigor da Doutrina Espírita dentro de nós, de que modo conseguiremos dirimir tão amarga incerteza?
Bastará que consultemos a consciência, na intimidade de uma meditação para a qual roguemos a presença do divino Amigo de nossas almas, mais ou menos assim:
Como estarei aos olhos do Pai que me observa neste momento?
Serei capaz de trair o meu próximo, que em mim confia?
Serei capaz de mentir, ainda que premido por imensa necessidade, sabendo que, mentindo, prejudicarei o meu próximo?
Serei capaz de praticar um ato desonesto, conscientemente?
Serei capaz de negar a alguém aquilo que estiver ao meu alcance realizar?
E quanto àquele que se positive meu inimigo, em função de sua conduta contra mim, serei capaz de negar-lhe perdão?
E em se apresentando ocasião, serei capaz de prejudicá-lo?
E dentro do movimento superior do Doutrina a que me julgo pertencer, em me sentindo incomodado por um companheiro, serei capaz de contra ele guardar ressentimento ou aversão?
Quantas outras indagações poderíamos alinhar aqui relacionadas com os nossos propósitos sinceros de renovação espiritual, no sentido de nos sentirmos cada vez mais enriquecidos de traços positivos em nossa personalidade! Que anseio de olharmos bem fundo no interior de nós mesmos e não mais percebermos preocupantes sinais denunciadores da possibilidade de novas precipitações em desastrosas quedas!
Diz-nos Kardec que "aquele que pode ser, com razão, qualificado de espírita verdadeiro e sincero, se acha em grau superior de adiantamento moral"¹. Mas, já estará isento da influência solerte da vaidade que não suporta censura e das paixões que incitam o ódio? Mais adiante, e no mesmo parágrafo daquele item 4, que se refere a Os bons espíritas, conclui o sábio lionês:
"Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más."
Enquanto estivermos situados na condição de Espíritos errantes, nunca seremos santos no sentido lato que se vem dando a este termo, mas convém, recordando Pedro em sua 1ª Epístola (1:15), que sejamos santos em sentido restrito ao termo em sua acepção inicial latina Sanctus, isto é, sempre dispostos a lutar com todas as nossas forças a fim de que jamais venhamos a sofrer censura da própria consciência por não sabermos impor silêncio às nossas rivalidades e às nossas discórdias,² permitindo que, em função delas, venhamos a causar dano à obra do Consolador.
Amar os inimigos importa também em zelar, portanto, pela respeitabilidade da Doutrina a que nos devotamos. Pois seria tristíssimo para nós termos informação de que alguém que simpatizara com o Espiritismo, sem ser ainda espírita, haja se afastado de nosso meio ao perceber rivalidades e discórdias entre companheiros.
Se amar os inimigos é evangelicamente grandioso, não deixa de ser profundamente decepcionante para a consciência afastarem-se espíritas uns dos outros por magoa ou ressentimento. Isso seria retorno ao nosso passado histórico, quando não dispúnhamos das luzes do Consolador prometido...

Inaldo Lacerda Lima
1. KARDEC, Allan. “O Evangelho segundo o Espiritismo”, Rio de Janeiro, 112ª edicão, FEB, 1996, cap. XVII, item 4.
2. Idem, ibidem, cap. XX, item 5.

14 de agosto de 2010

O DIABO

-Imaginem - dizia-nos um amigo, em agradável tertúlia, no Plano Espiritual - se alguns desencarnados, em desespero, aparecessem, de improviso, entre as criaturas humanas, reclamando supostos direitos deixados na Terra. Gritando os tormentos que lhes dilaceram a alma, vomitando impropérios e blasfêmias, não seriam considerados um bando de demônios? Irreconhecíveis, urrando de dor selvagem, humilhados e vencidos, tentando, debalde, retomar as expressões físicas que ficaram nos cadáveres, seriam tomados por monstros infernais, repentinamente soltos na via pública.
-É verdade! - considerou um companheiro, melancolicamente - ninguém no mundo teria dificuldades em identificá-los como os velhos demônios da antiguidade. Os infelizes desse jaez, personificam perfeitamente, ante a observação popular, os Lucíferes, os Belcelins e os Astarots de recuados tempos. Os fantoches da dor sempre surgem ao entendimento infantil como gênios do mal.
Fez pequeno intervalo, sorriu e acentuou:
-Bastaria, porém, leve exame para que atingissem o conhecimento real; os diabos seriam, de fato, seres horrendos, mas não repugnantes, nem espantosos.
Ouvindo-lhe as referências, lembrava a personagem satânica do livro de La Sage, a perturbar as casas madrilenhas, levantando-lhes os telhados; e, demonstrando que me percebia os pensamentos mais íntimos, outro amigo acrescentou:
-As lendas de Asmodeu e Mefistófeles, no fundo, não terão origem diferente. Certo, a visão mediúnica favoreceu, entre os homens, a notícia dos tipos deploráveis que hoje conhecemos e dos quais Dante, em outro tempo, recebeu leves informes que enfeixou em seu poema célebre, de acordo com as suas tendências, conceitos e predileções de homem.
Nesse instante, um companheiro, ancião de muitas jornadas terrestres, fixou em nós um olhar percuciente e calmo e, valendo-se, talvez, da pausa mais longa, observou sensatamente:
-Todos sabemos que a criação inteira é obra infinita de Deus e não podemos ignorar que todos os seres do Universo, desde as notas mais baixas aos cânticos mais altos da Natureza, no campo ilimitado da vida, são portadores da Centelha Imortal da Divindade. Em todos os departamentos sem número dos mundos inumeráveis palpita o amor, existe a ordem, permanece o sinal da prodigiosa herança da vida. Por isso mesmo, irmãos, toda expressão diabólica é perversão da bênção divina. Onde esteja a perturbação da harmonia universal, aí se encontra o adversário do Senhor.
Vocês aludem, com muita oportunidade, aos mortos que se congregam em desespero, formando monstruosas paisagens, em que duendes, sem rumo, procuram em vão insinuar-se na existência dos homens da Terra. Se o olho humano pudesse identificá-los, possivelmente cessaria a continuação da vida na carne. Coletividades inteiras abandonariam o templo do corpo físico, tomadas de infinito e indomável pavor.
Escutávamos a palavra sábia em silêncio. E porque o intervalo se fizesse mais longo, o bondoso ancião, à maneira dos antigos filósofos gregos, rodeados de ouvintes atentos, continuou, com expressão significativa:
-Assistia pessoalmente a uma aula de sabedoria, numa das cidades espirituais dos círculos de Marte, quando surpreendi uma lição interessante. Velho orientador de entidades inexperientes e juvenis comentava a existência dos inimigos da Obra Divina e explicava-se:
-O diabo existe como personificação do desequilíbrio.
-Como poderíamos caracterizá-lo? - interrogou um dos presentes.
-É o protótipo da ingratidão para Deus - respondeu o venerável instrutor. O diabo é do Eterno o filho que menospreza a celeste herança. Recebe os tesouros divinos e converte-os em misérias letais. Das bênçãos que lhe felicita o caminho, faz maldições que estende aos semelhantes. Cego às belezas universais que o cercam, vive afirmando sua permanência no inferno, criação dele mesmo, em seu plano interior. É alma repleta de atributos sublimes que permanece, entretanto, na Obra do Pai, como gênio destruidor. É sábio de raciocínio, mas pérfido de sentimento. Seu cérebro elabora rapidamente as mais complicadas operações para a ofensiva do mal, todavia, seu coração é paralítico para o bem. Sua cabeça é fogo para a mentira, contudo, o seu peito é de gelo para a verdade. Escarra nas mãos que o acariciam, está sempre disposto a condenar, perverter e confundir os demais filhos de Deus, lançando a perturbação em geral, para que seus interesses isolados prevaleçam. Pela ciência e perversidade de que oferece testemunho, é um misto de anjo e monstro, no qual se confundem a santidade e a bestialidade, a luz e a treva, o céu e o abismo. Criatura desventurada pelo desvio a que se entregou voluntariamente é, de fato, mais infeliz que infame, merecendo, antes de qualquer consideração, nosso entendimento e piedade.
Nesse instante, em face da pausa do orientador, exclamou uma jovem do círculo, satisfeito pela possibilidade de cooperar no esclarecimento da tese em estudo:
-Conheço-o! Eu conheço o diabo!
-Você? - pergunta o instrutor, admirado. - Será possível?
-E ela, radiante, respondeu:
-Sim, já estive na Terra: Chama-se Homem!

IRMÃO X
Do livro Lázaro Redivivo. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

13 de agosto de 2010

ALÉM DAS APARÊNCIAS

Um pai, grande empresário, de família muitíssimo rica, levou seu filho de seis anos para viajar até um lugarejo com o firme propósito de mostrar ao menino como é que as pessoas pobres podem viver em um mundo, onde só ricos e poderosos têm vez e voz. Passaram dois dias e duas noites no sítio de uma família muito pobrezinha...
Quando retornaram da viagem, o pai perguntou ao filho: - E ai filhão, como foi a viagem para você?
- Muito boa papai, respondeu o pequeno.
- Você viu filho, como as pessoas pobres podem ser? Não sei como é que existe gente assim no mundo não é filhão? - Sim papai, retrucou o filho, pensativamente.
- E o que você aprendeu, com tudo o que viu nesses dias, naquele lugar tão paupérrimo?
O menino respondeu: - É pai, eu vi que nos temos um só cachorro em casa e eles tem quatro. Nós temos uma piscina que alcança meio jardim; eles tem um riacho que não tem fim. Nos temos uma varanda coberta e iluminada com florescentes e eles tem as estrelas e a lua no céu. Nosso quintal vai até o portão da entrada e eles tem uma floresta inteira. Nós temos alguns canários que por cima de tudo vivem presos em uma gaiola e eles têm todas as aves que a natureza pode oferecer-lhes, soltas! Nossa comida é toda industrializada e a maioria das vezes é congelada. A deles é pescada no riacho, colhida na horta ou que pegam no terreiro, enfim papai, a alimentação deles é saudável enquanto a nossa não. E além do mais papai, observei que eles rezam antes de qualquer refeição, enquanto nos aqui em casa sentamos na mesa falando de etiquetas, negócios, cotação do dólar, eventos sociais, comemos, empurramos o prato e pronto!
No quarto em que dormi com o Tonho, passei vergonha porque não sabia nem se quer orar, enquanto ele se ajoelhou e orou, agradecendo a Deus tudo, inclusive a nossa visita na casa deles; e nós, aqui em casa, vamos para o quarto, deitamos, assistimos televisão e dormimos.
Outra coisa papai, dormi na rede do Tonho, enquanto que ele dormiu no chão, pois não havia rede para cada um de nós, enquanto que aqui na nossa casa colocamos a Maristela, nossa empregada, para dormir naquele quarto onde guardamos entulho, coitada, sem nenhum conforto, ao passo que temos camas macias e cheirosas sobrando, mas fazer o que não pai, se elas só são para aqueles hóspedes chatos e graciosos que vem nos visitar!
Conforme o pequeno garoto falava, seu pai ficava estupefato, sem graça, envergonhado. E o filho na sua sábia ingenuidade e no seu brilhante desabafo, levantou-se, abraçou o pai e ainda acrescentou: - Obrigado papai, por me haver mostrado o quanto "pobres e mesquinhos" nós somos!

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Tudo o que você tem, depende da maneira como você olha, da maneira como você valoriza. Se você tem amor, amigos, família, saúde, bom humor, honradez, sobrevive nesta vida com dignidade, tem atitudes positivas, partilha com benevolência as coisas que você ganhou de Deus, você tem tudo!

Porém, se você é egoísta e "pobre de espírito", você não tem nada! Pense nisso!

(Autor desconhecido)

8 de agosto de 2010

A FORÇA DO AMOR

Amigos e irmãos, abraço-os fervorosamente.

Nesta oportunidade, desejo compartilhar com os companheiros um fato relacionado ao suicídio que resultou numa serie de ações, desenvolvidas ao longo de 18 meses, aproximadamente, mas cujo desfecho superou todas as expectativas, mesmo as inimagináveis.

As regiões de sofrimento onde vivem os suicidas, de todas as categorias, são inúmeras e vastas nos planos do Espírito. brotam de um dia para outro, pois os excessos da Humanidade tem reduzido o tempo de reencarnação para um numero significativo de pessoas. Os atentados contra a manutenção da saúde, mental e psicológica atingem cifras realmente assustadoras.

A campanha EM DEFESA DA VIDA, conduzida pelos Espíritas, é ação que ameniza a situação. Mas algo mais intenso e abrangente, que envolva a sociedade, urge ser desenvolvido.

Assim, passamos ao nosso relato.

Localizamos em determinado nicho, em nosso plano, uma comunidade de suicidas vivendo em situação precária, em todos os aspectos. Chamava a nossa atenção que tal reduto de dor nunca reduzia de tamanho. Ao contrario, contabilizávamos um numero crescente, dia após dia. Procurando analisar a problemática por todos os seus ângulos, verificamos que no local, incrustado em espaço de difícil acesso, existia uma espécie de “escola” – se este é o nome que se pode utilizar – cujos integrantes se especializaram em indução ao suicídio: técnicas, recursos e equipamentos sofisticados eram desenvolvidos para que encarnados cometessem suicídio.

O suicida era, então, conduzido à instituição e, sob tortura, a alma sofredora fornecia elementos mentais que serviam de alimento à manutenção de diferentes desarmonias que conduzem o homem ao desespero.

Fomos surpreendidos pela existência de tal organização e estarrecidos diante do fato, de como a alienação, associada a maldade, pode desestruturar o ser humano.

Após tomar conhecimento dos detalhes, um plano de trabalho foi definido, depois que um mensageiro de elevada região veio até nós.

Durante algum tempo pelejamos para sermos adequadamente preparados, inclusive aprendendo a liberar vibrações mais sublimadas, a fim de fornecer a matéria mental e sentimentos puros que pudessem erguer um campo de força energético ao redor do local.

Almas devotas estiveram conosco permanentemente, instruindo-nos, fortificando-nos e nos revelando a excelsitute do amor. Entretanto, era preciso fazer algo mais. Desfazer a organização não representaria, em principio, maiores problemas; o desafio seria convencer os instrutores a não fazer mais aquele tipo de maldade. Várias tentativas foram enviadas, neste sentido. Orientadores esclarecidos da Vida Maior foram rejeitados e até ridicularizados. Nada conseguíamos com os dirigentes daquela instituição, voltada para a prática do suicídio.

Mas, a vitoria chegou, gloriosa, no final da tarde de domingo último, (1) quando, convidados a participar do encerramento do Congresso, aqueles dirigentes presenciaram a luminosidade do amor. Conseguiram, finalmente, ver o significado da vida, a sua importância e fundamentos.

Foram momentos de grande emoção que envolveu a todos nós, quando um nesga de luz desceu sobre os encarnados e desencarnados no exato instante em que todos, em ambos os planos da vida, se deram as mãos e cantaram em prol da paz.

A nesga de luz se alargou, cresceu, envolveu a todos. A força do amor jorrou plena e, em sublime explosão, rompeu o ar, circulou sobre a cabeça de todos, espalhou-se como poderosa onda para o além do recinto, ganhando a cidade.

Brasília se nimbou de luz, no ar, no solo, nas águas. À nossa visão estupefata e maravilhada parecia que uma nova estrela estava surgindo. Os seres da Criação, vegetais, animais e hominais, os elementos inertes, rochas e minerais, as construções humanas, prédios, edifícios, avenidas, bancos, repartições publicas e privadas, residências, tudo enfim, foi banhado por luz pura e cristalina que jorrava do alto.

Célere, a bela luminosidade espalhou do coração da Pátria para todos os recantos do Brasil, das Américas, da Europa, África, mais além, no Extremo e Médio Oriente, atingindo a todos os continentes, países e cidades. Alcançou os polos do Planeta, girou, em bailado sublime, por breves minutos ao redor da Terra e se prolongou mais além, em direção ao infinito.

Jesus tinha se aproximado do Planeta, em brevíssima visita de luz, amor e compaixão.

Jamais presenciei tanta beleza e tanta paz!

Com afeto.

Yvonne Pereira.
Mensagem recebida por Marta Antunes de Moura, na Federação Espírita Brasileira em 22 de Abril de 2010.
Reformador Ago.2010

(1) Domingo, 18 de Abril de 2010: dia do encerramento do 3º Espírita Brasileiro. Todos os presentes cantavam, emocionados, a musica pela paz.