2 de setembro de 2010

REAJUSTEMO-NOS SEMPRE


NÃO IMPORTA QUE OS ALTOS E baixos acidentes da existência terrena coloquem o homem, às vezes, em dificuldades para discernir o que de melhor possa realizar para não se deixar mistificar diante do chamamento superior. O que urge fazer em todas as circunstâncias é procurar a mais acertada maneira de condicionar-se, predispondo-se invariavelmente ao reajuste sublime sob o influxo generoso da Vontade Divina. Nunca, porém, o desânimo pelas consequências de nossa invigilância, pois, todas as formas de vivência experimental que o Pai nos propicia são planos de trabalho evolutivo, degraus úteis e indispensáveis, onde a alma se exercita, preparando-se para vôos mais altos dentro do círculo de simpatia preferido.
Em qualquer ângulo de serviço para que formos atraídos, reajustemo-nos, dentro dele, aos ensinamentos do Cristo, pois o desempenho de uma tarefa, qualquer, por mais insignificante que seja, pede-nos, não somente entusiasmo e convicção, mas, acima de tudo, fidelidade aos compromissos morais que esposarmos.
Com entusiasmo e convicção poderemos entregar-nos aos labôres das nossas inclinações, sentindo a amplitude, a alegria do trabalho e a certeza de nosso desejo de servir naquilo em que pudermos colaborar.
Mas, entusiasmo e convicção, por mais sinceros que sejam não se sustentam por si e podem esboroar-se, como a mais efêmera miragem, ao primeiro contato real com o serviço, afastando do trabalho idealístico até mesmo aqueles que pareciam tão otimistas.
Eis por que o tarefeiro necessita não somente daquelas duas qualidades para iniciar-se na Seara do Bem, mas, principalmente porque se lhe torna indispensável a fidelidade aos compromissos morais que houver assumido para sentir-se forte no amparo que receber para o prosseguimento, pois, nessa condição, não raro se apercebe de que «... toda idéia nova forçosamente encontra oposição e nenhuma há que se implante sem lutas. Ora, nesses casos, a resistência é sempre proporcional à importância dos resultados previstos, porque, quanto maior ela é, tanto mais numerosos são os interesses que fere. Se for notoriamente falsa, se for tida por inconsequente, ninguém se alarma; deixam-na todos passar, certos de que lhe falta vitalidade. Se, porém, é verdadeira, se assenta em sólida base, se lhe prevêem futuro, um secreto pressentimento adverte os seus antagonistas de que constitui um perigo para eles e para a ordem de coisas em cuja manutenção se empenham. Atiram-se, então, contra ela e contra os seus adeptos. Assim, pois, a medida da importância e dos resultados de uma idéia nova se encontra na emoção que o seu aparecimento causa, na violência da oposição que provoca, bem como no grau e na persistência da ira de seus adversários. . .» (1).
E, como idéia nova, o Esperanto também tem sentido a resistência que lhe vêm antepondo aqueles que ainda desconhecem a verdadeira finalidade da sua missão entre os homens.
Zamenhof, o genial criador do Idioma Internacional, não legou ao mundo somente mais uma forma de cultura caracterizada pelo verniz superficial tão a gosto das convenções dispensáveis, nem tentou melhorar o número estatístico dos milhares de idiomas e dialetos já existentes. Pelo contrário, dotando o homem desse meio fácil de se poder comunicar, emoldurou a sua mensagem em têrmo de fraternidade, criando mais um recurso espiritual superior como denominador comum, neutro, para aproximação dos povos que mantêm filosofia diferente entre si, cultivam religiões opostas e usam da ciência para fins diversos, os quais, por outros meios, nunca se confraternizariam.
O Espiritismo eleva instruindo, esclarecendo e confortando. O Esperantismo aproxima, destruindo fraternalmente a barreira linguística, nivelando o pensamento, predispondo os corações ao equilíbrio mínimo necessário para a serenidade do diálogo e da inter-comunicação.
Emmanuel, através de Francisco Cândido Xavier, dirigindo-se ao saudoso Ismael Gomes Braga, pela primeira vez referindo-se à grande missão do Esperanto, numa mensagem toda carinho e simpatia pelo trabalho de Zamenhof, escrevera, entre outras frases:
“... também o Esperanto, amigos, não vem destruir as línguas utilizadas no mundo, para o intercâmbio dos pensamentos. A sua missão é superior, é a da união e da fraternidade, rumo à unidade universalista. Seus princípios são os da concórdia e seus apóstolos são igualmente companheiros de quantos se sacrificaram pelo ideal divino da solidariedade humana, nessas ou dade humana, nessas ou naquelas circunstâncias. A língua auxiliar é um dos mais fortes brados pela fraternidade, que ainda se ouve nesse planêta empobrecido de valôres espirituais.. . » (2).
Muitos que combateram o Espiritismo nos primórdios de seu aparecimento já desapareceram e, possivelmente, reajustando-se na erraticidade, hoje, alegremente, reencarnados entre nós, iniciam a jornada idealistica com entusiasmo e convicção, lutando pacificamente para a implantação da filosofia religiosa que anteriormente combateram com tanto ardor.
O mesmo acontece com o Esperanto. Como elemento propiciador do impulso evolutivo do homem, tem sofrido o impacto nobilitante do apupo e da dor, da incompreensão e da injustiça, conquistando, porém, apesar de tudo, passo a passo, o lugar definitivo de destaque entre os fatores idealísticos que aureolam os estágios de progresso das raças e dos povos.
Passados 84 anos de sua criação, o Idioma Auxiliar é conhecido, hoje, em quase noventa países e falado por mais de 72 milhões de pessoas.
Assim, pois, convenhamos que o entusiasmo e a convicção nos auxiliam poderosamente a penetrar na tarefa para a prova do reajuste, mas somente a fidelidade, a obstinação e a paciência, nos promovem recursos suficientes para que a tarefa penetre em nós, reajustando-nos sempre.

Revista: Reformador, número 1, Janeiro 1972

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