28 de outubro de 2010

A HORA FINAL

Que se passa no momento da morte e como se desprende o Espírito da sua prisão material? Que Impressões, que sensações o esperam nessa ocasião temerosa? É isso o que interessa a todos conhecer, porque todos cumprem essa jornada. A vida foge-nos a todo instante: nenhum de nós escapará à morte.

Ora, o que todas as religiões e filosofias nos deixaram ignorar os Espíritos, em multidão, no-lo vêm ensinar. Dizem-nos que as sensações que precedem e se seguem à morte são infinitamente variadas e dependentes sobretudo do caráter, dos méritos, da elevação moral do Espírito que abandona a Terra. A separação é quase sempre lenta, e o desprendimento da alma opera-se gradualmente. Começa, algumas vezes, muito tempo antes da morte, e só se completa quando ficam rotos os últimos laços fluídicos que unem o perispírito ao corpo. A impressão sentida pela alma revela-se penosa e prolongada quando esses laços são mais fortes e numerosos. Causa permanente da sensação e da vida, a alma experimenta todas as comoções, todos os despedaçamentos do corpo material.

Dolorosa, cheia de angústias para uns, a morte não é, para outros, senão um sono agradável seguido de um despertar silencioso. O desprendimento é fácil para aquele que previamente se desligou das coisas deste mundo, para aquele que aspira aos bens espirituais e que cumpriu os seus deveres. Há, ao contrário, luta, agonia prolongada no Espírito preso à Terra, que só conheceu os gozos materiais e deixou de preparar-se para essa viagem.

Entretanto, em todos os casos, a separação da alma e do corpo é seguida de um tempo de perturbação, fugitivo para o Espírito justo e bom, que desde cedo despertou ante todos os esplendores da vida celeste; muito longo, a ponto de abranger anos inteiros, para as almas culpadas, impregnadas de fluídos grosseiros. Grande número destas últimas crê permanecer na vida corpórea, muito tempo mesmo depois da morte. Para estas, o perispírito é um segundo corpo carnal, submetido aos mesmos hábitos e, algumas vezes, às mesmas sensações físicas como durante a vida terrena.

Outros Espíritos de ordem inferior se acham mergulhados em uma noite profunda, em um completo Insulamento no seio das trevas. Sobre eles pesa a Incerteza, o terror. Os criminosos são atormentados pela visão terrível e incessante das suas vítimas.

A hora da separação é cruel para o Espírito que só acredita no nada.

Agarra-se como desesperado a esta vida que lhe foge; no supremo momento insinua-se-lhe a dúvida; vê um mundo temível abrir-se para abismá-lo, e quer, então, retardar a queda. Daí, uma luta terrível entre a matéria, que se esvai, e a alma, que teima em reter o corpo miserável. Algumas vezes, ela fica presa até à decomposição completa, sentindo mesmo, segundo a expressão de um Espírito, “os vermes lhe corroerem as carnes”.

Pacífica, resignada, alegre mesmo, é a morte do justo, a partida da alma que, tendo muito lutado e sofrido, deixa a Terra confiante no futuro.

Para esta, a morte é a libertação, o fim das provas. Os laços enfraquecidos que a ligam à matéria, destacam-se docemente; sua perturbação não passa de leve entorpecimento, algo semelhante ao sono.

Deixando sua residência corpórea, o Espírito, purificado pela dor e pelo sofrimento, vê sua existência passada recuar, afastar-se pouco a pouco com seus amargores e ilusões; depois, dissipar-se como as brumas que a aurora encontra estendidas sobre o solo e que a claridade do dia faz desaparecer. O Espírito acha-se, então, como que suspenso entre duas sensações: a das coisas materiais que se apagam e a da vida nova que se lhe desenha à frente.

Entrevê essa vida como através de um véu, cheia de encanto misterioso, temida e desejada ao mesmo tempo. Após, expande-se a luz, não mais a luz solar que nos é conhecida, porém uma luz espiritual, radiante, por toda parte disseminada. Pouco a pouco o inunda, penetra-o, e, com ela, um tanto de vigor, de remoçamento e de serenidade. O Espírito mergulha nesse banho reparador. Aí se despoja de suas incertezas e de seus temores. Depois, seu olhar destaca-se da Terra, dos seres lacrimosos que cercam seu leito mortuário, e dirige-se para as alturas. Divisa os céus Imensos e outros seres amados, amigos de outrora, mais jovens, mais vivos, mais belos que vêm recebê-lo, guiá-lo no seio dos espaços. Com eles caminha e sobe às regiões etéreas que seu grau de depuração permite atingir. Cessa, então, sua perturbação, despertam faculdades novas, começa o seu destino feliz.

A entrada em uma vida nova traz impressões tão variadas quanto o permite a posição moral dos Espíritos. Aqueles — e o número é grande — cujas existências se desenrolam indecisas, sem faltas graves nem méritos assinalados, acham-se, a princípio, mergulhados em um estado de torpor, em um acabrunhamento profundo; depois, um choque vem sacudir-lhes o ser. O Espírito sai, lentamente, de seu invólucro: como uma espada da bainha; recobra a liberdade, porém, hesitante, tímido, não se atreve a utilizá-la ainda, ficando cerceado pelo temor e pelo hábito aos laços em que viveu. Continua a sofrer e a chorar com os entes que o estimaram em vida. Assim corre o tempo, sem ele o medir; depois de muito, outros Espíritos auxiliam-no com seus conselhos, ajudando a dissipar sua perturbação, a libertá-lo das últimas cadeias terrestres e a elevá-lo para ambientes menos obscuros.

Em geral, o desprendimento da alma é menos penoso depois de uma longa moléstia, pois o efeito desta é desligar pouco a pouco os laços carnais. As mortes súbitas, violentas, sobrevindo quando a vida orgânica está em sua plenitude, produzem sobre a alma um despedaçamento doloroso e lançam-na em prolongada perturbação. Os suicidas são vítimas de sensações horríveis.

Experimentam, durante anos, as angústias do último momento e reconhecem, com espanto, que não trocaram seus sofrimentos terrestres senão por outros ainda mais vivazes.

O conhecimento do futuro espiritual, o estudo das leis que presidem à desencarnação são de grande importância como preparativos à morte. Podem suavizar os nossos últimos momentos e proporcionar-nos fácil desprendimento, permitindo mais depressa nos reconhecermos no mundo novo que se nos desvenda.

Léon Denis

27 de outubro de 2010

BENS VERDADEIROS

Os verdadeiros bens são aquêles que têm caráter inalienável. O que transita não constitui posse, antes é mordomia. Nesse particular, os tesouros terrenos valem pela tônica que lhes emprestamos, caracterizados pelas paixões que envilecem, aquêles que os dominam parcialmente ou pela dinâmica do trabalho valioso que fomentam.
A posse monetária, no entanto, em si mesma não é responsável pelos bens que produz nem pelos males que gera.
Manipulando a posse encontra-se sempre o espírito, que a faz nobre ou perniciosa.
O dinheiro, de tão desencontradas conceituações, não é o responsável direto pela miséria social nem o autor das glórias culturais.
A moeda que compra consciências é a mesma que adquire leite para a orfandade; o dinheiro que entorpece o caráter é aquêle que também salva uma vida, doando sangue a alguém que esteja à beira da desencarnação; o numerário que corrompe moçoilas invigilantes, fascinadas pelo momentâneo ouropel da glória social, faculta igualmente sucesso às grandes conquistas do conhecimento.
Se êle favorece o tráfico de entorpecentes e narcóticos, a prostituição e rapina, também estimula o progresso entre as Nações, drena as regiões pantanosas e transforma os desertos em abençoados pomares, educa...
Em mãos abençoadas pela caridade, êle dá lume e pão, distribui reconfôrto e alegria, difunde o alfabeto e a arte, amplia a fraternidade e o amor, atenuando as asperezas da senda. por onde transitam os infelizes.
Movimentado por ociosos consome-se na usura e, insensatamente, vai conduzindo para perverter, malsinando vidas e destroçando-as.
As legítimas fortunas são as que têm fôrça indestrutível.
Valem muitas vêzes menos, porque desconsideradas pelo egoísmo geratriz dos males que infestam os espíritos multimilenarmente. Raros as disputam. São os valôres morais.
*
Certamente a ganância, resultante da má educação religiosa e social do homem, fomenta os crimes que são catalogados como conseqüências das riquezas mal dirigidas. A ganância. de uns engendra a miséria de muitos e a ambição desmedida de poucos faz-se a causa da ruína generalizada que comanda multidões.
O Evangelho de Jesus, no entanto - inapreciável fortuna de paz e amor ao alcance de todos -, possui a solução para o magno problema da riqueza e da pobreza, em se referindo às leis do amor e da caridade que um dia. unirão todos os homens como verdadeiros irmãos.
E o Espiritismo, confirmando as lições do Senhor, leciona, soberano, graças à informação dos imortais, que o mau uso da riqueza impõe o recomeço difícil na miséria, àquele que a tenha malbaratado.
Multiplica, então, os bens verdadeiros de que disponhas nas leiras do amor e reparte os valôres transitórios de que te faças detentor na seara da Caridade para que tranqüilos sejam os teus dias no Orbe e feliz o teu renascimento futuro, quando de volta à Terra
*
"Vendei o que possuís e dai esmolas. fazei para vós bolsas que não envelheçam, um tesouro inexaurível nos céus, onde o ladrão não chega nem a traça roi". Lucas: capítulo 12º, versículo 33.
*
"O homem só possui em plena propriedade aquilo que lhe é dado levar deste mundo". Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 16º - Item 9.

Franco, Divaldo Pereira. Da obra: Florações Evangélicas. Ditado pelo Espírito Joanna de Ângelis.

BEM AVENTURADOS OS SIMPLES

Caíra a noite e o viajante pedia socorro a Deus.
Sentia-se doente.
Longa fora a caminhada.
Doía-lhe o corpo.
Estava exausto.
Orando sempre, encontrou árvore acolhedora que lhe pareceu agasalhante refúgio.
No pé do tronco anoso, grande cova caprichosamente forrada de raízes era leito ao luar.
- Oh! - suspirou o viajor fatigado - Deus ouviu-me! Afinal, o repouso!
Ajoelhou-se e ia estender o manto roto no chão, quando verdadeira nuvem de maruins surgiu no assalto.
Picadas na cabeça, no rosto, nas mãos, nos pés...
E eram tantos os dardos vivos e volantes em derredor que o pobre recuou espavorido, para dormir ao relento, entre as pedras e espinheiros da retaguarda.
De corpo dorido, pensava desalentado:
- Tolo que sou de acreditar na oração! Estou sozinho! Nada de Deus!
Na manhã seguinte, porém, retomando a marcha, voltou à árvore do caminho e, somente aí, reconheceu, admirado, que a grande cova de que fora obrigado a afastar-se era a moradia de vários escorpiões.
*
Não descreia da prece em tempo algum. E nos casos em que você encontre empecilhos para possuir o a que mais aspira, guarde, entre aborrecimentos e provações, a certeza de que, muitas vezes, o que lhe parece uma situação invejável não passa de ninho enganador, onde se ocultam os lacraus da morte.

Vieira, Waldo. Ditado pelo Espírito Valérium.

26 de outubro de 2010

O CULTO AOS MORTOS NUMA VISÃO KARDECISTA


O Homem só começa a ser Homem, quando começa a enterrar seus mortos, diz-nos o historiador Aníbal de Almeida Fernandes, em "A Genealogia como fator básico na formação da Civilização", e conclui: É o marco divisório entre o animal e o primeiro homem, e ocorreu há cerca de 40.000 anos com o Homo Sapiens e o Homo Neanderthal, antes mesmo da agricultura, e é o início da história humana. O sentimento de cultuar os mortos foi moldado, pois, a partir de época bem remota e está sedimentado em quase todas as tendências religiosas.

As comunidades primitivas, peninsulares, agropastoris, inclinadas ao culto agrícola e ao culto da fertilidade, acreditavam, originariamente, que, em sepultando seus mortos nas proximidades dos campos agrícolas, os espíritos desses cadáveres ressurgiriam à vida com mais vigor, quais sementes plantadas em solo fértil, mas criam que isso se daria como algo secreto e misterioso. Com essa crença, reverenciavam-se os mortos próximos às tumbas, com festas e, sobretudo, com muita alegria, prática que se estendeu viva em algumas culturas contemporâneas.

Os costumes dos povos primitivos foram se modificando devido à influência de outros, vindos, provavelmente, do norte da África (os Iberos) e do centro da Europa (os Celtas).

Veja-se o que nos revela um dos expoentes da Doutrina Espírita: "É dos gauleses que vem a comemoração dos mortos, (...) só que, em vez de comemorar nos cemitérios, entre túmulos, era no lar que eles celebravam a lembrança dos amigos afastados, mas não perdidos, que eles evocavam a memória dos espíritos amados que algumas vezes de manifestavam por meio das druidisas e dos bardos inspirados". (1)

Ressalte-se, aqui, que os gauleses evocavam os ancestrais mortos (divindades) nos recintos de pedra bruta. As druidisas (sacerdotisas) e os bardos (poetas e oradores inspirados) eram verdadeiros "médiuns" e somente eles tinham consentimento para consultarem os oráculos (na Antigüidade, resposta de uma divindade a quem a consultava).

Os gauleses, portanto, não veneravam os restos cadavéricos, mas a alma sobrevivente, e era na intimidade de cada habitação que celebravam a lembrança de seus mortos, longe das catacumbas, diferentemente dos povos primitivos. A Festa dos Espíritos era de suma importância para eles, pois homenageavam Samhain, "O Senhor da Morte", festividade, essa, iniciada sempre na noite anterior a 1º de novembro, ou seja, no dia 31 de outubro. Essa celebração marcava o fim do verão e o fim da última colheita do ano. Acreditavam que os espíritos dos mortos, nos meses de inverno, sairiam dos túmulos gelados para visitarem suas antigas moradias aquecidas e orientar seus familiares. Os bons, supostamente, os protegeriam, mas, para confundirem os maus espíritos, vestiam-se de fantasias, o que deu origem à tradicional festa de Halloween dos nossos dias.

Porém, uma densa bruma desceu sobre a terra das Gálias, através do tacão de Roma, que expulsou os druidas e impôs o Cristianismo clérico. Esse período histórico de frenética agitação, mais tarde foi mutilado pelos bárbaros, sobrevindo uma madrugada de dez séculos (a obscura Idade Média), que proscreveu o espiritualismo e entronizou a superstição, o sobrenatural, o milagre, a beatificação, a santificação e a definitiva narcotização da consciência humana, levando-a ao analfabetismo espiritual.

A história oficial da Igreja registra que foi no Mosteiro beneditino de Cluny, no sul da França, no ano de 998, que o Abade Odilon promovia a celebração do dia 2 de novembro, em memória dos mortos, dentro de uma perspectiva catolicista. Pela influência que esse Mosteiro, então, exercia na Europa setentrional, propagou-se com rapidez a nova celebração, até porque veio de encontro aos costumes já arraigados em todas as culturas, cada qual com seu entendimento e sua prática, obviamente, quanto a cultuar os mortos. Somente em 1311 foi sancionada, em Roma, oficialmente, a memória dos falecidos, mas foi Bento XV quem universalizou tal celebração, em l915, dentre os católicos, cuja expansão da religião auxiliou, ainda mais, a difusão desse costume.

A legislação vigente chega a declarar o dia 2 de novembro como feriado nacional, com o objetivo de as pessoas poderem homenagear seus parentes e amigos falecidos. Nós, os espíritas, somos questionados sobre o tema: como o Espiritismo analisa o dia dos mortos? Respondemos a essa questão, da seguinte maneira: as religiões falham, excessivamente, no que tange aos ensinos das essenciais noções sobre a imortalidade da alma, muito embora haja uma ou outra que já tenha alguma noção do que seja. Mesmo assim, ainda insigne, se comparada aos ensinamentos de luz, ditados a Allan Kardec, e contidos em "O Livro dos Espíritos". Daí a razão pela qual, no dia dos finados, as pessoas se dirigem aos "campos santos", como se o cemitério fosse a morada eterna daqueles que desencarnam. "O Livro dos Espíritos" nos ensina o respeito aos desencarnados como um impositivo de fraternidade, sem que materializemos esse sentimento frente aos túmulos, nem que tais lembranças ou homenagens sejam realizadas em um dia especial, oficialmente estabelecido.

Nos dias de hoje, essa celebração se desviou, e muito, do ritual religioso, transportando-se do foco sentimental e emocional para o comercial, uma vez que a mercantilização de flores, velas, santinhos, escapulários, e a eventual preocupação para a conservação dos túmulos (normalmente, só são lembrados em novembro) respondem por esse protocolo social. O zelo com que são cuidados os túmulos só tem algum sentido para os encarnados, que, aliás, devem se precaver para não criarem um estranho tipo de culto. Não devemos converter as necrópoles vazias em "salas de visita do além", como diz Richard Simonetti, (2) até porque, há locais mais indicados para nos lembrarmos daqueles que desencarnaram.

Ainda que não reprovemos, de maneira absoluta, as pompas fúnebres, pois a homenagem à memória de um homem de bem, "são justas e de bom exemplo" (3), o Espiritismo revela que o desejo de perpetuar a própria memória nos monumentos fúnebres vem do derradeiro ato de orgulho . "A suntuosidade dos monumentos fúnebres determinada por parentes que desejam honrar a memória do falecido, e não por este, ainda faz parte do orgulho dos parentes, que querem honrar-se a si mesmos. Nem sempre é pelo morto que se fazem todas essas demonstrações, mas por amor-próprio, por consideração ao mundo e para exibição de riqueza ."(4) A tumba é o lugar-comum de encontro de todos os homens e nela se findam, impiedosamente, todas as distinções sociais. Em face disso, é inútil o rico tentar perpetuar a sua memória por meio de faustosos monumentos. Os anos os destruirão, assim como o seu próprio corpo. Essa é a Lei da natureza. A recordação das boas e más ações será menos perecível que o seu túmulo. A pompa dos funerais não o deixará limpo de suas torpezas e não o fará ascender sequer um degrau na hierarquia espiritual.(5)

Procuramos, mais, o lado cômodo, arraigando-nos ao formalismo material e desprezamos a essencialidade do ser, motivo pelo qual obrigou Jesus a se expressar aos escribas e fariseus da sua época: " sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos de cadáveres e de toda espécie de podridão".(6)

Da questão 320 à 329 do Livro matriz, que deu origem ao Espiritismo, recebemos lições de extrema importância sobre funerais e celebração em memória dos "mortos", vejamos: os Benfeitores afirmam que os chamados "mortos" são sensíveis à saudade dos que os amavam na Terra e que, de alguma forma, " a sua lembrança aumenta-lhes a felicidade, se são felizes, e se são infelizes, serve-lhes de alívio."(7) Porém, em se referindo ao dia dos "finados", atestam que é um dia como outro qualquer, até porque os espíritos são sensíveis aos nossos pensamentos, não às solenidades humanas. No dia dos finados eles só " reúnem-se em maior número, porque maior é o número de pessoas que os chamam. Mas cada um só comparece em atenção aos seus amigos, e não pela multidão dos indiferentes."(8)

Não podemos desconhecer que o pensamento é uma força e que é o atributo característico do ser espiritual; "é ele que distingue o espírito da matéria; sem o pensamento o espírito não seria espírito. (...)se tem a força de agir sobre os órgãos materiais, quanto maior não deve ser sobre os elementos fluídicos que nos rodeiam! O pensamento age sobre os fluídos ambientes, como o som sobre o ar; esses fluidos nos trazem o pensamento, como o ar nos traz o som. Assim, pela comunhão de pensamentos, os homens se assistem entre si e, ao mesmo tempo, assistem os Espíritos e são por estes assistidos ".(9)

A tradicional visita ao túmulo, em massa, não significa que venha trazer satisfação ao "morto", até porque uma prece feita em sua intenção vale mais. É bem verdade que a " visita ao túmulo é uma maneira de manifestar que se pensa no Espírito ausente: é a exteriorização desse fato (...) mas é a prece que santifica o ato de lembrar; pouco importa o lugar se a lembrança é ditada pelo coração. "(10) Conhecemos pessoas (aliás muitas delas) que solicitam, antes mesmo de morrerem, que sejam enterradas em tal ou qual cemitério. Essa atitude, sem sombra de dúvida, demonstra inferioridade moral. "O que representa um pedaço de terra, mais do que outro, para o Espírito elevado?"(11)

Quanto às honras que tributam aos despojos mortais de parentes e amigos, o Espiritismo esclarece que no momento em que o Espírito chega a um certo grau de perfeição não tem mais a vaidade da sociedade humana e compreende a futilidade de tais solenidades, Contudo, faz uma ressalva sobre alguns, pois há "Espíritos que, no primeiro momento da morte, gozam de grande satisfação com as honras que lhes tributam, ou se desgostam com o abandono a que lançam o seu envoltório, pois conservam ainda alguns preconceitos deste mundo."(12)

O defunto assiste ao seu enterro? "Muito freqüentemente o assiste"(13). Esclarecem os Benfeitores - "algumas vezes não percebe o que se passa, se ainda estiver perturbado" (14) - complementam.

Muitas vezes o falecido presencia seus herdeiros em reuniões de partilhas, engalfinhando-se quais chacais em disputa pela herança. "Nessa ocasião que [o falecido] vê quanto valiam os protestos que lhe faziam. Todos os sentimentos se tornam patentes, e a decepção que experimenta, vendo a rapacidade dos que dividem o seu espólio"(15).

Reflitamos juntos: o dia 02 de novembro é consagrado aos falecidos libertos ou aos mortos que ainda estão jungidos à vida material? Existem duas possibilidades de mortos: os que se sentem totalmente livres do arcabouço carnal, porém "vivos" para uma vida espiritual plena, e os que permanecem com a sensação de que, ainda, estão encarnados, porém "mortos" para a vida física, pois somente vivenciam, na espiritualidade, a vida animal. " Para o mundo, mortos são os que despiram a carne; para Jesus, são os que vivem imersos na matéria, alheios à vida primitiva que é a espiritual. É o que explica aquele célebre ensinamento evangélico, em que a pessoa prontificou-se a seguir o Mestre, mas antes queria enterrar seu pai que havia falecido, e Jesus conclamou" (16)- "Deixai aos mortos o cuidado de enterrar seus mortos, tu, porém, vai anunciar o Reino de Deus".(17)

A visitação aos túmulos é um ato exterior, que evoca a lembrança dos entes queridos desencarnados e é a maneira de as pessoas demonstrarem a saudade e o carinho que sentem por eles, mas só terá o seu devido valor, se essa atitude for realizada com subida intencionalidade. Não deve, portanto, representar um compromisso social e nem ser eivada de manifestações de desespero, de cobranças, de acusações, como sói ocorre em muitas ocasiões. Em verdade, se a visitação aos túmulos não é condenável, ela é totalmente desnecessária, até porque o falecido não se encontra no cemitério, podendo ser lembrado e homenageado através da prece, a qualquer momento e em qualquer lugar. Portanto, nossos entes queridos já falecidos podem ser lembrados na própria intimidade e aconchego do lar, ao invés da frieza dos cemitérios e catacumbas.

É óbvio que "faz sentido rememorar com alegria e não lastimar os que já partiram, e que estão plenamente vivos. Finados é uma mistura de alegria e dor, de presença-ausência, de festa e saudade. Aos que ficamos por aqui, cabe-nos refletir e celebrar a vida com amor e ternura, para depois, quiçá, não amargar no remorso. Aos que partiram, nossa prece, nossa gratidão, nossa saudade, nosso carinho, nosso amor!" (18)

Se formos capazes de orar, com serenidade e confiança, transformando a saudade em esperança, sentiremos a presença dos parentes e amigos desencarnados entre nós, envolvendo-nos o coração com alegria e paz. Por esta razão e muitas outras, façamos do dia 2 de novembro um dia de reverência à vida, lembrando carinhosamente os que nos antecederam de retorno à pátria espiritual, e também os que conosco ainda jornadeiam pelos caminhos da existência terrena.

Este artigo está disponível no site do autor (http://meuwebsite.com.br/jorgehessen).

 
REFERÊNCIAS CONSULTADAS
(1) Denis, Leon. O gênio céltico e o mundo invisível. Rio de Janeiro: Ed.CELD. 1995. p. 180
(2) Disponível em http://comunidadeespirita.com.br/Imortalidade/quemtemmedo/estranho%20culto.htm
(3) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2001, Perg. 824.)
(4) _________ Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2001, Pergs. 823 e 823a.
(5) Idem (Ver item 320 e seguintes)
(6) (Mateus 23:27)
(7) _________ Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2001, Perg 320
(8) Idem pergunta321-a
(9) Kardec, Allan. Revista Espírita, dezembro de 1864 – "Da Comunhão do pensamento"
(10) Idem pergunta323
(11) Idem pergunta325
(12) Idem pergunta326
(13) Idem pergunta327
(14) Idem pergunta328
(15) Artigo de João Demétrio intitulado: Finados a Luz do Espiritismo, disponível no site < (16) http://www.feal.com.br/colunistas.php?art_id=6&col_id=9> acessado em 26/10/07
(17) (Lucas 9, 51-62)
(18) Editorial do Jornal Mundo Espírita – novembro.2006

24 de outubro de 2010

MENSAGEM DE ESPERANÇA

Abençoa a aflição de agora. Ela te abre as portas do salão da paz.
Agradece a chuva de fel a cair sobre tua cabeça.
Ela fertiliza o solo da tua alma para a sementeira da luz.
Rejubila-te com o espinho cravado no coração. Ele de adverte dos perigos iminentes de todos os caminhos.
Sorri ante os obstáculos que te impedem o avanço. Eles expressam o valor da tua resistência que os vence lentamente, à medida que jornadeias em triunfo.
Medita em todas as coisas que causam preocupação e dano e retira da dificuldade a melhor parte, como abençoado adubo para o solo das tuas experiências cristãs.
Nenhuma alma jornadeia na Terra sem a contribuição da dor.
Nenhum espírito avança para a luz sem conduzir dificuldades enleadas nos pés..Nenhum ser ascende para Deus sem a travessia do pantanal onde se demoram os homens...
Jesus veio para nortear a Humanidade, porque esta se encontrava perdida, presa ao matagal das paixões.
Todos temos um ontem perdido nos labirintos do crime, a enovelar-nos nas malhas da inquietude que se reflete hoje.
Guarda nalma a alegria inefável que se expressará num amanhã ridente e belo que te espera, após o triunfo sobre as vicissitudes.
Não te desesperes ante o desespero, não te aflijas junto à aflição, não te inquietes ao lado da inquietude, não te atormentes sob tormentos...
A planta que cresce é atraída pela luz, embora repouse sua sustentação na lama das raízes.
A linfa que dessedenta corre aos beijos do sol, embora flua da lama do solo.
O alimento que nutre traz lodo no cerne e o corpo que sustentas é feito de lama.
Mas é com esse material que a alma faz o vasilhame para, realizando a obra do bem, sobreviver.
Não chores, não sofras!
Mantém elevado o pensamento ao Senhor sem te envergonhares.
Alça-te à luz, mesmo que nada representes...
Além da ponte há muitas venturas aguardando por ti.
Além do abismo há luz esfuziante esperando pelo triunfo.
Luta, agora, vence logo.
Não dês tréguas ao mal, mesmo que ele seja partícula ínfima a toldar a visão do teu espírito. Combate-o, sem lhe dares alimento mental.
Todo meio incorreto jamais conduzirá a um fim reto.
Afugente a nostalgia, espanca a tristeza, surra a melancolia com as mãos ativas do trabalho edificante.
Lutar contra tentações mão é somente uma atuação mental; é atividade produtiva na realização do bem.
Realiza tua obra em paz, certo de que estás em Jesus, e seguro de que Jesus está contigo.
E quando tudo parecer esmagar as tuas aspirações e os fardos do mundo pesarem demais sobre os teus ombros lembra-te d'Ele, na manjedoura humilde de desdenhada, para renovar a Humanidade inteira com a claridade inapagável do Seu infinito amor.
Evoca-O nas horas de amargura e sorri agradecendo a bênção do sofrimento.
Só as almas eleitas são tentadas; só elas têm forças para vencerem a tentação.
O cristão não se deve angustiar porque o erro lhe bate à força, nem se deve entristecer porque permitiu que o erro tivesse acesso ao coração... Deve alegrar-se quando expulsa o erro de dentro da casa íntima, mantendo júbilo porque o dominou, conservando a integridade do lar, ao invés de ser dominado pelo desequilíbrio que o afrontava...
Guarda a certeza, alma devotada ao bem, de que Jesus contigo é a vida radiosa e pura em esperança permanente, como mensagem de Deus, em bom ânimo e alento para a tua redenção.
E, disposto a não incidir no capítulo negativo que deve ficar esquecido, reúne as forças e avança resoluto, em demanda da mansão da serenidade que te aguarda, vitorioso, na caminhada do dever.

Da obra: Espírito e Vida. Ditado pelo Espírito Joanna de Ângelis.

23 de outubro de 2010

MENSAGEM DE ENCORAJAMENTO

Companheiro, ponha-se de pé e siga os corações que rumam confiantes.
Doe as aflições ao tempo, cubra-se com o manto da esperança e avance intimorato.
A multidão chora e sorri. Misturam-se lágrimas e sorrisos, abafados pelo retinir das taças finas que contêm os vapores da morte e os fluidos da loucura.
Possivelmente, os anseios atormentam-lhe o coração ansioso... Mas os que buscaram a enganosa liberdade demoram-se nas prisões que a própria delinqüência ergueu, inquietados pelo tigrino clamor das multidões desvairadas e o zurzir impiedoso da consciência em desalinho.
Alçando o pensamento ao Grande Bem, você pode chegar à paz íntima, embora carregue as cicatrizes do sentimento, porfiando na conduta reta.
O tempo é mestre: benfeitor e justiceiro. Tudo refaz, tudo apaga, tudo corrige.
Com o tempo, o grão de areia se transforma em valiosa pérola aprisionada no íntimo da ostra, até um dia...
Com o tempo, o carvão humilde transforma-se em diamante precioso encastelado na montanha poderosa, até um dia...
Com o tempo, a semente pequenina incha no seio da terra, transformando-se, até um dia...
Com o tempo, o débil embrião da vida desenvolve-se modificando a própria estrutura, até um dia...
Com o tempo, o regato humilde atinge o mar, vencendo distância e obstáculo.
Com o tempo, a Mensagem do Cristo se espalhou sobre a Terra, convidando o homem à tecelagem do manto nupcial para o matrimônio da Humanidade com a Vida, um dia...
Enxugue o suor da ansiedade.
Guarde as lágrimas da inquietação.
Amanhã, talvez, o trabalho exija suor e lágrimas em honra à felicidade de ser feliz.
Escude-se na dor dos outros e avance.
Lembre-se dos que caíram somente para os ajudar.
Olhe os vitoriosos da luta e siga com eles.
Não se preocupe por você ter tombado ontem, na escuridão. Agora brilha a luz da verdade em seu caminho.
Vença a tristeza nascida na recordação da própria fraqueza. Encha a alma com a alegria de tudo poder em Cristo.
Todas as coisas passam, na Terra, à semelhança das belas flores e dos espinheiros no mesmo jardim.
No Grande Além, no entanto, há sempre luz.
Não se aflija com as necessidades imperiosas de abandonar as flores da ilusão, sofrendo os espinhos que conduzem à reflexão.
Aceite hoje os acúleos, coroando-lhe a cabeça para que um braseiro de remorsos não lhe arda na consciência mais tarde.
Atenda e socorra o próximo, atendido e socorrido pelo Céu.
Sem desfalecer nem recear, repita: Com Jesus vencerei!, e mais fácil lhe parecerá a redenção.
Amigo do Cristo, ponha-se de pé e siga arrimado ao espírito de luta dos que se alçam à Vida, carregando, como você mesmo, sofrimentos e aflições.

Franco, Divaldo Pereira. Da obra: Crestomatia da Imortalidade. Ditado pelo Espírito Scheilla.

12 de outubro de 2010

EXPRESSÃO FILOSÓFICA DO ESPIRITISMO

O lastro experimental, com a apresentação de fatos comprobatórios, ainda é uma necessidade, pois estamos muito longe, por enquanto, daquele estágio evolutivo em que a mediunidade ficará no puro domínio da intuição , como diz a própria Doutrina. Será uma expressão muito elevada em função, porém do tempo e do melhoramento espiritual do ser humano. Claro que a prática mediúnica, como geralmente falamos, precisa de condições básicas: honestidade pessoal, perseverança, lucidez e prudência do verdadeiro espírito científico. A mediunidade exercitada a esmo, embora bem intencionada, como acontece muitas vezes, tem os seus riscos.

Então, sem perder de vista o valor do estudo filosófico, a que Kardec atribui influência decisiva, é lógico entender que o aspecto mediúnico sempre teve e tem o seu momento de necessidade e relevância, seja pelo consolo das mensagens, seja pelos elementos de estudo e reflexões que oferece. Mas o Espiritismo não se contém todo ele no campo mediúnico, conquanto este lhe tenha servido de ponto de partida, como se sabe. O fenômeno por si só não nos levaria a conseqüências profundas, ou seria apenas objeto de observação ou motivo de deslumbramento, sem a formulação filosófica. Justamente por isso - repetimos kardec - "a força do Espiritismo está em sua filosofia". E por que não está no fato mediúnico? Porque o fato prova e convence objetivamente, não há dúvida, porém não elucida os problemas mais graves de nossa vida, por si mesmo, se não tomar a direção filosófica que conduz à inquirição das causas, dos porquês e das conseqüências.

A comunicação dos espíritos demonstra praticamente a sobrevivência da alma "após a morte". É o elemento básico. Mas é preciso partir daí para as indagações que compreendem esencialmente o destino humano e as conseqüências morais do Espiritismo. A esta altura já é esfera da filosofia e a força do Espiritismo - não faz mal insistir neste ponto - está exatamente nesse corpo de princípios em cuja homogeneidade e coerência e encontramos respostas às mais complexas e momentosas questões de nossa vida: a existência de Deus, a justiça divina e as desigualdades morais, intelectuais e sociais, livre arbítrio e determinismo, a reparação do mal pelas provas, o reajuste de compromissos do passado através das experiências reencamatórias. São temas de reflexão filosófica. Entretanto, a Doutrina estaria incompleta e não decorressem daí as conseqüências morais com que nos defrontamos a cada passo.

Quem, por exemplo, gosta apenas de ver sessões mediúnicas, porque acha interessante ouvir os conselhos dos espíritos ou conversar com os médiuns, mas não vai além desse hábito, que se transforma em rotina com o decorrer do tempo, naturalmente não tem uma visão global do ensino Espírita. Conhece o Espiritismo apenas pela parte fenomênica, que é muito rica de lições e sempre temo que oferecer para estudo e meditação, porém não abre horizonte mais amplo a respeito das leis e causas, a que o fenômeno está sujeito. Há pessoas, por exemplo, que se interessam muito pelo lado experimental do Espiritismo e fazem realmente estudos sérios, mas encaram o fenômeno do intercâmbio entre dois mundos com a mesma neutralidade ou frieza com que os especialistas lidam com os fenômenos da Física ou da Eletrônica, e assim, por diante. A preocupação é exclusivamente com o fenômeno puro e simples. E daí?... Que resulta de tudo isso? Sim, o fenômeno da comunicação entre vivos e mortos é neutro até certo ponto, uma vez que sempre ocorreu no mundo, muito antes das civilizações e, portanto, do Espiritismo. E pode ser observado e registrado em ambientes não espíritas como também pode ser discutido à luz de critérios diversos, nas áreas da Parapsicologia, Psiquiatria, Antropologia, etc., sem nenhuma cogitação quanto às causas e conseqüências. Se o psiquiatra se volta para a procura da anomalidade, já o antropólogo vê o fenômeno dentro de um contexto cultural sem implicações de ordem transcendental, como se costuma dizer.

Quando, porém, o fenômeno está situado no contexto espírita, já não é tão neutro, porque assume um valor moral muito especial e, por isso mesmo, não pode ser considerado indiferentemente, como se estivesse em laboratório de Física ou Química. O fato de o espírito entrar em comunicação com o nosso mundo pela via mediúnica já pressupõe muita responsabilidade para o médium e também para quantos tenham de lidar com esse tipo de trabalho. Há necessidade, portanto, de um preparo moral indispensável. Já se vê que a situação, agora, é bem diferente. E porque, finalmente, o Espiritismo engloba o fato mediúnico numa contextura filosófica de conseqüências tão acentuadas? Exatamente porque a verificação de que os mortos continuam vivos e vêm até nós, identificando-se, interferindo-se, interferindo em nossos atos, "chorando as suas mágoas" ou trazendo alegria e esperança, confirma a tese capital de que a vida continua no tempo e no espaço. Partimos daí, desse princípio essencial, para a especulação filosófica das origens e do chamado sobrenatural. O próprio impulso da sede de saber nos leva a propor questões dessa natureza: que significa esse intercâmbio em nossa vida? Qual o ponto inicial, a causa primária dessa força ou inteligência aparentemente misteriosa? Que benefício poderá esse tipo de conhecimento trazer para a humanidade? Começamos a sentir o conteúdo ético e filosófico do Espiritismo desde o momento em que lhe avaliamos a profundidade e a integridade como Doutrina capaz de corresponder às nossas preocupações com o desconhecido e o nosso destino.

Mas a especulação filosófica, embora necessária e valiosa, ainda não é suficiente para atender satisfatoriamente às necessidades do ser humano quando desperta para os problemas espirituais; torna-se necessário, senão indispensável, além deste passo no conhecimento, procurar as conseqüências dos princípios espíritas na vivência individual e coletiva. E aí, principalmente, que se sente força do Espiritismo em sua filosofia.

Deolindo Amorim

último texto produzido em vida

Harmonia - Revista Espírita nº 64 - Fevereiro/2000

11 de outubro de 2010

INTOLERÂNCIA E PRECONCEITO

Em matéria de prevenções contra qualquer «novidade», há exemplos abundantes, quer na seara religiosa quer na seara científica. Já vimos, embora de relance, algumas ocorrências características dessa mentalidade. Nem toda pessoa que cuida de ciência ou faz carreira em atividade cientifica é cientista de verdade, pois o cientista, na acepção integral, precisa ter vocação, aptidões e qualidades especiais. Há muita confusão a este respeito. Do mesmo modo, nem todo aquele que faz um curso de Direito é jurista de verdade; mas quase todo mundo confunde o jurista com qualquer bacharel, pelo simples fato de ser portador de um diploma. Há pessoas que fazem curso de especialização, pertencem a sociedades científicas etc, mas não têm, na realidade, uma formação compatível com a índole da Ciência. É o caso daqueles que ensinam ciências nas escolas, fizeram todos os cursos, lidam com materiais de laboratório, mas nem sempre reagem como homem de mentalidade científica, porque repelem a priori toda idéia nova, qualquer processo que seja diferente dos padrões aceitos. Há ocasiões em que raciocinam mais em termos de fé, porque prejulgam e às vezes chegam ao extremo de condenar aquilo que ainda não conhecem, ainda não examinaram. Tal procedimento não é de um homem de cultura moderna, é de um vigário de aldeia no século XVI.

Os fatos demonstram, cada dia, que não basta fazer um currículo universitário, não basta apresentar títulos e laureas para ficar verdadeiramente credenciado como cientista. Não. A mentalidade do cientista define-se pelas suas concepções, pelo arejamento de sua cultura, pela independência de suas opiniões, pela sua disposição natural de procurar as manifestações da verdade, venham de onde vierem: o cientista afirma-se, finalmente, pelos horizontes de seu espírito, nunca pelas medalhas que ostenta no peito ou pelos méritos exteriores. É uma qualidade intrínseca, não é extrinseca. Há pessoas que não têm curso sistematizado, nunca passaram por uma Escola Superior, mas possuem naturalmente, uma embocadura científica, uma predisposição muito acentuada para os raciocínios exatos ; na prática, no modo de reagir e proceder, revelam muito mais espírito científico do que certas «eminências galardoadas». Não é a erudição por si só, como não é o planejamento de um curso acadêmico que faz o cientista; a cultura regular fornece apenas os instrumentos, dá orientação básica, mas ninguém sai cientista de uma Universidade, por mais adiantada que seja ela. É preciso ter formação, e a formação é inerente à estrutura psicológica do indivíduo. Há muita gente, por exemplo, que nunca fez curso de Direito, nunca entrou em Faculdade, mas tem muito mais senso jurídico do que determinados bacharéis

O espírito cientifico, se é legítimo ou autêntico, nunca repele uma idéia, uma descoberta, sem exame. Justamente por isso, o patrimônio da Ciência sempre se enriqueceu e há de se enriquecer cada vez mais, aproveitando achegas de toda a ordem, até mesmo quando trazidas por elementos leigos. Nosso índio, lá nas selvas, não ofereceu tanto material terapêutico ao europeu ? Não foi aqui, nos aldeamentos indígenas, com a sua «medicina de beberagens», que os primeiros pesquisadores europeus descobriram as propriedades curativas de certas plantas? Evidentemente o homem de ciência não iria ficar nas «beberagens», fazendo o empirismo dos índios, mas aproveitou o material, observou bem os processos por eles empregados e, depois, foi aperfeiçoar as técnicas na Europa. Mas levou daqui as primeiras noções, o índio foi o instrumento dessa contribuição cientifica, embora sem saber do papel que estava desempenhando.

A visão da ciência tem de ser sempre e cada vez mais ampla. É bom lembrar que um fabricante de cerveja - Joule - e que nem por isso deixou de ser um físico inglês, fazendo as suas observações nas horas vagas, realizou importantes experiências sobre conservação de energia. Quem o diz é Albert Einstein, em trabalho de colaboração com L. Infield, no livro

Evolução da Física (Zahar Editores) ). Lá está escrito: «É uma estranha coincidência que todo trabalho fundamental relacionado com a natureza do calor tenha sido realizado por físicos não profissionais», que consideravam a física como «passa-tempo». A história das ciências, quer nos domínios da Física e da Química, quer nos da Biologia ou de outros ramos, pode enumerar muitos exemplos de pessoas que, não tendo carreira científica, não sendo profissionais, fizeram estudos valiosos: Não seria razoável rejeita uma colaboração, que pode até provocar uma descoberta, pelo fato de se tratar de elemento não integrado nas corporações acadêmicas.

O horror a inovações, como se vê, tanto se manifesta na vida religiosa, como em qualquer campo de atividade cultural. Sempre houve espíritos avessos à renovação de idéias ou de hábitos. O pior, ainda mais, é que certas reações chegam a tomar feição de guerra de prevenções e ódio, por causa de uma teoria ou de uma técnica, desde que saia dos moldes habituais. O caso da Homeopatia, por exemplo. Hahnemann sofreu hostilidade franca dentro do meio médico. Aqui mesmo, no Brasil, quando se iniciou a difusão da nova doutrina, ainda no tempo do Império, a campanha movida pela corrente alopata foi muito forte. E a Homeopatia, a esse tempo, já. era muito conhecida no Velho Mundo. Até o clero, na Bahia, também levantou desconfianças. Quando os homeopatas tentaram introduzir o ensino da doutrina hahnemaniana na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro encontraram oposição frontal. Não houve muita tolerância na cúpula médica. Muita gente combateu a Homeopatia sem fazer estudos sérios, sem qualquer experiência.

O mesmo critério de julgar a priori ainda se observa, até hoje, no que respeita ao Espiritismo e, principalmente, aos médiuns. É verdade que há muita exploração e muita ignorância no campo mediúnico, mas o estudo criterioso pode muito bem separar o «joio do trigo». O Espiritismo é combatido em dois flancos: a igreja e a classe médica, em parte. Não podemos generalizar, tanto mais quanto já é grande o número de médicos nas fileiras espíritas. Mas o combate sistemático ao Espiritismo peca pela base, porque os que o atacam não fazem estudos, não procuram conhecer as verdadeiras teses espíritas. O problema da Igreja é com a Doutrina, por causa dos seus pontos de fé; mas o problema médico, que não cogita do aspecto doutrinário,, está justamente no exercício da mediunidade. É o ponto nevrálgico. Todos nós sabemos que há muita coisa errada na prática mediúnica, muito abuso, em grande parte decorrente do espírito de exploração, por um lado, e da falta de estudo, por outro lado. Também sabemos que o receituário constitui um problema dos mais delicados, inclusive para o próprio meio espírita, justamente por causa de certos fatos desagradáveis. Mas é indispensável considerar, antes de tudo, que o aspecto negativo é apenas uma contingência da ignorância e das fraquezas humanas a que os médiuns também estão sujeitos, ao passo que o aspecto positivo, que sempre existiu e existe, ainda não foi suficientemente estudado no meio médico de nossa terra e de outros países, onde ainda se pede a prisão de médiuns, como se fossem elementos marginais ou perigosos.

O lado mediúnico pode ser considerado fora da área espírita, em determinados casos, porque nem todo médium é espírita. A faculdade mediúnica - é ensino rudimentar da Doutrina - não depende das idéias, das qualidades morais, nem da crença do médium. O uso da mediunidade, entretanto, é um problema essencialmente moral. E é com este ponto, principalmente, que a Doutrina Espírita tem que ver, em todos os casos. Isto, porém, é o que todos nós sabemos, porque estamos no movimento espírita, já nos familiarizamos com as obras doutrinárias e, mal ou bem, nos apresentamos como espíritas. Ainda que este ou aquele caso de médium não seja, a rigor, um caso de Espiritismo, desde que o médium não tenha compromissos com a Doutrina e queira fazer da mediunidade o uso que bem entender, o certo é que, no fim de tudo, aparece o Espiritismo, porque a maioria, em seus raciocínios simplistas, entende que todo médium é espírita e, por esse prisma, faz os seus julgamentos. O Espiritismo é sempre envolvido...

Seja como for, e deixando de lado os princípios doutrinários e a situação particular do médium, se é espírita, budista, católico ou lá o que seja, a mediunidade em si deve ser estudada seriamente, mas com critério científico. Isto ainda não se fez nas altas instituições médicas. Combate-se, condena-se, reclama-se a prisão, mas não se faz um exame in loco, não se procura selecionar os casos para separar «a verdade da impostura». Veja-se o caso Arigó, que é, hoje, um assunto de repercussão internacional. Não interessa discutir crença nem deduzir conseqüências filosóficas ou religiosas, nem igualmente saber o que o médium pensa em matéria de fé: o que interessa, ou devia interessar à Medicina, é o jates, são as operações que ele faz, por processos rudimentares, à luz do dia, para quem quiser ver com os próprios olhos, inteiramente fora das técnicas e das precauções normais da cirurgia. Mas faz, não é verdade ? Como ? Por que ? Como pode ser ?... Partindo destas indagações preliminares, mas necessárias, as corporações médicas, com o verdadeiro espírito cientifico, já deveriam ter designado comissões de especialistas para um exame direto. Que se fez, porém ? Nada disto. O que se viu foi a prisão do médium, com processo criminal, e a pedido exatamente de uma Associação Médica !... Qual a Sociedade cientifica que teve o cuidado de, antes de qualquer pronunciamento, mandar chamar o médium Arigó para um estudo geral, com observação de todos os aspectos do caso ?... Enquanto vários homens de ciência, de outros países, estão interessados em estudar demoradamente o caso Arigó, aqui, no Brasil, o médium foi encarcerado, respondeu a um processo e, por fim. saiu absolvido e aclamado por multidão compacta. Tudo isto seria evitado, se houvesse um critério científico. Não houve infelizmente. E do que se acusou Arigó ? Qual o seu crime?...

Estaria Arigó enquadrado na figura penal do charlatão ? Ora, charlatão é impostor, o indivíduo que impinge falsas drogas ou se apresenta" com uma qualidade que não possui. Arigó nunca vendeu e não vende drogas de falsas propriedades curativas. Não é um impostor, portanto; nunca se disse médico e sempre diz que não é ele quem opera; declara abertamente que é o Dr. Fritz (espírito) quem faz as operações, pois ele, pessoalmente, nada pode fazer de si mesmo. Seria charlatão, incurso em contravenções penais, se algum dia se dissesse médico ou atribuísse aos seus méritos pessoais o resultado das operações de que os jornais dão notícia. (O autor deste artigo esteve em Congonhas e viu Arigó «virar» os olhos de dois pacientes com uma faca comum e, logo depois, os operados saiam da sala, normalmente). Se Arigó não é médico e não se apresenta como tal; se não recebe dinheiro dos que o procuram, porque vive do seu emprego e tem, por isso mesmo, um horário determinado para os trabalhos mediúnicos, fora do serviço ; se ele próprio confessa francamente que as operações são feitas pelo espírito que o assiste, onde está o charlatão, que não explora ninguém, não se considera milagroso, não faz comércio com a faculdade mediúnica ?...

Se ele faz intervenções com êxito sem ser médico, sem conhecer técnica operatória e sem utilizar anestesia nem os instrumentos da cirurgia, e se já está provado que não houve até hoje um caso fatal, se nenhum paciente ficou inutilizado por causa disto, é o caso, então, de algum recurso diferente, seja extra-humano, seja de natureza ainda desconhecida dentro dos conceitos gerais da Medicina. Por que as corporações médicas ainda não foram testar os conhecimentos desse espírito, uma vez que o médium é leigo no assunto, pois funciona apenas como instrumento ? Poderiam fazê-lo, por simples experiência, estabelecendo uma converse,, em linguagem técnica, quando Arigó estivesse mediunizado. Se realmente o espírito do Dr. Fritz fosse um cirurgião, agüentaria uma interpelação em termos médicos, poderia dar respostas certas sobre uns tantos problemas pertinentes à profissão; se, porém, o espírito nada dissesse ou respondesse tolices, revelando completo desconhecimento da Medicina; ou seria - um embusteiro, muito ignorante, ou não seria espírito. Seria o próprio médium, que estaria mistificando ou «inventando» o nome de um espírito. Admitindo-se que fosse mistificação, e que não houvesse espírito algum nem tivesse existido o Dr. Fritz, como explicar as operações sem anestesia, sem os cuidados mais comezinhos da cirurgia, sem o instrumental apropriado ? Seria habilidade excepcional de Arigó ? Ainda que fosse ele muito hábil para fazer tudo isso em poucos minutos, não poderia evitar hemorragias e outras conseqüências, como não poderia prever um acidente operatório. Ainda não houve desses casos. Então há qualquer elemento imponderável, qualquer interferência transcendental ainda não identificada, desde que não seja admitida a existência do espírito.

Porque, então, as corporações médicas não estudam diretamente o problema Arigó, ainda que pondo de lado a questão do espírito ? Infelizmente não foi este o critério adotado. Em lugar de observações rigorosas, com espírito científico, porque se trata de alguma coisa inabitual, o que se deu, lamentavelmente, foi a prisão do médium, como se ainda estivéssemos nos tempos das «bruxas» da Idade-Média. Tudo isto demonstra, enfim, que não é somente do lado religioso que há bitolamento, mas também do lado cientifico, com o mesmo espírito de intolerância dos processos inquisitoriais. Quem não se lembra da campanha contra o movimento espírita, em 1939, no Rio de Janeiro, por causa da «Hora Espírita Radiofônica ?» Qual o objetivo da campanha? Impedir que se difundissem os princípios espíritas pelo rádio. De onde partiu essa infeliz iniciativa ? De uma Sociedade Médica.. A, fonte é outra, mas o sentido é o mesmo: puro sectarismo, que tanto existe nas corporações religiosas, quanto nas agremiações científicas, embora seja paradoxal.

E' bom lembrar, finalmente, que ,a, campanha médica contra o Espiritismo não produziu efeito. Como . decorrência do ambiente, que logo se formou, alguns jornais abriram suas colunas em defesa da Causa espírita. De tudo isto, resultaram algumas ocorrências benéficas, começando pela doação de um terreno para a construção do Hospital Espírita Pedro de Alcântara, no bairro do Rio Comprido. Pouco depois, como reação à campanha, promoveu-se o I Congresso Brasileiro de Jornalistas e Escritores Espíritas, no Rio, tendo-se realizado a sessão inaugural na ABI, no dia 15 de novembro de 1939, data comemorativa do 50° aniversário da República Brasileira. Também, como reação, o saudoso confrade médico Dr. Levindo Melo arregimentou diversos colegas seus, espíritas, e muitos outros confrades, para a fundação da Sociedade de Medicina e Espiritismo do Rio de Janeiro. Ainda houve outras ocorrências provocadas pela atitude de elementos hostis, na classe médica.

Queremos concluir, dizendo apenas que a intolerância, seja no meio religioso, seja no meio médico, como também no meio espírita é sempre prejudicial à cultura e ao progresso do espírito. Ninguém possui a verdade integral, quer em ciência, quer em filosofia, quer em religião. Justamente por isso, devemos procurar a luz do conhecimento, observando, estudando e raciocinando sem preconceitos.

Deolindo Amorim
Revista Internacional de Espiritismo – Dezembro de 1968.

3 de outubro de 2010

KARDEC E A ESPIRITUALIDADE


EM HOMENAGEM AOS 206 ANOS DE NASCIMENTO.

Todas as missões dignificadoras dos grandes vultos humanos são tarefas do Espírito. Precisamos compreender a santidade do esforço de um Edson, desenvolvendo as comodidades da civilização, o elevado alcance das experiências de um Marconi, estreitando os laços da fraternidade, através da radiotelefonia. Apreciando, porém, o labor da inteligência humano, é obrigados a reconhecer que nem todas essas missões têm naturalmente uma repercussão imediata e grandiosa no Mundo dos Espíritos.
Daí a razão de examinarmos o traço essencial do trabalho confiado a Allan Kardec. Suas atividades requisitaram a atenção do planeta e, simultaneamente, repercutiram nas esferas espirituais, onde formaram legiões de colaboradores, em seu favor.
Sua tarefa revelava ao homem um mundo diferente. A morte, o problema milenário das criaturas, perdia sua feição de esfinge. Outras vozes falavam da vida, além dos sepulcros. Seu esforço espalhava-se pelo orbe como a mais consoladora das filosofias; por isso mesmo, difundia-se, no plano invisível, como vasto movimento de interesses divinos.
Ninguém poderá afirmar que Kardec fosse o autor do Espiritismo. Este é de todos os tempos e situações da humanidade. Entretanto, é ele o missionário da renovação cristã. Com esse título, conquistado a peso de profundos sacrifícios, cooperou com Jesus para que o mundo não morresse desesperado. E, contribuindo com a sua coragem, desde o primeiro dia de labor, organizaram-se nos círculos da espiritualidade os mais largos movimentos de cooperação e de auxílio ao seu esforço superior.
Legiões de amigos generosos da humanidade alistaram-se sob a sua bandeira cooperando na causa imortal. Atrás de seus passos, movimentou-se um mundo mais elevado, abriram-se portas desconhecidas dos homens, para que a ciência e a fé iniciassem a marcha da suprema união, em Jesus Cristo.
Não somente o orbe terrestre foi beneficiado. Não apenas os homens ganharam esperanças. O mundo invisível alcançou, igualmente, consolo e compreensão.
Os vícios da educação religiosa prejudicaram as noções da criatura, relativamente ao problema da alma desencarnada. As idéias de um céu injustificável e de um inferno terrível formaram a concepção do espírito liberto, como sendo um ser esquecido da Terra, onde amou, lutou e sofreu.
Semelhante convicção contrariava o espírito de seqüência da natureza. Quem atendeu as determinações da morte, naturalmente, continua, além, suas lutas e tarefas, no caminho evolutivo, infinito. Quem sonhou, esperou, combateu e torturou-se não foi a carne, reduzida à condição de vestido, mas a alma, senhora da Vida Imortal.
Essa realidade fornece uma expressão do grandioso alcance “da missão de Allan Kardec”, considerada no Plano Espiritual.
É justo o reconhecimento dos homens e não menos justo o nosso agradecimento aos seus sacrifícios “de missionário”, ainda porque apreciamos a atividade de um apóstolo sempre vivo.
Que Deus o abençoe.
O Evangelho nos fala que os anjos se regozijam quando se arrepende um pecador. E a tarefa santificada de Allan Kardec tem consolado e convertido milhares de pecadores, neste mundo e no outro.

Emmanuel
Livro: Doutrina De Luz - Francisco Cândido Xavier

1 de outubro de 2010

PARTICIPAÇÃO POLÍTICA DO ESPÍRITA

Da análise sintética dos princípios e fundamentos do Espiritismo, com base em O Livro dos Espíritos, e suas correlações com a Filosofia, Sociologia e Política e a visão de que o homem no mundo ”é um ser social e consequentemente, uns ser político”, concluímos:

COMO O ESPÍRITA NÃO DEVE ATUAR NA POLÍTICA:

1.1. Levar a política partidária para dentro do Centro, das Entidades ou do Movimento Espírita;

1.2. Utilizar-se de médiuns e dirigentes espíritas para apoiar políticos partidários candidatos a cargos eletivos aos Poderes Executivo e Legislativo;

1.3. Catar votos para políticos que, às vezes, dão alguma ”verbinha” para asilos, creche? E hospitais, mas cuja conduta política não se afina com os princípios éticos ou morais do Espiritismo;

1.4. Apoiar políticos que se dizem espíritas ou cristãos, mas aprovam as injustiças, as barganhas, a ”politicagem” (usar a política partidária para interesses egoísticos pessoais ou de grupos a que se ligam);

1.5. Participar da política partidária apenas por interesse pessoal, para melhorar a sua vida e de sua família, divorciado em sua militância político-partidária dos princípios e normas da Filosofia Espírita;

2. COMO O ESPÍRITA DEVE ATUAR NA POLÍTICA:

2.1. O espírita pode e deve estudar e reflexionar sobre os princípios político-filosófico-espíritas no Centro Espírita, pois eles estão contidos em O Livro dos Espíritos, Parte Terceira, das Leis Morais;

2.2. Através da análise, do estudo e da reflexão das normas e princípios acima referidos, o espírita deve identificar o egoísmo, o orgulho e a injustiça nas instituições humanas, denunciando-as e agindo para que elas desapareçam da sociedade humana;

2.3. Confrontar os fundamentos morais objetivos do Espiritismo com os fundamentos morais e objetivos dos partidos políticos, verificando de forma coerente qual ou quais deve apoiar e até mesmo participar como membro atuante, se tiver vocação para tal;

2.4. Participar de organizações e movimentos que propugnem pela Justiça, pelo Amor, pelo progresso intelectual, moral e físico das pessoas. Exemplo: clubes de serviços, sindicato, associações de classe, diretório acadêmico, movimentos de respeito e defesa dos direitos humanos, etc.;

2.5. Fazer do voto um elevado testemunho de amor ao próximo; Considerando que a sociedade humana é dirigida por políticos que saem das agremiações partidárias e suas influências podem ajudar ou atrasar a evolução intelecto moral da humanidade, o voto, realmente, é uma forma de exprimir o amor ao próximo e à coletividade.

Deve, pois, analisar se a conduta do candidato político-partidário tem maior ou menor relação com os princípios morais e políticos (aspecto filosófico) do Espiritismo;

2.6. Participar da agremiação partidária, se tiver vocação para tal, sabendo, no entanto, da responsabilidade que assume nesse campo, já que sua militância deve sempre estar voltada para o interesse do ser humano, em seus aspectos social e espiritual. Para isso, sua ação política deverá estar em harmonia com os valores éticos (morais) do Espiritismo que, em última análise, são fundamentalmente os mesmos do Cristianismo;

2 7. Participar conscientemente da ação política na sociedade, sem relegar o estudo e a reflexão do Espiritismo a plano secundário. Pelo contrário, o estudo e a reflexão dos temas espíritas deverão levá-lo a permanente participação, objetivando a aplicação concreta do Amor e da Justiça ao ser humano, seja individual ou coletivamente.

Do livro: O Espiritismo e a Política de Aylton Guido Coimbra Paiva