7 de dezembro de 2010

VER, OUVIR E ...CORRIGIR-SE

Disse Allan Kardec que “a misericórdia de “Deus é infinita, mas não é cega”. Enorme e pro­funda significação tem essa pequena frase do Codificador. Deve ela exigir demorada reflexão, para que se possa recolher a gama de valiosíssimos ensinamentos ali contidos. A misericórdia não exclui a responsabilidade, nem o perdão isenta o culpado do cumprimento da Lei Divina. É um perdão condicionado, uma espécie de sursis, que adverte o beneficiado de que o mal que praticou terá de ser ressarcido, para que se desfaçam os efeitos perniciosos que dele derivaram. É um perdão pronto a concretizar-se, desde que haja do faltoso empenho real em se recuperar. Se, beneficia­do, persistir no erro, reincidir na falta, sua responsabilidade é aumentada.
Emmanuel considerou que “todas as contas a resgatar pedem relação direta entre credores e devedores”. O perdão pode também significar uma oportunidade para que o decaído se erga, disposto ao esforço regenerativo. O essencial é que aprendamos esta verdade: ninguém progride sem ninguém, que vale pelas palavras do luminoso Espírito acima citado: “Ninguém progride sem alguém.” Na vida, somos todos solidários. Ninguém se basta a si mesmo, pois é necessário que encontremos quem partilhe da nossa caminhada, para que possamos avaliar o grau do procedimento que temos, não nos deixando influenciar pela vaidade, pela inveja, pela presunção de superioridade, pelo orgulho, etc... Tendo alguém conosco, melhor poderemos exercer a vigilância sobre nós mesmos, comparando o que fazemos com o que outros fazem, de maneira a julgarmos se estamos indo certos ou se, pelo contrário, estamos agravando a nossa situação moral. É verdade que isso costuma também ocorrer sem que nos apercebamos. Eis por que Emmanuel disse que “ninguém progride sem alguém”, reconhecendo, porém, que, “em toda parte, o verdadeiro campo de luta somos nós mesmos.
A Lei Divina, atenta, acompanha todos os nossos pensamentos, todos os nossos passos, pois “não é cega”. E se, perdoados, supomos que podemos reverter ao abuso, então será bem mais grave a responsabilidade contraída. Sofremos porque insistimos no desrespeito à Lei de Deus. A dor é o chicote que nos encaminha para a purificação moral e espiritual. É qual enérgico pastor, que procura evitar tresmalhemos e abandonemos o aprisco. Pode ser considerada, em determinadas circunstâncias, um sinal de alarme, para que, prevenidos, evitemos recair no erro. Muita gente, entretanto, considera a dor apenas como um fenômeno físico, quando, na realidade, ela tem uma função altamente regeneradora. Assim como a febre, para o médico, é um aviso de que há algo de irregular que altera o estado normal do individuo, a dor, para o entendimento do espírita, é, em grande número de casos, um chamado à reflexão, uma advertência para que, meditando, busquemos reexaminar a nossa vida até encontrarmos onde falhamos e como falhamos. Não há efeito sem causa, já se costuma dizer.
Para melhor se romper o nevoeiro que nos circunda na Terra, a melhor providência é a humildade. Não a humildade premeditada, oca, aparente, que pode iludir os homens, mas não engana a Deus. É preciso, contudo, que se limpe essa palavra de definições falsas. Ser humilde, do ponto de vista espírita, é ser simples, bom, prestativo, tolerante, mas precavido. É guardar o ânimo sereno, quando se veja envolvido em tribulações e mal-entendidos. O humilde não se arrasta servilmente no chão, não bajula, não se degrada. Veja-se o comportamento de Jesus em todas as passagens de sua curta peregrinação na Terra. Ele deve ser para nós o modelo da humildade. O verdadeiro humilde não se despoja da sua dignidade, mas também não confunde dignidade com orgulho. É paciente diante dos arrogantes, sereno diante dos impacientes, indulgente diante dos faltosos, sem, contudo, permitir que os seus sentimentos possam contribuir, malgrado seu, para agravar a situação daqueles que lhe cruzam o caminho.
Entretanto, o fundamental, o mais importante, por ser essencial, é que não tenhamos a pretensão de ser modelo para ninguém. “No estudo da perfeição, comecemos por vigiar a nós mesmos, corrigindo-nos em tudo aquilo que nos desagrada nos semelhantes.”

Fonte: Reformador – maio, 1977

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