9 de janeiro de 2011

A VITÓRIA SOBRE A MORTE

Com o advento do Espiritismo, os segredos da morte foram desvendados em grande parte e fatos dos mais importantes, sobre o assunto, são revelados pelos próprios Espíritos desencarnados, o que vem transformar de forma edificante não somente muitos aspectos da vida humana, mas também os conceitos sobre as conseqüências da própria morte.
Cremos que, hoje em dia, pelo menos no Brasil, qualquer que seja a religião que se professe, um interesse encantador é despertado em todos os corações, pelos acontecimentos de Além-Túmulo. Todos desejam saber o que desejam as almas dos mortos ao concederem suas mensagens aos médiuns, o que narram sobre a vida espiritual, quais as suas impressões ao atingirem o outro plano da vida.
Basta que um espírita mais loquaz se proponha a ferir o assunto, em qualquer ambiente em que se encontre, para que a maior parte do auditório demonstre interesse em ouvi-lo, passando a fazer indagações por vezes curiosas e inteligentes, atestando a ânsia do coração de cada um pela posse de um ideal que palpita nos refolhos de sua alma.
A influência da Doutrina Espírita na renovação do caráter humano, porém, e, portanto, na reforma dos costumes e, conseqüentemente, na melhoria da sociedade, faz-se notável pelo que vemos suceder nos agrupamentos espíritas que se vão formando: - por toa à parte, indivíduos preocupados em se corrigirem de defeitos e vícios graves, interessados em servir o próximo desta ou daquela forma, aliviando-lhe as misérias físicas ou as amarguras morais. A maioria, desinteressada já das futilidades e ilusões da sociedade, prefere preocupações nobilitantes, que estão a atestar a excelência da moral que vem aprendendo na Doutrina dos Espíritos. Outros, atingindo mesmo a abnegação, no cumprimento de tarefas com que se comprometeram ao reencarnar, colocam-se a frente de obras de assistência social, cujo padrão de fraternidade é incontestável. Por isso mesmo, o espírita poderá não ser um homem virtuoso, na expressão literal do termo, mas o que se observa é que todos são, não obstante, homens honestos, de boa vontade e já incapazes de praticar o mal!
“Conhece-se a verdadeira religião pelo número de homens de bem que será capaz de produzir” – disse, em outras palavras, o insigne Codificador do Espiritismo, Allan Kardec. Isso, nos dias atuais, quando a Humanidade se debate diante do espectro dos flagelos que ameaçam cair sobre a Terra, afim de sacudi-la, despertando a atenção dos seus habitantes para a prática do Bem e da Justiça, é consolador para os espíritas, que encontram na magnitude da Doutrina a própria redenção de faltas passadas e o reconforto de amarguras antes julgadas insolúveis.
Não se diga, porém, que tais fenômenos, mais importantes do que presumimos somente se verificam entre brasileiros. Como adepto do Esperanto que também somos obtendo noticiário do movimento espírita em alguns países estrangeiros, temos verificado certa preocupação em se iniciarem obras de alívio ao sofredor, através dos aspectos da caridade material e moral. E, se no seio de muitas agremiações espíritas estrangeiras os livros de Allan Kardec ainda não foram devidamente adotados, observamos que valiosos livros espíritas já correm o mundo, traduzido para o Esperanto pela FEB, e que os Mentores Espirituais, que por lá se comunicam, também ensinam, Como aqui, com outras palavras, que – Fora da Caridade não há Salvação – e que desde os tempos de Moises já era dito que não é possível amar a Deus sem servir ao próximo.
Tais divagações acudiram espontaneamente ao nosso cérebro ao lermos certo trecho da excelente obra de Ernesto Bozzano, “A Crise da Morte”, livro fecundo em lições sobre as primeiras impressões de um Espírito recém-desencarnado. Vamos encontrar ali, no Décimo Caso, o relato de uma entidade espiritual que nos oferece ensinamento profundo, concorrendo para uma outra feição de reeducação necessária ao adepto do Espiritismo, muito embora este aspecto de ensinamento seja conhecido desde os primeiros anos da Codificação. Diz o comunicante, entre outros pontos interessantes do seu ditado:
- “Concinto, pois, os vivos, que percam alguns dos seus parentes – qualquer que possa ser -, a que, a todo custo, se mostrem fortes, abafando toda manifestação de mágoa e apresentando-se de aspecto calmo nos funerais. Comportando-se assim determinarão considerável melhoria na atmosfera que os cerca, porquanto a aparência de serenidade nos corações e nos semblantes das pessoas que nos são caras emite vibrações luminosas, que nos atraem como, à noite, a luz atrai a borboleta. Por outro lado, a mágoa dá lugar a vibrações sombrias e prejudiciais a nós outros vibrações que tomam aspecto de tenebrosa nuvem a envolver aqueles a quem amamos. Não duvideis de que somos muito sensíveis às impressões vibratórias que nos chegam por efeito da dor dos que nos são caros.”.
Assim sendo, necessariamente teremos de medir diferença existente entre essa encantadora Doutrina Espírita e as antigas crenças que emprestavam ao fenômeno natural, que é a morte, um aparato de tal forma lúgubre, um noticiário de tal forma desolador para os que ficavam que o desconsolo, o desespero e até desgraças, como a loucura e o suicídio, se sucediam em face da partida, para o Além de ser amado. A Doutrina Espírita, devassando ao homem a vida do Além-Túmulo, não só concorre para o seu progresso moral, infiltrando-lhe o desejo sublime do aperfeiçoamento indispensável a um estado feliz depois da morte, como, acima de tudo, o leva a convicção de que a morte não existe, pois no seio de Universo palpitante de vida eterna não existirá local para qualquer espécie de aniquilamento. Confirma-se assim a observação do apóstolo Paulo na sua 1 ª Epístola aos Coríntios:
“Porque importa que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade; e que este corpo mortal se revista da imortalidade”. E quando este corpo mortal se revestir da imortalidade, então se cumprirá a palavra da Escritura:
_ “Tragada foi à morte na vitória. Onde está ó morte, a tua vitória? Onde está ó morte, o teu aguilhão?” Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei¹. Porém rendamos graças a Deus, que nos deu a vitória por Nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, meus amados irmãos, estais firmes e constantes, crescendo sempre na obra do Senhor, sabendo que vosso trabalho não é vão no Senhor.” (Cap. 15. vv. 53 a 58).

Yvonne A. Pereira

Livro: A Luz do Consolador



1. A lei da reencarnação para as almas culpadas, morte temporária do espírito.

8 de janeiro de 2011

A FUNÇÃO DO CARMA


“Os pecados de alguns homens são notórios e levam a juízo, ao passo que os de outros, só mais tarde se manifestam.” Paulo – I Timóteo, 5:24

Errar não compensa. Acontece que a ignorância, indubitavelmente, favorece o erro e, para que ela desapareça do mundo, teremos muito “pano para manga”. O maior ideal nosso deve ser a busca da instrução por todos os meios e a procura da educação por todos os métodos.
Só os Espíritos superiores não erram, mercê de seu saber especulado na Terra. Eles já percorreram todos os caminhos e palmilharam todos os roteiros, reunindo, aqui e ali, as experiências necessárias para atingir o grau evolutivo que conquistaram. A idade deles é avançada, no campo do saber universal. Mas em se tratando dos homens na Terra, ainda existe muita estrada para percorrer e, nessas estreitas vias, é errando que se aprende, é aprendendo que se ilumina para a libertação espiritual.
Nós só erramos por ignorância. Uns são menos culpados, por lhes faltarem os primeiros albores da compreensão, que é a teoria. Outros têm maiores culpa, pois conhecem a teoria, ignorando apenas a prática e, por isso, não encontram forças para colocar em função o que realmente sabem. São mais culpados, mas em parte, são também ignorantes.
Um estudante de medicina – a não ser os que cursam os últimos anos – conhece a arte de curar, puramente na teoria, ignorando a prática, que é outra dimensão do conhecimento. Somente quando começa a viver o drama do clínico abalizado é que a ignorância começa a desaparecer da sua contextura intelectual.
Portanto, há dois tipos de saber que livram o ser da força do carma: o teórico e o prático.
Enquanto os dois não se unirem, a alma ainda sofrerá, debatendo-se nos difíceis caminhos do mundo à procura da perfeição. Quando o Espíritos é portador destas duas linhas de entendimento, começa a libertar-se, tornando-se Espírito puro, Senhor do carma e do destino.
Todavia, não há benção especial para nenhum filho de Deus. Todos têm as mesmas oportunidades, no vasto campo evolutivo da vida. As diferenças que se encontram nas almas, são os diferentes estados evolutivos de cada uma, pois é da lei que na recua perante o progresso.
Queiramos ou não, estamos andando para frente.
Nós não percebemos, com a sensibilidade que temos a vertiginosa velocidade da Terra em torno do Sol, e o movimento de “pião” em torno de si mesma. Ainda assim, ela gira, obedecendo às leis mecânicas que muitas vezes escapam à compreensão humana, por ser oriunda de Deus, que labora na natureza para a perfeição da iluminação dos Espíritos. A nossa consciência dos mecanismos das leis quase não existe, por nos faltar qualidades. A evolução, porém, vai nos conferindo, paulatinamente, meios de observação, e aí nos compete sentir os princípios da verdade maior, e sustentar uma fé mais pura, que possa encarar todos os raciocínios, frente a frente, no dizer de Allan Kardec.
Todos nós somos devedores. Isso é notório, mas nem todos pagamos ou recebemos dívidas na mesma época. Uns já liquidaram, outros estão pagando agora e outros ainda irão saldar depois, mas todos passam pelos mesmos processos da contabilidade divina, métodos estatuídos por Deus, para a evolução das criaturas.
Há almas que erram a vida toda na carne, sem serem chamadas em juízo na Terra, no céu ou em si mesmas. E é esse caso que suscita, em muitos, a revolta pela vida ou contra Deus, revolta cujo móvel único é a ignorância. Aquele que pensa ludibriar a lei, que aparentemente está sendo protegido pela sorte, é o mais desfavorecido, por não possuir evolução bastante para suportar os contrastes nos campos operacionais da consciência. São, na verdade, crianças, razão por que a Inteligência Divina não lhes colocou fardos pesados nos ombros, pelo fato de serem frágeis. No tempo certo, a lei da reencarnação tomará conta das suas artimanhas e selecionará todos os seus problemas, trazendo-os ao envelope do corpo quantas vezes forem necessárias.
As faltas dos Espíritos que são logo corrigidas é por tratar-se de almas com as medidas cheias de iniqüidades, almas mais velhas, cujo início de resgate já começou a operar, e todo erro sempre lhes traz conseqüências desastrosas. Esses Espíritos estão sendo chamados para o arrependimento de tudo o que fizeram e encontrando oportunidades para se desfazerem do mal que causaram aos outros.
A prática do mal, durante muito tempo, encheu a taça do coração, levedou a massa divina do Espírito e perturbou, por completo, as fibras mais íntimas da alma. Essa, estando prejudicada, interessa-se por desfazer tudo isso, nas condições oferecidas pelo carma. Esses Espíritos são chamados para saldarem as dívidas no banco universal da consciência divina, em completa associação com a própria consciência.
Sejamos complacentes para com os que erram tolerantes para com aqueles que nos ofendem e sejamos persistentes no bem.
Não vamos nos perturbar com as vantagens e desvantagens dos outros, pois cada um tem o seu dia, a sua oportunidade.

“Os pecados de alguns homens são notórios e levam a juízo, ao passo que os de outros, só mais tarde se manifestam.”

Pelo Espírito Miramez 

5 de janeiro de 2011

DOAÇÃO DE ÓRGÃOS

Na segunda metade do século 19, época do surgimento do Espiritismo por meio da obra de Allan Kardec, a medicina oficial ainda era bastante primitiva. Os médicos discutiam, por exemplo, a eficácia ou não das sangrias. Essa equivocada prática era o método terapêutico mais utilizado desde a antiguidade. Supondo um excesso de sangue, ou a presença de sangue enfermo, os médicos retiravam consideráveis quantidades dele do paciente, utiliizando estiletes ou sanguessugas. Era reecomendada para inflamações, dor de garganta e outras moléstias.
Alguns médicos a indicavam até para as pessoas sadias! A medicina moderna teve início apenas no último século. Apesar de o enxerto de pele ter sido descrito pelo suíço Jacques Reverdin em 1869, foi necessária a invenção dos rins artificiais para dar impulso no desenvolvimento dos transplantes de órgãos nas décadas de 50 e 60. Nesse período começaram a surgir as soluções para a rejeição, do organismo do paciennte, dos órgãos. Nos anos 80, centenas de enfermos estavam sendo conduzidos para operações de transplante.
Mas o aparecimento dos transplantes de órgãos trouxeram uma diversidade de questões éticas e legais para a medicina. Até então, a morte era constatada pela parada da respiração. Era um hábito as pessoas aproximarem um pequeno espelho à boca e ao nariz do enfermo se não surgissem pequenas gotículas de vapor significava a extinção da respiração e a morte se confirmava. O avanço, na utilização de equipamentos artificiais mantenedores das funções vitais, permitia preservar a vida mesmo depois de extintas as funções cerebrais, possibilitando o transplantes de órgãos como rins e coração. Assim, a comprovação do óbito mudou de parada respiratória para morte cerebral.
Os critérios iniciais para constatar a morte cerebral foram estabelecidos em 1968 por um comitê da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Entre os médicos, essa comissão tinha um teólogo e um historiador. No ano anterior, Christian Barnard tinha realizado, na África do Sul, o primeiro transplante de coração. No entanto, por incrível que pareça, apesar da morte cerebral ser cientificamente comprovada, ainda "não existem fundamentos científicos para o diagnóstico clínico de morte encefálica" com precisão, afirmou o médico Cícero Galli Coimbra (do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia Universidade Federal de São Paulo).
Portanto, o diagnóstico de morte cerebral, além de ser bastante recente, é controverso no meio médico. "O debate em torno da validade e do uso prático dos critérios utilizados hoje em vários países para diagnosticar a morte cerebral é intenso, ainda mais quando se leva em conta que a retirada dos órgãos de um paciente para transplantes depende desse diagnóstico. A polêmica envolve temas abstratos como vida e morte", explicou o médico Flávio Freinkel Rodrigues (da Universidade Federal do Rio de Janeiro). A questão filosófica da definição da vida e da morte torna-se fundamental para conciliar moral e ciência. Podemos afirmar que o Espiritismo, pesquisando o fenômeno da morte de forma positiva, é a melhor resposta para atender essa questão.
O dogma religioso define que a alma se confunde com a vida orgânica. Segundo essa definição, um corpo vivo, apesar da morte cerebral, estaria sempre ligado à alma. Cria-se um impasse entre religião e ciência. Para o Espiritismo, entretanto, o fenômeno da morte não é uma questão abstrata. A fisiologia do espírito evidencia a existência do corpo espiritual: o perispírito. A morte está relacionada com o desligamento completo entre perispírito e corpo físico. A vida orgânica é mantida pelo fluido ou princípio vital (veja matéria nesta edição). Portanto, um corpo humano pode continuar vivo quando o espírito, com seu perispírito, já tiver se desligado completamente. A vida orgânica, mantida pelo fluido vital, pode existir independente da alma.
Essa explicação está bastante evidente na questão 136 de O Livro dos Espíritos. "A vida orgânica pode animar um corpo sem alma, mas a alma não pode habitar um corpo privado de vida orgânica". O diagnóstico preciso da morte está relacionado com a ligação entre perispírito (substância semimaterial que serve de primeiro envoltório ao espírito) e corpo (ser material análogo ao dos animais e animado pelo mesmo princípio vital).

O QUE É MORTE ENCEFÁLICA?
No indivíduo sadio, a pressão normal no crânio permite a passagem do sangue impulsionado pela pressão sanguínea (há até espaço livre, preenchido por líquido). No indivíduo com trauma craniano severo, ocorre o edema (inchaço) progressivo do cérebro. Como esse órgão se situa dentro do crânio, uma estrutura óssea rija e inextensível, o edema causa a elevação gradual da pressão intracraniana. Dessa maneira, os vasos sanguíneos internos são comprimidos, podendo levar, em horas ou dias, a suspensão completa da circulação local, caracterizando-se a morte encefálica, que é irreversível.
Quando a medicina estiver aliada à ciência espírita, os médicos e pesquisadores terão evidências positivas da ética e da moral. Então, não haverá limites para se alcançar a saúde integral do homem.

Revista Universo Espírita

3 de janeiro de 2011

ESPÍRITA NÃO CONDENA NINGUÉM


1. Existe, na tradição forense, uma idéia segundo a qual os espíritas são os jurados que melhor atendem aos interesses da defesa, uma vez que, de acordo com a voz corrente, “espírita não condena ninguém”. Durante mais de trinta anos de atuação na tribuna do júri, não conseguimos comprovar o acerto dessa afirmativa. Constatamos, isto sim, uma grande tendência condenatória entre os seguidores das religiões reformadas, e uma acentuada indefinição entre os católicos, que ora pendem para um lado, ora para o outro.

Como constituem a maioria do universo religioso brasileiro, são, por conseguinte, os mais visados e os que mais sofrem as influências de toda sorte a que se acham sujeitos os jurados de um modo geral. Por isso, torna-se difícil uma conclusão mais concreta a respeito de suas tendências. O certo é que as mais absurdas decisões do Tribunal do Júri, tanto absolutórias como condenatórias, partem, geralmente, de conselhos de sentença dos quais não participam seguidores de outros credos religiosos. Atualmente, com crescimento da Igreja Universal, e de outras que guardam semelhança com ela, o fenômeno vem perdendo sua força, sobretudo no que tange à aceitação pela sociedade dos chamados “crentes”, o que nem sempre acontece com relação ao Espiritismo e aos espíritas.

2. Nenhum argumento sério autoriza a existência desse procedimento, a não ser o preconceito e o radicalismo religioso. Durante algum tempo, quando ainda não conhecíamos nada de Espiritismo, aceitamos tal entendimento sem maiores indagações e sem a menor preocupação de sondar a sua veracidade. Agimos, neste caso, com a tranqüilidade própria dos ignorantes. Mais tarde, já devidamente esclarecidos a seu respeito, constatamos que tudo não passava de mais um dos enormes equívocos que boa parte das pessoas alimenta quanto a ele, Espiritismo.

Verificamos, por outro lado, que os jurados espíritas condenavam ou absolviam, tanto quanto os demais.

É de se lamentar, no entanto, que essa falsa visão não se acha restrita apenas aos não-espíritas, porquanto é perfilhada por muitos que se dizem adeptos da Doutrina.

Trata-se de um dos muitos problemas que a perspicácia de Allan Kardec detectou, conforme se pode ver no capítulo XXIX, item 334, de O Livro dos Médiuns.

O termo espírita carrega, no entendimento vulgar, uma série de conotações eivada de erros e de preconceitos. Abrange um universo enorme, que vai desde os integrantes do sincretismo religioso, sob as suas variadas denominações, até aos seguidores dos cultos e das seitas em que o exotismo ocupa o lugar de maior destaque, passando, ainda, pelas inúmeras veredas de quantos se definem espiritualistas. Essas formas de religiosidade, embora merecedoras de respeito, não guardam nenhuma afinidade com a Doutrina dos Espíritos, e a confusão, consciente ou inconsciente, que se estabeleceu entre elas e o Espiritismo, enseja raciocínios e ilações inteiramente distantes da verdade, como a de se imputar aos espíritas uma conduta de alienação em face das questões sociais. Essa atitude os acompanharia também, quando convocados a julgar seus irmãos pelo cometimento de um ilícito penal, cujo julgamento se inscreve no rol dos que são da competência do Júri Popular, fixada pelo artigo 5o, XXXVIII, da Constituição Federal.

3. O raciocínio peca, contudo, pela total ausência de razão. Ao espírita não é vedado julgar, ainda que desse encargo advenha a inevitável aplicação de uma pena.

Ele, como qualquer outro cidadão, não pode fugir da responsabilidade que o Estado lhe delegou, ao convocá-lo para o serviço do júri. Seria ótimo se a sociedade moderna já não mais convivesse com a criminalidade e que, no lugar das penitenciárias e das cadeias, estivesse edificada uma escola. Todavia, esse grau de desenvolvimento e evolução ainda se acha muito distante de ser alcançado.

A pena, por isso mesmo, no estágio atual da Humanidade, permanece, teoricamente, como o instrumento mais eficaz de que a sociedade dispõe para restabelecer o equilíbrio social abalado pela ação do delinqüente.

A concepção de que o espírita, por uma questão de princípios, não condena ninguém não se harmoniza com o sentimento de responsabilidade que a ele cabe assumir diante de si, de Deus e da sociedade, sob pena de ser considerado, nos termos do magistério de Kardec, mais um “espírita de nome” (a respeito, Revista Espírita, novembro de 1861, p. 495).

4. O que Jesus proscreveu foi o julgamento apressado, afoito, impregnado de má-fé, no qual, muitas vezes, a verdadeira intenção do julgador permanece oculta, a exemplo do que ocorreu no episódio envolvendo a mulher adúltera.

No Sermão do Monte (Mateus, 7: 1 e 2), Ele nos adverte quanto a essa maneira de julgar. Ela é típica do chamado juízo temerário, caracterizado pela impiedade ou ditado pelas aparências que, costumeiramente, enganam.Uma interpretação exclusivamente literal e isolada desses dois versículos poderia levar à absurda conclusão de que toda e qualquer forma de julgamento é defesa aos cristãos. Os juízes de direito seriam, pois, vítimas de uma autêntica “injustiça divina”, porquanto nenhuma esperança teriam quanto à sua vida futura, em face de sua própria atividade profissional.

Não obstante, todos sabemos da sua importância dentro da sociedade, em virtude dos constantes e cada vez mais numerosos conflitos que afloram a todo instante em seu seio, e do elevado índice de criminalidade dos dias atuais.

5. O sentido da proibição se completa e se integra no contexto evangélico através dos versículos 3, 4 e 5 da mesma narrativa de Mateus: – “E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho?

Ou como dirás a teu irmão:

Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, estando uma trave no teu?

Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então, cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão”.

De mais a mais, durante o seu messiado, Jesus, em diversas oportunidades, estabeleceu juízos de valor, e, em conseqüência, julgou, contrariando, dessarte, os que sustentam a proibição absoluta do julgamento. Na sua explicação sobre a gravidade e a dimensão das ofensas feitas ao nosso irmão, foi de meridiana clareza ao não excluir do julgamento humano os autores dessas ofensas: “Ouvistes que foi dito aos antigos:

Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo.

Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão será réu de juízo, e qualquer que chamar a seu irmão de raca será réu do Sinédrio; e qualquer que lhe chamar de louco será réu do fogo do inferno”. (Mateus. 5:21-23.)

A expressão réu de juízo significa os diversos graus da Justiça humana: a outra, réu do Sinédrio, se refere à Justiça de Deus. A primeira, contudo, não exclui a segunda, em virtude de sua inexorabilidade, traduzida pela regra imperativa do a cada um será dado de acordo com suas obras. Ninguém, mesmo quem já foi compelido a prestar conta de suas ações ao Judiciário terreno, está isento de ser julgado e sancionado pela Justiça Divina. Isso integra o seu mecanismo operacional, que jamais dispensa a “reparação pelo dano causado”, exigindo que, na execução de suas penas, “até o último jota e o último ponto” sejam fielmente cumpridos.

O episódio da interpelação do Cristo acerca da licitude, ou não, do pagamento dos impostos devidos a Roma ratifica inteiramente esse entendimento, uma vez que Ele fez questão de destacar a existência de duas espécies de jurisdição, a humana e a divina, mandando dar a Deus o que era de Deus e ao homem o que lhe pertencia.

6. A única conclusão razoável diante da posição evangélica quanto ao julgamento é a de que ela se reveste de caráter relativo, e não absoluto, não obstante as ratificações posteriores de Paulo e Tiago (Romanos, 14:13 e Epístola Universal, 4:12, respectivamente). Tomada ao pé da letra importaria em um verdadeiro caos para toda a Humanidade e nenhuma organização política conseguiria sobreviver à falência que provocaria.

Todo homem de bem, profitente de qualquer religião que seja, não deve, pois, julgar pelas aparências, movido pela simpatia ou antipatia, pelos interesses políticos, pelas rivalidades de qualquer espécie, pelas filiações religiosas, enfim, por todos os fatores que atuam na formação da opinião pública e que, na maioria das vezes, somente se prestam para conduzir ao passionalismo irracional e a injustiças inomináveis.

Qualquer julgamento, sobretudo aqueles da competência da Justiça Criminal, deve procurar sempre o amparo da verdade histórica, embora essa nem sempre se identifique com a verdade processual.

Nos casos duvidosos, mal esclarecidos ou tendenciosos, a consciência jurídica, calcada na noção do justo e do injusto que cada um traz dentro de si, não autoriza uma decisão condenatória. Não se trata, porém, de apanágio exclusivo de alguma confissão religiosa, porquanto nada mais é do que a simples aplicação de um brocardo jurídico de tradição milenar.

É o famoso in dubio pro reo do Direito Romano, ainda de uso corrente na atualidade, cuja existência é anterior ao Cristianismo e que, em face disso, não pode ser invocado para justificar a inverídica proibição de julgar e condenar imputada aos espíritas.

Setembro 2006 • Reformador

2 de janeiro de 2011

OPORTUNIDADE E TEMPO – ANO NOVO

Todos querem iniciar mais um ano com esperanças renovadas. É um momento de alegria e confraternização.

As rogativas, em geral, são para que se tenha muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender.

Mas será que se tivermos tudo isso teremos a garantia de um ano novo cheio de felicidade?

Se Deus nos dá saúde, o que normalmente ocorre é que tratamos de acabar com ela em nome das festas. Sejam com os excessos na alimentação, bebidas alcoólicas, tabaco, ou outras drogas não menos prejudiciais à saúde.

Não nos damos conta de que a nossa saúde depende de nós.

Dessa forma, se quisermos um bom ano, teremos que fazer a nossa parte.

Se pararmos para analisar o que significa a passagem do ano, perceberemos que nada se modifica externamente.

Tudo continua sendo como na véspera. Os doentes continuam doentes, os que estão no cárcere permanecem encarcerados, os infelizes continuam os mesmos, os criminosos seguem arquitetando seus crimes, e assim por diante.

Nós, e somente nós podemos construir um ano melhor, já que um feliz ano novo não se deseja, se constrói.

Poderemos almejar por um ano bom se desde agora começarmos um investimento sólido, já que no ano que se encerra tivemos os resultados dos investimentos do ano imediatamente anterior e assim sucessivamente.

Poderemos construir um ano bom a partir da nossa reforma moral, repensando os nossos valores, corrigindo os nossos passos, dando uma nova direção à nossa estrada particular.

Se começarmos por modificar nossos comportamentos equivocados, certamente teremos um ano mais feliz.

Se pensarmos um pouco mais nas pessoas que convivem conosco, se abrirmos os olhos para ver quanta dor nos rodeia, se colocarmos nossas mãos no trabalho de construção de um mundo melhor, conquistaremos, um dia, a felicidade que tanto almejamos.

Só há um caminho para se chegar à felicidade. E esse caminho foi mostrado por quem realmente tem autoridade, por já tê-lo trilhado. Esse alguém nós conhecemos como Jesus de Nazaré, o Cristo.

No ensinamento "amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo" está a chave da felicidade verdadeira.

Jesus nos coloca como ponto de referência. Por isso recomenda que amemos o próximo como a nós mesmos nos amamos.

Quem se ama preserva a saúde. Quem se ama não bombardeia o seu corpo com elementos nocivos, nem o espírito com a ira, a inveja, o ciúme etc.

Quem ama a Deus acima de todas as coisas, respeita sua criação e suas leis. Respeita seus semelhantes porque sabe que todos foram criados por ele e que ele a todos nos ama.

Enfim, quem quer um ano novo repleto de felicidades, não tem outra saída senão construí-lo.

Importa que saibamos que o novo período de tempo que se inicia, como tantos outros que já passaram, será repleto de oportunidades. Aproveitá-las bem ou mal, depende exclusivamente de cada um de nós.



***

O rio das oportunidades passa com suas águas sem que retornem nas mesmas circunstâncias ou situação.

Assim, o dia hoje logo passará e o chamaremos ontem, como o amanhã será em breve hoje, que se tornará ontem igualmente.

E, sem que nos dermos conta, estaremos logo chamando este ano que se inicia de ano passado e assim sucessivamente.

Que todos possam aproveitar muito bem o tesouro dos minutos na construção do amanhã feliz que desejamos, pois a eternidade é feita de segundos.•.

Autor: Equipe da Redação do Momento Espírita, com base no livro Repositório de sabedoria, verbetes: oportunidade e tempo.