31 de outubro de 2011

DIAS DIFÍCEIS


Há dias que parecem não ter sido feitos para ti.
Amontoam-se tantas dificuldades, inúmeras frustrações e incontáveis aborrecimentos, que chegas a pensar que conduzes o globo do mundo sobre os ombros dilacerados.
Desde cedo, ao te ergueres do leito, pela manhã, encontras a indisposição moral do companheiro ou da companheira, que te arremessa todos os espinhos que o mau humor conseguiu acumular ao longo da noite.
Sentes o travo do fel despejado em tua alma, mas crês que tudo se modificará nos momentos seguintes.
Sais à rua, para atender a esse ou àquele compromisso cotidiano, e te defrontas com a agrestia de muitos que manejam veículos nas vias públicas e que os convertem em armas contra os outros; constatas o azedume do funcionário ou do balconista que te atende mal, ou vês o cinismo de negociantes que anseiam por te entregar produtos de má qualidade a preços exorbitantes, supondo-te imbecil. Mesmo assim, admites que, logo, tudo se alterará, melhorando as situações em torno.
Encontras-te com familiares ou pessoas amigas que te derramam sobre a mente todo o quadro dos problemas e tragédias que vivenciam, numa enxurrada de tormentos, perturbando a tua harmonia ainda frágil, embora não te permitam desabafar as tuas angústias, teus dramas ou tuas mágoas represadas na alma. Em tais circunstâncias, pensas que deves aguardar que essas pessoas se resolvam com a vida até um novo encontro.
São esses os dias em que as palavras que dizes recebem negativa interpretação, o carinho que ofereces é mal visto, tua simpatia parece mero interesse, tuas reservas são vistas como soberba ou má vontade. Se falas, ou se calas, desagradas.
Em dias assim, ainda quando te esforces por entender tudo e a todos, sofres muito e a costumeira tendência, nessas ocasiões, é a da vitimação automática, quando se passa a desenvolver sentimentos de auto piedade.
No entanto, esses dias infelizes pedem-nos vigilância e prece fervorosa, para que não nos percamos nesses cipoais de pensamentos, de sentimentos e de atitudes perturbadores.
São dias de avaliação, de testes impostos pelas regentes leis da vida terrena, desejosas de que te observes e verifiques tuas ações e reações à frente das mais diversas situações da existência.
Quando perceberes que muita coisa à tua volta passa a emitir um som desarmônico aos teus ouvidos; se notares que escolhendo direito ou esquerdo não escapas da ácida crítica, o teu dever será o de te ajustares ao bom senso. Instrui-te com as situações e acumula o aprendizado das horas, passando a observar bem melhor as circunstâncias que te cercam, para que melhor entendas, para que, enfim, evoluas.
Não te olvides de que ouvimos a voz do Mestre Nazareno, há distanciados dois milênios, a dizer-nos: No mundo só tereis aflições...
Conhecedores dessa realidade, abrindo a alma para compreender que a cada dia basta o seu mal..., tratarás de te recompor, caso tenhas te deixado ferir por tantos petardos, quando o ideal teria sido agir como o bambuzal diante da ventania. Curvar-se, deixar passar o vendaval, a fim de te reergueres com tranqüilidade, passado o momento difícil.
Há, de fato, dias difíceis, duros, caracterizando o teu estádio de provações indispensáveis ao teu processo de evolução. A ti, porém, caberá erguer a fronte buscando o rumo das estrelas formosas, que ao longe brilham, e agradecer a Deus por poderes afrontar tantos e difíceis desafios, mantendo-te firme, mesmo assim.
Nos dias difíceis da tua existência, procura não te entregares ao pessimismo, nem ao lodo do derrotismo, evitando alimentar todo e qualquer sentimento de culpa, que te inspirariam o abandono dos teus compromissos, o que seria teu gesto mais infeliz.
Põe-te de pé, perante quaisquer obstáculos, e sê fiel aos teus labores, aos deveres de aprender, servir e crescer, que te trouxeram novamente ao mundo terrestre.
Se lograres a superação suspirada, nesses dias sombrios para ti, terás vencido mais um embate no rol dos muitos combates que compõem a pauta da guerra em que a Terra se encontra engolfada.
Confia na ação e no poder da luz, que o Cristo representa, e segue com entusiasmo para a conquista de ti mesmo, guardando-te em equilíbrio, seja qual for ou como for cada um dos teus dias.
Sentes o travo do fel despejado em tua alma, mas crês que tudo se modificará nos momentos seguintes.
Sais à rua, para atender a esse ou àquele compromisso cotidiano, e te defrontas com a agrestia de muitos que manejam veículos nas vias públicas e que os convertem em armas contra os outros; constatas o azedume do funcionário ou do balconista que te atende mal, ou vês o cinismo de negociantes que anseiam por te entregar produtos de má qualidade a preços exorbitantes, supondo-te imbecil. Mesmo assim, admites que, logo, tudo se alterará, melhorando as situações em torno.
Encontras-te com familiares ou pessoas amigas que te derramam sobre a mente todo o quadro dos problemas e tragédias que vivenciam, numa enxurrada de tormentos, perturbando a tua harmonia ainda frágil, embora não te permitam desabafar as tuas angústias, teus dramas ou tuas mágoas represadas na alma. Em tais circunstâncias, pensas que deves aguardar que essas pessoas se resolvam com a vida até um novo encontro.
São esses os dias em que as palavras que dizes recebem negativa interpretação, o carinho que ofereces é mal visto, tua simpatia parece mero interesse, tuas reservas são vistas como soberba ou má vontade. Se falas, ou se calas, desagradas.
Em dias assim, ainda quando te esforces por entender tudo e a todos, sofres muito e a costumeira tendência, nessas ocasiões, é a da vitimação automática, quando se passa a desenvolver sentimentos de auto piedade.
No entanto, esses dias infelizes pedem-nos vigilância e prece fervorosa, para que não nos percamos nesses cipoais de pensamentos, de sentimentos e de atitudes perturbadores.
São dias de avaliação, de testes impostos pelas regentes leis da vida terrena, desejosas de que te observes e verifiques tuas ações e reações à frente das mais diversas situações da existência.
Quando perceberes que muita coisa à tua volta passa a emitir um som desarmônico aos teus ouvidos; se notares que escolhendo direito ou esquerdo não escapas da ácida crítica, o teu dever será o de te ajustares ao bom senso. Instrui-te com as situações e acumula o aprendizado das horas, passando a observar bem melhor as circunstâncias que te cercam, para que melhor entendas, para que, enfim, evoluas.
Não te olvides de que ouvimos a voz do Mestre Nazareno, há distanciados dois milênios, a dizer-nos: No mundo só tereis aflições...
Conhecedores dessa realidade, abrindo a alma para compreender que a cada dia basta o seu mal..., tratarás de te recompor, caso tenhas te deixado ferir por tantos petardos, quando o ideal teria sido agir como o bambuzal diante da ventania. Curvar-se, deixar passar o vendaval, a fim de te reergueres com tranqüilidade, passado o momento difícil.
Há, de fato, dias difíceis, duros, caracterizando o teu estádio de provações indispensáveis ao teu processo de evolução. A ti, porém, caberá erguer a fronte buscando o rumo das estrelas formosas, que ao longe brilham, e agradecer a Deus por poderes afrontar tantos e difíceis desafios, mantendo-te firme, mesmo assim.
Nos dias difíceis da tua existência, procura não te entregares ao pessimismo, nem ao lodo do derrotismo, evitando alimentar todo e qualquer sentimento de culpa, que te inspirariam o abandono dos teus compromissos, o que seria teu gesto mais infeliz.
Põe-te de pé, perante quaisquer obstáculos, e sê fiel aos teus labores, aos deveres de aprender, servir e crescer, que te trouxeram novamente ao mundo terrestre.
Se lograres a superação suspirada, nesses dias sombrios para ti, terás vencido mais um embate no rol dos muitos combates que compõem a pauta da guerra em que a Terra se encontra engolfada.
Confia na ação e no poder da luz, que o Cristo representa, e segue com entusiasmo para a conquista de ti mesmo, guardando-te em equilíbrio, seja qual for ou como for cada um dos teus dias.

Camilo Castelo Branco

14 de outubro de 2011

O LIVRE ARBÍTRIO


Que é o livre-arbítrio?
Abrindo “O Livro dos Espíritos”, vamos encontrar no Capítulo X - Da Lei de Liberdade -, 3ª Parte da obra, oito questões relacionadas com o assunto livre-arbítrio (Questões 843 a 850), nas quais os Espíritos superiores instruem-nos a respeito.
Logo na Questão 843, indaga o Codificador se o homem tem o livre-arbítrio de seus atos. E os Espíritos respondem que se tem a liberdade de pensar, tem igualmente a de obrar, porquanto, sem o livre-arbítrio ele seria máquina.
Em resposta à Questão 845, os Espíritos afirmam que conforme se trate de Espírito mais ou menos adiantado, as predisposições instintivas podem arrastá-lo a atos repreensíveis, porém não existe arrastamento irresistível.
Basta que o Espírito (encarnado ou desencarnado), sendo consciente do mal a que esteja ou se sinta arrastado, utilize a vontade no sentido de a ele resistir.

Verificamos, no contexto geral das Questões acima referidas, que não há desculpa óbvia para o mal que o homem venha a praticar, uma vez que ele, por mais imperfeito que seja, tem a consciência do ato que pratica - se é bom ou se é mau.

O livre-arbítrio é uma faculdade indispensável ao ser humano, não nos resta qualquer dúvida, pois, sem ele, já foi dito, o ser espiritual seria simples máquina ou robô, sem qualquer responsabilidade dos atos que viesse a praticar.
É justamente a faculdade do livre-arbítrio que empresta ao homem certa semelhança com o Pai soberano do Universo. E constitui desiderato pleno desse Pai magnânimo que os Espíritos, seus filhos, cresçam para a glória eterna, iluminando-se na prática da sabedoria e do bem.
A prática do mal pelo Espírito, encarnado ou desencarnado, não tem qualquer justificativa porque ele sabe quando obra indevidamente. Caim, no exemplo bíblico, ao matar Abel, tinha plena consciência do que fazia tanto que o fez às escondidas. O que faltou a Caim foi a compreensão de que nada há oculto aos olhos de Deus!
Pode-se, verdadeiramente, lesar os homens, pode-se até mesmo lesar-se a si próprio, mas nunca lesará alguém a magnânima justiça de Deus.
Esclarece-nos a Revelação da Revelação, ou “Os Quatro Evangelhos”, que o Espírito antes de encarnar toma resoluções quanto ao gênero das provações, quanto à extensão e ao termo delas, até mesmo quanto à duração da existência bem como quanto aos atos que praticará durante a mesma, no entanto, o em­prego, o uso ou o abuso que ele faz da vida terrena muitas vezes o impedem de atingir o limite e o bom cumpri­mento daquela resolução (lº Volume, pág. 139, 7ª edição FEB).
No caso enfocado, o Espírito teve o livre-arbítrio de programar o que seria a sua encarnação, no entanto, em função do próprio livre-arbítrio, por usá-lo mal ou dele abusar, estragou um bom programa de vida. Há, porém, aqueles que procuram justificar-se com fundamento no esquecimento produzido pelo véu da carne.
Os Espíritos, todavia, em resposta à Questão 392 de “O Livro dos Espíritos”, explicam que “não pode o homem, nem deve, saber tudo. Deus assim o quer em sua sabedoria. Sem o véu que lhe oculta certas coisas, ficaria ofuscado, como quem, sem transição, saísse do escuro para o claro.” E concluem: “Esquecido de seu passa­do ele é mais senhor de si.”
Vejamos, por exemplo, uma situação em que determinado indivíduo houvesse sido homicida em sua última encarnação e tivesse programado para a atual existência a quitação desse delito. Não obstante a desnecessidade de desencarnar assassinado, ele não teria paz até o dia de seu retorno à vida espírita. Estaria sempre sobressaltado e na expectativa da presença de alguém que lhe viesse sub­trair a vida física, se recordasse sua transgressão anterior.
O esquecimento do passado é necessário, misericordioso, e justifica perfeitamente a prova ou provas a que todos estamos natural­mente submetidos, pois essa é uma das funções da vida corporal.

Sentimos a importância do livre-arbítrio quando somos levados a tomar decisões que incomodam a consciência... Isto significa quanto o Pai celestial é bom, nos ama e se preocupa com o nosso progresso. Concede-nos o livre-arbítrio, mas concede-nos igualmente a consciência, espécie de censor natural, que nos alerta quando dele pretendemos abusar.
A propósito queremos fazer um paralelo entre duas informações ou elucidações em torno do livre-arbítrio e as conseqüências de sua errônea utilização. Uma se encontra em “Os Quatro Evangelhos” ou Revelação da Revelação (lº Vol. pág. 299, 7ª edição FEB), nos seguintes termos:
“Esses Espíritos presunçosos e revoltados, cuja queda os leva às condições mais materiais da Humanidade, são então humanizados, isto é, para serem domados e progredirem sob a opressão da carne, encarnam em mundos primitivos, ainda virgens do aparecimento do homem, mas preparados e prontos para essas encarnações” (grifos da obra).
A outra se encontra em “O Evangelho segundo o Espiritismo” (Capítulo III, Item 16, edição FEB), nos termos seguintes:
“Já se vos há falado de mundos onde a alma recém-nascida é colo­cada, quando ainda ignorante do bem e do mal, mas com a possibilidade de caminhar para Deus, senhora de si mesma, na posse do livre-arbítrio. Já também se vos re­velou de que amplas faculdades é dotada a alma para praticar o bem. Mas, ah! Há as que sucumbem, e Deus, que não as quer aniquiladas, lhes permite irem para esses mundos onde, de encarnação em encarnação, elas se depuram, regeneram e voltam dignas da glória que lhes fora destinada.”
Em ambas as elucidações, vê-se que o livre-arbítrio é um dom de que o Espírito pode abusar, mas terá sempre de enfrentar as conseqüências desse abuso, sofrendo encarnações destinadas a purificá-lo, transformá-lo, regenerá-lo, o que não deixa de ser pena de efeito verdadeira­mente misericordioso.
Os itens 16 e 17 desse capítulo de “O Evangelho segundo o Espiritismo” são constituídos de uma mensagem de Santo Agostinho, que deve ser lida atenciosamente pelo espírita estudioso. Pois a questão livre-arbítrio confunde bastante aqueles que a conhecem apenas superficialmente, literariamente, sem analisar-lhe a profundidade científico-filosófica.
Há, ainda, aqueles que confundem livre-arbítrio com direito, quando são duas coisas diferentes. No livre-arbítrio temos uma ação voluntariosa de escolha entre alternativas diferentes em que o ator é responsável pelas conseqüências do seu ato. Na ciência do direito a responsabilidade do ato praticado decorre da lei humana.
A Doutrina Espírita exerce, por­tanto, considerável papel em sua função de Consolador prometido pelo Cristo de Deus: o de alertar as almas que atingiram determinado degrau da escala evolutiva, em que a alegação de ignorância já não atenua determinados erros cometidos em função do livre-arbítrio. No que diz respeito aos habitantes de um mundo em vias de mudança para estágio de regeneração, vale acentuar ainda, conforme vimos acima, a função da consciência como faculdade de alertamento no processo optativo das alternativas para a ação.
A Doutrina está no mundo para todos. Ela não pertence aos espiritistas. Enviou-a Jesus à Humanidade. Os espiritistas somos apenas seus instrumentos de exemplificação e divulgação sem qualquer outro “privilégio” além da consciência do livre-arbítrio.

Fonte: Reformador nº1984 – Julho/1994

8 de outubro de 2011

OBSESSÃO - O Livro dos Médiuns


Dá-se o nome de obsessão ao “domínio que alguns Espíritos exercem sobre certas pessoas”.1 Com estas palavras Allan Kardec inicia o capítulo XXIII, segunda parte, de O Livro dos Médiuns, antecedidas pelo esclarecimento de que a obsessão encontra-se na primeira linha das dificuldades da prática espírita.1
 Mais comum do que imaginamos, a obsessão não se manifesta somente entre desencarnados e encarnados, enfoque dado na referida obra, mas em ambos os planos da vida, o físico e o espiritual, em razão de um fator primordial: a imposição da vontade. Esta é a forma de agir do obsessor, que gosta de dar ordens e de ser obedecido.
 [...] É praticada unicamente pelos Espíritos inferiores, que procuram dominar, pois os Espíritos bons não impõem nenhum constrangimento. Aconselham, combatem a influência dos maus e, se não são ouvidos, retiram-se. Os maus, ao contrário, agarram-se àqueles a quem podem aprisionar. Se chegam a dominar alguém, identificam-se com o Espírito deste e o conduzem como se fora verdadeira criança.1
O domínio obsessivo pode estar associado a muitos fatores: mágoa, revolta, ciúme, inveja, orgulho, fraqueza de caráter etc., sobretudo, à incapacidade de perdoar ou relevar ofensas. Daí a obsessão apresentar diferentes características: desde uma simples influência sem perceptíveis sinais exteriores, até a perturbação completa do organismo e das faculdades mentais, “que é preciso distinguir e que resultam do grau do constrangimento e da natureza dos efeitos que produz”.1
Dessa forma, “a palavra obsessão é, de certo modo, um termo genérico, pelo qual se designa esta espécie de fenômeno, cujas principais variedades são: a obsessão simples, a fascinação e a subjugação”.1 As causas da obsessão, portanto,
[...] variam de acordo com o caráter do Espírito. Às vezes é uma vingança que ele exerce sobre a pessoa que o magoou nesta vida ou em existências anteriores. Muitas vezes, é o simples desejo de fazer o mal; como o Espírito sofre, quer fazer que os outros também sofram; encontra uma espécie de prazer em atormentá-los, em humilhá-los, e a impaciência que a vítima demonstra o exacerba mais ainda, porque é esse o objetivo que o obsessor tem  em vista, enquanto a paciência acaba por cansá-lo. Ao irritar-se e mostrar-se despeitado, o perseguido faz exatamente o que o perseguidor deseja. Esses Espíritos agem, não raras vezes, por ódio e por inveja do bem, o que os leva a lançarem suas vistas malfazejas sobre as pessoas mais honestas. [...]2
Na Obsessão simples, também conhecida como influência espiritual, a ação da entidade desencarnada se manifesta de forma episódica, inoportuna e desagradável, produzindo mal-estar generalizado e inquietações ao obsidiado. Na prática mediúnica, a obsessão simples ocorre “quando um Espírito malfazejo se impõe a um médium, intromete-se contra a sua vontade nas comunicações que ele recebe, impede-o de se comunicar com outros Espíritos”.3 Esta situação pode ser percebida pelo teor das comunicações que, usualmente, apresenta um mesmo tipo de ideias, variáveis apenas quanto à forma, mas não quanto ao conteúdo. O Espírito comunicante apresenta interpretações próprias a respeito de diferentes assuntos, nem sempre condizentes com a orientação espírita. Kardec, contudo, pondera:
Ninguém está obsidiado pelo simples fato de ser enganado por um Espírito mentiroso. O melhor médium se acha exposto a isso, principalmente no começo, quando ainda lhe falta a experiência necessária, do mesmo modo que entre nós as pessoas mais honestas podem ser enganadas por espertalhões. Pode-se, pois, ser enganado, sem estar obsidiado. A obsessão consiste na tenacidade de um Espírito, do qual a pessoa sobre quem ele atua não consegue desembaraçar-se.3
O Codificador considera também que na obsessão simples, o médium sabe muito bem que está lidando com um Espírito mentiroso e este não se disfarça, nem dissimula de forma alguma suas más intenções e seu propósito de contrariar. O médium reconhece a fraude sem dificuldade e, como se mantém vigilante, raramente é enganado. [...]3
A Fascinação é bem mais grave que a obsessão simples, caracterizando-se por “uma ilusão produzida pela ação direta do Espírito sobre o pensamento do médium e que de certa forma paralisa a sua capacidade de julgar as comunicações”.4 O obsessor age sobre a mente do obsidiado projetando imagens e pensamentos hipnotizantes, alimentadores de ideias fixas: o indivíduo fascinado “não acredita que esteja sendo enganado; o Espírito tem a arte de lhe inspirar confiança cega, que o impede de ver o embuste e de compreender o absurdo do que escreve [ou do que faz], ainda quando esse absurdo salte aos olhos de todo mundo”.4
Não é fácil lidar com a fascinação. “[...] Para chegar a tais fins, é preciso que o Espírito seja muito esperto, astucioso e profundamente hipócrita, porque só pode enganar e se impor à vítima por meio da máscara que toma e de uma falsa aparência de virtude.”4
Já dissemos que as consequências da fascinação são muito mais graves. Com efeito, graças à ilusão que dela resulta, o Espírito dirige a pessoa que ele conseguiu dominar, como faria com um cego, podendo levá-la a aceitar as doutrinas mais estranhas, as teorias mais falsas, como se fossem a única expressão da verdade. Mais ainda: pode arrastá-la a situações ridículas, comprometedoras e até perigosas.4
Para auxiliar a pessoa que se encontra sob fascinação espiritual é preciso tato, paciência e compaixão, pois “o que o fascinador mais teme são as pessoas que veem as coisas com clareza, de modo que a tática deles, quase sempre, consiste em inspirar ao seu intérprete [obsidiado] o afastamento de quem quer que lhe possa abrir os olhos”.4
A Subjugação é grau mais aprofundado da obsessão, manifestada como constrição ou opressão, moral ou corpórea, “que paralisa a vontade daquele que a sofre e o faz agir contra a sua vontade. Numa palavra, o paciente fica sob um verdadeiro jugo”.5 Nestas condições, a assistência médica especializada é requisitada, e deve ser associada ao apoio espiritual, uma vez que a pessoa já não tem domínio sobre si mesma. Na subjugação moral, “o subjugado é constrangido a tomar decisões muitas vezes absurdas e comprometedoras que, por uma espécie de ilusão, ele julga sensatas”.5 Na subjugação corpórea, “o Espírito atua sobre os órgãos materiais e provoca movimentos involuntários. [...]
Algumas vezes, a subjugação corpórea vai mais longe, podendo levar a vítima aos atos mais ridículos”.5
O médium obsidiado não deve participar das reuniões mediúnicas enquanto durar o processo obsessivo porque “toda comunicação dada por um médium obsidiado é de origem suspeita e não merece nenhuma confiança”.6 Entretanto, não lhe deve faltar o amparo do passe, da prece, da conversa fraterna, do Evangelho no lar, da água magnetizada, do estudo, do trabalho no bem.
“Os meios de se combater a obsessão variam de acordo com o caráter que ela reveste”7 e a capacidade do obsidiado em se libertar do jugo, o que não é fácil, porque “as imperfeições morais do obsidiado constituem, quase sempre, um obstáculo à sua libertação”.8
Na obsessão simples depende do esforço do obsidiado, que deve “provar ao Espírito que não está iludido por ele e que não lhe será possível enganar; depois, cansar a sua paciência, mostrando-se mais paciente que ele”.7
Na fascinação, “a única coisa a fazer-se com a vítima é convencê-la de que está sendo ludibriada e reverter a sua obsessão ao nível de obsessão simples. Isto, porém, nem sempre é fácil, para não dizer impossível, algumas vezes”.9
Na subjugação, “se torna necessária a intervenção de outra pessoa, que atue pelo magnetismo ou pela força da sua própria vontade. Em falta do concurso do obsidiado, essa pessoa deve ter predomínio sobre o Espírito; porém [...] só poderá ser exercido por um ser moralmente superior ao Espírito [...]. É por isso que Jesus tinha grande poder para expulsar os que, naquela época, se chamavam demônios, isto é, os Espíritos maus obsessores”.10

Reformador Nov.2011

Referências:
1KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Cap. 23, it. 237.
2______. ______. It. 245.
3______. ______. It. 238.
4______. ______. It. 239.
5______. ______. It. 240.
6______. ______. It. 242.
7______. ______. It. 249.
8______. ______. It. 252.
9______. ______. It. 250.
10______. ______. It. 251.

3 de outubro de 2011

HIPPOLYTE LÉON-DENIZARD RIVAIL - ALLAN KARDEC


 Allan Kardec nasceu Hippolyte Léon-Denizard Rivail, em 03 de Outubro de 1804 em Lyon, França, no seio de uma antiga família de magistrados e advogados. Educado na Escola de Pestalozzi, em Yverdum, Suíça, tornou-se um de seus discípulos mais eminentes.
Foi membro de várias sociedades sábias, entre as quais a Academie Royale d'Arras. De 1835 à 1840, fundou em seu domicílio cursos gratuitos, onde ensinava química, física, anatomia comparada, astronomia, etc.
Dentre suas inúmeras obras de educação, podemos citar: "Plano proposto para a melhoria da instrução pública" (1828); "Curso prático e teórico de aritmética (Segundo o método de Pestalozzi)", para uso dos professores primários e mães de família (1829); "Gramática Francesa Clássica" (1831); "Programa de cursos usuais de química, física, astronomia, fisiologia"(LYCÉE POLYMATIQUE); "Ditado normal dos exames da Prefeitura e da Sorbonne", acompanhado de "Ditados especiais sobre as dificuldades ortográficas (1849).
Por volta de 1855, desde que duvidou das manifestações dos Espíritos, Allan Kardec entregou-se a observações perseverantes sobre esse fenômeno, e, se empenhou principalmente em deduzir-lhe as conseqüências filosóficas.
Nele entreviu, desde o início, o princípio de novas leis naturais; as que regem as relações do mundo visível e do mundo invisível; reconheceu na ação deste último uma das forças da Natureza, cujo conhecimento deveria lançar luz sobre uma multidão de problemas reputados insolúveis, e compreendeu-lhe a importância do ponto de vista religioso.
As suas principais obras espíritas são:
- O Livro dos Espíritos, para a parte filosófica, e cuja primeira edição surgiu em 18 de Abril de 1857;
- O Livro dos Médiuns, para a parte experimental e científica (Janeiro de 1861);
- O Evangelho Segundo o Espiritismo, para a parte moral (Abril de 1864);
- O Céu e o Inferno, ou "A Justiça de Deus segundo o Espiritismo" (Agosto de 1865);
- A Gênese, os Milagres e as Predições (Janeiro de 1868);
- A Revista Espírita, jornal de estudos psicológicos.
Allan Kardec fundou em Paris, a 1º de Abril de 1858, a primeira Sociedade Espírita regularmente constituída, sob o nome de "Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas".
Casado com Amélie Gabrielle Boudet, não teve filhos.
Trabalhador infatigável desencarnou no dia 31 de março de 1869, em Paris, da maneira como sempre viveu: trabalhando.
("Obras Póstumas", Biografia de Allan Kardec, edição IDE)

1 de outubro de 2011

A RENÚNCIA DA RENÚNCIA


Os Espíritos costumam reverenciar a renúncia como uma das virtudes mais elevadas do ser. Emmanuel dedicou um livro inteiro ao estudo dessa qualidade, mostrada em sua expressão mais sublime através das vivências de Alcíone e Carlos, na Paris do reinado de Luís XIV.1
Uma leitura indispensável a quem deseja aprender a arte desse valor maior a ser conquistado pelo Espírito imortal.
Diante de tão nobre virtude, podemos propor uma série de desafios ao ser humano, em face dos tempos em que a aferição de valores morais se faz imprescindível para a ascese fundamental.
Há quem torça pela renúncia do político corrupto.
Há quem espere que ele reconheça a falcatrua cometida e devolva à sociedade o mandato que lhe foi confiado.
Há o filho que aguarda a renúncia do pai àquela velha postura autoritária e ultrapassada, de quem não é muito afeito ao diálogo e costuma impor o que bem lhe entende a quem lhe apareça pela frente, dentro de casa.
Mas há o pai que espera igualmente que o filho renuncie à inconsequência, percebendo que chega uma hora em que é preciso tomar uma atitude em favor da responsabilidade, de acordar para assumir as rédeas da própria vida e começar a construir suas próprias metas.
Há quem espere da mulher amada a renúncia aos velhos clichês de superficialidade, insegurança crônica e falta de firmeza no controle de si mesma.
Mas há mulheres que aguardam de certos homens a renúncia definitiva às âncoras arcaicas do machismo, da arrogância de se achar dono da verdade e da falta de capacidade em dar o mínimo de carinho a quem diz que ama.
Há quem duvide que o ser humano seja capaz de renunciar a alguma emoção, ou a algum bem, ou a qualquer apego.
Mas há quem enxergue renúncia no silêncio vivido no momento certo, quando tudo era um convite à fala; na chance de gol oferecida de bandeja para outro jogador marcar, quando mais um tento daria o título de artilheiro a quem premiou o colega de equipe; no presente que me deram, mas que fica bem melhor se vestido, calçado ou lido pelo meu melhor amigo.
Há quem queira, mas não aprendeu ainda a renunciar.
Há, no entanto, quem sabe como fazer e não renuncia à chance de ensinar.
A poetisa Cecília Meireles, no livro Cânticos, trata disso ao escrever:
“Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre a tua alma nas tuas mãos
E abre as tuas mãos sobre o[infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!” 2
André Luiz 3 considera também, acerca dessa virtude, que “o verdadeiro amor é a sublimação em marcha, através da renúncia”. O Benfeitor ainda ressalta que “quando o amor não sabe dividir-se, a felicidade não consegue multiplicar-se”.
Que aprendamos a fazer da renúncia o instrumento de suporte à arte de viver momentos de desprendimento.
Certamente, os felizes com essa decisão seremos todos nós.

Reformador Junho 2010

1-XAVIER, Francisco C. Renúncia. Pelo Espírito Emmanuel. 35. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2009.
2-MEIRELES, Cecília. Cânticos. Ed.Moderna, 1982. Cântico 25.
3-XAVIER, Francisco C.Nos domínios da mediunidade. 34. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Cap. 14, p. 151.