1 de outubro de 2011

A RENÚNCIA DA RENÚNCIA


Os Espíritos costumam reverenciar a renúncia como uma das virtudes mais elevadas do ser. Emmanuel dedicou um livro inteiro ao estudo dessa qualidade, mostrada em sua expressão mais sublime através das vivências de Alcíone e Carlos, na Paris do reinado de Luís XIV.1
Uma leitura indispensável a quem deseja aprender a arte desse valor maior a ser conquistado pelo Espírito imortal.
Diante de tão nobre virtude, podemos propor uma série de desafios ao ser humano, em face dos tempos em que a aferição de valores morais se faz imprescindível para a ascese fundamental.
Há quem torça pela renúncia do político corrupto.
Há quem espere que ele reconheça a falcatrua cometida e devolva à sociedade o mandato que lhe foi confiado.
Há o filho que aguarda a renúncia do pai àquela velha postura autoritária e ultrapassada, de quem não é muito afeito ao diálogo e costuma impor o que bem lhe entende a quem lhe apareça pela frente, dentro de casa.
Mas há o pai que espera igualmente que o filho renuncie à inconsequência, percebendo que chega uma hora em que é preciso tomar uma atitude em favor da responsabilidade, de acordar para assumir as rédeas da própria vida e começar a construir suas próprias metas.
Há quem espere da mulher amada a renúncia aos velhos clichês de superficialidade, insegurança crônica e falta de firmeza no controle de si mesma.
Mas há mulheres que aguardam de certos homens a renúncia definitiva às âncoras arcaicas do machismo, da arrogância de se achar dono da verdade e da falta de capacidade em dar o mínimo de carinho a quem diz que ama.
Há quem duvide que o ser humano seja capaz de renunciar a alguma emoção, ou a algum bem, ou a qualquer apego.
Mas há quem enxergue renúncia no silêncio vivido no momento certo, quando tudo era um convite à fala; na chance de gol oferecida de bandeja para outro jogador marcar, quando mais um tento daria o título de artilheiro a quem premiou o colega de equipe; no presente que me deram, mas que fica bem melhor se vestido, calçado ou lido pelo meu melhor amigo.
Há quem queira, mas não aprendeu ainda a renunciar.
Há, no entanto, quem sabe como fazer e não renuncia à chance de ensinar.
A poetisa Cecília Meireles, no livro Cânticos, trata disso ao escrever:
“Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre a tua alma nas tuas mãos
E abre as tuas mãos sobre o[infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!” 2
André Luiz 3 considera também, acerca dessa virtude, que “o verdadeiro amor é a sublimação em marcha, através da renúncia”. O Benfeitor ainda ressalta que “quando o amor não sabe dividir-se, a felicidade não consegue multiplicar-se”.
Que aprendamos a fazer da renúncia o instrumento de suporte à arte de viver momentos de desprendimento.
Certamente, os felizes com essa decisão seremos todos nós.

Reformador Junho 2010

1-XAVIER, Francisco C. Renúncia. Pelo Espírito Emmanuel. 35. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2009.
2-MEIRELES, Cecília. Cânticos. Ed.Moderna, 1982. Cântico 25.
3-XAVIER, Francisco C.Nos domínios da mediunidade. 34. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Cap. 14, p. 151.

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