18 de novembro de 2011

LUZ INEXTINGUÍVEL




Mais poderoso do que os povos e as suas realizações através dos séculos, o Livro de cada época é um marco decisivo na história da evolução do pensamento.
Os Vedas, ditados por Brama aos richis, enriqueceram a India de espiritualidade durante milênios, e o Vedanta, que tem por objeto a sua explicação mística, até hoje domina a alma filosófica do povo hindu, iluminando-a com luz inextinguível.
A Pérsia milenária deixou-se conduzir pelo Zendavestá, atribuído a Zoroastro, e inundou-se de sabedoria que, há milênios, lhe norteia os caminhos, na busca da Imortalidade.
Israel, entre tormentos e inquietações, tem encontrado no Antigo Testamento, há quase cinco mil anos, o roteiro espiritual da liberdade buscada em todos os séculos.
Toda a Arábia passou a beber nas fontes augustas do Alcorão a Mensagem de Alá, transmitida ao Profeta em visões.
Desde então, sejam os pensamentos de Marco Aurélio ou os conceitos de Sócrates, apresentados por Platão, as poesias de Vergílio ou as antigas tragédias de Sófocles, o Novo Testamento, que nos apresenta a nobre vida do Homem que se fez maior do que a Humanidade, ou os Sermões de Vieira, o Livro é uma luz incomparável, colocando marcos históricos nos fastos da Humanidade.
Seja através da Divina Comédia, de Dante Alighieri, ou da Obra grandiosa de Cervantes, ou manuseando os conceitos de Castelar, após a Imprensa o homem passou a considerar o Livro como um monumento colossal dentro do qual se pode refugiar a Civilização, mesmo quando o horror da guerra ameaça a vida de extermínio total...
O Século XIX com as conquistas fulgurantes da Ciência, com as conclusões notáveis da Filosofia e com as pesquisas na Moral e na Religião, recebeu, numa Obra, o mais vigoroso trabalho filosófico de que se tem notícia: «O Livro dos Espíritos» que, embora a singeleza com que foi apresentado, em Paris, se fez o marco básico dos tempos novos, clareando mentes e conduzindo almas ao aprisco da paz, onde é possível uma felicidade imorredoura. Isto porque «O Livro dos Espíritos» difere, na essência, na estrutura e na planificação, de todos os que o precederam como daqueles que lhe vieram depois.
Não é a Obra de um homem nem a manifestação revelada de um só Espírito. É, talvez, a maior síntese que a Humanidade já leu em Filosofia Espiritualista, porquanto examina as consequências morais, através das Civilizações, apresentando os efeitos calamitosos dos desequilíbrios sociais, no homem reencarnado...
Não é um diálogo entre a alma que inquire e a voz que responde, embora o método dialético em que se apresenta. E' grandioso, igualmente, pelas conclusões do indagador e, na sua síntese preciosa, vai além dos problemas filosóficos, demorando-se em estudos de ordem metafísica, sociológica... Tentando oferecer soluções claras às diversidades étnicas, dentro de princípios essencialmente morais, conduzindo o pensamento em superior roteiro, capaz de libertar o homem das expiações amargas e dolorosas, em que se vem debatendo.
«O Livro dos Espíritos» é um Sol conduzindo, intrinsecamente, o seu próprio combustível. Guarda, na sua planificação, sabiamente, toda a Doutrina Espírita Codificada. Nele estão em germe os livros que viriam depois, abrindo novos horizontes à Ciência em «O Livro dos Médiuns», clareando os meandros da Religião em «O Evangelho...”. », explicando a essência da vida e sua origem em «A Gênese» e apresentando em «O Céu e o Inferno» consolações e punições necessárias ao progresso da alma encarnada ou desencarnada. E mais do que isto, a Introdução e os Prolegômenos deram origem aos opúsculos «Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita» e ao «O que é o Espiritismo».
Monumento mais grandioso que as tradicionais obras da Engenharia que o tempo corrói, «O Livro dos Espíritos» amplia o pensamento filosófico da Humanidade, derramando luz sobre a Razão entorpecida nas limitações do materialismo.
Espíritas! Homenageando a data de publicação d'«O Livro dos Espíritos», banhemo-nos na sua luz, estudando-o carinhosamente.
Não o olhar precipitado de quem se empolga com a narrativa romanceada, não a observação impensada de quem procura concluir antes de terminar o conteúdo, mas, estudo sério para sorvê-lo lentamente na taça augusta da meditação, e exame continuado e intermitente para absorver o pensamento divino que os Espíritos Superiores trouxeram ao espírito de escol do «Professor Rivail», o escolhido para projeção da Mensagem grandiosa que brilha como farol sublime na Doutrina Espírita.
Divulgá-lo e entendê-lo, senti-lo e apresentá-lo ao mundo é tarefa inadiável que a todos, espíritas e Espíritos, nos impomos como corolário natural das nossas convicções.
E recordando o seu aparecimento em Paris, há 113 anos, penetremo-nos de sua sublime mensagem, tornando-nos interiormente iluminados, para levar essa chama grandiosa às gerações do futuro, como ainda brilha entre nós a palavra de Crisna, Moisés, Jesus e tantos outros Embaixadores do Céu, e que «O Livro dos Espíritos» confirma e aclara.

Vianna de Carvalho
Por Divaldo P. Franco
Reformador’ (FEB) Abril 1970

16 de novembro de 2011

VIDA DE RELAÇÃO



Hoje em dia, as Relações Humanas estão elevadas à condição de estudo especializado.
Firmas há que chegaram a instituir, em seu quadro de funcionários, o cargo de recepcionista, especialmente criado para lidar com o público.
Existe mesmo uma literatura específica, ensinando como fazer amigos, liderar grupos, influenciar os outros, fazer-se agradável no trato com os semelhantes, etc.
No entanto, isto que parece uma novidade ou que aparece como tal, é matéria elementar da Doutrina Espírita, herança do Cristianismo, sobre o qual erige ela os fundamentos da educação do ser.
Independente de muitos outros textos, esparsos pelas obras da Codificação Kardequiana, há este, inserto no tópico 8· do livro «O Céu e o Inferno», lª parte, capítulo IIl:
“A encarnação é necessária ao duplo progresso moral e intelectual do Espírito: ao progresso intelectual pela atividade obrigatória do trabalho; ao progresso moral pela necessidade recíproca dos homens entre si. A vida social é a pedra de toque das boas ou más qualidades.
                “A bondade, a maldade, a doçura, a violência, a benevolência, a caridade, o egoísmo, a avareza, ,o orgulho, a humildade, a sinceridade, a franqueza, a lealdade, a má-fé, a hipocrisia, em uma palavra, tudo o que constitui o homem de bem ou o perverso, tem por móvel, por alvo e estímulo, as relações do homem com os seus semelhantes.
                “Para o homem que vivesse insulado não haveria vícios nem virtudes; preservando-se do mal pelo insulamento, o bem de si mesmo se anularia.”
Dentro da vida é que o Espiritismo nos situa o campo de lutas e tarefas.
Seus conceitos renovadores nos fixaram rumos novos ·aos passos.
Segundo sua essência ideológica, muita coisa teve que ser refundida e reajustada.
Salvação equivale a esforço próprio, adquirida nos prélios redentores de nossa pauta de testemunhos, em estreito e íntimo contato com os nossos Irmãos em Humanidade.
Isolamento vale por expressão de vida interior, traduzida em estudo e trabalho, em oração e recolhimento espiritual, Cursos de preparação moral-religiosa, temo-los nos sistemas de acontecimentos com que nos defrontamos e por força dos quais aprendemos a viver e, cada vez mais, vivemos a aprender.
Religiosidade não é fanatismo, nem alheamento às coisas que nos cercam, antes significa dinâmica espiritual sustentada por cogitações mentais mais altas e ordens de ideias melhores e superiores.
Retiro espiritual representa tão somente afastamento do mal, libertação do erro e do vício, sem quaisquer barreiras divisórias entre nós e o próximo, como se nos isolássemos de alguém portador de moléstia infecto-contagiosa.
Adoração a Deus corresponde a consagração de nossa existência a serviço da Humanidade, a bem dos semelhantes, no templo do corpo pela iluminação crescente do Espírito.
O Lar, a Escola, a Igreja, a Oficina, o Laboratório, os múltiplos setores, enfim, das experiências e atividades humanas, são estágios ativos e fases dinâmicas de aprendizagem variada e diferente, em cada um dos quais nos é dado conseguir e consolidar, por vezes, maiores parcelas de conhecimentos e virtudes, de luzes e aquisições espirituais.
Aprendamos com Jesus que não devemos temer o mundo. Cultuemos a Vida, no que ela nos oferece de nobre e sublime, dando-lhe o melhor de nós mesmos. E, certamente, não será fora da engrenagem do mecanismo social, com seus altos e baixos, com seus dramas e tragédias, com suas grandezas e misérias, que iremos colher flores e frutos da semeadura dos ensinamentos cristãos. De outro modo, como poderíamos desenvolver o raciocínio, aprimorar os sentimentos, burilar as arestas de nossa alma, enrijecer a vontade, temperar o caráter, educar a mente, espiritualizar o coração, engrandecer os dons espirituais?
Necessitamos da Vida e do Mundo.
Todos poderemos prestar bons serviços, se soubermos prestar bons serviços a todos.
 A luz que dermos aos outros contribuirá para aumentar nossa capacidade de iluminação própria.
Instruídos, os ignorantes proclamarão as excelências do Conhecimento e exaltarão a grandeza da Sabedoria.
Consolados, os sofredores bendirão da alegria de viver.
Assistidos, os necessitados encontrarão estímulos para a luta.
Orientados, os inexperientes saberão compreender as realidades benfeitoras da trajetória terrena.
Esclarecidos, os perturbados recobrarão novo ânimo para a marcha triunfal de sua redenção.
Convertidos, os maus e pervertidos renascerão das próprias cinzas do pecado, seguindo novos rumos em busca de outros objetivos.
Perdoados, os adversários orarão por nós.
Amados, um dia, os ingratos amarão também.
Tais situações só serão possíveis em função de intercâmbio e convívio diário.
Precisamos de ouvir e falar, de sentir e amar, de lutar e viver, de assimilar e dar bons exemplos, de permutar impressões, de conhecer os homens, e de fazer que os homens conheçam os ensinos de Jesus, através de nossa conduta.
Carecemos da presença do nosso próximo, para com quem devemos estar animados do sincero e profundo desejo de prodigalizar todo o bem possível, buscando, por ele e com ele, edificar o reino dos céus em nós mesmos.
          
Lucas Pardal
Reformador’ Março de 1970.

14 de novembro de 2011

RESPOSTA A UM CATÓLICO

     
Vou explicar-vos as razões porque efetivamente não sou cristão no sentido emprestado erroneamente a esta palavra pela igreja romana.
Para esta seita, ser cristão não é cumprir os preceitos admiráveis do Evangelho; não é imitar, quanto possível, as sublimes lições da vida de Jesus.
Tanto assim que, sendo o Mestre um simples carpinteiro, o papa é rei com todo o cortejo de mundanas grandezas.
Enquanto o Cristo vestia a túnica dos pastores que não tem onde repousar a cabeça, seus pretensos continuadores cobrem-se de ouro e de púrpuras, alardeiam uma pompa de caráter pagão, cercam-se de luxo familiar aos tiranos do tempo de Sermacherib.
O Filho de Maria era humilde e perdoava as ofensas alheias; a igreja católica mostra-se sob um orgulho indomável e amaldiçoa, desde séculos, a quantos se não submetam a seus dessarroados caprichos.
Cristo espalhava, sem remuneração, os benefícios de um amor incomparável; a igreja vende os sacramentos, negocia com a salvação das almas, trafica com o reino dos céus.
Cristo profligava os erros e o despotismo dos fariseus bafejados pela riqueza da Terra; a igreja rasteja aos pés dos potentados.
No Rabino genial, conjugam-se as perfeições do missionário cumprindo à risca os desígnios da Providência; na igreja proliferam os crimes e os atentados contra a vida e a consciência de nosso semelhante.
A disparidade entre o ensino de Jesus e o dos concílios romanos não precisa de mais exemplos para se impor com a força dos axiomas irrespondíveis.
Cristo, no conceito católico, é o homem escravizado ao culto externo, às regrinhas da disciplina religiosa, às bulas e pastorais ejaculadas, de vez em vez, pelo ralo das autoridades eclesiásticas.
Ouve missa, bate nos peitos, confessa ao padre as suas mazelas espirituais, usa a veste das procissões, torce entre os dedos, maquinalmente, as contas dos rosários e crê no sortilégio dos escapulários.
Vive transido com o horror blasfemo de um Deus vingativo e implacável que tem embaixadores na Terra para a regularização dos negócios celestes. Isto não o impede, entretanto, de alimentar ódios, intolerância, dureza de coração, maledicências venenosas, invejas surdas, ambições insuportáveis e apego aos bens temporais. Não o impede de desejar todo o mal possível ao próximo, de vangloriar-se com o alheio infortúnio, de rogar pragas, atirar esconjuros sobre os que não comungam com os seus ideais.
A piedade, a doçura, a indulgência, a mansidão... São coisas de que não se ocupa absolutamente.
Rezando a sua ‘salve rainha’ e pondo uma vela a arder em face do oratório bento, dá-se por satisfeito, repousa a consciência no cumprimento dessas puerilidades.
De tempos em tempos, a penitência dos confessionários, com a deglutição complementar da hóstia, lavam-lhe os pecados velhos. Julga-se, então, apto para subir entre serafins tangendo liras vaporosas aos esplendores da felicidade eterna.
Mas, como a morte parece-lhe longe, torna a pecar e copiosamente, fiado no perdão já tantas vezes concedido às suas faltas anteriores.
Entre a prática do bem, das virtudes humildes e o abster-se de carne às sextas-feiras, ele prefere este “último sacrifício”. É mais cômodo, mais ortodoxo e produz resultados extraordinários.
Pode-se realizá-lo conservando o orgulho, o egoísmo, a vaidade, os rancores rubros que geram as explosões de criminalidade.
Agora, vede o que é ser cristão segundo o espiritismo:
É ter gravado no recesso de nosso entendimento as passagens maravilhosas do Evangelho a fim de evitá-las nos casos concretos da existência humana. O espírita não bate nos peitos soturnamente, mas ama a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Não veste opa (capa sem mangas, mas com aberturas para enfiar os braços) nem se ajoelha ante imagens talhadas no mármore ou fundidas no bronze; adora o ser sensível com as efusões de sua alma extasiada com as magnificências da criação universal.
Para chegar no céu, dispensa o caminho dos confessionários e considera muito mais benéficos o perdão das injúrias, o amor à justiça, a piedade para todas as fraquezas, a doçura e o amparo para todos os infortúnios.
Faz-se menor entre os menores, combate a iniquidade, difunde a instrução, protege ao órfão, enxuga as lágrimas da viuvez desconsolada.
Não incensa aos orgulhosos cercados de grandezas e de glórias efêmeras, lastima-os.
Põe seus cuidados na vida futura, encara a dor como instrumento de progresso, resigna-se às opressoras contingências do planeta, porque a sua verdadeira pátria está além, no seio augusto da Misericórdia Suprema.
 As suas paixões guerreia sem cessar. E só se empenha tenazmente em conseguir moldar seu caráter nas linhas puras traçadas por Jesus para a edificação de todas as gerações.
Vianna de Carvalho
Reformador (FEB) 1.6.1918

13 de novembro de 2011

ALMAS EM PRECE


 
       Não podemos entender serviço mediúnico sem noção de responsabilidade individual.

       É inconcebível se promova o intercâmbio com a Es­piritualidade sem que haja, da parte de cada um e de todos, em conjunto, aquela nota de respeito e veneração que nos faz servir, «espiritualmente ajoelhados», às ta­refas mediúnicas.

       Os Amigos Espirituais consagram tanto respeito ao setor mediúnico que o Assistente Áulus, ao se dirigir para a sala das reuniões, teve as seguintes palavras que, de maneira expressiva e singular, traduzem a maneira como encaram o serviço:

       «Vemos aqui o salão consagrado aos ensinamen­tos públicos. Todavia, o núcleo que buscamos (sala das sessões mediúnicas) jaz em reduto íntimo, assim como o coração dentro do corpo. »

       E, referindo-se à preparação dos encarnados, antes do início dos trabalhos, reporta-se a quinze minutos de prece, quando não sejam de pa­lestra ou leitura com elevadas bases morais».

       Não se justifica, realmente, que, antes das reuniões, demorem-se os encarnados em conversações inteiramente estranhas às suas finalidades.

       Não se justificam a conversação inadequada e o am­biente impregnado de fumo, numa ostensiva desatenção a respeitáveis entidades e num desapreço aos irmãos sofredores trazidos aos Centros a fim de que, em am­biente purificado, sejam superiormente atendidos.

Há grupos em que os encarnados se comprazem, inclusive, em palestras desaconselháveis que estimulam paixões, tais como, política, negócios e alusões a companheiros ausentes, numa prova indiscutível de que não colaboram para que os recintos reservados às tarefas espirituais adquiram a feição de templos iluminativos.

Salientando o sentimento de responsabilidade dos dez companheiros do grupo visitado, Áulus esclarece:

«Sabem que não devem abordar o mundo espi­ritual sem a atitude nobre e digna que nos outor­gará a possibilidade de atrair companhias edificantes, e, por esse motivo, não comparecem aqui sem trazer ao campo que lhes é invisível as sementes do melhor que possuem.»

É oportuno ressaltar que os componentes do grupo, embora criaturas humanas e sujeitas às mesmas lutas com que se defrontam todas as almas em processo de regeneração, através do trabalho e do estudo, compare­cem ao Centro e nele se conduzem como se estivessem num santuário celeste.

Não são almas santificadas.

São criaturas de boa vontade que transitam normal­mente pelo mundo, cada uma ocupada com as obrigações que a vida lhe impõe: trabalham, comem, vestem-se e distraem-se na recreação edificante.

Todavia, a sinceridade de propósito e a fé, o devo­tamento e a veneração ao serviço asseguram o êxito das tarefas e garantem-lhes magnífica assistência espiritual.

Vejamos como André Luiz, usando o psicoscópio, observa os irmãos profundamente concentrados na prece:

«Detive-me na contemplação dos companheiros encarnados que agora pareciam mais estreitamente associados entre si, pelos vastos círculos radiantes que lhes nimbavam as cabeças de opalino esplendor.

Tive a impressão de fixar, em torno do apagado bloco de massa semi-escura a que se reduzira a mesa, uma coroa de luz solar, formada por dez pontos característicos, salientando-se no centro de cada um deles o semblante espiritual dos amigos em oração.»

O quadro observado por André Luiz é deveras to­cante.

Com a atenção presa “ao círculo dos rostos fulgu­rantes, visivelmente unidos entre si, à maneira de dez pequeninos sóis, imanados uns aos outros”, verifica An­dré Luiz que, sobre cada um dos encarnados em prece, «se ostentava uma auréola de raios quase verticais, fulgentes e móveis, quais se fossem diminutas antenas de ouro fumegante”.

Qualquer grupo mediúnico que funcionar na base da harmonia, do entendimento e da sinceridade obterá, sem dúvida, essa mesma defesa maravilhosamente observada e descrita por André Luiz.

Tendo Jesus-Cristo afirmado que estaria sempre «onde duas ou três pessoas se reunissem em seu nome», estamos convictos de que, onde o trabalho se realizar sob a inspiração do seu Amor, num palacete ou num casebre, a Sua Divina Presença se fará por meio de ilu­minados mensageiros.

Como e porque duvidarmos disso, se temos certeza de que a misericórdia do Senhor não se circunscreve a grupos ou pessoas, mas se estende, abundantemente, a to­dos quantos, na execução de tarefas em seu Nome Augus­to, servem, incondicionalmente, ao Bem!

Quanto nos seja possível, por amor à Causa, falemos e escrevamos sempre concitando, moderada e fraternal­mente, à nossa querida família espírita a dignificar o serviço mediúnico, oferecendo-lhe, agora e sempre, o me­lhor de nosso coração, de nossa alma, de nossa inteligencia.

Fora disso, haverá sempre escolhos e incertezas...





ESTUDANDO A MEDIUNIDADE

MARTINS PERALVA

11 de novembro de 2011

A GRAVE QUESTÃO DA PREGUIÇA MENTAL


Um dos grandes obstáculos ao progresso humano está na preguiça mental. O homem prefere receber as informações “mastigadas” pela mídia ao invés de dedicar-se ao estudo que exige o raciocínio. A TV ainda impera sobre o livro.
Sabendo disso, muitos mestres, em todos os tempos, utilizam o recurso de contar estórias ou histórias para transmitir o ensinamento que se propõem a divulgar. E para prender a atenção do público a que se destina toda mensagem são revestida das mais variadas recursos que atraem.
Assim a TV, o rádio, o vídeo, o teatro. Muitas vezes o conteúdo não é bom, mas a embalagem atrai e prende a atenção. E engana como ocorre com a publicidade do cigarro, por exemplo...
E os espíritas, como ficamos? Temos uma maravilhosa mensagem, toda ela voltada para o crescimento do ser humano. Precisamos, sem dúvida, utilizar todos os modernos meios de comunicação para transmitir essa mensagem ao grande público. Os recursos tecnológicos da atualidade, como microfone, telão, vídeo, retroprojetor, projetor de slides, som, computador e outros facilitam muito a divulgação das idéias espíritas.
Voltando ao início de nosso pensamento, verificamos que o recurso de contar estórias ou histórias facilita e muito à transmissão da divulgação doutrinária. Não é por acaso que renomados autores encarnados e desencarnados usam a forma romanceada, e nem foi por outra razão que Jesus também usou as parábolas para ensinar. Este recurso realmente consegue transmitir o ensinamento com muita objetividade, facilita a memorização do ensinamento, prende a atenção. Na tribuna, por exemplo, ele tem um efeito excelente, principalmente se descontraído.
Mas, analisemos uma parábola de Jesus: A Parábola dos Dois Filhos. Em breve resumo, a parábola indica um Pai e dois filhos, convidados para trabalharem na vinha do Pai. O primeiro promete ir, mas não vai. Já o segundo filho, rebela-se dizendo que não vai, arrepende-se depois e acaba indo. À luz da Doutrina Espírita, podemos extrair o ensinamento da parábola. O texto em si é a embalagem que precisamos desembrulhar para conhecer o conteúdo e dele extrair o ensinamento. Também em breve resumo, podemos concluir que o Pai da parábola é Deus. Os filhos somos todos nós, detentores do livre-arbítrio, com a liberdade de opção de trabalhar ou não na seara do Pai. Seara é todo o campo de trabalho que Deus nos oferece.
Observemos que o Pai não impõe condições, nem reprova o comportamento. Respeita a liberdade dos filhos. Com o texto embalado pela estória, podem-se extrair muitos ensinamentos, em conteúdo e grande profundidade.
A parábola é um convite para sairmos da ociosidade, é um apelo ao trabalho em favor de um mundo melhor, porém a decisão é de cada um. Há muito que se fazer em favor uns dos outros, nos variados campos da atividade humana, mas também e principalmente no uso da caridade e do amor...
Já a assimilação do ensinamento só por palavras é como o filho que diz que vai e não vai, fica adiando sua transformação no bem ou o trabalho em favor do semelhante. Como diz a parábola, não é preferível o filho às vezes indisciplinado, mas que toma depois a decisão de se melhorar e trabalhar na vinha do Senhor? No pequeno exemplo da parábola referida está à embalagem a ser aberta e no seu interior a pérola do ensinamento. Libertemo-nos, pois, da preguiça mental e mergulhemos no raciocínio a fim de extrair da Doutrina Espírita, com sua extensa e variada literatura, as luzes do Evangelho de Jesus, a fim de não sermos os indecisos como cristãos de aparência que dizem, mas não fazem que adiem o progresso...
E para os que preferem a acomodação mental, continuemos a utilizar o recurso das estórias e histórias, a fim de fixar com mais facilidade a divulgação das idéias de Jesus e dos ideais de nossa querida Doutrina.
Para concluir, contudo, e considerando os valores libertadores trazidos pela Doutrina Espírita em favor do homem, trago aos leitores transcrição parcial do capítulo A Conclusão da Pesquisa, pelo Espírito Ignácio Bittencourt **, onde o autor, ao referir-se a minuciosa pesquisa levada a efeito nas Esperas Superiores, na qual os Excelsos Dirigentes do Espiritismo “chegaram à conclusão de que, junto às calamitosas quedas morais e às deserções deploráveis de numerosos companheiros responsáveis pelo serviço libertador, entre todas as causas que dificultam a marcha da Nova Revelação na Terra, destaca-se, em posição de espetacular e doloroso relevo, a preguiça mental”.

Orson Peter Carrara
REFORMADOR, NOVEMBRO, 1997

VIEIRA, Waldo. Seareiros de Volta, por Espíritos Diversos. 5ª ed. FEB, 1993.

6 de novembro de 2011

A MISÉRIA E A OPULÊNCIA

 

As desigualdades sociais nas civilizações, através da História, significam, para muitos, uma injustiça de Deus, que pretensamente estabelece privilégios para alguns, em detrimento dos aparentes méritos de outros. Ninguém é trazido às lides reencarnatórias na Terra para gozar dos prazeres ilícitos oferecidos pela vida material. Nosso planeta é uma escola e ao mesmo tempo um cadinho de purificação, onde Espíritos em experiências sucessivas buscam o próprio aperfeiçoamento através dos entrechoques na vida comunitária, com vistas à conquista das condições que lhes assegurem a felicidade, o poder e a liberdade na vida eterna, que é a vida espiritual.
A riqueza material é uma das mais difíceis provas por que poderão passar os Espíritos encarnados na Terra e da qual poucos saem vitoriosos; isto porque a tendência natural dos homens é usá-la a serviço de suas paixões, criando confortos sofisticados e amealhando haveres cada vez em maior quantidade, que longe de lhe propiciarem a felicidade desejada, tornam-se motivo de preocupações e aflições pela fictícia necessidade de preservá-los, constituindo-se em pesado fardo que, ao final da existência, inexoravelmente ficará aquém-túmulo, já que não pertencem à vida espiritual.
Falindo pelo egoísmo, vaidade e orgulho em que se deixam mergulhar, os homens não aplicam de maneira fraterna e caridosa aqueles valores conquistados e, assim, comprometem-se com a lei do progresso, retardando sobremaneira a felicidade perene e verdadeira, objetivo real a ser alcançado.
A grande lei, a lei de causa e efeito, preside à vida até nos mais insignificantes aspectos e detalhes; fomos, somos e seremos regidos pela profunda lógica que ela encerra e faz com que seja a nossa vida, por toda a eternidade, uma consequência de nós mesmos, pelo que pensamos, dizemos e fazemos. Será interessante observarmos que uma das mais importantes características dessa lei é o automatismo de sua ação! Uma vez deflagrada a causa, o efeito correspondente estará determinado e eclodirá no momento oportuno, quando as condições eletivas se reunirem para otimizar a ação útil no caminho evolutivo da criatura.
O determinismo divino é o bem!
Fomos criados pela infinita bondade de Deus para o bem! O amor, que é a sua mais generalizada expressão, é a única força edificadora da ventura em todos os seus múltiplos aspectos. Quando, em decorrência das imperfeições que nos caracterizam, violamos o determinismo divino, criamos automaticamente o determinismo humano, ou seja, a necessidade de reparação e resgate com que restabeleceremos o equilíbrio interrompido. Este objetivo será alcançado mediante as reencarnações sucessivas, em cujo programa preestabelecido inserem-se as necessidades retificadoras.
As considerações aqui estabelecidas nos auxiliam a compreender as situações de penúria em que encarnam alguns irmãos, representados pelos párias, mendigos, famintos, ou por aqueles aos quais faltem quaisquer recursos que lhes permitam ganhar o próprio sustento com o trabalho honesto e bem remunerado.
Jesus, em seu Evangelho, oferece aos homens a maneira exata como devem conduzir-se na vida de relação com os semelhantes, toda vez que nossa ação envolver os direitos e as necessidades daqueles que nos cercam: Nunca façamos a ninguém o que não quisermos para nós mesmos.
Reformador Ago/09

5 de novembro de 2011

A EFICÁCIA DA PRECE EM FAVOR DO SUICIDA


 A oração é um recurso mental de poder extraordinário.
Podemos orar pelos encarnados e pelos desencarnados, por nós mesmos e pelos outros.
Através da oração não podemos mudar o curso dos resgates necessários, em nós ou nos outros, mas podemos confortar e ser confortados. Quando bem utilizada, ela amplia a nossa receptividade, favorecendo aos bons Espíritos, nos inspirarem.
Quantos problemas poderiam ter morrido no nascedouro, se o recurso da oração sincera tivesse sido utilizado!
A oração feita com amor gera ondas mentais, que se propagam no espaço em direção ao alvo para o qual é endereçada. No caso específico de Espíritos sofredores, ela proporciona alívio e conforto espiritual.
No entanto, muitas pessoas, mesmo aquelas que são conhecedoras do poder da oração, externam certa dúvida, quando se trata de orar pelos que se suicidaram.
Certamente supõem que o suicida, sofredor de dores inimagináveis, como descrevem algumas obras espíritas, permanecendo longo período em total perturbação, dispensariam o recurso da oração.
É como se imaginassem um determinismo, que a oração não poderia mudar.
Comete grande equívoco quem defende esta tese. É no mínimo uma prova de desconhecimento a respeito do assunto.
Os efeitos da prece acontecem através de mecanismos não totalmente conhecidos por nós, humanos.
Os relatos feitos por desencarnados, que foram vítimas de suicídio, comprovam a eficácia da prece e revelam ser uma importante caridade, realizada em benefício destes sofredores.
Ela é um recurso algumas vezes esquecido, porém, poderoso em qualquer circunstância.
Claro que não podemos interpretá-la como um recurso mágico para isentar o devedor do débito.
Mas com certeza lhe dará conforto e forças para reagir, impedindo, em alguns Espíritos, o prolongamento desnecessário do seu sofrimento.
Para melhor esclarecimento a respeito do assunto, consideraremos duas situações, colhidas do livro Memórias de um Suicida, ed. FEB, recebido mediunicamente por Yvonne do Amaral Pereira:
a) Espíritos resgatados das zonas de sofrimento, em recuperação nas colônias espirituais – comentário de Camilo Cândido Botelho:
Da Terra, todavia, não eram raras as vezes que discípulos de Allan Kardec [...] emitiam pensamentos caridosos em nosso favor, visitando-nos frequentemente através de correntes mentais vigorosas que a Prece santificava, tornando-as ungidas de ternura e compaixão, as quais caíam no recesso de nossas almas cruciadas e esquecidas, quais fulgores de consoladora esperança! (Op. cit., cap. Jerônimo de Araújo Silveira e família, p. 105-106.)
b) Espíritos ainda não resgatados – comentário de Yvonne Pereira:
Certa vez, há cerca de vinte anos, um dos meus dedicados educadores espirituais – Charles – levou-me a um cemitério público do Rio de Janeiro, a fim de visitarmos um suicida que rondava os próprios despojos em putrefação. [...] Estava enlouquecido, atordoado, por vezes furioso, sem se poder acalmar para raciocinar, insensível a toda e qualquer vibração que não fosse a sua imensa desgraça! [...] E Charles, tristemente, com acento indefinível de ternura, falou:
– “Aqui, só a prece terá virtude capaz de se impor! Será o único bálsamo que poderemos destilar em seu favor, santo bastante para, após certo período de tempo, poder aliviá-lo...” [...] (Op. cit., cap. Os réprobos, Nota da médium no 3, p. 49.)
De acordo com o exposto, não poderá restar dúvida sobre a eficácia da prece. E no caso específico do suicídio, podemos afirmar que é o único recurso de que nós, encarnados, dispomos para, com certeza, aliviar o sofrimento imenso causado por tão enganosa solução.
Abaixo, transcrevemos um trecho do diálogo entre Divaldo Pereira Franco e o Espírito de um suicida, que sofreu vários anos os efeitos dolorosos da sua precipitada ação (do livro O Semeador de Estrelas de Suely Caldas Schubert):
[...] Dei-me conta, então, que a morte não me matara e que alguém pedia a Deus por mim.
Lembrei-me de Deus, de minha mãe, que já havia morrido. Comecei a refletir que eu não tinha o direito de ter feito aquilo, passei a ouvir alguém dizendo:
“Ele não fez por mal. Ele não quis matar-se”. Até que um dia esta força foi tão grande que me atraiu; aí eu vi você nesta janela, chamando por mim.
– Eu perguntei – continuou o Espírito – quem é? Quem está pedindo a Deus por mim, com tanto carinho, com tanta misericórdia? Mamãe surgiu e esclareceu-me:
– É uma alma que ora pelos desgraçados.
– Comovi-me, chorei muito e a partir daí passei a vir aqui, sempre que você me chamava pelo nome.
Dá para perceber, nestes dois exemplos, que a oração, também para os casos de suicídio, tem o poder de lenir a dor e aplacar o desespero da vítima. Nestas condições, poderá acontecer a mudança gradativa dos painéis mentais (gerados pelo sentimento de culpa), à medida que surge o arrependimento sincero, proporcionando aos samaritanos da Espiritualidade resgatarem a vítima, que ainda se encontre nas regiões de sofrimento, para uma colônia espiritual.
Reformador Nov.09

4 de novembro de 2011

DOUTRINA ESPÍRITA E OS CULTOS AFRO-BRASILEIROS


          Para alguns confrades, o Espiritismo, no início do século XX no Brasil, ganhou uma tonalidade que o fez diferente daquele existente na Europa. Sofreu uma deformação ou determinada construção original, sobretudo pelas relações entre ele e os cultos afro-brasileiros. À época, o Espiritismo possuía, na Europa, um caráter mais científico e filosófico e, no Brasil, ganhou características mais religiosas. Atribui-se, a esse fator, o pendor místico da tradição cultural brasileira.

          Para esses estudiosos, o "abrasileiramento" do Espiritismo o levou a uma perda do caráter experimentalista e científico de sua origem, e isto correspondera a um abastardamento do Espiritismo no Brasil. Evidentemente, discordamos dessa tese que considera o Espiritismo brasileiro uma simples deturpação do europeu. Tais teóricos acreditam até, que não seria possível ao Espiritismo manter uma "pureza" para onde quer que fosse difundido.

          Será que o termo Espiritismo inclui as crenças afro-brasileiras? É óbvio que não! Porém, desde sua chegada ao Brasil, seus adversários tentam igualá-los. Contudo, reconhecemos que a Umbanda, por exemplo, mais se parece com o Catolicismo do que com o Espiritismo, devido aos rituais, aos atos sacramentais e à hierarquia sacerdotal, os quais não existem no Espiritismo.

          Kardec não enfrentou este tipo de problema à época. Entretanto, no Brasil, com as peculiaridades da índole brasileira, tudo tem que ter conotação especial. Para alguns, seríamos espíritas kardequianos e eles, “espíritas” umbandistas. Para outros, somos espíritas "mesa branca" e eles, de terreiros. Os termos não têm razão de ser, mas a urgência em nos diferençarmos de outras seitas religiosas tem levado certos espíritas a utilizarem essas inadequadas adjetivações.

          O Espiritismo é uma Doutrina religiosa que tem Jesus como guia e modelo de conduta. Não há como compreender o Espiritismo sem Jesus e sem Kardec, para todos, com todos e ao alcance de todos, a fim de que o projeto da Terceira Revelação alcance os fins a que se propõe.

          Como diferença fundamental na prática doutrinária, o Espiritismo não adota em suas reuniões: paramentos ou quaisquer vestes especiais; vinho, cachaça, ou qualquer outra bebida alcoólica; incenso, mirra, fumo ou quaisquer outras substâncias que produzam fumaça; altares, imagens, andores e velas; hinos ou cantos em línguas mortas ou exóticas; danças ou procissões; atendimento a interesses materiais, terra-a-terra, mundanos; pagamento de qualquer espécie; talismãs, amuletos, orações miraculosas, bentinhos e escapulários; administração de sacramentos, concessão de indulgências, distribuição de títulos nobiliárquicos; horóscopos, cartomancia, quiromancia e astrologia; rituais e encenações extravagantes; promessas e despachos; riscar cruzes e pontos; praticar, enfim, a extensa variedade de atos materiais oriundos de velhas e primitivas concepções religiosas.

          Outro fator relevante, a palavra "espírita" foi criada por Allan Kardec em 1857 e designa, tão-somente, os adeptos do Espiritismo, cujas atividades estão sempre voltadas à prática da caridade em seu sentido mais amplo. Portanto, a denominação "espírita" não deve ser associada a práticas com bases em quaisquer rituais, pela incoerência que isso representa. Rejeitamos, pois, assim, qualquer associação do Espiritismo com práticas distanciadas das orientações de Allan Kardec, da ética e dos preceitos codificadas por ele.

          Seria a Umbanda o mesmo que Espiritismo? Com todo respeito que os umbandistas merecem, respondemos que não! Umbanda é, basicamente, prática religiosa surgida entre os africanos bantos e sudaneses, trazidos para o Brasil como escravos. É o resultado do amálgama com o Catolicismo, reunindo ainda folclore, superstições e crendices, sem doutrina codificada.

          Com a vinda dos escravos africanos para o Brasil, o sincretismo religioso se tornou uma prática comum entre os escravos, pois os senhores de engenho não permitiam nenhuma outra religião, exceto a católica. Desta forma, surgiu a Umbanda, amplamente difundida em todas as camadas sociais do país. Sua entronização no país teve razões variadas.

          Uma delas é essa bagagem religiosa atávica que nos liga ao passado do negro e do índio (preto-velhos e caboclos). Outro fator foi a de desenvolver junto ao povo, uma prática mediúnica mais voltada para os interesses imediatistas e populários.

          No meio religioso convencional, os pastores e padres colocam como adeptos da Doutrina Espírita, as pessoas que "mexem" com os Espíritos, com macumba. Para tais religiosos os seguidores da Umbanda, do Candomblé, os jogadores de búzios, de tarô, os ledores de sorte, etc., são todos praticantes do Espiritismo. Por causa dessa suprema ignorância, temos o dever de procurar esclarecer essas distorções, sempre que a confusão se estabelecer. Sabendo, porém que o termo já está popularizado na linguagem comum, é aconselhável que se utilize o termo Doutrina Espírita em lugar de Espiritismo, quando a ocasião exigir. Vai aqui apenas uma singela sugestão.

          A Umbanda é um culto com identidade específica e suas práticas, embora tenham alguns pontos de convergência com o Espiritismo, de um modo geral, as contradizem, por serem antagônicas. Em se tratando de prática doutrinária, não se pode ser umbandista e espírita ao mesmo tempo. A Umbanda tem público e finalidade apropriados. Seus cultos são voltados a rituais e procedimentos que em nada se compatibilizam com a Doutrina Espírita. Estranhíssimos são os santuários que, em alguns dias trabalham com o "Espiritismo" e em outros com a Umbanda. Seria possível existir uma roda quadrada?

          Se for de bom alvitre que os lídimos espíritas não trabalhem em duas casas espíritas simultaneamente, imagine então a confusão espiritual que se forma quando se participa de dois cultos que não possuem afinidade entre si. Isso tem sido fonte de desequilíbrio psíquico e emocional de praticantes pouco esclarecidos quanto a esse aspecto.

          O Espiritismo (Doutrina Espírita) codificado por Allan Kardec nos traz princípios racionais inobservados em outras doutrinas filosóficas e morais. É ele o Consolador Prometido por Jesus para ajudar na edificação do futuro da humanidade. Cremos que nossa incapacidade de minimizar certas dificuldades de interpretação entre Doutrina Espírita e Doutrinas afro-brasileiras está na falta de estudo e de preparo moral e intelectual adequados de muitos líderes espíritas. Por razões diversas, algumas pessoas tornam-se dirigentes de centros espíritas sem possuírem condições doutrinárias para isso. Portanto, fundamentalmente, o grande mal ainda é o pouco interesse que os adeptos têm pelo estudo sério das Obras Básicas.

          Religião científico-filosófica o Espiritismo não pretende demolir as bases de outras crenças. Antes, reconhece a necessidade da existência delas para grande parte da humanidade, cuja evolução se processa lentamente.

          A mediunidade, presente em ambas as doutrinas, é patrimônio comum a todos.  Entretanto, cada seguidor registra-lhe a evidência o seu modo. De nossa parte, é possível praticá-la com a simplicidade evangélica, baseados nos ensinamentos claros do Mestre, que esteve em contacto incessante com as potências invisíveis ao homem vulgar, curando obsedados, levantando enfermos, conversando com os grandes instrutores materializados no Tabor, ouvindo os mensageiros celestiais em Getsemani e voltando Ele próprio a comunicar-se com os discípulos, depois da morte na cruz.

          O bom senso nos sussurra que não importa que os aspectos da verdade religiosa recebam vários nomes, conforme a índole dos seguidores. Vale a sinceridade com que nos devotamos ao bem. Muitos estudiosos espíritas consideram lícito trabalhar, tão-somente, com espíritos superiores, relegando as manifestações mediúnicas vulgares à fossa da obsessão e da enfermidade, que, na opinião deles, devem ser entregues a si mesmas, sem qualquer atenção de nossa parte. Há estudiosos espíritas que não suportam qualquer manifestação primitivista. Se o médium incorpora espíritos primários, afastam-se dele, agastadiços, responsabilizando-o por fraude ou mistificação. Isso é um contra-senso sem respaldo no Evangelho.

          Importa considerar, nesse debate, que cultos afro-brasileiros e Doutrina Espírita deve estar cada qual, em seu devido lugar sem miscelâneas, respeitando-se mutuamente sempre. Até porque, o Espiritismo nos remete ao tesouro da fé raciocinada, esclarecendo-nos e habilitando-nos a estender o bem, a partir de nós mesmos. Sabemos que uma religião digna, qualquer que seja o Templo em que se expresse, é um santuário de educação da alma, em seu gradativo desenvolvimento para a imortalidade.

Jorge Luiz Hessen

1 de novembro de 2011

VISÃO ESPÍRITA DA MORTE


Neste mês, em que os homens instituíram uma data para reverenciar os mortos, vale a pena rememorar o que ensina a Doutrina Espírita a respeito do que representa a morte.
O fenômeno da morte é visto sob múltiplas formas, dependendo da crença, da descrença ou da certeza que cada criatura humana constrói para si mesma.
Vale dizer que o materialista, o espiritualista e o espiritista têm concepções muito diferentes sobre a vida e sobre a morte.
Para o materialista puro, para quem a vida está inteiramente voltada aos bens e gozos materiais, o corpo físico, enquanto vivo, representa tudo. Morto o corpo, tudo se dissolve no nada.
Os espiritualistas em geral admitem a existência de algo além da expressão física – a alma – que sobrevive após a morte.
A destinação da alma, para as correntes espiritualistas, varia muito, de conformidade com suas doutrinas.
A Doutrina dos Espíritos, essa bênção da Espiritualidade Superior em favor de toda a Humanidade, o Consolador prometido e enviado pelo Cristo de Deus, veio aclarar a tormentosa questão da vida, da morte, da existência e da sobrevivência do Espírito.
Para a Doutrina Espírita, o que se denomina morte – o problema maior que tem ocupado o pensamento humano em todos os tempos – faz parte das leis naturais ou divinas, assim como o nascimento.
Nascimento, morte, renascimento são transformações naturais da própria Vida do Espírito imortal, sujeito à evolução natural.
Morte é transformação, não fim.
Por isso, para desmitificar a palavra morte, com sua conotação de fim, desaparecimento total, termo, destruição, conotações milenárias que causam tantos sofrimentos, o Espiritismo prefere substituí-la por desencarnação, que é justamente a separação do Espírito de seu suporte físico de carne.
Mas como a vida do Ser continua morrer é renascer, é a volta do Espírito à sua pátria verdadeira.
Morrer, pois, é prosseguir vivendo em outra dimensão vibratória, com os sentimentos adquiridos, com a visão espiritual ampliada, com os amores, as alegrias e saudades do ser, mas também com as imperfeições que não conseguiu superar.
Morte não é o sono eterno, mas, sim, a libertação do Espírito, enquanto não retoma à carne, em nova e laboriosa existência.
Para a Nova Luz, a morte, longe de ser a porta para o nada, é a continuação da vida eterna. Em lugar dos fantasmas teológicos, dos dogmas e dos suplícios infernais, ela acena com a esperança, que todos poderão cultivar sem medos. .

Editorial O Reformador Nov. 1999