31 de dezembro de 2011

PROJETO DE VIDA


“O amor aos bens terrenos constitui um dos mais fortes óbices ao vosso adiantamento moral e espiritual. Pelo apego à posse de tais bens, destruís as vossas faculdades de amar, com as aplicardes todas às coisas matérias”. Lacordaire (Constantina, 1863) O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO – Cap. XVI, Item 14.

Materialismo é estado íntimo que estabelece a rotina mental da esmagadora maioria das mentes no plano físico, focando os interesses humanos, exclusivamente, naquilo que fere os cinco sentidos. Postura e noções culturais se desenvolvem a partir desse estado levando a criatura a adotar o mundo das sensações corporais como sendo a única realidade.
O materialismo tem como base afetiva o sentimento de segurança e bem estar, expresso comumente por vínculos de apegos e posse. Os reflexos mais conhecidos desses vínculos afetivos com a vida material são a dependência e o medo, respectivamente.
Em essência, o interesse central de todo materialista é tornar a vida uma permanência, manter para sempre o elo com todas as criações objetivas que lhe “pertençam”, sejam coisas ou pessoas. Contudo, a vida é regida pela lei da impermanência. Tudo é transformação e crescimento. Algumas palavras que asseguram uma linha moral condizente com essa lei são: maleabilidade, incerteza, relativização, diversidade, ecletismo, pluralismo, alteridade, desprendimento, fraternidade, amor.
A volta do homem à vida corporal tem por objetivo o seu melhoramento, o engrandecimento de seus conceitos ainda tão reduzidos pela ótica das ilusões terrenas. Compreender que é um binômio corpo alma, que tem um destino, a perfeição, e que a vida na Terra é um aprendizado são as lições que lhe permitiram romper com os estreitos limites da visão materialista. Semelhantes conquistas interiores exigem preparo e devotamento a fim de consolidarem-se como valores morais, capazes de leva-los a cultivar projetos enobrecedores com os quais possa, pouco a pouco, renovar seus hábitos de vida.
Muito esforço será pedido para o desenvolvimento dessas qualidades espirituais no coração humano.
Uma semana na Terra é composta de dez mil e oitenta minutos.
Tomando por base noventa minutos como o tempo habitual de uma atividade espiritual voltada para a aquisição de noções elevadas, e ainda levando em conta que raramente alguém ultrapassa o limite de duas ou três reuniões semanais, encontramos um coeficiente de no máximo duzentos e setenta minutos de preparo para implementação da renovação mental, ou seja, pouco menos de três por cento do volume de tempo de uma semana inteira. São nesses momentos que se angariam forças para interromper a rotina mental do homem comum. Por isso necessitamos tanto das tarefas espirituais para fixar valores, desenvolver novos hábitos e alimentar a mente de novas forças, tendo em vista a espiritualização a qual todos devemos buscar em favor da felicidade e da paz.
A superação da rotina materialista exige esforço, mas também metas, ideais, comprometimento.
Por isso a melhora espiritual não pode circunscrever-se a práticas religiosas ou a momentos de estudo e oração. Imperioso será assumirmos o compromisso de mudança e elevação conosco mesmo, se não tais iniciativas podem reduzir-se facilmente a experiências passageiras de adesão superficial, sem raízes profundas nas matrizes do sentimento.
A reforma íntima solicitar fazer de nossas vidas um projeto. Um projeto de cumplicidade e amor!
Projeto de vida é outro nome da “religião íntima”, a “religião da atitude”, do comprometimento. Sem isso, como esperar que a simples frequência aos serviços do bem, nas fileiras da caridade e da instrução, sejam suficientes para renovar a nossa personalidade construída em milênios de repetição no “amor” aos bens terrenos?
E um projeto de mudança espiritual não será tarefa infantil de traçar metas imediatistas de fácil alcance para causar-nos a sensação de que aprimoramos com rapidez, mas sim o resultado do esforço pessoal em sacrificar-se por ideais que motivem o nosso progresso e que, a um só tempo, constituam a segurança contra o desânimo e a invigilância. Ideais esses que se apresentam sempre à nossa caminhada como convites da Divina Providência para que possamos sair do “lugar comum” à maioria das criaturas. Razão pela qual sempre encontraremos obstáculos e pedregais nas sendas da renovação espiritual. Isso porque aquele que realmente se elevar não deixa de causar mudança no meio onde estagia, atraindo para si todas as reações favoráveis e desfavoráveis aos ideais de ascensão. Isso faz parte de todo processo de espiritualização. Não há como não haver reações que, por fim, porém, algumas vezes, ser sinais de que nos encontramos em boa direção...
Cumplicidade e comprometimento são as palavras de ordem no desafio do auto-burilamento.
Evitemos, assim, confundir a simples adesão a práticas doutrinárias ou ainda o acúmulo de cultura espiritual como sendo iluminação e adiantamento, quando nada mais são que estímulos valorosos para o crescimento. Lembremos que só terão valor real, na nossa libertação, se deles soubermos extrair a parte essencial que nos compete interiorizar no fortalecimento de nosso projeto de vida no bem.
Lacordaire é muito lúcido ao afirmar que destruímos as faculdades de amar quando as reduzimos aos bens materiais. O cultivo da paixão ao adiantamento espiritual é a solução para todos os problemas da humanidade terrena, e o único caminho para um mundo melhor. Quando aprendemos isso, verificamos que a existência, mesmo que salpicada de problemas e dores, tem luz e vida porque plantamos na intimidade a semente imperecível do idealismo superior, o qual ninguém pode nos roubar.
Ermance Dufaux
Livro: REFORMA ÍNTIMA SEM MARTÍRIO

30 de dezembro de 2011

PERÍSPIRITO E VESTES BRANCAS


Estudar o períspirito e conhecer suas propriedades e funções é uma das mais gratificantes atividades a que pode se dedicar o estudante espírita.
Sob o título “O períspirito descrito em 1805”, Allan Kardec publicou na Revista Espírita de janeiro de 1865 um relato do doutor Woetzel, que causou grande sensação no princípio daquele século.
Durante uma doença de sua mulher, o doutor Woetzel lhe pedira que, em caso de morte, lhe aparecesse em Espírito. Algumas semanas após o decesso, um vento pareceu soprar no quarto, embora estivesse fechado, e, “a despeito da fraca claridade que reinava, Woetzel viu a forma de sua mulher, a dizer-lhe em voz doce:
‘Charles, sou imortal; um dia nos reveremos’.
A mulher mostrou-se de vestido branco, com o mesmo aspecto que tinha antes de morrer”.
Numa segunda obra, o autor desenvolve sua teoria, segundo a qual a alma, depois da morte, seria envolvida por um corpo etéreo, luminoso, por meio do qual poderia tornar-se visível, e mesmo usar outras vestimentas por cima desse envoltório.
Comentando a passagem acima, Kardec observa que o conhecimento do corpo espiritual remonta a mais alta Antiguidade, e que só o nome períspirito é moderno. São Paulo o descreveu em sua primeira epístola aos Coríntios, capítulo 15.
Em outra edição da Revista Espírita, o Espírito Lamennais opina que faltam às palavras cor e forma para exprimir o períspirito e sua verdadeira natureza. Quanto aos Espíritos inferiores, acrescenta que os fluidos terrestres são inerentes a eles, são matéria; daí os sofrimentos da fome, do frio, que podem atormentá-los, sofrimentos que não atingem os Espíritos superiores, considerando-se que, no caso destes, os fluidos terrestres são depurados em torno de seu pensamento ou alma.
O períspirito é assim o corpo espiritual que sobrevive à morte do vaso físico e serve ao Espírito, entre outras funções, para se relacionar com os demais Espíritos e se manifestar, quando permitido por Deus, aos encarnados, através de sua visibilidade. É composto de fluidos, os quais são luminosos nos Espíritos superiores e opacos ou materializados nos inferiores.
Em outras obras da Codificação se estabelece que tanto o períspirito quanto o corpo físico têm origem no mesmo elemento primitivo (o fluido universal); que “ambos são matéria, ainda que em dois estados diferentes”. E que é com o auxílio dos fluidos que o períspirito toma a aparência de vestuários semelhantes aos que o Espírito usava quando encarnado.
André Luiz irá alertar-nos para as enfermidades da alma que se refletem na plasticidade do corpo espiritual, gerando o adoecimento do homem físico quando da somatização dessas mazelas ainda não debeladas. Dirá que o remorso desarticula as energias do corpo espiritual, criando disposições mórbidas para as enfermidades, refletidas na cromática da aura – essa túnica de forças eletromagnéticas –, e agravadas, às vezes, pelo assédio dos seres a quem ferimos (obsessão).
E que, mesmo quando perdoamos ou somos “perdoados pelas vítimas de nossa insânia, detemos conosco os resíduos mentais da culpa, qual depósito de lodo no fundo de calma piscina, e que, um dia, virão à tona de nossa existência, para a necessária expunção, à medida que se nos acentue o devotamento à higiene moral”.
Em suma: nem o perdão puro e simples é solução ideal para a extinção de nossos débitos. São necessário que sejam cumpridas as três etapas da liberação total do ser onerado perante a Lei Divina e em face da própria consciência: o arrependimento, a expiação e a reparação do mal infligido a outrem, como se vê em O Céu e o Inferno, de Allan Kardec, no Código penal da vida futura (16o).
Em Mateus, capítulo 22, Jesus narra que o reino de Deus é semelhante a um rei que celebrou as bodas de seu filho. Entrando, porém, o rei na festa das bodas, notou haver ali um homem que não trazia veste nupcial. Ordenou, então, que fosse atado de pés e mãos e lançado nas trevas, onde há choro e ranger de dentes.
Veste nupcial: esta é a chave para permanecer no banquete!
Por veste nupcial devemos entender veste ou vestidura branca, expressões citadas em outras passagens do Evangelho, principalmente do Apocalipse.
“O vencedor será assim vestido de vestiduras brancas”, diz o Cristo (Ap., 3:5), após haver revelado, no verso anterior, que há, “em Sardes, umas poucas pessoas que não contaminaram as suas vestiduras, e andarão de branco junto comigo, pois são dignas”.
As vestiduras, pois, são passíveis de manchar-se, mas a condição para portá-las sem qualquer mácula, resplandecentes e puras, e desfrutar o direito de conviver com o Divino Mestre, é ser um Vencedor... De suas próprias imperfeições.
No capítulo 7, versículos 9 a 15, do citado livro, visualizamos uma imensa multidão vestida de branco, proveniente de todas as nações, cantando um cântico de glória diante do trono de Deus. Um dos anciãos ali presentes tomou a palavra, perguntando:
Estes, que se vestem de vestiduras brancas, quem são e donde vieram? Responde-lhe João Evangelista:
– Meu Senhor, tu o sabes.
Ele, então, acrescenta: São estes os que vieram da grande tribulação, lavaram suas vestiduras, e as alvejaram no sangue do Cordeiro, razão por que se acham diante do trono de Deus e o servem de dia e de noite no seu santuário.
Entendendo-se por sangue do Cordeiro a sua Doutrina de amor e luz, o contexto revela que a vivência diuturna dos ensinos do Cristo é o detergente divino que tem o condão de purificar o homem de todas as suas mazelas, presentes e passadas, tornando alvisplendente o seu planejamento espiritual, de acordo com aquele princípio: o bem que se faz anula o mal que se fez.
Esta verdade se encontra confirmada de forma irrespondível nesta passagem:
Foi dado à esposa do Cordeiro vestir-se de linho finíssimo, resplandecente e puro. Porque o linho finíssimo são os atos de justiça dos santos. (Ap., 19:7-8.)
Por esposa do Cordeiro simboliza-se a Cristandade no seu sentido mais universalista, indene de todos os divisionismos restricionistas humanos.
E santo é todo o que pratica esses atos de solidariedade, nascidos do coração, e em perfeita harmonia com as Leis de Deus, de que se encontram replenos os Evangelhos.
Dito isto, só resta aproximar os dois polos – períspirito e vestes brancas –, como o fez Emmanuel, e teremos aí um dos mais belos símbolos do Apocalipse perfeitamente esclarecido pela Nova Revelação:
O períspirito, quanto à forma somática, obedece a leis de gravidade, no plano a que se afina [escreve Emmanuel].
Nossos impulsos, emoções, paixões e virtudes nele se expressam fielmente. Por isso mesmo, durante séculos e séculos nos demoraremos nas esferas da luta carnal ou nas regiões que lhes são fronteiriças, purificando a nossa indumentária e embelezando-a, a fim de preparar, segundo o ensinamento de Jesus, a nossa veste nupcial para o banquete do serviço divino.
Quando o livro sagrado fala, portanto, em vestiduras brancas ou linho finíssimo, está se referindo ao corpo espiritual ou psicossoma completamente purificado, ou seja, transformado em veste nupcial, talar, apto a permitir a entrada, para sempre, na festa das bodas do Cordeiro a que se refere o Evangelho.
Reformador Janeiro 2009

29 de dezembro de 2011

IMPRUDÊNCIA NO TRÂNSITO


“Quantos homens caem por sua própria culpa! Quantos são vítimas de sua imprudência, de seu orgulho e de sua ambição!” O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO – Cap. V, Item 4.

Cumprimos nossos afazeres rotineiros no Hospital Esperança, quando fomos chamados com urgência por Dona Maria Modesta Cravo no saguão para “confinamento de acidentados”.
Descemos o mais rápido que podíamos em direção aos pavilhões do subsolo acompanhados por Rosângela, jovem aprendo que se tornou infatigável companheira nos serviços de socorro.
Ao chegarmos, adentramos a unidade de tratamentos especializados e vimos Frederico, excelente cooperador das lides mediúnicas em conhecido estado brasileiro, em condições dolorosas.
Dona Modesta nos recebeu com a notícia?
— Fizemos o que foi possível como você sabe, Ermance, mas veja o resultado...
— E qual o prognóstico, Dona Modesta?
— “Coma mental!” Foi recolhido trinta minutos após o acidente sem problemas com vampirismo e nem com desligamento dos chacras.
— Ficará no monitoramento ou vai para as câmaras de recomposição?
— Por dois dias permanecerá aqui, depois vamos reavaliar o quadro.
Verifique você mesmo o estado...
Aproximamos. Rosângela sempre atenta acompanhava cada detalhe.
Frederico estava com o corpo em estado de languidez, musculatura flácida e muitos ferimentos expostos na região craniana. Um leve toque na sua fronte foi o suficiente para aferir a problemática mental. Intenso barulho de vidros estilhaçados e ferro sendo retorcido, seguido de uma infeliz sensação de descontrole e impotência. O corpo perispiritual semelhava-se a uma massa amolecida que lembrava um corpo após desfalecimento, mas com muito maior soma de flacidez. Não seria exagero dizer que parecia estar se desmanchando. A cor arroxeada dos pés à cabeça dava a ideia cadavérica e assombrosa. Rosângela se apiedava da situação de nosso amigo e teve um leve mal estar devido à cessão espontânea de energias. Saímos um pouco do ambiente, juntamente com Dona Modesto, enquanto trabalhadores especializados tornavam outras providências.
Dona Modesto, sempre atenciosa, indagou:
— Está melhor, Rosângela?
— Sim, há uma doação imprevista. Estou tranquila.
Percebendo que Rosângela recuperava-se, dirigiu-se a mim com as informações:
— Como você bem conhece a história, a despeito de suas inúmeras qualidades que dele faziam um homem íntegro, Frederico agia como uma criança ao volante. Sempre impudente no trânsito, acreditava em demasia na segurança do automóvel e preferiu ignorar os cuidados que deveria tomar. Negou se reeducar nas lições do trânsito e colhe agora o fruto amargo da sua opção. Foi alertado muitas vezes fora do corpo, durante as noites de sono, em vão. Providenciamos amizades que o chamaram na responsabilidade, sem sucesso. Por fim, ele próprio vai ser a lição em si mesmo, embora com o elevadíssimo preço da vida física.
Atenta a sempre educadamente curiosa, Rosângela questionou:
— Poderíamos aventar a hipótese de inimigos espirituais no caso, já que era médium?
— De forma alguma, minha jovem.
— haveria algum componente cármico em aberto, para resgate em forma de morte trágica?
— Também não, Rosângela.
— Algum descuido da parte dele, que não seja na arte de conduzir o veículo?
— Absolutamente, ele era extraordinariamente precavido quanto à manutenção do mesmo, com o objetivo de que usufruísse tudo que podia da máquina. Não ingeria alcoólicos, era possuidor de reconhecida habilidade visual e motora.
— Então, é um caso de imprudência?
— Pura imprudência, minha filha. Ultrapassou em muito a oitava casa decimal nos limites de velocidade, em plena via urbana. Retorna com trinta e sete anos de antecedência deixando família e uma reencarnação promissora com sua mediunidade e vida espírita consciente. Todo o amparo possível e desejável em nome da misericórdia foi-lhe oferecido. O mundo físico nesse instante via cogitar de carmas e obsessões, resgate e liberação, todavia, o que Frederico mais vai precisar é de tempo, auto perdão, paciência e muitas dolorosas intervenções cirúrgicas.
— Quanta dor desnecessária! — asseverou a jovem com grande lamento.
— Não existe dor desnecessária, Rosângela, existe provas dispensáveis, ou seja, tribulações que poderíamos evitar. A dor será tão grande e valorosa que levará Frederico à virtude da prudência em toda a eternidade. O que é de se lamentar é que poderia aprender isso a preço módico nos investimentos da vida. Não podemos confundir acaso e programação divina.
— Elucide meus raciocínios, Dona Modesta, qual a diferença?
A benfeitora, no entanto, como de costume, querendo esquivar-se da postura professoral, falou:
— Querida, Ermance, responda você mesmo a essa oportuna interrogação que deveria ser refletida e mencionada entre os espíritas na carne.
— Sim, Dona Modesta, com prazer. Como sabemos, o acaso seria uma aberração nas Leis do Universo, portanto, não existe. E parte de uma concepção da ignorância em que ainda estagiamos. Dessa forma, todo acontecimento tem suas razões explicáveis. A programação reencarnatória, entretanto, é um plano com objetivos divinos em favor de quem regressa à sagrada experiência corporal na escola terrena. Semelhante projeto sofre as mais intensas e flexíveis alterações ao longo da jornada. Veja o caso de Frederico, que alterou em mais de três décadas o seu retorno. Nem sempre o que acontece está na programação da vida física, nem por isso existe acaso, ou seja, mesmo o “imprevisto” tem finalidades sublimes na ordem universal, embora pudesse ser evitado. Nada existe por acaso, quer dizer, para tudo há uma causa, uma explicação. Isso não significa que tudo tenha que acontecer como acontece. Até os fatos do mal não existem sem casualidade, nem por isso podemos concebê-lo como uma obra do Pai, e sim reflexo oriundo de nossas decisões infelizes.
— Em sua ficha não constava o regresso na categoria de morte trágica?
— Não, ele se enquadrava na morte natural por idade, gozando de plena saúde.
— Suponhamos então que constasse um resgate através de tragédia, qual seria a situação?
Dona Modesto interveio com naturalidade esclarecendo:
— Se assim fosse minha jovem, ainda seria um suicida, porque estaria, nesse caso, antecipando o tempo de sua liberação. Inclusive a categoria de desencarne pode sofrer modificações, conforme o proveito pessoal na reencarnação.
Temos casos, aqui mesmo no Hospital, de criaturas que ressarciriam velhos crimes de guerra com desenlaces lentos, sofrendo longamente nas pontas dos bisturis e tesouras cirúrgicas e que, no entanto, levaram um leve escorregão no banheiro e acordaram na vida extrafísica felizes e saudáveis... Há também mudanças para melhor...
A conversa avançou, enquanto aguardávamos algumas providências de refazimento a Frederico. Passados alguns minutos, fomos orientados por Dona
Modesto:
— Chamei- lhe, Ermance, a fim de que possas integrar a equipe de amparo à família de Frederico. A esposa está inconsolável. Como você sabe, ela não tem a fé espírita e está confusa.
— Sim, vou inteirar-me das iniciativas e logo rumaremos à residência para prestar os auxílios possíveis.
Quando regressávamos para os pavilhões superiores do Hospital, acompanhada por Rosângela, ela retornou sua sede de aprender.
— Ermance, mesmo não tendo sido intencional, a morte de Frederico será considerada um suicídio?
— Certamente. Não há ninguém que vá considerar a morte de alguém um suicídio, mas o Espírito, ao retornar a posse da vida imortal, submete-se aos regimes naturais que vigoram no Universo. Por se tratar de uma criatura tão consciente quanto o médium Frederico, a cobrança consciencial é maior. Ele próprio se imporá severos “castigos”.
— Então, mesmo não havendo intenções propositadas de um criminoso, ele guarda um nível de culpabilidade pelo esclarecimento que possuía?
— Certamente. Todo esclarecimento torna-nos mais responsáveis. Quando
Frederico retorna a lucidez por completo iniciará uma etapa muito dolorosa de reconstrução mental. Alguns casos similares levam a estágios prolongados de anos a fio na “para esquizofrenia”, um quadro muito similar à doença psiquiátrica da classificação humana agravado pelas ideoplastias. Para isso temos aquele saguão no qual ficam confinados os hebetados em transes psíquicos que a Terra ainda desconhece. Seus quadros vão muito além dos transtornos psicóticos. O fato de não ter a intenção do trespasse e por comportar-se à luz do Evangelho o livrou de outros tantos tormentos voluntários, que ainda poderiam agravar em muito seu drama, em peregrinações pelas regiões inferiores junto à crosta terrena. Para se obter melhores noções sobre a terra, sugiro a você, minha jovem, que reflita e estude o tema Lei de Liberdade, na Parte Terceira de O LIVRO DOS ESPÍRITOS, acrescido da oportuna questão 954 que diz:
“Será considerável uma imprudência que compromete a vida sem necessidade?”
“Não há culpabilidade, em não havendo intenção, ou consciência perfeita
da prática do mal”.
* * *
Amigos espíritas,
Por traz da imprudência escondem-se, quase sempre, os verdugos da ansiedade, da malquerença, da vaidade de aparências, da avareza e de múltiplas carências que o homem procura preencher correndo risco e desafios em nome do entretenimento e da vitoria transitória.
A postura ética do homem de bem perante as leis civis deve ser a da integridade moral.
A direção de um veículo motorizado é uma arte, e como tal deve ser conduzido: a arte de respeitar a vida.
Habitua-te à disciplina nesse mister e procura agir com discernimento e vigilância perante as obrigatoriedades que te são pedidas.
Se outros não as seguem, responderão por eles próprios e não por ti.
Tu, porém, age no trânsito memorizando sempre que por traz de cada volante existem almas em provação carregando perigosa arma nas mãos, nem sempre sobre controle.
Procura ser o pacificador e renova teu proceder por mais desacertos nas avenidas do mundo...
Dirige com o coração e não com o cérebro, e jamais esqueças que todos responderemos pela utilização que fizermos dos bens confiados.
Aprende a respeitar as leis humanas considerando esse um passo favorável para tua melhoria espiritual.
Faze de tua condução uma ocasião de autoconhecimento e procura averiguar o que sustenta a atitude de insensatez em acreditar que jamais ocorrerá contigo os lamentáveis episódios que já ceifaram milhões de corpos, nos testes da prudência e da responsabilidade. Habilidade pessoal adquirida com o tempo é crédito que te solicita mais cautela, enquanto os iludidos nela enxergam competência com permissão para o exagero.
Quanto à segurança das máquinas, analisemo-la como medida de prevenção e segurança, não questão para o abuso.
Recorda que, até mesmo como pedestre, tens convenções que te cabem para a cooperação nos espaços comunitários.
Nossa tarefa, enquanto desencarnados, é proteger e orientar sempre conforme os limites das convenções, ultrapassando-as somente quando o amor não se torna conivência.
Nesse sentido, estejam certos os amigos na carne que de nossa parte respeitamos o que estipula a lei terrena; assim, apuramos sempre se o ponteiro medidor não ultrapassa a oitava casa decimal como uma medida aferidora de equilíbrio para a harmonia geral, critério seletivo para dispensar amparo e auxílio em casos de reincidência...

Ermance Dufaux
      LIVRO: REFORMA ÍNTIMA SEM MARTÍRIO

28 de dezembro de 2011

A PAZ E O MUNDO


Mais um ano novo se desdobra no calendário humano e, como sempre; é recebido como portador de esperanças mais fagueiras, como se trouxesse algum sortilégio capaz de dissipar todas as canseiras e frustrações do ano que findou e de fazer os homens, afinal, prelibarem todas as delícias que os filhos de Deus esperam, um dia, gozar na face da Terra.
Todo novo ano que se aproxima dá motivo a que os profetas do mundo se esparramem em augúrios e previsões do que acontecerá em seu transcurso, sobrelevando nesse quadro os acontecimentos que digam respeito aos caminhos antevistos para a humanidade em seu conjunto. O anseio geral é que a nova etapa proporcione a todas as nações uma quota maior de prosperidade e bem-estar e, sobretudo, de paz e de entendimento.
O homem deseja paz, o mundo deseja paz. Os condutores das nações lançam mão de todos os recursos para alcançarem esse desiderato. Erigem instituições internacionais, para a preservação da paz; realizam congressos e conferências dos mais responsáveis; promovem demarches pessoais, a fim de ver se conseguem harmonizar pontos de vista e interesses contrários, de modo a evitarem o mal maior. Na verdade todos temem a guerra, por sabê-la devastadora e, paradoxalmente, como argumento “ad terrorem”, armam-se as nações cada vez mais, no intuito de estabelecerem um equilíbrio de forças capaz - essa é a desculpa - de intimidar quaisquer temerários que pretendam explorar a confusão reinante em proveito próprio.
A violência, porém, está generalizada no cenário do mundo. Violência em todas as escalas. O cidadão comum se vê ameaçado e indefeso até no recesso do próprio lar; os homens vivem, em qualquer parte, num clima de insegurança total, em que os mais comezinhos valores humanos são pisoteados pelos gestos truculentos; e, com isso tudo, a própria humanidade vive em sobressalto, sonhando com as venturas da vida e sofrendo as duras realidades de um mundo que parece prestes a desabar.
Todas as criaturas, sem exceção, esperam que, ao dealbar de um novo ano, ressoem pela Terra os prenúncios de uma vida mais tranquila, mais promissora, em que, de verdade, todos possam desfrutar a tão suspirada paz.
Os anseios humanos são legítimos; pena, porém, é que os homens teimem em buscar a paz onde ela não se encontra, isto é, na quietude exterior, em uma vida isenta de lutas e de sofrimentos, no gozo ameno e imperturbável das comodidades materiais, em uma vida regalada e descuidada, onde os valores espirituais não entram em conta e não merecem atenção. Com essa visão imediatista, dificilmente poderão se render ante as revelações que lhes chegam, mau grado seu, dos planos da Vida verdadeira, a ensinarem que a estada na face da Terra é apenas um trânsito entre um ontem, que escapa por ora ao nosso conhecimento, e um amanhã, que só conseguimos vislumbrar quando alçamos a vista acima do horizonte hedonístico que nos sufoca, trânsito que está inexoravelmente jungido à lei de causa e efeito.


A não ser que se compreenda essas verdades, o homem será um eterno candidato à desilusão, não crendo na imortalidade e, contraditoriamente, blasfemando contra Deus, porque se vê esbulhado do tesouro que mais cobiça: a paz.
Já é tempo de o homem sofrear seus desvarios, para afinal entender e ouvir a voz daquele que, há perto de dois milênios, lhe diz: Eu vos dou a paz, não como o mundo a dá, mas aquela que vem do coração afeito à caridade e da consciência iluminada que vive na conformidade das leis eternas e divinas.

Editorial   “Reformador” (FEB) Janeiro 1975

27 de dezembro de 2011

POR QUE A TERRA NÃO SERÁ DESTRUÍDA EM 2012


 O filme 2012 – O dia do juízo final, produzido em 2008 nos Estados Unidos, é na verdade mais uma tentativa de se criar uma onda de terrorismo psicológico através do suposto fim do mundo. Nessa onda, exploram-se sem fundamento as profecias relativas às transformações pelas quais a Terra está passando para ingressar em uma Nova Era.
Segundo um amigo, os produtores desse filme usaram as profecias Maias tentando “cristianizá-las”, mas esqueceram-se de que, quando tais profecias foram concebidas, aquele povo nem tinha ouvido falar de Jesus, muito menos pensava em acreditar em um único Deus. Como o ano 2000 já se foi, e não se pode mais explorar a falsa profecia da Bíblia – “de mil passarás, de dois mil não passarás” – agora surge um filme que procura reativar o tema catastrófico, embora não haja nenhuma citação a respeito nem no Velho nem no Novo Testamento.
A escolha da data Na verdade, a nova data para o mundo acabar, o dia 21 de dezembro de 2012, é apenas uma jogada de marketing para o lançamento do referido filme. Ela foi estabelecida no calendário Maia, um calendário que principia a contagem do tempo em 11 de agosto do ano 3114 a.C., ou seja, antes mesmo das datações arqueológicas dessa misteriosa civilização. De acordo com aquelas datações, os Maias floresceram entre 1800 a.C. e 1450 d.C., em um vasto território que inclui regiões das Américas Central e do Sul, onde as ruínas de suas cidades e pirâmides monumentais resistem ao tempo.
Os Maias são reconhecidos por seu avançado conhecimento de astronomia e pela precisão de seus diferentes calendários, como o calendário anual solar, com 365 dias, chamado Haab. Outro desses calendários, o de “longa contagem”, foi desenvolvido para computar extensos períodos de tempo ou ciclos, de 5.125 anos. Foi com base nesse calendário de longos ciclos que se estabeleceu a tradição da profecia Maia do fim dos tempos.
Ora, as profecias Maias, pelo visto, estão de acordo também com o que ensina a Doutrina Espírita a respeito não do fim físico do nosso planeta, mas do surgimento de uma Nova Era, quando a Terra passará, na escala dos mundos habitados, de Mundo de Expiações e Provas (segunda categoria), para Mundo de Regeneração (terceira categoria).
Já estamos em 2014 Porém, precisamos considerar que já estamos no ano 2014, de acordo com a revelação mediúnica transmitida por Chico Xavier, em 1937, posteriormente ratificada através de conceituados cientistas e teólogos, que se basearam nos estudos e pesquisas históricas relacionados a seguir:

1o) Quando Jesus nasceu numa obscura colônia do Império Romano, a Palestina, uma estreita faixa de terra no fundo do Mediterrâneo, o imperador romano era César Otávio Augusto. E no mundo de César, os anos eram contados pelo calendário romano. Assim, o ano 1 era o da fundação de Roma.
Os anos seguintes eram assinalados com a abreviatura A. U. C., da expressão “Ab Urbe Condita” (Desde a Fundação de Roma).
Somente no século VI, bem depois de Constantino (com o Edito de Milão no ano 313) conceder a liberdade de culto aos cristãos, é que foi estabelecido o calendário cristão. Foi então que, no ano 525, o monge Dionísio, o Pequeno, procurou estabelecer o ano da Era Cristã, em relação ao calendário romano “Ab Urbe Condita”.
E, por seus cálculos, fixou o ano da fundação de Roma como sendo 754 antes de Cristo.
Contudo, a revelação feita pelo Espírito Humberto de Campos, em 1935, por intermédio da psicografia de Francisco Cândido Xavier, no capítulo 15 do livro Crônicas de Além-Túmulo, editado pela FEB em 1937, registra o erro histórico cometido por aquele monge católico e sua devida correção, ao relatar o seguinte diálogo, travado no mundo espiritual, entre o Cristo e seu discípulo João, o Evangelista:
– João – disse-lhe o Mestre –, lembras-te do meu aparecimento na Terra?
– Recordo-me, Senhor. Foi no ano 749 da era romana, apesar da arbitrariedade de Frei Dionísio, que, calculando no século VI da era cristã, colocou erradamente o vosso natalício em 754.

2o) É importante frisar que a revelação, trazida por intermédio de Chico Xavier, foi confirmada posteriormente pelo historiador e professor de História Antiga no New College, de Oxford, Robin Lane Fox, que em seu livro Bíblia – Verdade e Ficção, lançado em 1993, confirma esse erro de cálculo da data de nascimento de Jesus, calcado em vários documentos da época e nos fatos narrados pelos evangelistas, fatos esses postos em aparente contradição na perspectiva fundamentada no calendário romano.

3o) Esse mesmo pensamento é defendido pelo professor Charles Perrot, do Instituto Católico de Paris, em entrevista à revista Le Point:
[...] segundo um amplo consenso de exegetas, o ano de nascimento de Jesus deveria situar-se um pouco antes da morte de Herodes, O Grande. Ora, segundo os dados numismáticos, astronômicos e, sobretudo textuais, Herodes deve ter morrido no dia 11 de abril do ano 4 a.C.
[...] O nascimento de Jesus terá sido provavelmente entre os anos 6 e 7 a.C. [...].

4o) Também o professor e padre John P. Meier, que leciona o Novo Testamento na Universidade Católica da América, em Washington, escreveu no The New York Times, no dia 21 de dezembro de 1986, que Cristo deve ter nascido por volta de 6 a 4 a.C.; e

5o) Em nosso país, o astrônomo Ronaldo Rogério Mourão de Freitas, do Observatório Nacional, divulgou no Jornal do Brasil de 4/1/1982 que Frei Dionísio, o Pequeno, em 525, encarregado pelo Papa de organizar o calendário cristão a partir da vinda de Jesus à Terra, arbitrou o ano de 754 da Era Romana para o seu nascimento. Mas, pelas pesquisas realizadas sobre o assunto, ele chegou à conclusão de que o aparecimento do Cristo em nosso mundo se deu no ano 749 da fundação de Roma.
A Nova Era Ora, diante de todas essas evidências, podemos concluir, sem margem de dúvida, que o ano 2012 já passou, ou seja, já estamos em pleno 2014 e a Terra não foi destruída, conforme a previsão divulgada de que o mundo acabaria no dia 21 de dezembro de 2012.
Convém ainda esclarecer que o termo “fim”, empregado nas palavras proféticas de Jesus – “Quando o Evangelho for pregado em toda a Terra, é então que chegará o fim” (Mateus, 24:14) – está relacionado com a ideia de tempo e não com a de espaço, exatamente a mesma ideia do calendário de longos ciclos dos Maias. Portanto, Jesus se referiu ao fim de uma Era, não ao fim do mundo físico. E isto é lógico, pois quando as criaturas humanas estiverem evangelizadas haverá o fim da violência, das lutas fratricidas, do narcotráfico, das balas perdidas, das seleções étnicas e de todo o mal que ainda perdura no coração do homem.
E convenhamos: seria racional Deus acabar com o nosso planeta, quando as criaturas humanas estivessem vivendo plenamente a mensagem do Evangelho? E se Deus é a Justiça Suprema, a destruição do mundo seria então o prêmio prometido por Jesus aos mansos e pacíficos, que ao longo dos séculos se esforçaram para implantar na Terra o seu reino de amor e de paz? É claro que não! Deus é Justo!
Reformador Janeiro de 2010

26 de dezembro de 2011

CAUSAS PRIMÁRIAS DAS ENFERMIDADES


Há uma gama incontável de hipóteses, desde que o homem racional existe neste planeta, acerca de quais seriam as causas primárias das enfermidades. Todos os conhecimentos sistematizados, particularmente a Ciência, a Filosofia e a Teologia, têm emitido e continuam emitindo mais hipóteses, por se tratar de um fato humano inquestionavelmente vivencial.
Esse artigo propõe mais uma hipótese sobre o assunto, hipótese essa que não é uma novidade nem uma originalidade do autor; no máximo é uma nova exposição na forma da sua atual percepção.
O primeiro pressuposto: a sanidade ou a sua ausência, convencionalmente chamada de enfermidade, é de única e exclusiva responsabilidade do espirito humano, portanto do ser pensador, como conseqüência natural de seu currículo de vida milenar, independentemente de ele estar conscientizado ou não sobre essa auto-responsabilidade.
O segundo pressuposto: qualquer enfermidade, com relação às causas primárias, é uma determinação por algum nível consciencial, mais profundo, desequilibrando o estado mental e/ou emocional e/ou fisico. Com outras palavras, a enfermidade é uma auto-limitacão compulsória que a consciência mais profunda obriga a consciência racional a retificar concepções de vida não naturais e/ou conflitos íntimos
E quais são as concepções de vida naturais? São aquelas que não contrariam a ética universal, estabelecida pelas Leis Universais que estão esculpidas na consciência humana e que regem tudo o que existe no Universo. O fato é que a consciência humana sabe perfeitamente quais as concepções de vida naturais, mas a consciência racional, geralmente motivada por alguma ilusão, pode vivenciar uma concepção de vida não natural. Aí, instala-se o conflito consciencial. A correção parte de um nível mais profundo, "consciente" de quais são as concepções de vida naturais, freqüentemente usando o recurso da enfermização, em qualquer dos estados da vida encarnada (mental e/ou emocional e/ou físico), resultando na privação da sanidade, mas visando levar a consciência racional a uma auto-reflexão e conseqüente retificação conceptual.
É claro que a maioria do nós ignora esse processo de enfermização. Por quê?
Porque, quando estamos no estado de consciência usual ou consciência intra-cerebral ou consciência física, cuja predominância é do nível consciencial racional, não é possível, apenas a partir dele, "saber" ou "imaginar" qual a ação de níveis conscienciais mais profundos. Ora, esse é o fato: a ignorância da existência dos multiníveis conscienciais, que só podemos saber através de experiências vivenciais, e poucas pessoas de fato sabem, é o motivo pelo que ignoramos a causa primária das enfermidades. Essa é a explicação por que a maioria das hipóteses sobre as causas das enfermidades são fundadas nas causas "visíveis" que são secundárias, terciárias etc..., como desequilíbrio bioquímico, hereditariedade, microorganismos, imunopatias, outros agentes externos etc. porque as causas primárias são "invisíveis" e têm a ver com o motivo da encarnação do espirito.
 O terceiro pressuposto: toda enfermidade antes de ser física é emocional, e antes de ser emocional é mental. E o que é o mental? O mental é basicamente o nosso pensamento e a nossa imaginação, ou seja, a fundamentação das nossas concepções de vida. Esse é um ponto vital para se compreender o processo de geração de nossas enfermidades, porque nas nossas concepções de vida, crenças e mitos, é que se fundam nossas atitudes, comportamentos e reações emocionais, naturalmente em correspondência com o grau evolutivo individual.
De modo geral, a mentalidade da maioria da Humanidade lida com muito apego à materialidade e pouca vivência de espiritualidade. Por isso ela não sabe do real propósito da encarnação neste planeta. E que esse propósito tem a ver com uma programação individual de expiação e/ou provação e/ou missão, sem, contudo, prejudicar o relativo livre arbítrio individual. Daí, as pessoas no seu estado de consciência usual, terem dificuldade de aceitarem, com naturalidade, a realidade humana tal como se apresenta aqui, agora. O resultado é uma reação emocional com mágoa, ressentimento, cobrança, . revolta etc.
Vivemos, então, mergulhados em apegos e cobranças a nós mesmos e/ou a outrem. Essa condição mental gera muitos conflitos internos e externos que, enquanto não forem solucionados pela própria pessoa, poderão gerar, por sue vez, um desequilíbrio emocional, em si mesmo adoentógeno. No curso do tempo, o estresse emocional crônico pode bombardear o equilíbrio físico dando origem às enfermidades físicas.
Vou dar um exemplo do processo de enfermização: o fato da infidelidade conjugal. O cônjuge que se sente traído, geralmente não aceita, com naturalidade, essa realidade humana porque sua relação é de forte apego e dependência, por ignorar a finalidade fundamental de sue encarnação neste planeta, cuja concretização só poderá ser realizada por si mesmo: jamais por pais, cônjuge, filhos etc. Trata-se de uma experiência pessoal, assim como o é a do nascimento e a da morte. Ai, o que é que acontece com o cônjuge que se sente traído? A idéia de fidelidade conjugal entra em choque com o fato real da infidelidade, originando um conflito mental, que, se não for solucionado a tempo, pode evoluir com emoções fortes de mágoa, ressentimento, cobrança, revolta etc. A duração prolongada deste estado emocional pode levar ao adoecimento físico, pela alteração da homeostase física, tornando-se vulnerável ao desequilíbrio bioquímico, hereditariedade, microorganismos, imunopatias, outros agentes externos etc.
Qual seria a concepção de vida natural que o nível consciencial mais profundo está obrigando a consciência racional a retificar-se? Basicamente seria instrui-la quanto a aprender a relacionar-se com pouco ou nenhum apego a quem quer que seja, mesmo se tratando de ente querido.
Esta atitude não significa indiferença afetiva mas, sim, compreensão profunda de que a necessidade pessoal nem sempre coincide com a necessidade alheia, e que somente a Justiça Divina, geralmente representada pela consciência mais profunda de cada espirito, poderá devidamente fazer o julgamento do cônjuge infiel, apenando-o em momento oportuno, dentro de uma programação especifica para a auto-retificação, visando unicamente evolui-lo intelectual e moralmente. Essa compreensão profunda abortará a mágoa, 0 ressentimento, a cobrança, a revolta etc., que, por sue vez, não alterarão o equilíbrio físico evitando o risco de enfermização.

( Mensagem extraída da Revista Espirita Allan Kardec, ano IX, no 36) 

23 de dezembro de 2011

NOITE FELIZ(?) !


O mundo prepara-se para mais um Natal. As ruas iluminam-se chamando atenção e as músicas típicas da época dão o tom da festividade. Ao centro, a conhecida figura do "Papai Noel", embalando sonhos e fantasias infantis mas, por outro lado, alimentando também interesses puramente mercantilistas.
As famílias já pensam nos brindes, presentes e festas. Economia para presentear melhor, vestuários renovados, casas reformadas, viagens e sonhos...
Esta nos parece uma realidade bem próxima e nos agrada divagar pelo brilho das luzes... afinal, o Natal é uma festa de alegria. No entanto, se nos afastarmos um pouco desta visão, procurando analisar de maneira mais cuidadosa, de forma mais crítica e real, lembraremos inevitavelmente dos que ainda não podem se quer sonhar...
O mundo ilumina suas ruas, mas há alguns lugares que continuam obscuros, talvez para esconder aqueles que excluímos da festa.
E, na escuridão, o crack, a cocaína, a cola continuam vitimando crianças e jovens que não sonham mais;
...na escuridão, meninas mal saídas da infância servem de objeto sexual nas mãos prostituídas de aparentes homens de bem. Na noite de natal, possivelmente, estarão embriagadas ou drogadas para suportar a exploração;
...na escuridão, homens disputam comida com ratos, cães e urubus nos lixões, perdendo sua humanidade a pouco e pouco. Estes talvez consigam comer melhor na noite de natal, aproveitando o desperdício dos banquetes que deixará o lixo mais "rico";
...na escuridão, guetos que separam negros de brancos continuarão infectos e nas favelas as comemorações acontecerão, talvez, em meio à dor de um assassinato ou de um estupro;
...na escuridão doentes se amontoarão em corredores de hospitais públicos, crianças, mães e famílias inteiras estarão morrendo por causa de fome, por falta de vacina, de saneamento básico e de noções mínimas de higiene em recantos tristonhos das terras africanas, brasileiras e asiáticas;
...na escuridão, pais desempregados sequer podem pensar em presentes e entre lágrimas que cortam a alma, abandonam seus filhinhos em orfanatos, para que sobrevivam;
...na escuridão, cortando o ruído das ruas e dos bailes, serão ouvidos ‘gritos silenciosos’ de seres humanos expulsos dos ventres de suas mães que, inconscientes e equivocadas, tentam fugir de suas responsabilidades pelo caminho do aborto criminoso;
...na escuridão do sertão, nem o luar de lá consegue iluminar a dor da sede e da fome de famílias inteiras condenadas a beber lama e comer lagartos, enquanto bois e cabritos serão mortos para as festas dos fazendeiros donos das terras e dos açudes;
...na escuridão sob as marquises, velho morrerão de frio e crianças serão assassinadas por criminosos fardados;
...na escuridão, toda escuridão aparece...
E lá fora, sob o esplendor das luzes, estouram os ‘champanhes’ nas mesas corrompidas pela falta de ética e humanidade na política. Os escândalos e as fraudes são esquecidos sob o borbulhar da bebida e os detentores dos "podres poderes" da Terra seguem cegos e descompromissados com o povo;
A sociedade egoísta distribui cestas e brinquedos com os ‘pobrezinhos’ para tentar aliviar o fogo que lhes queima a consciência e falam em solidariedade como se fosse uma jóia a mais que pudessem expor pendurada no pescoço.
Perdoem-me se pareço duro demais. Muito mais dura, no entanto, é a realidade enfrentada por milhares, milhões de irmãos nossos espalhados pelo planeta inteiro. Lembrando-se deles, estamos lembrando-se daquele que é o motivo das comemorações natalinas. Aquele que em sábias palavras afirmou que tudo que fosse feito a um desses pequeninos seria feito a Ele próprio indiretamente. Ele que soube ser solidário de maneira plena, sem se corromper pela vaidade e pelo aplauso, foi muito além da esmola dada em uma noite. Investiu sua vida e sua morte para a transformação da sociedade. Lutou contra os preconceitos, convivendo com a "escória" sem falsos pudores e valorizou o ser humano como ninguém fez antes ou depois dele.
Vale a pena nos perguntar: então, por que Ele veio? Qual a razão histórica de sua vida? O que constituiu o objeto de suas atenções e qual o objetivo de todo seu esforço? Certamente que Ele não veio para aprofundar a diferença entre os homens, nem para manter os preconceitos e o egoísmo que têm gerado toda miséria no mundo. Sua vinda visava a educação plena do homem, estimulando a transformação do homo sapiens – lobo do próprio homem – no homo sapiens solidarius que não é só intelecto e começa a descobrir que não pode ser feliz sozinho; que se completa no bem do outro e que plenifica-se no amor ao próximo sem conotação sacramental, mas com sentido prático e efetivo. É o amor experienciado, vivido, que não se coaduna com o comodismo e a indiferença, e foge dos discursos vazios.
Jesus, talvez ainda seja o ilustre esquecido do Natal rico e mercantil dos "papais noéis marqueteiros" e nós, certamente, os grandes omissos desta triste e contraditória realidade. Não tenho a menor dúvida que enquanto comemos perus e distribuímos presentes, Ele deve estar muito, muito ocupado com os que foram excluídos de um FELIZ NATAL!