30 de dezembro de 2011

PERÍSPIRITO E VESTES BRANCAS


Estudar o períspirito e conhecer suas propriedades e funções é uma das mais gratificantes atividades a que pode se dedicar o estudante espírita.
Sob o título “O períspirito descrito em 1805”, Allan Kardec publicou na Revista Espírita de janeiro de 1865 um relato do doutor Woetzel, que causou grande sensação no princípio daquele século.
Durante uma doença de sua mulher, o doutor Woetzel lhe pedira que, em caso de morte, lhe aparecesse em Espírito. Algumas semanas após o decesso, um vento pareceu soprar no quarto, embora estivesse fechado, e, “a despeito da fraca claridade que reinava, Woetzel viu a forma de sua mulher, a dizer-lhe em voz doce:
‘Charles, sou imortal; um dia nos reveremos’.
A mulher mostrou-se de vestido branco, com o mesmo aspecto que tinha antes de morrer”.
Numa segunda obra, o autor desenvolve sua teoria, segundo a qual a alma, depois da morte, seria envolvida por um corpo etéreo, luminoso, por meio do qual poderia tornar-se visível, e mesmo usar outras vestimentas por cima desse envoltório.
Comentando a passagem acima, Kardec observa que o conhecimento do corpo espiritual remonta a mais alta Antiguidade, e que só o nome períspirito é moderno. São Paulo o descreveu em sua primeira epístola aos Coríntios, capítulo 15.
Em outra edição da Revista Espírita, o Espírito Lamennais opina que faltam às palavras cor e forma para exprimir o períspirito e sua verdadeira natureza. Quanto aos Espíritos inferiores, acrescenta que os fluidos terrestres são inerentes a eles, são matéria; daí os sofrimentos da fome, do frio, que podem atormentá-los, sofrimentos que não atingem os Espíritos superiores, considerando-se que, no caso destes, os fluidos terrestres são depurados em torno de seu pensamento ou alma.
O períspirito é assim o corpo espiritual que sobrevive à morte do vaso físico e serve ao Espírito, entre outras funções, para se relacionar com os demais Espíritos e se manifestar, quando permitido por Deus, aos encarnados, através de sua visibilidade. É composto de fluidos, os quais são luminosos nos Espíritos superiores e opacos ou materializados nos inferiores.
Em outras obras da Codificação se estabelece que tanto o períspirito quanto o corpo físico têm origem no mesmo elemento primitivo (o fluido universal); que “ambos são matéria, ainda que em dois estados diferentes”. E que é com o auxílio dos fluidos que o períspirito toma a aparência de vestuários semelhantes aos que o Espírito usava quando encarnado.
André Luiz irá alertar-nos para as enfermidades da alma que se refletem na plasticidade do corpo espiritual, gerando o adoecimento do homem físico quando da somatização dessas mazelas ainda não debeladas. Dirá que o remorso desarticula as energias do corpo espiritual, criando disposições mórbidas para as enfermidades, refletidas na cromática da aura – essa túnica de forças eletromagnéticas –, e agravadas, às vezes, pelo assédio dos seres a quem ferimos (obsessão).
E que, mesmo quando perdoamos ou somos “perdoados pelas vítimas de nossa insânia, detemos conosco os resíduos mentais da culpa, qual depósito de lodo no fundo de calma piscina, e que, um dia, virão à tona de nossa existência, para a necessária expunção, à medida que se nos acentue o devotamento à higiene moral”.
Em suma: nem o perdão puro e simples é solução ideal para a extinção de nossos débitos. São necessário que sejam cumpridas as três etapas da liberação total do ser onerado perante a Lei Divina e em face da própria consciência: o arrependimento, a expiação e a reparação do mal infligido a outrem, como se vê em O Céu e o Inferno, de Allan Kardec, no Código penal da vida futura (16o).
Em Mateus, capítulo 22, Jesus narra que o reino de Deus é semelhante a um rei que celebrou as bodas de seu filho. Entrando, porém, o rei na festa das bodas, notou haver ali um homem que não trazia veste nupcial. Ordenou, então, que fosse atado de pés e mãos e lançado nas trevas, onde há choro e ranger de dentes.
Veste nupcial: esta é a chave para permanecer no banquete!
Por veste nupcial devemos entender veste ou vestidura branca, expressões citadas em outras passagens do Evangelho, principalmente do Apocalipse.
“O vencedor será assim vestido de vestiduras brancas”, diz o Cristo (Ap., 3:5), após haver revelado, no verso anterior, que há, “em Sardes, umas poucas pessoas que não contaminaram as suas vestiduras, e andarão de branco junto comigo, pois são dignas”.
As vestiduras, pois, são passíveis de manchar-se, mas a condição para portá-las sem qualquer mácula, resplandecentes e puras, e desfrutar o direito de conviver com o Divino Mestre, é ser um Vencedor... De suas próprias imperfeições.
No capítulo 7, versículos 9 a 15, do citado livro, visualizamos uma imensa multidão vestida de branco, proveniente de todas as nações, cantando um cântico de glória diante do trono de Deus. Um dos anciãos ali presentes tomou a palavra, perguntando:
Estes, que se vestem de vestiduras brancas, quem são e donde vieram? Responde-lhe João Evangelista:
– Meu Senhor, tu o sabes.
Ele, então, acrescenta: São estes os que vieram da grande tribulação, lavaram suas vestiduras, e as alvejaram no sangue do Cordeiro, razão por que se acham diante do trono de Deus e o servem de dia e de noite no seu santuário.
Entendendo-se por sangue do Cordeiro a sua Doutrina de amor e luz, o contexto revela que a vivência diuturna dos ensinos do Cristo é o detergente divino que tem o condão de purificar o homem de todas as suas mazelas, presentes e passadas, tornando alvisplendente o seu planejamento espiritual, de acordo com aquele princípio: o bem que se faz anula o mal que se fez.
Esta verdade se encontra confirmada de forma irrespondível nesta passagem:
Foi dado à esposa do Cordeiro vestir-se de linho finíssimo, resplandecente e puro. Porque o linho finíssimo são os atos de justiça dos santos. (Ap., 19:7-8.)
Por esposa do Cordeiro simboliza-se a Cristandade no seu sentido mais universalista, indene de todos os divisionismos restricionistas humanos.
E santo é todo o que pratica esses atos de solidariedade, nascidos do coração, e em perfeita harmonia com as Leis de Deus, de que se encontram replenos os Evangelhos.
Dito isto, só resta aproximar os dois polos – períspirito e vestes brancas –, como o fez Emmanuel, e teremos aí um dos mais belos símbolos do Apocalipse perfeitamente esclarecido pela Nova Revelação:
O períspirito, quanto à forma somática, obedece a leis de gravidade, no plano a que se afina [escreve Emmanuel].
Nossos impulsos, emoções, paixões e virtudes nele se expressam fielmente. Por isso mesmo, durante séculos e séculos nos demoraremos nas esferas da luta carnal ou nas regiões que lhes são fronteiriças, purificando a nossa indumentária e embelezando-a, a fim de preparar, segundo o ensinamento de Jesus, a nossa veste nupcial para o banquete do serviço divino.
Quando o livro sagrado fala, portanto, em vestiduras brancas ou linho finíssimo, está se referindo ao corpo espiritual ou psicossoma completamente purificado, ou seja, transformado em veste nupcial, talar, apto a permitir a entrada, para sempre, na festa das bodas do Cordeiro a que se refere o Evangelho.
Reformador Janeiro 2009

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