31 de dezembro de 2011

PROJETO DE VIDA


“O amor aos bens terrenos constitui um dos mais fortes óbices ao vosso adiantamento moral e espiritual. Pelo apego à posse de tais bens, destruís as vossas faculdades de amar, com as aplicardes todas às coisas matérias”. Lacordaire (Constantina, 1863) O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO – Cap. XVI, Item 14.

Materialismo é estado íntimo que estabelece a rotina mental da esmagadora maioria das mentes no plano físico, focando os interesses humanos, exclusivamente, naquilo que fere os cinco sentidos. Postura e noções culturais se desenvolvem a partir desse estado levando a criatura a adotar o mundo das sensações corporais como sendo a única realidade.
O materialismo tem como base afetiva o sentimento de segurança e bem estar, expresso comumente por vínculos de apegos e posse. Os reflexos mais conhecidos desses vínculos afetivos com a vida material são a dependência e o medo, respectivamente.
Em essência, o interesse central de todo materialista é tornar a vida uma permanência, manter para sempre o elo com todas as criações objetivas que lhe “pertençam”, sejam coisas ou pessoas. Contudo, a vida é regida pela lei da impermanência. Tudo é transformação e crescimento. Algumas palavras que asseguram uma linha moral condizente com essa lei são: maleabilidade, incerteza, relativização, diversidade, ecletismo, pluralismo, alteridade, desprendimento, fraternidade, amor.
A volta do homem à vida corporal tem por objetivo o seu melhoramento, o engrandecimento de seus conceitos ainda tão reduzidos pela ótica das ilusões terrenas. Compreender que é um binômio corpo alma, que tem um destino, a perfeição, e que a vida na Terra é um aprendizado são as lições que lhe permitiram romper com os estreitos limites da visão materialista. Semelhantes conquistas interiores exigem preparo e devotamento a fim de consolidarem-se como valores morais, capazes de leva-los a cultivar projetos enobrecedores com os quais possa, pouco a pouco, renovar seus hábitos de vida.
Muito esforço será pedido para o desenvolvimento dessas qualidades espirituais no coração humano.
Uma semana na Terra é composta de dez mil e oitenta minutos.
Tomando por base noventa minutos como o tempo habitual de uma atividade espiritual voltada para a aquisição de noções elevadas, e ainda levando em conta que raramente alguém ultrapassa o limite de duas ou três reuniões semanais, encontramos um coeficiente de no máximo duzentos e setenta minutos de preparo para implementação da renovação mental, ou seja, pouco menos de três por cento do volume de tempo de uma semana inteira. São nesses momentos que se angariam forças para interromper a rotina mental do homem comum. Por isso necessitamos tanto das tarefas espirituais para fixar valores, desenvolver novos hábitos e alimentar a mente de novas forças, tendo em vista a espiritualização a qual todos devemos buscar em favor da felicidade e da paz.
A superação da rotina materialista exige esforço, mas também metas, ideais, comprometimento.
Por isso a melhora espiritual não pode circunscrever-se a práticas religiosas ou a momentos de estudo e oração. Imperioso será assumirmos o compromisso de mudança e elevação conosco mesmo, se não tais iniciativas podem reduzir-se facilmente a experiências passageiras de adesão superficial, sem raízes profundas nas matrizes do sentimento.
A reforma íntima solicitar fazer de nossas vidas um projeto. Um projeto de cumplicidade e amor!
Projeto de vida é outro nome da “religião íntima”, a “religião da atitude”, do comprometimento. Sem isso, como esperar que a simples frequência aos serviços do bem, nas fileiras da caridade e da instrução, sejam suficientes para renovar a nossa personalidade construída em milênios de repetição no “amor” aos bens terrenos?
E um projeto de mudança espiritual não será tarefa infantil de traçar metas imediatistas de fácil alcance para causar-nos a sensação de que aprimoramos com rapidez, mas sim o resultado do esforço pessoal em sacrificar-se por ideais que motivem o nosso progresso e que, a um só tempo, constituam a segurança contra o desânimo e a invigilância. Ideais esses que se apresentam sempre à nossa caminhada como convites da Divina Providência para que possamos sair do “lugar comum” à maioria das criaturas. Razão pela qual sempre encontraremos obstáculos e pedregais nas sendas da renovação espiritual. Isso porque aquele que realmente se elevar não deixa de causar mudança no meio onde estagia, atraindo para si todas as reações favoráveis e desfavoráveis aos ideais de ascensão. Isso faz parte de todo processo de espiritualização. Não há como não haver reações que, por fim, porém, algumas vezes, ser sinais de que nos encontramos em boa direção...
Cumplicidade e comprometimento são as palavras de ordem no desafio do auto-burilamento.
Evitemos, assim, confundir a simples adesão a práticas doutrinárias ou ainda o acúmulo de cultura espiritual como sendo iluminação e adiantamento, quando nada mais são que estímulos valorosos para o crescimento. Lembremos que só terão valor real, na nossa libertação, se deles soubermos extrair a parte essencial que nos compete interiorizar no fortalecimento de nosso projeto de vida no bem.
Lacordaire é muito lúcido ao afirmar que destruímos as faculdades de amar quando as reduzimos aos bens materiais. O cultivo da paixão ao adiantamento espiritual é a solução para todos os problemas da humanidade terrena, e o único caminho para um mundo melhor. Quando aprendemos isso, verificamos que a existência, mesmo que salpicada de problemas e dores, tem luz e vida porque plantamos na intimidade a semente imperecível do idealismo superior, o qual ninguém pode nos roubar.
Ermance Dufaux
Livro: REFORMA ÍNTIMA SEM MARTÍRIO

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