31 de março de 2012

EM TRIBUTO AOS 143 ANOS DO DESENCARNE DE ALLAN KARDEC


Viveu na França do século XIX um homem extremamente estudioso, pesquisador, sensato, culto, poliglota, ético, educador, honesto, íntegro, conceituadíssimo na sociedade francesa e em grande parte da Europa e, sobretudo, possuidor de uma conduta moral ilibada. Esse homem era o professor Hyppolite Léon Denizard Rivail. Dominava os conhecimentos na área da Matemática, da Física, da Química, da Astronomia, da Biologia e foi o autor da mais conceituada Gramática Francesa da época. Foi um dos mais notáveis discípulos de Pestalozzi e tornou-se famoso na Europa pelos trabalhos admiráveis que realizou. Era também muito cético e bastante exigente quanto a tudo o que lhe apresentassem como diferente do senso comum. Nada poderia ser aceito se não passasse pelo crivo da lógica, da razão e do bom senso, fosse quem fosse o autor da idéia. Foi então convidado por uns amigos para assistir a uma reunião na casa de um deles, onde se processavam fenômenos mediúnicos. (Vale lembrar que a mediunidade não é um patrimônio do Espiritismo e já existia há milênios, muito antes da existência da Doutrina Espírita, sendo praticada em vários lugares do mundo, nas diversas camadas da população, independentemente de crença religiosa, já que é uma faculdade humana). Utilizando seu indispensável ceticismo, resolveu pesquisar profundamente os fenômenos e pode comprovar que, de fato, os espíritos dos chamados "mortos" se comunicavam com os "vivos", iniciando aí uma série de contatos e indagações àqueles espíritos, questionando-os dentro do mais absoluto rigor, exigido pelo seu conhecimento científico profundo, sem qualquer sistema preconcebido. Por essa sua seriedade, pelos requisitos culturais, intelectuais e sobretudo morais, foi então escolhido pelos espíritos para organizar em livros os ensinamentos que lhe foram passados, para que a humanidade tivesse conhecimento.
Num ato de extrema grandeza, conclui que os livros não deveriam ter seu nome como sendo o autor, haja vista que se tratava de um nome bastante famoso, o que faria com que a obra fosse vendida pelo autor e não pelo seu conteúdo. Preferiu então adotar um pseudônimo, escolhendo um nome que havia tido em encarnação anterior, que lhe fora revelado por Zéfiro, um espírito amigo. Esse nome fora Allan Kardec. Desencarnou no dia 31 de março de 1869, em Paris, absolutamente lúcido, em franca atividade, quando, juntamente com um seu empregado, arrumava livros nas estantes da sua livraria, vitimado por um aneurisma cerebral. Sua história mais detalhada pode ser conhecida no livro "O que é o Espiritismo", editado pela Federação Espírita Brasileira. Esse livro é um resumo da Doutrina dos Espíritos. Seu conhecimento mais profundo e detalhado só pode ser obtido com o estudo criterioso de suas obras básicas.


AFIRMATIVAS DOUTRINÁRIAS

FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO - Somente com a prática da Caridade Material e Moral atingiremos nossa evolução espiritual.
DAR DE GRAÇA O QUE DE GRAÇA RECEBER- Toda ajuda espiritual prestada é absolutamente gratuita; quer sejam: passes, água fluidificada, ou qualquer outro tipo de assistência.
Para a realização de uma sessão espírita não há material nenhum para ser utilizado porque não se usa, nem se recomenda: velas, incensos, imagens, amuletos, talismãs, paramentos, bebidas, fumo, animais, aves, etc. A Doutrina Espírita não admite isso. Como também não realiza nem promove casamentos, batizados e nenhum tipo de sacramento.
SE ALGUM DIA A CIÊNCIA PROVAR que a doutrina espírita está errada em algum ponto; ela se modificará.
O ESPIRITISMO É A DOUTRINA DA FÉ RACIOCINADA.
FÉ RACIOCINADA É AQUELA QUE PODE ENCARAR A RAZÃO FACE A FACE EM TODAS AS ÉPOCAS DA HUMANIDADE.
CRENÇA na existência de vida humana em outros planetas e possibilidade de reencarnações recíprocas. O Espiritismo é uma CIÊNCIA (de observação) e uma FILOSOFIA de conseqüências religiosas. Como RELIGIÃO difere das demais por não possuir dogmas, rituais, imagens, objetos de culto e sacerdócio organizado.
MORAL - A moral pregada pela doutrina é a contida no Evangelho de Jesus.
NASCER, VIVER, MORRER, RENASCER E PROGREDIR SEMPRE, TAL É A LEI.
Espíritas: amai-vos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, este o segundo.( O Espírito de Verdade )
"Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar sua inclinações más.
O Espiritismo, é a ciência que estuda os espíritos, sua origem, destino e natureza, bem como suas relações com o mundo corporal.
Allan Kardec.

29 de março de 2012

SEMANA SANTA

Chega a época dos feriados católicos da chamada "Semana Santa" e surgem as questões:


  1. Como o Espiritismo encara a Páscoa; “Sexta-feira Santa"?;
  2. Qual o procedimento do espírita no chamado "Sábado de aleluia" e "Domingo de Páscoa"?
  3. Como fica a questão do "Senhor Morto"?

Sabe que chego a surpreender-me com as perguntas. Não quando surgem de novatos na Doutrina, mas quando surgem de velhos espíritas, condicionados ao hábito católico, que, aliás, respeitamos muito. É importante destacar isso: o respeito que devemos às práticas católicas nesta época, desde à chamada época, por nossos irmãos denominada de quaresma, até às lembranças históricas, na maioria das cidades revividas, do sacrifício e ressurgimento de Jesus. Só que embora o respeito devido, nada temos com isso no sentido das práticas relacionadas com a data.

São práticas religiosas merecedoras de apreço e respeito, mas distantes da prática espírita. É claro que há todo o contexto histórico da questão, os hábitos milenares enraizados na mente popular, o condicionamento com datas e lembranças e a obrigação católica de adesão a tais práticas.

Para a Doutrina Espírita, não há a chamada "Semana Santa", nem tão pouco o "Sábado de aleluia" ou o "Domingo de Páscoa" (embora nossas crianças não consigam ficar sem o chocolate, pela forte influência da mídia no consumismo aproveitador da data) ou o "Senhor Morto". Trata-se de feriado e prática católica e, portanto, não existem razões para adesão de qualquer tipo ou argumento a tais práticas. É absolutamente incoerente com a prática espírita o desejar de "Feliz Páscoa!", a comemoração de Páscoa em Centros Espíritas ou mesmo alteração da programação espírita nos Centros, em virtude de tais feriados católicos. E vejo a preocupação de expositores ou articulistas em abordar a questão, por força da data... Não há porque fazerem-se programas de rádio específicos sobre o assunto, palestras sobre o tema ou publicar artigos em jornais só porque estamos na referida data. É óbvio que ao longo do ano, vez por outra, abordaremos a questão para esclarecimento ou estudo, mas sem prender-se à pressão e força da data.

Há uma influência católica muito intensa sobre a mente popular, com hábitos enraizados, a ponto de termos somente feriados católicos no Brasil, advindos de uma época de dominação católica sobre o país, realidade bem diferente da que se vive hoje. E os espíritas, afinados com outra proposta, a do Cristo Vivo, não têm porque se apegar ou preocupar-se com tais questões.

Respeitemos nossos irmãos católicos, mas deixemo-los agir como queiram, sem o stress de esgotar explicações. Nossa Doutrina é livre e deve ser praticada livremente, sem qualquer tipo de vinculação com outras práticas. Com isso, ninguém está a desrespeitar o sacrifício do Mestre em prol da Humanidade. Preferimos sim ficar com seus exemplos, inclusive o da imortalidade, do que ficar a reviver a tragédia a que foi levado pela precipitação humana.

Inclusive temos o dever de transmitir às novas gerações a violência da malhação do Judas, prática destoante do perdão recomendado pelo Mestre, verdadeiro absurdo mantido por mera tradição, também incoerente com a prática espírita.

A mesma situação ocorre quando na chamada quaresma de nossos irmãos católicos, espíritas ficam preocupados em comer ou não comer carne, ou preocupados se isto pode ou não. Ora, ou somos espíritas ou não somos! Compara-se isso a indagar se no Carnaval os Centros devem ou não abrir as portas, em virtude do pesado clima que se forma???!!!... A Doutrina Espírita nada tem a ver com isso. São práticas de outras religiões, que repetimos respeitamos muito, mas não adotamos, sendo absolutamente incoerente com o espírita e prática dos Centros Espíritas, qualquer influência que modifique sua programação ou proposta de vida.

Esta abordagem está direcionada aos espíritas. Se algum irmão católico nos ler, esperamos nos compreenda o objetivo de argumentação da questão, internamente, para os próprios espíritas. Nada a opor ou qualquer atitude de crítica a práticas que julgamos extremamente importantes no entendimento católico e para as quais direcionamos nosso maior respeito e apreço.

Vemos com ternura a dedicação e a profunda fé católica que se mostram com toda sua força durante os feriados da chamada Semana Santa e é claro, nas demais atividades brasileiras que o Catolicismo desenvolve.

O objetivo da abordagem é direcionado aos espíritas que ainda guardam dúvidas sobre as três questões apresentadas no início do artigo. O Espiritismo encara a chamada Sexta-feira Santa como uma Sexta-feira normal, como todas as outras, embora reconhecendo a importância dela para os católicos. Também indica que não há procedimento algum para os dias desses feriados. E não há porque preocupar-se com o Senhor Morto, pois que Jesus vive e trabalha em prol da Humanidade.

E aqui, transcrevemos trecho do capítulo VIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, no subtítulo VERDADEIRA PUREZA, MÃOS NÃO LAVADAS (página 117 - 107ª edição IDE): "O objetivo da religião é conduzir o homem a Deus; ora, o homem não chega a Deus senão quando está perfeito; portanto, toda religião que não torna o homem melhor, não atinge seu objetivo; (...) A crença na eficácia dos sinais exteriores é nula se não impede que se cometam homicídios, adultérios, espoliações, calúnias e de fazer mal ao próximo em que quer que seja. Ela faz supersticiosos, hipócritas e fanáticos, mas não faz homens de bem. Não basta, pois, ter as aparências da pureza, é preciso antes de tudo ter a pureza de coração".

Não pensem os leitores que extraímos o trecho pensando nas práticas católicas em questão. Não! Pensamos em nós mesmos, os espíritas, que tantas vezes nos perdemos em ilusões, acreditando cegamente na assistência dos espíritos benfeitores, mas agindo com hipocrisia, fanatismo e pasmem, superstição .... quando não conhecemos devidamente os objetivos da Doutrina Espírita, que são, em última análise, a melhora moral do homem.

Orson Peter Carrara

(Retirado do Boletim GEAE Número 390 de 02 de maio de 2000)

27 de março de 2012

A BÚSSOLA DO ESPIRITISMO


O Espiritismo para se conservar isento de influências negativas, tem de permanecer adstrito aos princípios de sua Doutrina, codificada por Allan Kardec, e tão bem defendida pela Federação Espírita Brasileira. Somente o conhecimento doutrinário confere ao espírita digno deste nome pleno conhecimento da Terceira Revelação. Dada a extrema tolerância com que o Espiritismo recebe e agasalha as criaturas egressas de outros credos, desiludidas pela falta de clareza de seus postulados, pela esterilidade de suas obras ou pelo desamparo espiritual em que se sentem, não raro se observam deturpações e desrespeitos à nossa Doutrina, que é meridianamente clara, extraordinariamente simples e de assimilação facílima. Elementos provindos de religiões em declínio, ainda mal adaptados ao Espiritismo, por desconhecerem a Doutrina de Kardec, misturam costumes e preconceitos de seus antigos credos com as práticas singelas dos espíritas, acabando por alcançarem, com a melhor das intenções, acreditamos, um sincretismo bizarro, mas de todo em todo incompatível com os ensinamentos reais do Espiritismo. Em conseqüência, abeiram-se do feiticismo, inovando, ou melhor, transferindo para cá certas práticas julgadas inconcessas por nossa Doutrina.

Dessa balbúrdia se aproveitam rancorosos inimigos do Espiritismo para atacá-lo cada vez com maior veemência, acusando os espíritas de se apropriarem de seus santos, de sua liturgia, de suas rezas... Para os espíritas nada disso vale nada em face do que nos ensina Kardec. Respeitamos as opiniões alheias, as religiões que lutam pela conquista da hegemonia material, mas desejamos continuar fiéis à nossa religião. No Espiritismo não há batismos nem casamentos e muito menos encomendações fúnebres. Não há santos nem imagens, porque reverencia­mos o Espírito, que é tudo. O que para nós conta é o que contém o corpo da Doutrina codificada por Allan Kardec, porque ela, sim, é a Lei em que se baseia a conduta do espírita verdadeiramente consciente de sua posição no seio da Humanidade e em face de Jesus. Santos, rituais, especulações teológicas, nada disso é nosso, nada disso -queremos, pois não nos es­coramos tão-pouco em figuras hipostáticas, nem nos perdemos no matagal do metafisicismo inócuo.. Em vez do «Credo quia absurdum», de Santo Agostinho, preferimos Kardec: “Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a Razão, em todas as épocas da Humanidade.”

*

Sendo o Espiritismo formado pela trilogia Religião-Ciência-Filosofia, muito trabalho nos espera dentro dele para que possamos perder tempo com outras religiões que somente possuem passado e vêem o presente se alongar custosa­mente, sem corajosa esperança no futuro... As religiões que se debatem pela sobrevivência não querem reconhecer que sua missão está concluída na Terra e que o Espiritismo, que é o Cristianismo do Cristo em plena florescência, cada vez se torna mais senhor de si e apto a cumprir sua destinação entre os homens, sob as luzes do Evangelho de Jesus. Se essas religiões, agonizantes do ponto de vista espiritual, ainda se dedicarem às tarefas que realmente lhes competem, renunciando às atrações mundanas e resistindo às tentações de preponderância temporal, a ponto de se envolverem na política, então poderão, pelo menos, ter um fim menos doloroso, realizando o supremo esforço de honrar o nome de Deus e do Cristo na hora extrema...

O constante desenvolvimento do Espiritismo está suscitando, ainda agora, reações violentas de credos religiosos inconformados com a realidade dos novos tempos. Vamos recebendo com serenidade os ataques, as provocações, as injúrias, as calúnias, as deturpações do que dizemos e realizamos, as mentiras que nos são assacadas, na vã tentativa de nos desmoralizarem; as perseguições, enfim, disfarçadas ou ostensivas, sempre polimórficas, nas quais os verdadeiros perseguidores preferem ocultar-se por trás dos que ser­vem de instrumento ao seu ódio, para melhor investir-nos sem suscitar o escândalo público. Devemos continuar humildes e serenos, escuda­dos na força de nossa fé, de nossa Doutrina, sem esquecermos o dever da exemplificação que nos deu Jesus, conforme se encontra nas lições sublimes de «O Evangelho segundo o Espiritismo».

*

O futuro do mundo pertence ao Espiritismo, porque, quanto maior a cultura humana, mais largo o caminho que se abrirá à nossa religião, que ama a claridade do espírito e da mente, repelindo a treva da ignorância e da maldade. Espiritismo é paz, é caridade, é amor. Esta é a moeda do nosso comércio, porque essa foi a moeda de Jesus em sua peregrinação terrena. Não somos insensíveis aos maus tratos. Toda­via, a nossa sensibilidade cede ao nosso dever de exemplificar. Possamos sempre responder com humildade à arrogância dos imprevidentes. Sabemos que o homem moderno, em sua maioria, não pensa nem age por ouvir dizer, quando já não se encontra prisioneiro da ignorância. Ob­serva, investiga, analisa e julga, antes de tomar uma decisão definitiva. O Espiritismo não se arreceia da verdade, porque ele é a Verdade, pois está amparado pelo Cristo. Confiantes na excelência da nossa Doutrina, não tememos o porvir. A sucessão dos anos apenas poderá tornar mais vigoroso o Espiritismo, em virtude da segurança de seus postulados morais e da realidade impressionante das relações progressivas do mundo físico com o mundo espiritual. Qual­quer homem de bom senso pode ler, estudar e interpretar os princípios doutrinários do Espiritismo, usando até nisso, o seu livre arbítrio, sem tremer ante a ameaça ridícula do Purga­tório e do Inferno. Seu destino é travado pelo uso que fizer desse livre arbítrio. O Espiritismo confia no futuro da Humanidade e a Humanidade está aprendendo depressa a confiar no Espiritismo, porque ele não hostiliza nem faz discriminações. Amparando e auxiliando, ele esclarece, guia, assiste, fazendo reviver; a cada instante, no século inicial da era atômica, o Cristianismo primitivo, bem diferente do pseudo Cristianismo paganizado, que se arrasta orgulhosa e penosamente por aí.

Quanto mais sólido for o conhecimento da Doutrina de Kardec pelos espíritas, tanto mais forte será o Espiritismo, porquanto ela mostra com firmeza a posição exata que a nossa religião já ocupa no seio da Humanidade. A Doutrina é a base da ação espírita e ninguém consegue ser completamente espírita, se não a conhece e não exemplifica seus ensinamentos com amorosa fidelidade.

Reformador – dezembro, 1956

18 de março de 2012

A MORTE SEM MISTÉRIOS


Por que a morte, sendo tão natural quanto o nascimento, fenômeno corriqueiro ao qual todos estamos sujeitos, sem exceção, ainda é considerada algo sinistro e tão misterioso?

Por que ela é tão incompreendida e causa tanto sofrimento, sobretudo quando surpreende prematuramente nossos entes queridos?

 O Espiritismo veio, em boa hora, desmistificar a morte, mostrando a sua verdadeira face, e, o que é mais importante, veio realçar a importância da vida, demonstrando que ela transcende a questão da sobrevivência. Entretanto, mesmo para os que estudam a realidade além-túmulo, a morte dos entes queridos é algo difícil de aceitar e administrar.

 Isso mostra quanto ainda somos imaturos, espiritualmente, e quanto temos ainda de desmaterializar nossos pensamentos e sentimentos.

Todas as religiões pregam a imortalidade da alma, mas a Doutrina Espírita foi além: comprovou, cientificamente, a imortalidade e resgatou o espírito da matéria, “matando a morte”. Não se trata mais de convicção religiosa. Trata-se de estar bem ou mal informado, pois, sem prejuízo dos princípios revelados pelo Consolador, o Espírito já foi pesado, medido e fotografado por uma legião de sábios, pesquisadores e cientistas de renome, conforme registrado nos anais da História.

Muito da incompreensão e do temor da morte repousa no desconhecimento da natureza espiritual do homem e no desconhecimento do perispírito, este, o invólucro inseparável da alma ou Espírito, elemento semimaterial, fluídico, indestrutível, que serve de intermediário entre o Espírito e o corpo físico. O estudo das propriedades e das funções do perispírito dilata novos horizontes à Ciência e constitui a chave de uma grande quantidade de fenômenos, preconceituosamente negados pelo materialismo e qualificados por outras crenças como milagres ou sortilégios, entre eles a materialização de Espíritos, confundida com a “ressuscitação” ou “ressurreição” dos mortos.

Denomina-se “morte” o esgotamento ou a cessação da atividade vital nos organismos. Nós, os espíritas, chamamo-la “desencarnação”, palavra que designa, com maior precisão, o evento, pois o que se dá, na realidade, é o desprendimento do Espírito ou do princípio inteligente do corpo físico, que a esse se havia ligado por meio do fenômeno encarnatório.

Deus criou os Espíritos simples e ignorantes, impondo a eles encarnações sucessivas, com o objetivo de fazê-los chegar à perfeição, gradualmente, pelo próprio mérito. Logo, a evolução se processa por fases, pois não é possível escalar o cume glorioso da plena vitória espiritual sobre si mesmo num só voo. Assim, podemos comparar o mundo físico a uma escola, a um campo de provas para o Espírito. André Luiz afirma:

[...] O Espírito, eterno nos fundamentos, vale-se da matéria, transitória nas associações, como material didático, sempre mais elevado, no curso incessante da experiência para a integração com a Divindade Suprema. [...] (1)

 O estágio na carne é o buril que esculpe o aperfeiçoamento do ser. Não é uma excursão de lazer a que somos convidados a gozar, à saciedade, na taça da vida, pois os excessos contribuem para a destruição prematura do corpo físico, equiparando-se a um suicídio inconsciente.

 Com a desencarnação, o corpo grosseiro é descartado, à semelhança de uma roupa imprestável, que se desprende do perispírito e do Espírito, molécula a  molécula. Decompostos os elementos químicos, esses são restituídos à Natureza para serem reutilizados na construção de outros corpos. Sem a veste carnal, o Espírito, em vibração diferenciada, desaparece dos olhos físicos dos encarnados, como se mudasse de residência, mantendo-se intacto e conservando, em outra dimensão apropriada ao progresso realizado, todo o patrimônio de experiências adquiridas.

O corpo é o instrumento do progresso espiritual. A decomposição dele é uma sábia lei da Natureza, sem a qual não haveria renovação e transformação. A encarnação e a morte constituem ciclos na trajetória das criaturas, que permitem o desenvolvimento delas por etapas, o que proporciona, nos intervalos entre uma e outra existência física, a avaliação e a reavaliação das experiências, o planejamento das futuras encarnações, para o recomeço proveitoso de novas provas.

Se a morte fosse a destruição completa do homem (Espírito encarnado), muito ganhariam com ela os maus, pois se veriam livres, ao mesmo tempo, do corpo, do Espírito e dos vícios. É uma ideia materialista que repugna o bom-senso e a lógica. A crença de que após a morte física vem o nada, além de anticientífica, é incompatível com a perfeição, a justiça e a bondade do Criador.

A vida na carne é uma constante preparação para a morte.

 Todos sabem que esta é inexorável e pode acontecer a qualquer instante. Apesar disso, raramente valorizamos a existência e quase sempre desprezamos as oportunidades de crescimento:

 A educação para a morte não é nenhuma forma de preparação religiosa para a conquista do Céu. É um processo educacional que tende a ajustar os educandos à realidade da Vida, que não consiste apenas no viver, mas também no existir e no transcender. (2)

 Aqueles que, durante a vida terrena, se esforçarem sinceramente por se melhorar, mesmo errando durante o curso de sua existência, podem aguardar, serenos, a hora de seu retorno para o mundo espiritual, pois verão recompensados seus suores, dores e lágrimas. O Espírito Irmão X (Humberto de Campos) relaciona conselhos muito úteis para os que pretendem morrer bem. Eis o resumo de alguns deles, em forma de decálogo:



1. Diminua gradativamente a volúpia de comer a carne dos animais.

 2. Evite os abusos do álcool e do fumo.

 3. Não se renda à tentação dos narcóticos.

 4. Quanto ao sexo, guarde muito cuidado na preservação do seu equilíbrio emotivo.

 5. Se tiver dinheiro, não adie doações aos que realmente precisem e observe cautela com testamentos, pois a morte pode chegar de surpresa, deixando-o aflito com pendências judiciais perante os familiares.

 6. Não se apegue demasiado aos laços consanguíneos, pois os entes queridos não nos pertencem.

 7. Se você já possui o tesouro de uma fé religiosa, viva de acordo com os preceitos que abraça. É muito grande a responsabilidade moral de quem já conhece o caminho, sem equilibrar-se dentro dele.

 8. Faça o bem que puder, sem a preocupação de satisfazer a todos.

 9. Trabalhe sempre. O serviço é o melhor dissolvente de nossas mágoas.

 10. Ajude-se, através do leal cumprimento de seus deveres. (3)



Em nossa quadra evolutiva, é normal que sintamos tristeza pela partida, inesperada ou não, dos entes queridos. A lembrança e a saudade geralmente evidenciam o amor que nutrimos por eles, contudo, não devemos nos entregar ao desespero e à tristeza mórbida, sob pena de prejudicarmos o restabelecimento dos recém-desencarnados, pois nossos pensamentos e sentimentos os atingem em cheio.

 Ademais, tal comportamento demonstra o nosso egoísmo pelo apego excessivo aos laços familiares, ou ainda a falta de confiança em Deus, de fé no futuro e na imortalidade dos entes queridos, dos quais, a rigor, nunca nos apartamos, havendo, até mesmo, a possibilidade de nos comunicarmos com eles.

 É realmente consolador haurir a certeza da imortalidade da alma.

 Assimilar esses conhecimentos, adquirir essa convicção eleva a nossa condição de Espíritos, o que nos faz sentir herdeiros do Criador e nos dá mais forças para vencer as dificuldades do dia a dia, permitindo que valorizemos ainda mais a vida.

 A maior prova que damos de que realmente internalizamos as noções imortalistas do ser e da reencarnação é recebermos com resignação e coragem a notícia do passamento de nossos entes queridos.

 Lamentar exageradamente a partida daqueles a quem amamos é falta de caridade, pois seria exigir a permanência deles na prisão do corpo, fustigados por todo o cortejo de provas da existência física, muitas vezes pelo egoísmo de tê-los junto de nós. Saibamos impor silêncio às nossas dores, entregando-nos ao trabalho do bem, que nos dará forças para prosseguirmos no cumprimento dos deveres. Morrer todos os dias para a existência inferior é uma forma de viver a vida eterna, construindo o futuro glorioso que nos aguarda.



Reformador Março 2012



1XAVIER, Francisco C. Obreiros da vida eterna. Pelo Espírito André Luiz. 33. ed. 4. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2011. Cap. 19.

 2PIRES, J. Herculano. Educação para a morte. 9. ed. São Paulo: Paideia, 2004. p. 23.

 3XAVIER, Francisco C. Cartas e crônicas. Pelo Espírito Irmão X. 13. ed. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Cap. 4. p. 21-24.

16 de março de 2012

O PONTO DE VISTA

A idéia clara e precisa que se faça da vida futura proporciona inabalável fé no porvir, fé que acarreta enormes conseqüências sobre a moralização dos homens, porque muda completamente o ponto de vista sob o qual encaram eles a vida terrena. Para quem se coloca, pelo pensamento, na vida espiritual, que é indefinida, a vida corpórea se torna simples passagem, breve estada num país ingrato. As vicissitudes e tribulações dessa vida não passam de incidentes que ele suporta com paciência, por sabê-las de curta duração, devendo seguir-se-lhes um estado mais ditoso. À morte nada mais restará de aterrador; deixa de ser a porta que se abre para o nada e torna-se a que dá para a libertação, pela qual entra o exilado numa mansão de bem-aventurança e de paz. Sabendo temporária e não definitiva a sua estada no lugar onde se encontra menos atenção presta às preocupações da vida, resultando-lhe daí uma calma de espírito que tira àquela muito do seu amargor.

Pelo simples fato de duvidar da vida futura, o homem dirige todos os seus pensamentos para a vida terrestre. Sem nenhuma certeza quanto ao porvir, dá tudo ao presente.

Nenhum bem divisando mais precioso do que os da Terra torna-se qual a criança que nada mais vê além de seus brinquedos. E não há o que não faça para conseguir os únicos bens que se lhe afiguram reais. A perda do menor deles lhe ocasiona causticante pesar; um engano, uma decepção, uma ambição insatisfeita, uma injustiça de que seja vítima, o orgulho ou a vaidade feridos são outros tantos tormentos, que lhe transformam a existência numa perene angústia, infligindo-se ele, desse modo, a si próprio, verdadeira tortura de todos os instantes. Colocando o ponto de vista, de onde considera a vida corpórea, no lugar mesmo em que ele aí se encontra, vastas proporções assume tudo o que o rodeia. O mal que o atinja, como o bem que toque aos outros, grande importância adquire aos seus olhos.

Àquele que se acha no interior de uma cidade, tudo lhe parece grande: assim os homens que ocupem as altas posições, como os monumentos. Suba ele, porém, a uma montanha, e logo bem pequenos lhe parecerão homens e coisas.

É o que sucede ao que encara a vida terrestre do ponto de vista da vida futura; a Humanidade, tanto quanto as estrelas do firmamento, perde-se na imensidade. Percebe então que grandes e pequenos estão confundidos, como formigas sobre um montículo de terra; que proletários e potentados são da mesma estatura, e lamenta que essas criaturas efêmeras a tantas canseiras se entreguem para conquistar um lugar que tão pouco as elevará e que por tão pouco tempo conservarão. Daí se segue que a importância dada aos bens terrenos está sempre em razão inversa da fé na vida futura.

Se toda a gente pensasse dessa maneira, dir-se-ia, tudo na Terra periclitaria, porquanto ninguém mais se iria ocupar com as coisas terrenas. Não; o homem, instintivamente, procura o seu bem-estar e, embora certo de que só por pouco tempo permanecerá no lugar em que se encontra, cuida de estar aí o melhor ou o menos mal que lhe seja possível.

Ninguém há que, dando com um espinho debaixo de sua mão, não a retire, para se não picar. Ora, o desejo do bem-estar força o homem a tudo melhorar, impelido que é pelo instinto do progresso e da conservação, que está nas leis da Natureza. Ele, pois, trabalha por necessidade, por gosto e por dever, obedecendo, desse modo, aos desígnios da Providência que, para tal fim, o pôs na Terra. Simplesmente, aquele que se preocupa com o futuro não liga ao presente mais do que relativa importância e facilmente se consola dos seus insucessos, pensando no destino que o aguarda.

Deus, conseguintemente, não condena os gozos terrenos; condena, sim, o abuso desses gozos em detrimento das coisas da alma. Contra tais abusos é que se premunem os que a si próprios aplicam estas palavras de Jesus: Meu reino não é deste mundo.

Aquele que se identifica com a vida futura assemelha-se ao rico que perde sem emoção uma pequena soma. Aquele cujos pensamentos se concentram na vida terrestre assemelha-se ao pobre que perde tudo o que possui e se desespera.

O Espiritismo dilata o pensamento e lhe rasga horizontes novos. Em vez dessa visão, acanhada e mesquinha, que o concentra na vida atual, que faz do instante que vivemos na Terra, único e frágil eixo do porvir eterno, ele, o Espiritismo, mostra que essa vida não passa de um elo no harmonioso e magnífico conjunto da obra do Criador. Mostra a solidariedade que conjuga todas as existências de um mesmo ser, todos os seres de um mesmo mundo e os seres de todos os mundos. Faculta assim uma base e uma razão de ser à fraternidade universal, enquanto a doutrina da criação da alma por ocasião do nascimento de cada corpo torna estranhos uns aos outros todos os seres. Essa solidariedade entre as partes de um mesmo todo explica o que inexplicável se apresenta desde que se considere apenas um ponto. Esse conjunto, ao tempo do Cristo, os homens não o teriam podido compreender, motivo por que ele reservou para outros tempos o fazê-lo conhecido.

Trecho retirado do livro “Evangelho segundo o Espiritismo”

12 de março de 2012

CORPO FLUIDICO DE JESUS


… Falar de coisas muito distantes da humanidade é sujeitar-se a controvérsias de todas as qualidades; entretanto, quando é hora de dizer, não se deve calar. Os primeiros profetas falaram da vinda do Cristo a Terra, quase mil anos antes da sua chegada a este planeta. Foram ridicularizados e mesmo apedrejados, passando pelos maiores vexames; mas falaram e, após eles, outros vieram dizendo a mesma coisa. Até hoje os homens não se matam por simples motivos e idéias, com quase aconteceu com Galileu Galilei, quando afirmou que a Terra era redonda e que girava em torno de si mesma e em torno do Sol? Mas reagem e criticam quando surgem outras leis, dando garantias e liberdade aos próprios homens.

Desde a vinda do Cristo, até os dias presentes, divergem alguns sobre a natureza do corpo do Mestre: se o Cristo tinha um corpo de carne ou se era um corpo celestial. E muitas discussões foram travadas por tão simples assunto, quando não era ainda tempo adequado para dele tratar. Até mesmo muitos espíritas se dividem no campo destas opiniões e, possivelmente, continuarão a se dividir no tocante a esse controverso assunto. Respeitamos todas as teorias dos homens e Espíritos, porque sabemos da sinceridade em querer levar o evangelho aos corações dos que sofrem.

Falamos de muitos assuntos que, por vezes, nos interessa falar; no entanto, o objetivo maior do Grande Mensageiro de Deus é a reforma do homem, é melhorar as condições dos Espíritos no tocante aos seus pensamentos e suas atitudes, é fazer conhecido o verdadeiro amor, aquele que se subdivide inúmeras virtudes para nos educar e, por vezes, nos instruir em todos os sentidos. Não é o crer ou deixar de crer que irá atrasar um Espírito ou impedir que ele atinja planos superiores; haverá um dia em que todos estaremos aceitando a verdade sem nenhuma variante, encarando o sol sem as suas temer as claridades.

Na verdade, existem mundos grosseiros, onde os Espíritos estão nas primeiras encarnações, mundos primitivos como era a Terra, ao chegarem a ela essas falanges de Espíritos mais esclarecidos nas diversas áreas do conhecimento, mas em precária condição moral, provindos de pátrias distantes, assim como há mundos venturosos, onde o corpo que serve aos Espíritos é quase fluídico, onde a contextura da própria matéria chegou a um grande aprimoramento, capaz de fornecer à alma meios seguros para o seu total desempenho na arte de despertar de todas as suas qualidades espirituais.

Certamente que existem leis em todos os mundos, de acordo com as suas evoluções, mas essas leis nunca fecham. São as mesmas para todas as criaturas. Cada um respeita essas regras de acordo com a evolução própria atingida. Podes notar na Terra certas leis respeitadas por uns, que para outros não tem valia, como, por exemplo, os sinais de trânsito. Para determinadas autoridades, elas perdem o valor. O sinal vermelho para um veículo presidencial não tem significação, uma vez que outros critérios passam ocupar primeiro plano, no caso, a segurança do chefe da nação. Isso estamos mencionando para que possa avaliar as leis siderais. Para o nascimento de um grande ser, as leis que regulam as outras, como as que o assistem. Não é que esse ser seja privilegiado; ele apenas recebe o que merece, no âmbito de sua grandeza espiritual...

A humanidade, por assim dizer, evolui por meio de trocas em todos os mundos. A sequencia evolutiva das raças depende de enxertos provindos de fora, de maneira tão sutil, que os próprios homens não desconfiam. A evolução do Espírito requer corpos adequados para a sua ascensão. Almas altamente evoluídas sentirão na sua formação congênita, enxertos admiráveis, concedidos pela própria natureza, não aceitos pelo homem comum. Como foi dito acima, as leis são as mesmas para todos. Os raios solares, o ar e a agua são entregues para os homens e animais com as mesmas riquezas, mas cada qual extrai desses meios de vida o que a sua evolução ordenar. Cada raça mãe, de vez em quando, recebe um enxerto de outros mundos, para compensar o estimulo biológico e este compartilhar com o esquema divino do engrandecimento da alma.

A matéria deve acompanhar o Espírito na sua escalada evolutiva; de outra forma ele não suportaria a vida nos liames da carne, que certamente evolui, mas não tanto quanto o Espírito. Já em determinada faixa evolutiva, a ascensão dos seres espirituais já acordados para a luz tem maior rapidez, visto que a própria vida lança mão de todos os recursos para acompanhá-los e, dentre eles se encontra essa troca de valores de que estamos tentando falar. Uma chama divina que se move em um corpo de um animal, o que faria ligada a um complexo humano? É a mesma coisa ligarmos corrente elétrica de baixa voltagem para acionar um motor de elevada potencia e este por em movimento a maquina.

Ocorre inversamente, com um espírito de altas vibrações, como no caso de Jesus, ao ser internado em um corpo físico de um ser humano comum. Este não suportaria as correntes vibratórias dessa alma e poderia até desintegrar-se no momento de ser concebido. Basta um pouco de raciocínio para percebermos. Certamente que isto não é derrogar as leis; estas é que cedem às conveniências, mudando suas ações de acordo com a evolução da alma. Os altos instrutores da humanidade já fizeram várias experiências neste sentido, enxertando raças humanas, como se fosse uma espécie híbrida, como no caso que se faz com os animais e plantas na Terra. A diferença é que, na Terra, o híbrido não dá continuidade à raça; no caso espiritual, o híbrido tem a mesma fecundidade, com os valores altamente proliferadores.

Como um corpo puramente físico poderia suportar um Espírito de alta pureza espiritual como o Cristo? As próprias leis físicas nos dão essa explicação: correntes de alta voltagem somente podem passar em fios apropriados.

Um Espírito da qualidade do Cristo não suportaria uma permanência em corpo de carne e osso qual comum; ele se dissociaria imediatamente, mesmo na sua formação congênita. Por outro lado, as vibrações da Terra são tão pesadas e densas, que não existem condições para um corpo fluídico permanecer os anos que o Mestre viveu entre os homens. Mesmo Espíritos de considerável elevação, cuja vibração se assemelhe aos que reencarnam neste globo, a não ser com um preparo muito grande, paciente e demorado, podem nele permanecer por muito tempo, atuando em favor dos homens. Hoje, pode-se dizer que não existiram equívocos nas teorias – se as podemos chamar de teorias – quanto ao corpo de Jesus, por sabermos, como os próprios homens, que matéria é acumulação de fluidos e que os fluidos são matéria dispersa. Fluidos e matéria se confundem na grande ciência da vida infinita! ...

Em relação ao Messias, o caso não foi outro. Ele era de natureza humana e divina; até o seu corpo foi um bio-corpo, para que pudesse ficar entre a Terra e o céu, em completo domínio das suas atividades nos dois campos de trabalho, celestial e humano.

Ela era filho de Deus e Filho do Homem.



Trecho retirado do livro Maria de Nazaré, pelo espirito Miramez, paginas 307 a 313.

11 de março de 2012

FIDELIDADE DOUTRINÁRIA

Há pessoas sempre em busca de atalhos, soluções prontas para agirem sem o esforço da análise, do exame cuidadoso, conforme recomenda o apóstolo Paulo “Examinai tudo; retende o bom” (Its, 5:21). Estas pessoas, por certo, ainda não entenderam a inspirada assertiva do Codificador, ao grafar na folha-de-rosto do primeiro livro eminentemente religioso da Doutrina, O Evangelho Segundo o Espiritismo: “FÉ INABALÁVEL SÓ O É A QUE PODE ENCARAR FRENTE A FRENTE A RAZÃO, EM TODAS AS ‘’EPOCAS DA HUMANIDADE”. O esforço para a construção dessa fé inabalável é penoso para aquele que desejam receber tudo pronto. Os que assim se posicionam têm muitas dúvidas no terreno da fidelidade doutrinaria. Seria do seu agrado o estabelecimento de um index para orientar o que deveriam ler, de um manual de procedimentos para as atividades desenvolvidas nos centros espíritas e, também de uma cartilha de orientação para o seu próprio procedimento em sociedade.

Em relação à fidelidade doutrinária, há posições as mais variadas assumidas pelas pessoas. Há aquelas que desejariam houvesse uma lista de obras “condenadas”, o que lhes facilitaria a escolha para a leitura de informações seguras, sem terem que “esquentar a cabeça”. No outro extremo, outras há que reagem negativamente a qualquer tipo de avaliação ou de juízo formulado sobre uma publicação, tachando tal ato como estabelecimento de index.

Nesse contexto, deve ser lembrado que uma das características marcantes do Espiritismo é exatamente a liberdade que confere aos seus profitentes. Liberdade aprendida com Jesus, que nunca constrangeu ninguém a fazer ou deixar de fazer algo, simplesmente porque lhe fora ordenado. O Mestre sempre buscava levar o ouvinte a entender os seus ensinamentos, raciocinando sobre eles, o que obtinha através dos diálogos que estabelecia.

Muitas passagens discutíveis do Novo Testamento, muitas palavras e frases atribuídas a Jesus, lá estão porque o Alto o permitiu. Apesar de muitos cortes, acréscimos e adaptações, o essencial foi conservado intacto. O que se tornou objeto de discussão serve para aprendermos a raciocinar em termo de fé e exercitarmos o bom senso. Se Jesus tivesse vindo para trazer-nos fórmulas acabadas de salvação – tão ao gosto de simplistas – não teria sido carpinteiro, mas sim canteiro, pois trabalhando com pedras teria oportunidade de deixar seus ensinamentos insculpidos em lajes, como verdadeiras “receitas” de salvação, a serem seguidas ipsis verbis pelos séculos afora. Esse desejo do Mestre, de conduzir seus discípulos ao estudo e à reflexão, fica muito claro quando recomenda ”E CONHECEREIS A VERDADE E A VERDADE VOS LIBERTARÁ” (Jo, 8:32).

Dentro dessa perspectiva, como encontrar o ponto de equilíbrio entre os que querem um index e um manual de procedimento e aqueles que advogam liberdade ampla, total e irrestrita?

Avaliar se uma obra ou uma prática está em consonância com os princípios doutrinários é tarefa para quem conhece realmente a Doutrina. Daí, a necessidade do estudo, da reflexão, da análise serena e desapaixonada, a fim de que se chegue à conclusão do que está de acordo e do que esta em confronto com as verdades que o Espiritismo esposa.

A preservação da fidelidade doutrinária, no que diz respeito às práticas desenvolvidas numa entidade espírita, é mais fácil, pois ninguém usaria velas, bebidas, fumaça, roupas especiais, imagens, rituais, etc.. Entretanto, quando se trata do uso da palavra, seja oralmente, seja por escrito, a tarefa de verificação se torna mais difícil. Mais difícil porque esbarra, quase sempre, no personalismo camuflado num capa de inovação, renovação, atualização...

A mediunidade tem sido veiculo para a divulgação de muitas “novidades” que deveriam ter merecido acurado exame antes de se terem transformado em folhetos e, principalmente, em livros. Infelizmente, o encantamento provocado pelo fenômeno ainda oblitera a visão de muitos, conduzindo-os a entendimentos equivocados.

Se houvesse mais estudo da Codificação, por certo o número de obras antidoutrinárias existentes, tanto pela ação de médiuns quanto de leitores seria bem menor, para não dizermos nulo. Temos o exempli maior em Kardec, que se conservou sereno e judicioso, embora a imensa emoção que deve ter sentido ao comprovar a imortalidade da alma, ao “descobrir” o Mundo Espiritual, ao verificar o relacionamento efetivo entre encarnados e desencarnados. É oportuno seja lembrada a sempre atual advertência de Erasto, que Kardec inseriu em O Livro dos Médiuns: “MELHOR É REPELIR DEZ VERDADES DO QUE ADMITIR UMA ÚNICA FALSIDADE, UMA SÓ TEORIA ERRÔNEA.” (item 230).

A necessidade do uso do bom senso no campo da mediunidade é evidenciada desde os tempos apostólicos, conforme se aprende com o Apóstolo Paulo – seguramente a maior autoridade em assuntos mediúnicos no Cristianismo nascente – que recomenda: “E FALEM DOIS OU TRES PROFETAS, E OS OUTROS JULGUEM.” (I Co, 14:29). O mesmo cuidado é recomendado por João: “AMADOS, NÃO CREAIS EM TODO O ESPÍRITO, MAS PROVAI SE OS ESPÍRITOS SÃO DE DEUS; PORQUE JÁ MUITOS FALSOS PROFETAS SE TEM LEVANTADO NU MUNDO.” (i Jo, 4:1).

Essas recomendações continuam atualíssimas, diante do momento que vivemos, pois atravessamos um período que nos requer muita atenção relativamente á fidelidade doutrinaria principalmente no campo mediúnico voltado á produção de livros. Note-se que o vocábulo produção é intencionalmente usado aqui para substituir publicação, pela verdadeira avalancha de obras mediúnicas que invadem as prateleiras das livrarias.

Há uma ânsia desenfreada de se publicar tudo o que médiuns invigilantes produzem sequiosos de verem seus nomes em capas de livros. Há editoras que descobriram um verdadeiro filão de ouro no meio espírita. Muitos dos que adquirem livros, pensando estar ajudando instituições de amparo a necessitados, não são informados do que restam no final, depois de deduzidas as despesas e os ganhos das editoras... Se há grande profissionalismo editorial, infelizmente, o profissionalismo mediúnico, no que se refere à literatura espírita ficou restrita à conhecida família espirita, que não mais se pode dizer espirita, mas sim praticante de mediunidade apenas.

Os adversários do Espiritismo de há muito desistiram de combatê-lo através de ataques exteriores.  Agora eles se imiscuem no nosso meio, onde quase que imperceptivelmente, valendo-se da invigilância de muitos, buscam lançar o descrédito através de mensagens fantasiosas, quando não ridículas. Por isso, no quadro atual, mais que nunca, os médiuns devem pôr em prática o “VIGIAI E ORAI, PARA QUE NÃO ENTREIS EM TENTAÇÃO (...)”. (Mt, 26:41).

Diante do exposto, fica claro que não se pode nem estabelecer um Manuel de procedimentos, nem elaborar um índex, objetivando a preservação da fidelidade doutrinária. Mas, então, como proceder diante dessa quantidade imensa de obras inovadoras e de posicionamentos inusitados, cujas “revelações” e “modernizações” vão desde o simplesmente discutível ao claramente antidoutrinário?

Em atitudes discretas, equilibradas, ao amparo da oração sincera, cada espírita consciente deve constituir-se em guardião fiel dos princípios doutrinários, o que conseguirá através do estudo, da reflexão, do uso do bom senso.

Artigo publicado na Revista Internacional do Espiritismo