10 de abril de 2012

AS VIDAS SUCESSIVAS – PROVAS HISTÓRICAS


Seria incompleto nosso estudo se não volvêssemos rápida vista para o papel que representou na História a crença nas vidas sucessivas. Essa doutrina domina toda a antiguidade. Vamos encontrá-la no âmago das grandes religiões do Oriente e nas obras filosóficas mais puras e elevadas. Guiou na sua marcha as civilizações do passado e perpetuou-se de idade em idade. Apesar das perseguições e dos eclipses temporários, reaparece e persiste através dos séculos em todos os países.

Oriunda da Índia, espalhou-se pelo mundo. Muito antes de terem aparecido os grandes reveladores dos tempos históricos, era ela formulada nos Vedas e notadamente no “Bhagavad-Gitâ”. O Bramanismo e o Budismo nela se inspiraram e, hoje ainda, seiscentos milhões de asiáticos – o dobro do que representam todas as agremiações cristãs reunidas – crêem na pluralidade das existências.

O Japão mostrou-nos, há pouco, o poder de tais crenças num povo. A coragem magnífica, o espírito de sacrifício que os japoneses mostram em frente da morte, a sua impassibilidade em presença da dor, todas essas qualidades dominadoras, que fizeram a admiração do mundo em circunstâncias memoráveis, não tiveram outra causa.

Depois da batalha de Tsushima, diz-nos o Journal, numa cena de melancolia grandiosa, diante do Exército reunido no cemitério de Aoyama, em Tóquio, o Almirante Togo falou, em nome da Nação, e dirigiu-se aos mortos em termos patéticos. Pediu às almas desses heróis que “protegessem a marinha japonesa, freqüentassem os navios e reencarnassem em novas equipagens”.

Se, com o Prof. Izoulet, comentando no Colégio de França a obra do autor americano Alf. Mahan sobre o Extremo Oriente, admitirmos que a verdadeira civilização está no ideal espiritual e que, sem ele, os povos caem na corrupção e na decadência, o Japão, força será reconhecê-lo, está destinado a um grande futuro.

Voltemos à antiguidade. O Egito e a Grécia adotaram a mesma doutrina. À sombra de um simbolismo mais ou menos obscuro, esconde-se por toda parte a universal palingenesia.

A antiga crença dos egípcios é-nos revelada pelas inscrições dos monumentos e pelos livros de Hermes:

“Tomada na origem, diz-nos o Sr. de Vogue, a doutrina egípcia apresenta-nos a viagem às terras divinas como uma série de provas, ao sair das quais se opera a ascensão na luz”; mas, o conhecimento das leis profundas do destino estava reservado só para os adeptos.

No seu recente livro, La Vie et la Mort, A. Dastre exprime-se assim:

“No Egito a doutrina das transmigrações era representada por imagens hieráticas surpreendentes. Cada ser tinha o seu duplo. Ao nascer, o egípcio é representado por duas figuras. Durante a vigília as duas individualidades se confundem numa só; mas, durante o sono, ao passo que uma descansa e restaura os órgãos, a outra se lança no país dos sonhos. Não é, entretanto, completa essa separação; só o será pela morte ou, antes, a separação completa é que será a própria morte. Mais tarde esse duplo ativo poderá vir vivificar outro corpo terrestre e ter, assim, uma nova existência semelhante.”

Na Grécia vamos encontrar a doutrina das vidas sucessivas nos poemas órficos; era a crença de Pitágoras, Sócrates, Platão, Apolônio e Empédocles. Com o nome de metempsicose falam dela muitas vezes nas suas obras em termos velados, porque, em grande parte, estavam ligados pelo juramento iniciático; contudo, ela é afirmada com clareza no último livro da República, em Fedra, em Timeu e em Fédon.

“É certo que os vivos nascem dos mortos e que as almas dos mortos tornam a nascer.” (Fedra.)

“A alma é mais velha que o corpo. As almas renascem incessantemente do Hades para tornarem à vida atual.” (Fédon.)

A reencarnação era festejada pelos egípcios nos mistérios de Ísis e, pelos gregos, nos de Elêusis, com o nome de mistérios de Perséfone, em cujas cerimônias só os iniciados tomavam parte.

O mito de Perséfone era a representação dramática dos renascimentos, a história da alma humana passada, presente e futura, sua descida à matéria, seu cativeiro em corpos de empréstimo, sua reascensão por graus sucessivos. As festas eleusianas duravam três dias e traduziam, em comovente trilogia, as alternações da vida dupla, terrestre e celeste. Ao cabo dessas iniciações solenes, os adeptos eram sagrados.

Quase todos os grandes homens da Grécia foram iniciados, adoradores fervorosos da grande deusa; foi em seus ensinamentos secretos que eles beberam a inspiração do gênio, as formas sublimes da arte e os preceitos da sabedoria divina. Quanto ao povo, eram-lhe apenas apresentados símbolos; mas, por baixo da transparência dos mitos, aparecia a verdade iniciática do mesmo modo que a seiva da vida transuda da casca da árvore.

A grande doutrina era conhecida do mundo romano. Ovídio, Vergílio, Cícero, em suas obras imorredouras, a ela fazem alusões freqüentes. Vergílio, na Eneida,  assevera que a alma, mergulhando no Letes, perde a lembrança das suas existências passadas.

A escola de Alexandria deu-lhe brilho vivíssimo com as obras de Filo, Plotino, Amônio denominado Sakas, Porfírio, Jâmblico, etc. Plotino, falando dos deuses, diz: “A cada um eles proporcionam o corpo que lhe convém e que está em harmonia com seus antecedentes, conforme suas existências sucessivas.”

Os livros sagrados dos hebreus, o Zohar, a Cabala, o Talmude, afirmam igualmente a preexistência e, com o nome de ressurreição, a reencarnação era a crença dos fariseus e dos essênios.

Da mesma crença encontram-se também vestígios numerosos no Antigo e no Novo Testamento, por entre textos obscuros ou alterados, por exemplo, em certas passagens de Jeremias e de Job, depois no caso de João Batista, que foi Elias, no do cego de nascença e na conversação particular de Jesus com Nicodemos.

Lê-se em Mateus: “Em verdade vos digo que, dentre os filhos das mulheres, nenhum há maior que João Batista, e se quiserdes ouvir, é ele mesmo que é Elias que há de vir. Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça.”

De outra vez interrogaram ao Cristo os seus discípulos, dizendo: “Por que dizem então os escribas que é necessário que volte Elias primeiro?” Jesus respondeu-lhes: “É verdade que Elias há de vir primeiro e restabelecer todas as coisas; mas digo-vos que Elias já veio, mas eles não o reconheceram e fizeram-lhe o que quiseram.” Então os discípulos compreenderam que era de João Batista que ele falara.

Um dia Jesus pergunta aos seus discípulos o que diz dele o povo. Eles respondem:  “Uns dizem que és João Batista, outros Elias, outros Jeremias, ou algum dos antigos profetas que voltou ao mundo.” Jesus, em vez de dissuadi-los, como se eles tivessem falado de coisas imaginárias, contenta-se com acrescentar: “E vós quem credes que sou eu?” Quando encontra o cego de nascença, os discípulos perguntam-lhe se esse homem nasceu cego por causa dos pecados dos pais ou dos pecados que cometeu antes de nascer. Acreditavam, pois, na possibilidade da reencarnação e na preexistência possível da alma. Sua linguagem fazia até acreditar que essa idéia estava divulgada e Jesus parece autorizá-la, em vez de combatê-la. Fala das numerosas moradas de que se compõe a casa do Pai e Orígenes, comentando essas palavras, acrescenta: “O Senhor alude às diferentes estações que as almas devem ocupar depois de terem sido privadas dos seus corpos atuais e de terem sido revestidas de outros.”

Lemos no Evangelho de João: “Havia entre os fariseus um homem chamado Nicodemos, um dos principais dentre os judeus. Esse homem veio de noite ter com Jesus e disse-lhe: “Mestre, sabemos que és um doutor vindo da parte de Deus, porque ninguém poderia fazer os milagres que fazes, se Deus não estivesse com ele.” Jesus respondeu-lhe: “Em verdade te digo que, se um homem não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.” Nicodemos disse-lhe: “Como pode um homem nascer quando é velho? Pode tornar a entrar no ventre de sua mãe e nascer segunda vez?”Jesus responde: “Em verdade te digo que, se um homem não nascer de água e de espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne, é carne; o que é nascido do espírito, é espírito. Não te admires do que te disse: é necessário que nasças de novo. O vento sopra onde quer e tu lhe ouves o ruído, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Sucede o mesmo com todo homem que é nascido do espírito.”

A água representava entre os hebreus a essência da matéria, e quando Jesus afirma que o homem tem de renascer de água e de espírito, não é como se dissesse que tem de renascer de matéria e de espírito, isto é, em corpo e alma?

Jesus acrescenta estas palavras: “Tu és mestre em Israel e ignoras estas coisas?” Não se tratava, pois, do batismo, que todos os judeus conheciam. As palavras de Jesus tinham um sentido mais profundo e sua admiração devia traduzir-se assim: “Tenho para a multidão ensinamentos ao seu alcance, e não lhe dou a verdade senão na medida em que ela a pode compreender. Mas contigo, que és mestre em Israel e que, nessa qualidade, deves ser iniciado em mistérios mais elevados, entendi poder ir mais além.”

Essa interpretação parece tanto mais exata quanto mais está em relação com o Zohar, que, repetimos, ensina a pluralidade dos mundos e das existências.

O Cristianismo primitivo possuía, pois, o verdadeiro sentido do destino. Mas, com as sutilezas da teologia bizantina, o sentido oculto desapareceu pouco a pouco; a virtude secreta dos ritos iniciáticos desvaneceu-se como um perfume sutil. A escolástica abafou a primeira revelação com o peso dos silogismos ou arruinou-a com sua argumentação especiosa.

Entretanto, os primeiros padres da Igreja e, entre todos, Orígenes e São Clemente de Alexandria, pronunciaram-se em favor da transmigração das almas. São Jerônimo e Ruffinus (Carta a Anastácio) afirmam que ela era ensinada como verdade tradicional a um certo número de iniciados.

Em sua obra capital, Dos Princípios, livro I, Orígenes passa em revista os numerosos argumentos que mostram, na preexistência e sobrevivência das almas em outros corpos, o corretivo necessário à desigualdade das condições humanas. De si mesmo inquire qual é a totalidade dos ciclos percorridos por sua alma em suas peregrinações através do infinito, quais os progressos feitos em cada uma de suas estações, as circunstâncias da imensa viagem e a natureza particular de suas residências.

São Gregório de Nysse diz que “há necessidade natural para a alma imortal de ser curada e purificada e que, se ela não o foi em sua vida terrestre, a cura se opera pelas vidas futuras e subseqüentes”.

Todavia, essa alta doutrina não podia conciliar-se com certos dogmas e artigos de fé, armas poderosas para a Igreja, tais como a predestinação, as penas eternas e o juízo final. Com ela, o Catolicismo teria dado lugar mais largo à liberdade do espírito humano, chamado em suas vidas sucessivas a elevar-se por seus próprios esforços e não somente por “graça do Alto”.

Por isso, foi um ato fecundo em conseqüência funesta a condenação das opiniões de Orígenes e das teorias gnósticas pelo Concílio de Constantinopla em 553. Ela trouxe consigo o descrédito e a repulsa do princípio das reencarnações. Então, em vez de uma concepção simples e clara do destino, compreensível para as mais humildes inteligências, conciliando a justiça divina com a desigualdade das condições e do sofrimento humanos, vimos edificar-se todo um conjunto de dogmas, que lançaram a obscuridade no problema da vida, revoltaram a razão e, finalmente, afastaram o homem de Deus.

A doutrina das vidas sucessivas reaparece novamente em épocas diferentes no mundo cristão, sob a forma das grandes heresias e das escolas secretas, mas foi muitas vezes afogada no sangue ou abafada debaixo das cinzas das fogueiras.

Na Idade Média eclipsa-se quase de todo e deixa de influenciar o desenvolvimento do pensamento ocidental, causando-lhe dano por essa forma. Daí os erros e a confusão daquela época sombria, o mesquinho fanatismo, a perseguição cruel, o ergástulo do espírito humano. Uma espécie de noite intelectual estendeu-se sobre a Europa.

No entanto, de tempos em tempos, como um relâmpago, o grande pensamento ilumina ainda, por inspiração do Alto, algumas belas almas intuitivas; continua a ser para os pensadores de escol a única explicação possível do que, para a massa, se tornara o profundo mistério da vida.

Não somente os trovadores, nos seus poemas e cantos, lhe faziam discretas alusões, mas até espíritos poderosos, como Boaventura e Dante Alighieri, a mencionam de maneira formal. Ozanam, escritor católico, reconhece que o plano da Divina Comédia segue muito de perto as grandes linhas da iniciação antiga, baseada, como vimos, sobre a pluralidade das existências.

O Cardeal Nicolau de Cusa sustenta, em pleno Vaticano, a pluralidade das vidas e dos mundos habitados, com o assentimento do Papa Eugênio IV.

Thomas Moore, Paracelso, Jacob Boehme, Giordano Bruno e Campanella afirmaram ou ensinaram a grande síntese, muitas vezes com o próprio sacrifício. Van Helmont, em De Revolutione Animarum, expõe, em duzentos problemas, todos os argumentos em prol da reencarnação das almas.

Não são essas altas inteligências comparáveis aos cumes dos montes, aos cimos gelados dos Alpes, que são os primeiros a receber os alvores do dia, a refletir os raios do Sol, e que ainda são iluminados por ele quando já o resto da Terra está imerso nas trevas?

O próprio Islamismo, principalmente no novo Alcorão, dá lugar importante às idéias palingenésicas.  Finalmente, a Filosofia, nos últimos séculos, enriqueceu-se com elas. Cudworth e Hume consideram-nas como a teoria mais racional da imortalidade. Em Lessing, Herder, Hegel, Schelling, Fichte, o moço, elas são discutidas com elevação.

Mazzini, apostrofando os bispos, na sua obra Dal Concilio a Dio, diz:

“Cremos numa série indefinida de reencarnações da alma, de vida em vida, de mundo em mundo, cada uma das quais constitui um progresso em relação à vida precedente. Podemos recomeçar o estádio percorrido quando não merecemos passar a um grau superior; mas, não podemos retrogradar nem perecer espiritualmente.”



Léon Denis

Livro: O problema do ser, do destino e da dor

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