30 de maio de 2012

O MEIGO NAZARENO

“Bem-aventurados os que são brandos e pacíficos. porque possuirão a Terra.” (Mateus, 5:5)

Foi Jesus Cristo um moço arrebatado, impulsivo e vibrante? Algumas obras afirmam que ele foi um rebelde e uma delas chegou a apregoar que ele foi “o maior dos anarquistas”.

Há pouco tempo escrevemos num prefácio de livro que ele foi o Meigo Nazareno, e conhecido escritor nos refutou, afirmando: “A marca do sectarismo está bem clara na referência a Jesus como sendo o Meigo Nazareno, uma forma estereotipada de alusão a Jesus, que se vulgarizou entre espíritas excessivamente místicos, em geral de origem e formação igrejeira. Os adeptos do Meigo Nazareno não podem admitir que o jovem e ardente carpinteiro empregasse palavras fortes e precisas nas suas pregações”.

Alguns escritores se empolgaram com a obra “Vida de Jesus”, escrita por

Ernest Renan — um pesquisador que no século passado andou pelas terras onde Jesus e os Apóstolos viveram. No entanto, apesar de a obra conter muitas verdades históricas, não deixa de apresentar um perfil desfigurado da personalidade do Mestre, moldado ao gosto do autor.

Renan chegou a afirmar, por exemplo, que “Jesus não é um espiritualista, desde que tudo para ele conduz a uma realização palpável, ele não tem a menor noção de uma alma separada do corpo”, acrescentando mais adiante que “Jesus e os apóstolos eram vivedores que não desdenhavam as boas mesas”, que “a religião por ele instaurada era um movimento de mulheres e crianças”, rematando com a afirmação seguinte: “Toda a história do Cristianismo nascente tornou-se assim uma deliciosa pastoral. Um Messias em repasto de bodas, a cortesã e o bom Zaqueu chamados a seus festins, os fundadores do reino do céu, como um cortejo de paraninfos, eis o que a Galiléia ousou e fez aceitar”.

O próprio Allan Kardec, na “Revista Espírita”, edição de junho de 1864, criticando a obra de Ernest Renan, sustenta: “Tudo se materializa no pensamento do Sr. Renan; em todas as palavras de Jesus não vê além do terra-a-terra, porque ele próprio nada vê além da vida material”, acrescentando o Codificador: “Eis o que o Sr. Renan intitula Origens do Cristianismo. Quem jamais teria acreditado que um bando de gozadores, uma multidão de mulheres, de cortesãs e de crianças, tendo à frente um idealista que não tinha a menor noção da alma, pudessem, auxiliados por uma utopia, a quimera de um reino celeste, mudar a face do mundo religioso, social e político?”

Uma outra obra, desta vez de origem mediúnica, denominada “A Vida de Jesus ditada por Ele mesmo”, também é bem aceita em alguns setores espíritas, notadamente nos países de fala castelhana.

Nela a personalidade do Cristo é apresentada de forma completamente distorcida: um homem eivado de fraquezas e propensões humanas, inclusive alimentando ciúmes contra seus próprios irmãos, negando a maior parte dos fatos evangélicos e até refutando que tenha sido o autor da “Oração Dominical”. Essa obra, de aberração em aberração, chega a afirmar que Jesus amava sua mãe e Maria Madalena mais do que tudo neste mundo.

A personalidade de Jesus Cristo, que deveria permanecer inatacável e inconfundível, tem sido objeto de controvérsias. Qualquer um se anima a traçar-lhe o perfil segundo a sua vontade, principalmente nos tempos atuais, quando a confusão anda solta em todos os setores de atividade humana.

Os homens se preocupam mais em descrever o Mestre, atribuir-lhe tendências que ele não possuía, deixando para segundo plano os seus ensinamentos e as suas palavras de vida eterna.

No Sermão da Montanha, Jesus fez a apologia da brandura, do pacifismo e da mansuetude, ao. proclamar que bem-aventurados seriam os que fossem dotados dessas qualidades.

Em outras partes do Evangelho, destacou a necessidade imperiosa de se conquistar tudo através de persuasão:

“Ao que te obrigar a caminhar cem passos, caminha com ele mais cem; “Ao que quiser tirar-te a túnica, dá-lhe também a capa; “Ao que te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda”.

Na realidade, Jesus Cristo era austero e severo, pronto para proferir palavras fortes e incisivas quando se dirigia a hipócritas e a pessoas que colocavam seus interesses acima das coisas de Deus, como foi o caso específico dos mercadores do templo, dos escribas e fariseus, dos pretensos sacerdotes; entretanto, ele era brando e suave no trato com os humildes, os pequeninos e os desprotegidos da sorte.

Tendo o Mestre sido um missionário na verdadeira acepção do vocábulo, apregoava a paciência, o amor, a resignação, chegando a recomendar que perdoássemos os nossos inimigos; não vemos razão por que não possamos atribuir-lhe o adjetivo de Meigo Nazareno.

Vejamos o que Léon Denis escreveu sobre o Messias: “Jesus é um desses divinos missionários e é de todos o maior. Destituído da falsa auréola da divindade, mais imponente nos parece ele. Seus sofrimentos, seus desfalecimentos, sua resignação, deixam-nos quase insensíveis, se oriundos de um Deus, mas tocam-nos, comovem-nos profundamente em um irmão. Jesus é, de todos os filhos dos homens, o mais digno de admiração. É extraordinário no Sermão da Montanha, em meio à turba dos humildes. É maior ainda no Calvário, quando a sombra da cruz se estende sobre o mundo, na tarde do suplício”.



Paulo Godoy

Padrões Evangélicos

Um comentário:

  1. ótimo texto

    uma pena estar tão escondido pelas camadas da internet

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