20 de junho de 2012

VOLTANDO PARA CASA


É chegado o momento de voltar para casa. Os olhos, o corpo e o coração de quem caminha preferem, desta vez, não olhar para trás. Talvez estes sejam alguns dos passos mais duros e inesquecíveis dados no decorrer de uma vida.

A poucos metros dali, ficou o corpo do ser querido, velado sob a amarga vigília das horas choradas, diante das quais as lembranças ininterruptas de todos os momentos vividos em comum se fizeram presentes, bem como os infindáveis porquês dos que se viram no direito de perguntar a Deus a razão d’Ele ter querido levar o ente amado daquela forma, naquele momento.

O ato de entrar de novo em casa, agora um pouco mais vazia, inaugura também o ingresso emocional nos lutos da perda e solidão, que invadem o coração de forma silenciosa, para ocuparem por algum tempo o espaço ausente do outro.

Os armários e as gavetas, repletos das lembranças de quem acabou de partir, insistem em deixar no ar uma atmosfera de que aquilo é um sonho e que, como ocorre todos os dias, também vai passar e tudo voltará ao normal. Alguns fazem a opção de pedir um prazo ao tempo e mergulham no cultivo da saudade, que se manifesta no ato de diariamente arrumar o quarto daquele que já morreu.

Conheço pessoas que agiram de forma diferente, nessa hora. De imediato, arrumaram as roupas, os pertences, os brinquedos que não mais serviriam naquele ambiente e distribuíram para creches, hospitais e asilos. Só que o fizeram com o coração trancafiado pela ausência de perdão aos desígnios divinos, e então iluminaram pela metade o que poderiam ter feito por inteiro. O gesto de amor e desprendimento acabou por não desprendê-las do fardo da tristeza, que mais tarde volta a aparecer, fazendo com que a vida se transforme em um mar de lamentações e de lágrimas.

Mais difícil do que vencer as lembranças dos que foram para o além é a descoberta de que a morte passou perto e, da mesma maneira firme e serena como levou nosso amor, deixou no ar um desafio, a nos instigar constantemente: por que você não aproveita a oportunidade e tenta descobrir o que os sábios querem dizer, quando afirmam que eu sou uma mensageira da vida, e não o retrato do fim?

A respeito desse assunto de tão grande importância, um primo que não via há muito tempo proporcionou-me uma vivência muito interessante, certa vez. Sua mãe morrera havia alguns anos, o que lhe causara uma dor profunda, quase insuperável. Materialista de convicções arraigadas, jamais aceitara ao menos refletir sobre alguns dos pontos de vista e idéias que eu, seu primo, sustentava, uma vez por outra, quando passava com ele algumas horas.

Todas as vezes em que conversávamos, fazia questão de sobrepor-se aos argumentos espíritas, afirmando que os temas “vida após a morte”, “imortalidade da alma” e “reencarnação” provocavam-lhe especial enfado, não preenchendo nenhuma das necessidades intelectuais de sua vida de magistrado.

Depois da desencarnação da mãe, meu parente sofreu outra dor profunda. O irmão com que ele mais se afinava também morreu, deixando-o em preocupante estado de consternação e revolta.

No dia do enterro, ele ficou com a incumbência de acompanhar a preparação do jazigo da família, a fim de colocar ali o corpo inerte do companheiro inesquecível. Assim que o último tijolo que cobria a entrada do túmulo foi retirado, viu, reunidos em um saco plástico, os ossos daquela que em vida fora sua mãe; perto do embrulho, observou ainda alguns maços de cabelo da mãezinha adorável, cuja partida tanto lhe fez sofrer.

Diante daquele quadro, ele, acompanhado apenas da esposa, parou por um instante e sentiu uma vibração diferente bater-lhe no íntimo do peito. Levantando-se depois de alguns minutos, olhou para a mulher e afirmou:

— Meu bem, acho que neste momento estou descobrindo que a alma é realmente imortal. Preste bem atenção na cena que vemos nesse túmulo, onde colocaremos dentro em breve o corpo de meu irmão. Os ossos e os restos de cabelo de minha mãe estão me falando, com silenciosa persistência, que a mulher franzina que cuidou de mim com imenso amor durante tão longos anos, sem nunca ter reclamado atenção e carinho; que se dedicou feito missionária ao apostolado da renúncia, sem jamais ter pedido reconhecimento pela fiel execução das árduas tarefas, não pode ter acabado dessa forma. Recuso-me a crer que minha mãezinha resume-se hoje a esse monte de ossos.

Procurando-me depois dessa belíssima vivência, perguntou-me, de imediato: — “Diga-me logo, onde está mamãe? Abra, por favor, para mim, as portas da espiritualidade para que eu mesmo faça a viagem da busca”.

Depois de um longo e afetuoso abraço, disse-lhe que o anseio da procura começava no esforço do estudo incessante das obras de Allan Kardec e ia se concretizando aos poucos, à medida que ele se transformasse no homem de bem que a vida nos pede que sejamos, uma vez que essa efetiva mudança pessoal para melhor remete o novo ser aos ambientes elevados, aonde estão as chances de reencontro com os que nos merecem amor.

Naquele dia, meu primo voltou para casa, após o enterro do corpo do irmão, com os pés e a alma buscando outra direção. Não mais com a pesada sensação de vazio e revolta, mas com a esperança de que por trás da experiência da morte há a expectativa do reencontro, a realidade infinita da vida e a grandeza da misericórdia de Deus, a dizer, para os que aprenderam a ouvir, que morrer é sobretudo uma volta e que ninguém ficará sem estar de novo com aqueles que ama verdadeiramente.



Reformador Ago. 97

1 de junho de 2012

INTERFERÊNCIA DOS ESPÍRITOS EM NOSSAS VIDAS

 A doutrina espírita não deixa dúvida ao informar que os Espíritos, por terem sido as almas dos homens que viveram na Terra, interferem na nossa vida com suas paixões perniciosas uns, e outros com suas aspirações de alto teor moral/espiritual.

A lei de ação e reação vai desenvolvendo a sua função na vida moral dos Espíritos, estejam na carne ou fora dela, porque a vida responde de conformidade com a qualidade da sementeira que deitarmos sobre ela.

O homem de hoje reflete a soma dos seus atos, de suas ações nas reencarnações passadas, é o que informa há milênios as religiões orientalistas. E, a partir de meados do século passado, com o advento da Doutrina dos Espíritos em 1857, o mundo ocidental se deixou incorporar pelo mesmo conceito. Ocidentalizou-se, com o missionário Allan Kardec, a lei de causa e efeito.

Estamos hoje defrontando pessoas e situações cujo início deu-se em vidas anteriores à atual, sendo cobrados por algumas pessoas por aquilo que lhes negamos antes, e por outras somos restituídos no que nos foi retirado no passado espiritual. É bom sabermos que não estamos apenas pagando, restituindo, mas recebendo, também, tendo de volta o que nos foi retirado indevidamente.

“O que nos acontece teve início antes”, é o que nos afirma Joanna de Ângelis.

São sempre os mesmos Espíritos envergando novas personalidades nos novos palcos da vida, todos carregando a bagagem moral acumulada em inúmeras experiências reencarnatórias.

Pelo fato de toda ação construir uma reação semelhante, o nosso futuro começa agora a ser construído, tendo como base nossas iniciativas. Tudo quanto fizemos de bom ou de mal aos que conosco caminham pelas sendas da existência terrena, não se refuta no Espiritismo.

DEUS cria a vida e a entrega ao homem, transmitindo-lhe, na oportunidade, a responsabilidade de a conduzir, fornecendo-lhe meios e condições para o melhor desempenho de suas tarefas redentoras, como asseveraram os Espíritos a Allan Kardec, através das respostas às perguntas 704 e 711 de O Livro dos Espíritos.

Dispensemos acurada atenção aos nossos pensamentos, os quais vamos plasmando dia a dia no mundo mental, e que se vão condensando na esfera física caso sejam contumazes, determinando assim as nossas ações.

Necessário fugirmos das situações perturbadoras, sendo aconselhável nos fixarmos nos propósitos enobrecedores para que, só assim, desfrutemos de paz, para viver e oferecer.

Devemos elaborar um programa de cunho altruístico e cumpri-lo, dentro de deveres pequenos para os olhos do mundo, mas de alta significação às vistas divinas, os quais podemos assinalar: reservar algum dia da semana para uma visita aos enfermos; visitar um abrigo de crianças ou de idosos, levando carinho aos que lá se detêm; contribuir com alguma importância para um trabalho assistencial; mostrarmo-nos alegres; a todos tratar bondosamente; manter um clima de esperança íntimo que naturalmente haverá de refletir-se exteriormente, beneficiando os demais; dar um telefonema a um amigo ou parente necessitado; escrever umas poucas palavras de ânimo e de esperança; ajudar materialmente a uma família carente... . Recebemos o que damos, e se queremos receber mais do que damos, passemos a dar mais do que recebemos.

Junto às demonstrações de caridade, firmemos nossos mais acendrados propósitos de renovação moral, visando a superação das imperfeições e o alcance de novos limites, buscando nutrir otimismo que, com certeza, nos enriquecerá de boa disposição orgânica.

Nossos pensamentos ditarão as nossas aspirações, tarefas e ações, estabelecendo, caso sejam sadias, a sintonia com os Espíritos que facultarão aprendizagem no campo da educação superior, mas que, sendo doentias, perturbadoras e egoístas nos farão escravos das tendências inferiores.

Nossas realidades espirituais serão aquelas extravasadas e assimiladas pelos que conosco lidam, elas que se encontram sempre incrustadas nas camadas mais profundas do nosso psiquismo, aguardando a nossa voz de comando, que é acionada pela nossa vontade.

Compete-nos, diante de tamanha realidade, atuarmos no bem, sempre ligados ao amor, porque o amor responderá com total eficiência, já que ele reflete a interferência benfazeja dos Mentores da Vida Maior, na programação de nossa existência.

Estabeleçamos com Eles um vínculo cada vez mais firme, certos de ser o recurso de que dispomos para vivermos a relativa felicidade na Terra, confiantes em que ela se estenderá além da aduana da morte, quando nos depararemos com a verdadeira vida, a espiritual.



(Artigo publicado originalmente no Jornal Espírita de Pernambuco – julho de 1999)