13 de julho de 2012

DONOS DA DOUTRINA

Ao que nos parece quando dizemos Doutrina dos Espíritos queremos significar que a Doutrina Espírita pertence aos Espíritos “que são as virtudes dos céus, qual imenso exército que se movimenta ao receber as ordens do seu comando, espalham-se por toda a superfície da Terra e, semelhantes a estrelas cadentes, vêm iluminar os caminhos e abrir os olhos aos cegos" (O Evangelho segundo o Espiritismo - prefácio).

Assim sendo, entendemos que à nossa Doutrina tem suas raízes no plano espiritual superior, encarregado da evolução da Terra, e estando sob a responsabilidade direta de Jesus, o Cristo de Deus, a orientação e propagação das suas verdades eternas.

Mas quem é aqui na Terra que é o "dono" da Doutrina Espírita? Quem é aquele que representa o seu mais alto papel, podendo ser considerado o seu máximo represente?

Foi Kardec? Seus descendentes? Algum movimento?

Na verdade, ninguém é dono da Doutrina Espírita. Os seus verdadeiros donos são os Espíritos Superiores que a ofereceram à humanidade sofredora, como resposta de Jesus aos sofrimentos do homem.

A nós, os encarnados, compete assessorar a tarefa desses luminares, tudo fazendo para a implantação dessas verdades maravilhosas no seio da humanidade.

Compete-nos, ainda, aprofundar-nos nos conhecimentos que a Doutrina Espírita oferece, pesquisando, analisando, tudo fazendo para melhorar o entendimento do Espiritismo. Mas nós, os encarnados, nenhum de nós somos os donos da Doutrina Espírita.

Espanta-nos, assim, a atitude dos que desejam, a todo custo, dar a ÚLTIMA PALAVRA A RESPEITO DE ESPIRITISMO.

É bem verdade que todos temos o direito de pensar dessa ou daquela forma, porém, temos obrigação de permitir que  o nosso semelhante também tenha o seu ponto de vista, ainda que diferente do nosso. Mas, daí partir para uma posição de intransigência, de intolerância, querendo estandardizar o pensamento das pessoas, obrigando-as a pensarem de uma só forma, todos de uma mesma maneira, é uma aberração que a Doutrina não apoia, como condena.

Se assim fosse, daqui a pouco teremos a institucionalização de um sacerdócio, formado daqueles que supostamente se julgam os verdadeiros conhecedores da Doutrina. A seguir virá uma nova Inquisição, destinada a punir aqueles que não pensem como os sacerdotes e o seu chefe.

Não, alto lá. A Doutrina veio exatamente para dar novo caminho ao homem, caminho de liberdade, de tolerância, de indulgência.

Aonde vamos?

Querer que o movimento espírita seja unificado é coisa louvável e que muito benefício trará a todos, mas forçar a situação para que os espíritas sejamos unos em interpretação doutrinária, fere o mais comezinho princípio de tolerância religiosa.  

Vez por outra, vemos surgir alguns confrades que querem ser mais "kardecistas” que o próprio Kardec, isto é, mais realistas que o rei. A sua palavra, pretendem, é a que basta para solucionar todas as questões que surgem. Se eles não aprovam ou não dão seu "veredictum" final (em última análise) o “imprimatur”, nada mais se pode fazer ou falar, que eles chamarão de heresia.

Kardec, o "bom senso encarnado", não tomou tal atitude. Sempre dizia que a opinião dele, sobre determinado assunto, estava passível de mudança, com o correr do tempo. Não envolvia os Espíritos no assunto para, reforçar a sua tese ou ideia.  Exatamente por isso é que não surgiu um movimento chamado "kardecismo", que seria tudo menos Doutrina Espírita. O Espiritismo sim pode ser encarado do ponto de vista  kardecista, isto é,  segundo a codificação de Allan Kardec.

Alguém poderia se preocupar com a diversidade de ideias que surgiriam, já que todos somos livres para entender ou aceitar alguma coisa. Essa diversidade, no entanto, seria na maneira de pensar e não na de agir que é uma só para nós todos: a vivência cristã nos nossos atos. Individualmente poderemos divergir aqui ou ali, mas no movimento doutrinário estaremos unidos no objetivo comum da Doutrina Espirita:

Achamos, até, mal muito maior pretender um bitolamento do pensamento doutrinário, que seria causa de descrédito para o movimento, de vez que fingiríamos aceitar aquilo que não aceitamos. Aliás, por acaso não foi esse o grande erro do Dogmatismo, obrigando (com ferro e fogo) as pessoas a pensarem de acordo com uma única ideia dominante?

Precisamos estar atentos com os dizeres: “A letra mata, o espírito vivifica”.



Felipe Salomão

Reformador (FEB) Março 1974

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