19 de agosto de 2012

INUMAR OU CREMAR, EIS A QUESTÃO



A despeito de ser praticada desde a mais remota antigüidade, a cremação (incineração de um cadáver até reduzi-lo a cinzas) é assunto controverso na opinião da sociedade contemporânea ocidental. Em eras recuadas, a prática da cremação provinha de duas razões diferentes: a necessidade de trazer de volta os guerreiros mortos, para receberem sepultura em sua pátria, como sói ocorrer entre os gregos; ou de fundamentos religiosos, como entre os nórdicos, que criam assim libertar o Espírito de seu arcabouço físico e evitar que o desencarnado pudesse causar danos aos encarnados.

Em Roma, quiçá, devido ao ritual adotado para queimar os corpos dos soldados mortos, a cremação se transformou em símbolo de prestígio social, de tal forma que a construção de columbários([1]) tornou-se negócio rentável. De longa data, os indianos e outros povos reencarnacionistas sabem que o corpo físico, uma vez extinto, não mais pode ser habitado por um Espírito, pois isso contraria a Lei Natural; portanto, o cadáver poderá ser cremado, transformado em cinzas, sem qualquer processo traumático.

As obras da codificação espírita nada dizem a respeito da cremação. Por isso, cremos que o problema da incineração do corpo merece mais demorado estudo entre nós. Até porque, se para uns o processo crematório não repercute no Espírito, para muitos outros, por trás de um defunto, muitas vezes, esconde-se a alma inquieta e sofrida, sob estranhas indagações, na vigília torturada ou no sono repleto de angústia. Para semelhantes viajores da grande jornada, a cremação imediata dos restos mortais será pesadelo terrível e doloroso. 

Existem correntes ideológicas avessas à cremação, quase sempre embaladas por motivo de ordem médico-legal (nos casos estabelecidos em lei, quando envolva morte violenta, por interesse público); ou movida por razão de ordem afetiva (porque os familiares acham uma violência a incineração do corpo e querem preservar os restos mortais para culto ao morto); ou, ainda impulsionada pela lógica de ordem religiosa (porque muitas pessoas ainda acreditam na ressurreição do corpo etc) principalmente, porque a Igreja de Roma era contra o ato e até negava o sacramento às pessoas cremadas. Poderíamos, ainda, acrescentar mais uma objeção – talvez a mais séria: o desconhecimento das coisas do Espírito, que persiste, em grande parte, por medo infundido, preconceito arraigado e falta de informação.([2])

Além disso, a questão que envolve a cremação tem implicações sociológicas, jurídicas, psicológicas, éticas e religiosas. Até porque, o tema diz respeito a todas as pessoas (lembremos que todos nós, ante a fatalidade biológica, iremos desencarnar).  De acordo com tese de pesquisa sobre o tema, a cada 70 anos o planeta terá o número de enterrados na mesma quantidade de encarnados atuais, ou seja: daqui a sete décadas terá 6 bilhões de cadáveres sepultados.

 Enquanto os profitentes do enterro tradicional (inumação) o defendem por aguardarem, o juízo final e a ressurreição do corpo físico, os que defendem a cremação, afirmam que o enterramento tem conseqüências sanitárias e econômicas, e nesse raciocínio explicam que os cemitérios estariam causando sérios danos ao meio ambiente e à qualidade de vida da população em geral. Laudos técnicos atestam que cemitérios contaminam a água potável que passa por eles e conduz sério risco de saúde humana às residências das proximidades, além das águas de nascentes podem também contaminar quem reside longe dos cemitérios.

O planeta tem seus limites espaciais o que equivale dizer que bilhões e bilhões de corpos enterrados vão encharcar o solo, invadir as águas com o necrochorume (líquido formado a partir da decomposição dos corpos que atacam a natureza, as quais provocariam doenças), disseminando doenças e outros riscos sobre os quais sanitaristas e pesquisadores têm se preocupado. Por outro lado, o uso da cremação diminuiria os encargos básicos econômicos, como por exemplo: adquirir terreno para construir jazigo; a manutenção das tumbas; nas grandes capitais falta de espaço para construir cemitérios etc. Pelo menos em ralação ao nosso País fiquemos, por enquanto, sossegados, pois, como lembra Chico Xavier“ ainda existe bastante solo no Brasil e admitimos, por isso, que não necessitamos copiar apressadamente costumes em pleno desacordo com a nossa feição espiritual.([3])

Sob o enfoque espiritual o assunto é mais complexo quando consideramos que muitas vezes “o Espírito não compreende a sua situação; não acredita estar morto, sente-se vivo. Esse estado perdura por todo o tempo enquanto existir um liame entre o corpo e o perispírito. ([4]) O perispírito, desligado do corpo, prova a sensação; mas como esta não lhe chega através de um canal limitado, torna-se generalizado. Poderíamos dizer que as vibrações moleculares se fazem sentir em todo o seu ser, chegando assim ao seu sensorium commune ([5]), que é o próprio Espírito, mas de uma forma diversa.

Ressalta Kardec, “Nos primeiros momentos após a morte, a visão do Espírito é sempre turva e obscura, esclarecendo-se à medida que ele se liberta e podendo adquirir a mesma clareza que teve quando em vida, além da possibilidade de penetrar nos corpos opacos”.[6] Dessa forma, o homem que tivesse vivido sempre sobriamente se pouparia de muitas tribulações e menos sentirá as sensações penosas. Portanto, para ele, que vive na Terra tão somente para o cultivo da prática do bem, nas suas variadas formas e dentro das mais diversas crenças, a desencarnação não significa perturbações em face de sua consciência elevada e do coração amante da verdade e do amor.

Ao ser indagado se o recém-desencarnado pode sofrer com a incineração dos despojos cadavéricos, Emmanuel respondeu: “Na cremação, faz-se mister exercer a caridade com os cadáveres, procrastinando por mais horas o ato de destruição das vísceras materiais, pois, de certo modo, existem sempre muitos ecos de sensibilidade entre o Espírito desencarnado e o corpo onde se extinguiu o ‘tônus vital’, nas primeiras horas seqüentes ao desenlace, em vista dos fluidos orgânicos que ainda solicitam a alma para as sensações da existência material”.([7])

Chico Xavier, ao ser questionado no programa “Pinga Fogo”, da extinta TV Tupi, de São Paulo, pelo jornalista Almir Guimarães, quanto à cremação de corpos que seria implantada no Brasil, à época, explicou: “Já ouvimos Emmanuel a esse respeito, e ele diz que a cremação é legítima para todos aqueles que a desejem, desde que haja um período de, pelo menos, 72 horas de expectação para a ocorrência em qualquer forno crematório, o que poderá se verificar com o depósito de despojos humanos em ambiente frio” (.[8]) (grifamos) porém, Richard Simonetti, em seu livro “Quem tem Medo da Morte” lamenta que “nos fornos crematórios de São Paulo, espera-se o prazo legal de 24 horas, inobstante o regulamento permitir que o cadáver permaneça na câmara frigorífica pelo tempo que a família desejar”.([9]) Nesse caso o prazo poderia ser maior.

O Espiritismo não recomenda nem condena a cremação. Mas, faz-se necessário exercer a piedade com os cadáveres, protelando por mais tempo a incineração das vísceras materiais([10]) pois, existem sempre muitas repercussões de sensibilidade entre o Espírito desencarnado e o corpo onde se esvaiu o "fluido vital", nas primeiras horas seqüentes ao desenlace, em vista dos fluidos orgânicos que ainda solicitam a alma para as sensações da existência material. A impressão da desencarnação é percebida, havendo possibilidades de surgir traumas psíquicos. Destarte, recomenda-se aos adeptos da Doutrina Espírita que desejam optar pelo processo crematório prolongar a operação por um prazo mínimo de 72 horas após o desenlace.

 Jorge Hessen

 FONTES DE REFERÊNCIAS:

([1]) edifício com nichos para as urnas funerárias

([2]) A Igreja romana, por ato do Santo Ofício, desde 1964, resolveu aceitar a cremação, passando a realizar os sacramentos aos cremados, permitindo as exéquias eclesiásticas. Aliás, em nota de rodapé de seu “Tratado” (vol. II. P. 534), o professor Justino Adriano registra o seguinte: “Jésus Hortal, comentando o novo Código de Direito Canônico diz que a disciplina da Igreja ‘sobre a cremação de cadáveres, a que, por razões históricas, era totalmente contrária, foi modificada pela Instrução da Sagrada Congregação do Santo Ofício, de 5 de julho de 1963 (AAS 56, 1964, p. 882-3). Com as modificações introduzidas pelo novo Ritual de Exéquias, é possível realizar os ritos exequiais inclusive no próprio crematório, evitando, porém, o escândalo ou o perigo de indiferentismo religioso.

([3]) Xavier, Francisco Cândido. Escultores de Almas, SP: edição CEU, 1987.

([4]) Ensaio teórico sobre a sensação nos espíritos (cap. VI item IV, questão 257 Livro dos Espíritos).

([5]) Sensorium commune: expressão latina, significando a sede das sensações, da sensibilidade. (N. do E.).

([6]) Ensaio teórico sobre a sensação nos espíritos (cap. VI, item IV, questão 257 Livro dos Espíritos)

([7]) Xavier, Francisco Cândido. O Consolador, ditado pelo Espírito Emmanuel, RJ: Ed. FEB 11 ª edição, 1985, pg 95.

([8]) As duas entrevistas históricas realizadas ao saudoso Francisco Cândido Xavier na extinta TV Tupi/SP canal 4, em 1971 e 1972, respectivamente, enfaixadas nos livros Pinga Fogo com Chico Xavier (Editora Edicel) e Plantão de Respostas - Pinga Fogo II (Ed. CEU),

([9]) Simonetti, Richard.Quem tem Medo da Morte, SP: editora CEAC, 1987.

([10]) Depoimento de Chico Xavier in Revista de Espiritismo nº. 33 (FEP) Out/dez 1996.

11 de agosto de 2012

PRECE PELO MEU PAI

Onipotente Deus, que a tua misericórdia se derrame sobre a alma de meu pai, a quem acabaste de chamar da Terra. Possam ser-lhe contadas as provas que aqui sofreu, bem como ter suavizadas e encurtadas as penas que ainda haja de suportar na Espiritualidade!

       Bons Espíritos que o viestes receber e tu, particularmente, seu anjo guardião, ajudai-o a despojar-se da matéria; dai-lhe luz e a consciência de si mesmo, a fim de que saia ileso da perturbação inerente à passagem da vida corpórea para a vida espiritual. Inspirai-lhe o arrependimento das faltas que haja cometido e o desejo de obter permissão para as reparar, a fim de acelerar o seu avanço rumo à vida eterna bem-aventurada.

Pai, acabas de entrar no mundo dos Espíritos e, no entanto, presente aqui te achas entre nós; tu nos vês e ouves, por isso que de menos do que havia, entre ti e nós, só há o corpo perecível que vens de abandonar e que em breve estará reduzido a pó.

Despiste o envoltório grosseiro, sujeito a vicissitudes e à morte, e conservaste apenas o envoltório etéreo, imperecível e inacessível aos sofrimentos. Já não vives pelo corpo; vives da vida dos Espíritos, vida essa isenta das misérias que afligem a Humanidade.

Já não tens diante de ti o véu que às nossas vistas oculta os esplendores da vida no

Além. Podes, doravante, contemplar novas maravilhas, ao passo que nós ainda continuamos mergulhados em trevas.

Vais, em plena liberdade, percorrer o espaço e visitar os mundos, enquanto nós rastejaremos penosamente na Terra, à qual se conserva preso o nosso corpo material, semelhante, para nós, a pesado fardo.

 Diante de ti, vai desenrolar-se o panorama do Infinito e, em face de tanta grandeza, compreenderás a vacuidade dos nossos desejos terrestres, das nossas ambições mundanas e dos gozos fúteis com que os homens tanto se deleitam.

 A morte, para os homens, mais não é do que uma separação material de alguns instantes. Do exílio onde ainda nos retém a vontade de Deus, bem assim os deveres que nos correm neste mundo, acompanhar-te-emos pelo pensamento, até que nos seja permitido juntar-nos a ti, como tu te reuniste aos que te precederam.

Não podemos ir onde te achas, mas tu podes vir ter conosco. Vem, pois, aos que te amam e que tu amaste; ampara-nos nas provas da vida; vela pelos que te são caros; protege-nos, como puderes; suaviza-lhes os pesares, fazendo-lhes perceber, pelo pensamento, que és mais ditoso agora e dando-lhes a consoladora certeza de que um dia estareis todos reunidos num mundo melhor.

 Nesse, onde te encontras, devem extinguir-se todos os ressentimentos. Que a eles, daqui em diante, sejas inacessível, a bem da tua felicidade futura! Perdoa, portanto, aos que hajam incorrido em falta para contigo, como eles te perdoam as que tenhas cometido para com eles.

 Assim seja.

8 de agosto de 2012

FAZ DEUS MILAGRES?


15. - Quanto aos milagres propriamente ditos, Deus, visto que nada lhe é impossível, pode fazê-los. Mas, fá-los? Ou, por outras palavras; derroga as leis que dele próprio emanaram? Não cabe ao homem prejulgar os atos da Divindade, nem os subordinar à fraqueza do seu entendimento. Contudo, em face das coisas divinas, temos, para critério do nosso juízo, os atributos mesmos de Deus. Ao poder soberano reúne ele a soberana sabedoria, donde se deve concluir que não faz coisa alguma inútil.

Por que, então, faria milagres? Para atestar o seu poder, dizem. Mas, o poder de Deus não se manifesta de maneira muito mais imponente pelo grandioso conjunto das obras da criação, pela sábia previdência que essa criação revela, assim nas partes mais gigantescas, como nas mais mínimas, e pela harmonia das leis que regem o mecanismo do Universo, do que por algumas pequeninas e pueris derrogações que todos os prestímanos sabem imitar? Que se diria de uni sábio mecânico que, para provar a sua habilidade, desmantelasse um relógio construído pelas suas mãos, obra-prima de ciência, a fim de mostrar que pode desmanchar o que fizera? Seu saber, ao contrário, não ressalta muito mais da regularidade e da precisão do movimento da sua obra?

Não é, pois, da alçada do Espiritismo a questão dos milagres; mas, ponderando que Deus não faz coisas inúteis, ele emite a seguinte opinião: Não sendo necessários os milagres para a glorificação de Deus, nada no Universo se produz fora do âmbito das leis gerais. Deus não faz milagres, porque, sendo, como são, perfeitas as suas leis, não lhe é necessário derrogá-las. Se há fatos que não compreendemos, é que ainda nos faltam os conhecimentos necessários.

16. - Admitido que Deus houvesse alguma vez, por motivos que nos escapam, derrogado acidentalmente leis por ele estabelecidas, tais leis já não seriam imutáveis. Mesmo, porem, que semelhante derrogação seja possível, ter-se-á, pelo menos, de reconhecer que só ele, Deus, dispõe desse poder; sem se negar ao Espírito do mal a onipotência, não se pode admitir lhe seja dado desfazer a obra divina, operando, de seu lado, prodígios capazes de seduzir até os eleitos, pois que isso implicaria a idéia de um poder igual ao de Deus. E, no entanto, o que ensinam. Se Satanás tem o poder de sustar o curso das leis naturais, que são obra de Deus, sem a permissão deste, mais poderoso é ele do que a Divindade. Logo, Deus não possui a onipotência e se, como pretendem, delega poderes a Satanás, para mais facilmente induzir os homens ao mal, falta-lhe a soberana bondade. Em ambos os casos, há negação de um dos atributos sem os quais Deus não seria Deus.

Daí vem a Igreja distinguir os bons milagres, que procedem de Deus, dos maus milagres, que procedem de Satanás. Mas, como diferençá-los? Seja satânico ou divino um milagre, haverá sempre uma derrogação de leis emanadas unicamente de Deus. Se um indivíduo é curado por suposto milagre, quer seja Deus quem o opere, quer Satanás, não deixará por isso de ter havido a cura. Forçoso se torna fazer pobríssima idéia da inteligência humana para se pretender que semelhantes doutrinas possam ser aceitas nos dias de hoje.

Reconhecida a possibilidade de alguns fatos considerados miraculosos, há-se de concluir que, seja qual for a origem que se lhes atribua, eles são efeitos naturais de que se podem utilizar Espíritos desencarnados ou encarnados, como de tudo, como da própria inteligência e dos conhecimentos científicos de que disponham, para o bem ou para o mal, conforme neles preponderem a bondade ou a perversidade. Valendo-se do saber que haja adquirido, pode um ser perverso fazer coisas que passem por prodígios aos olhos dos ignorantes; mas, quando tais efeitos dão em resultado um bem qualquer, fora ilógico atribuir-se-lhes uma origem diabólica.

17. - Mas, a religião, dizem, se apóia em fatos que nem explicados, nem explicáveis são. Inexplicados, talvez; inexplicáveis, é questão muito outra. Que sabe o homem das descobertas e dos conhecimentos que o futuro lhe reserva?

Sem falar do milagre da criação, o maior de todos sem contestação possível, já pertencente ao domínio da lei universal, não vemos reproduzirem-se hoje, sob o império do magnetismo, do sonambulismo, do Espiritismo, os êxtases, as visões, as aparições, as percepções a distância, as curas instantâneas, as suspensões, as comunicações orais e outras com os seres do mundo invisível, fenômenos esses conhecidos desde tempos imemoráveis, tidos outrora por maravilhosos e que presentemente se demonstra pertencerem à ordem das coisas naturais, de acordo com a lei constitutiva dos seres? Os livros sagrados estão cheios de fatos desse gênero, qualificados de sobrenaturais; como, porém, outros análogos e ainda mais maravilhosos se encontram em todas as religiões pagãs da antigüidade, se a veracidade de uma religião dependesse do numero e da. natureza de tais fatos, não se saberia dizer qual a que devesse prevalecer.



O SOBRENATURAL E AS RELIGIÕES

18. - Pretender-se que o sobrenatural é o fundamento de toda religião, que ele é o fecho de abóbada do edifício cristão, é sustentar perigosa tese.

Assentar exclusivamente as verdades do Cristianismo sobre a base do maravilhoso é dar-lhe fraco alicerce, cujas pedras facilmente se soltam. Essa tese, de que se constituíram defensores eminentes teólogos, leva direito à conclusão de que, em breve tempo, já não haverá religião possível, nem mesmo a cristã, desde que se chegue a demonstrar que é natural o que se considerava sobrenatural, visto que, por mais que se acumulem argumentos, não se logrará sustentar a crença de que um fato é miraculoso, depois de se haver provado que não o é. Ora, a prova existe de que um fato não constitui exceção às leis naturais, logo que pode ser explicado por essas mesmas leis e que, podendo reproduzir-se por intermédio de um indivíduo qualquer, deixa de ser privilégio dos santos. O de que necessitam as religiões não é do sobrenatural, mas do princípio espiritual, que erradamente costumam confundir com o maravilhoso e sem o qual não há religião possível.

O Espiritismo considera de um ponto mais elevado a religião cristã; dá-lhe base mais sólida do que a dos milagres: as imutáveis leis de Deus, a que obedecem assim o princípio espiritual, como o princípio material. Essa base desafia o tempo e a Ciência, pois que o tempo e a Ciência virão sancioná-la.

Deus não se torna menos digno da nossa admiração, do nosso reconhecimento, do nosso respeito, por não haver derrogado suas leis, grandiosas, sobretudo, pela imutabilidade que as caracteriza. Não se faz mister o sobrenatural, para que se preste a Deus o culto que lhe é devido. A Natureza não é de si mesma tão imponente, que dispense se lhe acrescente seja o que for para provar a suprema potestade? Tanto menos incrédulos topará a religião, quanto mais a razão a sancionar em todos os pontos. O Cristianismo nada tem que perder com semelhante sanção; ao contrário, só tem que ganhar. Se alguma coisa o há prejudicado na opinião de muitas pessoas, foi precisamente o abuso do sobrenatural e do maravilhoso.

19. - Se tomarmos a palavra milagre em sua acepção etimológica, no sentido de coisa admirável, teremos milagres incessantemente sob as vistas. Aspiramo-los no ar e calcamo-los aos pés, porque tudo então é milagre em a Natureza.

Querem dar ao povo, aos ignorantes, aos pobres de espírito uma idéia do poder de Deus? Mostrem-no na sabedoria infinita que preside a tudo, no admirável organismo de tudo o que vive, na frutificação das plantas, na apropriação de todas as partes de cada ser às suas necessidades, de acordo com o meio onde ele é posto a viver. Mostrem-lhes a ação de Deus na

vergôntea de um arbusto, na flor que desabrocha, no Sol que tudo vivifica.

Mostrem-lhes a sua bondade na solicitude que dispensa a todas as criaturas, por mais ínfimas que sejam, a sua previdência, na razão de ser de todas as coisas, entre as quais nenhuma inútil se conta, no bem que sempre decorre de um mal aparente e temporário. Façam-lhes compreender, principalmente, que o mal real é obra do homem e não de Deus; não procurem espavori-los com o quadro das penas eternas, em que acabam não mais crendo e que os levam a duvidar da bondade de Deus; antes, dêem-lhes coragem, mediante a certeza de poderem um dia redimir-se e reparar o mal que hajam praticado. Apontem-lhes as descobertas da Ciência como revelações das leis divinas e não como obras de Satanás. Ensinem-lhes, finalmente, a ler no livro da Natureza, constantemente aberto diante deles; nesse livro inesgotável, em cada uma de cujas páginas se acham inscritas a sabedoria e a bondade do Criador. Eles, então, compreenderão que um Ser tão grande, que com tudo se ocupa, que por tudo vela, que tudo prevê, forçosamente dispõe do poder supremo. Vê-lo-á o lavrador, ao sulcar o seu campo; e o desditoso, nas suas aflições, o bendirá dizendo: Se sou infeliz, é por culpa minha. Então, os homens serão verdadeiramente religiosos, racionalmente religiosos, sobretudo, muito mais do que acreditando em pedras que suam sangue, ou em estátuas que piscam os olhos e derramam lágrimas.

 Gênese. Capitulo XIII

7 de agosto de 2012

POR QUE O ESPIRITISMO INCOMODA?


No alvorecer do Espiritismo, a Igreja disse: "Destruamos o Espiritismo ou ele destruirá a Igreja. Temos que o atacar com todas as armas." Mas Kardec e os espíritas nunca imaginaram isso. A Igreja é que assim pensava e proclamava: "Fora da Igreja não há salvação". Já o Espiritismo ensina: "Fora da caridade não há salvação."

E os espíritas foram acusados injustamente de charlatanice, ignorância, loucura, feitiçaria, macumbaria e contato com os demônios, na verdade espíritos humanos desencarnados, chamados de espíritos impuros nos Evangelhos, e responsáveis pelas obsessões, encostos e possessões.

E essas calúnias foram porque o Espiritismo restaura o Cristianismo Primitivo das reuniões mediúnicas dos apóstolos e das primeiras comunidades cristãs (Livro de Atos e 1 Coríntios capítulos 12 e 14), de quando o Cristianismo não estava ainda maculado pelo poder civil e a instituição dos dogmas, a partir do Concílio de Nicéia (325), que são os responsáveis diretos pelas tragédias fundamentalistas da Igreja.

Enquanto que os pioneiros do Espiritismo no Brasil eram presos, sábios de renomada mundial abraçavam a doutrina regeneradora do Cristianismo:

William Crookes, descobridor do tálio e dos raios catódicos; César Lombroso, médico, escritor e cientista italiano, estudioso da famosa médium Eusápia Palladino;

Ernesto Bozzano, que trocou o ateísmo pelo Espiritismo; o francês Charles Richet, Prêmio Nobel de Medicina de 1913; Victor Hugo; Léons Dénis; Alexandre Aksakof; Russel Wallace; Paul Gibier; Gabriel Delane; Oliver Lodge; Gustave Geley etc.

E letrados da atualidade continuam também, cada vez mais, abraçando o Espiritismo. Em Belo Horizonte, de 1 a 4-5-2003, realizou-se, no Fórum Lafaiete e Hotel Ouro Minas, o II Encontro Nacional da Associação Brasileira dos Magistrados Espíritas (ABRAME).

E o clero e os pastores estão preocupados com o fato de muitos de seus fiéis (50% dos católicos) estarem frequentando o Espiritismo. Por isso inventaram mais um jeito de denegrirem os espíritas. De modo repetitivo, estão dizendo que os espíritas não são cristãos, porque não aceitam todos os dogmas do Cristianismo, quando muitas dessas autoridades religiosas não aceitam também todos esses dogmas, embora não o digam.

Mas o ensinamento do Nazareno é outro: "É por muito vos amardes que todos saberão que vós sois meus discípulos". Ademais, enquanto eles vivem das suas religiões, os líderes espíritas vivem para a sua religião, e preferem a prática da caridade à das cerimônias religiosas rendosas.

Assim, o Espiritismo tem mesmo que incomodar todos aqueles que fazem do Evangelho do Cristo um meio de ganhar a vida, deixando em segundo plano a sua mensagem de amor e fraternidade!

 Portal do Espírito

6 de agosto de 2012

CIÊNCIA E RELIGIÃO UNIDAS PARA IMPLODIR OS DOGMAS, MISTÉRIOS, CRENDICES E ENIGMAS.

A Ciência e a Religião são dois instrumentos da inteligência humana. A Ciência tem por finalidade revelar as leis do mundo material e a Religião revelar as leis do mundo moral; mas como ambas têm o mesmo princípio, que é Deus, não pode existir entre ambas contradições. O desentendimento que existe entre a Ciência e as religiões é exatamente pela falta do traço de união, que está no conhecimento das leis que regem o mundo espiritual e suas relações com o mundo corporal, leis essas tão imutáveis quanto as que regem o movimento dos astros e a existência dos seres. Com a Ciência revelando as leis da matéria a Doutrina dos Espíritos revelando as leis morais, automaticamente, os dogmas, os mistérios, as crendices populares e os enigmas vão cedendo lugar às verdades reveladas, através dos fatos. Jesus foi, é e será sempre: o caminho, a verdade e a vida, e hoje sabemos que o que abre todos os caminhos para o conhecimento humano é a Ciência; quem nos ensina a raciocinar para decifrar  todos os enigmas em busca da verdade, é a Filosofia e quem constrói o nosso caráter e o nosso sentimento é a Religião. As religiões dogmáticas estão em contradição com a Ciência porque não possuem a base científica, não analisam as conclusões filosóficas e não levam à conseqüência moral; por isso, desconhecem os mecanismos das leis que regem o mundo espiritual e as suas relações com o mundo corporal, a lei de Causa e Efeito, a preexistência e a sobrevivência imperecível da alma.
Após a partida de Jesus, a Igreja Católica Apostólica Romana começou a colocar dogmas para substituir as verdades pregadas, vividas e exemplificadas por Jesus, obscurecendo o Mundo durante dezesseis séculos, onde os sábios, pesquisadores, estudiosos, astrônomos, professores, filósofos, escritores, sensitivos, médiuns e até sacerdotes que se rebelassem e não admitissem seus dogmas e suas imposições eram perseguidos, torturados, presos e queimados pelo Tribunal da Inquisição. No século XVIII as idéias renovadoras e libertadoras dos enciclopedistas - Voltaire, Montesquieu e Rousseau - concorreram para que o eminente sábio francês Hippolyte Léon Denizard Rivail (Allan Kardec) codificasse a Doutrina dos Espíritos em 1857, sedimentada na observação criteriosa, na pesquisa bem conduzida e na confirmação dos fatos demonstrados.
Nos fatos mais elementares, constatamos a contradição entre a Ciência e as religiões; por exemplo: o dogma do Juízo Final ou ressureição, instituído pelo 2º Concílio de Nicéia e definido no IV Concílio de Latrão, em 1215, diz o seguinte: Todos no dia do Juízo Final ressurgirão com os próprios corpos que tinham em vida terrena, para receberem segundo as suas próprias  boas ou más obras.
Se o corpo é formado de elementos heterogêneos diversos, oxigênio, hidrogênio, azoto, carbono, fósforo etc., e pela decomposição esses elementos se dispersam para servir à formação de novos corpos, é impossível a reconstituição dos mesmos elementos. Segunda contradição: O dogma do juízo Final foi criado em 1215; e os que morreram antes desta data, como foram julgados?
A Ciência e a Doutrina Espírita não admitem o Juízo Final, porque contraria os princípios da  evolução e do progresso espiritual. É por essas razão que o sábio Albert Einstein dizia: A Ciência  sem a Religião é manca, e a Religião sem a Ciência é cega.  


Ruy Gibim
Reformador (FEB) Dezembro, 1990