27 de setembro de 2013

BEZERRA DE MENEZES ANTE ROUSTAING


 A 29 de agosto transcorre o aniversário natalício desse espírito de escol que, em sua última reencarnação, recebeu o nome de Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti.

Sobre sua vida e sua obra existem muitas publicações, entre as quais citamos: Vida e Obra de Bezerra de Menezes, de Sylvio Brito Soares, editada pela FEB; Bezerra de Menezes – Subsídios para a História do Espiritismo no Brasil até o Ano de 1895, de Canuto Abreu, edição FEESP; Bezerra de Menezes, o Médico dos Pobres, de F. Acquarone, pela Editora Aliança; o capítulo específico na obra Grandes Espíritas do Brasil, de Zêus Wantuil, editada pela FEB. E número sem fim de artigos em jornais e revistas nacionais e estrangeiros, sendo de destacar-se o muito que tem sido inserido em Reformador, órgão que Bezerra de Menezes secretariou e, posteriormente, dirigiu.

Cremos que a maneira mais adequada de se reverenciar (reverenciar: respeitar, honrar) uma criatura seja a da preservação dos fatos ligados à sua vida. Assim pensando, aqui estamos, trazendo a nossa colaboração a respeito da figura ímpar de Bezerra de Menezes e suas convicções religiosas, sem esquecer o ensinamento de Emmanuel, na página "Pelo Evangelho":

"Fora ridículo proibir-se a elucidação. O que será de evitar-se, zelosamente, é a azedia da polêmica."1

No princípio do século a FEB editou, em três volumes, uma coletânea de artigos de Max, pseudônimo jornalístico de Bezerra de Menezes, publicados em O País, com o título de "Espiritismo-Estudos Filosóficos".

Na década passada a Edicel iniciou a republicação das obras de Bezerra de Menezes.2 No terceiro volume da coleção consta uma homenagem pela passagem do sesquicentenário do "Kardec Brasileiro".

Nessa homenagem, porém, encontramos, nos dois primeiros parágrafos da página 19, afirmativas quanto às convicções religiosas do homenageado que, data vênia, não expressam a realidade dos fatos.

Vejamos esses parágrafos:

"Com sua característica de humildade e respeito ao trabalho e esforço, mesmo dos que discordavam de suas convicções, Bezerra chegou a publicar referências elogiosas a Roustaing, na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, em 22 de abril de 1897, assinando-as com o pseudônimo de Max. É o que informa Antônio Luiz Sayão no seu livro Elucidações Evangélicas à Luz da Doutrina Espirita, editado por Besnard Frères, na Capital Federal, em 1902. Quando, no entanto, dúvidas foram levantadas a respeito da posição de Bezerra quanto às teses roustanguistas em choque com a Doutrina Espirita ou que permitiam interpretação equívoca dos seus conceitos, ainda em vida física ele reafirmava a defesa intransigente dos princípios kardecistas. (...)"3

É aforismo antigo: contra fatos não há argumentos. Passemos, pois, aos fatos.

Preliminarmente, transcrevemos, na íntegra, as "referências elogiosas a Roustaing feitas por Bezerra na Gazeta de Notícias de 6 (seis) de abril de 1897:4

"Na "Gazeta de Notícias" de 22 do corrente mês5 lemos o seguinte:

"Meu caro Max. – A nossa incipiência tem encontrado sempre conforto na vossa palavra inspirada e respeitada mesmo pelos ortodoxos da fé; desde, pois, que assumistes uma tal autoridade, a vossa opinião, sem que a embarace a vossa reconhecida modéstia, é segura orientação para os que entretêm Grupos Espíritas; e, nestas circunstâncias, relevareis que vos peçamos um conselho: podemos tomar os dois livros publicados pelo Dr. Sayão como normas a seguir no nosso Grupo? – Um discípulo."

Bem se vê que o consultante é realmente um incipiente, pois que eleva nossa individualidade a umas alturas que estamos muito longe de atingir; entretanto, por corresponder à sua confiança, dir-lhe-emos, com toda a lealdade e sinceridade, o que pensamos sobre os livros do Dr. Sayão.

O espiritismo não é, como julgam os padres ser, a revelação messiânica, a última palavra sobre as verdades que Deus, em seu amor pela Humanidade, fez baixar do céu á Terra.

Enquanto o homem não chegar ao último grau da perfeição intelectual de penetrar todas as leis da criação, a revelação não chegará a seu termo, pcis çue ela é progressivamente mais ampla, na medida do desenvolvimento da faculdade compreensiva do homem.

O espiritismo, pois, tendo dado mais do que as anteriores revelações, muito terá ainda que dar, porque muito terá ainda que progredir a Humanidade terrestre.

Allan Kardec, espírito preposto por Jesus para reunir, em um corpo de doutrinas, ensinos confiados, pelo mesmo Jesus, ao Espírito da Verdade, constituído por uma legião de Altíssimos Espíritos, só apanhou o que estes deram – e estes só deram o que era compatível com a compreensão atual do homem terreal.

Mas o homem, como já foi dito, não cessa de desenvolver a sua faculdade compreensiva e, pois, os principais fundamentos da revelação espírita, compreendidos nas obras fundamentais de Allan Kardec, tendem constantemente a se alargar e extensão e compreensão, como ele mesmo veio alargar os princípios fundamentais do ensino ou revelação messiânica – e que como este veio alargar os da revelação moisaica.

A Allan Kardec sobrevivem outros missionários da verdade eterna, que, sem destruir a obra feita, porque esta é firmada na lei e a lei é imutável, darão mais luz, para mais largo conhecimento das faces mais obscuras daquela verdade.

Eis aí que já apareceu Roustaing, o mais moderno missionário da lei, que em muitos pontos vai além de Allan Kardec, porque é inspirado como este, mas teve por missão dizer o que este não podia, em razão do atraso da Humanidade.

Não divergem no que é essencial, mas sim nos modos de compreender a verdade, porque esta, sendo absoluta, aparece-nos sob mil fases relativas – relativas ao nosso grau de adiantamento intelectual e moral, que um não pode dispensar o outro, como as asas de um pássaro não se podem dispensar, para o fim de ele elevar-se às alturas.

Roustaing confirma o que ensina Allan Kardec, porém adianta mais do que este, pela razão que já foi exposta acima.

É, pois, um livro precioso e sagrado o de Roustaing; mas o autor, não possuindo, como homem, a vantagem que faz sobressair o trabalho de Kardec, de clareza e concisão, torna-o bem pouco acessível às inteligências de certo grau para baixo.

Seria obra de meritório valor dar à sua exposição de princípios relevantíssimos a concisão e a clareza que sobram no mestre e que lhe faltam sensivelmente.

Foi esta, no fundo, a obra de Sayão.

Em ligeiros traços resumiu, sem lesar, longas exposições – e em linguagem didática clareou e pôs ao alcance de todas as inteligências o que era obscuro à maior parte.

O livro de Sayão é um resumo de Roustaing, com as vantagens de Allan Kardec.

É, portanto, correto e adiantado, sob o ponto de vista doutrinário – e é claro e conciso sob o ponto de vista do método.

Por outra: contém as idéias de Roustaing e o método incomparável de Allan Kardec.

Quem compreende a progressividade da revelação não pode recusar preito a Roustaing – e quem quiser colher, em Roustaing, os frutos preciosos de sua inspiração, muito lucrará estudando o livro (os livros) de Sayão.

É chave de ouro, que ninguém deve desprezar – e que, além de ser tal, encerra observações e práticas que, por si sós, recomendariam o hercúleo esforço do Anteu do Espiritismo no Brasil.

Ao caro irmão em crenças, a quem agradecemos, mais uma vez, a honra que nos dispensou, com tanta gentileza, diremos, em conclusão: podeis tomar os dois livros publicados pelo Dr. Sayão como normas a seguir em vosso Grupo. Neles encontrareis o que há de mais adiantado em espiritismo, colhido na seara bendita, com a alma cheia de amor, humildade e fé, as virtudes que enastram a coroa do discípulo de Jesus, votado à obra do Mestre Divino, com o coração cheio de energias e de caridade evangélica.

Descansai a mente sobre esta obra preciosa, em que transluzem os clarões da verdade, como repousou a cabeça, no seio de Jesus, o discípulo amado.

E damos graças a Deus por nos ter permitido encontrar, por entre as névoas de nossa peregrinação terrestre, o raio de luz – o farol – o santelmo que nos encaminha ao porto da salvação.

 

                                                                                                             MAX."

 

Nosso entendimento, diante da transcrição, na íntegra, é de que não existem apenas referências elogiosas a Roustaing nem qualquer disposição benevolente ou complacente do autor, e sim clara e incisiva manifestação de apoio e, mais ainda, recomendação de que as obras de Sayão, baseadas em Roustaing, fossem tomadas como normas a seguir. Alias, mais adiante, fica reconfirmado, de modo insofismável, esse entendimento quanto à posição de Bezerra ante as teses rustenistas.

O segundo livro dos Trabalhos Espíritas, com Prefácio de 1896, continha o Estudo dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, em Espírito e Verdade, baseado em Roustaing. Essa obra, compilada e publicada por Antônio Luiz Sayão,6 encerra, no final, comunicações mediúnicas recebidas no Grupo Ismael, cujos componentes estão relacionados na página 457, entre eles Adolfo Bezerra de Menezes. E o Grupo Ismael sempre estudou, em suas sessões semanais, a obra de Roustaing, isto desde a sua fundação, em 1880...

É na sua edição de 1902, corrigida e ampliada, que a referida obra toma o título de Elucidações Evangélicas à Luz da Doutrina Espírita e é nessa edição que aparece apreciação de Reformador de 14 de fevereiro de 1897, bem. assim a página de Bezerra de Menezes publicada na Gazeta de Notícias, acima reproduzida.

A obra Jesus Perante a Cristandade (1898), ditada pelo espírito Francisco Leite de Bittencourt Sampaio, é produto de seis meses de labuta mediúnica pelo Grupo referido na página 190. O primeiro nome mencionado nesse Grupo é exatamente o de Adolfo Bezerra de Menezes. Respiguemos alguns trechos da obra:

(...) "e Jesus tomou um corpo celeste" (...) (p. 27);

(...) "Jesus tomou um corpo aparentemente material" (...) (p. 32);

(...) "tênue véu de carne aparente que envolveu o Divino mestre" (...) (p. 35);

(...) "nos livros de Allan Kardec, na revelação dada a Roustaing, nos trabalhos de Sayão, Júlio César e tantos outros, encontram os bem-intencionados grande fonte, onde possam beber, à farta, os ensinamentos do Nosso Divino Mestre" (...) (p. 137);

(...) "o que em abundância prova que o corpo que o revestia era de natureza fluídica" (...) (p. 153);

(...) "restabelecendo as suas condições que sempre foram puramente fluídicas" (...) (p. 175);

(. . .) "Retomando o seu corpo fluídico" (...) (p. 177).

 

Pelo Reformador de 15 de agosto de 1898 Bezerra de Menezes, em extenso artigo, elogia essa obra, ao ditado da qual ele teve a "nímia felicidade de assistir, do princípio ao fim", e recomenda o seu estudo.

A publicação da "excelente obra Os Quatro Evangelhos, de J.-B. Roustaing" (como consta no original), anunciada pelo Reformador de 2 de novembro de 1897, foi iniciada em 15 de janeiro de 1898, observada a seqüência natural da obra.

Relembremos, por oportuno, que o presidente da FEB é, ao mesmo tempo, o diretor de Reformador e que Bezerra de Menezes foi presidente da FEB em 1889 e de 1895 a 1900 (em 1888 era secretário da revista).

Canuto Abreu, estudioso pesquisador espírita, na obra Bezerra de Menezes – Subsídios para a História do Espiritismo no Brasil até o Ano de 1895, edição FEESP, registra na página 67:

(...) "Bezerra de Menezes salientou então a dificuldade, senão impossibilidade, de acomodar místicos e científicos. Além disso, só compreendia o espiritismo como complemento do cristianismo, e era rustenista".

Outro pronunciamento inequívoco, quanto às suas convicções, temos no trecho, a seguir transcrito, de um artigo de Bezerra publicado em O País:7

"Jesus teve com efeito um corpo como o nosso pela forma; mas não pela natureza; teve um corpo fluídico, como tomam os anjos (espíritos puros) quando descem a nosso mundo.

E é assim que a Virgem não deixou de sê-lo depois do parto. sem necessidade de um milagre, coisa que Deus não pode fazer; porque, se o fizesse, transgrediria Suas próprias leis, que são eternas e imutáveis.

Só o imperfeito pode retocar sua máquina!

Ouvimos, ainda, replicarem-nos: então, Jesus não tomou sobre seus ombros os pecados do mundo, não sofreu pela Humanidade?

Dizei-nos qual é maior, o sofrimento físico ou o moral?

Se Jesus não teve corpo material para sofrer, teve os sofrimentos mais cruciantes do espírito.

E quem nos diz que seu corpo fluídico não se prestava tanto, e porventura mais do que o corpo carnal, à transmissão das sensações materiais?

O que é fora de questão é que repugna à razão o fato de um espírito divino tomar a carne dos pecadores, e que a concepção espírita de ser fluídico o corpo de Jesus não somente fala à razão e remove aquela repugnância invencível, como ainda explica, de acordo com as leis naturais, todos os fenômenos da vida do Redentor, e principalmente sua concepção no ventre puríssimo de Maria Santíssima e seu nascimento, sem que a Mãe deixasse de ser Virgem.

O que é tora de questão é que S. Paulo consagra a doutrina espírita neste ponto, quando diz: que há corpos celestes e corpos terrestres.

Que serão os corpos celestes senão os fluídicos?"

Acreditamos ter apresentado nestas linhas, aos interessados na realidade dos fatos, subsídios bastantes para dirimir quaisquer dúvidas quanto às convicções de Bezerra de Menezes, no que se refere à interpretação e entendimento do Evangelho do Senhor Jesus, conforme orientações trazidas pela Espiritualidade Superior, coligidas e organizadas por J.-B. Roustaing.

1 Vida de Jesus, de Antônio Lima, p. 17, 4ª edição FEB. (Nota de J. D. Innocêncio.)

2 "Coleção Filosófica Edicel", da Edicel. (Nota de J. D. Innocêncio.)

3 Primeiro parágrafo e primeira parte do segundo parágrafo da citada p. 19. (Nota de J. D. Innocêncio.)

4 Pesquisas por nós efetuadas, no próprio jornal, confirmam a. data de 6 de abril. (Nota de J. D. Innocêncio.)

5 A data certa é: 23 de março de 1897. (Nota de J. D. Innocêncio.)

6 Tip. Moreira Maximino, Chagas & C., rua da Quitanda nº 90, 1896. (Nota de J. D. Innocêncio.)

7 Espiritismo – Estudos Filosóficos, 3º volume, pp. 349/350, ed. FEB.

 

(Transcrito do Reformador de setembro de 1986, pp. 268 a 270.)

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